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Vou dar uma caminhada

Todos os dias, uma vez de manhã e uma vez pela tarde, eu dou uma caminhada de 15 minutos pela UFSC.

Esse é um dos hábitos mais fundamentais do meu dia de trabalho, de tal maneira que quando está chovendo e eu não consigo caminhar, eu começo a me sentir mal, como se algo estivesse errado — como se tivesse faltado água em casa e eu não pudesse tomar banho, e eu fico me sentindo sujo o dia inteiro.

Por que eu faço isso?

Não lembro como começou, mas provavelmente foi aos poucos. Em um certo dia, eu estava trabalhando em algo intelectualmente intenso, como programação, ou leitura de algum artigo, ou escrita da minha dissertação. Depois de duas horas fazendo isso, a cabeça começa a ferver, o olho fica cansado, você não consegue nem raciocinar direito. Estava um dia bonito, então pensei, “vou dar uma caminhada”. Coisa simples: pôr o fone de ouvido, uma música boa, respirar ar puro, ir até a biblioteca e voltar. Senti-me relaxado, e depois voltei ao trabalho com foco renovado.

No dia seguinte, retomei a tarefa cansativa, e resolvi repetir a experiência. No outro dia também. Depois de um tempo, vira uma rotina: depois de duas ou três horas de trabalho intenso, eu saio para minha caminhada.

Aos poucos, eu comecei a perceber mais benefícios diretos. Para começar, é uma maneira de ficar em pé, e estamos morrendo de tanto ficar sentados. Como diz o Dr. Drauzio Varella:

Se o corpo humano fosse projetado para os usos de hoje, para que pernas tão compridas e braços tão longos? Se é só para ir de um assento a outro, elas poderiam ter metade do comprimento. Se os braços servem apenas para alcançar o teclado do computador, para que antebraços? Seríamos anões de membros atrofiados, mas com um traseiro enorme, acolchoado, para nos dar conforto nas cadeiras.

Essas pausas para uma caminhada também ajuda a marcar a transição entre uma atividade e outra: eu leio, caminho, e depois escrevo. É um sinal para o cérebro que eu mudando de contexto.


E o tempo perdido? Por acaso eu não tenho prazos?

Esse tipo de crítica parte do pressuposto que, se eu não estivesse caminhando, eu estaria trabalhando com foco total, o que não é verdade. Depois de horas pondo o cérebro pra funcionar, eu preciso de um descanso, preciso relaxar. Se eu não estivesse caminhando, eu estaria olhando para a tela do computador, sem ter ideia do que escrever a seguir, de tão exausto. Ou estaria no YouTube, ou no Twitter. Certamente não poderia continuar a trabalhar no mesmo ritmo.

A nossa concentração é finita. Todo mundo adora ver filmes, mas um filme de três horas não é mais cansativo que um de uma hora e meia? Se você ler o seu livro favorito por cinco horas, no final da tarde vai estar tendo dificuldades até de focalizar na leitura.

Todos precisamos de pausa. É por isso que dormimos.

Vejo muitas pessoas atacando isso com aquela espiada no Facebook “ocasional” que dura meia hora. Eu tento fazer isso de maneira estruturada. Há algums anos, descobri a técnica Pomodoro, que estipula isso: alterne períodos de descanso e foco. Ponha um despertador e diga “na próximo meia hora vou me engajar nessa dissertação e em nada mais”. Quando o despertador tocar, levante, tome uma água, deixe o seu cérebro absorver o que você acabou de escrever. Repita. De vez em quando, faça uma pausa mais longa. É aí que faço minhas caminhadas.

Se você tem dificuldades de concentração, experimente isso. Concentre-se o máximo que puder e, quando não consiguir mais, pare, dê uma volta. Caminhe. Quando sentir que isso está funcionando, leia o livro grátis da técnica e melhore o seu dia de trabalho.

Certamente melhorou o meu.

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Como melhorei meu sono

Desde que me lembro, eu durmo mal. Demorar para dormir depois de deitar, acordar no meio da noite sem sono nenhum, acordar antes de todo mundo nos fins de semana eram situações bem comuns para mim quando criança.

O problema não é dormir pouco, dormir menos de um certo número de horas, e sim dormir menos que o necessário individualmente. E eu muitas vezes dormia pouco, mas acordava bem; tinha descansado o suficiente. Em outras, porém, eu sentia a falta de sono. Eu acordava de madrugada, sem nenhuma razão aparente, e não conseguia mais dormir, mesmo me sentindo cansado. A isso é somada uma tensão psicológica: eu me forçava a dormir, já com raiva antecipada por ter de acordar em alguma horas e estar perdendo tempo de sono, e por isso não conseguia relaxar o necessário. É como se a insônia gerasse mais insônia.

No fim do ano passado, em função provavelmente de um aumento nas minhas atividades do mestrado, essa situação começou a ficar mais crítica. De tão cansado, eu até dormia bastante, mas dormia mal. Isso começou a afetar o meu rendimento, o meu humor, a minha saúde. Por isso, dei um basta. Resolvi que deveria fazer da melhoria do meu sono um projeto ativo. Pesquisei muitos artigos, testei diferentes técnicas, e os resultados foram muito positivos. Hoje, alguns meses depois de começar esses experimentos, ainda tenho algumas noites ruins, mas posso dizer que durmo muito melhor. O sono, felizmente, não é mais um problema para mim.

O que segue é um relato de como melhorei meu sono. Não é recomendação médica; se você sente algum problema de saúde que acha que pode ser decorrente do sono, procure um médico. O que fiz foi adquirir uma série de hábitos simples, sem grandes impactos, que em conjunto contribuíram para melhorar meu sono.

Descaifenado

A maior melhora que tive no sono foi depois de abandonar um hábito em particular.

Eu parei de tomar café após o meio dia.

Estudantes tomam muito café. É um estimulante, é gostoso e é um incentivador natural de conversas. Porém, é fácil o hábito sair de controle e você, como eu, pode começar a beber café quase como água. Eu costumava tomar uma xícara de café de manhã, geralmente outra no meio da manhã, uma depois do almoço e outra no meio da tarde. É uma quantidade monstruosa de cafeína (que fica mais de 12 horas no organismo).

