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Reclamar da bolsa de pós-graduação é receita de infelicidade

Num evento recente, um colega que está terminando o mestrado me fez alguns questionamentos sobre a vida de doutorando. Dentre os vários assuntos discutidos, um em particular me chamou a atenção a tal ponto que achei que renderia um post interessante. A grosso modo, aqui está o pensamento do meu colega:

Um estudante de doutorado é antes de tudo um mestre, e portanto deveria ser remunerado como tal. Se a média dos salários de um engenheiro mestre que entra numa empresa de alto nível é X, então a bolsa de doutorado deveria ser próxima de X, principalmente se o doutorando trabalhar em projetos ligados a uma empressa desse tipo.

Vou falar para vocês, leitores, o que falei para ele:

Equiparar a bolsa de pós-graduação com o salário dos colegas que se formaram com você é uma receita garantida de infelicidade e frustração profissional.

Perdoem a minha possível arrogância, mas eu posso garantir a vocês que eu ganho muito menos do que a minha inteligência vale, porque eu não trabalho em nada diretamente rentável. Como diz Gustavo Cerbasi, quando você trabalha em uma corporação você está na verdade dedicando tempo a enriquecer os patrões, e recebe uma “indenização” na forma de salário por conta desse tempo gasto em benefício dos outros. Como assalariado, você contribui effetivamente para o produto ou serviço da sua empresa. Como pós-graduando, porém, você não está participando dos lucros de nenhuma empresa (nem mesmo das universidades); é muito difícil traçar uma linha direta entre um trabalho de pesquisa e o retorno financeiro para a universidade, agência de fomento ou empresa.

Portanto, um estudante de mestrado e doutorado investe tempo primariamente em si, na sua formação (palavras do meu amigo e co-orientador Jaime). A nossa bolsa é simplesmente um auxílio (como confirma esse texto bastante catastrofista da Galileu) que recebemos de agências de fomento ou mesmo de empresas por participar de projetos estratégicos a elas; a bolsa não é uma medida do nosso trabalho. Como consequência, também não temos benefícios trabalhistas nenhum, como férias, décimo-terceiro, vale-alimentação. Mas como já falei em outras vezes, isso vem com contra-partidas: eu posso manter o meu regime de trabalho, tenho todos os benefícios brasileiros de ser estudante e passo os dias estudando assuntos extremamente interessantes, ganhando o suficiente para viver de maneira confortável.

Sim, como falei, eu concordo que ganhamos pouco, que somos pouco valorizados, que é um absurdo as bolsas ficarem congeladas enquanto a inflação sobe. Também não morro de felicidade quando vejo meus colegas comprando carro e apartamento (nem todos, porque a economia do Brasil como um todo está mal). Mas isso não me abate, porque eu escolhi isso. Eu quero seguir a carreira acadêmica, por acreditar que ela é ideal para mim, e as pessoas à minha volta me apóiam; o doutorado é uma etapa transitória mas necessária, cheia de sacrifícios e de experiências boas rumo ao desafio de ser professor em uma boa universidade.

Num texto meio exagerado, o Prof. Matt Might diz que a vida de doutorado se assemelha à vida monástica, incluindo um voto de pobreza. Acredite em mim quando digo que os pós-graduandos mais infelizes e com menor chance de sucesso são aqueles que se deixam desmotivar porque acham que ganham pouco, enquanto que aqueles que tem mais sucesso depois são aqueles que abraçam esse período, com todos os seus desafios, sempre pensando nos objetivos finais.

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Duas dicas para lidar com a desmotivação durante a pós-graduação

Um leitor deixou um comentário em outro post, dizendo que está fazendo mestrado em uma área diferente da sua formação, está tendo problemas em trabalhar com seu orientador e que se encontra desmotivado de maneira geral. Comecei a respondê-lo, mas logo vi que um assunto dessa importância merecia um post público, para que outras pessoas possam visualizar também.

Acredito que não exista estudante de pós-graduação que não se sinta terrivelmente desmotivado em pelo menos algum instante. Eu mesmo passei por isso: no meio de meio mestrado, uma sequência de coisas começaram a dar errado (incluindo tubos de vidro explodindo, jogando água e cacos de vidro pelo laboratório todo), e comecei a esbravejar para meus amigos me internarem se eu resolvesse fazer doutorado, depois de passar por tudo isto. Bem, aqui estou no supra-citado doutorado há mais de um ano. A empolgação de terminar o seu trabalho, ver um documento científico com seu nome e o diploma com o título de Mestre mais do que compensam as dificuldades.

