Arquivo da tag: produtividade

Em março, eu estou sem redes sociais e sem outras tecnologias digitais. E isso tem me feito ficar muito mais calmo e mais focado.

O que mais tem causado efeitos benéficos foi ter saído de grupos de WhatsApp. Olhando agora com essa perspectiva de quem está fora, percebo o WhatsApp como um simples substituto de SMS via WiFi que saiu totalmente de controle. Naturalmente, eu perco informações, mas as realmente importantes acabam chegando a mim, sem prejuízo da minha vida como um todo. A Thais Godinho, recentemente, fez ótima reflexão sobre isso. 

Falando nisso: eu parei de ler blogs, mas resisti a cancelar minhas diversas newsletters, porque são leituras que aprecio muito — e foi de onde tirei o link acima. Estou enganando a mim mesmo?

Também tenho aumentado muito a minha capacidade de gerar ideias ao caminhar sem escutar podcasts e audiolivros — esse tempo em solidão e silêncio, aliás, era um dos benefícios que eu estava mais buscando.

Última observação: agora que não tenho por que pegar o celular a cada momento de tédio, eu estou chocado como absolutamente todos à minha volta fazem isso o tempo todo…

 

Como usar seu calendário de maneira efetiva

Há algumas semanas, tivemos uma discussão generalizada aqui no laboratório. De minha parte, reconheço que errei em vários pontos: fui grosso com outras pessoas, perdi a calma, e agi em prol maior dos meus interesses em relação ao do meu grupo de pesquisa. E esse episódio horrível foi agravado por uma falha pontual na minha organização: eu esqueci-me de adicionar um lembrete para uma arrumação de salas no meu calendário, o que me impediu de ajudar meus colegas durante esse evento.

A questão é: como não estava no meu calendário, não estava no meu radar, e na prática é como se esse evento não existisse no espaço-tempo. Ao mesmo tempo, muitas pessoas me consideram uma pessoa bastante organizada; o meu calendário é justamente o método que uso para me lembrar de coisas importantes. No espírito do post onde falo sobre como agendo minhas metas, pensei em complementar, mostrando o que eu coloco no meu calendário e como, na minha opinião, a leitora pode usá-lo de maneira mais efetiva.


A Thais Godinho, nesse ótimo vídeo, fala sobre como ela coloca “informações importantes” no calendário, e não só compromissos fixos. E esse é o grande pulo do gato, originado do sistema GTD: seu calendário não serve apenas para eventos, mas pera lembretes gerais. No meu Google Calendar, tenho um calendário específico de Informações para o dia

Screenshot de calendário do dia 28, mostrando item "Entregas Natuorganics"

Toda quinta-feira é o dia de entregas da Natuorganics. Ao final do dia, quando eu reviso meu calendário, eu me lembro desse fato e então, ao chegar em casa, confiro com o porteiro se foi entregue corretamente.

Outras informações que entram no meu calendário:

  • Datas de vencimento de contas (para eu verificar se há saldo na conta/cartão, e também para facilitar a busca por informações, se eu quiser saber quando vence tal assinatura
Lembretes no calendário mostrando data de vencimento da Assinatura HBO Go, Domingo e Segunda de Carnaval, Aniversário da minha amiga Amanda e outros lembretes diversos
  • Aniversários (como na imagem acima). Em vez de depender do Facebook, que tal, a cada vez que você souber que é aniversário de alguém, você colocar um lembrete no calendário, para repetir anualmente, e que seja o seu sistema de lembrar e mandar parabéns (de maneira mais pessoal, e não numa torrente de mensagens similares)?
  • Aniversários de casamento/namoro. Minha capacidade de lembrar da datas exatas, na minha visão, não reflete meu amor pela minha esposa; minha capacidade de planejar uma surpresa/viagem/jantar com antecedência, reflete.
  • Rotinas de trabalho. Essa dica eu tirei desse excelente curso do Kourosh Dini, e consiste em definir lembretes semanais para trabalhar num tipo de tarefa. Na imagem abaixo, toda quinta é o dia em que eu preparo a nossa reunião (“Kata”) semanal e o dia em que eu, preferencialmente, faço coisas exclusivas do meu laboratório (falar com alguém, resolver algo na secretaria/administração etc).
Lembretes no calendário para conferir tarefas do meu laboratório e preparar nossa reunião semanal
  • Rotinas mais mundanas como trajetos e, acreditem se quiser, dormir. Para entender melhor, ouçam esse episódio do Cortex, mas a ideia é ter uma visão muito clara no calendário do que é realmente tempo livre e do que parece, mas não é, totalmente livre.

E, claro, entram no meu calendário eventos como consultas e reuniões, além de um calendário compartilhado com minha esposa com eventos sociais. Como o leitor pode ver acima, eu uso cores que já estão gravadas na minha memória de maneira a identificar claramente o que é um compromisso marcado, o que são informações, o que são rotinas mais “livres” etc.

E agora, os comentários abaixo estão abertos para os leitores me chamarem de maluco ou, idealmente, de me sugerirem mais métodos de organizar meu calendário…

2019, o ano da intencionalidade

Baseado no último episódio de Cortex, eis o meu tema para esse ano: 2019 vai ser o ano da intencionalidade para mim.

