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O que eu faço quando trabalho em casa

Trabalhando em casa? Você deve ficar vendo Netflix, ou só dormindo, ou fazendo coisas inúteis!

Errado.

Primeiro, eu aproveito o sol e vou correr numa praça repleta de bebês também aproveitando o sol, para me lembrar da beleza da vida (principalmente depois de ter ido a um velório) e para clarear minha mente com tantos projetos profissionais em andamento.

Depois, eu aproveito o silêncio completo e faço um inventário de todas as pessoas cujo trabalho eu preciso acompanhar — e então pesquiso e testo a melhor maneira de fazer isso.

Então, eu almoço uma comida caseira com minha esposa vendo Friends — porque eu tenho o direito de ser feliz.

Em seguida, tomando um bom chá, eu testo um novo app de tomar notas — porque aprender e escrever sobre o que eu aprendi é a minha maior habilidade, e o que eu mais então.

Finalmente, eu brinco de canetinhas para me ajudar a entender o que eu preciso formular matematicamente (e implementar em um programa de computador) para um dos meus projetos profissionais.

Resenha: O Método Bullet Journal

Fiquei sabendo de O Método Bullet Journal pela Newsletter de BulletJournal.com, mas eu fiquei realmente empolgado por O Método Bullet Journal depois da Thais Godinho ter chamado de “o livro do ano”.

Eu não sei se concordo com esse superlativo, mas é realmente muito bom. No site oficial do método, grande parte conteúdo se apresenta em alguns artigos e em um vídeo de poucos minutos, o que causa uma impressão de superficialidade. O livro, ao contrário, se aprofunda em muitos tópicos: criatividade, planejamento, reflexão, hábitos. Tudo a ver com meus interesses.

Para os completos alheios, o método Bullet Journal consiste em usar apenas um caderno para organizar toda a sua vida. Com alguns “marcadores” especiais (para tarefas, compromissos, notas, coisas urgentes), e alguns templates de páginas, você cria um registro de tudo que tem para fazer em um dia/semana/mês/ano.

Para mim, o livro fez parte de um período meio dedicado a criatividade, e considero ele parte de um conjunto com os livros do Austin Kleon. O Método BulletJournal me ensinou como juntar informações mistas, provenientes de meu app de gerenciamento de tarefas, de meu calendário, ideias da minha cabeça etc, em um único lugar: uma página de um caderno, que levo sempre comigo. Se algo aparece à minha frente, eu anoto no meu Bullet Journal. Anotações de reunião vão para o Bullet Journal. Problemas que vou encontrando enquanto trabalho em um projeto Python… Você já sabe. O papel aceita tudo. Periodicamente, reviso essas anotações e organizo de maneira mais apropriada.

Se você quer melhorar a sua organização, a sua escrita ou ambos, ou se já usa um caderno/diário/agenda de papel e quer ter mais estrutura, recomendo fortemente a leitura.

Bullet Journal mostrando minhas entradas e páginas no caderno

Minha prática de manter um caderno/diário/journal

Na metade de 2018, eu troquei de carro e, pela maneira como essa heurísticas cognitivas funcionam, todo carro que passava na rua era do mesmo modelo que o meu — ou era assim que parecia.

Similarmente, desde que escrevi que 2019 seria o meu ano da reflexão e da intencionalidade, tudo que leio ou consumo de maneira geral parece apontar para isso, em especial para um aspecto crucial desse propósito: manter um caderno ou diário. Depois de muito acompanhar o trabalho do Austin Kleon e ler os seus livros mais de uma vez, resolvi ler Roube como um Artista mais atentamente, e a sua principal recomendação está lá: mantenha um “arquivo de roubos”, capturando toda ideia interessante com que você se depara. Aí a Thaís publicou uma resenha entusiasmada de O Método Bullet Journal, e quando eu fui ler, o choque: o Bullet Journal não é para publicar resenhar floridas no Instagram, mas para facilitar que você reflita sobre sua vida. Motivado especialmente por esses livros, comecei no final do ano passado a manter um Bullet Journal mais atentamente, depois de alguns anos de maneira bem “irregular”, escrevendo mais listas pontuais de tarefas ou resumos de livros/artigos. Agora, quase não se passa um dia em que não registre o que aconteceu no meu dia e expressando, mesmo de forma resumida, minhas emoções.

Cadernos modelo Neon da marca Tilibra
Meninos não vestem rosa… mas podem ter caderno rosa?

A legenda da foto acima não é mera ironia. Desde que comecei meu tratamento contra depressão e ansiedade, uma coisa já ficou clara na terapia: como homem numa família rígida, eu nunca aprendi a lidar com minhas emoções. Por isso, o exercício de dizer para o papel como determinado evento fez eu me sentir tem valor inestimável. Qualquer colega meu de trabalho pode atestar que eu ainda tenho problemas em modular a maneira como me expresso em relação a algo que me desagrada, mas acreditem — seria bem pior sem esses artifícios terapêuticos.

