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Meu setup no Todoist: lista de estudos

Na sua teoria de fluxo, Mihaly Csikszentmihalyi fala que um dos fatores que fazem as pessoas encontrarem prazer no seu trabalho (sem se tornar workaholic) é adicionar variedade: você nunca fica entediado, ao mesmo tempo em que não têm uma atividade âncora na qual pode ficar viciado e não querer/conseguir fazer mais nada.

Ontem, falei de como ordeno minhas tarefas no Todoist para colocar as mais antigas no topo da lista. Aqui está a minha lista de tópicos a estudar, tanto para me preparar para concursos quanto para reforçar assuntos que preciso passar aos alunos:

A prioridade hoje parece resolver exercícios de Mecânica dos Fluidos – e repare como eu coloco etiquetas de assuntos (com cores diferentes) para identificar qual é o tópico da vez, e também para garantir a variedade de que falei: há tarefas de ler, e tarefas de resolver exercícios; há tarefas de várias áreas diferentes, que referenciam livros diferentes. Todo dia, quanto sento para estudar, há um desafio novo. Como professor de 5 disciplinas diferentes, isso me ajuda a ver conexões entre os tópicos.

Após resolver os dois exercícios no topo da lista, e tentando ser o mais específico na hora de resolver, imaginando como explicaria isso para algum aluno, eu decidi que está na hora de passar para uma próxima seção; então adiciono uma nova tarefa nessa lista – mas, por causa da ordenação, a nova tarefa foi para a parte de baixo deste projeto:

Assim, na próxima vez em que for estudar, vou descansar a cabeça de Mecânica dos Fluidos e me dedicar um pouco à Transferência de Calor. Na vez seguinte, vou estudar Termodinâmica. Eu nunca estou entediado e nunca hiper-especializado em um assunto apenas; quando chegar a vez de fazer algum concurso, eu não vou estar muito adiantado em um tópico e completamente atrasado em outro.

Eu roubei essa ideia em partes dos ótimos textos da Thais Godinho sobre ciclos de estudos. Espero que isso ajude a leitora a encontrar mais motivação e prazer ao estudar.

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Como eu corrijo trabalhos no iPad

Hoje de manhã, eu postei a minha lista de tarefas no LinkedIn:

Nesse mês de novembro, meu foco está em corrigir a primeira rodada de avaliações, enquanto preparo a segunda. Isso significa que há dias como hoje, onde eu tenho 11 trabalhos a corrigir. Podia ser pior.

Nesse tempo de aulas remotas, não há entrega de relatórios de papel, apenas documentos em PDF via Moodle. Após a entrega dos trabalhos, eu faço o download de todas as submissões e organizo-as adequadamente em uma pasta no OneDrive, meu sistema de sincronização de arquivos. Eu então contabilizo quantos trabalhos há a corrigir e qual o prazo eu tenho; minha universidade exige que as notas sejam disponibilizadas em até 10 dias úteis ou 48 horas antes da próxima avaliação, o que vier primeiro – ambos os critérios são bem razoáveis. Eu então faço a conta de quantos trabalhos há para corrigir em cada dia, conforme mostrado acima.

Para garantir o máximo de uniformidade, eu monto uma planilha de avaliação para cada trabalho:

O segredo está em ser bem granular na quantidade de critérios para evitar injustiças

Esta planilha é disponibilizada para os alunos durante a confecção do trabalho e está salva na mesma pasta onde guardei as submissões dos alunos. Há então uma nerdice pesada: eu uso um script que adiciona a planilha acima ao final de cada documento em PDF na mesma pasta:

#!/bin/bash

FILES=*.pdf
MODEL="Planilha de avaliação T4 ST1GEE1.pdf"

for f in $FILES
do
    if [ "$f" != "$MODEL" ]; 
    then
        NEWFILE="Avaliação_$f"
        echo "Processing file $f into $NEWFILE";
        pdfunite "$f" "$MODEL" "$NEWFILE"
    fi
done

Ao executar esse script na pasta dos trabalhos, eu tenho então uma lista de trabalhos, onde a última página é uma planilha para eu ir preenchendo conforme leio:

Ao longo dia de trabalho, vou lendo os trabalhos na ordem, e vou fazendo anotações ao longo do documento e na planilha ao final:

Eu sou muito chato quando estudantes não denotam unidades, por mais óbvias que sejam

Eu faço anotações no app Documents da Readdle com o meu Apple Pencil 1a geração, e uso a cor verde para ser menos agressivo (dica que tirei do Presentations Field Guide).

