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Quer progredir no trabalho? Estude criatividade

A nobre leitora deve ter percebido um grande aumento de textos recentes nesse blog sobre criatividade. Não é de se espantar, já que Fábio Fortkamp.com reflete o que se passa na cabeça do Fábio Fortkamp, e ultimamente ele parece que só lê coisas sobre criatividade.

Mas como criatividade afeta a minha vida bastante mundana de pesquisador/marido/Guia das Oficinas? E por que eu me incomodo em partilhar isso, e porque eu encho a cabeça dos meus leitores sobre criatividade?

Para mim, criatividade é sobre ter ideias, e (quase) todo mundo pode se beneficiar disso.

Eu, sentado em um sítio, escrevendo no meu Bullet Journal, rodeado de cachorros
Eu, tendo muitas ideias

Kourosh Dini define um projeto concreto como aquele que tem passos bem definidos: ir à loja tal comprar isto; entrar no site X e submeter documento Y. Para esses tipos, que encontramos todo dia, não precisamos de muitas ideias, apenas de tempo e energia.

Na terminologia de Dini, projeto criativo, por outro lado, tem um fim desconhecido e passos não muito claro. Trabalhadores do conhecimento lidam com projetos criativos o tempo todo: escrever um relatório, preparar uma apresentação, criar um plano de negócios, preparar uma aula. O próximo passo não é simplesmente “digitar relatório”; você precisa pensar sobre ele. Ter ideias, enfim.

É por isso que, além de ler material mais técnico como artigos sobre circuitos magnéticos ou livros sobre otimização, no meu trabalho como pesquisador eu me cerco de textos sobre como aproveitar melhor essas referências e produzir mais. Quando Austin Kleon fala de usar um caderno para “guardar seus roubos”, isso não é aplicável apenas para artistas; meus cadernos estão cheios de anotações sobre incerteza experimental e precisão numérica. Quando Cal Newport fala da importância de caminhadas para a produtividade, eu levo a sério e me vejo pensando sobre alguma técnica de otimização no trajeto de casa até o laboratório. Se a Thais Godinho sugere “alternar contextos” (trabalhar no computador, depois sair um pouco das telas, depois voltar e etc), eu estou sempre com um livro ou um paper na minha mesa para descansar os olhos e aprender alguma coisa nova, sem cansar muito meu cérebro.

Nada disso é assunto “de engenharia”, mas tudo isso me ensina a ser um engenheiro pesquisador melhor.

E, de tanto ler sobre isso, essas técnicas de criatividade se irradiam para outras áreas da minha vida. Se vejo algum vídeo com uma receita interessante, da próxima vez em que for fazer alguma atividade “mundana” provavelmente estarei refletindo sobre ela, e sobre como posso usá-la para preparar um jantar para minha esposa. Ou estou meditando com algum livro da Bíblia, e faço conexões com outras passagens porque tenho muitos pensamentos registrados no meu Caderno Espiritual.

Ao prestar atenção e dedicar tempo a esse tipo de soft skill como criatividade, a minha vida fica melhor — a do leitor pode ficar também.

A maneira mais efetiva de vencer a ansiedade é aprender a ficar em silêncio

No que eu escrevo essas palavras, faz um pouco mais de 24 horas da minha volta ao mundo real depois de 36 horas em um Retiro Espiritual para Guias das Oficinas de Oração e Vida. E como a minha esposa achou espantoso o que foi feito lá, vou compartilhar com vocês também a principal característica desse retiro:

Da noite de sexta-feira ao almoço de domingo, eu não conversei com ninguém — exceto, é claro, com o Senhor Deus, Vivo e Verdadeiro.


Eu não sou perfeito, não sou humilde, estou longe de ser santo. Tenho muitos defeitos. Sou impaciente. Mas de algo eu não abro mão de reconhecer: desde o começo do meu tratamento contra ansiedade e depressão, em 2017, eu realmente aprendi a ficar em silêncio e solidão. Quisera eu que isso se transportasse para as reuniões tensas na qual não consigo segurar a língua; tudo é uma caminhada e exige paciência. Mas, sentando observando a natureza no Morro das Pedras, não pude deixar de perceber: (1) como isso se tornou natural para mim, e (2) como isso soaria como uma loucura para a maioria das pessoas. Como assim, ficar 36 horas sem olhar Instagram, sem ver TV, sem conversar com ninguém?