Porém, antes da alegria da conclusão, o desânimo é um problema real e mal abordado. Fazer mestrado ou doutorado é ingrato: você ganha pouco, trabalha muito, tem de enfrentar a burocracia da pesquisa brasileira e ainda tem de ouvir de todas as pessoas à sua volta a pergunta “mas você só estuda?”. Mas também é um privilégio: você (ao menos teoricamente) ganha dinheiro para estudar e se debruçar no que (também teoricamente) gosta, não têm um chefe para lhe dar ordens, tem todos os direitos de estudante, têm horários mais flexíveis. O segredo está em saber então aproveitar essas vantagens e adquirir hábitos que ajudem a passar por fases ruins. Tenho duas dicas principais.


Em primeiro lugar, com toda a discussão de pós-graduação ser trabalho ou não, ela certamente tem elementos de um trabalho “normal”. Quando você ingressa em um programa de pós-graduação, você carrega o nome do programa em tudo o que você faz: se você se atrasa para defender a sua dissertação ou tese, isso é reportado às agências de fomento e o seu programa perde pontos; quando você publica um artigo ou se apresenta em algum congresso, o nome da sua instituição é uma das primeiras coisas que aparece; quando você sai para trabalhar em algum lugar, você provavelmente será “o fulano que veio de tal universidade”, pelo menos para algumas pessoas. E se você ganha bolsa, isso pode estar atrelado aos esforços do seu orientador. Portanto, você não é um mero estudante, mas sim alguém que deve prestar contas de alguma forma, ainda mais se participa de algum grupo de pesquisa, fazendo com o próprio trabalho de outras pessoas dependa do seu.

Por esses motivos, tratar o ritmo de pós-graduação com profissionalismo é, na minha opinião, uma das coisas mais sensatas a se fazer, e isso envolve ter rotinas de trabalho. Sei que sou minoria, mas nunca em toda a minha jornada de mestrado ou doutorado virei noites no laboratório, assim como abomino a ideia de fazer do trabalho em fins de semanas um hábito (embora vésperas de prazos para artigos ou defesas sejam motivos aceitáveis, para mim). Algo que sempre me ajudou, mesmo nos piores momentos de desânimo, foi não abandonar o ritmo da vida cotidiana. Mesmo com tubos explodindo, eu ia correr quase toda manhã, ficava com minha namorada nos fins de semana, mantinha os horários das refeições e pelo menos aparecia para trabalhar todo dia, mesmo que seja para escrever um parágrafo de algum relatório.

Se você está desmotivado, a pior coisa que você pode fazer, na minha experiência, é seguir os extremos: ou se tornar a pessoa relapsa na qual ninguém confia, ou trabalhar demais para resolver os problemas rápido e ficar permanentemente cansado. A solução para o primeiro eu já falei: por pior que você se sinta, tente pelo menos, de segunda a sexta, sentar em alguma cadeira e fazer alguma coisa, qualquer coisa; uma vez vencida essa inércia inicial, você pode acabar entrando no ritmo. E a solução para o segundo problema teoricamente é fácil; durma o número de horas suficiente, alimente-se bem (nada de almoçar uma coxinha), exercite-se, e quando chegar em casa descanse, veja um filme, toque violão. Acredite: às vezes é tudo uma questão de energia.


A segunda dica se refere a aproveitar ao máximo as partes boas do seu mestrado ou doutorado. Você pode estar desmotivado com alguma coisa, mas certamente há outras nas quais você é bom e das quais você gosta. Já falei por aqui que o mestrado me ensinou que as pessoas que se destacam são aquelas que se especializam em algo paralelo à sua profissão, como engenheiros que são apaixonados por fotografia e se tornam admirados pelas imagens que eles produzem para seus trabalhos. O leitor que deixou o comentário que originou este post disse que estava tendo dificuldades em estudar o tópico (presumivelmente ao fazer a revisão da literatura). Caro leitor, deve haver algo de que você goste no seu trabalho (caso não haja nada, pode ser hora de procurar ajuda psicológica e conversar com seu orientador sobre possibilidades de mudar de projeto); aproveite ao máximo as suas horas nesse trabalho. Se ler artigos está chato, mas você gosta de desenhar, então produza os melhores desenhos possíveis. Se você tem de criar modelos numéricos, odeia programação mas gosta de escrever, pratique a escrita — talvez sobre o seu modelo numérico.