Usar um diário para desabafar não é novidade; mas como falei, estou rodeado de referências a esses benefícios. Austin Kleon resumiu bem: “é um ótimo lugar para ter má ideias”. Cal Newport recomenda escrever cartas para seu futuro eu (mas, como eu, também acredita que devemos escrever para seu eu presente). Greg McKweon diz que, ao usar um journal (diário, em inglês), você se torna o jornalista da sua vida e sabe onde discernir o essencial.

Mas o meu Bullet Journal não é apenas uma ferramenta psicológica. Ainda estou aprendendo a fazer um planejamento do mês, visualizando todos os principais eventos e tarefas numa página:

Registro Mensal do Bullet Journal, mostrando minha agenda e metas para o mês
Todo dia, eu mantenho o Registro Diário, registrando minhas tarefas, tento fazer meu planejamento a la Cal Newport, e ainda registro algo pelo que sou grato no dia de hoje:

Quando leio no Kindle ou escuto um áudio-livro, eu anoto no meu Bullet Journal as principais ideias que aprendi:

Enfim, esse é o meu começo da prática de manter um Bullet Journal, algo que tem sido de muita ajuda no meu dia a dia. Eu já escrevi antes sobre manter um diário, mas fazê-lo de maneira analógica tem um outro poder muito maior de calma e reflexão.

Quanto a ferramentas, eu adoto esses cadernos Neon da Tilibra. E tenho muitas canetas espalhadas pela minha casa, minha mochila e minha mesa no laboratório, de maneira que não consigo recomendar apenas uma marca.

Como o leitor deve perceber, eu estou numa fase obsessiva sobre cadernos, Bullet Journals, diários e criatividade, por isso vou adorar ler qualquer comentários nesse sentido!

Resenhe: Roube como um artista

O objetivo principal de Austin Kleon em Roube como um artista é dar dicas de como ter mais ideias (boas). Os seus principais argumentos são baseados na sua experiência como escritor e no contato que ele tem com outros artistas, seja ao vivo ou por meio de obras diversas.

O ponto central do livro é o imperativo presente no título: para ter mais ideias, é preciso estar exposto a elas, capturá-las, e então produzir algo novo. Kleon cita diversos músicos, pintores e escritores que usam dessa analogia do roubo, da cópia modificada. Para isso, é bom ter algumas ferramentas, como um bom diário, um caderno onde você possa anotar coisas que lhe chamaram a atenção, ou qualquer forma de manter um registro. Se você for escultor, tire fotos e mantenha um álbum com suas obras preferidas. Para um caso mais “cotidiano” de um engenheiro de simulação, guarde artigos interessantes no Evernote, por exemplo.

O “roubo”, nesse contexto, se diferencia de um plágio por abraçar as influências, dando crédito a elas e melhorando. Não é difícil perceber que J.K. Rowling usou de muitas fontes sobre fantasia e mitologia, mas adapatou a um mundo de bruxos bons e em um universo infanto-juvenil. Quem escuta Oasis não demora a notar semelhanças com os Beatles, mas como se as suas músicas fossem adaptadas para os anos 90.

Cerque-se do que roubas. Abrace suas influências. Aprofunde-se no seu autor favorito. Não tente criar o seu jeito; deixe ele crescer organicamente, à medida que você se torna mais consciente das coisas que você lê/escuta/ouve/estuda. E não tenha medo de não ser original:

“Tudo que precisa ser dito já foi dito. Mas, já que ninguém estava ouvindo, é preciso dizer outra vez.” – André Gide, escritor francês

Com base nesse ciclo “Expôr-se, capturar, adaptar”, Kleon sugere mais algumas dicas básicas:

  • Trabalhe mais com meios analógicos. Nesses tempos digitais, esquecemos de estimular o tato e as sensações diferentes que temos quando lidamos com o mundo fora do computador. Vale a pena ter um ambiente livre de telas para simplesmente rabiscar ideias em papel (até usando o seu caderno acima), ler um livro, recortar figuras ou fotos e montar um mural etc. No mesmo sentido, é importante ter hobbies diferente do seu trabalho, para estimular o seu cérebro.
  • Saia mais de casa. Isso vale tanto para coisas modestas como ir trabalhar num café; quanto para sonhos de vida como ir morar fora do país ou se mudar de cidade. Essa mudança de ambientes e de conforto pode ativar novas ideias que você nunca teria percebido.
  • Use a vida diária como estímulo criativo. Escreva sobre um filme que lhe comoveu; reclame no seu diário sobre algo com que você ficou indignado; cozinhe uma refeição como uma versão melhorada do que você comeu de ruim.

Pessoalmente, entendo que, ao ser mais criativo, você produz trabalho de mais qualidade, impacto e significado — qualquer trabalho. Assim, fico feliz em recomendar a leitura desse livro, mesmo com alguns poucos defeitos; o que mais me frustra é a falta de referências a estudos que provem os argumentos dele (mas também talvez seja a minha mente de pesquisador) — talvez eu deva roubar as ideias de Kleon e adicionar rigor científico, não acham?.