Ao terminar todas as correções, faço o upload dos documentos modificados no Moodle de volta.

Como eu falei ontem: não é divertido, mas tento ser o mais justo possível.

Professores: como vocês lidam com essa tarefa?

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Como preparo listas de exercícios

Ontem eu escrevi sobre como tenho continuamente melhorar no que eu faço. Uma parte essencial de ser um bom professor é dar boas oportunidades para os alunos praticarem o que aprendem na aula; em Engenharia, isso significa Listas de Exercícios.

Final de semana, estou quase lá

Na semana passada, ao revisar a quantidade enorme de trabalhos a corrigir e listas de exercícios a desenvolver, além da recorrência semanal de preparar aulas, eu decidi que a maneira mais efetiva de dar conta é simplesmente fazer um pouco a cada dia. Acima, o Todoist me lembra das pequenas tarefas a cumprir hoje: um capítulo a estudar, exercícios a preparar, uma aula a revisar. Este esquema deve se repetir todo dia deste mês, que está bem mais cheio que o normal, então só me resta respirar fundo e viver um dia cheio após o outro, sem abandonar as brincadeiras com meu filho, os filmes com minha esposa, as corridas, a meditação, a corrida (a prática musical de teclado tem sim ficado de lado).

Quando eu de fato vou trabalhar em cada lista, eu abro os livros da Bibliografia indicada e vou selecionando os exercícios que me chamam a atenção e que estão de acordo com os objetivos de cada curso. Muitas vezes eu modifico os enunciados para encorajar análises mais interessantes.

Para de fato escrever as listas, eu uso LaTeX, e um esquema que acho que tem sido efetivo é adicionar as respostas diretamente no arquivo, para os alunos verificarem os seus desenvolvimentos. Eu adoraria providenciar um Manual de Soluções completo para cada lista, mas as tarefas diárias acima não me permitem abraçar a responsabilidade adicional de digitar todas as soluções. Eu salvo as resoluções, tiradas dos manuais oficiais ou mesmo criadas por mim, para o caso dos alunos virem tirar dúvidas de algum item.

Este tem sido um grande melhoramento em relação ao semestre passado, quando eu admito que faltaram oportunidades para praticar. Essa rotina diária de estar envolvido com exercícios e trabalhos me faz ficar mais conectado com a rotina de estudo dos alunos e com a própria preparação de aulas.

Professores que lêem este blog, ou mesmo alunos meus: alguma sugestão de como melhorar esse processo?

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Como tento melhorar no que eu faço

Eu estudo.

Ultimamente, o assunto que não sai da minha cabeça é Projeto de Sistemas Térmicos. Eu ministro muitas disciplinas que seguem o esquema de similares porém diferentes: a teoria é muito parecida, as equações governantes são as mesmas, as aplicações são similares. Motores de combustão interna e usinas termelétricas são exemplos de máquinas térmicas; máquinas térmicas seguem ciclos que, se revertidos, geram refrigeradores; e o projeto de refrigeradores é muito dependente de trocadores de calor.

É por isso que ultimamente, tenho me dedicado a livros que abordam esses assuntos como um todo, e não como disciplinas em separados, na tentativa de trazer detalhes mais práticos para os alunos e apontar situações reais, de projetos de engenharia. Os assuntos que vemos em sala de aula não são maluquices teóricas de sala de aula! O projeto de motores, tubulações, condicionadores de ar, processos industriais – tudo isso se baseia nos princípios vistos nas minhas disciplinas.

Foto de livros de projetos de sistemas térmicos

Eu noto grande dificuldade dos meus alunos em combinar assuntos de cursos diferentes; muitos me acompanham ao longo de vários semestres, e, em uma disciplina avançada, não parecem lembrar dos conceitos preliminares vistos em semestres anteriores. Isto é natural, já que eles estão em começo de carreira. Mas, se eu enxergo uma dificuldade de ensino, eu quero me aprimorar para me tornar tão bom que os outros não podem me ignorar.

