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Resenha: Music: A Subversive History

O que a imagem acima, de um porto em atividade, tem a ver com a resenha de um livro de música? É esse justamente o ponto de Music: A Subversive History, de Ted Gioia.

Eu cheguei a essa obra por conta da excelente newsletter de Gioia e de uma entrevista com ele, que menciona o livro. Ted Gioia é um músico de jazz que, tendo de abandonar o piano por conta de problemas na mão, tornou-se um crítico de música excepcional, ao apontar grandes álbuns que nenhum algoritmo recomendaria (como ele fala repetidamente na sua newsletter – sério, vão lá assinar) e falar de detalhes que parecem adjacentes às músicas, mas que são fundamentais (a sua formação em filosofia provavelmente ajuda).

Liverpool é a terra dos Beatles, obviamente, e New Orleans o berço do jazz. Separadas por milhares de quilômetros de distância, e de culturas bem diferentes, estas cidades pobres e na periferia do poder são também cidades portuárias com um grande vaivém de pessoas, cada uma com sua tradição musical.

É isto que Music quer mostrar: que o desenvolvimento musical não vem de salas de concerto elitizadas, mas dos marginalizados. O que hoje associamos ao poder nasceu revolucionário. Hoje falamos de Mozart como um gênio que ninguém mais ouve, mas no seu tempo ele era uma celebridade que escrevia cartas (para seu pai) reclamando de seu apetite sexual voraz – alguma coincidência com nossa obsessão em acompanhar a vida amorosa dos músicos de hoje?

Gioia põe muita ênfase nos aspectos rituais da música. Como católico, eu posso confirmar com facilidade que a música na Missa faz parte do ritual, e não é um mero acessório (ainda que, para voltar ao mesmo tema, música na igreja era considerada subversiva até pouco tempo atrás). Os rituais das religões antigas envolviam muita percussão e sacrifícios (literais) – e Gioia fecha o livro se perguntando se o comportamento errático de músicos de rock não é também uma forma de auto-sacrifício, de entregar a própria vida pela música.

Acho que deu para entender que o livro é muito interessante. Porém… é longo demais. É muito fácil se cansar na leitura, e dá para perceber que o autor se perdeu no meio de tanta pesquisa e teve dificuldades em cortar detalhes e anedotas, sendo que em vários capítulos o ponto já estava estabelecido.

Assim, por mais que seja um deleite ver um mestre da escrita como esse escrevendo sobre temas verdadeiramente fascinantes, não posso recomendar a leitura do livro a não ser que você esteja realmente preparado, quase para estudar o livro.

Mais uma vez: assine a newsletter, e veja se você quer mergulhar fundos nos tópicos que ele traz.

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Resenha: A História da Ciência para quem tem pressa

Há algum tempo, resenhei um outro livro da série …para quem tem pressa, e os motivos de ler este novo título continua o mesmo (querer leituras leves em meses de muito agito em meio a um emprego novo). A conclusão muda um pouco, porém.

Acho que não preciso explicar o mote da obra: ilustrar o desenvolvimento das ciências em sete capítulos, cada um dedicado a um ramo (astronomia, matemática, física, química, biologia, medicina, geologia). Ao contrário de A história do mundo para quem tem pressa, que se dizia global e era bastante euro-cêntrico, este exemplar sobre a ciência consegue ser mais diverso e chama a atenção para a importância da ciência chinesa, indiana e árabe, diversas vezes salientando como os europeus demoraram para alcançar o desenvolvimento oriental – e a culpada, segundo as autoras Nicola Chalton e Meredith MacArdle, é sempre a Igreja Católica.

Apesar de curto, o livro é denso de informações, sendo várias delas novas para mim. Eu já havia ouvido falar de Ptolomeu (o astrônomo que propôs um sistema geocêntrico que depois foi contestado por Copérnico), mas nunca havia me atentado ao fato de que ele era cidadão romano, e não grego, e ainda por cima viveu depois de Cristo. A leitura em geral é fácil e agradável.

Minha maior crítica é que, em cada capítulo, parece que as autoras supõem que o leitor já domina o tópico, e apenas resumem o conteúdo. Para um leitor que seja completamente leigo e avesso a matemática, a própria explicação do sistema de Ptolomeu, citado acima, fica bem confusa (eu, com Doutorado em Engenharia Mecânica, tive que ler várias vezes até entender – e este é um livro que se pretende popular). As explicações sobre geologia, então, passaram quase batido por mim.

