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Coisas que aprendi com o mestrado – a sua profissão não é o bastante

Em março de 2012 eu recebi o grau de Engenheiro, habilitação Mecânica, depois de cumprir todos os requisitos necessários. Cumpri os créditos necessários, começando com os alicerces de Cálculo, Álgebra Linear, Desenho, Física e Programação e avançando para coisas mais específicas: Termodinâmica, Mecânica dos Sólidos, Usinagem, Moldagem de Polímeros, Mecânica dos Fluidos, Soldagem, Teoria de Projeto, Mecanismos, Elementos de Máquinas. Fiz um projeto pequeno de pesquisa e publiquei um TCC. Fui para a Alemanha fazer estágio em um instituto de pesquisa, onde trabalhei com pesquisadores e engenheiros para criar um programa que auxiliasse no projeto de refrigeradores.

A questão é, todo engenheiro mecânico formado numa Universidade boa tem essa formação. Como sempre fiquei do lado da pesquisa, eu nunca trabalhei profissionalmente como engenheiro, mas acho que seria um bom profissional. Porém, nada disso do que falei me distingue de outros.

Nos dois anos em que fiz mestrado, convivi com muitos engenheiros, alguns colegas meus da época de graduação, outros de outras regiões. E percebi que se destaca quem é bom em outra coisa além da sua formação, e isso é uma das coisas que aprendi com o mestrado.


Não estou nem entrando no mérito de que você não é o seu trabalho e você precisa ter um hobby. A questão é, mesmo dentro do contexto de seu trabalho, acho que é fundamental ter habilidades fora da sua profissão.

Na minha dissertação, uma parte importante era visualizar o fenômeno (especificamente, a formação de espuma em misturas de óleo lubrificante — o que vai dentro de motores e compressores — e fluido refrigerante — aquilo que circula dentro da geladeira), o que envolve fotografia e filmagem. Fotografar um processo rápido como uma bolha se formando em uma mistura turva, dentro de um recipiente altamente reflexivo como vidro, envolve mais habilidades que as fotos #nofilter dos seus amigos no Instagram, com muitos detalhes de foco, iluminação, controle, e eu sabia exatamente a quem pedir ajuda (obrigado, Daniel!). Se eu precisava de ajuda sobre o programa que usávamos para ler dados, tinha a pessoa certa em mente (obrigado, Dalton!), para a pergunta certa. Se queria saber mais detalhes sobre um medidor em particular, geralmente existe alguém no laboratório que sabe tudo sobre esse determinado equipamento (geralmente o meu amigo Moisés). Se tinha um dúvida cruel de MATLAB, tinha geralmente alguém (obrigado, Pedro!) que poderia me responder a pergunta.

(Quanto a mim, sem falsa modéstia geralmente sou reconhecido como “o cara do LaTeX”, um posto de que humilde e secretamente me orgulho).

Nada disso é “engenharia mecânica” em si; nós não temos aulas de fotografia ou de técnicas avançadas de programação, mas quem dedica seu tempo a dominar uma dessas atividades geralmente tem bons resultados. Um engenheiro que saiba muito de fotografia sempre vai conseguir ilustrar brilhantemente o seu trabalho, e engenheiros adoram visualizar coisas. Um engenheiro que seja excelente em programação geralmente vai se sair bem na criação de códigos de simulação, e pode então se concentrar em outras partes difíceis do seu projeto. Quanto a mim, admito que perco talvez até tempo demais pesquisando sobre LaTeX, mas é um pequeno hobby intelectual que ajuda muito na fundamental parte de reportar os resultados — meu mestrado teve muitos momentos difíceis, mas escrever e produzir a dissertação final não foi uma delas, pois eu já dominava a técnica.

Se você não confia no que eu digo, por achar minha experiência limitada, saiba que até um professor de computação e Steve Martin concordam comigo.


Um dos maiores benefícios que o mestrado me trouxe é aquela velha história de “abrir a cabeça”. Uma antiga colega reclamava de que as coisas num laboratório de pesquisa andavam muito devagar, ao que um amigo (e hoje professor de universidade federal) respondeu que “aqui a gente para e pensa”. E de fato, quando você se dá um tempo para parar e refletir sobre um problema, percebe que existe muito por trás, muita coisa esperando para ser aprendida. E lá pode estar uma habilidade que você não sabia que tinha e que pode ser o seu diferencial.

