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Resenha: Adeus, aposentadoria

Não deve ser novidade por aqui que um grande interesse meu é o assunto de finanças pessoais. Eu e você, leitor, provavelmente temos profissões, mas ambos precisamos de dinheiro para coisas necessárias e também para as desejáveis. Mesmo que você odeie Matemática e pule a seção de economia do jornal, ainda assim você tem de lidar com dinheiro no dia; se isso for algo que você entende e que domina, há de ser mais fácil. Por isso, acho que pelo menos um mínimo de estudo de finanças pessoais é fundamental para todos.

Fiquei sabendo de Adeus, aposentadoria (Sextante, 2014) através de um texto da Thais Godinho, e logo ele me chamou a atenção. Nos últimos meses, quando resolvi fazer uma grande revisão do assunto de finanças para atualizar minhas práticas — que continuavam as mesmas desde a primeira vez que li A Árvore do Dinheiro, em 2011 — sabia que queria incluí-lo na minha lista de leitura. O título e a promessa de dar adeus à noção de aposentadoria como a conhecemos é intrigante e tentador, mas ao mesmo parece desnecessário se você é o brasileiro médio que quer apenas passar em algum concurso público e não se preocupar com mais nada (ao menos financeiramente) para o resto da vida.

A premissa básica do livro em questão é que esta e outras soluções tradicionais de aposentadoria têm tudo para não funcionar quando os trabalhadores de hoje se aposentadorem. Vamos pensar na solução de “passar em um concurso público, trabalhar com estabilidade e se aposentar com salário integral” que é a tradução do sonho brasileiro. Pense nos servidores públicos que você conhece que estão aposentados. Sim, os mais velhos aproveitaram um regime de ouro, e hoje vivem confortavelmente; porém, se você tiver um contexto social parecido com o meu, vai perceber que as pessoas de uma geração seguinte, que estão entrando agora na idade permitida para aposentadoria, já enfrentam situação diferente. Com as mudanças de regras, o salário desses servidores são engordados por benefícios que não vão entrar no cálculo de aposentadoria. Os jovens que estão ingressando nessa carreira hoje vão encontrar condições piores ainda, já que o déficit só tende a aumentar. Aposentar-se no serviço público pode ser mais fácil que na carreira privada, mas não é tranquilo.

Qual a alternativa, então, para o caminho de ouro da aposentadoria? Cerbasi elenca muitas opções, e mostra o defeito de todas. Previdência privada? As taxas de administração vão comer parte do rendimento. Investimentos tradicionais em ações ou fundos? A inflação vai comer grande parte do rendimento. Viver de renda de aluguel? Boa sorte passando a sua velhice lidando com inquilinos. O fato é o seguinte: por questões de saúde, todos vamos precisar parar de trabalhar (entendido no livro como trocar o seu tempo por um salário), mas ninguém quer perder renda. Quando você ficar cansado de trabalhar, não vai aceitar ganhar menos (um fato inescapável de como humanos funcionam). Você vai querer descansar, e ter renda para continuar a viver com conforto, e ter essa renda até morrer.

Na minha leitura analítica do livro, consegui identificar cinco argumentos principais.

  1. A solução proposta por Cerbasi para conseguir parar de trabalhar para os outros mas não parar de ganhar dinheiro é o empreendedorismo. Enquanto você é assalariado, na prática é muito difícil guardar e investir dinheiro suficiente para que, quando você pare de trabalhar, você consiga a partir desse momento viver apenas dos rendimentos dessa massa crítica (um conceito fundamental de outro livro do autor, Dinheiro: os segredos de quem tem). Outras soluções de aposentadoria envolvem a sua dependência em fatores externos. Por outro lado, se você ao longo da vida contrói um verdadeiro projeto empreendedor, terá o potencial de algo que gere valor (um termo que eu achei apropriado para encapsular essa ideia do autor) para você.
  2. Mesmo com o empreendedorismo, parar de trabalhar repentinamente e a partir daí viver do seu “negócio próprio” não é viável. Cerbasi prega que devemos desenvolver nossa vida profissional de maneira gradual. Começamos sem dinheiro nem experiência, e a melhor coisa a fazer é achar um bom emprego. À medida que vamos crescendo na carreira, idealmente vamos atingir um ponto em que nossa saída representa uma grande perda para a empresa, e não precisamos trabalhar tão arduamente; a partir desse ponto, devemos dedicar menos horas ao trabalho e mais horas a um projeto paralelo. É só quando este estiver sólido que você deve se dedicar integralmente a ele. Finalmente, você terá dinheiro e experiência, pelo que deve deixar o negócio ir sendo gerenciado por outros e investir as suas finanças de maneira mais séria (e aproveitando o tempo disponível mais abundante). Também incluindo nesse conceito é a diminuição do ritmo; sim, pode demorar até que você consiga se dedicar somente ao seu negócio para que ele lhe sustente, e mais ainda para que você pare de se envolver com ele, então é preciso adotar ao longo da vida um ritmo de trabalho mais humano, que lhe dê eneria para trabalhar até mais tarde na vida.
  3. O risco do empreendedorismo pode ser atenuado com camadas de segurança (também outro termo meu). Baseado no item anterior, você constrói o seu projeto ao longo de muitos anos, ao mesmo tempo em que acumula reservas financeiras. Se você não tem pressa, não precisa tomar decisões muito arriscadas. Cerbasi prega, por exemplo, que você deve contribuir para o INSS como pelo menos uma primeira camada, e que deve ter sempre disponível investimentos de baixo risco de onde você possa tirar dinheiro em emergências.
  4. O sucesso do empreendedorismo está na diferenciação. Empresas existem de monte, mas muitas são simplesmente medíocres. Novamente, baseado na ideia de fazer as coisas gradualmente, você deve usar o seu tempo enquanto mero empregado para fazer networking, conhcer o mercado, aprender muito. Nessas horas, é preciso ter um pé no chão e evitar “correr atrás da sua paixão”; explore algo que você aprecie mas dentro da sua área. Porque você tem tempo para se aprimorar, pode lançar o seu negócio com um diferencial.
  5. A fase de início de carreira (20 aos 30 anos) é onde você deveria estar trabalhando desenfreadamente, poupando muito e aprendendo mais ainda. Uma ideia que não está no livro mas que eu tiro de experiência própria é pessoas nessa faixa ainda não se esqueceram de como é ser estudante; essa é a fase, portanto, em que você consegue viver com pouco ao mesmo tempo em que tem possibilidade de ganhar muito, e é em que oportunidades boas podem aparecer em qualquer lugar. Tudo isso deveria servir de incentivo para os meus amigos pararem de querer praticar loucuras como comprar um apartamento nessa idade. Um adendo: esse quinto argumento foi o que mais me fez pensar e é o que está me fazendo escrever esse texto de noite, buscando desenvolver minha carreira de escritor, enquanto que antes de ler Adeus, aposentadoria eu apenas diria “estou cansado” e iria assistir qualquer coisa na Netflix.