Como falei anteriormente, a primeira atitude é criar um sistema manter o profissionalismo, e pelo menos sentar para trabalhar. Ao começar o dia, resolva as suas prioridades primeiro, mas não deixe de fazer coisas das quais você gosta. Agora mesmo, são 16:30 da tarde e eu me dou o luxo de estar escrevendo este blog — mas só depois de ter passado mais de 4 horas trabalhando no Exame de Qualificação.


Essas são as duas principais dicas, baseados no que eu vivi e no que observo das pessoas à minha volta. Conheci algumas pessoas que adoravam reclamar da vida e se dizer arrependidas por fazer mestrado/doutorado, mas muitas delas achavam que a solução era dormir o dia inteiro para poder jogar videogame, ter horários caóticos e atrapalhar o trabalho dos outros (e essas pessoas não deixaram uma boa impressão). Por mais desmotivado que você esteja, você assumiu um compromisso (como falei anteriormente), e simplesmente não fazer nada não resolve a sua situação. Conheci também algumas pessoas que não estavam 100% felizes, mas que podiam ser encontradas todo dia no laboratório avançando no seu trabalho, motivando-se a terminar da maneira mais rápida para poder partir para outros projetos.

Um último caso, pode ser que você precise de ajuda mais especializada (recentemente conhecida minha teve séries crises nervosas e está precisando de atendimento psicológico). Considere também delimitar um período de férias (mas de no máximo uma semana), dedicada unicamente a fazer você refletir sobre a sua vida, ou no limite pedir trancamento para que você embarcar em outra jornada, pelo menos temporariamente. Mas, enfatizo novamente, faça alguma coisa.

Sei que fazer pós-graduação não é fácil. Espero que essas dicas possam trazer alguma luz a meus leitores que estejam passando por estes problemas.

Coisas que aprendi com o mestrado – a sua profissão não é o bastante

Em março de 2012 eu recebi o grau de Engenheiro, habilitação Mecânica, depois de cumprir todos os requisitos necessários. Cumpri os créditos necessários, começando com os alicerces de Cálculo, Álgebra Linear, Desenho, Física e Programação e avançando para coisas mais específicas: Termodinâmica, Mecânica dos Sólidos, Usinagem, Moldagem de Polímeros, Mecânica dos Fluidos, Soldagem, Teoria de Projeto, Mecanismos, Elementos de Máquinas. Fiz um projeto pequeno de pesquisa e publiquei um TCC. Fui para a Alemanha fazer estágio em um instituto de pesquisa, onde trabalhei com pesquisadores e engenheiros para criar um programa que auxiliasse no projeto de refrigeradores.

A questão é, todo engenheiro mecânico formado numa Universidade boa tem essa formação. Como sempre fiquei do lado da pesquisa, eu nunca trabalhei profissionalmente como engenheiro, mas acho que seria um bom profissional. Porém, nada disso do que falei me distingue de outros.

Nos dois anos em que fiz mestrado, convivi com muitos engenheiros, alguns colegas meus da época de graduação, outros de outras regiões. E percebi que se destaca quem é bom em outra coisa além da sua formação, e isso é uma das coisas que aprendi com o mestrado.


Não estou nem entrando no mérito de que você não é o seu trabalho e você precisa ter um hobby. A questão é, mesmo dentro do contexto de seu trabalho, acho que é fundamental ter habilidades fora da sua profissão.

Na minha dissertação, uma parte importante era visualizar o fenômeno (especificamente, a formação de espuma em misturas de óleo lubrificante — o que vai dentro de motores e compressores — e fluido refrigerante — aquilo que circula dentro da geladeira), o que envolve fotografia e filmagem. Fotografar um processo rápido como uma bolha se formando em uma mistura turva, dentro de um recipiente altamente reflexivo como vidro, envolve mais habilidades que as fotos #nofilter dos seus amigos no Instagram, com muitos detalhes de foco, iluminação, controle, e eu sabia exatamente a quem pedir ajuda (obrigado, Daniel!). Se eu precisava de ajuda sobre o programa que usávamos para ler dados, tinha a pessoa certa em mente (obrigado, Dalton!), para a pergunta certa. Se queria saber mais detalhes sobre um medidor em particular, geralmente existe alguém no laboratório que sabe tudo sobre esse determinado equipamento (geralmente o meu amigo Moisés). Se tinha um dúvida cruel de MATLAB, tinha geralmente alguém (obrigado, Pedro!) que poderia me responder a pergunta.

