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O Médico e o Monstro e eu e você

Como parte da minha assinatura Amazon Prime, tenho acesso a alguns ebooks gratuitos todo mês no regime de empréstimo: posso ter 10 títulos na minha biblioteca do Kindle, e se quiser mais tenho de devolver algum. Geralmente são livros ditos “clássicos”, e o fato de que estou lendo mais livros desse tipo meio que já justifica os R$9,90 mensais.

Um dos títulos que li recentemente foi justamente O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Eu não sei o leitor, mas eu não era nenhum um pouco familiar com a história, e na minha cabeça o Monstro da história era algo do tipo um lobisomem, ou um The Hulk: uma criatura gigantesca, incapaz de controlar a raiva, de aparência abominável. Minha grande surpresa é que o monstro do título é um ser humano, apenas… mau.

O livro é muito curto, uma novela, e de leitura fácil. A lição principal, porém, é muito relevante.

Eu já falei aqui de saúde mental, da minha luta contra depressão e ansiedade. Eu estou mais que ciente de que essa luta é para a vida toda. Eu não me sinto mais deprimido, mas a doença só está adormecida, e desponta com sinais conhecidos: pessimismo, senso de tragédia, mau humor. Felizmente, anda controlada. Eu aceito e acolho meu lado deprimido, meu lado que tem pensamentos violentos, o meu lado que diz para não aceitar uma vida que não seja perfeita.

Porque se eu não aceitar o meu lado mau, ele aflora, exatamente como no livro. O médico da história tenta separar as suas personalidades boa e ruim, com resultados catastróficos — o lado mau sempre vai vencer pela trapaça e pela violência. Dr. Jekyll não era Edward Hyde, mas o continha.

O Setembro Amarelo está acabando, mas não existe tempo certo para falar de sanidade mental. Se você tem pensamentos sombrios, são só isso, pensamentos, e não quer dizer que você é sombrio. Se você não consegue ver a diferença, procure ajuda: familiar, terapêutica, médica, espiritual. É literalmente um caso de vida ou morte.

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Resenha: Os Testamentos

Os Testamentos, de Margaret Atwood, é a continuação de O Conto da Aia (minha resenha). O universo compartilhado entre os dois romances mostram um mundo onde guerras nucleares provocaram uma epidemia de infertilidade nos EUA. Como resposta, um grupo religioso fundamentado no Antigo Testamento toma o poder, funda a República de Gilead e estabelece uma nova sociedade de castas. As mulheres férteis são escravizadas como aias, que devem copular com os seus mestres, os Comandantes da Fé, numa cerimônia com o testemunho das suas Esposas supostamente inférteis — os próprios maridos podem ser biologicamente, mas não legalmente, estéreis.

Os testamentos dos títulos são relatos de três figuras relacionadas ao regime; como era de se esperar, as aventuras das três se une no meio do romance.

Pelo que as opiniões do Goodreads deixam claro, minha opinião não parece ser muito popular, mas aqui vai: Os Testamentos é um romance superior ao seu antecessor. A alternância de personagens torna a leitura mais fluida; O Conto da Aia usa um recurso de se focar em apenas uma personagem (Offred), mas deixa dúvidas se não está se referindo a todas as aias. O romance tem bem mais elementos de ação, ao mesmo tempo que educa o leitor sobre a origem de Gilead (a grande pergunta não respondida do primeiro livro, pelo que Margaret Atwood comentou no prefácio). É uma combinação certeira em um livro de ficção: entretimento simples, ao mesmo tempo em que promove reflexões sobre o feminismo (que a autora não abraça, aliás) e política.

Uma reflexão ainda não tem resposta, porém: qual o propósito de Gilead? Quem de fato se beneficia com o regime? A vida dos líderes (comandantes) parece bem miserável. Não há grandes luxos disponíveis, como carros, bebidas, cigarros; e eles têm de constantemente gerenciar o regime para não sucumbir à resistência e manter as mulheres sob controle. Mesmo o bordel de O Conto da Aia parece bem melancólico. Claro, há comportamentos como o de um dos personagens, que coleciona esposas-crianças; mas mesmo ele tem de disfarçar as suas preferências, e sendo assim o que diferencia de um pedófilo no mundo atual?

O mais perturbador do universo de Gilead é que ele não é absurdo. A classe de políticos estilo Bolsonaro-Trump certamente adoraria um mundo onde não existisse qualquer resquício de participação feminina na política, e onde elas pudesse ser avaliadas livremente pelo potencial sexual; nosso presidente até se envolveu em uma discussão online e no Facebook dizendo que as críticas do presidente Macron da França contra o desmatamento da Amazônia são porque a sua mulher é muito feia. Por outro lado, o livro mostra mais um exemplo de como a Segunda Lei da Termodinâmica é cruel: sistemas onde a ordem é imposta artificialmente requerem muito trabalho para serem mantidos, e estão fadados a voltarem a um estado mais natural.

Tudo bem se eu encerrar esse texto dizendo que a esperança, afinal, vem da Termodinâmica?