Essas cinco ideias não são revolucionárias, mas ter contato com elas provoca uma pequena e saudável reflexão. Dito isso, tenho alguns problemas com este que considero o livro mais fraco de Cerbasi. Por exemplo, o autor começa o livro com uma discussão desnecessária sobre a justiça do capitalismo. O autor não demostra ter embasamento filosófico para tanto e propõe uma argumentação fraca. Cerbasi diz que, se todos tiverem condições iguais, o capitalismo será idealmente justo e portanto todos têm a chance de ser empreendedores. Primeiro, imaginar que em alguma sociedade capitalista típica “todos tem condições iguais” é uma hipótese bastante questionável; e segundo, o quarto argumento acima se baseia de certa forma no competição e em você ter mais sucesso que outras pessoas. Sim, eu concordo que é possível praticar o capitalismo almejando ser o mais ético possível, e que é possível praticar a concorrência em um mercado de maneira limpa, mas essa discussão inicial não acrescenta nada à tese do livro.

Outro problema do livro é que faltam exemplos práticos. Com exceção de um ou outro relato, Cerbasi não mostra nenhum caso de sucesso de alguém que teve o negócio próprio com sucesso e hoje vive apenas dos rendimentos dele. Para um campo bastante empírico como o das finanças pessoais, fica difícil ignorar essa lacuna nessa obra.

Por esses motivos, tenho dificuldades em recomendar Adeus, aposentadoria sem ressalvas e concordar com tudo que o autor diz. Por outro lado, a leitura é curta (e Cerbasi escreve muito bem) e um ponto em que definitivamente concordo com ele é que deveríamos seguir uma abordagem contínua de desenvolvimento pessoal e profissional. Assim, sugiro que você leia esse livro não como algo que vai mudar sua vida, mas como algo que faz parte de um processo contínuo de educação financeira e que reforça a necessidade de pensar no futuro. Você talvez não concorde que ter um negócio próprio é a melhor saída para parar de trabalhar, e você naturalmente tem o direito de não concordar; mas já pensou em alguma saída? Se acha que o concurso público é a saída, você está totalmente por dentro das regras de aposentadoria e de como elas mudaram. Se acha que a previcêndia privada vai ser suficiente, já fez as contas, descontando taxas, Imposto de Renda e inflação? Assim, mais importante que as ideias do livro, para mim, é ele sugerir que pessoas já no começo da carreira pensem nisso, e que pessoas de idades diferentes devem tomar atitudes muito diferentes em relação a dinheiro e carreira (e o roteiro que ele traça para cada década de vida é um dos pontos altos da obra).

Minha recomendação final? É melhor ler do que não ler. Não é o melhor livro de finanças pessoais, mas você não vai perder nada se dedicar um tempo a ele. Cerbasi entra em mais detalhes do que eu tratei aqui (principalmente destacando os problemas das soluções tradicionais de aposentadoria) e, como falei, faz você pensar um pouco no futuro.

Uma última nota final: não que seja do interesse do leitor, mas eu estudei a língua alemã por muitos anos e ainda hoje procuro regularmente ler notícias nesse idioma. Se por um acaso o leitor desafia todas as probabilidades e também sabe ler em alemão, aqui está um pequeno texto com que me deparei hoje, falando das prováveis dificuldades que os aposentados na Alemanha vão enfrentar no futuro.

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Resenha: Dinheiro: os segredos de quem tem

Há algum tempo, publiquei uma série de textos  sobre um dos meus livros preferidos de finanças pessoais. A releitura de alguns conceitos me incentivou a fazer uma revisão geral da minha organização financeira, incluindo ler algumas outras obras.

O primeiro que li foi o ótimo Dinheiro: os segredos de quem tem (Editora Gente, 2010), do famoso autor de finanças Gustavo Cerbasi. É o seu primeiro livro e um dos menos conhecidos, mas o título provocativo sempre me provocou uma curiosidade em ver o que ele tem a dizer num nível mais fundamental e geral, sem falar de finanças de casais ou aposentadoria, como outros livros mais recentes e mais famosos.

Dinheiro é um livro prático introdutório sobre finanças pessoais, focando em ensinar o leitor na construção de riqueza, aqui definida pelo autor como o estado em que o indivíduo tem uma renda perpétua segura suficiente para cobrir todos os seus gastos. Quando o leitor atinge uma massa crítica de investimentos que renda mensalmente uma quantia suficiente para viver de maneira confortável, pode se aposentar, mas não deve parar de trabalhar (como Cerbasi afirma e eu concordo, trabalhar faz muito bem para a alma). Mas se o faz, é no que quer e porque quer, já que ele não precisa do salário para sobreviver.

Já faz uns cinco anos que me interesso e me aprofundo cada vez mais no assunto de finanças pessoais, então muitos dos conceitos que o autor apresentam não são novos para mim, mas Dinheiro tem dois aspectos que achei muito interessantes:

  • Assim como A Árvore do Dinheiro (revisada na minha série já citada), Dinheiro argumenta que discussões sobre dinheiro devem começar pelo que ele não compra. Como pesquisas e a experiência comum mostram, o prazer que se obtém quando se compra algo novo é bastante efêmero e pode levar a uma vida vazia. Não vamos ser ingênuos: é importante ter dinheiro sim, pela segurança que ele traz, mas escapar do materialismo é uma das melhores maneiras de enriquecer. Quanto menos você precisar para sustentar o seu “padrão de vida”, mais fácil será acumular a massa crítica, e você não terá tantas posses que requerem cada vez mais gastos.
  • Enriquecer demanda conhecimento e tomada de boas decisões, e isto exige fazer cálculos. Pode ser a minha cabeça de engenheiro, mas a ênfase na matemática financeira, mostrando para o leitor como quantificar o efeito dos juros compostos (que é o faz a pessoa enriquecer), das taxas e da inflação, é uma das melhores características do livro. Cálculos cuidadosos ilustram uma das melhores seções de Dinheiro, em que o autor se junta ao debate “o que é melhor, comprar ou alugar?”.

Ao longo do livro, Cerbasi mostra como construir um plano de riqueza, começando pela definição da sua renda desejada (na qual o primeiro aspecto acima é importante), passando pela escolha de investimentos e cálculo de quanto é preciso investir a cada mês, até um plano concreto de investimentos.