Portanto: leia pelo caráter histórico, para entender onde os grandes nomes se encaixam na linha do tempo, mas não espere aprender de fato sobre ciência.

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Resenha: A história do mundo para quem tem pressa

Não vou negar: eu comecei a ler A história do mundo para quem tem pressa não porque eu tinha pressa de fato, mas porque estava lendo dois outros livros (resenha em breve) muito pesados, e queria uma leitura mais leve. Consegui.

Dividindo em seis capítulos, a obra cobre desde as civilizações da Mesopotâmia até a independência da Nova Zelândia. Se a leitora está surpresa, como eu, em relação a escolher este ponto de finalização, minha hipótese é que a autora Emma Marriott falhou no próprio objetivo: prometeu um livro que vai além dos relatos típicos euro-centristas, mas não conseguiu se desvenchilhar do fato de escolher “o fim da colonização europeia na Oceania” quase como “o fim da história”, como se a Europa não tivesse mais para onde ir. Não nos enganemos: esse livro é totalmente contado do ponto de vista da Europa.

Além dessa falha de querer ser mais diverso que realmente é, acho que o livro assume que o leitor tem pressa demais. O subtítulo, Mais de 5 mil anos de história resumidos em 200 páginas, poderia ser corrigido para …em 250 páginas… e o livro teria muito mais impacto e profundidade.

Sendo raso assim, não há nenhuma grande tese ou argumento ensinado, mas não deixei de esclarecer algumas coisas, principalmente em relação a cronologia. Aprendi, por exemplo, que os astecas são muito posteriores aos maias (minha lembrança escolar das civilizações pré-colombianas fundiu-as em uma massa só, como se fossem todas contemporâneas), e que a habitação da Nova Zelândia pelos seus povos nativos é muito mais recente que a habitação da Austrália (em alguns milhares de anos).

Portanto: não espere de fato aprender muito sobre a história do mundo. No máximo, o leitor pode selecionar alguns tópicos e aprender mais sobre eles. Ou simplesmente encarar como uma leitura de entretenimento superior às redes sociais – o que de fato é.

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Resenha: Mostra-me o teu Rosto

Mostra-me o teu Rosto é um dos melhores livros sobre Cristianismo que eu já li.

A leitora que é cristã, sabe o que é realmente ser cristã? Sabe o que ir um passo além de cultos ou missas, rituais, procedimentos? Sabe orar, comunicar-se com Deus?

O prefácio deste livro expõe logo a sua tese: há cristãos que cumprem as regras da sua religião (seja qual denominação seja), dizem-se cristãos mas, quando querem algo a mais, vão buscar fora da Fé. A palavra transcendental virou sinômino de religiões orientais, de meditação, de experiências psicodélicas (muitas vezes associadas a drogas) – e que o Frei Ignácio Larrañaga quer mostrar é que o Cristianismo é místico e transcendental por natureza.

Para deixar claro: se você não se identifica com Jesus Cristo e quer mergulhar nas tradições budistas, hindus, de matriz africana, o leitor deve ir atrás e encontrar uma igreja que verdadeiramente o acolha. Mas se você se sente pertencente em alguma igreja cristã, é possível se aprofundar.

Mostra-me o teu Rosto deve ser lido como companhia dos momentos de oração, os Tempos Fortes como chamamos nas Oficinas de Oração e Vida, e não deixa de ser um curso – quase um livro-texto. O autor, sacerdote capuchinho, não deixa de expor teorias teológicas e trazer comentários da Bíblia, mas também propõe exercícios de oração – inclusive orar com auxílio da própria Bíblia, orar com mantras (sim, isso existe no Cristianismo), orar imaginando-se na companhia de Jesus.

Rotina matinal

A obra está divida em 6 capítulos (extensos demais, na minha opinião), que seguem bem a estrutura de um curso. Nos primeiros, Larrañaga introduz o que é orar e traz passagens bíblicas de personagens se comunicando com Deus (o exemplo mais é Moisés). Depois, propõe exercícios de como trazer isso para a vida cotidiana, e culmina com discussões cristológicas de quem foi Jesus e como imitá-lo.