(Quanto a mim, sem falsa modéstia geralmente sou reconhecido como “o cara do LaTeX”, um posto de que humilde e secretamente me orgulho).

Nada disso é “engenharia mecânica” em si; nós não temos aulas de fotografia ou de técnicas avançadas de programação, mas quem dedica seu tempo a dominar uma dessas atividades geralmente tem bons resultados. Um engenheiro que saiba muito de fotografia sempre vai conseguir ilustrar brilhantemente o seu trabalho, e engenheiros adoram visualizar coisas. Um engenheiro que seja excelente em programação geralmente vai se sair bem na criação de códigos de simulação, e pode então se concentrar em outras partes difíceis do seu projeto. Quanto a mim, admito que perco talvez até tempo demais pesquisando sobre LaTeX, mas é um pequeno hobby intelectual que ajuda muito na fundamental parte de reportar os resultados — meu mestrado teve muitos momentos difíceis, mas escrever e produzir a dissertação final não foi uma delas, pois eu já dominava a técnica.

Se você não confia no que eu digo, por achar minha experiência limitada, saiba que até um professor de computação e Steve Martin concordam comigo.


Um dos maiores benefícios que o mestrado me trouxe é aquela velha história de “abrir a cabeça”. Uma antiga colega reclamava de que as coisas num laboratório de pesquisa andavam muito devagar, ao que um amigo (e hoje professor de universidade federal) respondeu que “aqui a gente para e pensa”. E de fato, quando você se dá um tempo para parar e refletir sobre um problema, percebe que existe muito por trás, muita coisa esperando para ser aprendida. E lá pode estar uma habilidade que você não sabia que tinha e que pode ser o seu diferencial.

Mesmo que você não tenha a rotina de um estudante de pós-graduação ou pesquisador, pode identificar algo no seu trabalho que pode o distinguir de outros. Os benefícios são duplos: você será reconhecido, e achará algo dentro do seu universo de tarefas chatas a fazer que realmente lhe traz satisfação intelectual.

Coisas que aprendi com o mestrado: na graduação não há tempo para pensar

Esta é uma série sobre o que eu aprendi com o mestrado.


Não que quem leia este blog não saiba, mas no Ensino Médio eu era parte de uma daquelas tribos esquisitas que gostava mais de Física que de Educação Física. Tinha gente bem pior que eu, claro, que adorava discutir a origem do universo ou as implicações da mecânica quântica, mas eu realmente queria entender o máximo possível por achar tudo aquilo fascinante. E uma das minhas maiores frustações intelectuais foi sair da escola sem ter entendido aquele negócio chamado de quantidade de movimento.

O leitor talvez lembre das aulas do Ensino Médio (se já o concluiu), dizendo que a quantidade de movimento de uma partícula era o produto da sua massa pela sua velocidade. Mas e daí? O que é isso?

Talvez seja mais provável que o leitor lembre da famosa Segunda Lei de Newton, que diz que a força resultante sobre uma partícula é o produto da sua massa pela sua aceleração. Esta é a equação básica da Mecânica e uma das Equações Fundamentais da Engenharia Mecânica (nome pomposo meu). Este é um conceito mais fácil de entender: existe uma coisa, um tipo de ação, chamado força, que faz um objeto mudar de velocidade; objetos de maior massa (maior inércia) aceleram menos.

Voltemos à quantidade de movimento. Quando entrei na faculdade, achei que ia entender melhor esse conceito, mas as disciplinas das primeiras fases lidam com situações muito simples, assumindo que tudo é uma partícula. De repente, você começa a saltar para disciplinas mais sofisticadas, como Mecânica dos Fluidos e Dinâmica, e está usando a quantidade de movimento a todo instante sem nem saber direito o que é. Novamente, frustrei-me ao me formar sem saber o que era isso.

Depois, quando fiz as disciplinas do mestrado, veio a luz.


Uma situação muito interessante e fácil de visualizar é uma roda d’água.

Enchanting Waterwheel

(Foto do Peter Kurdulija no Flickr.)