A minha principal crítica é que o autor se mostra um pouco incompleto nos exemplos de cálculos de rendimento. No caso de investimentos em renda variável, é difícil prever a taxa de retorno dos investimentos, e acho que o autor poderia dar um pouco de cobertura a essa área (mostrando alguns exemplos). Pode haver a impressão de que qualquer tipo de investimento informa a taxa de juros como uma informação pronta. Além disso, minha mente de engenheiro me leva a questionar se as projeções tão cuidadoas do autor fazem sentido num cenário de incerteza inflacionário como o nosso. Reconheço que eu mesmo devo comparar o rendimento da minha carteira com estes cálculos para poder ter mais certeza sobre isso.

Pessoalmente, recomendo a leitura de Dinheiro. O autor escreve bem e o livro é de leitura fácil. Se você está começando, leia esse em parceria com A Árvore do Dinheiro e veja o que eles têm em comum e de diferente; você terá uma boa base para começar a investir. Se você já tem experiência em investimentos, acho que sempre é bom revisar o básico, porque isso dá uma base muito mais profunda para nos aprofundar no assunto. Enriquecer passa por um ciclo contínuo, de se informar sobre investimentos e, claro, investir sempre em soluções inteligentes.

Criticando livros

Uma das minhas passagens favoritas de Comer Ler Livros (How to Read a Book (HTRAB), Mortimer Adler e Charles van Doren, Touchstone, 1972) é esta (tradução livre minha):

Você deve lembrar de alguma ocasião onde alguém disse a algum palestrante, em uma respiração ou no máximo duas, “Eu não sei o que você quer dizer, mas acho que você está errado”

Ora, isto é completamente sem sentido. Se você não entendeu algo, não pode criticar (a Regra 9 da leitura analítica). É por isso que a última parte da leitura analítica de um livro (que estou cobrindo nesta série
) é realmente a última: só depois de você entender a estrutura
e o conteúdo
é que você pode começar a fazer julgamentos.

Vamos relembrar do último texto
que eu identifiquei os argumentos principais de A Árvore do Dinheiro (Macedo Jr., Insular, 2013), os quais, como se trata de um livro prático, se convertem em sugestões ao leitor. O Prof. Jurandir mostra algumas pesquisas, fala de sua experiência própria e usa de argumentação lógica para dizer: “Leitor, se você quiser melhorar sua relação com dinheiro e cumprir seus objetivos financeiros, estas são as dicas que você precisa seguir”. A questão é: eu, enquanto leitor, concordo?

Se sim, como os autores de HTRAB dizem, o trabalho está feito. Eu li um livro com o máximo de atenção que eu consegui, mapeei sua estrutura, achei as palavras e frases mais importantes e extrai o seu significado. No caso de um livro prático como este, eu concordei que os passos que ele propôs vão levar aos fins que ele estabeleceu, e que eu quero alcançar estes fins (note que são dois julgamentos diferentes que devem ser feitos em um livro prático). Se este é o caso, eu acabei a leitura — e preciso agora praticar as recomendações dele.

No caso de AD, eu concordo sim com o livro, e acho que então que terminei meu trabalho. Eu tenho apenas uma reserva, mas é aí que entram as Regras 10 e 11 da leitura analítica, que dizem que, antes de criticar, você deve se abster de ser violento nos seus comentários e deve diferenciar entre o que é a sua opinião e aquilo sobre o que você pode provar que o autor está errado. Eu não consigo fazer isso (dizer que o livro tem informações falsas), pois a argumentação e as dicas do Prof. Jurandir são bem construídas. Minha única divergência é que o autor recomenda clubes de investimento como uma maneira “divertida” e fácil de começar a investir, e as minha tendências levemente anti-sociais me fazem achar que começar sozinho, perguntando bastante mas aprendendo a fazer você mesmo, pode ser mais efetivo. Mas, novamente, eu reconheço que isto é uma opinião minha, e não consigo convencer ninguém que clubes de investimento não são uma boa opção (até porque conheço poucas pessoas que já participaram de algo assim).

As Regras 12 a 15 mostram como exatamente analisar como um autor está errado (onde ele omitiu informação? onde ele não foi lógico?), mas na minha análise de AD isto não se aplica (já que eu estabeleci que concordo com o livro), e portanto não vou abordar estas regras aqui (e por isso este texto ficou bastante curto). Vá comprar uma cópia de Como Ler Livros para aprender mais.


E chegamos ao final dessa série, que foi uma das coisas mais desafiadoras que já fiz em FabioFortkamp.com. Mostrei um processo exaustivo mas recompensandor de extrair o máximo de informação de um livro. Como no momento estou numa fase de me interessar pelo assunto, talvez eu resenhe mais alguns livros de finanças por aqui. E, como sempre, obrigado por lerem este blog.

Interpretando um livro

Na nossa jornada para aprender a tirar o máximo dos livros, falamos como é interessante você primeiro inspecionar uma obra, com o objetivo principal de saber se ela vai lhe ajudar a cumprir seus objetivos. Se sim, você procede a uma leitura analítica, lenta e atenciosa, prestando atenção a cada frase. De acordo com Adler e van Doren, os autores de Como Ler Livros (HTRAB), existem três etapas principais para você realmente analisar um livro por completo. No último texto, falamos da estruturação do livro. Sobre o que é o livro? Qual a ideia principal? Como o autor estrutura essa ideia? Quais os problemas que ele quer resolver? Essas são as primeiras quatro regras da leitura analítica.

O segundo estágio (que pode ser feito simultaneamente com o primeiro, na verdade), consiste em interpretar o livro, e o modelo de HTRAB segue uma boa seqüência de dentro para fora do livro.

Passos da interpretação de um livro

Identificando os termos

Uma obra literária, no mais detalhado grau, é um conjunto de palavras, e bons autores se diferenciam pelo uso eficiente destas. Nem todas as palavras são importantes, e uma das tarefas do leitor, a Regra 5 da leitura analítica, é identificar quais são importantes e o que elas querem dizer.

Muitas vezes o autor repete incessantemente uma palavra, ou usa diversos sinôminos com um significado só, ou mesmo faz uso extensivo de sublinhados e itálico. Isso é um alerta, um modo do autor dizer “Cuidado! Essa palavra é importante!”. Não exatamente a palavra, mas o termo, o que ela precisamente significa dentro das ideias do livro.

