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Como ler artigos científicos e extrair o máximo de informação

Ler artigos científicos (ou papers) faz parte do meu trabalho regular como pesquisador e, com a prática de anos, desenvolvi um método que me serve bem, e que documento aqui. Para ser franco, acho que extrair o máximo de informação útil de um paper é uma das maiores habilidades, e por isso acho que este texto pode ajudar o leitor.

Minha prática é um misto de ideias de Como Ler Livros e do método Zettelkasten, e consiste de 3 etapas:

  1. Leitura inspecional
  2. Leitura analítica
  3. Processamento de notas

Leitura inspecional do paper

Na leitura inspecional de um paper, estou me familiarizando com o trabalho.:

  • Sobre o que é?
  • Que problemas ele investiga e resolve?
  • Como ele me ajuda nos meus projetos atuais?

A leitura inspecional é para ser rápida, o que significa que eu não paro se eu não entendo alguma equação, figura ou método sendo descrito. Procuro fazer em uma única sessão de trabalho, e geralmente me dou uma hora. Dependendo do tamanho do artigo, é o suficiente para ler superficialmente todo o texto; às vezes, leio o resumo, introdução e conclusão com muito mais atenção, e apenas examino o restante do artigo, à procura de algo interessante.

Dependendo do meu objetivo ao ler este paper em específico, uma leitura inspecional basta. Se quero compilar quais autores estudaram tal assunto, e a leitura inspecional me mostra que Fulano fez este estudo e concluiu isto (através da leitura mais atenciosa da conclusão, vide parágrafo acima), a leitura está concluída. Muitas vezes, aliás, essa primeira leitura me mostra que um determinado artigo não serve para mim, e o papel é transformado em rascunho.

Falando nisso, para extrair o máximo de informação de um artigo, como eu estou propondo neste texto, para mim é fundamental imprimir o artigo e ler analogicamente. Pode parecer contra o bom uso de recursos naturais, mas tento minimizar esses efeitos aproveitando os papeis como rascunho após a leitura e reciclando-os. Além disso, se eu ler no computador, há o gasto adicional de energia para renderizar o PDF (quando muitas vezes a tela do computador está apagada enquanto estou lendo no papel); se eu comprar um iPad para isso, de onde vem os recursos naturais e humanos para fabricar cada peça?

Nada substitui a experiência de se isolar, talvez apenas com uma música de fundo, e ler um pedaço de papel com canetas para fazer anotações. Na leitura inspecional, essas anotações são rápidas e pontuais.

Leitura analítica do paper

A leitura analítica do paper é demorada e detalhada. Dependendo do assunto ou do nível de profundidade de que preciso (para implementar algum modelo ou para escrever sobre esse assunto, por exemplo), algumas vezes a leitura analítica requer múltiplas sessões de trabalho profundo de 1h30min ou 2h por alguns dias.

Nessa etapa, muitas notas são escritas — às vezes em notas adesivas, às vezes em notas soltas anexadas, às vezes no verso do paper. Se o meu objetivo é entender a fundo o que está sendo abordado, preciso expressar com minhas próprias palavras.

O resultado de um artigo lido com atenção
Às vezes o básico da Termodinâmica é o mais difícil de entender
Como vêem, eu não economizo em escrever até as ideias mais básicas
Sim, um doutor em Engenharia Mecânica às vezes precisa converter RPM para hertz.

Processamento de notas

Essas notas soltas, escritas na pressa e muitas vezes sucintas, precisam ser transformadas em textos coerentes, que possam ser usados como base para meus próprios artigos, para Teses, para relatórios etc.

Como citei no início deste post, meu método é bastante inspirado no método Zettelkasten. Basicamente, para cada paper lido e suas notas, crio minhas notas em versão digital. Cada “nota” (Zettel, em alemão) é um arquivo .txt em uma pasta no Dropbox. Importante: cada nota corresponde a um assunto, e não a um resumo de um paper. Um mesmo artigo pode trazer diferentes assuntos, e um mesmo assunto pode ser abordado por diferentes autores.

Meu sistema é complexo mas funciona bem para mim. Uso um editor de texto arcaico chamado Emacs, voltado à programação e de um paradigma diferente do Word, com suas figuras e fontes; no Emacs, tudo é basicamente texto.

Dentro do Emacs, há um pacote chamado Deft. Com um atalho de teclado, a minha pasta de notas é carregada e o Emacs me apresenta uma lista das minhas notas, onde então posso selecionar e abrir uma para editar. O recurso-chave desse pacote, porém, é que ele me permite buscar por palavras dentro das notas. Isso representa um avanço sobre simplesmente ter a pasta de notas aberta no Explorador de Arquivos e abrir cada arquivo individualmente; no Deft, estamos lidando com “objetos” notas, e não com arquivos.