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A Segunda Lei da Termodinâmica não é um acessório

Hoje eu dei uma aula de Refrigeração para a qual eu me preparei com muito mais intensidade que outras deste semestre, principalmente porque é um assunto que vem crescentemente me envolvendo: a Segunda Lei da Termodinâmica.

Tentativa de explicação para leigos em um parágrafo: a Primeira Lei diz que a energia total de um sistema se conserva, através de transformações de calor (dependente de temperaturas) ou de trabalho (forças). Você pode aumentar a energia sensível da sua mão colocando próxima do fogo ou esfregando-as uma na outra. A Segunda Lei estabelece limites: você pode transformar a potência gasta ao esfregar as mãos em calor, mas não pode esquentar (ou mesmo esfriar) as suas mãos e esperar que elas se movam espontaneamente como consequência. Existe uma assimetria na energia.

Adrian Bejan diz que existe na engenharia uma “tradição focada em solução de problemas” que tende a ignorar a Segunda Lei em favor apenas da Primeira Lei da Termodinâmica, que é o que permite de fato calcular trocas de calor e potência (e, em último grau, gastos de energia elétrica ou de combustível). Porém, a Segunda Lei, com seus limites, suas desigualdades, é o que diz como melhorar um sistema; ela estabelece até que ponto podemos mudar as quantidades de calor e trabalho. Um motor de combustão interna que absorva toda a energia do combustível e gere trabalho nas rodas, sem soltar nada na descarga, é possível pela Primeira Lei, já que a energia se conserva, mas não pela Segunda Lei, que estabelece que a conversão de calor em trabalho não pode ser perfeita.

Nos seus Elementos de Máquinas Térmicas, Zulcy de Souza chama a atenção de que foi a crise do petróleo da década de 1970 que chamou mais a atenção da Engenharia para esses conceitos de Segunda Lei, pois é ela que ilumina o caminho para maiores eficiências.

Como professor de Engenharia Mecânica, eu estou fazendo a minha parte. A Segunda Lei é parte integral do estudo de energia; entretanto, exige maior capacidade de análise de engenharia, e mais criatividade na identificação de estratégias para usar melhor a energia.

Você, aluno meu ou não, está disposto a estudar mais que os outros para mergulhar nesse assunto? Você, engenheira experiente ou iniciante, está preparada para melhorar o uso de energia no mundo?

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Termodinâmica baseada em evidências

Ao discutir conceitos de Termodinâmica com meus alunos, às vezes tenho a impressão de que é fácil se perder em conceitos abstratos que parecem pertencer apenas a livros-texto, como “disponibilidade”, “irreversibilidade”, “idealidade”, ou o pior de todos, “entropia”.

Estou numa vibe (ainda se usa isso?) de estudar projetos de sistemas térmicos (mais sobre isso em post futuro), e o excelente Thermal Design and Optimization de Bejan e colaboradores tem alguns lembretes de que a Termodinâmica é baseada em evidências, fatos comprovados repetidamente por experimentos.

Traduções livres minhas:

Métodos baseados em experimentos estão disponíveis para avaliar a transferência de energia por calor.

Bejan, A.; Tsatsaronis, G.; Moran, M. Thermal design and optimization. [sl]: John Wiley & Sons, 1996.

e

Da experiência se acha que ciclos de potência são caracterizados dualmente por uma adição de energia por transferência de calor e uma rejeição de energia por transferência de calor.

Bejan, A.; Tsatsaronis, G.; Moran, M. Thermal design and optimization. [sl]: John Wiley & Sons, 1996.

e

A experiência com ciclos de potência mostra que a eficiência térmica é invariavelmente menor que 100%.

Bejan, A.; Tsatsaronis, G.; Moran, M. Thermal design and optimization. [sl]: John Wiley & Sons, 1996.

Finalmente:

A base para a Segunda Lei da Termodinâmica, como para todas as outras leis físicas, é a evidência experimental.

Bejan, A.; Tsatsaronis, G.; Moran, M. Thermal design and optimization. [sl]: John Wiley & Sons, 1996.
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Metodologias Ativas em Ensino de Engenharia – O Plano

A frase sobre metodologias ativas para copiar e colar em textos sobre metodologias ativas é “colocar o aluno como protagonista da aprendizagem” [1], geralmente seguida por “o aluno deve fazer mais e o professor falar menos”. Como qualquer aluno meu pode atestar, eu estou precisando falar menos.