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Resenha: Fogo & Sangue Volume 1

Quando eu e minha esposa estávamos para nos casar, amigas dela fizeram aquela brincadeira de perguntar meus favoritos: livro, banda, filme etc, e ver se ela acertava. Minha banda favorita é fácil: qualquer um que me conhece um pouco mais profundamente sabe o quanto eu gosto dos Beatles. Saber o meu livro favorito exige um pouco mais de intimidade, de tantos livros que eu leio, mas minha esposa acertou em cheio: meu livro favotiro são As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

Eu não sou o nerd típico no sentido de nunca ter sido muito fã de fantasia. Não jogava RPG e muitos dos livros do gênero me soam cansativos — ainda nem terminei de ler O Senhor dos Anéis. E na primeira vez que li A Guerra dos Tronos, o primeiro livro da série, também me senti cansado. Meses depois, persisti e tentei ler mais uma vez, com um pouco mais de paciência e esforço, e daí não parei mais. Acho que o que me encanta mais não é o aspecto fantasioso, que nem é tão abundante assim, mas o aspecto histórico e político. Aí sim fui o CDF típico, de adorar histórias medievais, jogar Age of Empires e Civilization. Lembro-me do meu espanto quando, adolescente, dei-me conta de que ainda existem reis e monarquias no mundo. Para ser bem sincero, acho as monarquias europeias muito mais fascinante que as repúblicas. Os aspectos políticos do mundo em geral me interessam; quando pensei em ser jornalista, flertei com a ideia de ser jornalista político e fazer análises precisas, e ainda hoje é o que mais me interessa nos jornais.

De uma certa maneira, As Crônicas de Gelo e Fogo arruinaram a minha leitura. Perto da sua complexidade, outros livros parecem bobos, sem intrigas inteligentes, sem personagens de cujas intenções não se sabem. Eu leio muitos romances históricos, e nesse tipo de livro, quando aparece uma donzela, filha de cavaleiro ou nobre, eu já sei o que vem por aí: ela quer se casar com um camponês, mas precisa se casar com o visconde; ela é virgem e ele frequenta prostíbulos; ela quer estudar mas o mundo é dos homens. Ainda que o mundo devesse ser assim, custo a crer que na sua intimidade elas eram tão unidimensionais. Nas Crônicas, por outro lado, você têm Sansa, que começa como uma donzela sonhadora mas logo começa a participar das conspirações (ainda que sempre assustada).

Este Fogo & Sangue: Volume 1 é um prólogo à série — e, desconfio fortemente, uma distração para o autor para não continuar nos próximos livros sequenciais. Martin se coloca na pele de um arquimeistre (para os completamente leigos: um erudito) para contar a primeira metade da história da Dinastia Targaryen, como se fosse um historiador pesquisando e relatando o que aconteceu séculos antes. E é aí que me causa o primeiro espanto: Martin está no mesmo universo de todos os seus outros livros da série, mas consegue inventar outra voz completamente diferente, como se de fato não fosse a mesma pessoa que escreveu As Crônicas e este livro. Como acadêmico, também me identifico com o pretenso estilo científico, de “citar” várias fontes, como se fosse um tratado mesmo: “este autor fala disso, mas não podemos confiar; este outro diz isso, e estava presente nesses acontecimentos”.

Para qualquer fã, este livro vai apresentar claramente episódios que são mencionados em fragmentos ao longo da série, especialmente toda a conquista de Aegon no começo. Também tem detalhes sobre os Baratheon que ajudam a entender como Westeros aceitou Robert tão facillmente como rei após a queda de Aerys II.

O que esse livro não responde é o que mais me intriga e incomoda: como é possível haver tanto incesto em uma família sem consequências biológicas e sociais. Será o mundo retratado na série tão diferente da vida real. Será que “os Targaryen não ficam doentes” (o que se torna um ponto importante de discussão no meio do livro)? Jaehaerys I, por exemplo, era justo, sábio, bravo, conciliador — mas teve mais de 10 filhos com a irmãzinha. Só eu fico incomodado com isso?

Questiono algumas escolhas narrativas: na cronologia da dinastia, duas crianças assumem o trono em seguida, com os mesmos problemas, e os mesmos acontecimentos (regentes ambiciosos, meninos querendo ser adulto etc). Acho que essa repetição só torna o livro mais cansativo e não acrescenta nenhuma discussão nova. Também tenho dificuldade em seguir tantos nomes parecidos: Daemons e Daerons, Rhaenys e Rhaenyras.

Mas Fogo e Sangue: Volume 1 é um livro de leitura fácil e deliciosa, que permite mergulhar num mundo fascinante que na verdade nos ajuda a entender o nosso mundo. Algumas pandemias aparecem na história, e o que se faz é trancar os castelos, ninguém entra e ninguém sai, os doentes são tratados, todo os portos e mercados são fechados, até o que o problema acabe. Estranho, não?

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Resenha: O Método Bullet Journal

Fiquei sabendo de O Método Bullet Journal pela Newsletter de BulletJournal.com, mas eu fiquei realmente empolgado por O Método Bullet Journal depois da Thais Godinho ter chamado de “o livro do ano”.