Interface de lista de notas no Emacs, usando Deft

Cada nota é escrita em Markdown, usando a versão Pandoc (veja abaixo).

Uma nota no Emacs

Também configurei o Emacs+Deft para, com um outro atalho de teclado que cria uma nova nota, me pedindo o título e as palavras-chaves. Esse atalho cria um arquivo com um template pré-configurado, conforme aparece na Figura.

O leitor quer mais informações sobre esse template de notas e minha configuração de Emacs+Deft? Deixe nos comentários!

Meu fluxo de trabalho funciona da seguinte forma: após ler alguns artigos analiticamente, tenho um conjunto de notas em paper. Reviso-os e separo-os por temas, pensando em novas notas que podem ser criadas. Repare que muitas vezes a leitura de um paper me faz atualizar alguma nota que foi escrita anos atrás, com novas descobertas empíricas ou uma melhor explicação de alguma teoria. Processo então todas as notas, escrevendo novos textos ou revisando notas antigas; isso gera novas ideias de textos, que são facilmente criados usando os atalhos acima.

Quando quero escrever um documento final, geralmente em LaTeX, posso usar o Deft para ver todas as minhas notas sobre um assunto. Como estes textos são meus textos, escritos com as minhas palavras, muitas vezes copio notas inteiras direto para o corpo de um manuscrito. A ferramenta Pandoc é muito útil para converter entre Markdown e LaTeX.

Conclusões

Este é o meu ciclo de extrair informações de artigos. Não é nada novo ou revolucionário; apenas estou descrevendo algumas práticas particulares minhas e as ferramentas que uso.

Trato esse processo com alto respeito por achar que isto é o cerne da minha atividade de pesquisador.

O leitor acha que esse é um tema interessante de ser explorado mais a fundo aqui no blog? Deixe sua opinião nos comentários!

Usando mapas mentais para planejar papers

Entenderam?

Sempre me espanta que mais pessoas não usem mapas mentais para planejar papers (e outros documentos escritos). É só a minha cabeça que contém ideias confusas demais e que precisam ser organizadas de alguma forma?

A imagem acima é do excelente MindNode (que eu acesso através do serviço Setapp), que infelizmente só existe para dispositivos Apple. Para Windows (para qualquer plataforma, na verdade), há o também bom MindMeister.

Meu fluxo de ficar desenvolvendo ideias até elas assumirem uma forma mais definida é totalmente influenciada pelo Presentations Field Guide, do David Sparks, e pelo episódio maravilhosamente chamado de Cooking Ideas do seu podcast Mac Power Users.

O que eu faço quando trabalho em casa

Trabalhando em casa? Você deve ficar vendo Netflix, ou só dormindo, ou fazendo coisas inúteis!

Errado.

Primeiro, eu aproveito o sol e vou correr numa praça repleta de bebês também aproveitando o sol, para me lembrar da beleza da vida (principalmente depois de ter ido a um velório) e para clarear minha mente com tantos projetos profissionais em andamento.

Depois, eu aproveito o silêncio completo e faço um inventário de todas as pessoas cujo trabalho eu preciso acompanhar — e então pesquiso e testo a melhor maneira de fazer isso.

Então, eu almoço uma comida caseira com minha esposa vendo Friends — porque eu tenho o direito de ser feliz.

Em seguida, tomando um bom chá, eu testo um novo app de tomar notas — porque aprender e escrever sobre o que eu aprendi é a minha maior habilidade, e o que eu mais então.

Finalmente, eu brinco de canetinhas para me ajudar a entender o que eu preciso formular matematicamente (e implementar em um programa de computador) para um dos meus projetos profissionais.

Quer progredir no trabalho? Estude criatividade

A nobre leitora deve ter percebido um grande aumento de textos recentes nesse blog sobre criatividade. Não é de se espantar, já que Fábio Fortkamp.com reflete o que se passa na cabeça do Fábio Fortkamp, e ultimamente ele parece que só lê coisas sobre criatividade.

Mas como criatividade afeta a minha vida bastante mundana de pesquisador/marido/Guia das Oficinas? E por que eu me incomodo em partilhar isso, e porque eu encho a cabeça dos meus leitores sobre criatividade?

Para mim, criatividade é sobre ter ideias, e (quase) todo mundo pode se beneficiar disso.