Umas dos termos mais importantes de A Árvore do Dinheiro (AD), (Macedo Jr., Insular, 2013), sem dúvida, é dinheiro, significando algo que você recebe pelo seu trabalho, por presentes, prêmios ou investimentos, e troca por outros bens e serviço; a mais simples definição de dinheiro, para mim, e que serve dentro do contexto de AD foi exemplificada por Alexandre Versignassi em Crash (Leya, 2011):

Dinheiro é um mecanismo engenhoso: permite que uma manicure compre seis pãezinhos sem ter de fazer as unhas do padeiro.

Como acontece com muitas habilidades, é apenas com o hábito de ler muito (como eu estou tentando continuamente cultivar em mim) que você aprende a identificar os termos mais importantes. Aqui está uma lista dos outros que eu identifiquei em AD:

  • Investimento: mecanismo pelo qual você aplica dinheiro e recebe rendimentos, algum tempo depois
  • Felicidade: estado de contentamento, plenitude e paz interior
  • Consumo: hábito controlado ou não de comprar coisas
  • Desejar: querer algo de maneira passional
  • Juros: preço do dinheiro em um investimento: é o que você paga quando empresta dinheiro ou recebe quando o investe
  • Objetivo: algo que você quer realizar dentro de algum prazo
  • Risco: variação temporal dos preços dos investimentos
  • Aposentadoria: processo pelo qual você vive de renda não gerada pelo seu trabalho
  • Mercado: conjunto de pessoas que compram ou vendem algum produto ou serviço
  • Decisão: ato de escolha de alguma ação (no sentido de atividade)
  • Finanças: é usado em dois sentidos ao longo do texto: como estudo de assuntos relacionados a dinheiro (como em “Finanças Comportamentais”), ou como o conjunto do seu patrimônio, renda, dívida e hábitos relacionados a dinheiro (as suas famosas “finanças pessoais”).
  • Emoções: característica dos mamíferos de se apegar a algo ou alguma ideia de maneira irracional (eu usei “mamíferos” porque isso é importante no primeiro capítulo — a propósito, leia o livro!
  • Títulos: tipo de investimento no qual você empresta dinheiro a empresas/governo/bancos, e recebe juros em cima disto
  • Ações: tipo de investimento equivalentes a cotas de uma empresa que você compra, dando direito a receber parte dos seus lucros
  • Fundos: tipos de investimento formado por vários outros sub-tipos
  • Carteira: o seu conjunto pessoal de investimentos.

Identificando proposições

Subindo um nível no livro, passamos de termos a proposições — e, assim como ler um livro com qualidade é ler fazendo perguntas, as proposições mais importantes, segundo HTRAB, são aquelas que levantam as melhores perguntas, ou que melhor contribuem para resolver os problemas do autor. Para relembrar do último texto), os problemas que eu identifiquei que A Árvore do Dinheiro tenta resolver são:

  1. Como construir uma “árvore do dinheiro”, isto é, o que deve ser feito ao longo da vida de uma pessoa para que, quando a pessoa estiver mais idosa, ela comece a receber rendimentos do dinheiro que foi aplicado?
  2. Por que o conhecimento clássico, puramente matemático, das finanças não é suficiente? Por que as nossas emoções nos atrapalham na construção dessa árvore do dinheiro?
  3. Quais são os mecanismos pelos quais uma pessoa constrói a sua árvore do dinheiro? Qual a melhor estratégia?

Por exemplo, referente à primeira pergunta, o autor faz uma proposição importante:

Se você pretende ficar rico, só existe uma receita: precisa gastar menos do que ganha e investir suas economias

Esse é o próprio resumo da resposta à primeira pergunta. Mas isso levanta outras duas perguntas: como gastar menos, e como investir as nossas economias?

Quão fácil é poupar dinheiro? Analisemos um trecho de AD:

Acreditamos que você pode facilmente poupar e ser previdente sem deixar de aproveitar a vida. Pode dosar trabalho e lazer sem prejudicar seu desempenho profissional. […] O segredo é poupar nos gastos que não contribuem para sua qualidade de vida e fazer um bom planejamento financeiro.

A proposição central é então “uma das chaves para ter mais dinheiro para investir é identificar os gastos que não trazem felicidade”. Veja esta outra passagem:

Na Europa é comum que as pessoas ricas adquiram objetos de luxo apenas com o rendimento de seu capital. Somente com a renda que provém de seus investimentos é que os milionários nesses países compram determinados artigos, como carros potentes e bolsas de grife, que têm preço exorbitante. No Brasil é comum presenciarmos situações de pessoas que se endividam para comprar roupas, carros e joias que não condizem com seus ganhos mensais. É importante frisar que você deve tomar cuidado ao adquirir objetos de luxo com o dinheiro que é fruto de seu trabalho. Até porque o trabalho demanda tempo, que é o bem mais precioso.

Mas por que afinal as pessoas se endividam para comprar artigos de luxo? A resposta está distribuída ao longo de várias passagens ao longo do texto, mas a proposição central é que “poupar para o futuro é uma atitude puramente racional e que se baseia na hipótese de que não vamos morrer, mas gastar agora traz uma dose de prazer imediato, e nosso lado mais primitivo adora essas recompensas momentâneas”. Diante da oportunidade de comprar um carro novo e exibir para o seu desafeto na empresa, fica difícil controlar esse instinto de estabelecer status para poupar para a aposentadoria. Quem disse que estaremos vivos até lá?

E assim você vai analisando o livro, montando proposições (que devem ser feitas a partir com suas palavras) a partir de uma ou mais frases do autor (a Regra 6 da leitura analítica). Como outro exemplo, outra proposição principal é que “à medida que você vai envelhecendo, deve trocar seus investimentos de ações para títulos públicos”. (Isso é parte da resposta à pergunta 3 acima). Ou, referente à pergunta 2, uma outra proposição diz que “mercados são compostos de pessoas, e pessoas muitas tomam decisões no calor do momento, mesmo que não faça sentido nenhum, e isso é difícil de calcular matematicamente”.
AD tem muito mais proposições; aqui está uma lista de algumas (estas são, em sua maioria, palavras minhas):

