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Por que não vou escrever sobre as manifestações

Há uma cena no filme “E aí, comeu?”, que é ótima. Afonsinho, o
mulherengo viciado em puteiro e metido a intelectual, quer publicar um
livro na editora do tio. Diante da falta de qualidade da obra, o tio
adverte:

“Você pode até publicar, dinheiro para fazer isso a sua família tem. O
problema é que, quando você publica um livro, ele se torna público”.

Eu sou um estudante de mestrado em engenharia. Eu leio livros, vejo
filmes e escuto músicas. Eu vivo no mundo e observo o que acontece. Para
muitos desses assuntos eu tenho uma opinião, e a melhor maneira de
clerear os meus pensamentos é escrevê-los. Às vezes, surge um texto
que acho que vale a pena ser compartilhado, porque talvez outra pessoa
tenha tido a mesma reflexão que eu tive e gostaria de ler a opinião de
outra pessoa. Mas se for para criticar algo, que seja com
responsabilidade; minha proridade é contribuir com o debate positivo
de ideias.

Na semana passada, tivemos uma greve dos trabalhadores do transporte
coletivo aqui em Florianópolis. Eu cheguei a escrever um texto bastante
crítico que eu planejava publicar hoje. Porém, logo em seguida
explodiram as manifestações pela Tarifa Zero em São Paulo (e logo em
seguida em outras cidades). Esses dois acontecimentos (bastante
distintos, mas ambos relacionados com o problema do transporte público
no Brasil), provocaram uma avalanche de pensamentos em mim. Eu passei o
fim de semana pensando se deveria ou não usar FabioFortkamp.com para
publicar algo sobre isso, ou se deveria continuar com minha intenção de
criticar a greve. Fiquei pensando se quero usar este blog como espaço de
discussão de política.

E a resposta é: não, não quero que FabioFortkamp.com se transforme
num blog sobre política.

O que eu, um mero estudante de Florianópolis, posso escrever que
acrescente às muitas discussões já existentes contra ou a favor das
manifestações? Algumas pessoas com que com conversei têm opiniões das
mais diversas, mas não tem ideia do que afinal se está reinvindicando, e
quer apenas fazer barulho. Outro grupo, mais reduzido (e composto pelos
meus amigos mais inteligentes) tem posições definidas e argumentam com
racionalidade. Pois bem: o primeiro grupo pode ser influenciado por mim,
mas será que quero influenciar alguém que sequer lê jornal? O segundo
grupo de pessoas tem opiniões formadas com base em argumentos muito
melhores que aqueles que posso escrever, então sobre esses eu não tenho
nenhum poder. Vou escrever para quê, então?

O que está acontecendo no Brasil é grande, e, independente da minha
opinião, torço muito para que o Brasil melhore com esse movimento (e que
a polícia não aja com tanta violência nos próximos atos.)

Existem pessoas que estão lá no meio do protesto, lutando por uma causa,
e pessoas que se sentem prejudicadas pelas ruas bloqueadas. Existem
jornalistas feridos e jornalistas que defendem a ação da polícia.
Existem os grandes jornais e revistas e os sites independentes. Esses
grupos tem mais embasamento para discutir essa questão que eu; tiveram
contato com o protesto, têm mais disposição para pesquisar sobre o
assunto e têm mais coragem para tornar públicos suas opiniões e relatos.
É a essas pessoas que vou recorrer quando quiser me manter informado, e
recomendo aos meus leitores que façam o mesmo.

E, se você concordar com as manifestações (depois de se informar com
responsabilidade), participe.

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O Bolsa-Família e as calças

Um assunto que fervilhou no Facebook na semana passada foi a mulher que
reclamou que o Bolsa-Família não era suficiente para comprar uma calça
para a filha de 16 anos. Logo choveram comentários inflamados de meninas
que também queriam ganhar bolsa para poder comprar as calças, que isso
só prova que o Bolsa-Família é um desperdício do nosso dinheiro e que
nós estamos de babá dos mais pobres.

Veja o vídeo.

