Arquivo mensal: junho 2014

O aspecto fundamental do email

Vladimir Campos escreveu um artigo interessante sobre o tal “futuro do email”:

Mas preciso confessar, é cada vez maior o número de contatos comerciais que recebo via mensagem interna do Facebook, WhatsApp, Hangouts, Skype etc. São tantos, que tenho certeza que logo ultrapassaram o tradicional e-mail. Afirmo isso mesmo considerando algo tão sério quanto a negociação de um contrato. A propósito, já negociei sim com um cliente, do início ao fim, via Facebook. Só no momento do envio do Doc com as cláusulas contratuais usamos o e-mail.

Já vi muitas discussões desse tipo, mas muitas perdem um aspecto fundamental do email, para mim: a universalidade.

Eu tenho pessoas muito próximas de mim que não têm smartphone, ou não sabem usá-lo, ou se recusam a instalar quaisquer aplicativos; para essas pessoas, WhatsApp não é uma possibilidade de comunicação. Outras não têm Facebook ou, como eu, não querem mais usá-lo. Outros não ouviram nem falar em Hangouts. Algumas gostam mesmo de falar pelo telefone.

O email, porém, é universal. Todas as pessoas que eu conheco têm email e acessam com certa regularidade; elas estão dispostas a pagar por um computador, uma ferramenta de trabalho e onde checam os emails, mas não podem se dar ao luxo de ter um iPhone (que, embora possa ser bem útil, ainda não pode ser usada para trabalho por muitos), ou Galaxy. Você pode ter email de graça (em troca de anúncios), ou, se for um paranoico com privacidade como eu, pagar por um serviço privado. Todos os grandes provedores fornecem uma plataforma na web geralmente boa, mas também é possível configurar email em programas de desktop ou mesmo nos smartphones, para os que têm. O email é antigo, bem documentado, padronizado, conhecido; a minha prima que “nasceu na era digital” e a minha tia que teve o primeiro computador aos 40 sabem usá-lo. Também é confiável; já cansei de mandar mensagems por SMS, WhatsApp ou Facebook que nunca chegaram ao destinatário, coisa que acontece muito raramente com email.

Eu concordo que, para comunicação individual, certas tecnologias são melhores. Não vou mandar um email para minha mãe cada vez que quiser falar com ela. Porém, para atingir um grande número de pessoas simultaneamente, eu ainda preciso dele.

O Ponto de Imersão

Algumas pessoas gostam de jogar videogame, outras de ver filmes, outras de bisbilhotar no Facebook. Eu, quando estou sozinho, gosto de ler.

Na minha adolescência, minhas preferências eram os romances, especialmente os “mistérios” do estilo O Código Da Vinci. Eu sei, esse tipo de livro pode não ter muito valor, os capítulos são curtos como cenas de cinema para prender a atenção, mas o que eu posso fazer? As histórias são divertidas.

Quando chegou a faculdade, minha cabeça mudou, e comecei a ler muitos livros de não-ficção, sobre ciência, história, produtividade, finanças — e, desde que comecei FabioFortkamp.com, resenhei quase todos que li. Esse tipo de leitura pode ser bastante prazeroso, e você ainda aprende alguma coisa, mas pode cansar também. Eu aos poucos fui perdendo um grande prazer meu, que era ler antes de dormir, por preguiça. No fim do dia, estou exausto, e não quero aprender mais nada. Quero apenas ler um pouco, por entretenimento.

A solução para isso, e que até me fez dormir melhor, foi voltar a ler romances de noite. Eu dei uma pausa nos livros de não-ficção, lendo apenas quando estou numa semana mais leve (como quando resenhei The Information Diet). Depois de terminar um dia de trabalho, tomar um banho, preparar-me para o dia seguinte, eu sento numa cadeira boa (ou na cama, mas nada de deitar), pego um romance e me perco nas histórias.

Nem sempre o livro é bom, porém. Quando é ruim, acontece o mesmo problema, de eu não querer ler antes de dormir. E percebi que existe um critério para determinar quando isso acontece.