Portanto, este é um livro para todos os cristãos – apesar do autor ser um padre católico, não creio que exista nada que seja proibitivo para outras denominações. Após um período, reconheço, meio relapso no hábito de orar, eu tenho tentado voltar a fazer isso logo que acordo – e isso dá a deixa para um dia melhor. Mostra-me… foi um um grande animador e incentivador deste hábito.

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Flores para Algernon

Como muitas de minhas leituras, começou como um livro disponível para alugar gratuitamente via Prime Reading, atraindo-me pelo título curioso. A premissa era interessante, uma pesquisa na Wikipedia revela que o livro era renomado e tocava no importante tema de saúde mental, e os parágrafos iniciais me mostravam um jeito de usar as palavras de uma maneira que nunca achei ser possível. Este feriadão de Proclamação da República de 2021 me deu a oportunidade de terminar, e proclamar: Flores para Algernon, de Daniel Keyes, é um dos livros mais brilhantes que já li.

Algernon é um nome de um rato de laboratório que passa por uma cirurgia para ficar mais inteligente, e o seu sucesso leva os cientistas a testarem em um ser humano com deficiência mental, Charlie Gordon, de 30 e poucos anos. A cirurgia dá muito certo, e depois dá muito errado.

O parágrafo acima pode parecer um spoiler, mas é meramente dizer o óbvio: alguma coisa em ficção científica tem de sair do controle. Mas mesmo que eu contasse tudo que acontece a leitura vale a pena: a melhor parte do livro não é a história em si, que chega a ficar chata em vários pontos, mas como ela é contada: através de “relatórios de progreso” (sic) que viram “Relatórios de Progresso” à medida que Charlie aprender a escrever. A linguagem infantil e amorosa dá lugar a uma escrita eloquente, científica e sem sentimentos.

O ponto central do livro é que Charlie não se transforma propriamente; no fundo, o Charlie doce e infantil convive com o Charlie inteligente e arrogante. Esse é o mesmo sentimento que eu tive quando enfrentei a depressão: o Fábio deprimido, com pensamentos perturbadores, não era o Fábio verdadeiro, mas uma aberração que tomou conta do seu cérebro, e depois foi embora.

É por isso que eu recomendo fortemente a leitura: para mim, esse é um livro sobre empatia; quando Charlie, ainda escrevendo errado, reclama a um dos pesquisadores que não sente que está melhorando, ele ouve a resposta e transcreve no seu relatório:

Ele disse Charlie você tem de ter confiansa em nós e em você mesmo.

Essa passagem me chamou a atenção pela ordem: você, um pobre coitado, tem de confiar primeiro em nós, e só depois no seu próprio poder.

Flores para Algernon é sobre amar as pessoas quando tudo está bem e quando tudo está um desastre, sobre aceitar os mentalmente doentes como pessoas acima de tudo.

Vamos conversar mais sobre saúde mental?

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Frankenstein, ou como conhecimento superficial não conta

Frankenstein, ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley, foi o último livro de ficção que li em 2020, e um exemplo de como conhecimento superficial não é bem conhecimento.

O que eu achava que conhecia sobre a obra, baseado em apenas ouvir dizer: um cientista maluco cria um monstro chamado Frankenstein com parafusos na cabeça, grita IT’S ALIVE, e a criatura sai quebrando tudo.

Sobre o que o livro realmente é: o impacto de decisões erradas. Frankenstein é o estudante de filosofia natural (e não a criatura) que se vê no meio de uma briga de ego de dois professores, que resulta numa descoberta “mágica” (melhor dizendo, alquímica) sobre a origem da vida. Ele faz um experimento, fica horrorizado, e tem de lidar com o que acontece depois. É ele quem fica louco de arrependimento.

O ato da criação em si consome muito pouco tempo do livro, o que me leva a questionar a classificação de Frankenstein como “horror” ou “ficção científica”. Para mim, é um drama, cheio de reflexões sobre o sofrimento do protagonista, com toques de fantasia.

O que mais eu não sabia? Que esse é um livro suíço. A geografia da Suíça, com seus lagos, planícies e Alpes são parte importante da relação entre criador e criatura.

E, surpresa, o monstro não tem parafusos na cabeça. Ou pelo menos Mary Shelley não queria nos dar essa imagem vívida. Aliás, ambíguo é um adjetivo apropriado para descrever esse livro.

Por dentro das coisas

Donald Knuth tem uma frase que adoro, difícil de traduzir, mas que basicamente significa que o trabalho dele é conhecer os detalhes profundos de poucas coisas, e não uma visão geral de tudo.