Mesmo que você não tenha a rotina de um estudante de pós-graduação ou pesquisador, pode identificar algo no seu trabalho que pode o distinguir de outros. Os benefícios são duplos: você será reconhecido, e achará algo dentro do seu universo de tarefas chatas a fazer que realmente lhe traz satisfação intelectual.

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Coisas que aprendi com o mestrado: na graduação não há tempo para pensar

Esta é uma série sobre o que eu aprendi com o mestrado.


Não que quem leia este blog não saiba, mas no Ensino Médio eu era parte de uma daquelas tribos esquisitas que gostava mais de Física que de Educação Física. Tinha gente bem pior que eu, claro, que adorava discutir a origem do universo ou as implicações da mecânica quântica, mas eu realmente queria entender o máximo possível por achar tudo aquilo fascinante. E uma das minhas maiores frustações intelectuais foi sair da escola sem ter entendido aquele negócio chamado de quantidade de movimento.

O leitor talvez lembre das aulas do Ensino Médio (se já o concluiu), dizendo que a quantidade de movimento de uma partícula era o produto da sua massa pela sua velocidade. Mas e daí? O que é isso?

Talvez seja mais provável que o leitor lembre da famosa Segunda Lei de Newton, que diz que a força resultante sobre uma partícula é o produto da sua massa pela sua aceleração. Esta é a equação básica da Mecânica e uma das Equações Fundamentais da Engenharia Mecânica (nome pomposo meu). Este é um conceito mais fácil de entender: existe uma coisa, um tipo de ação, chamado força, que faz um objeto mudar de velocidade; objetos de maior massa (maior inércia) aceleram menos.

Voltemos à quantidade de movimento. Quando entrei na faculdade, achei que ia entender melhor esse conceito, mas as disciplinas das primeiras fases lidam com situações muito simples, assumindo que tudo é uma partícula. De repente, você começa a saltar para disciplinas mais sofisticadas, como Mecânica dos Fluidos e Dinâmica, e está usando a quantidade de movimento a todo instante sem nem saber direito o que é. Novamente, frustrei-me ao me formar sem saber o que era isso.

Depois, quando fiz as disciplinas do mestrado, veio a luz.


Uma situação muito interessante e fácil de visualizar é uma roda d’água.

Enchanting Waterwheel

(Foto do Peter Kurdulija no Flickr.)

A água vem por um cano, entra em contato com a roda, que passa a girar; ao mesmo tempo, a água segue uma determinada trajetória, numa determinada velocidade. Todos podemos concordar que a roda faz força sobre a água, o que nos estimula a aplicar a Segunda Lei de Newton. Mas qual é a “massa” da água? A roda faz força sobre uma porção de água, mas essa porção não é um corpo rígido; parte da água que bate na roda vai seguir por um caminho, parte por outro. Num instante seguinte, a água que estava em contato não está mais, dando lugar a outra quantidade de água. Como definir uma partícula para a qual aplicamos a Segunda Lei? Se escolhemos uma gota de água, de massa fixa, até poderíamos aplicar esse modelo, mas a força que age sobre ela seria altamente dinâmica (existe a força da pressão atmosférica, a força da pressão da própria água etc).

É muito mais fácil analisarmos este problema de outra forma. Imagine o escoamento da água como um todo. Diferentes locais vão exibir diferentes velocidades. A força da roda age sobre um ponto; este ponto por sua vez faz força sobre outro ponto, que age sobre outro ponto e assim por diante. A água que é acelerada pela ação da força “empurra” outra região da água.

A essa informação sobre forças que é transmitida ao longo de um escoamento é dado o nome de quantidade de movimento. O problema da roda d’água é um problema de transferência de quantidade de movimento, que é uma forma mais generalizada da Segunda Lei de Newton. O produto da massa pela velocidade é apenas uma forma matemática de expressar esse conceito, e não é o conceito em si.


Eu só pude aprender esse tipo de coisa no mestrado porque eu tive tempo para pensar. Na faculdade, fazendo mais de 20 créditos por semestre, com todos os prazos de provas e trabalhos, e mais um emprego, estágio, iniciação científica etc, é impossível pensar, e isso é uma das coisas que aprendi com o mestrado.

Não sou pedagogo, nem filósofo, nem especialista em políticas públicas. Também não quero me gabar, dizendo que sou muito mais inteligente só porque fiz mestrado (inteligência é algo muito relativo). Quero apenas dizer, como alguém que saiu da graduação e continuou os estudos, que ali se aprende o básico do básico, e que é importante todos terem isso em conta. Não é possível ter uma formação abrangente em apenas cinco anos, e o preço a pagar é essa falta de tempo para ter discussões do mestrado.

