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Os podcasts que acompanho e por quê

Há algum tempo, publiquei aqui a lista de alguns blogs que acompanho
(digo alguns porque vivo acrescentando novos e deixando de acompanhar
uns). Vou agora fazer o mesmo com podcasts.

Foi só em 2013 que passei a escutar podcasts, depois de muito ouvir
falar no assunto. Antes disso, eu tinha dois problemas com a ideia: eu
não entendia muito bem o propósito, e não sabia como poderia aquirir o
hábito de escutar. Essa segunda parte eu peguei fácil: eu escuto
podcasts a cada trajeto de carro, no ônibus para a universidade,
caminhando. Para fazer exercícios, eu ainda prefiro música, mas de
resto, se estou me deslocando para alguns lugar, provavelmente estou
escutando algum podcast no iPhone.

Se algum leitor não está familiarizado com isso, podcasts são programas
de áudio, geralmente sobre um tema específico, lançados com uma certa
periodicidade. Pense num programa de rádio, mas transmitido pela
internet e que pode ser guardado pelos ouvintes para ouvir quando
quiser.

Episódios de podcasts são arquivos de áudio (geralmente em mp3), então
pode ser ouvidos em qualquer dispositivo, mas smartphones geralmente tem
programas dedicados a isso, que acompanham novos episódios, tem opções
de compartilhamento, e exibem o que se chama de notas do show, quando
as informações do show são resumidos em (em texto), geralmente com liks
para mais informação.
;bt
Quanto ao primeiro problema que mencionei, de compreender essa mídia,
finalmente posso dizer que agora entendo porque eles são atrativos. O
formato tradicional é um grupo de pessoas (geralmente de 2 a 4)
conversando sobre um tema, embora existam alguns shows individuais; é
essa conversa (ou monólogo) que faz com que os podcasts sejam
agradáveis de ouvir. A linguagem escrita, que eu amo, têm inúmeras
qualidades, mas é mais artificial, com certeza. Ouvir alguém falar sobre
o assunto soa mais natural — é uma versão apenas em áudio de uma
palestra, ou de um talk-show.

Em decorrência disso, podcasts podem se aprofundar no tempo sem que isso
prejudique a nossa relação com o programa. Ler um artigo por uma hora
cansa, mesmo que seja em intervalos, mas escutar 30 min de podcast no
trajeto de ida a algum lugar e mais 30 minutos na volta é agradável.

E, claro, podcasts não demandam nossa atenção como a leitura. Eu não
andaria a pé lendo alguma coisa; com o fone de ouvido, eu posso ouvir
algum episódio, presto atenção por onde ando, e, num volume razoável,
ainda escuto o necessário da rua.

A lista

Esses são os podcasts que acompanho:

  • Developing Perspective – um podcast sobre desenvolvimento de
    aplicativos para OS X e iOS. Acompanho porque, além de aprender um
    pouquinho sobre o tema, o apresentador David Smith é o criador
    do serviço que uso para blogs e podcasts, Feed Wrangler (mais
    sobre isso num post). É uma maneira de acompanhar o desenvolvimento
    desse serviço que uso muito.
  • Mac Power Users – o melhor podcast sobre tecnologia Apple.
    David Sparks e Katie Floyd discuyem um assunto específico
    ligado a Macs, iPhones e iPads: email, backup, gerenciamento de
    fotos. Às vezes trazem pessoas para ensinar algumas coisas e para
    mostrar como elas usam os seus dispositivos. Sparks é autor do
    Macsparky, um dos blogs que acompanho.
  • Palavra Chave – Fellipe Salgado, psicólogo, escolhe um
    assunto da cultura pop e o analisa sob a ótica da psicologia (e até
    já comentei um episódio). Pena que o Fellipe já me disse que
    anda sem tempo para fazer mais, pois é sempre bom para mim, como
    engenheiro, aprender coisas novas assim e diferentes da minha área.
  • Systematic – Atualmente, o meu podcast preferido. Brett
    Tersptra
    traz um convidado a cada semana, discutindo tecnologia e
    criatividade, fugindo dos podcasts usuais ligados à Apple (já
    discutiu nutrição, dramaturgia, linguística entre outros assuntos).
    Brett também tem um blog muito bom.
  • Technical Difficulties – um podcast de tecnologia de Gabe
    Weatherhead
    e Erik Hess, com foco na solução de problemas.
    Os assuntos são sempre muito práticos, como por exemplo “como montar
    uma rede Wi-Fi” ou “a melhor maneira de fazer video-conferência”;
    bem de acordo com a minha filosofia, portanto. Frequentemente trazem
    convidados que têm mais experiência no tema da semana. As notas de
    show são incrivelmente detalhadas e servem como referência para o
    problema em questão. Gabe publica o Macdrifter, outro blog que
    sigo
    .
  • iPhone Hoje – Um outro podcast de Alexandre Costa sobre
    Apple. Anda pouco atualizado, e supostamente o seu sucessor é o
    iTechHoje.
  • iTechHoje – já foi o meu podcast favorito, mas anda com
    alguns problemas. Alexandre Costa, Vladimir Campos e Otávio
    Cordeiro
    conversam sobre um tema Apple (mais ou menos como a
    versão brasileira do Mac Power Users, mas não tão aprofundado). Os
    apresentadores são bons (e engraçados), e por isso que ainda
    acompanho, mas venho notado uma falta de cuidado na pauta (as
    conversas estão livres demais, sem tema definido), e uma frequência
    irregular (o que até entendo, já que os apresentadores não ganham
    nada com o show). Espero sinceramente que o podcast volte à ativa e
    que as pautas sejam mais bem produzidas. Vale dizer que Alexandre
    está com outros podcasts bons (alguns dos quais acompanho e já citei
    nessa lista) e Vladimir, embaixador de viagens do Evernote,
    produz o excelente Diário de um Elefante, que não acompanho mais
    por não usar mais o Evernote

Como usual, se o leitor quiser indicar algum podcast bom, fique à
vontade! Quero sempre descobrir conteúdo bom.