Eu, sentado em um sítio, escrevendo no meu Bullet Journal, rodeado de cachorros
Eu, tendo muitas ideias

Kourosh Dini define um projeto concreto como aquele que tem passos bem definidos: ir à loja tal comprar isto; entrar no site X e submeter documento Y. Para esses tipos, que encontramos todo dia, não precisamos de muitas ideias, apenas de tempo e energia.

Na terminologia de Dini, projeto criativo, por outro lado, tem um fim desconhecido e passos não muito claro. Trabalhadores do conhecimento lidam com projetos criativos o tempo todo: escrever um relatório, preparar uma apresentação, criar um plano de negócios, preparar uma aula. O próximo passo não é simplesmente “digitar relatório”; você precisa pensar sobre ele. Ter ideias, enfim.

É por isso que, além de ler material mais técnico como artigos sobre circuitos magnéticos ou livros sobre otimização, no meu trabalho como pesquisador eu me cerco de textos sobre como aproveitar melhor essas referências e produzir mais. Quando Austin Kleon fala de usar um caderno para “guardar seus roubos”, isso não é aplicável apenas para artistas; meus cadernos estão cheios de anotações sobre incerteza experimental e precisão numérica. Quando Cal Newport fala da importância de caminhadas para a produtividade, eu levo a sério e me vejo pensando sobre alguma técnica de otimização no trajeto de casa até o laboratório. Se a Thais Godinho sugere “alternar contextos” (trabalhar no computador, depois sair um pouco das telas, depois voltar e etc), eu estou sempre com um livro ou um paper na minha mesa para descansar os olhos e aprender alguma coisa nova, sem cansar muito meu cérebro.

Nada disso é assunto “de engenharia”, mas tudo isso me ensina a ser um engenheiro pesquisador melhor.

E, de tanto ler sobre isso, essas técnicas de criatividade se irradiam para outras áreas da minha vida. Se vejo algum vídeo com uma receita interessante, da próxima vez em que for fazer alguma atividade “mundana” provavelmente estarei refletindo sobre ela, e sobre como posso usá-la para preparar um jantar para minha esposa. Ou estou meditando com algum livro da Bíblia, e faço conexões com outras passagens porque tenho muitos pensamentos registrados no meu Caderno Espiritual.

Ao prestar atenção e dedicar tempo a esse tipo de soft skill como criatividade, a minha vida fica melhor — a do leitor pode ficar também.

Resenha: Show Your Work

Eu fiquei sabendo de Show Your Work, de Austin Kleon, através de um mísero link em post de Mike Vardy (cujo link exato não consigo mais encontrar). Na época, acho que estava começando com esse blog, começando também a ler muito sobre produtividade e tecnologia (o que me levou a conhecer Vardy), e fiquei intrigado com o simples título desse livro. A partir daí, comecei a mergulhar cada vez mais na obra desse escritor americano.

Confesso que, da primeira vez que li, não deu muito atenção. Mas, quando comecei a dar mais atenção à minha criatividade como tratamento contra ansiedade e depressão, Show your work se tornou um de meus livros favoritos sobre criatividade.

Kleon consegue motivar todo mundo a achar uma “arte” em seu trabalho e então em maneiras de compartilhá-la com o mundo. Não de maneira mirabolante, mas básica: separar uns minutos por dia, criar um blog, usar o Instagram para mostrar dicas do seu trabalho e não o seu almoço. Caso o leitor não tenha reparado, eu venho usando cada vez as dicas desse livro aqui neste blog, mostrando os bastidores do meu trabalho e cotidiano, expondo meus livros/apps/sites favoritos, conectando ideias aparentemente distintas.

A internet está cheia de coisas ruins. Vamos enchê-la de coisas boas, falando de nosso trabalho e nossos assuntos favoritos. Show your work é um bom guia para começarmos.

Como montei meu Home Office ao estilo GTD

No meu último post sobre GTD (em inglês devido ao meu experimento de tentar converter esse blog para o inglês), eu falei por que aprender GTD. Em resumo: esse método me ajudou a me recuperar de um período muito estressante e de prazos perdidos e começar uma época de grandes realizações com menos estresse. As conclusões atingidas naquele post se propagaram: depois daquilo, eu me casei, terminei de escrever uma Tese de Doutorado (atualmente em edição), consegui ser aprovado no Programa de Talentos para Inovação, tudo isso enquanto curto a vida de maneira geral.

