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Mais razões para se registrar o que se aprendeu

Becky Kane, escrevendo para o blog do Todoist, defende o uso de um diário para se registrar o que se aprende:

A chave para aprender é parar de consumir informações de forma passiva e começar a se envolver ativamente com as ideias. Pense num estudante que anota exatamente o que o professor fala. Agora compare com um estudante que faz um resumo usando as próprias palavras e depois liga as informações aos conceitos que aprendeu antes. Quem você acha que aprenderá mais?

Ultimamente tenho me deparado com muitas ideias (confira o último post) explorando a relação entre aprendizado e produtividade, algo em que acho que posso melhorar.

Já escrevi alguns textos sobre o hábito de se manter o diário. Desde que parei de usar os dispositivos da Apple, parei de usar o app Day One, o que por consequência me fez parar de manter esse hábito. No Android, tenho experimentado o app Journey, que tem me agradado bastante; espero que todos esses textos de que falo aqui me animem a escrever mais.

O que eu aprendi em 2016

Um dos meus posts preferidos entre os recentes da Thais Godinho, que tem me inspirado nas últimas semanas a usar mais o diário para reflexões de final de ano (e pergunte à minha noiva, eu ando bastante reflexivo nesses dias). Esse texto também me faz traçar conexões com duas ideias:

  • Esse vídeo do CGP Grey em que ele dá a sua versão do segredo de uma vida bem-sucedida: incorporar revisões constantes e corrigir o que não está dando certo na sua vida
  • Um método de gestão que temos testado no nosso grupo de pesquisa, onde as nossas reuniões semanais e mensais são todas estruturadas em torno do que aprendemos em uma reunião e outra. A sua implementação tem tido alguns problemas, mas vamos passar por um treinamento formal em breve, depois do que pretendo escrever um pouco mais a respeito. O que eu posso atestar agora é que relatar o que se aprendeu tem tornado mais visível os avanços da nossa equipe.

Escrevendo para o seu eu presente

No dia 1º de janeiro de 2013, eu comecei a manter um diário.

O ano de 2013 foi um ano de acontecimentos para mim. Publiquei o primeiro post deste blog; completei um quarto de século de vida; comecei a namorar a mulher que está comigo até hoje; conclui a contrução da bancada experimental para o meu mestrado, o maior projeto no qual já fiquei envolvido como engenheiro. Também foi o ano em qie comecei a manter uma lista de todos os livros que leio e filmes que vejo.

Hoje, um ano e três meses depois de ter começado a manter um diário, eu tenho 592 entradas. No começo, eu escrevia em inglês, para treino; depois, decidi que esse tipo de coisa é algo profundamente pessoal e queeu preciso me expressar na minha língua materna. Escrever algo em inglês é a maneira mais fácil de maximizar o número de pessoas que vão ler. Um diário, por outro lado, é pessoal e privado. O que está lá é para ser lido por você. Você pode até querer compartilhar algo, mas isso é algo posterior ao processo de criação.

Eu escrevo muitos tipos de texto. Desabafo nos momentos de raiva. Faço um simples registro do que fiz no dia para meu mestrado. Escrevo uma pequena resenha sobre algum filme que vi. Coloco alguma foto daquela manhã na praia com minha namorada. Registro alguma grande alegria que me ocorreu. Tento explicar para mim mesmo algum problema que tenho, em uma tentativa de achar uma solução (geralmente funciona). Escrever ali também tem sido uma excelente forma de simplesmente treinar a escrita.

Ainda assim, apesar de estar advogando o hábito de escrever num diário, eu não tenho o habito de ler minhas entradas. E isso sempre me incomodou. Quando se fala desse hábito, geralmente é para ajudar o seu “futuro eu”; supostamente, daqui a dez anos você vai ler seus registros e chorar de nostalgia. Vai mostrar para seus filhos. Afinal, para que registrar todos esses momentos, se não é para alguém ler depois?