A água vem por um cano, entra em contato com a roda, que passa a girar; ao mesmo tempo, a água segue uma determinada trajetória, numa determinada velocidade. Todos podemos concordar que a roda faz força sobre a água, o que nos estimula a aplicar a Segunda Lei de Newton. Mas qual é a “massa” da água? A roda faz força sobre uma porção de água, mas essa porção não é um corpo rígido; parte da água que bate na roda vai seguir por um caminho, parte por outro. Num instante seguinte, a água que estava em contato não está mais, dando lugar a outra quantidade de água. Como definir uma partícula para a qual aplicamos a Segunda Lei? Se escolhemos uma gota de água, de massa fixa, até poderíamos aplicar esse modelo, mas a força que age sobre ela seria altamente dinâmica (existe a força da pressão atmosférica, a força da pressão da própria água etc).

É muito mais fácil analisarmos este problema de outra forma. Imagine o escoamento da água como um todo. Diferentes locais vão exibir diferentes velocidades. A força da roda age sobre um ponto; este ponto por sua vez faz força sobre outro ponto, que age sobre outro ponto e assim por diante. A água que é acelerada pela ação da força “empurra” outra região da água.

A essa informação sobre forças que é transmitida ao longo de um escoamento é dado o nome de quantidade de movimento. O problema da roda d’água é um problema de transferência de quantidade de movimento, que é uma forma mais generalizada da Segunda Lei de Newton. O produto da massa pela velocidade é apenas uma forma matemática de expressar esse conceito, e não é o conceito em si.


Eu só pude aprender esse tipo de coisa no mestrado porque eu tive tempo para pensar. Na faculdade, fazendo mais de 20 créditos por semestre, com todos os prazos de provas e trabalhos, e mais um emprego, estágio, iniciação científica etc, é impossível pensar, e isso é uma das coisas que aprendi com o mestrado.

Não sou pedagogo, nem filósofo, nem especialista em políticas públicas. Também não quero me gabar, dizendo que sou muito mais inteligente só porque fiz mestrado (inteligência é algo muito relativo). Quero apenas dizer, como alguém que saiu da graduação e continuou os estudos, que ali se aprende o básico do básico, e que é importante todos terem isso em conta. Não é possível ter uma formação abrangente em apenas cinco anos, e o preço a pagar é essa falta de tempo para ter discussões do mestrado.

Claro, aprofundar-se é um objetivos de se fazer pós-graduação. Com o mestrado, aprendi o quanto me faltam alguns conceitos básicos, e sei que quando terminar o doutorado ainda vai haver muito a aprender.

Acreditem, só sei que nada sei não é apenas um clichê.

Coisas que aprendi com o mestrado

No dia 30 de junho de 2014 eu defendi a minha dissertação de mestrado, intitulada Análise experimental e teórica da formação de espuma em misturas óleo-refrigerante, fui aprovado e, após fazer as correções necessárias, recebi o título de Mestre em Engenharia Mecânica.

Esses dois anos e meio foram o maior projeto individual em que me envolvi. Sim, uma graduação demora muito mais, mas o mestrado é um projeto meu. Eu estudei, fiz o projeto dos equipamentos e da bancada de testes, desenvolvi programas de computador para fazer cálculos e realizar medições, planejei e conduzi experimentos. Claro, tive muita ajuda, sem a qual não seria possível fazer este trabalho — mas ainda assim é o meu trabalho.

Pensei em desistir várias vezes no meio do caminho, como depois de ver minha bancada (de vidro) estourar em alta pressão algumas vezes, ou cansado da burocracia para comprar equipamentos, ou desanimado com a falta de interesse de muitas pessoas em ajudar (que teoricamente são contratadas para isso), ou inconformado com as particularidades de se estudar em uma universidade pública. O momento de revelação foi quando percebi o quanto estava sendo ingênuo: sempre há do que reclamar. Amigos meus que trabalham em diversas repartições públcas reclamam dos conchavos políticos ou dos cabides de emprego; os que trabalham na iniciativa privada relatam intrigas entre colegas, demandas de horários absurdas, alienação dos chefes (quando só querem saber de resultados) aos problemas dos funcionários.

Problemas existem em todo canto. Quando assumi isso, e comecei a dar muito mais ênfase às coisas boas do mestrado, tudo mudou. O que estou fazendo é simplesmente construir a ciência. Eu, o garoto que sempre gostou de ciência, que sempre pareceu entender a Física e a Matemática quando todos os outros só viam sentido em Educação Física, de repente estava participando ativamente disso — e mais, eu podia fazer disso uma carreira. Eu podia ser, no futuro, uma dessas pessoas cujos nomes aparecem em livros de Engenharia e são conhecidas por milhões de estudantes em todo o mundo. Eu aceitei que eu jamais poderia ser feliz num emprego de escritório, burocrático; como já escrevi, o meu mundo é de quadro-negros e bancadas. Eu nasci para ser cientista e ser professor, e quero ser o maior especialista na minha área no mundo.

