Categorias
Resenhas de livros

Flores para Algernon

Como muitas de minhas leituras, começou como um livro disponível para alugar gratuitamente via Prime Reading, atraindo-me pelo título curioso. A premissa era interessante, uma pesquisa na Wikipedia revela que o livro era renomado e tocava no importante tema de saúde mental, e os parágrafos iniciais me mostravam um jeito de usar as palavras de uma maneira que nunca achei ser possível. Este feriadão de Proclamação da República de 2021 me deu a oportunidade de terminar, e proclamar: Flores para Algernon, de Daniel Keyes, é um dos livros mais brilhantes que já li.

Algernon é um nome de um rato de laboratório que passa por uma cirurgia para ficar mais inteligente, e o seu sucesso leva os cientistas a testarem em um ser humano com deficiência mental, Charlie Gordon, de 30 e poucos anos. A cirurgia dá muito certo, e depois dá muito errado.

O parágrafo acima pode parecer um spoiler, mas é meramente dizer o óbvio: alguma coisa em ficção científica tem de sair do controle. Mas mesmo que eu contasse tudo que acontece a leitura vale a pena: a melhor parte do livro não é a história em si, que chega a ficar chata em vários pontos, mas como ela é contada: através de “relatórios de progreso” (sic) que viram “Relatórios de Progresso” à medida que Charlie aprender a escrever. A linguagem infantil e amorosa dá lugar a uma escrita eloquente, científica e sem sentimentos.

O ponto central do livro é que Charlie não se transforma propriamente; no fundo, o Charlie doce e infantil convive com o Charlie inteligente e arrogante. Esse é o mesmo sentimento que eu tive quando enfrentei a depressão: o Fábio deprimido, com pensamentos perturbadores, não era o Fábio verdadeiro, mas uma aberração que tomou conta do seu cérebro, e depois foi embora.

É por isso que eu recomendo fortemente a leitura: para mim, esse é um livro sobre empatia; quando Charlie, ainda escrevendo errado, reclama a um dos pesquisadores que não sente que está melhorando, ele ouve a resposta e transcreve no seu relatório:

Ele disse Charlie você tem de ter confiansa em nós e em você mesmo.

Essa passagem me chamou a atenção pela ordem: você, um pobre coitado, tem de confiar primeiro em nós, e só depois no seu próprio poder.

Flores para Algernon é sobre amar as pessoas quando tudo está bem e quando tudo está um desastre, sobre aceitar os mentalmente doentes como pessoas acima de tudo.

Vamos conversar mais sobre saúde mental?

Categorias
Resenhas de livros

Frankenstein, ou como conhecimento superficial não conta

Frankenstein, ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley, foi o último livro de ficção que li em 2020, e um exemplo de como conhecimento superficial não é bem conhecimento.

O que eu achava que conhecia sobre a obra, baseado em apenas ouvir dizer: um cientista maluco cria um monstro chamado Frankenstein com parafusos na cabeça, grita IT’S ALIVE, e a criatura sai quebrando tudo.

Sobre o que o livro realmente é: o impacto de decisões erradas. Frankenstein é o estudante de filosofia natural (e não a criatura) que se vê no meio de uma briga de ego de dois professores, que resulta numa descoberta “mágica” (melhor dizendo, alquímica) sobre a origem da vida. Ele faz um experimento, fica horrorizado, e tem de lidar com o que acontece depois. É ele quem fica louco de arrependimento.

O ato da criação em si consome muito pouco tempo do livro, o que me leva a questionar a classificação de Frankenstein como “horror” ou “ficção científica”. Para mim, é um drama, cheio de reflexões sobre o sofrimento do protagonista, com toques de fantasia.

O que mais eu não sabia? Que esse é um livro suíço. A geografia da Suíça, com seus lagos, planícies e Alpes são parte importante da relação entre criador e criatura.