Há algumas semanas, eu descrevi aqui uma série de planos para melhorar as minhas disciplinas (1,2,3,4,5). São bons planos, todos centrados em “guiar melhor os alunos em explorar Engenharia”, mas agora que o semestre começou, eu percebo como é difícil mudar a minha maneira verborrágica de dar aula e como é preciso corrigir o curso desde já.

Aqui está o plano.

Escolhendo a sua avaliação

Nós só aprendemos de fato fazendo, preferencialmente experimentado a partir de problemas relevantes para nós [1]. É por isso que estou incluindo entre as avaliações da maioria das disciplinas um componente de “você escolhe o problema”. Você aprendeu sobre transferência de calor – e agora, que problema relevante na sua vida você quer resolver com esse conhecimento? (curiosamente, enquanto escrevo este texto, a ventoinha de meu laptop movimenta-se furiosa e audivelmente – não existe maneira melhor de remover o calor do processador?).

Ferramentas tecnológicas

Há alguns dias, eu encontrei um grande amigo meu, namorado de uma professora universitária. Como é praxe nas minhas conversas, eu reclamo de dar aulas online, e como é praxe dele, ele questiona as minhas reclamações. Com tantas ferramentas digitais, não é possível dar uma aula excepcional pela internet?

Certamente dá, mas eu ainda estou aprendendo a fazer isso.

Quando eu penso na minha experiência como engenheiro, observando os melhores profissionais com quem tive o privilégio de trabalhar, eu vejo duas características em comum:

  1. Elas dominam o básico muito bem dominado – e isso só é alcançado com uma rotina de estudos, preferencialmente de livros bem escritos e que têm reputação entre engenheiros
  2. Elas sabem fazer experimentos – físicos ou computacionais – rapidamente para comprovar alguma ideia.

As minhas disciplinas se agrupam sob o manto das “Ciências Térmicas”, e a atividade básica a todas elas é calcular propriedades termofísicas (energia, entalpia, volume). É por isso que venho enfatizando o uso de Python nas minhas aulas, especialmente com a biblioteca CoolProp. Quando eu era estudante de graduação, eu não tinha smartphones e nem a essas bibliotecas; eu tinha uma calculadora HP-50 e tabelas impressas. Hoje isso mudou, e eu não posso dar aulas como eu tinha. Hoje é possível gerar dados muito rapidamente e aprender com eles – e eu acredito fielmente que essa é uma habilidade essencial do engenheiro que está se formando.

Principalmente nas minhas disciplinas de 3 horas-aula seguidas, tenho tentado dividir as aulas em duas partes: uma parte síncrona de discussões inicias e exploração dessas ferramentas, e outra parte de confiar nos alunos e deixá-los explorar. O que vai sair dessas explorações? Eu não sei; o ensino não é sobre mim, é sobre os alunos.

Um começo de sala de aula invertida

Eu criei um canal no YouTube. Se a leitora visitá-lo, vai ver que o que há não são aulas longas, e sim algumas exposições básicas: o que eu, com um pouco mais de experiência que meus alunos, julgo ser importante considerar e estudar. A ideia é montar essa biblioteca de assuntos básicos e transformar os espaços síncronos em espaços de discussão, deixando os alunos mostrarem suas dúvidas e, utilizando as ferramentas acima, explorar junto com os alunos – mas sem um formato de palestra.

Após mais algumas semanas, eu volto aqui e relato como tem sido.

Referências

[1] Bacich, Lilian; Moran, José (org.). Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018.

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Um professor ainda precisa estudar?

Eu sou incrivelmente privilegiado por ter 3 diplomas de ensino superior armazenados em uma pasta em meu escritório, cada um de um nível diferente (Graduação, Mestrado, Doutorado), todos em Engenharia Mecânica. De acordo com os conceitos populares, eu deveria saber tudo sobre carros, mas de acordo com a minha realidade, eu sou comecei a estudá-los de fato quando fui contratado para ensinar disciplinas de Máquinas Térmicas, há quase dois anos. Hoje consigo responder a perguntas dos meus alunos que a minha versão anterior jamais conseguiria responder.

