Arquivo mensal: dezembro 2018

Como ser feliz

Essa é a pergunta de um milhão. Na verdade, a pergunta cuja resposta não tem preço.

Lidar com depressão não é fácil, mas pode ser feito. Essa doença, principalmente se associada a transtornos de ansiedade, efetivamente ataca o seu cérebro e faz você enxergar o mundo de maneira distorcida, como se tudo fosse dar errado. O Fábio que está tratado é o Fábio verdadeiro, completamente diferente do Fábio de uns meses atrás, que não conseguia responder positivamente à pergunta: “você é feliz?”.

Nas minhas últimas sessões com minha terapeuta, temos nos dedicado a elucidar o porquê da minha felicidade e, claro, como perpetuá-la.

Eis um vislumbre de resposta: eu sou feliz porque eu vivo a minha vida como eu quero, nos meus termos, e não a vida que os outros querem que eu viva.

Como qualquer usuário do Instagram, com meus pontos fracos e defeitos, também sinto um resquício de inveja quando vejo posts de viagens, restaurantes e gadgets recentes. Mas então o Fábio mais maduro assume o comando e vê as coisas de uma perspectiva mais palpável.

Apesar de ganhar muito menos que meus colegas de faculdade, eu passo os dias estudando, escrevendo e programando, três atividades que me dão muito prazer. Eu moro em um ótimo apartamento, de onde eu e minha esposa vamos a pé para nossos respectivos empregos, rodeado da natureza, presente de Deus. Em vez de perder tempo no trânsito todo dia, eu tenho o privilégio de trabalhar muitos dias em casa, quando preparo o almoço que eu e minha esposa comemos juntos, durante o intervalo de almoço dela (sim, o emprego dela é perto assim).

Se eu tenho de ir até o centro da cidade, eu posso, conscientemente, ir de ônibus e ler algo interessante, em vez de tomar o meu carro confortável e economizar uma meia hora ao custo de ficar num ciclo de acelera-freia-anda-para. O “normal” no mundo em que fui criado é sempre dirigir, a qualquer distância que seja, mas voltamos ao tema central: essa é a minha vida. Eu odeio dirigir, e eu não sou errado por causa disso.

Para horrar dos meus pais, nós quase não saímos para jantar, ou para ir ao cinema ou a um bar, e nunca pedimos comida com a exceção da pizza muito ocasional. Essa é a nossa realidade, mas adivinhem — essa é a nossa vida, e não a dos meus pais. Eu amo cozinhar, e nós não nos importamos em comer a maioria das refeições em casa se é para manter essa vida descrita acima.

Eu reconheço que minha vida é muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais privilegiada que muitos dos leitores. Talvez a leitora tenha um emprego desagradável mas necessário para sustentar o filho. Mesmo assim, eu argumento que é possível começar a tomar o controle da vida e ser mais feliz, nem que seja aos poucos. Você trabalha tanto para comprar coisas para o filho — mas são coisas de que ele realmente precisa, ou que sua família/amigos dizem que ele precisa?

Pare e pense: do que você precisa para ser feliz?

Como se irritar menos

Hoje precisava falar com um colega de trabalho que não apareceu, e isto está comprometendo meu dia de trabalho. Eu posso ficar irritado, OU aceitar que isso não é do meu controle. Que sei eu da vida dele? Será que ele não está num compromisso de trabalho, que vai resultar em melhorias para o nosso trabalho? Ou será que ele não acordou muito mal e está se recuperando?

Um familiar meu tem grandes problemas com a namorada de outro familiar nosso. Ele fica irritado sempre que essa pessoa aparece. Mas, como trabalhamos nas Oficinas de Oração e Vida, o que odeia sempre sofre mais que o odiado, que geralmente nem se importa com o que o odeia. O que se pode fazer? Ele vai falar com o próprio parente sobre o seu desgosto, e arriscar a sua relação com ele? Essa namorada faz parte da nossa família, e quanto menos sentimentos negativos alimentarmos em relação a ela, melhor para nós.

Como se irritar menos? Basta aceitar o que não se pode mudar.