Eu recentemente terminei um livro desconhecido chamado A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Não tente encontrar em livrarias que você não encontrar. Também dizem que virou uma série da HBO com o nome de Game of Thrones, mas não posso confirmar. Na verdade, essa é segunda vez que leio esse livro; na primeira, não gostei porque não entendi muita coisa da trama e não acompanhava quem é quem. Dessa vez, só não acompanho quem é quem.

Acho que não preciso dizer, mas o livro é muito bom. Já sei que há muita discussão, sobre o enfoque político do livro, as cenas de incesto, a matança generalizada. Como falei, eu tento abstrair esse tipo de coisa; o livro conta uma baita história de maneira eficaz e pronto. Deixo para fazer esse tipo de análise depois de ler.

Um dia, quando ia ao shopping, peguei-me pensando no livro . Estava pensando no que ia acontecer com Lorde Eddard, ou com o Rei, ou com Jon. Ficava imaginando o que seriam os meistres ou as septãs, e como o autor insere a religião sutilmente na história. Fiquei pensando na época em que eu jogava Age of Empires — tudo por causa de A Guerra dos Tronos.

Quando me dei conta disso, percebi que o livro cumpriu o seu papel, e já passou do ponto de imersão na minha cabeça. Eu estava completamente mergulhado na história. Quando chegava a noite, eu não reclamava de preguiça de ler um livro chato, mas sim por só ter tido tempo de ler naquela hora. Agora mesmo, quero saber o que vai acontecer no próximo volume.

E isso é um livro bom. Não é um livro que as pessoas dizem que tenho de ler, porque é um clássico. Quando eu terminá-lo, vou ficar pensando nele. Quando acabar a série, vou lamentar, como lamentei quando terminei Harry Potter.

Num dos meus livros (de não-ficção) de cabeceira, Como Ler Livros, Mortimer J. Adler a Charles van Doren dão um conselho crucial:

Não tente resistir ao efeito que uma obra de literatura imaginativa tem sobre você.

(Tradução livre minha de How to Read a Book, Adler e van Doren, Touchstone, edição revista e atualizada).

Sempre digo que a vida é muita curta para se ler livro ruim. Ache um livro na qual você possa imergir e aproveite.

Impondo barreiras produtivas

Eu gosto de Friends. Gosto também de The Big Bang Theory, de Two and a Half Men (antes de Ashton Kutcher, naturalmente), da nova série da Warner Mom. Como diz minha mãe, gosto de todas essas séries com aquelas risadas de fundo (irritantes, na opinião dela).

Às vezes eu estou cansado mentalmente, depois de ler ou escrever muito. Ligo inocentemente a televisão do meu quarto, em um horário que sei que está passando algumas destas séries. Apenas um relaxada básica, antes de continuar o que eu estava fazendo, antes de terminar aquele capítulo. Dez minutinhos e deu. Sério! Não acredita em mim?

Nem eu acredito em mim.

Os poucos minutos em que eu paro para assistir se transformam em horas, episódios inteiros. Eu fico sentado, olhando para a televisão como um zumbi, e o tempo voa. De repente, eu me dou conta do que tenho para fazer, desligo a televisão, grito um palavrão qualquer e volto ao trabalho.

Eu nunca fui muito de assistir televisão. Lembre-se, eu era o garoto esquisito que gostava de ler. Hoje em dia eu assito bem mais, principalmente em companhia, assistindo ao jornal ou vendo algum filme. Isto não é o problema, e sim aquelas escapas durante o dia, para dar a tal da “relaxada”. A minha força de vontade não é suficiente para acabar com esse hábito.

O que eu fiz então foi tirar a TV da tomada.

Muito do que se fala sobre produtividade envolve eliminar barreiras. Como falei há pouco tempo, um aplicativo como o Drafts pode ser um aliado importante na organização, ao eliminar a barreira de tempo e ferramentas para anotar o que vem na sua cabeça. Você pega o celular, desbloqueia-o, abre o Drafts e pronto: pode anotar — com o tempo, até o movimento dos dedos para digitar e localizar o ícone se tornam automáticos. Ou veja o caso do meu ambiente agora: eu uso um programa de notas chamado nvAlt, que está sempre aberto no meu computador. Quando estou sentado em frente ao computador, e quero escrever, a barreira entre vontade e ação é muito pequena: um atalho de teclado me leva ao programa, onde tenho uma lista de todos os meus textos, incluindo rascunhos. Um exemplo agora fora do computador: eu deixo todas as roupas destinadas a praticar esporte separadas num canto. Quando quero andar de bicicleta, ou caminhar, não existe a dificuldade de ir pegar uma camiseta num lugar e a bermuda em outro. Abro meu armário e está tudo lá.