Por uma questão de personalidade, eu também sou assim. Dê-me um livro e um fone de ouvido e me largue por horas e consigo ser feliz. Porém, na minha carreira, diversas vezes sofri pressão para abandonar essa abordagem em favor de um conhecimento mais raso porém mais amplo. Os resultados sempre foram ruins.

Conhecimento superficial não é conhecimento. Nunca há tempo para saber tudo que há para saber, e há que se tomar cuidado para não perder tempo demais pesquisando e de menos fazendo. Porém, acredito que geralmente é possível se organizar e realmente aprender alguma coisa, estudando-a efetivamente, tomando notas. Querer realizar uma tarefa com base em um vídeo rápido do YouTube vai exigir retrabalho depois para cobrir os detalhes que ficaram para trás. Mais valia a pena ter se dedicado a estudar com mais afinco antes.

Esse texto é para lembrar desse lema pessoal: Fábio, você é uma pessoa que gosta de estar on bottom of things. Ler o livro Frankenstein (que, sinceramente, é chato de ler) dá um conhecimento muito superior a ler todos os resumos e artigos na Wikipedia ou ver todas as adaptações.

Próximo passo: ler Drácula e ver o quanto eu realmente sei sobre vampiros

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O Médico e o Monstro e eu e você

Como parte da minha assinatura Amazon Prime, tenho acesso a alguns ebooks gratuitos todo mês no regime de empréstimo: posso ter 10 títulos na minha biblioteca do Kindle, e se quiser mais tenho de devolver algum. Geralmente são livros ditos “clássicos”, e o fato de que estou lendo mais livros desse tipo meio que já justifica os R$9,90 mensais.

Um dos títulos que li recentemente foi justamente O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Eu não sei o leitor, mas eu não era nenhum um pouco familiar com a história, e na minha cabeça o Monstro da história era algo do tipo um lobisomem, ou um The Hulk: uma criatura gigantesca, incapaz de controlar a raiva, de aparência abominável. Minha grande surpresa é que o monstro do título é um ser humano, apenas… mau.

O livro é muito curto, uma novela, e de leitura fácil. A lição principal, porém, é muito relevante.

Eu já falei aqui de saúde mental, da minha luta contra depressão e ansiedade. Eu estou mais que ciente de que essa luta é para a vida toda. Eu não me sinto mais deprimido, mas a doença só está adormecida, e desponta com sinais conhecidos: pessimismo, senso de tragédia, mau humor. Felizmente, anda controlada. Eu aceito e acolho meu lado deprimido, meu lado que tem pensamentos violentos, o meu lado que diz para não aceitar uma vida que não seja perfeita.

Porque se eu não aceitar o meu lado mau, ele aflora, exatamente como no livro. O médico da história tenta separar as suas personalidades boa e ruim, com resultados catastróficos — o lado mau sempre vai vencer pela trapaça e pela violência. Dr. Jekyll não era Edward Hyde, mas o continha.

O Setembro Amarelo está acabando, mas não existe tempo certo para falar de sanidade mental. Se você tem pensamentos sombrios, são só isso, pensamentos, e não quer dizer que você é sombrio. Se você não consegue ver a diferença, procure ajuda: familiar, terapêutica, médica, espiritual. É literalmente um caso de vida ou morte.

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Resenha: Os Testamentos

Os Testamentos, de Margaret Atwood, é a continuação de O Conto da Aia (minha resenha). O universo compartilhado entre os dois romances mostram um mundo onde guerras nucleares provocaram uma epidemia de infertilidade nos EUA. Como resposta, um grupo religioso fundamentado no Antigo Testamento toma o poder, funda a República de Gilead e estabelece uma nova sociedade de castas. As mulheres férteis são escravizadas como aias, que devem copular com os seus mestres, os Comandantes da Fé, numa cerimônia com o testemunho das suas Esposas supostamente inférteis — os próprios maridos podem ser biologicamente, mas não legalmente, estéreis.

Os testamentos dos títulos são relatos de três figuras relacionadas ao regime; como era de se esperar, as aventuras das três se une no meio do romance.