Há algum tempo, numa noite, eu sentei e comecei a ler algumas entradas minhas do ano passado. Foi interessante, sem dúvida, mas é difícil eu compreender agora a importância de algo que aconteceu no ano passado. Da mesma maneira que não tenho paixão por olhar fotos antigas, ou de como não vejo graça em gravar um show para mostrar para outras pessoas.


Eu já comentei aqui sobre um artigo de John Dickerson chamado Note to Selfie. Meu trecho preferido desse texto é esse:

When you pause to write about something—even if it’s for Twitter or Facebook—you are engaging with it. Something within you is inspired and, at the very least, you’ve got to pick the words and context to convey meaning for your private recollection or, if you make it public, for the larger world

Só agora eu percebi o que isso tem a ver com meus hábitos de manter um diário.

Quando eu estava no segundo ano do Ensino Médio, o professor de Geografia nos instruiu a fazer anotações à medida que ele falava. Anotações sem organização nenhuma, apenas para registrar o que foi dito na aula. Antes da prova, ele sugeriu revisar essas anotações. Estudar apenas baseado no livro não é suficiente; é preciso digerir aquela informação.

O curioso é que muitas vezes eu nem precisava consultar minhas anotações. O simples ato de escrever me ajudou a absorver aquela informação. Quando eu estava anotando o que o professor falava, eu estava interagindo com aquela ideia, repetindo mentalmente para poder escrever, talvez mudando alguma palavra. E é isso o que Dickerson quer dizer, e é isso que faço com meus textos. Eu não escrevo para esquecer e depois revisar; eu escrevo para processar aquele momento, para ter uma ideia mais clara do que eu estou pensando — e isso tem como consequência que aquele fato fica gravado. Eu me lembro de muita coisa que escrevi, mesmo sem consultar.

Para manter um diário, eu uso o Day One (e já até escrevi uma resenha desse app), mas isso é um mero detalhe. Se eu tiver de ou quiser abandonar o programa, vou perder tudo aquilo que já escrevi (embora o app tenha opções de exportar o conteúdo); entretanto, isso não importa. E esse é o meu ponto: eu não tenho interesse em revisitar o passado. Eu não escrevo para o meu “eu futuro”, e sim para o meu “eu presente”.

Day One: benefícios de manter um diário

Se eu fosse fazer uma resenha tipicamente Apple, eu diria que Day
One
é um app elegante, com um design minimalista, com cada pixel
muito bem pensado. Um app muito cool, portanto.

Interface Mac Day One

Agora ao que realmente é importante: Day One é um pequeno programa que
teve um grande impacto na minha vida, por ser um grande facilitador à
escrita pessoal. Claro, um app bonito é agradável, mas é a experiência
de uso
que importa.

O melhor ouvinte do mundo

Pela sua descrição, Day One é um journaling app – um app para escrever
um diário, em resumo. É um editor de texto básico, com suporte a
Markdown, mas onde você armazena seus textos num calendário e não em
pastas (como num editor comum).

A minha entrada é de 1 de janeiro de 2013, o que leva o leitor à correta
conclusão de que manter um diário era uma resolução de ano novo. Eu
achava que ia manter minha memória, que ia ler esses relatos daqui a dez
ou vinte anos, e suspirar para meus filhos “those were the times…”.
Claro, isso depois de muitas noites registrando o dia, por muitos anos.

Por curiosidade, olhe como foi essa primeira entrada:

Primeira entrada no Day One

(Sim, eu escrevi em inglês, não me pergunte por quê).

Eu logo percebi que isso é tolice. Os momentos são valiosos no instante
em que acontecem. É por isso que não vejo sentido em pessoas que filmam
e fotografam shows (e protestos). Em vez de aproveitar o que está
acontecendo, naquele instante, elas querem guardar para o futuro. Não
seria mais fácil se preocupar com o agora?

Um diário é um ouvinte – o melhor do mundo, provavelmente. Você deve ter
uma conversa com seu diário. E um ouvinte real está pouco interessado no
que você fez no dia. Ele quer saber suas opiniões e seus pensamentos.
Ele não quer ouvir “fui numa festa muito legal”; ele quer saber o que
fez a festa ficar tão boa. Ele também quer saber daquela frase que você
ouviu que chamou a atenção. Ou daquele livro que você adorou.