Troquei a quantidade pela qualidade. Tomo uma xícara (não cheia) de café de manhã (e preparado com cuidado, não um monte de água quente sobre um pouco de café solúvel). Essa xícara, tomada com calma, é um momento importante do dia; é um preparativo para o dia que começa, ajuda-me a acordar, aquece no inverno e me estimula a trabalhar concentrado nas primeiras horas da manhã, sob os efeitos benéficos da cafeína.

Há quatro meses, não tomo nada de café depois do almoço. E há quatro meses comecei a dormir muito melhor.

De minha experiência, percebi que tomar café era mais um hábito impensado, um vício, que uma necessidade. Acredite em mim: depois de um tempo, você não vai ficar mais sonolento se deixar de tomar café. Se você está constantemente com sono, alguma coisa está errada, e tomar café praticamente como um remédio só vai mascarar seu problema!

Observe o seu consumo de café. É a primeira coisa que você pode fazer se quiser dormir melhor.

Outras mudanças

Além da redução de cafeína, adotei uma série de atitudes que contribuíram para melhorar ainda mais meu sono:

  • Manter-se longe das telas — o brilho das telas de TV, celular e computador é bastante artificial, e estimula bastante o seu cérebro, que depois tem dificulade para repousar. Uma hora antes de deitar, eu procuro deixar as telas de lado e ler um livro ou uma revista. Se for preciso trabalhar no compuador, é interessante usar um programa como o f.lux, que ajusta a cor da sua tela conforme a hora, para que fique com um brilho mais ameno de noite.
  • Apagar a luz — na mesma linha do item anterior, quando você está deitado (ou algum tempo antes de disso), é bom manter as luzes do quarto acesas o mínimo possível. Quando fico de noite lendo no meu quarto, deixo só um abajur aceso (e o livro bem iluminado; é para os seus olhos descansarem, e não ficarem mais cansados). E cheguei ao ponto de tapar com fita isolante os aparelhos que ficam emitindo luz ininterruptamente, como roteadores e conversores de TV. Acho que o ideal é você, quando for dormir, poder fechar a porta, apagar a luz e não ver absolutamente nada de luz residual.
  • Comer menos — é quase um consenso e a correlação mais fácil de perceber, para mim. Se eu como (ou bebo) demais de noite, eu durmo mal.
  • Fazer exercícios — eu tive um problema no quadril e fiquei alguns meses sem fazer atividade física. Quando retornei, já senti uma melhora. Minha hipótese é que o exercício de uma maneira geral regula o corpo — de noite, o seu corpo fica mais preparado para descansar, já que ele usou bastante energia.
  • Deitar-se quando se está cansado — cama foi feito para duas coisas: dormir e a outra vou deixar para imaginação do leitor. Ler ou ver televisão na cama faz mal para a postura e acostuma mal o corpo. Antes eu deitava quando estava na “hora de dormir”, ficava lendo e esperando o sono chegar; agora, eu tento ir para a cama quando eu sinto que estou cansado. Eu até leio um pouco na cama, mas é rapidamente, apenas para pegar no sono.
  • Alongar-se — também em função do meu problema do quadril, voltei a usar um livro de alongamento que comprei há algum tempo. Faço um breve alongamento antes de dormir e logo quando acordar. É possível sentir o corpo ir relaxando e, naturalmente, isso afeta o sono de maneira positiva.
  • Tratar o bruximo — por último, um conselho: eu comentei com minha dentista que acordava com dor de cabeça frequentemente e ela, após exames, diagnosticou-me com bruxismo e me prescreveu uma placa de silicone para usar quando dormir. É caro, mas hoje é decisivo para minha qualidade de vida dormir com aquilo. Se você acordar sentindo muita tensão na cabeça, converse com seu dentista.

Para pesquisar mais

Como falei, eu comecei esse projeto pesquisando alguns artigos. Em vez de listar aqui todas as minhas fontes, vou sugerir ao leitor que visite a minha coleção de artigos sobre sono no Pinboard (marcados com a tag sleep), que vai ser atualizada sempre que achar mais algum artigo bom sobre o tema.

Você não precisa se conformar em dormir mal. Muitos dos problemas de sono decorrem de hábitos ruins (café demais, ficar vendo TV até tarde, comer muito de noite), e felizmente podemos mudar nossos hábitos, principalmente quando temos uma motivação tão grande quanto dormir melhor.

Espero que esse relato possa ajudar os leitores, e convido a todos a testarem essas práticas e deixarem um comentário dizendo o que funciona. Esse é um assunto que me interessa e é importante estar sempre consciente das atitudes que levam a um melhor sono.

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Escrevendo para o seu eu presente

No dia 1º de janeiro de 2013, eu comecei a manter um diário.

O ano de 2013 foi um ano de acontecimentos para mim. Publiquei o primeiro post deste blog; completei um quarto de século de vida; comecei a namorar a mulher que está comigo até hoje; conclui a contrução da bancada experimental para o meu mestrado, o maior projeto no qual já fiquei envolvido como engenheiro. Também foi o ano em qie comecei a manter uma lista de todos os livros que leio e filmes que vejo.

Hoje, um ano e três meses depois de ter começado a manter um diário, eu tenho 592 entradas. No começo, eu escrevia em inglês, para treino; depois, decidi que esse tipo de coisa é algo profundamente pessoal e queeu preciso me expressar na minha língua materna. Escrever algo em inglês é a maneira mais fácil de maximizar o número de pessoas que vão ler. Um diário, por outro lado, é pessoal e privado. O que está lá é para ser lido por você. Você pode até querer compartilhar algo, mas isso é algo posterior ao processo de criação.

Eu escrevo muitos tipos de texto. Desabafo nos momentos de raiva. Faço um simples registro do que fiz no dia para meu mestrado. Escrevo uma pequena resenha sobre algum filme que vi. Coloco alguma foto daquela manhã na praia com minha namorada. Registro alguma grande alegria que me ocorreu. Tento explicar para mim mesmo algum problema que tenho, em uma tentativa de achar uma solução (geralmente funciona). Escrever ali também tem sido uma excelente forma de simplesmente treinar a escrita.