  • Pesquisas e a experiência comum mostram que a felicidade está ligada a aspectos que o dinheiro não pode comprar, como espiritualidade e relacionamento com pessoas amadas
  • Porém, falta de dinheiro e endividamento estão quase sempre ligados à infelicidade
  • Não há sentido nenhum em trabalhar mais para ganhar mais, se isto chega a um ponto em que você não tem mais tempo para aproveitar esse dinheiro
  • Poupar demais pode ser tão ruim quanto não poupar de menos
  • O planejamento financeiro é uma maneira de controlarmos os nossos instintos de consumo e aumenta nossas chances de poupar
  • Pessoas que não se planejam delegam esse planejamento para gerentes de banco
  • No jogo econômico, ou você paga juros, ou os recebe
  • Você se torna rico quando os rendimentos dos seus investimentos (e não o seu trabalho) geram a receita que você precisa e quer para viver.
  • Você deve separar o dinheiro para poupança como uma despesa fixa, todo mês.
  • Fundos de investimento cobram taxas de administração, mas permitem que pequenos investidores se juntem e consigam negociar como grandes investidores
  • Investimentos em títulos de Tesouro Direto são uma das mais atrativas opções para o investidor típico
  • Os títulos do Tesouro Direto (e outros títulos de renda fixa), por terem rendimento fixo (ou indexado a algum fator determinado, como a Selic ou os índices de inflação), só representam prejuízo garantido para o investidor na muita remota hipótese de o governo dar o calote
  • As ações rendem tanto quanto o sucesso financeiro das empresas o permite, mas a chance de rendimento positivo significativo em um prazo menor que dez anos é muito remota
  • A tributação brasileira sobre investimentos favorece muito quem segura os investimentos por três anos ou mais
  • Pesquisas e teorias economômicas mostram que a especulação (compra e venda ativa e diárias de ações) não rende mais que um investimento passivo, onde o o investidor compra ações ao longo de um horizonte de dez anos ou mais e depois começa a colher dividendos
  • Uma carteira de investimentos diversificada, onde a proporção de renda variável decresce ao longo do tempo, é, segundo mostram alguns exemplos, a melhor estratégia de investimentos
  • Planejamento financeiro é algo dinâmico e exige constante reavaliação.

Identitificando os argumentos

Proposições se juntam para formar argumentos, uma sequência lógica de ideias. Como A Árvore do Dinheiro é um livro prático, as proposições e arguementam se mesclam também com as sugestões que o autor faz para que você siga. Ou seja, ao ler um livro prático, é interessante identificar o que o autor recomenda que você faça para melhorar a sua vida no aspecto que ele está estudando.

A lista acima dá muitos exemplos de proposições que se juntam para formar argumentos. Por exemplo: dado que nossos sistemas primitivos sempre vão nos puxar para o lado do prazer imediato (pense no pico de prazer ao tomar sorvete, mesmo que você racionalmente saiba que não deveria comer tanto açúcar), para vencer isso você deve formar o hábito de planejar as suas finanças e se pagar primeiro. Trate a sua poupança como uma despesa fixa, onde assim que você recebe o seu salário você dedica uma parcela (de 8 a 20% é o recomendado pelo autor; pessoas mais jovens podem se dar ao luxo de poupar menos, porque terão mais tempo de poupança) para algum investimento. Como fazer para não faltar dinheiro para as outras despesas (incluindo contas a pagar): poupe naqueles itens que não contribuem na sua qualidade de vida. Uma sugestão boa do autor é regularmente se perguntar “o que me traz felicidade?”. Literalmente, de tempos em tempos pegue uma folha de papel e faça uma lista do que é importante. De repente você descobre que assitir TV a cabo não entrou na sua lista, e poderia cortar essa despesa.

Porém, o perigo inverso é poupar demais, e nem chegar a viver para ver os frutos dessa poupança. O autor mostra uma pesquisa de um psicólogo americano que concluiu que a felicidade está ligada a prazer, engajamento e significado. O dinheiro só pode comprar prazer (não tendo muito efeito prático na relação com sua mãe nem com o sentido que você atribui à sua existência), e é imporante não esquecer dos pequenos prazeres que podem trazer muita felicidade. Tomar uma cerveja com seus amigos numa sexta-feira pode ser bastante barato (se você não se deixar levar pela tentação de frequentar bares da moda) e trazer bastante felicidade. Ou o cinema que você vai com sua namorada para ver aquele filme pelo qual você não aguenta esperar. Ou o livro do seu autor favorito. Em geral, todos esses pequenos gastos podem ser encaixados no orçamento, com algum planejamento, e trazem grande benefício.

Outro exemplo, para finalizar: a tributação e a maneira como os mercados oscilam favorecem muito o investimento em longo prazo. Investidores “amadores” não têm tempo para tentar adivinhar qual empresa está melhor em cada dia, e parte do lucro que supostamente pode ser obtido com um jogo de trading vai ser comido por impostos e pelas taxas das corretoras. Além disso, pesquisas em Economia mostram que os preços das coisas semprem tendem ao seu valor eficiente; você até pode encontrar uma ação que está muito barata, mas as milhões de outras pessoas logo vão perceber e corrigir isso (comprando ações), e você não vai conseguir correr atrás de todas as ações muito baratas. Logo, a melhor estratégia (de acordo com essas pesquisas e com a experiência do autor) para construir a árvore do dinheiro é ser passivo: pague-se primeiro (como já falado) e investa essa poupança em títulos de tesouro e um ações de empresas de setores diferentes (indústiras, alimentos, serviços financeiros, mercado de roupas…), de maneira que uma crise em um setor seja “amortecido” pelos outros; o crescimento natural da economia vai se encarregar de valorizar o seu patrimônio. Á medida que você for envelhecendo, vá direcionando mais e mais para o tesouro, que tem rendimento menor porém garantido. Entretanto, você também vai ter objetivos de curto e médio prazo, como uma viagem ou trocar de carro; para esses casos, a renda variável é muito arriscada, mas a caderneta de poupança (que sempre perde para a inflação em prazos muito longos) e alguns tipos de títulos do tesouro funcionam bem. Trace seus objetivos e trace planos para cada um, de acordo com o horizonte de tempo disponível (lembram que esse era um dos meus principais problemas?).

Juntar proposições em argumentos é a Regra 7 da leitura analítica.

Identificando as respostas aos problemas do autor

O último passo da interpretação do livro é verificar se o autor responder às perguntas que ele mesmo propôs, e caso contrário, onde ele falhou (a Regra 8 da leitura analítica).

No caso de livros práticos, a minha percepção é que o autor raramente vai deixar claro onde estão as falhas (em um livro prático a pessoa propõe uma metodologia, e não vai querer apontar onde ela é incompleta). No caso de AD, que é um livro relativamente curto, para mim fica claro que o Prof. Jurandir concatenou todas as respotas para as suas três perguntas principais, através dos argumentos que eu delineei na última seção.

Da interpretação à crítica

O último estágio da leitura é criticar o livro — e isto significa muito mais que dizer se o autor está certo ou errado. É usar a sua experiência para avaliar o livro.

Aguardem para a última parte desta série que está me dando muito trabalho, mas está me dando uma luz incrível, tanto sobre Como Ler Livros quanto sobre A Árvore do Dinheiro.