Um diário é uma maneira de você organizar seu cérebro. E o melhor: você
pode escrever o que você quiser. Shawn Blanc (autor de um excelente
blog sobre tecnologia
que você provavelmente deveria ler) disse
bem
:

As a writer, I believe journaling on a regular basis is critical. It’s
writing that will never be judged. It’s writing that doesn’t require
an editor. It’s the only place where I am completely free to write for
my truly ideal reader: a future me. I have my own inside jokes, my own
running story arc, my own shorthand. I love the freedom to write
whatever I want, however I want, with no need to make it tidy or clear
or concise. And I have no doubt that it makes me a better professional
writer.

Alguma dúvida de que FabioFortkamp.com me fez ficar ciente da
importância do diário?

Como tirar melhor proveito do Day One

A minha regra de uso é: se está na minha cabeça, e se não é algo
estritamente técnico (relacionado ao meu mestrado, ou à configuração
deste blog, por exemplo), vai parar no Day One. Eu pego o iPhone e
começo a digitar (ou, melhor ainda, uso o excelente Drafts). Ou, no
Mac, ativo a entrada rápida (um atalho de teclado e o programa abre uma
pequena tela pronta para receber seu texto).

(Repare que isso é bastante ligado ao princípio de ter “a mente como
água”, fundamental na produtividade pessoal, conforme já escrevi.)

Por exemplo, esses dias, depois de levar meu carro à revisão, e ter de
escutar o vendedor me oferecer mil serviços provavelmente inúteis, um
pensamento me surgiu:

Entrada rápida do Day One no Mac

Simples. Na hora em que o pensamento me ocorreu eu já digitei.

No iOS, se você quiser digitar no próprio app você tem uma tela bastante
simples:

Entrada no Day One do iOS

Como falei no início, o aplicativo é realmente muito bem desenhado, mas
isso só reforça a facilidade que é escrever. Num app de diário, como
esse, o usuário deve ser capaz de registrar algo rapidamente.

O Day One, assim, se tornou um repositório de muitas ideias e
pensamentos. Por exemplo, há alguns dias falei da busca por nossa
identidade
. Antes de escrever aquele texto, eu quis fazer um
brainstorming de todos os interesses meus. Quer ver?

Brainstorming de ideias no Day One

Ou quando eu pensei muito sobre o foco de FabioFortkamp.com:

Foco de FabioFortkamp.com no Day One

Day One é também uma excelente maneira de passar a raiva. Quando algo
desagradável acontece, eu imediatamente explodo para o app. Descarrego
mesmo, com xingamentos e tudo. Muito melhor que fazer isso com uma
pessoa, o leitor há de concordar comigo.

Mais features

Agora, para mais alguns detalhes técninos do app (que são apenas
detalhes). Por exemplo, embora eu não use muito, por preferir texto, o
Day One tem um bom suporte a fotos:

Foto de Ratones no Day One

Tem também suporte a geolocalização (incluindo integração com
Foursquare), o que faz com suas entradas fiquem com a localização
embutida. Inclusive, se você quer usar o Day One como um diário
tradicional, o aplicativo se transforma numa interface mais pessoal ao
Foursquare. Ao jantar, assistir um filme, passear etc você cria uma nota
no aplicativo e faz check-in automaticamente. Como falei, não é útil
para mim, mas consigo ver muita gente tirando proveito disso.

Há também suporte a tags, para organizar suas notas (por exemplo,
#jantares, #festas, #pensamentos). Eu uso poucas porque gosto de
manter as coisas simples, mas ajuda a fazer uma revisão dos seus textos.

Para mais informações

Como usual, Federico Viticci escreveu uma review muito mais
detalhada que o leitor deve conferir. E Tulio Jarocki lançou uma série
fantástica
sobre o aplicativo, que me fez querer voltar a usar o app
(depois de ficar cansado de apenas relatar minhas experiências).

Day One está disponível para Mac (e ganhou o prêmio de App of the Year
2012
) e iOS (e está de graça por tempo limitado para comemorar os 5
anos da App Store).