Ainda assim, apesar de estar advogando o hábito de escrever num diário, eu não tenho o habito de ler minhas entradas. E isso sempre me incomodou. Quando se fala desse hábito, geralmente é para ajudar o seu “futuro eu”; supostamente, daqui a dez anos você vai ler seus registros e chorar de nostalgia. Vai mostrar para seus filhos. Afinal, para que registrar todos esses momentos, se não é para alguém ler depois?

Há algum tempo, numa noite, eu sentei e comecei a ler algumas entradas minhas do ano passado. Foi interessante, sem dúvida, mas é difícil eu compreender agora a importância de algo que aconteceu no ano passado. Da mesma maneira que não tenho paixão por olhar fotos antigas, ou de como não vejo graça em gravar um show para mostrar para outras pessoas.


Eu já comentei aqui sobre um artigo de John Dickerson chamado Note to Selfie. Meu trecho preferido desse texto é esse:

When you pause to write about something—even if it’s for Twitter or Facebook—you are engaging with it. Something within you is inspired and, at the very least, you’ve got to pick the words and context to convey meaning for your private recollection or, if you make it public, for the larger world

Só agora eu percebi o que isso tem a ver com meus hábitos de manter um diário.

Quando eu estava no segundo ano do Ensino Médio, o professor de Geografia nos instruiu a fazer anotações à medida que ele falava. Anotações sem organização nenhuma, apenas para registrar o que foi dito na aula. Antes da prova, ele sugeriu revisar essas anotações. Estudar apenas baseado no livro não é suficiente; é preciso digerir aquela informação.

O curioso é que muitas vezes eu nem precisava consultar minhas anotações. O simples ato de escrever me ajudou a absorver aquela informação. Quando eu estava anotando o que o professor falava, eu estava interagindo com aquela ideia, repetindo mentalmente para poder escrever, talvez mudando alguma palavra. E é isso o que Dickerson quer dizer, e é isso que faço com meus textos. Eu não escrevo para esquecer e depois revisar; eu escrevo para processar aquele momento, para ter uma ideia mais clara do que eu estou pensando — e isso tem como consequência que aquele fato fica gravado. Eu me lembro de muita coisa que escrevi, mesmo sem consultar.

Para manter um diário, eu uso o Day One (e já até escrevi uma resenha desse app), mas isso é um mero detalhe. Se eu tiver de ou quiser abandonar o programa, vou perder tudo aquilo que já escrevi (embora o app tenha opções de exportar o conteúdo); entretanto, isso não importa. E esse é o meu ponto: eu não tenho interesse em revisitar o passado. Eu não escrevo para o meu “eu futuro”, e sim para o meu “eu presente”.

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Os podcasts que acompanho e por quê

Há algum tempo, publiquei aqui a lista de alguns blogs que acompanho
(digo alguns porque vivo acrescentando novos e deixando de acompanhar
uns). Vou agora fazer o mesmo com podcasts.

Foi só em 2013 que passei a escutar podcasts, depois de muito ouvir
falar no assunto. Antes disso, eu tinha dois problemas com a ideia: eu
não entendia muito bem o propósito, e não sabia como poderia aquirir o
hábito de escutar. Essa segunda parte eu peguei fácil: eu escuto
podcasts a cada trajeto de carro, no ônibus para a universidade,
caminhando. Para fazer exercícios, eu ainda prefiro música, mas de
resto, se estou me deslocando para alguns lugar, provavelmente estou
escutando algum podcast no iPhone.

Se algum leitor não está familiarizado com isso, podcasts são programas
de áudio, geralmente sobre um tema específico, lançados com uma certa
periodicidade. Pense num programa de rádio, mas transmitido pela
internet e que pode ser guardado pelos ouvintes para ouvir quando
quiser.

Episódios de podcasts são arquivos de áudio (geralmente em mp3), então
pode ser ouvidos em qualquer dispositivo, mas smartphones geralmente tem
programas dedicados a isso, que acompanham novos episódios, tem opções
de compartilhamento, e exibem o que se chama de notas do show, quando
as informações do show são resumidos em (em texto), geralmente com liks
para mais informação.
;bt
Quanto ao primeiro problema que mencionei, de compreender essa mídia,
finalmente posso dizer que agora entendo porque eles são atrativos. O
formato tradicional é um grupo de pessoas (geralmente de 2 a 4)
conversando sobre um tema, embora existam alguns shows individuais; é
essa conversa (ou monólogo) que faz com que os podcasts sejam
agradáveis de ouvir. A linguagem escrita, que eu amo, têm inúmeras
qualidades, mas é mais artificial, com certeza. Ouvir alguém falar sobre
o assunto soa mais natural — é uma versão apenas em áudio de uma
palestra, ou de um talk-show.

Em decorrência disso, podcasts podem se aprofundar no tempo sem que isso
prejudique a nossa relação com o programa. Ler um artigo por uma hora
cansa, mesmo que seja em intervalos, mas escutar 30 min de podcast no
trajeto de ida a algum lugar e mais 30 minutos na volta é agradável.

E, claro, podcasts não demandam nossa atenção como a leitura. Eu não
andaria a pé lendo alguma coisa; com o fone de ouvido, eu posso ouvir
algum episódio, presto atenção por onde ando, e, num volume razoável,
ainda escuto o necessário da rua.

A lista

Esses são os podcasts que acompanho:

  • Developing Perspective – um podcast sobre desenvolvimento de
    aplicativos para OS X e iOS. Acompanho porque, além de aprender um
    pouquinho sobre o tema, o apresentador David Smith é o criador
    do serviço que uso para blogs e podcasts, Feed Wrangler (mais
    sobre isso num post). É uma maneira de acompanhar o desenvolvimento
    desse serviço que uso muito.
  • Mac Power Users – o melhor podcast sobre tecnologia Apple.
    David Sparks e Katie Floyd discuyem um assunto específico
    ligado a Macs, iPhones e iPads: email, backup, gerenciamento de
    fotos. Às vezes trazem pessoas para ensinar algumas coisas e para
    mostrar como elas usam os seus dispositivos. Sparks é autor do
    Macsparky, um dos blogs que acompanho.
  • Palavra Chave – Fellipe Salgado, psicólogo, escolhe um
    assunto da cultura pop e o analisa sob a ótica da psicologia (e até
    já comentei um episódio). Pena que o Fellipe já me disse que
    anda sem tempo para fazer mais, pois é sempre bom para mim, como
    engenheiro, aprender coisas novas assim e diferentes da minha área.
  • Systematic – Atualmente, o meu podcast preferido. Brett
    Tersptra
    traz um convidado a cada semana, discutindo tecnologia e
    criatividade, fugindo dos podcasts usuais ligados à Apple (já
    discutiu nutrição, dramaturgia, linguística entre outros assuntos).
    Brett também tem um blog muito bom.
  • Technical Difficulties – um podcast de tecnologia de Gabe
    Weatherhead
    e Erik Hess, com foco na solução de problemas.
    Os assuntos são sempre muito práticos, como por exemplo “como montar
    uma rede Wi-Fi” ou “a melhor maneira de fazer video-conferência”;
    bem de acordo com a minha filosofia, portanto. Frequentemente trazem
    convidados que têm mais experiência no tema da semana. As notas de
    show são incrivelmente detalhadas e servem como referência para o
    problema em questão. Gabe publica o Macdrifter, outro blog que
    sigo
    .
  • iPhone Hoje – Um outro podcast de Alexandre Costa sobre
    Apple. Anda pouco atualizado, e supostamente o seu sucessor é o
    iTechHoje.
  • iTechHoje – já foi o meu podcast favorito, mas anda com
    alguns problemas. Alexandre Costa, Vladimir Campos e Otávio
    Cordeiro
    conversam sobre um tema Apple (mais ou menos como a
    versão brasileira do Mac Power Users, mas não tão aprofundado). Os
    apresentadores são bons (e engraçados), e por isso que ainda
    acompanho, mas venho notado uma falta de cuidado na pauta (as
    conversas estão livres demais, sem tema definido), e uma frequência
    irregular (o que até entendo, já que os apresentadores não ganham
    nada com o show). Espero sinceramente que o podcast volte à ativa e
    que as pautas sejam mais bem produzidas. Vale dizer que Alexandre
    está com outros podcasts bons (alguns dos quais acompanho e já citei
    nessa lista) e Vladimir, embaixador de viagens do Evernote,
    produz o excelente Diário de um Elefante, que não acompanho mais
    por não usar mais o Evernote

Como usual, se o leitor quiser indicar algum podcast bom, fique à
vontade! Quero sempre descobrir conteúdo bom.

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Gavetas de meias e a Segunda Lei da Termodinâmica

O leitor já deve ter percebido que as meias na sua gaveta parecem ter
vida própria. Você dedica um dia para organizá-las, juntar os pares,
separar por cores, e uma semana depois você já começa a achar uma meia
sem seu par. Como isso é possível?

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Simplifique sua vida digital

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu
narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações,
seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Na nossa caminhada para simplificar nossa vida, chegamos a uma etapa que é
crítica para mim e para todos que tendem a se viciar em tecnologia.
Temos que simplificar nossa vida digital.

No manifesto, Leo se concentra em dois
tópicos da área de tecnologia: usar a nuvem, para evitar os problemas de
sincronizar múltiplos dispositivos e poupar espaço no computador (ele se
refere principalmente ao Google Docs), e simplificar o número de coisas
que você guarda ou acessa no computador – menos fotos, menos emails,
menos arquivos.

Aqui vou tomar um ponto de vista mais direcionado: quero simplificar o
meu uso de computadores e outros gadgets.

É normal usar um computador (claro, se a tarefa pede isso), mas há
alguns problemas. É normal querer um smartphone por achar que ele vai
acrescentar, mas não é normal se desesperar se o seu smartphone estraga.
É normal gastar dinheiro em algum app que você vai usar, é um problema
gastar dinheiro demais comprando aplicativos só porque todo mundo usa. É
normal você bater uma foto do encontro com os amigos e compartilhar no
Instagram, mas registrar cada garfada (e a cor do seu esmalte) é
ridículo.

Sempre que você gasta tempo demais com tecnologia em detrimento das suas
prioridades, é preciso simplificar.

Para mim, simplificar a vida digital tem três etapas.

Simplifique os seus dispositivos

Algumas pessoas têm um notebook, um computador de mesa, um smatphone, um
tablet, um e-reader, um tocador de mp3 e sabe-se lá o que mais.

Em primeiro lugar, veja se você não pode reduzir esse número. O
propósito de se ter um dispositivo poderosos (como o iPhone) é ele poder
executar várias funções ao menos tempo. Ter menos dispositivos significa
menos gastos com manutenção, menos chance de roubo e ter de carregar
menos coisas.

Existe um limite, porém. Dependendo das suas necessidades, ter um
dispositivo dedicado pode ser um grande ganho de experiência. Por
exemplo, um tablet pode servir para ler livros digitais, mas um e-reader
especializado (como o Kindle ou o Kobo) é mais leve, tem bateria muito
mais durável, não induz à distração e tem tela menos cansativa aos
olhos. Repito: depende da sua frequência de uso. Se você praticamente só
usa o tablet para ler livros (no app do Kindle ou no iBooks, por
exemplo), pense em vender e comprar um leitor digital — muito
provavelmente você vai ganhar dinheiro.

Outro ponto é algo sobre o qual já falei: use o dispositivo certo
para a coisa certa. Não tente ter todos os aplicativos no seu
computador, no tablet e no seu smartphone. Isso é caro e inútil. Observe
o seu uso e instale aquilo que é pertinente.

E não se esqueça: talvez você não precise de um smartphone, muito menos
de uma tela Retina
.

Simplifique os seus programas

Isso é uma extensão da seção anterior. Você não precisa ter os melhores
e mais caros aplicativos, e nem os que todo mundo usa.

Um exemplo prático e pessoal: Evernote. É um bom serviço com bons
aplicativos, mas simplesmente não se adapta a mim. Para os leigos,
Evernote é serviço de armazenamento de notas, e suporta texto, PDFs,
fotos, websites. É um gerenciador de informações universal, mas a minha
filosofia é usar apps que fazem a sua tarefa bem feita. Guardo minhas
notas de texto, meus PDFS e minhas fotos em pastas sincronizadas pelo
Dropbox. Já falei do 1Password, que gerencia minhas informações
mais sensíveis. Os sites e tudo que acho de interessante na Web estão no
Pinboard.