Eu não sei se concordo com esse superlativo, mas é realmente muito bom. No site oficial do método, grande parte conteúdo se apresenta em alguns artigos e em um vídeo de poucos minutos, o que causa uma impressão de superficialidade. O livro, ao contrário, se aprofunda em muitos tópicos: criatividade, planejamento, reflexão, hábitos. Tudo a ver com meus interesses.

Para os completos alheios, o método Bullet Journal consiste em usar apenas um caderno para organizar toda a sua vida. Com alguns “marcadores” especiais (para tarefas, compromissos, notas, coisas urgentes), e alguns templates de páginas, você cria um registro de tudo que tem para fazer em um dia/semana/mês/ano.

Para mim, o livro fez parte de um período meio dedicado a criatividade, e considero ele parte de um conjunto com os livros do Austin Kleon. O Método BulletJournal me ensinou como juntar informações mistas, provenientes de meu app de gerenciamento de tarefas, de meu calendário, ideias da minha cabeça etc, em um único lugar: uma página de um caderno, que levo sempre comigo. Se algo aparece à minha frente, eu anoto no meu Bullet Journal. Anotações de reunião vão para o Bullet Journal. Problemas que vou encontrando enquanto trabalho em um projeto Python… Você já sabe. O papel aceita tudo. Periodicamente, reviso essas anotações e organizo de maneira mais apropriada.

Se você quer melhorar a sua organização, a sua escrita ou ambos, ou se já usa um caderno/diário/agenda de papel e quer ter mais estrutura, recomendo fortemente a leitura.

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Breves comentários literários sobre “O Conto da Aia” (por quem não entende nada de literatura)

Minha motivação para ler O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi uma combinação de coisas: fotos de gente lendo o livro no Instagram, comentários sobre a série da Amazon Prime baseada no livro pipocando pelas internetes, e uma grande promoção da Amazon.

Mesmo com essa motivação meramente circunstancial, não é difícil mergulhar completamente no universo de *O Conto… * — o que aliás é um dos grandes sinais de um bom livro de ficção. E falando sobre o universo, devo admitir que, como aparentemente a maioria da população hoje em dia, tenho um franco por universos distópicos e pós-apocalípticos; mas não vamos perder de vista que esse livro é um produto da década de 80.

A sinopse em um parágrafo: após guerras nucleares, a infertilidade contaminou a maioria da população norte-americana. Um grupo fundamentalista cristão se apoia nisso e instala uma ditadura onde as mulheres férteis, por serem raras, tornam-se propriedades do governo na forma de aias a serem alocadas a líderes cujas esposas são inférteis (pelo menos oficialmente, já que nesse regime não se admite que homens podem ser estéreis). A história é um relato de um dessas aias, de como ela chegou até ali e de como funciona a vida nesse país.

Como ler e escrever é proibido, os relatos são confusos (e no final o leitor entende por quê), o que dá margem ao meu primeiro comentário: esse não é um livro fácil. Sem querer parecer exagerado, o estilo me lembra um pouco Saramago, onde os pensamentos e as ações dos personagens se confundem. O quanto aquilo que está escrito de fato aconteceu? Essa pergunta se torna crítica no Epílogo.

A história é interessante, o estilo de escrita é intrigante… Mas à medida que eu lia, a mesma sensação tomava conta de mim: eu não sou o público alvo desse livro. Como homem decididamente feminista, liberal do século XXI e que não consegue simplesmente compreender a escalada de feminicídio no Brasil de 2019, algumas passagens do livro de escravização das mulheres soam absurdas demais, enquanto os pensamentos libertadores da Aia soam óbvios demais.

Ou será que eu que sou ingênuo demais?

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Resenha: Show Your Work

Eu fiquei sabendo de Show Your Work, de Austin Kleon, através de um mísero link em post de Mike Vardy (cujo link exato não consigo mais encontrar). Na época, acho que estava começando com esse blog, começando também a ler muito sobre produtividade e tecnologia (o que me levou a conhecer Vardy), e fiquei intrigado com o simples título desse livro. A partir daí, comecei a mergulhar cada vez mais na obra desse escritor americano.

Confesso que, da primeira vez que li, não deu muito atenção. Mas, quando comecei a dar mais atenção à minha criatividade como tratamento contra ansiedade e depressão, Show your work se tornou um de meus livros favoritos sobre criatividade.

Kleon consegue motivar todo mundo a achar uma “arte” em seu trabalho e então em maneiras de compartilhá-la com o mundo. Não de maneira mirabolante, mas básica: separar uns minutos por dia, criar um blog, usar o Instagram para mostrar dicas do seu trabalho e não o seu almoço. Caso o leitor não tenha reparado, eu venho usando cada vez as dicas desse livro aqui neste blog, mostrando os bastidores do meu trabalho e cotidiano, expondo meus livros/apps/sites favoritos, conectando ideias aparentemente distintas.

A internet está cheia de coisas ruins. Vamos enchê-la de coisas boas, falando de nosso trabalho e nossos assuntos favoritos. Show your work é um bom guia para começarmos.

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Resenhe: Roube como um artista

O objetivo principal de Austin Kleon em Roube como um artista é dar dicas de como ter mais ideias (boas). Os seus principais argumentos são baseados na sua experiência como escritor e no contato que ele tem com outros artistas, seja ao vivo ou por meio de obras diversas.