Meus leitores: muitos de vocês me escrevem contando de problemas de ansiedade na pós-graduação e na vida. Mas isso nem seria necessário, porque basta eu olhar à minha volta e vejo tantas pessoas queridas acometidas por transtornos de ansiedade, perdendo qualidade de vida e achando que a vida é essa correria sem volta.

Não é. A vida pode ser calma e boa. Como foi dito nesse retiro, o ser humano foi criado por Deus para amar e ser amado, e a chave para isso é o silêncio. Quando tudo cala, só Deus fala; só o vazio absoluto pode ser preenchido pelo Infinito.

Existem muitas maneiras de começar. Procure um bom terapeuta. Procure apps e cursos de meditação — vejo cada vez mais cursos do tipo sendo oferecidos por aí, muitos gratuitos. Se você é cristão, procure as Oficinas de Oração e Vida na sua cidade. Mas não se deixe vencer pela ansiedade.

Aprenda a parar e contemplar.

Vista do Morro das Pedras, em Florianópolis, mostrando uma bela praia e morros ao fundo, num dia levemente nublado
A minha vista diária durante meu Retiro. Perdi meu tempo?

Até mais, Irmã Dor-de-Dente! Bem-vinda, Irmã Insônia!

Eu, parafraseando ousadamente São Francisco de Assis

Dizem que São Francisco de Assis, no leito de morte, proclamou: “Bem-vinda, Irmã Morte!”.

Longe de mim querer me comparar ao santo. Entretanto, nessa semana tenho meditado e orado muito em cima dessa atitude de abandono. Como reconhecer, nas coisas que dão errado, a vontade de Deus?

Na noite passada, fui dormir com uma grande de dor de dente. Ao acordar, já não sentia nada na boca, mas em compensação não era nem 5:00 e eu não conseguia dormir. Por quê? Não sei. Lembrando das minhas orações nas noites recentes, levantei, proclamei a frase acima e fui tomar o café da manhã mais calmo que tive em muito tempo, em companhia de Cal Newport.

Meu tratamento contra a ansiedade e a depressão tem sido longo e árduo. Eu ainda tenho muito a melhorar, principalmente na minha relação com os outros. Mas algo posso reconhecer, sempre com humildade: eu venho aprendido, cada vez mais, a aceitar o que não posso controlar.

Se você também quer melhorar nessa entrega, consulte as Oficinas de Oração e Vida na sua cidade.

O que me torna cristão

Não foi o presidente eleito que causou essa onda de ódio, ele só tornou aceitável ser partidário disso. Nesse Natal, a leitora vai ouvir argumentos de que “tem de matar mesmo” enquanto come aquele peru ou aquele bacalhau. É melhor jair se acostumando.

Mas também é melhor não perder a esperança. VOCÊ pode ser o diferente da família, e espalhar essa paz no mundo. Pode tratar bem quem lhe trata mal. Pode oferecer ajuda ao bêbado na rua. Pode sair da roda quando começarem a fofoca contra aquele colega de trabalho. Pode ficar calada quando começar a gritaria.

O que me torna cristão, afinal, é que eu acredito no AMOR, e Ele vai vencer o medo. Ele perdoou a tudo e a todos. prometeu a um ladrão que este ia entrar no céu junto com Ele, e quem sou seu para fazer diferente?

E hoje lembramos que Ele veio para o nosso mundo, alegrar-se conosco e sofrer conosco.

Feliz Natal!

Como se irritar menos

Hoje precisava falar com um colega de trabalho que não apareceu, e isto está comprometendo meu dia de trabalho. Eu posso ficar irritado, OU aceitar que isso não é do meu controle. Que sei eu da vida dele? Será que ele não está num compromisso de trabalho, que vai resultar em melhorias para o nosso trabalho? Ou será que ele não acordou muito mal e está se recuperando?