O método GTD preconiza 5 hábitos para você processar todo tipo de informação que chega na sua vida e transformá-la em itens acionáveis. Entretando, David Allen diz no livro oficial que, antes de começar a se aventurar no método, é bom ter todas as ferramentas disponíveis. De fato, uma das ideias do livro com que eu mais me identifico é essa: a perda de produtividade por não ter uma caneta ou uma pasta de plástico à disposição é enorme. Assim, eu fiz os meus esforços para montar um Home Office de maneira bem funcional. Admito que o que vou descrever não é perfeito, e que estou sempre tentando melhorar. Como falei no último post, esse tipo de texto é só uma maneira de eu mostrar meu trabalho.

E para quem não tem Home Office?

Vou ser o primeiro a declarar: eu sou incrivelmente privilegiado por morar num apartamento onde posso montar meu Home Office. Sei também que ele irá sumir quando vier o primeiro filho, e fico muito tranquilo com isso. Mas, já que tenho essa oportunidade, tento aproveitá-la da melhor maneira, e trabalho muito frequentemente em casa.

O que vou descrever aqui se aplica a qualquer ambiente de trabalho, na verdade, e vou incluir fotos do meu “ambiente secundário”, no laboratório onde trabalho. Aposto que, se a leitora for um trabalhadora do conhecimento (i.e. não braçal) deve ter uma mesa para si em algum lugar da empresa.

Se não tiver acesso a isso, vale a pena organizar a ideia de ter uma escrivaninha que caiba em algum cômodo da sua casa. David Allen toca muito na importância de ter um ambiente próprio para “controlar a sua vida”. Faça aos poucos. Na Dinamarca, eu morava em uma kitinete de 49 m² com minha esposa, e meu Home Office era um canto da mesa que já existia no local:

Home Office na Dinamarca

Uma mesa funcional

Falando agora realmente do meu Home Office, é assim que eu vejo ao sentar para trabalhar:

Home Office vista frontal

O primeiro detalhe que eu espero que fique muito visível é que o ambiente está pronto para eu trabalhar. Meu laptop está instalado numa posição boa, o monitor está bem ajustado, o conjunto mouse/teclado/Magic Trackpad está numa posição confortável, meu caderno de anotações está a postos, as caixas de som estão bem posicionadas.

À direita, o leitor vê a minha impressora, e se preciso lidar com papel, tudo está ao alcance da mão: grampeador, régua, fita, canetas, clipes, post-its, blocos de papel.

Outro item de suma importância é um conjunto de “bandejas” para acomodar papéis e outros objetos:

Bandejas no Home Office

A bandeja de cima é o que o método GTD classifica como uma caixa de entrada: itens aleatórios sobre os quais não dediquei atenção ainda. Sempre que eu chego em casa com correspondência ou algo físico a que eu precise dedicar atenção (nem que seja guardar num lugar especial), eu coloco na bandeja, para posterior processamento. O mesmo vale para qualquer pedaço de papel no qual eu tenha escrito alguma coisa que precisa ser transformada em outra coisa.

Na gaveta do meio, entram os Materiais de Suporte a Projetos, i.e., tudo que eu precise usar para projetos ativos na minha vida. Ali estão folders de conferência que preciso estudar com atenção, ingressos para shows já comprados, papers a ler.

Na gaveta de baixo, estão materiais de anotação. Uma cópia do excelente Roube como um artista: o Diário e um bloco de notas.

Aposto que o leitor há de concordar que isso é melhor que ter papeis jogados sobre a mesa.

Como comparação, aqui vai uma foto da minha mesa na Universidade. Parte da minha personalidade nerd é querer ter ambientes consistentes em diferentes lugares.

Estação de trabalho na universidade

E nas gavetas?

Naturalmente, nem tudo cabe na superfície da mesa. Minha incrível esposa organizou minhas gavetas, mantendo sempre o princípio de ter todo tipo de pequenos acessórios à mão. Na primeira gaveta mantenho itens frequentemente acessados ou coisas mais avulsas:

Gaveta no escritório com itens avulsos ou frequentemente acessados

(Detalhe especial para a rotuladora, uma das minhas melhores aquisições recentes).

Na segunda, estão suprimentos, como uma meia dúzia de elásticos e pastas vazias para usar sempre que quiser arquivar…

Gaveta no Home Office com suplementos de escritório

… algo na minha gaveta de documentos:

Gaveta no Home Office com pastas de documentos

Conclusões

Sim, querido leitor: eu gosto de ter tudo à mão e organizado. Com um ambiente robusto assim, fica muito mais fácil desenvolver os hábitos de produtividade.

Mas me digam: o que acharam do meu setup?