E, surpresa, o monstro não tem parafusos na cabeça. Ou pelo menos Mary Shelley não queria nos dar essa imagem vívida. Aliás, ambíguo é um adjetivo apropriado para descrever esse livro.

Por dentro das coisas

Donald Knuth tem uma frase que adoro, difícil de traduzir, mas que basicamente significa que o trabalho dele é conhecer os detalhes profundos de poucas coisas, e não uma visão geral de tudo.

Por uma questão de personalidade, eu também sou assim. Dê-me um livro e um fone de ouvido e me largue por horas e consigo ser feliz. Porém, na minha carreira, diversas vezes sofri pressão para abandonar essa abordagem em favor de um conhecimento mais raso porém mais amplo. Os resultados sempre foram ruins.

Conhecimento superficial não é conhecimento. Nunca há tempo para saber tudo que há para saber, e há que se tomar cuidado para não perder tempo demais pesquisando e de menos fazendo. Porém, acredito que geralmente é possível se organizar e realmente aprender alguma coisa, estudando-a efetivamente, tomando notas. Querer realizar uma tarefa com base em um vídeo rápido do YouTube vai exigir retrabalho depois para cobrir os detalhes que ficaram para trás. Mais valia a pena ter se dedicado a estudar com mais afinco antes.

Esse texto é para lembrar desse lema pessoal: Fábio, você é uma pessoa que gosta de estar on bottom of things. Ler o livro Frankenstein (que, sinceramente, é chato de ler) dá um conhecimento muito superior a ler todos os resumos e artigos na Wikipedia ou ver todas as adaptações.

Próximo passo: ler Drácula e ver o quanto eu realmente sei sobre vampiros

Categorias
Resenhas de livros

O Médico e o Monstro e eu e você

Como parte da minha assinatura Amazon Prime, tenho acesso a alguns ebooks gratuitos todo mês no regime de empréstimo: posso ter 10 títulos na minha biblioteca do Kindle, e se quiser mais tenho de devolver algum. Geralmente são livros ditos “clássicos”, e o fato de que estou lendo mais livros desse tipo meio que já justifica os R$9,90 mensais.

Um dos títulos que li recentemente foi justamente O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Eu não sei o leitor, mas eu não era nenhum um pouco familiar com a história, e na minha cabeça o Monstro da história era algo do tipo um lobisomem, ou um The Hulk: uma criatura gigantesca, incapaz de controlar a raiva, de aparência abominável. Minha grande surpresa é que o monstro do título é um ser humano, apenas… mau.

O livro é muito curto, uma novela, e de leitura fácil. A lição principal, porém, é muito relevante.

Eu já falei aqui de saúde mental, da minha luta contra depressão e ansiedade. Eu estou mais que ciente de que essa luta é para a vida toda. Eu não me sinto mais deprimido, mas a doença só está adormecida, e desponta com sinais conhecidos: pessimismo, senso de tragédia, mau humor. Felizmente, anda controlada. Eu aceito e acolho meu lado deprimido, meu lado que tem pensamentos violentos, o meu lado que diz para não aceitar uma vida que não seja perfeita.

Porque se eu não aceitar o meu lado mau, ele aflora, exatamente como no livro. O médico da história tenta separar as suas personalidades boa e ruim, com resultados catastróficos — o lado mau sempre vai vencer pela trapaça e pela violência. Dr. Jekyll não era Edward Hyde, mas o continha.

O Setembro Amarelo está acabando, mas não existe tempo certo para falar de sanidade mental. Se você tem pensamentos sombrios, são só isso, pensamentos, e não quer dizer que você é sombrio. Se você não consegue ver a diferença, procure ajuda: familiar, terapêutica, médica, espiritual. É literalmente um caso de vida ou morte.