Um familiar meu tem grandes problemas com a namorada de outro familiar nosso. Ele fica irritado sempre que essa pessoa aparece. Mas, como trabalhamos nas Oficinas de Oração e Vida, o que odeia sempre sofre mais que o odiado, que geralmente nem se importa com o que o odeia. O que se pode fazer? Ele vai falar com o próprio parente sobre o seu desgosto, e arriscar a sua relação com ele? Essa namorada faz parte da nossa família, e quanto menos sentimentos negativos alimentarmos em relação a ela, melhor para nós.

Como se irritar menos? Basta aceitar o que não se pode mudar.

Lidando com Depressão

“Eu não tenho dúvidas de que você é uma pessoa doente.”

Quando você vai a um médico, até espera ouvir que está doente , posto que ir ao médico com a certeza de não ter nada é uma perda de tempo. Mesmo assim, ouvir essa frase, e de um médico psiquiatra ainda por cima, causa certo impacto. Estava acostumado a lidar com gripes, infecções, inflamações. Tudo isso é palpável, cotidiano, fácil de lidar. Mas quando você descobre que seu cérebro está doente, que a sua própria maneira de pensar está desajustada, o que fazer?

Os sintomas foram se acumulando: crises de choro, pensamentos negativos intrusivos (sem conseguir pensar em outra coisa que não morte e doenças), irritabilidade em excesso, insônia, tensão muscular, pessimismo exarcebado.

De repente, frente àquela pergunta do médico se eu sentia prazer na vida, a resposta vinha rápida: Não. Eu mesmo já tinha pensado que se eu morresse, não seria a pior coisa do mundo.

Ainda bem que eu estava ali.


O diagnóstico: Transtorno de Ansiedade Generalizada e Depressão.

A causa? Difícil precisar. Através da Terapia Cognitiva, aprendi a me conhecer melhor e a evitar gatilhos para a ansiedade. Eu percebi que, durante toda a minha vida, acostumei-me a ser cobrado a sempre fazer mais; adquiri a mentalidade de que erros são catastróficos e vergonhosos, e é melhor sempre guardá-los para mim; e incorporei a visão de que, se algo não sai como eu planejava, é porque tinha dado muito errado.

Tudo isso foi se formando na minha mentalidade, ao longo da minha infância, sob influência do meu ambiente familiar e das várias pessoas que conviviam comigo. E agora, aos 30 anos, é hora de consertar a minha visão de mundo.


Agora estou bem. Estou medicado, estou fazendo terapia, casei-me com o amor da minha vida, e nunca larguei da mão de Jesus para me ajudar a passar por isso. Para mim, esses são os quatro pilares fundamentais para lidar com depressão:

  1. Tratamento clínico
  2. Terapia
  3. Apoio da família
  4. Vivência da espiritualidade

Se você se identifica com essa história, ou conhece alguém assim, eu vou ser mais um que fala: a depressão não é chatice, não é tristeza, não é uma fase — é uma doença.

Vejo que é comum ter preconceitos contra remédios psiquiátricos, como se fosse uma solução mágica. Eu gosto de pensar nos anti-depressivos como “desengatar o freio de estacionamento”. Antes de ir no psiquiatra, eu já estava fazendo terapia, orava constantemente, tinha ajuda da família. Mas era como um carro com o freio de mão engatado; por mais que empurrasse, não ia para frente. Começar um tratamento com medicamentos me libertou; agora, eu posso usar todos esses apoios e retomar o controle da minha vida. Com o tempo, vou também aprender a manejar eu mesmo o freio de mão.

Meu maior conselho: não hesite em procurar ajuda. Vá num posto de saúde e procure encaminhamento. Procure psiquiatras que atendam pelo seu plano de saúde; e se ele não estiver ajudando, procure outro (foi o que fiz). Em último caso, procure um psiquiatra particular e tire dinheiro de outra fonte — tire da poupança, pare por um tempo com algum gasto recorrente. Se você perdeu o ânimo para viver, isso é uma emergência.

Não é normal se sentir miserável o tempo todo. Não é normal viver numa correria eterna. Não é normal passar o dia de hoje preocupado com o amanhã. Não é normal tratar os outros com raiva.

O normal é ser feliz.

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Trabalhando sob pressão

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Essa semana estou tentando viver uma semana mais contemplativa, mais conectado a Deus. No meio de toda essa agitação, muitas vezes eu só quero estar sozinho com Ele.