O ponto central do livro é o imperativo presente no título: para ter mais ideias, é preciso estar exposto a elas, capturá-las, e então produzir algo novo. Kleon cita diversos músicos, pintores e escritores que usam dessa analogia do roubo, da cópia modificada. Para isso, é bom ter algumas ferramentas, como um bom diário, um caderno onde você possa anotar coisas que lhe chamaram a atenção, ou qualquer forma de manter um registro. Se você for escultor, tire fotos e mantenha um álbum com suas obras preferidas. Para um caso mais “cotidiano” de um engenheiro de simulação, guarde artigos interessantes no Evernote, por exemplo.

O “roubo”, nesse contexto, se diferencia de um plágio por abraçar as influências, dando crédito a elas e melhorando. Não é difícil perceber que J.K. Rowling usou de muitas fontes sobre fantasia e mitologia, mas adapatou a um mundo de bruxos bons e em um universo infanto-juvenil. Quem escuta Oasis não demora a notar semelhanças com os Beatles, mas como se as suas músicas fossem adaptadas para os anos 90.

Cerque-se do que roubas. Abrace suas influências. Aprofunde-se no seu autor favorito. Não tente criar o seu jeito; deixe ele crescer organicamente, à medida que você se torna mais consciente das coisas que você lê/escuta/ouve/estuda. E não tenha medo de não ser original:

“Tudo que precisa ser dito já foi dito. Mas, já que ninguém estava ouvindo, é preciso dizer outra vez.” – André Gide, escritor francês

Com base nesse ciclo “Expôr-se, capturar, adaptar”, Kleon sugere mais algumas dicas básicas:

  • Trabalhe mais com meios analógicos. Nesses tempos digitais, esquecemos de estimular o tato e as sensações diferentes que temos quando lidamos com o mundo fora do computador. Vale a pena ter um ambiente livre de telas para simplesmente rabiscar ideias em papel (até usando o seu caderno acima), ler um livro, recortar figuras ou fotos e montar um mural etc. No mesmo sentido, é importante ter hobbies diferente do seu trabalho, para estimular o seu cérebro.
  • Saia mais de casa. Isso vale tanto para coisas modestas como ir trabalhar num café; quanto para sonhos de vida como ir morar fora do país ou se mudar de cidade. Essa mudança de ambientes e de conforto pode ativar novas ideias que você nunca teria percebido.
  • Use a vida diária como estímulo criativo. Escreva sobre um filme que lhe comoveu; reclame no seu diário sobre algo com que você ficou indignado; cozinhe uma refeição como uma versão melhorada do que você comeu de ruim.

Pessoalmente, entendo que, ao ser mais criativo, você produz trabalho de mais qualidade, impacto e significado — qualquer trabalho. Assim, fico feliz em recomendar a leitura desse livro, mesmo com alguns poucos defeitos; o que mais me frustra é a falta de referências a estudos que provem os argumentos dele (mas também talvez seja a minha mente de pesquisador) — talvez eu deva roubar as ideias de Kleon e adicionar rigor científico, não acham?.

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Resenha: Deep Work

No seu livro anterior, So Good They Can’t Ignore You (que já resenhei), Cal Newport defende que a satisfação profissional é derivada não do clássico “fazer o que se ama”, mas de três características básicas: criatividade, autonomia e impacto. Se você conseguir um trabalho onde consiga exercer essas três coisas, provavelmente conseguirá ser feliz no trabalho. Mas empregos que ofereçam essas vantagens são raros, e então você precisa se tornar raro e valioso; o chefe só vai lhe permitir ter horários flexíveis (um indicativo de controle) se ele tiver certeza de que você consegue cumprir suas tarefas. Newport usa o termo capital de carreira: você acumula habilidades que o tornam “tão bom que eles não possam ignorá-lo”, e as troca pelas condições de trabalho que deseja.

Embora em So Good Newport aborde maneiras de você acumular capital de carreira, o seu mais recente livro, Deep Work: Rules for Focused Success in a Distracted World é uma continuação natural do anterior, no sentido em que mostra mais maneiras de como desenvolver as habilidades profissionais necessárias. A pergunta a ser respondida é: o que você precisa fazer no seu dia-a-dia de trabalho para crescer profissionalmente, tornar-se realmente bom no que faz, ter o sucesso do subtítulo?

A resposta: trabalho — mas não qualquer tipo de trabalho. Se você quer se tornar raro e valioso, precisa aprender a trabalhar profundamente.


O cerne teórico básico de Deep Work é que parece haver uma grandeza na nossa mente, uma forma de energia mental ligada à atenção e à concentração, que é um recurso finito mas recarregável. Newport cita estudos que mostram que é impossível para alguém se manter num estado de concentração máxima o dia todo, pois o cérebro cansa. Não é surpreendente o fato de que, após uma sessão de estudo muito intenso, queiramos fazer algo mais leve, como ver vídeos no YouTube. Isso faz com que seja necessário sermos seletivos com aquilo em pomos a nossa atenção; mesmo uma atividade mundana como mandar emails consome um pouco dessa energia, e reduz a nossa capacidade de concentração quando vamos fazer algo importante depois.