Repensando tempo perdido com Fitbit Charge 2

Eu sou daquela geração de millenials que sabe que o mundo ainda não é 100% digital, e que não acha um absurdo quando um lugar não aceita cartão de débito ou crédito. Um exemplo é minha terapeuta; sempre que tenho uma consulta, tenho de ir até um caixa eletrônico sacar a quantia a ser paga pela sessão.

“Que atraso de vida! Por que você não faz transferência pelo app do banco ou usa um desses Picpay da vida?”, perguntaria um dos meus primos mais novos.

Porque caminhar até o caixa eletrônico para mim não é mais uma perda de tempo, mas parte essencial da minha rotina, graças a esse aparelho mágico:

Fitbit Charge 2

O Fitbit Charge 2 foi um presente que me dei quando estive em Darmstadt, e tem sido um incrível acessório para me tornar mais ativo. Esse pequeno relógio não chega a ser um smartwatch, e na verdade era exatamente isso que queria; além de ser um terço do preço de um Apple Watch ou similar, eu não quero nada que fique me notificando de nada — o Charge 2 até pode notificar de mensagens (tradicionais, via SMS) ou chamadas, mas eu logo desabilitei isso. O que eu queria era um dispositivo que me permitisse facilmente (1) contar os passos e (2) medir os batimentos cardíacos, e (3) que me mostrasse isso de maneira clara.

Eu já não era uma pessoa sedentária, e usar o Charge 2 não me fez emagrecer; a grande mudança foi me fazer valorizar as pequenas caminhadas, para sempre tentar cumprir a meta de 10 000 passos por dia. Ou me fazer sempre pegar a escada, para cumprir a meta de subir 10 andares por dia. Ou não negligenciar a musculação ou a corrida, para ter um calendário recheado de exercícios.

Agora (mais do que nunca) eu faço questão de inserir pequenas caminhadas no meio dia, muitas vezes aproveitando para fazer alguma pequena volta, como o exemplo do caixa eletrônico no início do post. O Charge 2 também me notifica para levantar periodicamente, e é a desculpa perfeita para me alongar um pouco ou buscar uma água.

Por último, tenho usado muito a função de monitoramento do sono; uso o relógio (ajustado de maneira bem folgada) durante a noite, e ele me acordo com uma leve vibração, o que é muito mais agradável do que um som repentino dos despertadores tradicionais. Como um bônus, o relógio traça um histórico dos meus batimentos durante o sono e consigo ver como foi minha noite.

Infelizmente, esse dispositivo não está disponível no Brasil, mas existem similares. Se a leitora tem condições financeiras, ou se o leitor é afortunado e está querendo algo para a lista de Natal que pode melhorar a saúde em 2019, recomendo!

Como montei meu Home Office ao estilo GTD

No meu último post sobre GTD (em inglês devido ao meu experimento de tentar converter esse blog para o inglês), eu falei por que aprender GTD. Em resumo: esse método me ajudou a me recuperar de um período muito estressante e de prazos perdidos e começar uma época de grandes realizações com menos estresse. As conclusões atingidas naquele post se propagaram: depois daquilo, eu me casei, terminei de escrever uma Tese de Doutorado (atualmente em edição), consegui ser aprovado no Programa de Talentos para Inovação, tudo isso enquanto curto a vida de maneira geral.

O método GTD preconiza 5 hábitos para você processar todo tipo de informação que chega na sua vida e transformá-la em itens acionáveis. Entretando, David Allen diz no livro oficial que, antes de começar a se aventurar no método, é bom ter todas as ferramentas disponíveis. De fato, uma das ideias do livro com que eu mais me identifico é essa: a perda de produtividade por não ter uma caneta ou uma pasta de plástico à disposição é enorme. Assim, eu fiz os meus esforços para montar um Home Office de maneira bem funcional. Admito que o que vou descrever não é perfeito, e que estou sempre tentando melhorar. Como falei no último post, esse tipo de texto é só uma maneira de eu mostrar meu trabalho.

E para quem não tem Home Office?

Vou ser o primeiro a declarar: eu sou incrivelmente privilegiado por morar num apartamento onde posso montar meu Home Office. Sei também que ele irá sumir quando vier o primeiro filho, e fico muito tranquilo com isso. Mas, já que tenho essa oportunidade, tento aproveitá-la da melhor maneira, e trabalho muito frequentemente em casa.