Um exemplo de leitura inspecional

Continuando a série
sobre Como Ler Livros, vou agora demonstrar como eu faço a leitura inspecional do livro. Como dito no último post (de leitura obrigatória para este), estou usando como exemplo A Árvore do Dinheiro (Elsevier, 2010), do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr., que estou re-lendo com o objetivo expresso de melhorar a minha compreensão sobre diferentes atitudes financeiras a se tomar para diferentes horizontes de tempo. Eu já anoto todos os meus gastos, aprendi a controlar as receitas e despesas, e já estou investindo em ações, pensando no longo prazo. Minha pergunta é: como investir inteligentemente para o médio prazo, de 3 a 5 anos, quando os investimentos em ações têm um risco enorme de resultarem em prejuízo (ou serem consumidos pelo imposto de renda).

Seguindo as técnicas de HTRAB, antes de se ler um livro em atenção, é importante ter uma visão geral da obra, e é esse o objetivo da leitura inspecional. Como dizem os autores (tradução livre minha):

O tremendo prazer que pode vir de ler Shakespeare, por exemplo, foi arruinado para gerações de estudantes de ensino médio forçados a trabalharem em cima de “Júlio César”, “Como Gostais”, ou “Hamlet”, cena por cena, procurando todas as palavras estranhas em um glossário e estudando todas as notas de rodapé acadêmicas.

Isso foi uma revelação para mim. Quantos livros abandonei na décima página por já ter perdido a noção do assunto sobre o qual estou lendo? Pensando bem, a ideia da leitura inspecional é natural. Se eu tenho um livro na minha mão, e quero aprender algo sobre ele, a probabilidade de que eu esteja num nível muito abaixo de compreensão em relação ao autor do livro é grande. Seria irrealista da minha parte achar que com apenas uma leitura muito atencionsa eu conseguirei entender tudo e me tornar um especialista no assunto.

O primeiro nível de leitura é o elementar, onde enxergamos, letras, palavras e frases que formam um significado. Subindo de nível, temos agora seções, capítulos, o livro como um todo — ou seja, a estrutura de um livro, e é exatamente isso que precisamos identificar. Ainda não atingimos o nível das ideias e do assunto em si, mas já podemos visualizar o livro como uma entidade.

Algoritmo básico da leitura inspecional

Adler e van Doren propõem uma sequência de passos a serem tomados:

  1. Leia o título
  2. Estude o sumário
  3. Estude o índice
  4. Procure os capítulos que parecem importantes para os argumentos do autor
  5. “Passeie” por esses capítulos, parando para ler alguns parágrados — mas não mais do que isso

É importante ressaltar, nessa fase, a necessidade de possuir um livro e tomar notas. É por isso que eu adoro livros digitais, por ser tão fácil marcar trechos e tomar notas (no caso do Kindle, é possível ainda facilmente exportar as notas como um arquivo de texto). Para livros físicos, eu gosto de usar post-its grandes, que depois eu posso destacar e organizar, antes de escrever notas e textos como esse que vocês estão lendo.

Mas sobre o quê exatamente você precisa tomar notas?

Perguntas básicas da leitura inspecional

As três perguntas básicas a serem respondidas na leitura inspecional são:

  1. De que tipo é o livro?
  2. Sobre o que é o livro como um todo?
  3. Como o autor estrutura o seu argumento e a sua compreensão do assunto?

Classificação dos livros

À medida que você vá realizando esses passos, procure identificar de que tipo é esse livro. Segundo HTRAB, o primeiro nível de classificação é se o livro é:

  • Ficcional, isto é, conta algo que não aconteceu?
  • Expositivo, ou seja, apresenta algo que existe no mundo real?

Ler um livro de ficção exige uma mentalidade bastante diferente em relação a outros livros (como já argumentei aqui
), devido ao uso de metáforas e outros artifícios. Por isso, vamos nos concentrar nos livros de não-ficção. Eles podem ser:

  • Teóricos
  • Práticos

Livros práticos são manuais. Geralmente contém títulos como A Arte de…, Como … e estão cheio de expressões como você deve, para conseguir isso, faça aquilo, etc. Livros teóricos contam o quê e livros práticos se concentram no como.

Independente do livro (expositivo) ser teórico ou prático, ele ainda pode, na classificação de HTRAB, abarcar três grandes assuntos:

  • História: uma narrativa de fatos que aconteceram em algum momento passado
  • Ciência: um relato de coisas que acontecem, sem tempo definido. Geralmente livros científicos se baseiam em observações da natureza ou em raciocício abstrato bem articulado
  • Filosofia: como ciência, mas lidando com assuntos mais próximos da experiência cotidiana do ser humano.

Expressando o todo e as partes de um livro

Muito bem. Eu sentei com o meu exemplar de A Árvore do Dinheiro, peguei post-its, e dei uma lida superficial mas sistemática. Estudei o sumário, o prefácio e li algumas páginas. Marquei algumas passagens como imporantes, e o tempo todo pensava em como eu poderia melhor expressar o conteúdo do livro (o processo todo levou aproximadamente uma hora). Aqui está a minha melhor tentativa:

Este é um livro prático de finanças pessoais (relacionadas às ciências economômicas e à psicologia, sendo um livro científico portanto). O autor usa elementos da teoria financeira e comportamental para traçar um plano, cuja meta é construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar os objetivos do leitor. Os capítulos seguem a ordem proposta do plano: primeiramente é discutido como traçar objetivos coerentes com o nosso estilo de vida; em seguida é levantada a questão do orçamento pessoal e de como fazer sobrar dinheiro para que este seja investido. Uma breve explicação sobre risco, investimentos e capital segue, e o livro termina abordando três grandes grupos de investimentos: fundos, renda fixa e renda variável, a serem adotados pelo leitor conforme seus objetivos.

Observe que com um parágrafo eu consegui ter uma visão macro do livro, mesmo que eu ainda não tenha entendido os detalhes do plano que o autor defende.

Conclusões e próximos passos

Da próxima vez que o leitor for um livro e quiser lê-lo com toda a atenção, experimente fazê-lo em dois estágios, fazendo uma leitura inspecional primeiro. Antes de ler com a total energia, tenha uma noção geral do que é o livro, com o objetivo de melhor adotar estratégias.

Por exemplo, tendo relembrado a estrutura de A Árvore do Dinheiro, e tendo o meu objetivo em vista, eu sei que eu preciso dedicar especial atenção aos capítulos onde são discutidos “como definir objetivos financeiros” e sobre renda fixa, que eu já identifiquei (através da lida rápida mas atenciosa em alguns capítulos) como sendo a peça chave em objetivos de médio prazo.