Como o leitor ou leitora costuma trabalhar? Quando o leitor senta no computador (assumindo um trabalho “do conhecimento” típico), consegue se concentrar realmente na tarefa em mãos, ou mantém um olho no documento na sua frente, outro no aba do Facebook no navegador e os ouvidos atentos aos apitos do WhatsApp? Por causa do efeito citado no parágrafo anterior, na segunda situação a sua capacidade cognitiva está sendo dividida entre o seu trabalho, realmente importante, e as outras distrações. Corolário: se você dedicasse essa mesma concentração total apenas à sua tarefa principal, esta receberia mais atenção, e provavelmente seria melhor executada.

Ao enfatizar este ponto ao longo do livro, Cal Newport se diferencia de muitos autores de produtividade que propagandeiam toda sorte de hacks, aplicativos e sistemas complexos. Essas coisas são marginais se você não consegue desenvolver o trabalho profundo do título: dedicar-se a alguma atividade complexa, por horas a fio, num ambiente sem distrações, em alguma atividade que gere valor (e lhe permita desenvolver o seu capital de carreira). O oposto do trabalho profundo é o trabalho raso: aquele tipo de trabalho logístico, muitas vezes obrigatório para se manter o emprego, que não requer muita atenção mas que também não gera nada de muito importante. Coisas como responder emails, participar de reuniões sem sentido, preencher formulários, atualizar planilhas.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, o autor oferece uma motivação. Conta casos de pessoas famosas como Carl Jung, Richard Feynman e Bill Gates, e também anônimos, para mostrar que pessoas de sucesso tem uma característica em comum: elas não se importam em se isolar do mundo e atacar uma atividade intelectual realmente difícil quando necessário. Também mostra por que esse tipo de comportamento é raro; é difícil combater a impressão de que se você passou a tarde respondendo a emails foi bastante produtivo, enquanto que se passou dois dias estudando um artigo muito difícil, mas não tem nada para mostrar, você perdeu tempo. Além disso, Newport argumenta (com certa razão) que a economia desse início de século XXI é um tecnopólio, onde tudo que é tecnológico é bom e tudo que é analógico é ruim, onde somos ensinados pela propaganda a “nos conectar” e fazer check-in a cada vez que vamos na padaria.

Na segunda parte do livro, vemos quatro regras para imergir no trabalho profundo — a propósito, bem como em So Good…, Newport não faz questão nenhuma de esconder que ele é um professor universitário e cunha regras, leis, hipóteses. Estas regras derivam da finitude da energia mental que mencionei antes. Por exemplo, uma das dicas é formar rituais de trabalho profundo, como definir um local e horário para você trabalhar profundamente; o autor dá um exemplo de um doutorando que começou a trabalhar enquanto terminava a sua pesquisa, e que começou a acordar mais cedo para trabalhar na tese como primeira atividade do dia, antes da agitação do trabalho. Quando forma esses hábitos, não gasta a sua força de vontade (que também é uma reserva mental limitada no dia) tomando decisões de quando e onde trabalhar, e tem mais concentração disponível para trabalhar.

O lado mais “controverso” do livro certamente é sua crítica às redes sociais. Newport argumenta que, para você aprender a se concentrar profundamente, precisa treinar o cérebro a perder o vício em distrações, tanto que um dos capítulos é chamado Abrace o tédio (Embrace boredom). Se, ao chegar em casa, você passar todo o seu tempo ficando com raiva dos textões no Facebook, vai deixar de recarregar a sua capacidade de concentração. A analogia é da atenção como um músculo que precisa ser exercitado, então quanto menos você tirar o celular do bolso a cada minuto ocioso, mais vai aprender a manter o foco em uma só coisa, como necessário durante uma sessão de trabalho.

Para uma ideia tão simples como “aprender a se concentrar”, Deep Work foi um livro muito mais difícil de ler que pensei. Um dos seus poucos problemas é a densidade não-uniforme de explicações. Quando o autor fala das vantagens “filosóficas” do trabalho profundo, Newport usa apenas de dois livros como base, e a explicação parece um pouco forçada; efeito semelhante aparece quando o autor tenta aplicar as Disciplinas de Execução no trabalho profundo, numa seção que poderia ter sido cortada de tão superficial. Por outro lado, em algumas seções Newport tenta trazer mais profundidade que o necessário, como quando ele estabelece técnicas para abandonar as redes sociais.

Antes de ler o livro, eu já me considerava uma pessoa que consegue se concentrar profundamente, mas o livro me ensinou a perceber muitas nuances, principalmente à sua ênfase em experimentar o tédio e deixar o cérebro divagar livremente (como exemplo pessoal, parei de escutar podcasts a cada momento livre para começar a “meditar produtivamente”, como Newport ensina). Acho que todo trabalhador do conhecimento pode aprender muita coisa com Deep Work — aprender a trabalhar melhor e a gerar mais valor.

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Resenha: So Good They Can’t Ignore You

Além de ímãs, Termodinâmica, refrigeradores, regeneradores e todos esses maravilhosos assuntos que formam o tema do meu doutorado, carreira tem sido a minha maior obsessão intelectual.