Mesmo assim, foi só na semana passada que eu realmente entendi por ainda se usam motores de 2 tempos, já que eles são menos eficientes e emitem mais poluentes – eles são simplesmente mais potentes que um motor de 4 tempos de mesma cilindrada e na mesma rotação. Você tinha se ligado disso? Um motor de 2 tempos precisa de apenas dois movimentos do pistão (um para subir, outro para descer) para completar o ciclo, enquanto que a versão mais comum de 4 tempos precisa de mais dois movimentos, e portanto demora mais para completar a sequência de processos, e portanto tem menor potência (energia por unidade de tempo).

Se você quer saber mais, o vídeo abaixo tem mais explicações sobre as diferenças (como eu gostaria que esse canal não usassem tantos palavrões, mesmo mutados):

É por isso que ainda a essa altura eu dedico tempo regular ao estudo. Nesse semestre, eu estou mergulhando no Internal Combustion Engine Fundamentals do Heywood. A edição que tenho é de 1988, mas já apresenta os desafios que aparecem nas propagandas e reportagens em 2021: produzir motores automotivos que sejam eficientes, potentes e que emitam cada vez menos poluentes, tendências que geralmente são opostas: é possível aumentar a potência (até certo ponto) adicionando cada vez mais combustível por injeção, mas isso também aumenta a quantidade de gases tóxicos lançados na atmosfera.

Eu adoro a minha rotina de estudos. Eu sento com um livro e meu caderno, ponho alguma música de concentração, e sinto-me como um aluno (o que nunca vou deixar de ser).

Eu acho impossível estudar sem escrever o que me chama atenção em um caderno

Isso não é perda de tempo? Depende de como você avalia o seu uso do tempo. Eu poderia estar partindo direto para escrever notas de aulas e artigos, tendo livros do lado para consulta, mas eu prefiro dedicar uma quantidade ridícula de horas a estudar livros antigos em profundidade. Mas isso é tempo bem gasto.

Primeiro, como falei, eu extraio prazer dessa atividade. Segundo, como dizem Cal Newport e Scott Young no seu curso Top Performer, a chave de uma carreira de sucesso é imitar carreiras de sucesso; quando eu penso em carreiras acadêmicas de sucesso, eu logo penso em dois amigos que admiro, e a minha memória de quanto trabalhava com eles era que os dois estudavam o dia todo e não participavam de reuniões. Hoje os dois são professores de universidades federais. Curioso.

Na minha carreira, sempre eu venci um senso de urgência (interno ou externo) e me dediquei a estudar um assunto sem pressa, os dividendos foram altos. Eu passei boa parte do ano de 2016 estudando uma Tese de Doutorado bastante complexa. Em 2021, eu ainda uso as notas que tomei como base para escrever artigos – o que seria impossível se eu não tivesse dedicado o tempo para ler, escrever, ler mais um pouco, escrever mais um pouco.

Na profissão da leitora, existe algo que pode ser facilitado ou melhorando simplesmente sentando e estudando?

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Notas do autor

Anunciando meu canal no YouTube

Eu costumo correr escutando podcasts, geralmente o Deep Questions do Cal Newport. Em um dos episódios que escutei recentemente, ele fala de como teve de aprender com criticismo que inevitavelmente vem com um trabalho público (e não quero dizer governamental aqui). Se você quer divulgar suas ideias amplamente, o autor adverte, você precisa estar preparado para lidar com uma legião crescente de haters. Para alguém que já teve que lidar com depressão ativada principalmente por confronto com outros e criticismo, esse assunto é muito importante para mim, e assim parece absurdo o título desse post.

Sim, deixando o meu lado fã de Austin Kleon falar mais alto, eu finalmente criei um canal do YouTube para divulgar o meu trabalho como professor, pesquisador e nerd em geral.

Por que isso? Como eu gosto de listas de três itens, aqui vão 3 parágrafos super informativos:

Primeiro, eu quero treinar minhas habilidades de produzir e publicar conteúdo em vídeos, uma habilidade que sempre é útil para tornar qualquer tipo de comunicação mais atraente. No período de recesso entre semestres, eu até investi em um curso de Screenflow. Mas não se enganem: nessa altura do campeonato, a edição dos vídeos é bem básica.

Segundo, quero divulgar o meu trabalho de professor, tentar construir uma audiência, e levar um pouco de conhecimento de Engenharia Mecânica a todos.