O próximo passo é a leitura analítica, tema dos próximos posts.

Objetivos quando se lê um livro

Há mais de dois anos (!), eu publiquei uma resenha de um livro que me marcou profundamente, Como Ler Livros de Adler e van Doren. Ler é uma parte tão fundamental da minha vida que venho criando o hábito de regularmente revisitar essa obra-prima e repensar a maneira como leio, sempre com o objetivo de ser um leitor melhor, e não de apenas ler mais.

Esse é o primeiro de uma série de textos com as minhas interpretações desse livro e de como tenho aplicado suas ideias.


Você tem um livro na sua frente. E agora?

O ponto principal que Adler e van Doren enfatizam é que ler ativamente, ler com qualidade, é ler fazendo perguntas e procurando respostas. Em outras palavras, você precisa ler com algum objetivo em mente. Numa das minhas passagens preferidas (numa tradução muito livre minha do original em inglês
, uma edição da Simon & Schuster de 1972):

Com nada mais que o poder da sua própria mente, você opera nos símbolos à sua frente de tal maneira que você gradualmente se eleva de um estado de compreender menos para um estado de compreender mais. Tal elevação, realizada pela mente trabalhando sobre um livro, é leitura de alta habilidade, o tipo de leitura que um livro que desafia a sua compreensão merece.

Essa “elevação de estado” é a chave para uma boa leitura, e possui dois pressupostos não muito óbvios. Primeiramente, o livro — ou melhor, o autor — precisa entender mais do assunto que você. Ler um livro de alguém que sabe menos que você é perda de tempo. Em segundo, é possível ler por puro entretenimento, mas não existem regras para esse tipo de leitura.

Por exemplo, recentemente li um bom livro de gerenciamente de tempo chamado Eat that frog!, de Brian Tracy (Berrett-Koehler Publishers, 2007). O meu objetivo era claro: eu estava me atrapalhando com as minhas atividades, esse livro era recomendado por muitas pessoas que eu admiro na internet e eu desejava aprender mais sobre o assunto. Hoje, não vou dizer que o livro “mudou minha vida” ou algo do tipo, mas reforçou algumas ideas sobre focar nas atividades mais importantes e eliminar ineficiências de tempo.

Em outro exemplo, estou com um projeto de ler e reler alguns livros de finanças, como um dos meus preferidos, A Árvore do Dinheiro, do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr. Meu objetivo é bem claro: embora eu acredite que já tenha aprendido a importância do planejamento diário, do orçamento, e dos investimentos a longo prazo, tenho esquecido de levar em conta os objetivos de médio prazo, como uma viagem daqui a quatro anos ou trocar de computador daqui a três. Preciso ser mais inteligente em como fazer esse tipo de planejamento.

Isso não vale apenas para livros práticos, lógico. Quando estava lendo Rápido e Devagar
, o tempo todo eu estava tentando pensar em situações nas quais aquelas ideias podiam ser aplicadas. À medida que eu lia, eu queria me focar em entender algumas pessoas e porque elas agiam assim. Isso me permitiu me concentrar nas passagens certas e absorver melhor os conceitos.

Ou, para fechar os exemplos, nesse momento estou completamente mergulhado
em A Eternidade por um Fio, de Ken Follet. Embora eu saiba que é uma obra de ficção com muita licenças poéticas, eu quero entender como as pessoas viviam na Guerra Fria (e, como um bônus, o livro tem me feito pensar muito em como os preconceitos não mudam com o tempo).

Enfim, você quer aprender ou entender melhor alguma coisa, e tem um objetivo claro. Seleciona um livro que pode ajudar. É agora que o trabalho começa.


Venho buscando uma atividade intelectual para fazer à noite e forçar minha mente a descansar dos estudos de termodinâmica e magnetismo. Como maneira de ilustrar a aplicação da técnica de Como Ler Livros (a que eu muitas vezes me refiro pela abreviação em inglês HTRAB), e de eu mesmo revisá-la, durante as próximas semanas vou dedicar esse tempo livre a ler o já citado A Árvore do Dinheiro (especificamente, uma edição da Elsevier de 2010) e postar aqui uma “resenha” em partes, ao mesmo tempo em que mostro como eu abordo a leitura de um livro de maneira atenta. Para a minha pergunta de “como investir para objetivos de médio prazo?”, vou ler um livro do professor que criou o primeiro curso universitário brasileiro de Finanças Pessoais (e que portanto entende mais do que eu) em busca de respostas. Fiquem atentos.

YNAB: você precisa de um orçamento

Faz algum tempo que me interesso pelo assunto de finanças pessoas e,
claro, procuro usar a tecnologia para me ajudar nesse assunto. Mas
percebi que existe algo errado com a grande maioria das aplicações sobre
o tema. E é um erro de concepção.

Digamos que você tenha R$ 1000 na sua conta bancária. O jeito que a
maioria dos softwares trabalha é simplesmente usar esse valor como
disponível. E percebo que muitas pessoas pensam assim. Se tenho R$1000,
posso comprar amanhã uma geladeira de R$800, certo? Ainda me sobram
R$200. E então, no fim do mês, quando o aluguel de R$600 chega, você
está em problemas.

Esse é o problema de mentalidade. O seu saldo da conta corrente tem na
verdade pouca relação com quanto você tem. O seu “saldo” real na verdade
tem muitos fatores: quanto você tem no banco, quanto você tem em
dinheiro vivo, quantas dívidas você tem, quais pagamentos você vai ter
de fazer no mês. E um software que me ajude a gerenciar finanças deve
ser o inteligente para me dizer: “olhe, você tem R$1000 na conta e
R$200 na carteira, mas você tem de pagar o aluguel de R$600 no fim do
mês, gasta mais ou menos R$300 com alimentação e R200 de transporte,
então só pode gastar R$100 com o resto!”. Percebam a matemática. Não
basta saber quanto eu tenho em uma conta, é preciso atualizar meus
créditos e débitos em tempo real.

Há alguns meses, conheci um aplicativo assim, e chama-se You Need a
Budget
, ou YNAB, e é um software que alterou completamente minha
maneira de gerenciar finanças.