Isto pode ser um sinal de maturidade. Quando fazia o mestrado, enxergava-o mais com uma extensão natural da minha graduação. Praticamente todas as pessoas com que conversei antes de iniciar o mestrado concordavam em um ponto: o tempo gasto em um mestrado é baixo se comparado aos benefícios que ele traz, o que se torna ainda mais verdade numa economia com menos contratações e onde uma qualificação maior faz a diferença. Você sai do mestrado aos vinte e poucos, tem uma formação a mais e experiência na condução de um grande projeto; depois do mestrado, ainda existem muitas opções de carreira disponíveis, para a maioria das áreas.

Quando refleti sobre fazer o doutorado, porém, percebi que isso se tratava de uma decisão de carreira muito significativa. Eu terminaria o meu doutorado com 30 anos e nenhuma experiência em indústria; fazê-lo então quase que representa um comprometimento com o mundo acadêmico (embora, naturalmente, existam casos de sucesso de doutores que foram para o mundo empresarial e industrial). Para ser bem sucedido como acadêmico (professor e/ou pesquisador de uma boa instituição de pesquisa ou universidade), fazer um bom doutorado é necessário (mas não suficiente), e vem seguido de muitos desagios. Como guiar a minha carreira, aumentando o meu sucesso e sendo feliz no processo? O que determina uma carreira bem sucedida?

So Good They Can’t Ignore You foi escrito por alguém em situação próxima a minha: um estudante terminando o seu doutorado e querendo saber o que ele deve fazer para encontrar uma carreira que ele ame — e talvez seja por essa proximidade que eu me identifico tanto. O autor, Cal Newport, agora é já um professor bem estabelecido, e esse nome não deve ser estranho a leitores de FabioFortkamp.com, tal o número de vezes que eu cito o seu ótimo blog, Study Hacks. O título (em tradução livre, Tão Bom Que Eles Não Possam Ignorá-lo), vem deste clipe de uma entrevista de Steve Martin:

Este livro prático (com muitas discussões baseadas na Economia e na Psicologia) defende a ideia de que uma carreira de sucesso, que você ame, não é contruída baseada no sonho de “ir fazer o que se ama”, mas na ideia de quando você se torna realmente bom no seu trabalho você aprender a amar o que faz. Reparar que esta é uma tese dividida em dois pontos centrais:

Primeiramente, ass coisas pelos quais nos declaramos apaixonados, como música, esportes, religião, artes etc não são carreiras fáceis a não ser que você seja absolutamente brilhante. Este, aliás, é um ponto sutil do livro; sim, existem casos de pessoas que eram apaixonadas por alguma coisa e ganham a vida fazendo isso, mas eles são mais raros do que se pensa e representam casos extremos. Se você é fanático pelos Beatles, por exemplo, dificilmente consegue contruir uma carreira em cima disso, a não ser que seja algo especial — ou você toca igualzinho ao George, ou descobriu um novo ponto sobre a biografia deles… Adicionalmente, ter de trabalhar em cima de uma paixão tão profunda talvez até faça você gostar menos desse assunto. Ou seja, a maneira de construir a carreira ideal não é indo atrás das suas paixões.

Mas qual é a maneira, então? Na realidade, é difícil ter muito controle sobre a carreira em vamos parar. Eu queria cursar Jornalismo até os meus dezessete anos; mudei de ideia às vésperas da inscrição no Vestibular e agora estou fazendo Doutorado na área de Refrigeração. Mesmo que você “caia de para-quedas” em uma carreira, Newport defende que é possível você desenvolver gosto pelo que faz, e o seu argumento é bastante microeconômico: nas suas entrevistas, o autor percebeu que os profissionais realmentes de sucesso que se declaram felizes profissionalmente (em áreas diversas como programação, investimentos, medicina, construção de pranchas se surfe e redação de programas de TV) têm em comum o controle sobre a sua carreira e impacto sobre os outros. Essas condições são difíceis de encontrar, então você precisa se diferenciar para ter acesso a elas. E a melhor maneira de se diferenciar é através da aplicação sistemática do trabalho árduo, deliberado, esticando as suas habilidades além de um nível confortável é o que tem mais chances de lhe fazer ter sucesso. Como Martin diz no vídeo acima, essa conclusão é óbvia e sem graça a tal ponto que as pessoas não querem ouvir, mas é mais importante que tentar ser um gênio, ou conhecer alguem famoso, ou conseguir muitos seguidores.

O ponto mais curioso em relação à livro é que ficam evidente que o autor é professor universitário. Todo o livro é escrito de forma muito didática, com “leis”, “regras”, “teorias”, que facilitam bastante o entendimento. Newport muitas vezes para, lembra do que já foi dito, revisa os conceitos — e não consegui esconder o sorriso e perceber que era um (bom) professor conversando comigo.

CGP Grey recomendou So Good… como uma das bases para o seu entendimento do que é uma vida de sucesso. Acho que a época em que estou é a ideal para pensar seriamente nessas questões, mas também acho que, independente da idade, se o leitor precisa refletir sobre a sua carreira, se está na dúvida sobre o que fazer, e se quer simplesmente ser mais feliz no trabalho, pode se beneficiar da leitura desse livro.