Categorias
Resenhas de livros

Resenha: Os Testamentos

Os Testamentos, de Margaret Atwood, é a continuação de O Conto da Aia (minha resenha). O universo compartilhado entre os dois romances mostram um mundo onde guerras nucleares provocaram uma epidemia de infertilidade nos EUA. Como resposta, um grupo religioso fundamentado no Antigo Testamento toma o poder, funda a República de Gilead e estabelece uma nova sociedade de castas. As mulheres férteis são escravizadas como aias, que devem copular com os seus mestres, os Comandantes da Fé, numa cerimônia com o testemunho das suas Esposas supostamente inférteis — os próprios maridos podem ser biologicamente, mas não legalmente, estéreis.

Os testamentos dos títulos são relatos de três figuras relacionadas ao regime; como era de se esperar, as aventuras das três se une no meio do romance.

Pelo que as opiniões do Goodreads deixam claro, minha opinião não parece ser muito popular, mas aqui vai: Os Testamentos é um romance superior ao seu antecessor. A alternância de personagens torna a leitura mais fluida; O Conto da Aia usa um recurso de se focar em apenas uma personagem (Offred), mas deixa dúvidas se não está se referindo a todas as aias. O romance tem bem mais elementos de ação, ao mesmo tempo que educa o leitor sobre a origem de Gilead (a grande pergunta não respondida do primeiro livro, pelo que Margaret Atwood comentou no prefácio). É uma combinação certeira em um livro de ficção: entretimento simples, ao mesmo tempo em que promove reflexões sobre o feminismo (que a autora não abraça, aliás) e política.

Uma reflexão ainda não tem resposta, porém: qual o propósito de Gilead? Quem de fato se beneficia com o regime? A vida dos líderes (comandantes) parece bem miserável. Não há grandes luxos disponíveis, como carros, bebidas, cigarros; e eles têm de constantemente gerenciar o regime para não sucumbir à resistência e manter as mulheres sob controle. Mesmo o bordel de O Conto da Aia parece bem melancólico. Claro, há comportamentos como o de um dos personagens, que coleciona esposas-crianças; mas mesmo ele tem de disfarçar as suas preferências, e sendo assim o que diferencia de um pedófilo no mundo atual?

O mais perturbador do universo de Gilead é que ele não é absurdo. A classe de políticos estilo Bolsonaro-Trump certamente adoraria um mundo onde não existisse qualquer resquício de participação feminina na política, e onde elas pudesse ser avaliadas livremente pelo potencial sexual; nosso presidente até se envolveu em uma discussão online e no Facebook dizendo que as críticas do presidente Macron da França contra o desmatamento da Amazônia são porque a sua mulher é muito feia. Por outro lado, o livro mostra mais um exemplo de como a Segunda Lei da Termodinâmica é cruel: sistemas onde a ordem é imposta artificialmente requerem muito trabalho para serem mantidos, e estão fadados a voltarem a um estado mais natural.

Tudo bem se eu encerrar esse texto dizendo que a esperança, afinal, vem da Termodinâmica?

Categorias
Resenhas de livros

Resenha: Fogo & Sangue Volume 1

Quando eu e minha esposa estávamos para nos casar, amigas dela fizeram aquela brincadeira de perguntar meus favoritos: livro, banda, filme etc, e ver se ela acertava. Minha banda favorita é fácil: qualquer um que me conhece um pouco mais profundamente sabe o quanto eu gosto dos Beatles. Saber o meu livro favorito exige um pouco mais de intimidade, de tantos livros que eu leio, mas minha esposa acertou em cheio: meu livro favotiro são As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

Eu não sou o nerd típico no sentido de nunca ter sido muito fã de fantasia. Não jogava RPG e muitos dos livros do gênero me soam cansativos — ainda nem terminei de ler O Senhor dos Anéis. E na primeira vez que li A Guerra dos Tronos, o primeiro livro da série, também me senti cansado. Meses depois, persisti e tentei ler mais uma vez, com um pouco mais de paciência e esforço, e daí não parei mais. Acho que o que me encanta mais não é o aspecto fantasioso, que nem é tão abundante assim, mas o aspecto histórico e político. Aí sim fui o CDF típico, de adorar histórias medievais, jogar Age of Empires e Civilization. Lembro-me do meu espanto quando, adolescente, dei-me conta de que ainda existem reis e monarquias no mundo. Para ser bem sincero, acho as monarquias europeias muito mais fascinante que as repúblicas. Os aspectos políticos do mundo em geral me interessam; quando pensei em ser jornalista, flertei com a ideia de ser jornalista político e fazer análises precisas, e ainda hoje é o que mais me interessa nos jornais.