Um software de método

Por trás desse app existe um método de quatro regras:

  1. Dê a cada centavo uma tarefa. Defina orçamentos para aluguel,
    gasolina, comida, roupas, jantares, cinema, poupança. Você deve
    distribuir toda sua renda.
  2. Guarde para dias chuvosos. A cada mês, guarde um pouco para gastos
    imprevisíveis como manutenção do carro ou da casa ou gastos maiores
    como viagens, Natal etc
  3. Adapte-se. Se num mês você gastou mais que o esperado em gasolina,
    diminua seu orçamento em outras áreas. Comprometa-se a sair menos
    para jantar ou comprar menos roupas – mas registre essa decisão.
  4. Viva dos ganhos do mês anterior. Se estamos em outubro, você deve
    estar vivendo do que ganhou em agosto; da mesma forma, a sua renda
    para novembro já deveria estar garantida.

Se você tem grande habiliade com planilhas como Excel ou Numbers, a
rigor poderia até implementar essas regras nesse tipo de software. Mas a
companhia por trás do método criou programas para Mac e Windows (com
aplicativos auxiliares para iOS e Android) que implementam isso da
maneira mais rigorosa.

Como funciona? Primeiramente, quando você inicia, cadastra uma conta:

Cadastro de contas no YNAB

Cadastro de contas no YNAB

O YNAB diferencia entre “contas” e “orçamento”. Quando você cria uma
conta, o valor que você tem nela inicialmente fica “disponível para
orçamento”.

Orçamentos no YNAB

Orçamentos no YNAB

Perceba que já delimitei algumas categorias bem básicas. Você pode
adicionar quantas contas quiser. Talvez você tenha mais de uma conta
corrente. Também deve adicionar uma conta de “Carteira” para seu
dinheiro vivo, uma conta de cartão de crédito para cada cartão que você
tem.

Para nosso exemplo, adicionei uma conta “Carteira” com R\$ 200 de
crédito inicial.

Depois de cadastar suas contas, é hora de delimitar orçamentos para suas
categorias. Isso é a regra número 1.

Orçamentos com categorias

Orçamentos com categorias

Aí você começa a ver o que acontece. Nosso saldo total nas duas contas é
de R$1200, mas só temos R$200 disponíveis. Isso porque sabemos que
vamos ter gastos no futuro, então aqueles R$ 1200 não têm muito valor!

Vamos agora complicar as coisas, adicione uma conta de cartão de crédito
com um débito inicial.

Cartão de crédito

Cartão de crédito

Você agora já tem um gasto programado, e não tem nenhum valor reservado
para aquilo, por isso o YNAB exibe o valor em vermelho, como um alerta.

Para cadastrar uma transação, escolha uma conta e clique em Add a new
transaction
:

Transação

Transação

O seu orçamento agora fica atualizado (note a coluna do meio).

Orçamento após Transação

Orçamento após Transação

Porém, veja que isso não afeta o seu valor disponível para orçamento,
porque você já tinha separado um montante para aluguel. Porém, se você
gasta mais que o planejado em uma categoria, o YNAB exibe o valor em
vermelho e debita a diferença no valor disponível, que pode ser até
negativo. Nesse caso, você separou mais dinheiro que o disponível nas
suas contas, e precisa então reservar menos para algumas categorias
(isso é a regra 3).

Não quero aqui ensinar o leitor a usar o software, mas espero que tenham
percebido o valor dessa aplicação. O software serve a você, monitorando
muitas variáveis e impedindo que você gaste mais do que o disponível. No
site do app existem muitos vídeos e informação, incluindo como
implementar a regra 4. Quero apenas mostrar como esse app é diferente e
como ele ajuda a ter uma mentalidade mais racional com dinheiro. O
grande truque é esse, quanto você tem no banco é diferente de quanto
você pode efetivamente gastar.

Postos avançados no seu smartphone

YNAB é para ser operado no seu desktop. Inserir contas e definir
orçamentos são tarefas que só podem ser executadas no seu computador. O
pessoal que faz o app deve ter pensado que um usuário de YNAB usaria seu
smartphone para duas coisas principais:

  1. Consultar o orçamento disponível para alguma área (“queria comprar
    esse livro, será que separei algum dinheiro para comprar livros
    nesse mês?”)
  2. Registrar gastos

De fato, esse deve ser o padrão de uso de muita gente. Eu entendo essa
mentalide; ainda assim, gosto de ter apps completas no iPhone. A versão
do YNAB para smartphones é grátis e sincroniza por Dropbox com seu
orçamento criado no computador. Ou seja, não é uma versão do YNAB, é um
app auxiliar, um posto avançado no seu smartphone.

YNAB no iPhone

YNAB no iPhone

O que falta

Uma licença de usuário do YNAB custa $60 por usuário (pode ser usado em
quantos computadores a pessoa quiser) e, francamente, já vale para mim
muito mais que isso. É um dos meus apps preferidos, é extremamente
útil, bem projetado e tem tido impacto muito positivo nas minhas
finanças. Um exemplo prático: em abril, eu me dei conta de que em julho
teria de pagar os impostos do meu carro. Eu consultei no Detran os
valores devidos e quando deveria pagar cada cota. Defini então
orçamentos mensais para cada gasto; como o valor total foi diluído por
meses, não teve tanto impacto no meu orçamento normal e, quando chegou a
data, eu já estava com os valores todos “separados” (o dinheiro
continuava no banco, mas eu havia separado virtualmente com ajuda do
YNAB). É bem diferente de chegar julho e eu pensar “caramba, tenho de
pagar uma fortuna em IPVA!”.

O app tem mais alguns detalhes que não mencionei. O leitor atento deve
ter percebido que podemos cadastrar contas dentro e fora do
orçamento. As contas fora do orçamento são aquelas cujas transações não
afetam o orçamento. Eu uso essas contas para investimentos. YNAB é
inteligente para perceber que transferências entre contas dentro do
orçamento não são gastos; você sacar algum dinheiro da sua conta
corrente não é um débito e não afeta sua capacidade de gastar. Porém,
quando você transfere para alguma conta fora do orçamento (como uma
caderneta de poupança), isso é um gasto, e precisa ser alocado a alguma
categoria. A ideia é que, quando você separa esse dinheiro,
compromete-se a não gastá-lo.

Na hora de cadastrar transações, é possível cadastrar os credores, e o
software lembra os já usados. Isso, combinado com o recurso de gerar
relatórios, permite a você gerar dados muito interessantes: em quais
lojas você gasta mais, por exemplo. Com relatórios, é possível também
saber quais são as categorias mais críticas, em quais meses do ano a
situação é mais apertada etc.

De tanto que eu gosto, gostaria de ver alguns melhoramentos. Por
exemplo, na parte de investimentos, gostaria de ver algo mais avançado,
como a possibilidade de inserir taxas de rendimento. Gostaria de ver
mais automação, como atalhos de teclado. Mas são apenas detalhes. YNAB é
ótimo.