Eu poderia usar o Evernote porque muitos usam (e quem acompanha blogs
tech sabe o quanto ele é popular na blogosfera e no Twitter). Mas não é
bom para mim.

Outra coisa que faço é desinstalar programas sem remorso. Se eu
realmente precisar deles, posso instalar de novo, mas até lá eles não
ficam ocupando memória e espaço na tela.

Uma dica de ouro que roubei do Brett Terspstra e do Michael
Schechter
foi criar um arquivo de texto contendo todo as funções que
realizo no computador, seguido do programa que uso, e sugiro fortemente
que o leitor faça isso. Sente e defina o que você faz em um computador:
organiza suas fotos, vê filmes, escreve, processa emails ou qualquqer
tarefa especializada. Para cada item, faça uma pesquisa breve sobre as
opções de apps e serviços, decida por uma e aprenda a usá-la — e não
fique mudando. Revisite essa nota mensalmente, para ter um documento
atualizado de auto-avaliação.

Simplifique seus arquivos

É fácil inundar nosso computador com arquivos em uma estrutura bagunçada
e depois perder tempo demais tentando encontrar informação.

Novamente, não existe receita para isso, e você deve ver a estrutura que
mais se adapta a você. Minha sugestão: comece com pastas abrangentes:
documentos, fotos, músicas, videos. A partir daí, vá especializando,
conforme seu uso. Eu, dentro da pasta de documentos, tenho uma pasta
para rascunhos de textos para FabioFortkamp.com, um pasta para a
faculdade, uma para meu mestrado… dentro desta, por exemplo, tenho uma
para os desenhos, outra para a dissertação, uma para manuais dos
equipamentos. Vá adaptando aos poucos.

O importante, enfatizo, é não perder tempo procurando. Se a sua
estrutura não se adapta ao seu pensamento, mude.

Como mencionei, a dica do Leo é para usar ferramentar online, como o
Google Docs, porque isso o permite trabalhar de qualquer lugar e não se
preocupar com organização de arquivos. Como abomino ter de depender do
Google, acho que com uma estrutura bem feita e com serviços como o
Dropbox você pode alcançar esses objetivos.

Em resumo

Computadores são ferramentas poderosas, mas não podem roubar atenção das
outras coisas. E, se você usar o computador como uma ferramenta de
trabalho, não deve perder tempo com coisas inúteis, para poder se
concentrar em fazer algo.

Simplificar a minha vida digital é uma tarefa contínua. As dicas que dei
aqui são as que me permitem fazer um uso mais racional da tecnologia,
usando os programas certos, organizando a informação para quando eu
preciso, evitar preocupações decorrentes disso. Espero que elas possam
ajudar o leitor também.

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Os blogs que acompanho e por quê

Eu gosto muito de ler blogs; gosto de ler a opinião individual de alguém
sobre algum tema interessante. É uma mídia antiga (relativamente), mas
ainda relevante. Uma ideia central, desenvolvida, e maior que alguns
caracteres é geralmente melhor apresentada na forma de um post.

A seguir, eu listo os blogs que estão no meu leitor de RSS. Eu uso o
Feed Wrangler para isso, e é excelente. Pretendo escrever um texto
no futuro sobre esse serviço, mas o leitor pode usar qualquer serviço
(só não o Feedly).

E se algum dos meus leitores gosta de blogs, mas não sabe o que é RSS,
avisem-me que posso escrever um texto sobre o assunto. É a melhor forma
de acompanhar blogs, sem ter de ficar visitando a página em busca de
atualizações.

  1. And now it’s all this — Dr. Drang é o pseudônimo de um
    engenheiro americano, que faz uma mistura muito interessante de
    artigos sobre apps, engenharia, ciência e programação. O estilo é
    muito agradável de ler e nos posts mais técnicos dá para aprender
    muita coisa boa.
  2. BitQuill — Sobre tecnologia. Eu acompanho mais pelas
    entrevistas muito interessantes com blogueiros, desenvolvedores,
    podcasters. Também fala de resenhas de apps (num nível mais
    prático, como eu gosto), algumas dicas Apple e muitos artigos
    interessantes sobre filmes (outra das paixões do autor, Devir
    Kahan).
  3. BR-Mac.org — O melhor blog sobre Apple no Brasil. Os
    textos são muito práticos, sem nada de hype. E, não que isso faça
    diferença, o autor Augusto Campos é meu conterrâneo.
  4. BrettTerpstra.com — Terpstra é um programador americano
    criador do Marked, apresentador do ótimo podcast
    Systematic, e tem vários projetos para customizar o seu Mac.
    Blog técnico (sem dúvida é para aqueles que querem usar o seu Mac de
    maneira mais nerd) mas excelente.
  5. Chambers Daily — Bradley Chambers é autor de um ótimo
    ebook sobre organização de fotos, e traz dicas boas e textos
    curtos sobre tecnologia. A sua posição como diretor de TI na área de
    educação oferece um ponto de vista interessante.
  6. Efetividade — Do mesmo autor do BR-Mac.org, uma
    referência de produtividade do Brasil. Nada de muito tech; o blog
    fala de princípios básicos, que você pode implementar com a
    tecnologia que quiser. Traz dicas que foram implementadas na
    prática.
  7. MacDrifter — Outro blog técnico sobre Apple (nos moldes de
    And now it’s all this e BrettTerpstra.com). Uma boa fonte de
    aprendizado para usar melhor o seu Mac, e com muitos links para
    outros textos interessantes. Escrito por Gabe Weatherhead (de outro
    podcast que adoro, Technical Difficulties).
  8. MacSparky — David Sparks muitas vezes entra no hype de
    apps e gadgets, mas tem muitos textos interessantes sobre o mundo
    Apple. Também é autor de livros ótimos e apresenta o Mac Power
    Users
    .
  9. MattGemmell.com — Ensaios mais aprofundados sobre temas
    gerais de tecnologia. Do tipo “leia para refletir”.
  10. Productivityist — Mike Vardy escreve sobre produtividade,
    com textos curtos mas bem valiosos sobre usar melhor o tempo. Gosto
    do fato de ele citar apps como exemplos, e não do tipo você tem de
    usar isso
    .
  11. Shawn Blanc — Shawn Blanc escreve (bem) sobre Apple, e
    traz links muito interessantes. Se eu tivesse de escolher apenas um
    blog sobre Mac e iPhones, seria esse, por ser o mais abrangente.
  12. The Brooks Review — Ben Brooks fala de tecnologia de
    maneira crítica, com muitas e muitas críticas ao Google, Twitter,
    Facebook, NSA etc.
  13. Unretrofied — Chris Gonzalez apresenta algumas entrevistas
    interessantes sobre tecnologia e criatividade, além de algumas
    resenhas muito úteis. Gosto porque ele foge dos programas óbvios e
    explora casos de uso.
  14. Vida Organizada — Constantemente atualizado pela Thais
    Godinho. Muitos posts sobre produtividade e organização e algumas
    reflexões interessantes. É sempre uma das melhores leituras da
    semana.
  15. Zen Habits — O blog de Leo Babauta sobre minimalismo e
    simplicidade de onde tirei a série Simplifique sua vida.
    Infelizmente, alguns textos ultimamente estão sendo bem repetitivos,
    mas ainda assim vale acompanhar (à espera daquele texto profundo e
    que nos faz pensar).