De uma certa maneira, As Crônicas de Gelo e Fogo arruinaram a minha leitura. Perto da sua complexidade, outros livros parecem bobos, sem intrigas inteligentes, sem personagens de cujas intenções não se sabem. Eu leio muitos romances históricos, e nesse tipo de livro, quando aparece uma donzela, filha de cavaleiro ou nobre, eu já sei o que vem por aí: ela quer se casar com um camponês, mas precisa se casar com o visconde; ela é virgem e ele frequenta prostíbulos; ela quer estudar mas o mundo é dos homens. Ainda que o mundo devesse ser assim, custo a crer que na sua intimidade elas eram tão unidimensionais. Nas Crônicas, por outro lado, você têm Sansa, que começa como uma donzela sonhadora mas logo começa a participar das conspirações (ainda que sempre assustada).

Este Fogo & Sangue: Volume 1 é um prólogo à série — e, desconfio fortemente, uma distração para o autor para não continuar nos próximos livros sequenciais. Martin se coloca na pele de um arquimeistre (para os completamente leigos: um erudito) para contar a primeira metade da história da Dinastia Targaryen, como se fosse um historiador pesquisando e relatando o que aconteceu séculos antes. E é aí que me causa o primeiro espanto: Martin está no mesmo universo de todos os seus outros livros da série, mas consegue inventar outra voz completamente diferente, como se de fato não fosse a mesma pessoa que escreveu As Crônicas e este livro. Como acadêmico, também me identifico com o pretenso estilo científico, de “citar” várias fontes, como se fosse um tratado mesmo: “este autor fala disso, mas não podemos confiar; este outro diz isso, e estava presente nesses acontecimentos”.

Para qualquer fã, este livro vai apresentar claramente episódios que são mencionados em fragmentos ao longo da série, especialmente toda a conquista de Aegon no começo. Também tem detalhes sobre os Baratheon que ajudam a entender como Westeros aceitou Robert tão facillmente como rei após a queda de Aerys II.

O que esse livro não responde é o que mais me intriga e incomoda: como é possível haver tanto incesto em uma família sem consequências biológicas e sociais. Será o mundo retratado na série tão diferente da vida real. Será que “os Targaryen não ficam doentes” (o que se torna um ponto importante de discussão no meio do livro)? Jaehaerys I, por exemplo, era justo, sábio, bravo, conciliador — mas teve mais de 10 filhos com a irmãzinha. Só eu fico incomodado com isso?

Questiono algumas escolhas narrativas: na cronologia da dinastia, duas crianças assumem o trono em seguida, com os mesmos problemas, e os mesmos acontecimentos (regentes ambiciosos, meninos querendo ser adulto etc). Acho que essa repetição só torna o livro mais cansativo e não acrescenta nenhuma discussão nova. Também tenho dificuldade em seguir tantos nomes parecidos: Daemons e Daerons, Rhaenys e Rhaenyras.

Mas Fogo e Sangue: Volume 1 é um livro de leitura fácil e deliciosa, que permite mergulhar num mundo fascinante que na verdade nos ajuda a entender o nosso mundo. Algumas pandemias aparecem na história, e o que se faz é trancar os castelos, ninguém entra e ninguém sai, os doentes são tratados, todo os portos e mercados são fechados, até o que o problema acabe. Estranho, não?

Categorias
Resenhas de livros

Resenha: O Método Bullet Journal

Fiquei sabendo de O Método Bullet Journal pela Newsletter de BulletJournal.com, mas eu fiquei realmente empolgado por O Método Bullet Journal depois da Thais Godinho ter chamado de “o livro do ano”.