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Resenha: Adeus, aposentadoria

Não deve ser novidade por aqui que um grande interesse meu é o assunto de finanças pessoais. Eu e você, leitor, provavelmente temos profissões, mas ambos precisamos de dinheiro para coisas necessárias e também para as desejáveis. Mesmo que você odeie Matemática e pule a seção de economia do jornal, ainda assim você tem de lidar com dinheiro no dia; se isso for algo que você entende e que domina, há de ser mais fácil. Por isso, acho que pelo menos um mínimo de estudo de finanças pessoais é fundamental para todos.

Fiquei sabendo de Adeus, aposentadoria (Sextante, 2014) através de um texto da Thais Godinho, e logo ele me chamou a atenção. Nos últimos meses, quando resolvi fazer uma grande revisão do assunto de finanças para atualizar minhas práticas — que continuavam as mesmas desde a primeira vez que li A Árvore do Dinheiro, em 2011 — sabia que queria incluí-lo na minha lista de leitura. O título e a promessa de dar adeus à noção de aposentadoria como a conhecemos é intrigante e tentador, mas ao mesmo parece desnecessário se você é o brasileiro médio que quer apenas passar em algum concurso público e não se preocupar com mais nada (ao menos financeiramente) para o resto da vida.

A premissa básica do livro em questão é que esta e outras soluções tradicionais de aposentadoria têm tudo para não funcionar quando os trabalhadores de hoje se aposentadorem. Vamos pensar na solução de “passar em um concurso público, trabalhar com estabilidade e se aposentar com salário integral” que é a tradução do sonho brasileiro. Pense nos servidores públicos que você conhece que estão aposentados. Sim, os mais velhos aproveitaram um regime de ouro, e hoje vivem confortavelmente; porém, se você tiver um contexto social parecido com o meu, vai perceber que as pessoas de uma geração seguinte, que estão entrando agora na idade permitida para aposentadoria, já enfrentam situação diferente. Com as mudanças de regras, o salário desses servidores são engordados por benefícios que não vão entrar no cálculo de aposentadoria. Os jovens que estão ingressando nessa carreira hoje vão encontrar condições piores ainda, já que o déficit só tende a aumentar. Aposentar-se no serviço público pode ser mais fácil que na carreira privada, mas não é tranquilo.

Qual a alternativa, então, para o caminho de ouro da aposentadoria? Cerbasi elenca muitas opções, e mostra o defeito de todas. Previdência privada? As taxas de administração vão comer parte do rendimento. Investimentos tradicionais em ações ou fundos? A inflação vai comer grande parte do rendimento. Viver de renda de aluguel? Boa sorte passando a sua velhice lidando com inquilinos. O fato é o seguinte: por questões de saúde, todos vamos precisar parar de trabalhar (entendido no livro como trocar o seu tempo por um salário), mas ninguém quer perder renda. Quando você ficar cansado de trabalhar, não vai aceitar ganhar menos (um fato inescapável de como humanos funcionam). Você vai querer descansar, e ter renda para continuar a viver com conforto, e ter essa renda até morrer.

Na minha leitura analítica do livro, consegui identificar cinco argumentos principais.

  1. A solução proposta por Cerbasi para conseguir parar de trabalhar para os outros mas não parar de ganhar dinheiro é o empreendedorismo. Enquanto você é assalariado, na prática é muito difícil guardar e investir dinheiro suficiente para que, quando você pare de trabalhar, você consiga a partir desse momento viver apenas dos rendimentos dessa massa crítica (um conceito fundamental de outro livro do autor, Dinheiro: os segredos de quem tem). Outras soluções de aposentadoria envolvem a sua dependência em fatores externos. Por outro lado, se você ao longo da vida contrói um verdadeiro projeto empreendedor, terá o potencial de algo que gere valor (um termo que eu achei apropriado para encapsular essa ideia do autor) para você.
  2. Mesmo com o empreendedorismo, parar de trabalhar repentinamente e a partir daí viver do seu “negócio próprio” não é viável. Cerbasi prega que devemos desenvolver nossa vida profissional de maneira gradual. Começamos sem dinheiro nem experiência, e a melhor coisa a fazer é achar um bom emprego. À medida que vamos crescendo na carreira, idealmente vamos atingir um ponto em que nossa saída representa uma grande perda para a empresa, e não precisamos trabalhar tão arduamente; a partir desse ponto, devemos dedicar menos horas ao trabalho e mais horas a um projeto paralelo. É só quando este estiver sólido que você deve se dedicar integralmente a ele. Finalmente, você terá dinheiro e experiência, pelo que deve deixar o negócio ir sendo gerenciado por outros e investir as suas finanças de maneira mais séria (e aproveitando o tempo disponível mais abundante). Também incluindo nesse conceito é a diminuição do ritmo; sim, pode demorar até que você consiga se dedicar somente ao seu negócio para que ele lhe sustente, e mais ainda para que você pare de se envolver com ele, então é preciso adotar ao longo da vida um ritmo de trabalho mais humano, que lhe dê eneria para trabalhar até mais tarde na vida.
  3. O risco do empreendedorismo pode ser atenuado com camadas de segurança (também outro termo meu). Baseado no item anterior, você constrói o seu projeto ao longo de muitos anos, ao mesmo tempo em que acumula reservas financeiras. Se você não tem pressa, não precisa tomar decisões muito arriscadas. Cerbasi prega, por exemplo, que você deve contribuir para o INSS como pelo menos uma primeira camada, e que deve ter sempre disponível investimentos de baixo risco de onde você possa tirar dinheiro em emergências.
  4. O sucesso do empreendedorismo está na diferenciação. Empresas existem de monte, mas muitas são simplesmente medíocres. Novamente, baseado na ideia de fazer as coisas gradualmente, você deve usar o seu tempo enquanto mero empregado para fazer networking, conhcer o mercado, aprender muito. Nessas horas, é preciso ter um pé no chão e evitar “correr atrás da sua paixão”; explore algo que você aprecie mas dentro da sua área. Porque você tem tempo para se aprimorar, pode lançar o seu negócio com um diferencial.
  5. A fase de início de carreira (20 aos 30 anos) é onde você deveria estar trabalhando desenfreadamente, poupando muito e aprendendo mais ainda. Uma ideia que não está no livro mas que eu tiro de experiência própria é pessoas nessa faixa ainda não se esqueceram de como é ser estudante; essa é a fase, portanto, em que você consegue viver com pouco ao mesmo tempo em que tem possibilidade de ganhar muito, e é em que oportunidades boas podem aparecer em qualquer lugar. Tudo isso deveria servir de incentivo para os meus amigos pararem de querer praticar loucuras como comprar um apartamento nessa idade. Um adendo: esse quinto argumento foi o que mais me fez pensar e é o que está me fazendo escrever esse texto de noite, buscando desenvolver minha carreira de escritor, enquanto que antes de ler Adeus, aposentadoria eu apenas diria “estou cansado” e iria assistir qualquer coisa na Netflix.