Claro, aprofundar-se é um objetivos de se fazer pós-graduação. Com o mestrado, aprendi o quanto me faltam alguns conceitos básicos, e sei que quando terminar o doutorado ainda vai haver muito a aprender.

Acreditem, só sei que nada sei não é apenas um clichê.

Coisas que aprendi com o mestrado

No dia 30 de junho de 2014 eu defendi a minha dissertação de mestrado, intitulada Análise experimental e teórica da formação de espuma em misturas óleo-refrigerante, fui aprovado e, após fazer as correções necessárias, recebi o título de Mestre em Engenharia Mecânica.

Esses dois anos e meio foram o maior projeto individual em que me envolvi. Sim, uma graduação demora muito mais, mas o mestrado é um projeto meu. Eu estudei, fiz o projeto dos equipamentos e da bancada de testes, desenvolvi programas de computador para fazer cálculos e realizar medições, planejei e conduzi experimentos. Claro, tive muita ajuda, sem a qual não seria possível fazer este trabalho — mas ainda assim é o meu trabalho.

Pensei em desistir várias vezes no meio do caminho, como depois de ver minha bancada (de vidro) estourar em alta pressão algumas vezes, ou cansado da burocracia para comprar equipamentos, ou desanimado com a falta de interesse de muitas pessoas em ajudar (que teoricamente são contratadas para isso), ou inconformado com as particularidades de se estudar em uma universidade pública. O momento de revelação foi quando percebi o quanto estava sendo ingênuo: sempre há do que reclamar. Amigos meus que trabalham em diversas repartições públcas reclamam dos conchavos políticos ou dos cabides de emprego; os que trabalham na iniciativa privada relatam intrigas entre colegas, demandas de horários absurdas, alienação dos chefes (quando só querem saber de resultados) aos problemas dos funcionários.

Problemas existem em todo canto. Quando assumi isso, e comecei a dar muito mais ênfase às coisas boas do mestrado, tudo mudou. O que estou fazendo é simplesmente construir a ciência. Eu, o garoto que sempre gostou de ciência, que sempre pareceu entender a Física e a Matemática quando todos os outros só viam sentido em Educação Física, de repente estava participando ativamente disso — e mais, eu podia fazer disso uma carreira. Eu podia ser, no futuro, uma dessas pessoas cujos nomes aparecem em livros de Engenharia e são conhecidas por milhões de estudantes em todo o mundo. Eu aceitei que eu jamais poderia ser feliz num emprego de escritório, burocrático; como já escrevi, o meu mundo é de quadro-negros e bancadas. Eu nasci para ser cientista e ser professor, e quero ser o maior especialista na minha área no mundo.

Ao longo das próximas semanas, vou publicar aqui em FabioFortkamp.com uma série de posts com algumas reflexões sobre esse período. Meu objetivo principal é ajudar quem por acaso queira seguir essa carreira, mas não nego que esta é uma ótima oportunidade para mim mesmo de fazer um balanço e aprender com os erros.

E antes que alguém pergunte, é claro que já comecei o doutorado.

Afinal, mestrado é trabalho ou estudo?

Boa pergunta, pequeno padawan.

É trabalho?

Vamos começar com a visão mais controversa e a que os estudantes de
mestrado mais adoram, a de que “fazer mestrado” é trabalhar. Quando
estamos saindo de casa para ir à universidade, dizemos “estou indo
trabalhar”, por exemplo. E assumimos nosso pior humor quando alguém diz
o clássico “cansado de quê, se você não trabalha?”.

Não é de todo absurdo considerar o mestrado uma forma de emprego.
Algumas das minhas atividades do mestrado são:

  • Contactar fornecedores, pedindo orçamentos de equipamentos
  • Escrever relatórios
  • Desenvolver programas de computador
  • Prestar contas a órgãos competentes
  • Projetar bancadas
  • Monitorar testes

Se alguém viesse me dizer suas responsabilidades num emprego tal
seriam essas, eu acharia bem normal.

Mas se é trabalho, então:

  • Por que não temos direiros trabalhistas básicos como férias e décimo
    terceiro?
  • Por que, se no contrato de bolsa não é estipulado nenhum horário,
    não podemos ter remuneração extra (ninguém pode, por exemplo,
    receber a bolsa para “trabalhar” no mestrado durante o dia e ter um
    emprego não relacionado à área de formação à noite – se tem salário,
    não pode receber bolsa)
  • Por que não existe qualquer resquício de gerência de recursos
    humanos nos grupos de pesquisa?
  • Por que alguns colegas se recusam a trabalhar e nada pode ser feito
    a respeito disso?
  • Por que os órgãos de fomento deixam claro que estão fazendo um favor
    em pagar a bolsa?