Eu não sei se concordo com esse superlativo, mas é realmente muito bom. No site oficial do método, grande parte conteúdo se apresenta em alguns artigos e em um vídeo de poucos minutos, o que causa uma impressão de superficialidade. O livro, ao contrário, se aprofunda em muitos tópicos: criatividade, planejamento, reflexão, hábitos. Tudo a ver com meus interesses.

Para os completos alheios, o método Bullet Journal consiste em usar apenas um caderno para organizar toda a sua vida. Com alguns “marcadores” especiais (para tarefas, compromissos, notas, coisas urgentes), e alguns templates de páginas, você cria um registro de tudo que tem para fazer em um dia/semana/mês/ano.

Para mim, o livro fez parte de um período meio dedicado a criatividade, e considero ele parte de um conjunto com os livros do Austin Kleon. O Método BulletJournal me ensinou como juntar informações mistas, provenientes de meu app de gerenciamento de tarefas, de meu calendário, ideias da minha cabeça etc, em um único lugar: uma página de um caderno, que levo sempre comigo. Se algo aparece à minha frente, eu anoto no meu Bullet Journal. Anotações de reunião vão para o Bullet Journal. Problemas que vou encontrando enquanto trabalho em um projeto Python… Você já sabe. O papel aceita tudo. Periodicamente, reviso essas anotações e organizo de maneira mais apropriada.

Se você quer melhorar a sua organização, a sua escrita ou ambos, ou se já usa um caderno/diário/agenda de papel e quer ter mais estrutura, recomendo fortemente a leitura.

Categorias
Resenhas de livros

Breves comentários literários sobre “O Conto da Aia” (por quem não entende nada de literatura)

Minha motivação para ler O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi uma combinação de coisas: fotos de gente lendo o livro no Instagram, comentários sobre a série da Amazon Prime baseada no livro pipocando pelas internetes, e uma grande promoção da Amazon.

Mesmo com essa motivação meramente circunstancial, não é difícil mergulhar completamente no universo de *O Conto… * — o que aliás é um dos grandes sinais de um bom livro de ficção. E falando sobre o universo, devo admitir que, como aparentemente a maioria da população hoje em dia, tenho um franco por universos distópicos e pós-apocalípticos; mas não vamos perder de vista que esse livro é um produto da década de 80.

A sinopse em um parágrafo: após guerras nucleares, a infertilidade contaminou a maioria da população norte-americana. Um grupo fundamentalista cristão se apoia nisso e instala uma ditadura onde as mulheres férteis, por serem raras, tornam-se propriedades do governo na forma de aias a serem alocadas a líderes cujas esposas são inférteis (pelo menos oficialmente, já que nesse regime não se admite que homens podem ser estéreis). A história é um relato de um dessas aias, de como ela chegou até ali e de como funciona a vida nesse país.

Como ler e escrever é proibido, os relatos são confusos (e no final o leitor entende por quê), o que dá margem ao meu primeiro comentário: esse não é um livro fácil. Sem querer parecer exagerado, o estilo me lembra um pouco Saramago, onde os pensamentos e as ações dos personagens se confundem. O quanto aquilo que está escrito de fato aconteceu? Essa pergunta se torna crítica no Epílogo.

A história é interessante, o estilo de escrita é intrigante… Mas à medida que eu lia, a mesma sensação tomava conta de mim: eu não sou o público alvo desse livro. Como homem decididamente feminista, liberal do século XXI e que não consegue simplesmente compreender a escalada de feminicídio no Brasil de 2019, algumas passagens do livro de escravização das mulheres soam absurdas demais, enquanto os pensamentos libertadores da Aia soam óbvios demais.

Ou será que eu que sou ingênuo demais?