Essas cinco ideias não são revolucionárias, mas ter contato com elas provoca uma pequena e saudável reflexão. Dito isso, tenho alguns problemas com este que considero o livro mais fraco de Cerbasi. Por exemplo, o autor começa o livro com uma discussão desnecessária sobre a justiça do capitalismo. O autor não demostra ter embasamento filosófico para tanto e propõe uma argumentação fraca. Cerbasi diz que, se todos tiverem condições iguais, o capitalismo será idealmente justo e portanto todos têm a chance de ser empreendedores. Primeiro, imaginar que em alguma sociedade capitalista típica “todos tem condições iguais” é uma hipótese bastante questionável; e segundo, o quarto argumento acima se baseia de certa forma no competição e em você ter mais sucesso que outras pessoas. Sim, eu concordo que é possível praticar o capitalismo almejando ser o mais ético possível, e que é possível praticar a concorrência em um mercado de maneira limpa, mas essa discussão inicial não acrescenta nada à tese do livro.

Outro problema do livro é que faltam exemplos práticos. Com exceção de um ou outro relato, Cerbasi não mostra nenhum caso de sucesso de alguém que teve o negócio próprio com sucesso e hoje vive apenas dos rendimentos dele. Para um campo bastante empírico como o das finanças pessoais, fica difícil ignorar essa lacuna nessa obra.

Por esses motivos, tenho dificuldades em recomendar Adeus, aposentadoria sem ressalvas e concordar com tudo que o autor diz. Por outro lado, a leitura é curta (e Cerbasi escreve muito bem) e um ponto em que definitivamente concordo com ele é que deveríamos seguir uma abordagem contínua de desenvolvimento pessoal e profissional. Assim, sugiro que você leia esse livro não como algo que vai mudar sua vida, mas como algo que faz parte de um processo contínuo de educação financeira e que reforça a necessidade de pensar no futuro. Você talvez não concorde que ter um negócio próprio é a melhor saída para parar de trabalhar, e você naturalmente tem o direito de não concordar; mas já pensou em alguma saída? Se acha que o concurso público é a saída, você está totalmente por dentro das regras de aposentadoria e de como elas mudaram. Se acha que a previcêndia privada vai ser suficiente, já fez as contas, descontando taxas, Imposto de Renda e inflação? Assim, mais importante que as ideias do livro, para mim, é ele sugerir que pessoas já no começo da carreira pensem nisso, e que pessoas de idades diferentes devem tomar atitudes muito diferentes em relação a dinheiro e carreira (e o roteiro que ele traça para cada década de vida é um dos pontos altos da obra).

Minha recomendação final? É melhor ler do que não ler. Não é o melhor livro de finanças pessoais, mas você não vai perder nada se dedicar um tempo a ele. Cerbasi entra em mais detalhes do que eu tratei aqui (principalmente destacando os problemas das soluções tradicionais de aposentadoria) e, como falei, faz você pensar um pouco no futuro.

Uma última nota final: não que seja do interesse do leitor, mas eu estudei a língua alemã por muitos anos e ainda hoje procuro regularmente ler notícias nesse idioma. Se por um acaso o leitor desafia todas as probabilidades e também sabe ler em alemão, aqui está um pequeno texto com que me deparei hoje, falando das prováveis dificuldades que os aposentados na Alemanha vão enfrentar no futuro.