Ah, então é estudo!

Eu particularmente concordo com essa linha de pensamento. Para todos os
efeitos legais, eu estou desempregado. Tenho um diploma de engenheiro,
quero ter um outro diploma, então eu me dedico a desenvolver um projeto
de esquisa; o governo e as fundações, em troca, pagam-me uma bolsa
justamente para que eu não precise de um emprego. Somos completamente
isentos de imposto de renda e, em contrapartida, completamente isentos
de direitos.

Ah, também pagamos meia-entrada no cinema e no ônibus.

Mas, se fazer mestrado é estudar, então:

  • Por que a maioria dos programas de educação do governo só contemplam
    alunos de graduação? Pós-graduação não é educação?
  • Por que de vez em quando recebo emails dizendo “os alunos são
    obrigados…” – o que é isso, é uma empresa?
  • Por que tem gente que fica fiscalizando meus horários? Eu tenho
    prazos definidos pelo meu orientador, e tenho que cumprir as tarefas
    entre eles, mas a maneira como eu distribuo meu tempo não é da conta
    de ninguém. Se eu quiser voltar para casa um dia no meio da tarde,
    eu deveria ter total liberdade, desde que eu entregue os resultados
    no tempo certo. Se eu quiser tirar um dia para ir à praia, eu
    deveria ter total liberdade, desde que eu entregue os resultados no
    tempo certo.

Ninguém sabe o que é

Fazer mestrado tem as suas facilidades e os seus problemas, e não quero
fazer desse texto um desabado. Quero apenas chamar a atenção para essa
indefinição que angustia a minha cabeça e, acho, a de muitos colegas.
Percebi que pós-graduação é um tema olhado com muita desconfiança no
Brasil.

Não se trata de dinheiro, já que uma bolsa de mestrado é maior que o
salário de muitos amigos meus. Não se trata de respeito, já que
felizmente estou rodeado de pessoas que me apoiam. É uma questão de
escolha. Quando saem da faculdade, uns vão estudar para concursos,
outros vão procurar emprego, outros vão viajar e pensar na vida, e
outros vão continuar estudando. Vamos parar com essa diferenciação?

Resenha: Como Ler Livros

Eu me considero alguém que lê bastante. Só nesse ano, já li 11 livros, o
que é mais que muitas pessoas lêem num ano inteiro. Já devo ter deixado
claro aqui que ler é uma paixão profunda minha.

Porém, admito que não sou um bom leitor. Às vezes, fico tão ansioso
para terminar o livro que acabo correndo para terminar logo e começar
outro. Não raramente fica a impressão de não ter ficado nada gravado na
cabeça. E isso é desesperador; é uma sensação de tempo perdido.

Depois de ler Como Ler Livros, de Mortimer Adler e Charles Van
Doren, é possível entender por quê. Ler é uma atividade complexa que
exige técnicas. Ler um livro é muito mais que virar páginas e ouvir
uma voz recitando as palavras.

A ideia da obra é bastante direta. É possível ler de diversas maneiras,
mas quando se quer realmente entender um livro é preciso ler da maneira
certa. É o que os autores chamam de “níveis de leitura”.

O primeiro nível é o da leitura elementar. É a simples decodificação
da linguagem, acompanhada da interpretação mais básica. É ler letra após
letra, palavra após palavra, parágrafo após parágrafo. É ler algo como
“as gaivotas voavam sobre o mar azul” e ser capaz de realmente
visualizar gaivotas voando, imaginar um mar azul (talvez uma praia que o
leitor já tenha frequentado) e juntar as duas coisas. É aqui que acaba a
leitura ensinada nas escolas e é aqui que a maioria das pessoas para.

O segundo nível é a leitura é o da leitura inspecional. Ela tenta ver
o livro como um todo. Leia o prefácio (não consigo imaginar como alguém
pode pular o prefácio, a propósito): qual a intenção do autor? Leia o
sumário e veja como o escritor estruturou a sua ideia. Leia o livro
rapidamente, parando em apenas alguns trechos para ler com mais atenção.
A leitura inspecional é responder à pergunta: “esse livro é sobre o
quê?”. É um romance, um livro sobre política, ou sobre matemática, ou
sobre a História do Brasil? Quais são os principais ideias? Embora sem
se dar conta, muitas pessoas conseguem ler num nível inspecional.
Terminam o livro e sabem que não é apenas um amontoado de frases; existe
uma ideia básica que o autor apresentou sob algumas formas. Talvez o
leitor não seja capaz de escrever uma resenha, mas consegue formular um
resumo básico.