Como o leitor pode ver, muitos blogs em inglês, e sobre tecnologia;
simplesmente não consigo encontrar muitos blogs brasileiros sobre
tecnologia e produtividade, os temas que mais me interessam.

Ao mesmo tempo, estou tentando variar os assuntos que leio, para evitar
o vício em tecnologia (e lembrar das coisas que importam).

Assim, se o leitor souber de algum blog interessante, compartilhe
comigo! Sempre estou em busca de aprender coisas novas e, acima de tudo,
ler um texto de boa qualidade.

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Simplifique sua vida: armários e gavetas

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu
narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações,
seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

No último passo, falamos de simplificar nossos ambientes, limpando
principalmente nossas mesas, tirando distrações da nossa frente e
criando um ambiente mais limpo e propício ao trabalho.

Muitas das coisas que estavam ali foram parar nos seus armários e
gavetas, se você seguiu a minha sugestão de primariamente limpar as
superfícies visíveis. Estão num lugar acessível ainda, mas não
precisam ser acessados com frequência. Os seus armários então ficaram
mais cheios, principalmente se você já tinha bastante coisa guardada
neles. O próximo passo natural então é simplificá-los.

Na realidade estamos fazendo uma limpeza em dois passos. Primeiramente,
você fez o mais urgente, que é simplesmente tirar a tralha da sua vista;
isso deve ter facilitado o seu trabalho enormemente. Depois, com calma,
você precisa vasculhar o que sobrou e fazer uma seleção nesses itens,
precisa decidir o que fica guardado e onde. E para mim a regra mágica
que funciona é simples: se você acha que vai precisar, e não tem peso
legal, você não vai precisar
. Aquela camiseta de cor esquisita que
você acha que um dia, quando você comprar uma calça nova, vai cair bem?
Não vai. Aquela caixa com CDs de jogos de computador que você não joga
há dez anos mas continua guardando para o caso de uma vontade súbita de
matar a saudade? Você nunca vai jogar novamente. Aquele chaveiro feio
que você ganhou e tem pena de jogar fora para não magoar alguém? Essa
pessoa não precisa saber.

Documentos importantes, contratos, notas fiscais de itens caros, claro,
devem ser guardados.

Por que fazer isso? Simples: quando você precisar de algo realmente
importante, vai demorar mais tempo para encontrar. Encontrar aquele
sapato preferido no meio de um monte de tênis velhos demora. Encontrar
aquele livro que você relê quase todo ano no meio de muitos outros
que você sabe que nunca vai reler toma tempo. E, quando você gasta tempo
demais fazendo algo que não é sua prioridade, você está complicando
a sua vida, e nosso objetivo aqui é fazer o contrário.

Um outro aspecto importante é o que você pode fazer com todos esses
pertences. Pessoalmente, eu nunca jogo fora minhas roupas — eu dôo tudo.
Um casaco que está pequeno demais para mim pode aquecer alguém. Uma
camiseta de uma cor que eu não gosto pode fazer a alegria de outra
pessoa. E, infelizmente, roupas que eu não uso por estarem velhas podem
simplesmente ser a única opção de muita gente.

Uma etapa adicional de organização (e simplificação) é ter espaços bem
definidos para cada tipo de coisa (novamente, para minimizar o tempo de
procura). Quando você quiser aquele mouse antigo, deve saber qual a
gaveta onde está. Se quiser um livro da época de faculdade para
emprestar a alguém, deve saber em qual estante ele fica.

Esse é um passo que demorou um certo tempo para eu completar, mas devo
dizer que vale a pena. Na verdade, a nossa organização nunca vai ser
perfeita, por isso faça como eu e não se estresse: vá fazendo aos
poucos, quando não tiver nada mais importante para fazer.

Uma última dica: o Vida Organizada publicou um texto excelente com
regras básicas de organização, para você se inspirar e criar o próprio
sistema. Recomendo.

Em ação:

  • Percorra todas as suas coisas e dê um outro destino a tudo que não
    for absolutamente necessário
  • Faça uma lista das suas coisas que sobraram e dê destino certo:
    armários para roupas, uma gaveta para acessórios de informática,
    outra para documentos; um pedaço da estante para livros técnicos,
    outro para romances
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O jeito HBO, o jeito Warner

Stephen King escreveu que a boa ficção começa com “e se…”. Por
exemplo, o seu romance A Hora do Vampiro é a resposta à pergunta: “e se
todos os habitantes de uma cidade se transformassem em vampiros?”. Um
trabalho mais recente, Sob a redoma, trata do tema: “e se uma cidade
fosse aprisionada por um campo de força, do qual ninguém entra e ninguém
sai?”.

Há uma razão para “e se…” ser uma técnica tão boa. “E se…” tenta
evitar cenários óbvios. “E se…” chama a atenção do leitor, que fica
preso ao livro, o que, na minha opinião, deveria ser o objetivo de todo
romancista. “E se…” cria automaticamente um mundo novo, para o qual
podemos escapar como leitores.