O que vou descrever aqui se aplica a qualquer ambiente de trabalho, na verdade, e vou incluir fotos do meu “ambiente secundário”, no laboratório onde trabalho. Aposto que, se a leitora for um trabalhadora do conhecimento (i.e. não braçal) deve ter uma mesa para si em algum lugar da empresa.

Se não tiver acesso a isso, vale a pena organizar a ideia de ter uma escrivaninha que caiba em algum cômodo da sua casa. David Allen toca muito na importância de ter um ambiente próprio para “controlar a sua vida”. Faça aos poucos. Na Dinamarca, eu morava em uma kitinete de 49 m² com minha esposa, e meu Home Office era um canto da mesa que já existia no local:

Home Office na Dinamarca

Uma mesa funcional

Falando agora realmente do meu Home Office, é assim que eu vejo ao sentar para trabalhar:

Home Office vista frontal

O primeiro detalhe que eu espero que fique muito visível é que o ambiente está pronto para eu trabalhar. Meu laptop está instalado numa posição boa, o monitor está bem ajustado, o conjunto mouse/teclado/Magic Trackpad está numa posição confortável, meu caderno de anotações está a postos, as caixas de som estão bem posicionadas.

À direita, o leitor vê a minha impressora, e se preciso lidar com papel, tudo está ao alcance da mão: grampeador, régua, fita, canetas, clipes, post-its, blocos de papel.

Outro item de suma importância é um conjunto de “bandejas” para acomodar papéis e outros objetos:

Bandejas no Home Office

A bandeja de cima é o que o método GTD classifica como uma caixa de entrada: itens aleatórios sobre os quais não dediquei atenção ainda. Sempre que eu chego em casa com correspondência ou algo físico a que eu precise dedicar atenção (nem que seja guardar num lugar especial), eu coloco na bandeja, para posterior processamento. O mesmo vale para qualquer pedaço de papel no qual eu tenha escrito alguma coisa que precisa ser transformada em outra coisa.

Na gaveta do meio, entram os Materiais de Suporte a Projetos, i.e., tudo que eu precise usar para projetos ativos na minha vida. Ali estão folders de conferência que preciso estudar com atenção, ingressos para shows já comprados, papers a ler.

Na gaveta de baixo, estão materiais de anotação. Uma cópia do excelente Roube como um artista: o Diário e um bloco de notas.

Aposto que o leitor há de concordar que isso é melhor que ter papeis jogados sobre a mesa.

Como comparação, aqui vai uma foto da minha mesa na Universidade. Parte da minha personalidade nerd é querer ter ambientes consistentes em diferentes lugares.

Estação de trabalho na universidade

E nas gavetas?

Naturalmente, nem tudo cabe na superfície da mesa. Minha incrível esposa organizou minhas gavetas, mantendo sempre o princípio de ter todo tipo de pequenos acessórios à mão. Na primeira gaveta mantenho itens frequentemente acessados ou coisas mais avulsas:

Gaveta no escritório com itens avulsos ou frequentemente acessados

(Detalhe especial para a rotuladora, uma das minhas melhores aquisições recentes).

Na segunda, estão suprimentos, como uma meia dúzia de elásticos e pastas vazias para usar sempre que quiser arquivar…

Gaveta no Home Office com suplementos de escritório

… algo na minha gaveta de documentos:

Gaveta no Home Office com pastas de documentos

Conclusões

Sim, querido leitor: eu gosto de ter tudo à mão e organizado. Com um ambiente robusto assim, fica muito mais fácil desenvolver os hábitos de produtividade.

Mas me digam: o que acharam do meu setup?

Lendo um paper, e me deparo com a seguinte frase:

O valor de tal variável foi escolhido por conveniência…

Mas o autor poderia muito ter escrito de maneira mais direta:

Testamos vários valores dessa variável, mas esse foi o que gerou os gráficos mais bonitos.

Tenho certeza de que a profissão do leitor tem suas próprias maneiras de suavizar “gambiarras” na hora de comunicar-se — quais são?