Palavra-chave: ciência

Um dos podcasts que acompanho é o Palavra Chave Podcast, do psicólogo
Fellipe Salgado, que oferece análises do cotidiano sob um ponto de
vista psicológico. Os assuntos são sempre relevantes e interessantes,
Fellipe demonstra saber o que fala e se esforça em fazer muita pesquisa,
e o podcast tem uma duração que acho ideal: cerca de 20 minutos, mais ou
menos o tempo de translado entre minha casa e a universidade. Perfeito.
Fica a dica.

O último episódio fala de ciência, inspirado na notícia de que o bóson
de Higgs, ou a partícula de Deus, rendeu o prêmio Nobel de Física aos
seus teóricos
. A partir daí, Fellipe traz algumas questões sobre o
“fazer ciência” e sobre o que a tal “verdade científica” significa.

Na qualidade de engenheiro, ou seja, “um cara das exatas” como gostam de
me chamar, gostaria de oferecer meu ponto de vista em dois pontos
principais. Repare que isso é minha opinião e não representa de maneira
alguma uma crítica ao Fellipe. Ele também é estudante de mestrado e sabe
que discordar faz parte.

Não existe Eureka

Fellipe pondera como o psicólogo de Peter Higgs (que deu nome ao bóson)
reagiria se seu paciente agora famoso chegasse e tivesse dito ter
descoberto uma partícula de Deus. Será que não seria um caso de delírio
de grandeza?

Não pesquisei a fundo em entrevistas com Higgs, mas se tem algo em que
acredito, baseado nessa minha minúscula experiência na carreira
científica, é que não existem momentos de Eureka. Higgs, muito
provavelmente, não largou o lápis e pensou “Senhor, descobri a Sua
partícula”. Vamos pensar num cenário mais iterativo. Higgs estava
resolvendo um problema teórico e fez uma hipótese simplificativa:
“suponha que exista uma partícula com uma propriedade tal”. Para sua
surpresa, essa partícula teórica resolvia o problema. Algum tempo
depois, ele deve ter tido a ideia de usar essa mesma partícula em
problema semelhante, e viu que também funcionava. Higgs foi então
refinando o modelo e viu que ele explicava muita coisa.

Pode ser que eu esteja enganado, mas vamos combinar que esse cenário é
muito mais plausível. Fazer ciência é um processo criativo, e
criatividade é iterativa por natureza. Você começa com um rascunho e
vai refinando.

O que é uma lei científica?

O outro comentário que me fez refletir é sobre a questão de ciências
“objetivas” e “subjetivas”. Por exemplo, a Física é tida como uma
ciência objetiva: a Lei da Gravidade é verdadeira e ponto. Por sua vez,
a psicologia é bastante subjetiva. A analogia usada é entre “átomos”,
que podem ser visualizados, e a “memória”, que é difícil de definir.

O próprio Fellipe depois questiona isso, dizendo que a física pode ser
subjetiva e a psicologia, objetiva. Mas deixe-me reforçar esse ponto.

A “Lei da Gravidade” não é verdadeira, porque não existe uma lei da
gravidade. O que é existe é o fato de que, empiricamente, quando você
solta um objeto ele tende a cair. Entretanto, e aí é que está, nada
garante que amanhã não seja descoberto um material que não caia. As
“leis” da Física, como a Segunda Lei de Newton, ou as Leis da
Termodinâmicas, não são provadas, como é, por exemplo, o Teorema de
Pitágoras. Nós temos confiança nelas com base na estatística, na
ausência de contra-exemplos.

Basta você ver que a “Lei da Gravidade” já mudou de forma. Newton disse
que era uma força e Einstein disse que é uma deformação do espaço.
Atualmente, trabalha-se com a hipótese de que é um campo gerado por uma
partícula ainda a ser descoberta, o gráviton.

Reconhecer as limitações da ciência não é criticá-la, mas admitir que
ainda temos muito a aprender. A natureza é muito mais complexa do que a
mente humana é capaz de entender. É nosso papel, como cientistas, de
criar abstrações que expliquem os fenômenos, chegando numa solução
plausível — e essas abstrações geram resultados fabulosos.

Como engenheiro, estudando mais a fundo a área de Termodinâmica de
Misturas e de Refrigeração, eu me questiono o tempo todo. Essa equação
de estado é válida? Essa hipótese de sistema adiabático é realista? Só
assim é possível aprender alguma coisa.

A palavra-chave é ciência. Federico Viticci do MacStories escreveu:
ciência é aquilo que injeta fótons no seu corpo para matar o câncer.
Como não se maravilhar com isso?