O terceiro nível é o da leitura analítica. Certo, o livro é sobre a
História do Brasil; mas qual a posição do autor? Ele está priorizando os
momentos do Império ou da República? Toma partido a favor ou contra a
escravidão? Dá mais destaque à esquerda ou à direita? Ou então talvez o
livro seja sobre ciências. O autor está sendo claro? Os exemplos que ele
passa parecem plausíveis? O autor usa a matemática para confundir ou
para esclarecer?

O leitor que lê analiticamente consegue aprender o que o livro quer
ensinar. Ele consegue criticar o que o autor quer dizer. Na verdade,
essa é a técnica fundamental da leitura analítica. Só consegue ler de
maneira analítica a pessoa que, depois de ter feito leitura inspecional,
sabe as principais perguntas a serem feitas ao livro (notem como eu
expliquei a leitura analítica apenas com perguntas); agora a tarefa é
encontrar as respostas. Ler bem um livro significa questionar o autor a
todo momento. O verdadeiro leitor jamais falaria algo como “não sei bem
por que, mas não concordo com isso”; ele primeiro entende, e depois
julga.

Na verdade, praticamente 80% de Como Ler Livros é sobre leitura
analítica. Os autores põem muita ênfase em se preocupar em procurar as
palavras-chave, depois os termos principais, em seguida as proposições
mais importantes.

O quarto nível é o da leitura sintópica. Significa transcender o livro
e ler vários livros sobre o mesmo assunto e apontar diferenças e
semelhanças. É aplicar a leitura analítica diversas vezes. É assumir
algo como “quero aprender a mecânica clássica” e ler Newton, Laplace,
Galileu e d’Alembert, comparando-os. Claramente, é tarefa de
especialistas.

Como Ler Livros é daqueles exemplos que não trazem nenhuma ideia
revolucionária mas apontam alguns conceitos do senso comum dos quais nos
esquecemos:

  • Você está lendo para quê? Quer apenas dar uma olhada no livro ou
    aprender sociologia? Diferentes objetivos demandam diferentes modos
    de se ler.
  • Dê uma lida rápida e só depois volte nos pontos em que há dúvidas,
    não necessariamente na ordem do livro.
  • Não faz sentido começar a procurar as palavras no dicionário se você
    não faz nem ideia do assunto do livro. Mas quando precisar fazê-lo,
    saiba o que e por que você está consultando-o.
  • Ler não é uma atividade passiva. Se você para para interpretar uma
    frase que seja, já está interagindo com o autor (os autores usam um
    exemplo muito interessante do beisebol, que pode ser melhor
    entendido com uma analogia do futebol. Um goleiro, apesar de
    “apenas” agarrar a bola, não joga passivamente. Ele precisa prestar
    atenção em muitos jogadores, calcular a velocidade da bola,
    movimentar-se para o lado certo).
  • Livros difíceis merecem ser lidos muitas vezes
  • O tipo de atitude que você tem ao ler um livro de filosofia tem de
    ser totalmente diferente da atitude de ler uma peça de teatro.
  • Não é porque se trata de um romance que não existe nenhuma mensagem
    a ser captada.

O livro tem seus defeitos. Os autores se enlongam demais em alguns
trechos, são bastante repetitivos (a maneira que eles enfatizam o
questionamento do autor é cansativo), dedicam pouco tempo à leitura
sintópica e quase completamente ignoram as obras de ficção (embora eu
concorde com eles quando dizem que ler um romance ou poema é algo muito
subjetivo e dependente das experiências do leitor).

Como Ler Livros, no geral, é um monumento de exaltação aos livros e ao
ato de leitura, e suas reflexões já estão mudando completamente a
maneira como encaro os livros. Faça-se um favor e leia.

Não sabem nada?

George Bernard Shaw (1856-1950) ajudou a fundar a London School of
Economics e é a única pessoa a ter ganho um Nobel de Literatura e um
Oscar.

Shaw foi um dramaturgo respeitado, e escreveu também ensaios, romances,
contos. Eu já tive a oportunidade de ir a Dublin, sua terra natal, e vi
que ele é um monumento nacional irlandês.