Hoje estamos no meio do feriadão de Corpus Christi. Enquanto eu simplesmente observo a paisagem na janela, tudo parece tão anormalmente calmo, tão diferente de outros dias, e isso me fez pensar sobre minha rotina de trabalho.

Exagerando, acredito que existem dois tipos de pessoas: os que só funcionam sob pressão, e os que quebram. Eu definitivamente pertenço ao segundo grupo: prazos não me fazem ir para frente, eles me paralisam.

Eu me conheço e sei que faço o meu melhor trabalho quando estou calmo, quando minha tela de Hoje no Todoist está vazia, quando meu calendário está deserto. Nesses dias, minha mente está livre para mergulhar em algum artigo complicado que preciso entender, ou para criar um caderno Jupyter e fazer alguma análise mais complexa, ou para começar a escrever algo. Eu quero dias calmos não para que eu possa deitar e assistir Netflix, mas para que eu possa realmente trabalhar.

O lado ruim dessa minha personalidade é que sou um trabalhador lento, uma vez que gosto de deenvolver calmamente minhas ideias. Minha própria solução para isso é começar cedo e ser organizado. Eu não gosto de prazo, mas gerencio-os. Eu tento manter 2-3 projetos ativos, e trabalhar neles um pouco a cada dia até completá-los.

Eu ainda tenho de aprender muito; uma das maiores partes do meu doutorado está meses atrasada, e em parte a culpa é minha. Meu maior desafio: aprender a trabalhar com pessoas que precisam de pressão, e de trabalhar eu mesmo sob pressão nos tempos mais críticos (eles não vão durar para sempre).

O que você pode fazer?

Já deve estar ficando claro que uma das minhas mais recentes obsessões é a intersecção entre a religião e a produtividade. Como já falei aqui, os momentos em que mais oro, em que mais estou em harmonia com Deus e com minha própria espiritualidade, são justamente os momentos em que mais me sinto produtivo. Isso obviamente não é nenhuma mágica; como um trabalhador do conhecimento, minha mente é meu instrumento de trabalho, então se minha mente está sã (o que se consegue com a prática regular da oração), então meu trabalho vai bem.

A experiência de organizar uma estadia de 6 meses na Dinamarca colocou todos os meus nervos à prova. Eu me considero uma pessoa insensível, mas nesse período de dois meses tive mais crises de choro que todo o resto da minha vida adulta. Claramente, eu precisava de ajuda, e três frentes me ajudaram:

  1. A oração cada vez mais intensa
  2. O tratamento psicológico
  3. A organização mais refinada

O que me supreendeu é que essas três frentes convergiram para o mesmo ponto, a mesma pergunta a ser feita:

O que você pode fazer?

Quando você aprende a se perguntar e a responder a essa pergunta, a nossa vida só tem uma direção — de melhora.


Já falei em outro texto que sou ligado a um movimento da Igreja Católica chamado Oficinas de Oração e Vida. Na ocasião do falecimento da minha avó, as Oficinas me ajudaram a me levantar da queda. Nas Oficinas se ensina a orar, e orando se aprende a viver. Entre as muitas modalidades de oração que se ensinam nas oficinas, a mais transformadora (para mim, pessoalmente) é a Oração do Abandono, cuja ideia é tão simples quanto difícil: para um dado problema, aja até onde conseguir agir, mas aceite que a partir você não pode fazer mais nada, e se entregue (abandone-se) nas mãos do Pai.

O fundador das Oficinas, Frei Ignácio Larrañaga, dá o perfeito exemplo de Maria de Nazaré: quando o anjo anunciou que ela, uma pobre jovem que nem casada era, ficaria grávida por ação de Deus, que respondeu ela? “Faça-se a Tua vontade. De acordo.” (parafraseando Frei Ignácio em um de seus brilhantes textos)1. Trinta e três anos depois, ao pé da Cruz, não se vê em nenhum dos Quatro Evangelhos a cena de Maria desesperada, ou tentando lutar com os soldados romanos. Ela simplesmente aceitou o inevitável.