Pelo que as opiniões do Goodreads deixam claro, minha opinião não parece ser muito popular, mas aqui vai: Os Testamentos é um romance superior ao seu antecessor. A alternância de personagens torna a leitura mais fluida; O Conto da Aia usa um recurso de se focar em apenas uma personagem (Offred), mas deixa dúvidas se não está se referindo a todas as aias. O romance tem bem mais elementos de ação, ao mesmo tempo que educa o leitor sobre a origem de Gilead (a grande pergunta não respondida do primeiro livro, pelo que Margaret Atwood comentou no prefácio). É uma combinação certeira em um livro de ficção: entretimento simples, ao mesmo tempo em que promove reflexões sobre o feminismo (que a autora não abraça, aliás) e política.

Uma reflexão ainda não tem resposta, porém: qual o propósito de Gilead? Quem de fato se beneficia com o regime? A vida dos líderes (comandantes) parece bem miserável. Não há grandes luxos disponíveis, como carros, bebidas, cigarros; e eles têm de constantemente gerenciar o regime para não sucumbir à resistência e manter as mulheres sob controle. Mesmo o bordel de O Conto da Aia parece bem melancólico. Claro, há comportamentos como o de um dos personagens, que coleciona esposas-crianças; mas mesmo ele tem de disfarçar as suas preferências, e sendo assim o que diferencia de um pedófilo no mundo atual?

O mais perturbador do universo de Gilead é que ele não é absurdo. A classe de políticos estilo Bolsonaro-Trump certamente adoraria um mundo onde não existisse qualquer resquício de participação feminina na política, e onde elas pudesse ser avaliadas livremente pelo potencial sexual; nosso presidente até se envolveu em uma discussão online e no Facebook dizendo que as críticas do presidente Macron da França contra o desmatamento da Amazônia são porque a sua mulher é muito feia. Por outro lado, o livro mostra mais um exemplo de como a Segunda Lei da Termodinâmica é cruel: sistemas onde a ordem é imposta artificialmente requerem muito trabalho para serem mantidos, e estão fadados a voltarem a um estado mais natural.

Tudo bem se eu encerrar esse texto dizendo que a esperança, afinal, vem da Termodinâmica?

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Resenha: Fogo & Sangue Volume 1

Quando eu e minha esposa estávamos para nos casar, amigas dela fizeram aquela brincadeira de perguntar meus favoritos: livro, banda, filme etc, e ver se ela acertava. Minha banda favorita é fácil: qualquer um que me conhece um pouco mais profundamente sabe o quanto eu gosto dos Beatles. Saber o meu livro favorito exige um pouco mais de intimidade, de tantos livros que eu leio, mas minha esposa acertou em cheio: meu livro favotiro são As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

Eu não sou o nerd típico no sentido de nunca ter sido muito fã de fantasia. Não jogava RPG e muitos dos livros do gênero me soam cansativos — ainda nem terminei de ler O Senhor dos Anéis. E na primeira vez que li A Guerra dos Tronos, o primeiro livro da série, também me senti cansado. Meses depois, persisti e tentei ler mais uma vez, com um pouco mais de paciência e esforço, e daí não parei mais. Acho que o que me encanta mais não é o aspecto fantasioso, que nem é tão abundante assim, mas o aspecto histórico e político. Aí sim fui o CDF típico, de adorar histórias medievais, jogar Age of Empires e Civilization. Lembro-me do meu espanto quando, adolescente, dei-me conta de que ainda existem reis e monarquias no mundo. Para ser bem sincero, acho as monarquias europeias muito mais fascinante que as repúblicas. Os aspectos políticos do mundo em geral me interessam; quando pensei em ser jornalista, flertei com a ideia de ser jornalista político e fazer análises precisas, e ainda hoje é o que mais me interessa nos jornais.

De uma certa maneira, As Crônicas de Gelo e Fogo arruinaram a minha leitura. Perto da sua complexidade, outros livros parecem bobos, sem intrigas inteligentes, sem personagens de cujas intenções não se sabem. Eu leio muitos romances históricos, e nesse tipo de livro, quando aparece uma donzela, filha de cavaleiro ou nobre, eu já sei o que vem por aí: ela quer se casar com um camponês, mas precisa se casar com o visconde; ela é virgem e ele frequenta prostíbulos; ela quer estudar mas o mundo é dos homens. Ainda que o mundo devesse ser assim, custo a crer que na sua intimidade elas eram tão unidimensionais. Nas Crônicas, por outro lado, você têm Sansa, que começa como uma donzela sonhadora mas logo começa a participar das conspirações (ainda que sempre assustada).