Uma necessidade de escrever

Eu acho que tinha 15 anos quando li esse poema de Paulo Leminski,
onde ele diz que escreve porque precisa. Escreve porque as estrelas no
céu lembram letras no papel.

Bem, meus amigos, eu preciso escrever.

Por acaso, eu me formei em Engenharia Mecânica, uma profissão
frequentemente descrita como “útil”. Você sabe, todo mundo precisa de um
carro, um refrigerador, um eletrodoméstico, entâo você não pode duvidar
da utilidade dos engenheiros mecânicos. E, rapaz, como nos gabamos
disso. Geralmente vemos a sociedade como dividida em dois grupos:
aqueles como nós, necessários (médicos, advogados, arquitetos,
contadores), e os que não são. Estes são os artistas, escritores,
historiadores, filósofos. O problema é que, antes de termos carros,
tínhamos Sócrates. Antes de termos refrigeradores, tínhamos Shakespeare.
Antes de James Watt e da Revolução Industrial, humanos estavam cantando,
e escrevendo, e pintando. E eles fazem isso, nós fazemos isso, porque
nós precisamos. Precisamos nos expressar. O cérebro humano evoluiu tanto
que criou a arte e a ciência. É fascinante que a mesma espécie que
inventou o Cálculo e a Teoria Quântica também preencheu o Louvre.

Ler sempre foi uma parte importante da minha vida. Sabe, eu era um
garoto extremamente tímido. Agora sou só tímido. Eu realmente gosto de
me enterrar naquelas letras que vejo nos livros, aquelas histórias
incríveis, de super-heróis ou advogados comuns. Parecia tão mágico que
alguém, alguém como eu, pudesse ter escrito uma dúzia de palavras, e
então eu pudesse ir a uma livraria e ver um livro com o nome dessa
pessoa na capa. Como disse (melhor, escreveu) Stephen King na sua
maravilhosa auto-biografia, escrever é uma forma de telepatia. Agora
mesmo, você está lendo essas palavras, minhas palavras, e nós
estamos tendo uma conversa sem nem mesmo estar na mesma sala.

Como usual, com a leitura vem o desejo de escrever. Para ser bem franco,
quando criança eu só queria meu nome na capa, e eu orgulhosamente
confesso que entrar numa livraria e ver meu nome na capa de um livro é
presentemente o meu maior sonho. À medida que fui ficando mais velho,
percebi que talvez eu pudesse escrever um pouco também, e que isso é tâo
importante quanto um nome impresso.

A idade trouxe também um aumento no número de interesses. De repente, eu
estava lendo livros sobre ciência, tecnologia, história, finanças
pessoais, produtividade. O que importa não é necessariamento o conteúdo,
mas o poder das palavras escritas. Um história bem tola pode ter uma
mensagem interessante por trás. Um livro sobre complicadas teorias
matemáticas foi escrito por pessoas ordinárias, cujas vidas dariam
premiados romances. Tudo é apenas a expressão da inteligência humana.

Eu escrevi muitas coisas na minha vida, provavelmente nenhuma delas
merecedora de publicação. Entretanto, minhas professoras de Português
pareciam gostar das minhas tarefas. Foi por aí que vi que tinha certa
habilidade com as palavras. Por diversão, escrevi alguma histórias. Eu
sou ótimo em começar histórias e péssimo em terminá-las, então não
guardei nada. Escrevi tambem alguns ensaios, e até já tive um blog, no
qual publiquei todo tipo de texto meu (aqueles que eu consegui
terminar). Nada extraordinário, mas enfim. Chegou o vestibular, e a
falta de tempo, e finalmente a falta de motivação.

Veio a faculdade. Tantas coisas novas, tantas experiências.
Infelizmente, esqueci da alegria de escrever.

Quando estava prester a concluir, eu voltei a ler um bocado.
Naturalmente, o desejo de escever veio junto.

Eu não sou Machado de Assis, nem Jorge Amado, e jamais escreverei
qualquer coisa próxima do pior trabalho de José Saramago e Fernando
Pessoa. Essa gente não é deste mundo. Eu sou, portanto eu escrevo com as
habilidades que tenho. Meus professores, minha mãe (isso não vale), meus
amigos parecem gostar do que eu escrevo. Que diabos, se uma única pessoa
gostar já está valendo.

Eu luto com o constante fluxo de ideias chegando na minha cabeça. Neste
exato momento tenho ideias para meia dúzia de romances (tenha paciência,
serão escritos no momento adequado). E como falei, tenho pensamentos
sobre muitos assuntos diferentes. Esse site é uma tentativa de coletar,
organizar e armazenar essas ideias. Eu já tive um blog, mas agora eu
estou muito mais maduro. Era uma criança quando escrevi aqueles textos
bobinhos, e agora eu sou um homem. E um homem que precisa escrever.