Primeiramente, vamos deixar de lado o assunto em si. A argumentação das
pessoas furiosas simplesmente não é válida. É muito fácil sair na rua
com uma câmera e entrevistar dezenas ou centenas ou milhares de pessoas.
De repente, uma delas diz que não acredita em Deus e você conclui que
todos os brasileiros são ateus. Você dizer que todos os beneficiários
são sugadores de dinheiro baseado no depoimento de uma mulher (ou de mil
indivíduos, que seja, o número total ainda vai ser bem maior) é bastante
generalista e perigoso. Isso sem contar o fato de que muitas das pessoas
que adoram fazer ativismo de Facebook não tem nenhum contato com alguém
que dependa do Bolsa-Família (eu não tenho, se querem saber, e por isso
eu tomo cuidado no que eu falo).

Outro tipo de comentário bastante assustador diz que o simples fato de
uma beneficiária do Bolsa-Família querer as calças é um absurdo, ou que
é absurdo o fato de existir uma calça a esse preço. Ora, isso é pura
ingenuidade. No nosso mercado, o vendedor coloca uma calça a 300 reais
não porque ela custou isso, mas porque ele acha que ela vale isso, e
acredita que um número suficiente de pessoas vai comprar a esse preço. E
as lojas que conseguem vender a esse preço também têm dinheiro fazer
propaganda, atingindo as revistas de adolescentes e os intervalos das
novelas. Em resumo: garotas de 16 anos, sejam elas da favela ou de
Jurerê Internacional, querem calças de 300 reais. Milhares de
brasileiros, adultos, gastam mais do que ganham e se endividam no cheque
especial ou no cartão de crédito; como esperar que uma pessoa de 16 anos
tenha mais consciência do valor do dinheiro? Essas meninas simplesmente
vêem a calça vestindo alguma famosa e querem ser como elas; elas não tem
capacidade de perceber que não cabe no orçamento, ou que esse preço é
alto, ou que a mãe precisa comprar comida antes

Para ser bem sincero, por um lado tenho minhas restrições ao
Bolsa-Família, e não fico confortável com a ideia do Estado subsidiando
as pessoas por muito tempo. Por outro, sou homem, branco, estudante de
escola particular, engenheiro, filho de engenheiros, neto de um médico e
um economista, em processo de ter título de mestre. No espectro da
sociedade brasileira, eu estou no lado oposto ao das pessoas que
precisam do Bolsa-Família; para mim, é muito fácil “ser contra o
Bolsa-Família”, ou ser contra as cotas, ou ser contra muitas coisas, já
que eu não preciso delas. O que eu sei, baseado na mais pura observação,
é que existem pessoas pobres, e existem pessoas extremamente pobres, que
precisam de uma vida decente. Elas precisam de um emprego; porém, se
basta apenas “ter vontade de trabalhar”, por que existem tantos
recém-formados em universidades federais sem emprego? Elas precisam de
educação, e os jovens precisam entrar na faculdade, e não adianta
esperar “até que a educação básica seja melhorada”. Vamos ser realistas:
um adolescente que concluiu o ensino médio numa escola pública, em
geral, não tem condições de passar nos nossos vestibulares, altamente
voltado a aqueles que sabem os macetes e as “decorebas” (levante a mão
quem aprendeu as fórmulas da Física com músicas de quinta categoria).
Ele está agora, aqui, sem condições de ter nível superior, e não pode
esperar até que o governo tenha boa vontade de melhorar o sistema
público de educação.

As cotas são a solução? O Bolsa-Família é a solução? Sinceramente, não
sei, e confesso que não tenho a disposição de estudar alternativas (para
isso existem cientistas sociais, ouviram, engenheiros?). É claro que
esses programas sociais precisam de melhorias. Especificamente, o
governo poderia ter uma política mais eficaz de dar emprego para os
beneficiários do Bolsa-Família (já que eles não conseguem achar por
conta própria), e de evitar que as pessoas dependam a vida inteira do
governo. Ao mesmo tempo, embora o vídeo não mostre que todos os
beneficiários estão gastando mal os recursos, mostra que existem
alguns que provavelmente estão ganhando mais do que deveriam, o que
exige um controle mais rigoroso. Isso é um tipo de discussão prática,
e não os comentários raivosos que usualmente se vêem por aí.