A HBO está com uma nova série, O Negócio. A ideia é bastante
interessante: e se um grupo de prostitutas resolvesse profissionalizar o
meio? Criando a sua própria empresa (sem precisar de um cafetão),
bolando um plano de marketing, oferencedo planos de fidelização aos
clientes?

Histórias de prostitutas existem aos montes. Histórias dramáticas, onde
a prostituição era o cúmulo da humilhação e a única maneira de se
sustentar, e histórias politicamente incorretas, onde as meninas fogem
de casa para viverem uma vida de liberdade, gozarem e ainda ganharem
muito dinheiro com isso.

O Negócio oferece uma visão diferente. A série glamouriza a profissão,
ao mesmo tempo em que mostra os anseios de uma das garotas de programa
para casar e sair dessa vida. Fala da prostituta mais experiente e
pragmática, que quer apenas ganhar o máximo de dinheiro possível e da
mais nova, que não tem nem onde morar por ficar pulando de hotel em
hotel.

Vamos combinar, empresa de prostituição com cartão de fidelidade? Você
pode questionar a moral disso, mas há de concordar que é uma grande
ideia de ficção.

Eu só assisti a alguns episódios, e uma coisa me chama a atenção: a
série é muito bem feita. O roteiro é coerente, as interpretações das
atrizes são boas, as cenas de sexo são poucas e não vulgares, os
diálogos são inteligentes.

Um detalhe: O Negócio é uma série brasileira.


Há algum tempo, a HBO estava com outra série brasileira no ar, F.D.P..
De novo: e se fizéssemos uma série de futebol centrada no juiz? Ora,
isso é brilhante. Histórias de futebol todos conhecem, mas como é a
rotina de um juiz? Qual a sua realidade financeira? Como ele encara a
própria profissão? A série acertou o ponto ao tratar dos dilemas morais:
uma das tramas é o juiz, a ponto de perder a guarda do filho, receber
uma proposta de propina para ajudar o time de coração do filho. O que
fazer?

Sem falar no nome, absolutamente sensacional. Fazer uma série de
televisão sobre um juiz de futebol, e ter a sutileza de chamar de um
nome irônico como F.D.P. é bom demais.

Eu vi a primeira temporada toda, com muita satisfação. Era
entretenimento puro, com também excelentes atores e um roteiro bem
construído.


A Warner também está com uma série nova, chamada de Vida de
Estagiário
. Quando você ouve uma série com esse nome, o óbvio pula na
sua frente: deve ser a história de um estagiário sofredor, tratado como
escravo, que sonha em ser efetivado. O que pode ser feito de criativo
com isso?

Nada.

Eu assisti a dois começos de episódio, mas não consegui ver mais que
isso. Vida de Estagiário é uma das produções mais mal feitas que já
vi. É um estilo de humor “besteirol”, onde o público ri dos tombos do
protagonista. As piadas não têm graça nenhuma. As situações são
esdrúxulas. O cenário parece de brinquedo.

E também é uma série brasileira.


Há algum tempo, o governo aprovou uma lei obrigando canais de TV paga a
exibirem conteúdo nacional
. Existem muitos argumentos contra e muitos
a favor, mas não importa. A lei existe e deve ser cumprida.

A HBO, “forçada” a fazer uma série nacional, fez o jeito profissional.
Exibiu duas séries excelentes, provando que os talentos do Brasil na
dramaturgia não são poucos.

A Warner, na mesma situação, criou um programa esdrúxulo, sem graça,
quase que mostrando (na minha visão como espectador) a sua revolta com a
lei.

E eu fico surpreso com o quanto isso se relaciona à nossa vida pessoal.

Muitas vezes, ficamos com dificuldade na vida. Odiamos o nosso emprego,
odiamos o nosso apartamento, odiamos a nossa família. E como reagimos a
isso?

Fazemos do jeito HBO, usando as dificuldades como oportunidade para
melhoria? Se temos um chefe desagradável, descobrimos o que fazer para
conquistá-lo? Se não gostamos da nossa cidade, encontramos aqueles
lugares secretos, que poucas pessoas conhecem, para termos noites mais
agradáveis? Se temos de ler aquele livro chato para a escola,
pesquisamos algum filme baseado em obras do mesmo autor, só para
entender o seu universo? Se alguém bate no nosso carro, será que não
podemos usar isso para reavaliar a necessidade de usar o carro?

Ou fazemos do jeito Warner, abraçando a mediocridade? Já que estamos num
emprego ruim, vamos fazer o possível para ser despedidos e ganhar a
indenização? Se não gostamos da secretária, vamos infernizar a sua vida
ao máximo para ver se ela sai primeiro? Se ficamos doente, vamos
reclamar de tudo, dos médicos mercenários e do sistema de saúde, e da
vida injusta?

Tudo isso é uma escolha nossa. Podemos agir para melhorar ou podemos
sentar e reclamar. Podemos guiar nossa vida pelo jeito HBO ou pelo jeito
Warner.

Quem você quer ser?

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Você não precisa de uma tela Retina

A minha namorada tem um celular Nokia antigo, daqueles de flip ainda
(lembram?). Não tem nenhum recurso a não ser os básicos: telefone,
mensagens, alarmes, uns joguinhos.

Os mais jovens dizem que o fato de ela ter um telefone velho assim “é
paia demais”, ou algo assim, não estou por dentro das gírias novas.
Apesar das críticas, é com esse celular que ela fala quase todo dia com
a mãe dela, a 800 km daqui. É com esse celular que ela se comunica com
os sobrinhos e irmãos que moram longe. É com esse celular que ela troca
mensagens comigo.

Ela não está nem aí para o que está acontecendo no Twitter (e eu,
namorado ruim que sou, continuo checando-o mesmo quando estou com ela).
Ela não ri das fotos com legendas engraçadas no Instagram. Ela consulta
o Facebook com calma, no computador dela. Ela não precisa consultar o
email quando está na fila do mercado.

Ela é formada numa universidade, trabalha, já morou em algumas cidades
diferentes, vai a festas, tem amigos, tem um namorado. Tudo isso sem um
smartphone. E ela diz que só vai comprar um outro celular quando este
estragar. Considerando que estamos falando de um Nokia antigo, isso quer
dizer nunca.