Exemplo mais mundano e prático, relacionado à minha vida: uma das etapas mais estressantes da organização do Doutorado Sanduíche foi a busca por moradia. O mercado de imóveis na Dinamarca, eu logo aprendi, é extremamente desbalanceado para o lado dos proprietários: é muito mais fácil para um senhorio achar inquilinos que para inquilinos acharem moradia. Os meses de preparação para a viagem envolveram então muitos emails sem resposta sobre anúncios em sites de classificados, a tal ponto que a duas semanas da viagem ainda não tínhamos onde morar. Mas o que eu podia fazer? Posso mandar mais alguns emails. E o que mais? Posso contratar um serviço de relocação para estrangeiros, para que eles ajudem na procura (pagando por isso, naturalmente). E o que mais? Posso solicitar ajuda da Universidade lá. E o que mais? Posso contactar meus futuros colegas para ver se eles sabem de alguma coisa. E o que mais? Posso procurar em grupos do Facebook se alguém está anunciando alguma coisa. E o que mais? Nada — e é a partir daí que eu me abandono. Eu já fiz tudo que podia fazer, tudo que estava ao meu alcance, agora só posso depositar minha esperança no Pai e esperar por uma resposta positiva. E Ele cumpre; na última sexta-feira finalmente assinei o contrato de aluguel para nossa futura residência em terras nórdicas.

Um erro de percepção comum na Oração do Abandono é achar que é pura desistência, mas observe no exemplo do parágrafo anterior a quantidade de ações que podem ser tomadas antes de se abandonar. Não é um ato de acomodação, mas de humildade; fazer tudo ao alcance, mas reconhecer que a partir daí nós não temos mais poder. Falei há pouco do falecimento da minha avó; afora ir gritar aos médicos para fazerem alguma coisa, não havia nada a fazer para a salvar a vida dela. Minha querida avó tinha simplesmente chego ao fim da caminhada na Terra, e não há nada ao meu alcance que possa mudar isso. E isso não traz sofrimento, mas paz.


Nos seus textos sobre o Abandono, Frei Ignácio fala que a falta dessa prática leva à loucura. Quantas vezes o leitor se pegou remoendo um episódio passado, pensando “eu não devia ter falado aquilo”, ou “se eu fosse mais organizado, não teria perdido aquele prazo”, ou “deveria ter estudado mais”, ou “que desperdício de dinheiro essa compra”? Agora pare para pensar, e reflita: não é mesmo uma loucura? Se você sai de uma reunião estressado e arrependido de uma frase ruim, já aconteceu, e nada vai mudar isso.

Agora, essas experiências podem ser usadas para o bem, se você transforma esses erros num aprendizado. E é aí que a ajuda psicológica que mencionei me ajudou a me acalmar. Sim, por relaxamento eu perdi a chance de alugar um aparamento e que poderia ter resolvido essa questão há muito tempo; e sim, por desconhecer o processo de visto, minha esposa ainda está esperando o resultado do processo dela dela. Mas como falei, é loucura ficar remoendo isso. É melhor perguntar: que aprendi disso? Resposta: aprendi a ser mais ágil na hora de reservar o apartamento, e a correr mais riscos controlados sem ter 100% de certeza de que o local é bom. Aprendi a ser sempre o mais conservador possível quando se trata de imigração, e que se há um motivo para um país frear a entrada de imigrantes eles vão usá-lo. E muitos outros aprendizados que tento registrar no meu diário para futura referência.

Mas veja como isso se conecta com a Oração do Abandono. Esses “aprendizados” que a minha terapeuta sugeriu enxergar valem apenas para ações futuras, e eu continuo sem poder alterar o passado. Mas o ato de refletir sobre as coisas ruins que acontecem pode ajudar na parte de “fazer o que posso fazer” do Abandono, para que no futuro eu preciso recorrer menos a Deus nas horas de desespero, e possa agradecê-Lo mais pelas coisas boas.


O Abandono tem duas partes, portanto. Diante de um problema, você precisa analisar se ele tem solução. Caso negativo, já disse, não há o que fazer, a não ser aprender o que pode ser feito diferente da próxima vez, e entregar-se à vontade de Deus. Mas caso positivo, é hora de agir.