Categorias
Resenhas de livros

Resenha: Show Your Work

Eu fiquei sabendo de Show Your Work, de Austin Kleon, através de um mísero link em post de Mike Vardy (cujo link exato não consigo mais encontrar). Na época, acho que estava começando com esse blog, começando também a ler muito sobre produtividade e tecnologia (o que me levou a conhecer Vardy), e fiquei intrigado com o simples título desse livro. A partir daí, comecei a mergulhar cada vez mais na obra desse escritor americano.

Confesso que, da primeira vez que li, não deu muito atenção. Mas, quando comecei a dar mais atenção à minha criatividade como tratamento contra ansiedade e depressão, Show your work se tornou um de meus livros favoritos sobre criatividade.

Kleon consegue motivar todo mundo a achar uma “arte” em seu trabalho e então em maneiras de compartilhá-la com o mundo. Não de maneira mirabolante, mas básica: separar uns minutos por dia, criar um blog, usar o Instagram para mostrar dicas do seu trabalho e não o seu almoço. Caso o leitor não tenha reparado, eu venho usando cada vez as dicas desse livro aqui neste blog, mostrando os bastidores do meu trabalho e cotidiano, expondo meus livros/apps/sites favoritos, conectando ideias aparentemente distintas.

A internet está cheia de coisas ruins. Vamos enchê-la de coisas boas, falando de nosso trabalho e nossos assuntos favoritos. Show your work é um bom guia para começarmos.

Categorias
Resenhas de livros

Resenha: Roube como um artista

O objetivo principal de Austin Kleon em Roube como um artista é dar dicas de como ter mais ideias (boas). Os seus principais argumentos são baseados na sua experiência como escritor e no contato que ele tem com outros artistas, seja ao vivo ou por meio de obras diversas.

O ponto central do livro é o imperativo presente no título: para ter mais ideias, é preciso estar exposto a elas, capturá-las, e então produzir algo novo. Kleon cita diversos músicos, pintores e escritores que usam dessa analogia do roubo, da cópia modificada. Para isso, é bom ter algumas ferramentas, como um bom diário, um caderno onde você possa anotar coisas que lhe chamaram a atenção, ou qualquer forma de manter um registro. Se você for escultor, tire fotos e mantenha um álbum com suas obras preferidas. Para um caso mais “cotidiano” de um engenheiro de simulação, guarde artigos interessantes no Evernote, por exemplo.

O “roubo”, nesse contexto, se diferencia de um plágio por abraçar as influências, dando crédito a elas e melhorando. Não é difícil perceber que J.K. Rowling usou de muitas fontes sobre fantasia e mitologia, mas adapatou a um mundo de bruxos bons e em um universo infanto-juvenil. Quem escuta Oasis não demora a notar semelhanças com os Beatles, mas como se as suas músicas fossem adaptadas para os anos 90.

Cerque-se do que roubas. Abrace suas influências. Aprofunde-se no seu autor favorito. Não tente criar o seu jeito; deixe ele crescer organicamente, à medida que você se torna mais consciente das coisas que você lê/escuta/ouve/estuda. E não tenha medo de não ser original:

“Tudo que precisa ser dito já foi dito. Mas, já que ninguém estava ouvindo, é preciso dizer outra vez.” – André Gide, escritor francês

Com base nesse ciclo “Expôr-se, capturar, adaptar”, Kleon sugere mais algumas dicas básicas:

  • Trabalhe mais com meios analógicos. Nesses tempos digitais, esquecemos de estimular o tato e as sensações diferentes que temos quando lidamos com o mundo fora do computador. Vale a pena ter um ambiente livre de telas para simplesmente rabiscar ideias em papel (até usando o seu caderno acima), ler um livro, recortar figuras ou fotos e montar um mural etc. No mesmo sentido, é importante ter hobbies diferente do seu trabalho, para estimular o seu cérebro.
  • Saia mais de casa. Isso vale tanto para coisas modestas como ir trabalhar num café; quanto para sonhos de vida como ir morar fora do país ou se mudar de cidade. Essa mudança de ambientes e de conforto pode ativar novas ideias que você nunca teria percebido.
  • Use a vida diária como estímulo criativo. Escreva sobre um filme que lhe comoveu; reclame no seu diário sobre algo com que você ficou indignado; cozinhe uma refeição como uma versão melhorada do que você comeu de ruim.