Mas um outro aspecto importante de produtividade menos mencionado é impor barreiras onde é preciso. Como no caso da TV, desligo da tomada. Se eu realmente quero assistir TV, quero rir um pouco, já terminei meu trabalho, eu posso facilmente esticar o braço e ligar na tomada. Mas essa pequena dificuldade já serve como ponto de parada nas pequenas pausas. Faz-me pensar se eu realmente quero assistir, se não é melhor fazer outra coisa. Uma barreira articial, imposta pelo meu eu sensato, age sobre o meu eu imprudente.

Outra dica que funciona muito bem para mim é mover aplicativos da tela inicial do iPhone. Ultimamente vendo tentando adquirir o hábito de escutar mais podcasts e menos músicas enquanto faço exercício. O simples fato de mover o app do Rdio da tela inicial tem sido de grande ajuda; ter de navegar até a segunda tela, mesmo que envolva arrastar o dedo por um segundo, já é um gatilho psicológico importante.

Funciona muito bem com comidas, também. Por algum motivo obscuro, eu guardei os ovos de páscoa no meu quarto. Claro, um convite perfeito para aquele “pedacinho” inocente. Não cometa esse erro. Deixe comida na cozinha, e se dê ao trabalho de ir até lá.

Assim, se o leitor está tendo dificuldade com algum hábito que gostaria de largar, experimente agir para torná-lo difícil. Hábitos são coisas tão naturais que quando se foge do cenário habitual a sua mente tem dificuldades de se adaptar, forçando-o a pensar de maneira mais deliberada.

E sintam-se à vontade para compartilhar resultados nos comentários.

Drafts: a ferramenta perfeita de captura

Eu não gosto de dizer que eu preciso de um aplicativo ou programa para trabalhar. Não deve ser segredo aqui que tenho uma propensão ao vício em tecnologia, então eu preciso constantemente avaliar como estou usando meus apps, para ver se estou fazendo algo de útil ou apenas usando por usar.

Um iPhone pode ser um artigo de luxo ou um convite à produtividade. Conheço muitas pessoas que têm um celular de R$ 2000 para usar WhatsApp e algum jogo viciante na espera do médico; a minha cabeça de engenheiro abomina tal desperdício de tempo e dinheiro. Eu gosto de resolver problemas, e o uso de um smartphone é apenas uma extensão disso.

Um exemplo: eu gosto de passear com a minha namorada, e embora não tenha muita paciência para tirar milhões de fotos, sempre tiro algumas para deixar registrado aquele momento. Organizar as fotos em um iPhone é tedioso, difícil e ilógico; um celular naturalmente não foi feito para isso. Com esse computador de bolso, porém, é possível enviar automaticamente as fotos do iPhone com o seu computador, de maneira que você, ao chegar em casa pode organizar suas 1000 fotos sem precisar de cabos ou apertar um botão. Pergunte-me como.

Como no caso das fotos, o iPhone me facilita muitas atividade, mas eu não preciso de um para viver. Durante muito tempo eu conectei uma câmera ao computador e passei foto por foto.

Mas, num exercício hipótetico, se me fosse permitido violar minha regra, e escolher um aplicativo do qual eu realmente preciso, esse seria o Drafts.

O Drafts é basicamente um bloco de notas, com um detalhe que praticametente define esse app: quando você abre, ele te apresenta a tela branca acima, pronto para receber o seu texto. Você não precisa explicitamente criar uma nova nota ou abrir alguma já existente. Abrir o aplicativo significa criar um novo documento; uma vez no app, você pode navegar pelas suas notas.