Namorá-la é com certeza a melhor coisa que me aconteceu nesse ano, e,
apesar de naturalmente não ser só por causa disso, ela é um lembrete
ativo do que queremos dizer quando precisamos de algo.

Você é um animal. Você precisa de água e comida. Precisa dormir. Precisa
fazer exercício. Precisa urinar e defecar.

Você também é um ser humano. Precisa ter cultura, sentir-se pertencente
a algo, relacionar-se com alguém (seja esse alguém Deus), integrar-se na
sociedade, estimular-se intelectualmente, descobrir a sua vocação.

O que você não precisa é de uma tela Retina.


Eu me formei em engenharia, então para mim a tecnologia é um meio de
vida. A minha profissão é criar tecnologia, então o leitor pode ter
certeza que não quero dizer que temos que abandonar toda tecnologia. O
que prego é que temos de ter uma atidude racional em relação a ela.

Meu tema de mestrado é a refrigeração, a ciência de produzir frio. Uma
geladeira é necessária? Depende. A humanidade viveu muito mais tempo sem
refrigeradores do que com eles. Mas eles certamente ajudam. Com uma
geladeira você precisa ir menos vezes ao mercado porque os alimentos
duram mais. Você se refresca com a cerveja no verão. Você pode preparar
a comida na véspera da festa para poder aproveitar com seus amigos. Tudo
isso é ótimo. Tempo e dinheiro poupado com a ajuda de uma geladeira
podem ser usados para outras coisas.

Tudo bem, os benefícios de ter um refrigerador são tantos que você
decide que precisa de um. Mas você não precisa de uma geladeira de
inox com duas portas. Você quer uma e pode comprar. Ótimo.

Da mesma forma, a minha namorada, por decisão própria, resolveu que não
precisa de um iPhone ou um Galaxy S4. Ela precisa manter contato com as
pessoas importantes na vida dela (eu humildemente arrisco me incluir
nesse grupo), e o aparelho que ela tem em mãos cumpre essas funções
perfeitamente. A tecnologia, nesse caso, está cumprindo o seu papel, de
resolver um problema real.


Nos últimos tempos, eu ando me cansando do lado mais podre do mundo
Apple. Desde o lançamento dos últimos modelo de iPad, só choveram
resenhas das mais aburdas, de como ele é mágico, de como dá vontade de
chorar de tão leve que ele é, de como ele se integra a sua mão. Não há
um dia que eu não veja um artigo comparando o iPad Mini ao iPad Air. E
podcasters e blogueiros famosos estão dizendo que vão comprar um iPad
Mini porque finalmente ele vai ter tela Retina e, afinal, não dá para
trabalhar sem uma tela Retina.

Eu tenho um MacBook Pro, modelo 2011. Ele não tem tela Retina. O
computador, além de lindo e bem construído, tem mais memória,
processador e armazenamento do que eu preciso, e o sistema operacional é
ótimo, rápido e robusto. E, mesmo sem a tela Retina, eu estou
trabalhando nele todo dia! Eu sou ou não sou o máximo?

E o mais importante de tudo: eu comprei um MacBook não porque eu
precisava dele, mas porque eu queria.


A Luana Oliveira escreveu um ótimo artigo comparando a
tecnologia à religião:

Quando se chega ao ponto de tentar convencer outras pessoas de que o
produto X é melhor, de que os aplicativos ABC são melhores, quando
gera inimizades porque determinada pessoa prefere outra plataforma, o
que isso te lembra? Pra mim isso se assemelha muito à religião.
Normalmente os discípulos ficam cegos para outras possibilidades e só
têm olhos e ouvidos para aquela religião (ou marca, no caso da
tecnologia). Tudo o que não pertence a essa condição é praticamente
demonizado.

Ela está certa. Quando se faz parte do mundo de usuários Apple, e se
quer manter-se informado, é impossível não ser bombardeado com artigos
fanáticos. O mais interessante de tudo é que esse culto se torna tão
arraigado que discutimos apps pelos apps em si, e não pelo que eles
fazem. Estamos rodando testes de velocidade em um iPad sem pensar no que
ele pode ser usado.

Há algum tempo, li um artigo do Michael Shechter que me marcou
profundamente. Ele se referia a um episódio do podcast Enough em que
Patrick Rhone falava que deveríamos pensar nas ações, e não em
apps:

When trying to figure out how to improve the way you work, Patrick is
right. You shouldn’t start with the app. It is indeed about the action
you want to take, but—at least for me—a big part of that process is
taking a step back in order to find the right tool or tactic to help
me to accomplish a necessary actions. Ultimately it’s about creating
processes that ensure those necessary actions happen.

Precisamos urgentemente parar de delirar a cada vez que a Apple (ou
outra empresa) lança um produto novo e começar a consumir tecnologia de
maneira inteligente. O que estamos fazendo com esses aparelhos
excelentes que temos à disposição


Há algum tempo, eu falei que ia fazer mais resenhas de apps. Bem, eu
mudei de ideia.

Eu quero discutir tecnologia, e a nossa relação com ela. Gosto desse
tópico (tanto que, repito, escolhi uma carreira que estuda e desenvolve
tecnologia). Mas quero falar de assuntos relacionados: ciência,
produtividade, criatividade, desenvolvimento pessoal. E quero fazer
artigos longos, opinativos.

Apps são um meio, e podem servir de exemplo para alguma ideia, mas não
quero escrever um testo centrado num aplicativo. Assim, não vai mais
haver resenhas de apps. As que escrevi foram um teste, e foram
interessantes. O que eu não quero é me juntar ao culto Apple; eu sou
apenas um usuário, e não quero converter ninguém. Quero que as pessoas
usem o que for melhor para elas.

Para mim, o ecossistema Apple está funcionando bem. Todos os meus
aparelhos são de dois anos atrás e eles estão ótimos. Eu não preciso
de nada melhor. Eventualmente, eu vou trocar de aparelho. E talvez eu
compre um com tela Retina. Ou talvez não. Talvez eu volte pro Linux.
Talvez eu resolva experimentar um Android.

Eu não quero ser um fanático. Quero apenas fazer o meu trabalho,
continuar escrevendo, continuar me comunicando. E quero passar mais
tempo com minha namorada e menos tempo conferindo o Twitter.

Porque isso é o que importa.