Pessoalmente, entendo que, ao ser mais criativo, você produz trabalho de mais qualidade, impacto e significado — qualquer trabalho. Assim, fico feliz em recomendar a leitura desse livro, mesmo com alguns poucos defeitos; o que mais me frustra é a falta de referências a estudos que provem os argumentos dele (mas também talvez seja a minha mente de pesquisador) — talvez eu deva roubar as ideias de Kleon e adicionar rigor científico, não acham?.

Categorias
Resenhas de livros

Resenha: Deep Work

No seu livro anterior, So Good They Can’t Ignore You (que já resenhei), Cal Newport defende que a satisfação profissional é derivada não do clássico “fazer o que se ama”, mas de três características básicas: criatividade, autonomia e impacto. Se você conseguir um trabalho onde consiga exercer essas três coisas, provavelmente conseguirá ser feliz no trabalho. Mas empregos que ofereçam essas vantagens são raros, e então você precisa se tornar raro e valioso; o chefe só vai lhe permitir ter horários flexíveis (um indicativo de controle) se ele tiver certeza de que você consegue cumprir suas tarefas. Newport usa o termo capital de carreira: você acumula habilidades que o tornam “tão bom que eles não possam ignorá-lo”, e as troca pelas condições de trabalho que deseja.

Embora em So Good Newport aborde maneiras de você acumular capital de carreira, o seu mais recente livro, Deep Work: Rules for Focused Success in a Distracted World é uma continuação natural do anterior, no sentido em que mostra mais maneiras de como desenvolver as habilidades profissionais necessárias. A pergunta a ser respondida é: o que você precisa fazer no seu dia-a-dia de trabalho para crescer profissionalmente, tornar-se realmente bom no que faz, ter o sucesso do subtítulo?

A resposta: trabalho — mas não qualquer tipo de trabalho. Se você quer se tornar raro e valioso, precisa aprender a trabalhar profundamente.


O cerne teórico básico de Deep Work é que parece haver uma grandeza na nossa mente, uma forma de energia mental ligada à atenção e à concentração, que é um recurso finito mas recarregável. Newport cita estudos que mostram que é impossível para alguém se manter num estado de concentração máxima o dia todo, pois o cérebro cansa. Não é surpreendente o fato de que, após uma sessão de estudo muito intenso, queiramos fazer algo mais leve, como ver vídeos no YouTube. Isso faz com que seja necessário sermos seletivos com aquilo em pomos a nossa atenção; mesmo uma atividade mundana como mandar emails consome um pouco dessa energia, e reduz a nossa capacidade de concentração quando vamos fazer algo importante depois.

Como o leitor ou leitora costuma trabalhar? Quando o leitor senta no computador (assumindo um trabalho “do conhecimento” típico), consegue se concentrar realmente na tarefa em mãos, ou mantém um olho no documento na sua frente, outro no aba do Facebook no navegador e os ouvidos atentos aos apitos do WhatsApp? Por causa do efeito citado no parágrafo anterior, na segunda situação a sua capacidade cognitiva está sendo dividida entre o seu trabalho, realmente importante, e as outras distrações. Corolário: se você dedicasse essa mesma concentração total apenas à sua tarefa principal, esta receberia mais atenção, e provavelmente seria melhor executada.