Já mencionei em um post anterior que essa mesma experiência de ir para a Dinamarca, com muitos prazos interrelacionados, fez-me questionar o meu sistema de produtividade. A terceira parte da busca por ajuda que mencionei no começo do texto foi então justamente tentar aprender como posso melhorar, perder menos prazos e ficar mais relaxado. E achei que uma boa maneira seria ler analiticamente a nova edição de um livro que já resenhei aqui, A Arte de Fazer Acontecer. E logo no primeiro capítulo já notei um paralelo muito forte entre o método GTD (tema do livro) e o Abandono, que é a pergunta do título desse texto: o que você pode fazer?

Neste primeiro capítulo de A Arte de Fazer Acontecer, aprendi que o método tem um cerne básico:

  1. identificar o que você quer fazer ou alcançar
  2. definir o que você poder fazer, de imediato
  3. tirar essas coisas da sua cabeça e organizar num sistema que você possa consultar

O segundo passo é a chave. Um dos conceitos mais brilhantes do método é o da próxima ação, que é definir a próxima coisa concreta que você pode fazer em direção a um resultado. No caso da busca por moradia que citei antes, “mandar emails sobre moradia” é certamente muito abstrato (por onde começo?), mas “entrar no site X e ver os novos anúncios de moradia” é algo bem mais palpável. E de fato, uma mudança que tomei nas últimas semanas foi definir ações mais granulares, tanto nos meus cartões no Trello quanto nas minhas listas no Todoist, de maneira que a cada vez que eu consultar esses aplicativos eu tenha uma visão muito clara de todas as coisa que eu posso fazer. E não por acaso, nessas últimas semanas os preparativos para viagem aceleraram, ao mesmo tempo em que meus projetos pendentes aqui no Brasil foram sendo concluídos.


A grande moral da história é que, por mais responsabilidades e interesses que tenhamos, cada um de nós é uma pessoa, individual, e não “múltiplos eus”. Eu não sou cristão apenas aos domingos das 18:00 às 19:00, quando vou à Missa. E também não sou um estudante de doutorado de segunda à sexta durante o horário comercial, e estudante de produtividade aos fins de semana. Tudo está interligado. Eu tento aprender a me organizar melhor para que a minha vida seja mais suave e eu consigo cumprir meus objetivos. Se acontece algo de ruim, eu peço ajuda a Deus ou simplesmente me abandono n’Ele. Se acontece de bom, eu Lhe agradeço. Se é uma semana cheia de compromissos na Igreja, como no caso da Semana Santa, eu uso da organização para garantir que haja tempo para eu ir aos serviços.

Esse é um daqueles textos que eu escrevo porque precisam ser escritos. Essas coisas de que falei aqui me ajudam, e espero que possam ajudar mais gente.


  1. Se a essa altura o leitor já estiver interessado pelas Oficinas, procure a sua paróquia e veja se as Oficinas já se instalaram aí. 

Como um padre usa a tecnologia

Eu não uso mais os produtos da Apple, mas esse episódio do podcast Mac Power Users com o Padre Gabriel Mosher é fantástico. Como alguém que se interessa profundamente pela intersecção da religião com outros aspectos da vida, fico muito fascinado pelo pragmatismo do Father Gabriel: não se trata de “pecado” ou de um “luxo excessivo”, e sim de usar a tecnologia para se fazer o trabalho da melhor maneira possível. Se esse trabalho é preparar homilias e administrar uma paróquia, coisas que fazem a diferença na vida de muitas pessoas, é mais importante ainda ser eficiente e eficaz.

Mesmo se você não se interessa nada por Apple, vale a pena ouvir o episódio só pela definição de que ser padre é como “ser um pai solteiro que administra quatro empresas ao mesmo tempo”.

Padre Gabriel também apareceu nesse episódio do Systematic, igualmente interessante. E falando em podcasts, preciso atualizar a minha lista de podcasts favoritos. Em breve.

(E depois de se recuperarem do choque de ver dois posts em dois dias seguidos aqui, após um hiato de dois meses, podem voltar à sua vida normal).