E ele também disse a famosa frase, na peça Man and Superman:

Quem sabe faz, quem não sabe ensina.

Ora, isso é completamente ridículo.

Primeiramente, o que é “fazer”?

Shaw apresentou essa ideia em uma peça de teatro, e portanto não pôde
desenvolver o argumento. Mas seu sentido não é difícil de interpretar.
Ele mesmo foi um escritor prolífico, que passou a vida efetivamente
“criando”. Alguém que se dedique a “ensinar a criar”, na sua visão,
estava aproveitando mal o seu talento, ou, pior, não tinha talento
suficiente.

Já muito ouvi essa frase, quando ficou claro para meus amigos e
familiares que eu estava indo para o meio acadêmico. Meu lugar, o lugar
de um engenheiro, é na indústria, ganhando muito dinheiro, trabalhando
nos fins de semana (porque é isso que os homens de verdade fazem),
torcendo para que seja promovido e não precise lidar com essas coisas
chatas como equações, simulações e gráficos.

Posso estar sendo generalista demais, mas já virou um clichê dizer que a
universidade não prepara para o mercado de trabalho, que as pessoas saem
de lá sem saber nada, e pior, que todos os professores são doutores e
nenhum nunca chegou a trabalhar de verdade.

Meu amigo, a universidade não é uma escola profissionalizante. Isso é
tarefa das escolhas técnicas, dos Institutos Federais. Universidade é um
lugar de Ensino Superior. Ela não me ensinou a ser engenheiro,
ensinou-me Engenharia. A universidade não lhe dá um cargo de arquiteto,
mas um título de Arquiteto.

A universidade não lhe forma juiz, advogado, ou promotor; dá-lhe um
título de bacharel em Direito.

Basta o nobre leitor pensar nos concursos públicos que fez ultimamente;
quantos exigiam uma formação específica ou quantos apenas exigiam “curso
superior”? E quantas pessoas você conhecem que estão trabalhando em
áreas completamente distintas daquela em que se formaram?

Seja você formado em Odontologia, Design ou Ciências Sociais, você
passou por uma série de tarefas que lhe deram o título. Escreveu talvez
uma dúzia de trabalhos (portanto sabe se expressar de maneira
minimamente decente), participou de eventos, desenvolveu um trabalho de
pesquisa, criou uma tese, um trabalho artístico, ou um projeto
científico. E é esse conhecimento teórico que é muito mais importante na
sua vida intelectual que quaisquer habilidades técnicas que você deveria
ter aprendido.

Essas tais habilidades, naturalmente, precisam ser aprendidas. Meu ponto
é que o lugar para isso não é na sala de aula. Temos estágios, visitas
técnicas, parceria universidade-empresa, projetos de consultoria. Tudo
que os alunos podem fazer, complementando a formação. Naturalmente,
existe muita deficiência e muito espaço para aproveitamento. Um
engenheiro precisa conhecer uma fábrica, assim com um bacharel em
Direito precisa conhecer um tribunal e um médico precisa conhecer um
hospital.
Mas você acha que é melhor um médico ir dar uma aula sobre atendimento
de emergência ou você participar de um? Não faz diferença você ter aula
com algum engenheiro que já trabalhou em uma indústria, porque nada
substitui a experiência de você estar lá. Isso não pode ser aprendido
dentro da universidade.

Já que é papel da universidade dar uma formação teórica, nada melhor que
aprender com especialistas; na condição ideal, teóricos do ramo, gente
que está desenvolvendo a disciplina. Na minha faculdade eu não aprendi a
montar um carro, ou a perfurar um poço de petróleo, ou a projetar uma
nova máquina. Aprendi disciplinas de engenharia, que então podem ser
aplicadas a uma ocupação específica (um engenheiro, um bom engenheiro,
não constrói pontes, mas resolve o problema de atravessar o rio).
Aprendi termodinâmica com um professor que desenvolveu e orientou
trabalhos que, só nos últimos 6 anos, renderam dois prêmios
ABCM-EMBRAER de Melhor Dissertação de Mestrado em Engenharia Mecânica
e uma menção honrosa no Prêmio Capes de Tese. Aprendi metodologia de
projeto com membros do grupo de pesquisa que publicou o primeiro livro
em português sobre o assunto. Dois professores do Departamento de
Engenharia Mecânica da UFSC tiveram seus trabalhos testados no
espaço pelo astronauta brasileiro Marcos Pontes.

E você está tentando me dizer que essas pessoas não sabem nada?