Ao enfatizar este ponto ao longo do livro, Cal Newport se diferencia de muitos autores de produtividade que propagandeiam toda sorte de hacks, aplicativos e sistemas complexos. Essas coisas são marginais se você não consegue desenvolver o trabalho profundo do título: dedicar-se a alguma atividade complexa, por horas a fio, num ambiente sem distrações, em alguma atividade que gere valor (e lhe permita desenvolver o seu capital de carreira). O oposto do trabalho profundo é o trabalho raso: aquele tipo de trabalho logístico, muitas vezes obrigatório para se manter o emprego, que não requer muita atenção mas que também não gera nada de muito importante. Coisas como responder emails, participar de reuniões sem sentido, preencher formulários, atualizar planilhas.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, o autor oferece uma motivação. Conta casos de pessoas famosas como Carl Jung, Richard Feynman e Bill Gates, e também anônimos, para mostrar que pessoas de sucesso tem uma característica em comum: elas não se importam em se isolar do mundo e atacar uma atividade intelectual realmente difícil quando necessário. Também mostra por que esse tipo de comportamento é raro; é difícil combater a impressão de que se você passou a tarde respondendo a emails foi bastante produtivo, enquanto que se passou dois dias estudando um artigo muito difícil, mas não tem nada para mostrar, você perdeu tempo. Além disso, Newport argumenta (com certa razão) que a economia desse início de século XXI é um tecnopólio, onde tudo que é tecnológico é bom e tudo que é analógico é ruim, onde somos ensinados pela propaganda a “nos conectar” e fazer check-in a cada vez que vamos na padaria.

Na segunda parte do livro, vemos quatro regras para imergir no trabalho profundo — a propósito, bem como em So Good…, Newport não faz questão nenhuma de esconder que ele é um professor universitário e cunha regras, leis, hipóteses. Estas regras derivam da finitude da energia mental que mencionei antes. Por exemplo, uma das dicas é formar rituais de trabalho profundo, como definir um local e horário para você trabalhar profundamente; o autor dá um exemplo de um doutorando que começou a trabalhar enquanto terminava a sua pesquisa, e que começou a acordar mais cedo para trabalhar na tese como primeira atividade do dia, antes da agitação do trabalho. Quando forma esses hábitos, não gasta a sua força de vontade (que também é uma reserva mental limitada no dia) tomando decisões de quando e onde trabalhar, e tem mais concentração disponível para trabalhar.

O lado mais “controverso” do livro certamente é sua crítica às redes sociais. Newport argumenta que, para você aprender a se concentrar profundamente, precisa treinar o cérebro a perder o vício em distrações, tanto que um dos capítulos é chamado Abrace o tédio (Embrace boredom). Se, ao chegar em casa, você passar todo o seu tempo ficando com raiva dos textões no Facebook, vai deixar de recarregar a sua capacidade de concentração. A analogia é da atenção como um músculo que precisa ser exercitado, então quanto menos você tirar o celular do bolso a cada minuto ocioso, mais vai aprender a manter o foco em uma só coisa, como necessário durante uma sessão de trabalho.

Para uma ideia tão simples como “aprender a se concentrar”, Deep Work foi um livro muito mais difícil de ler que pensei. Um dos seus poucos problemas é a densidade não-uniforme de explicações. Quando o autor fala das vantagens “filosóficas” do trabalho profundo, Newport usa apenas de dois livros como base, e a explicação parece um pouco forçada; efeito semelhante aparece quando o autor tenta aplicar as Disciplinas de Execução no trabalho profundo, numa seção que poderia ter sido cortada de tão superficial. Por outro lado, em algumas seções Newport tenta trazer mais profundidade que o necessário, como quando ele estabelece técnicas para abandonar as redes sociais.

Antes de ler o livro, eu já me considerava uma pessoa que consegue se concentrar profundamente, mas o livro me ensinou a perceber muitas nuances, principalmente à sua ênfase em experimentar o tédio e deixar o cérebro divagar livremente (como exemplo pessoal, parei de escutar podcasts a cada momento livre para começar a “meditar produtivamente”, como Newport ensina). Acho que todo trabalhador do conhecimento pode aprender muita coisa com Deep Work — aprender a trabalhar melhor e a gerar mais valor.