Orar como exercício de produtividade

Vou fazer algo que acho que nunca fiz aqui, que é citar a Bíblia:

Então Jesus falou a seus discípulos: “[…] Quanto a vocês, não fiquem procurando o que vão comer e o que vão beber. Não fiquem inquietos. Porque são os pagãos deste mundo que procuram tudo isso. O Pai bem sabe que vocês têm necessidade dessas coisas. Portanto, busquem o Reino dele, e Deus dará a vocês essas coisas em acréscimo.” (Lc 12, 29-31)

Pode ser estranho estudar um assunto como produtividade, porque corre-se o risco de entrar num círculo vicioso: você gasta tanto tempo estudando como cumprir tarefas de maneira rápida e organizada que não sobra tempo para cumprir as suas tarefas de fato. Com o tempo, desde que li A Arte de Fazer Acontecer pela primeira vez, amadureci e percebi que é sim importante estudar e tentar ser organizado, mas que existem muitas nuances que escapam das dicas tradicionais como “mantenha uma lista de tarefas” ou “deslique as notificações do celular”.

Para mim, ser produtivo significa fazer o melhor doutorado do mundo (ambicioso eu, não?), publicar artigos de qualidade e defender minha Tese no prazo, ao mesmo tempo que eu não passe noites e fins de semana sem fim trabalhando e consiga aproveitar os momentos em que não estou trabalhando. Eu quero ter a liberdade de assistir um filme com minha noiva sem ficar pensando se não deveria estar adiantando aquela tarefa, e quero ter a certeza de vou chegar nas vésperas da minha defesa e não vou surtar porque “deveria ter feito tanta coisa”.

Primariamente, as coisas que me impedem de ser produtivo são aquelas que destroem minha atenção e minha concentração. Se não consigo me concentrar em um dado dia, não vou conseguir escrever, nem revisar um artigo, nem realizar simulações dos meus problemas de engenharia, nem criar nada de relevante. Se não consigo fazer isso ao longo de vários dias de trabalho, vou ter de compensar isso de alguma forma lá na frente e nos momentos que eram para ser de descanso. Ou seja, se quero ser (e me sentir) produtivo, preciso aprender a controlar minha atenção e ser capaz de manter o foco, regularmente, durante os dias e horários de trabalho.

Por isso, ao longo das últimas semanas, eu tenho descoberto que a religião é uma das melhores ferramentas de produtividade.


Nos últimos meses, eu e minha noiva temos participado das Oficinas de Oração e Vida, que são grupos católicos onde se aprendem técnicas para orar mais profundamente. Uma das bases das técnicas é a Sagrada Meia Hora, onde somos convidados a separar trinta minutos diários para sentar, com calma e concentração, abrir a Bíblia e lê-la profundamente, meditar, orar e conversar com Deus. É uma experiência realmente transformadora, porque traz a experiência religioso para o cotidiano, em vez de ficar relegada às missas aos domingos e ocasiões festivas.

Para mim, o melhor horário para cumprir a Sagrada Meia Hora é de manhã cedo, logo que acordo (e acordando um pouco mais cedo, se necessário), porque é quando minha mente está mais calma. E foi numa dessas sessões que me deparei com a passagem que citei acima, e ao meditá-la tive uma revelação. Eu percebi o quanto que, desde que comecei a frequentar as Oficinas de Oração e Vida, sinto-me mais produtivo, porque me sinto mais calmo. Logo de manhã cedo, eu já desabafo minhas angústias e minhas preocupações, muitas vezes escrevendo-as em forma de oração, e isso se reflete na minha capacidade de me concentrar ao longo do dia. A oração também me ajuda a esquecer alguns problemas profissionais, a relevar conflitos com colegas, a esquecer arrependimentos.

Na passagem acima, subsititua “comer” e “beber” por “fazer”, “alcançar”, “cumprir”, e a mensagem torna-se mais clara. Ao buscar Deus, ao orar regularmente, ao exercer o bem, ao esquecer as mágoas, criamos uma estrutura de vida tal que outras coisas boas começam a acontecer conosco — e isso é Ele nos dando em acréscimo.


Não estou tentando evangelizar ninguém (apenas, caso o leitor seja católico, recomendo fortemente experimentar as Oficinas). Tente trocar a experiência da oração por outra, como uma simples meditação, ou uma leitura de algum livro inspirador e significativo, ou uma forma de trabalho voluntário. Meu ponto é: tão importante quanto conferir o calendário regularmente é saber cuidar da sua mente, saber resolver conflitos internos. Por mais que muitas vezes tenhamos a imagem de “máquinas de criar resultados” para nós, no fundo somos apenas humanos e queremos apenas viver melhor.