Ao longo das próximas semanas, vou publicar aqui em FabioFortkamp.com uma série de posts com algumas reflexões sobre esse período. Meu objetivo principal é ajudar quem por acaso queira seguir essa carreira, mas não nego que esta é uma ótima oportunidade para mim mesmo de fazer um balanço e aprender com os erros.

E antes que alguém pergunte, é claro que já comecei o doutorado.

Afinal, mestrado é trabalho ou estudo?

Boa pergunta, pequeno padawan.

É trabalho?

Vamos começar com a visão mais controversa e a que os estudantes de
mestrado mais adoram, a de que “fazer mestrado” é trabalhar. Quando
estamos saindo de casa para ir à universidade, dizemos “estou indo
trabalhar”, por exemplo. E assumimos nosso pior humor quando alguém diz
o clássico “cansado de quê, se você não trabalha?”.

Não é de todo absurdo considerar o mestrado uma forma de emprego.
Algumas das minhas atividades do mestrado são:

  • Contactar fornecedores, pedindo orçamentos de equipamentos
  • Escrever relatórios
  • Desenvolver programas de computador
  • Prestar contas a órgãos competentes
  • Projetar bancadas
  • Monitorar testes

Se alguém viesse me dizer suas responsabilidades num emprego tal
seriam essas, eu acharia bem normal.

Mas se é trabalho, então:

  • Por que não temos direiros trabalhistas básicos como férias e décimo
    terceiro?
  • Por que, se no contrato de bolsa não é estipulado nenhum horário,
    não podemos ter remuneração extra (ninguém pode, por exemplo,
    receber a bolsa para “trabalhar” no mestrado durante o dia e ter um
    emprego não relacionado à área de formação à noite – se tem salário,
    não pode receber bolsa)
  • Por que não existe qualquer resquício de gerência de recursos
    humanos nos grupos de pesquisa?
  • Por que alguns colegas se recusam a trabalhar e nada pode ser feito
    a respeito disso?
  • Por que os órgãos de fomento deixam claro que estão fazendo um favor
    em pagar a bolsa?

Ah, então é estudo!

Eu particularmente concordo com essa linha de pensamento. Para todos os
efeitos legais, eu estou desempregado. Tenho um diploma de engenheiro,
quero ter um outro diploma, então eu me dedico a desenvolver um projeto
de esquisa; o governo e as fundações, em troca, pagam-me uma bolsa
justamente para que eu não precise de um emprego. Somos completamente
isentos de imposto de renda e, em contrapartida, completamente isentos
de direitos.

Ah, também pagamos meia-entrada no cinema e no ônibus.

Mas, se fazer mestrado é estudar, então:

  • Por que a maioria dos programas de educação do governo só contemplam
    alunos de graduação? Pós-graduação não é educação?
  • Por que de vez em quando recebo emails dizendo “os alunos são
    obrigados…” – o que é isso, é uma empresa?
  • Por que tem gente que fica fiscalizando meus horários? Eu tenho
    prazos definidos pelo meu orientador, e tenho que cumprir as tarefas
    entre eles, mas a maneira como eu distribuo meu tempo não é da conta
    de ninguém. Se eu quiser voltar para casa um dia no meio da tarde,
    eu deveria ter total liberdade, desde que eu entregue os resultados
    no tempo certo. Se eu quiser tirar um dia para ir à praia, eu
    deveria ter total liberdade, desde que eu entregue os resultados no
    tempo certo.

Ninguém sabe o que é

Fazer mestrado tem as suas facilidades e os seus problemas, e não quero
fazer desse texto um desabado. Quero apenas chamar a atenção para essa
indefinição que angustia a minha cabeça e, acho, a de muitos colegas.
Percebi que pós-graduação é um tema olhado com muita desconfiança no
Brasil.

Não se trata de dinheiro, já que uma bolsa de mestrado é maior que o
salário de muitos amigos meus. Não se trata de respeito, já que
felizmente estou rodeado de pessoas que me apoiam. É uma questão de
escolha. Quando saem da faculdade, uns vão estudar para concursos,
outros vão procurar emprego, outros vão viajar e pensar na vida, e
outros vão continuar estudando. Vamos parar com essa diferenciação?