Terceiro, e bastante conectado com os outros, quero melhorar como “apresentador de ideias”. Colocar video-aulas no canal me força a pensar na qualidade e forma de apresentação, bem como me ajuda a coletar feedback de pessoas de fora do meu curso.

O foco inicial é em colocar vídeos didáticos, mas o YouTube não é um Ambiente Virtual de Aprendizagem, e sim um site de hospedagem de vídeos. O meu trabalho real como professor envolve mais que isso: contato com estudantes, espaço para dúvidas, avaliações, exercícios, textos; isso continua sendo feito nas plataformas institucionais da universidade onde leciono. E, não custa dizer, eu tenho autorização do meu chefe para publicar esses vídeos.

Enfim, fica aqui o pedido padrão: compartilhem, e se inscrevam no canal.

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O que são produtos da combustão?

Um motor a combustão interna aspira ar atmosférico, recebe uma adição de combustível, promove a combustão dessa mistura, realiza o seu trabalho, e depois joga os produtos da combustão na atmosfera. O que o motor descarrega não é ar e gotículas de combustíveis; os reagentes sofreram mudanças químicas, tanto que perderam energia no meio do caminho.

Quando eu comecei a estudar o assunto de combustão mais aprofundadamente para preparar as minhas disciplinas sobre o assunto, percebi o quanto é comum, em livros de termodinâmica, tratar do resultado da reação com um nome genérico como produtos da combustão, como se fosse uma substância química própria, cujas propriedades podem ser encontradas em tabelas. Acho que isso impede compreender de fato o assunto da combustão. O que acontece na queima de um combustível afeta a eficiência da máquina térmica que essa queima vai acionar, e são esses produtos que vão circular por motores e turbinas. Para estudar melhor os ciclos termodinâmicos, é preciso saber o que há ali dentro.

Recomendo a todos que se interessam pelo assunto de combustão, e a todos os meus estudantes, que leiam A História Química de uma Vela, onde Michael Faraday vai explicando e demonstrando passo a passo o que está acontecendo na combustão de uma vela.

Os produtos da combustão são gases, resultantes da oxidação do que há dentro do combustível com os componentes do ar atmosférico, que são basicamente gás oxigênio O2 e gás nitrogênio N2. A maioria dos combustíveis é baseado em hidrocarbonetos, então em primeiro lugar o carbono vai formar dióxido de carbono CO2 (que, surpreendentemente, não é um poluente, pois existe naturalmente na atmosfera; o problema é quando há CO2 em excesso). Se a combustão for defeituosa, vai faltar oxigênio, então vai haver liberação de fuligem – partículas sólidas de carvão. Faraday observou que são essas partículas que, quando ficam muito quentes, brilham muito quente e com uma chama laranja; uma chama “correta” é azul. Em condições ruins, pode haver também formação de monóxido de carbono CO, que é tóxico.

Se houver oxigênio demais, vai sobrar gás oxigênio nos produtos, e para prevenir os efeitos indesejados acima geralmente os processos de queima ocorrem com excesso de ar.

O nitrogênio do ar geralmente não participa da queima, a não ser em temperaturas muito altas (acima de 1800 ˚C). Na verdade, o nitrogênio, por ser muito pesado, acaba atuando como uma “esponja” térmica e sai muito quente da chama. Se a reação for quente demais, vai haver formação de óxidos NO e NO2; estes promovem chuva ácida quando se mistura com a umidade atmosférica. A chuva ácida também é uma consequência da formação de dióxido de enxofre, SO2, se o combustível contiver enxofre (os derivados líquidos de petróleo geralmente o tem).

Falando em umidade, a combustão do hidrogênio, além de produzir uma chama muito brilhante, também cria vapor d’água. Eu não sei isso é surpreendente só para mim; associamos água como algo que apaga o fogo, e não que é criada a partir do fogo. Faraday deu a receita fácil: retire água de uma fonte, ponha para ferver, e direcione o vapor para reagir com ferro; o ferro se oxida e sobre gás hidrogênio. Esse gás é a única substância que, ao se oxidar, produz apenas água; com as reações corretas, você retém o hidrogênio e reconstrui as moléculas de água usando o oxigênio atmosférico.

Então, agora você já sabe, produtos da combustão não são uma entidade, mas em geral uma mistura de fuligem, CO2, CO, SO2, O2, N2, NO, NO2 e H2O. Para entender o assunto, você precisa dar nome às coisas.