Este Fogo & Sangue: Volume 1 é um prólogo à série — e, desconfio fortemente, uma distração para o autor para não continuar nos próximos livros sequenciais. Martin se coloca na pele de um arquimeistre (para os completamente leigos: um erudito) para contar a primeira metade da história da Dinastia Targaryen, como se fosse um historiador pesquisando e relatando o que aconteceu séculos antes. E é aí que me causa o primeiro espanto: Martin está no mesmo universo de todos os seus outros livros da série, mas consegue inventar outra voz completamente diferente, como se de fato não fosse a mesma pessoa que escreveu As Crônicas e este livro. Como acadêmico, também me identifico com o pretenso estilo científico, de “citar” várias fontes, como se fosse um tratado mesmo: “este autor fala disso, mas não podemos confiar; este outro diz isso, e estava presente nesses acontecimentos”.

Para qualquer fã, este livro vai apresentar claramente episódios que são mencionados em fragmentos ao longo da série, especialmente toda a conquista de Aegon no começo. Também tem detalhes sobre os Baratheon que ajudam a entender como Westeros aceitou Robert tão facillmente como rei após a queda de Aerys II.

O que esse livro não responde é o que mais me intriga e incomoda: como é possível haver tanto incesto em uma família sem consequências biológicas e sociais. Será o mundo retratado na série tão diferente da vida real. Será que “os Targaryen não ficam doentes” (o que se torna um ponto importante de discussão no meio do livro)? Jaehaerys I, por exemplo, era justo, sábio, bravo, conciliador — mas teve mais de 10 filhos com a irmãzinha. Só eu fico incomodado com isso?

Questiono algumas escolhas narrativas: na cronologia da dinastia, duas crianças assumem o trono em seguida, com os mesmos problemas, e os mesmos acontecimentos (regentes ambiciosos, meninos querendo ser adulto etc). Acho que essa repetição só torna o livro mais cansativo e não acrescenta nenhuma discussão nova. Também tenho dificuldade em seguir tantos nomes parecidos: Daemons e Daerons, Rhaenys e Rhaenyras.

Mas Fogo e Sangue: Volume 1 é um livro de leitura fácil e deliciosa, que permite mergulhar num mundo fascinante que na verdade nos ajuda a entender o nosso mundo. Algumas pandemias aparecem na história, e o que se faz é trancar os castelos, ninguém entra e ninguém sai, os doentes são tratados, todo os portos e mercados são fechados, até o que o problema acabe. Estranho, não?

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Resenha: O Método Bullet Journal

Fiquei sabendo de O Método Bullet Journal pela Newsletter de BulletJournal.com, mas eu fiquei realmente empolgado por O Método Bullet Journal depois da Thais Godinho ter chamado de “o livro do ano”.

Eu não sei se concordo com esse superlativo, mas é realmente muito bom. No site oficial do método, grande parte conteúdo se apresenta em alguns artigos e em um vídeo de poucos minutos, o que causa uma impressão de superficialidade. O livro, ao contrário, se aprofunda em muitos tópicos: criatividade, planejamento, reflexão, hábitos. Tudo a ver com meus interesses.

Para os completos alheios, o método Bullet Journal consiste em usar apenas um caderno para organizar toda a sua vida. Com alguns “marcadores” especiais (para tarefas, compromissos, notas, coisas urgentes), e alguns templates de páginas, você cria um registro de tudo que tem para fazer em um dia/semana/mês/ano.

Para mim, o livro fez parte de um período meio dedicado a criatividade, e considero ele parte de um conjunto com os livros do Austin Kleon. O Método BulletJournal me ensinou como juntar informações mistas, provenientes de meu app de gerenciamento de tarefas, de meu calendário, ideias da minha cabeça etc, em um único lugar: uma página de um caderno, que levo sempre comigo. Se algo aparece à minha frente, eu anoto no meu Bullet Journal. Anotações de reunião vão para o Bullet Journal. Problemas que vou encontrando enquanto trabalho em um projeto Python… Você já sabe. O papel aceita tudo. Periodicamente, reviso essas anotações e organizo de maneira mais apropriada.

Se você quer melhorar a sua organização, a sua escrita ou ambos, ou se já usa um caderno/diário/agenda de papel e quer ter mais estrutura, recomendo fortemente a leitura.