O nobre leitor que me acompanha há algum tempo deve lembrar que revisei um livro chamado A Arte de Fazer Acontecer, que apresenta um método de produtividade e organização conhecido como GTD. Eu me concentrei mais no livro que no método em si, mas dei uma breve visão panorâmica. Escrevi:

Quando você está fazendo algo, seja relacionado ao seu trabalho (como preparar uma apresentação) ou à sua vida pessoal (como montar um armário), você se concentra nisso. Quando chega uma interrupção, você não pára e parte para outra atividade. Você anota a pendência numa caixa de entrada e continua o seu trabalho.

Esse processo de captura (como é chamado no jargão GTD) é o aspecto mais fundamental de organização. Não importa como você se organiza depois; na minha opinião, a chave de tudo é anotar tudo que chega até você.

O Drafts é a ferramenta perfeita de captura, devido à sua rapidez para criar uma nova nota. Tudo de que eu preciso me lembrar vai parar ali (tenho certeza que algumas pessoas, em especial minha namorada, devem estranhar quando tiro o iPhone do bolso por 15 segundos para escrever alguma coisa e depois volto a guardá-lo). Qualquer, absolutamente qualquer pensamento que eu tenha que não esteja relacionado ao que estou fazendo no momento vira uma nota no Drafts. Exemplos:

  • Eventos, festas, compromissos, com dia e horário (“Aniversário fulano amanhã 18:00”)
  • Ideias para textos (“Post sobre Drafts”)
  • Lembretes de tarefas para minha dissertação (“Corrigir figura no capítulo tal”)
  • Gastos (para depois eu adicionar ao YNAB) (“Mercado R$ 20,23”)
  • Pensamentos aleatórios (para depois adicionar ao meu diário)
  • Filmes que vi
  • Livros que li
  • Lista de compras para o mercado

Você poderia usar papel para isso, claro. Se você não tem smartphone, compre um caderno pequeno ou um bloquinho e tenha sempre consigo. Seu cérebro é para processar, e não para guardar. Mas o Drafts tem uma seguinda característica essencial, além da tela em branco rápida para você anotar: ações.

Uma coisa leva a outra

Vamos examinar o exemplo dos eventos. Encontro um amigo meu e ele me convida para seu aniversário. Imediatamente anoto:

Para agenda, eu uso um app muito bacana chamado Fantastical 2) (falei dele há pouco tempo). Ele não é nem de longe essencial, já que eu poderia usar a agenda nativa (ou até uma agenda de papel), mas ele tem um recurso interessante de permitir linguagem natural. Em inglês, você pode digitar uma frase exatamente como acima e ele vai entender, marcando um evento no dia especificado.

O Fantastical também tem um recurso avançado chamado esquema URL. Não se preocupe em saber o que é isso, apenas entenda que é uma maneira, no iPhone, de um aplicativo chamar outro. O Drafts também suporta esquemas URL, e isso permite criar ações. Eu tenho uma chamada “New Event” (gosto de configurar meus apps em inglês para treinar e porque não gosto das traduções que geralmente encontro), que pega esse texto do Drafts e manda para o Fantastical processar (lembrando que ele entende esta linguagem natural).

Após clicar nessa ação, e esperar os dois apps se falarem, como resultado, eu tenho um evento marcado na minha agenda. Tudo que eu fiz foi anotar, numa linguagem bem simples, e depois clicar num botão dentro do próprio Drafts.

Para montar essas ações, não se asuste com a complexidade. Existem muitos recursos que ensinam você a fazer isso e é possível encontrar muitas ações prontas; no próprio aplicativo, é possível ir até um diretório e procurar alguma coisa que você queira. Eu mesmo ainda estou aprendendo.

Todo dia eu faço tudo sempre igual

Rotinas ajudam a ligar o processo de captura com as ações. Ao longo do dia, eu já desenvolvi o hábito de anotar tudo; e, no fim da tarde, tenho uma rotina de processar essas notas. Para algumas, existem essas ações automáticas: mandar para o calendário, mandar para o meu gerenciador de tarefas, criar nova entrada no diário. Para outras ainda preciso copiar manualmente (o YNAB, por exemplo, não tem esquemas URL).

Se não tem smartphone, use um caderno. Se você tem Android, procure um aplicativo similar. E se tem iPhone, considere comprar o Drafts. Poder rapidamente anotar alguma coisa, e saber que após algum tempo essa informação estará no lugar certo, é a base do meu sistema de organização.