Eu me considero uma pessoa bastante organizada e produtividade, e recentemente listei algumas coisas que me ajudaram nesse processo, em particular durante o ano de 2018. Como já deve ter ficado claro, no ano passado eu aprendi a lutar contra a depressão e a levar a vida com mais calma e simplicidade.

Em 2019, está na hora de levar isso ao próximo nível. Com ajuda do método Bullet Journal, quero aprender a refletir mais sobre minhas ações, ser mais intencional no meu dia a dia e registrar melhor meus dias. Não apenas completar próximas ações, mas garantir que elas estejam de acordo com minhas metas reais.

Não é isso que é produtividade?

Como montei meu Home Office ao estilo GTD

No meu último post sobre GTD (em inglês devido ao meu experimento de tentar converter esse blog para o inglês), eu falei por que aprender GTD. Em resumo: esse método me ajudou a me recuperar de um período muito estressante e de prazos perdidos e começar uma época de grandes realizações com menos estresse. As conclusões atingidas naquele post se propagaram: depois daquilo, eu me casei, terminei de escrever uma Tese de Doutorado (atualmente em edição), consegui ser aprovado no Programa de Talentos para Inovação, tudo isso enquanto curto a vida de maneira geral.

O método GTD preconiza 5 hábitos para você processar todo tipo de informação que chega na sua vida e transformá-la em itens acionáveis. Entretando, David Allen diz no livro oficial que, antes de começar a se aventurar no método, é bom ter todas as ferramentas disponíveis. De fato, uma das ideias do livro com que eu mais me identifico é essa: a perda de produtividade por não ter uma caneta ou uma pasta de plástico à disposição é enorme. Assim, eu fiz os meus esforços para montar um Home Office de maneira bem funcional. Admito que o que vou descrever não é perfeito, e que estou sempre tentando melhorar. Como falei no último post, esse tipo de texto é só uma maneira de eu mostrar meu trabalho.

E para quem não tem Home Office?

Vou ser o primeiro a declarar: eu sou incrivelmente privilegiado por morar num apartamento onde posso montar meu Home Office. Sei também que ele irá sumir quando vier o primeiro filho, e fico muito tranquilo com isso. Mas, já que tenho essa oportunidade, tento aproveitá-la da melhor maneira, e trabalho muito frequentemente em casa.

O que vou descrever aqui se aplica a qualquer ambiente de trabalho, na verdade, e vou incluir fotos do meu “ambiente secundário”, no laboratório onde trabalho. Aposto que, se a leitora for um trabalhadora do conhecimento (i.e. não braçal) deve ter uma mesa para si em algum lugar da empresa.

Se não tiver acesso a isso, vale a pena organizar a ideia de ter uma escrivaninha que caiba em algum cômodo da sua casa. David Allen toca muito na importância de ter um ambiente próprio para “controlar a sua vida”. Faça aos poucos. Na Dinamarca, eu morava em uma kitinete de 49 m² com minha esposa, e meu Home Office era um canto da mesa que já existia no local:

Home Office na Dinamarca

Uma mesa funcional

Falando agora realmente do meu Home Office, é assim que eu vejo ao sentar para trabalhar:

Home Office vista frontal

O primeiro detalhe que eu espero que fique muito visível é que o ambiente está pronto para eu trabalhar. Meu laptop está instalado numa posição boa, o monitor está bem ajustado, o conjunto mouse/teclado/Magic Trackpad está numa posição confortável, meu caderno de anotações está a postos, as caixas de som estão bem posicionadas.

À direita, o leitor vê a minha impressora, e se preciso lidar com papel, tudo está ao alcance da mão: grampeador, régua, fita, canetas, clipes, post-its, blocos de papel.

Outro item de suma importância é um conjunto de “bandejas” para acomodar papéis e outros objetos:

Bandejas no Home Office

A bandeja de cima é o que o método GTD classifica como uma caixa de entrada: itens aleatórios sobre os quais não dediquei atenção ainda. Sempre que eu chego em casa com correspondência ou algo físico a que eu precise dedicar atenção (nem que seja guardar num lugar especial), eu coloco na bandeja, para posterior processamento. O mesmo vale para qualquer pedaço de papel no qual eu tenha escrito alguma coisa que precisa ser transformada em outra coisa.

Na gaveta do meio, entram os Materiais de Suporte a Projetos, i.e., tudo que eu precise usar para projetos ativos na minha vida. Ali estão folders de conferência que preciso estudar com atenção, ingressos para shows já comprados, papers a ler.

Na gaveta de baixo, estão materiais de anotação. Uma cópia do excelente Roube como um artista: o Diário e um bloco de notas.

Aposto que o leitor há de concordar que isso é melhor que ter papeis jogados sobre a mesa.

Como comparação, aqui vai uma foto da minha mesa na Universidade. Parte da minha personalidade nerd é querer ter ambientes consistentes em diferentes lugares.

Estação de trabalho na universidade

E nas gavetas?

Naturalmente, nem tudo cabe na superfície da mesa. Minha incrível esposa organizou minhas gavetas, mantendo sempre o princípio de ter todo tipo de pequenos acessórios à mão. Na primeira gaveta mantenho itens frequentemente acessados ou coisas mais avulsas:

Gaveta no escritório com itens avulsos ou frequentemente acessados

(Detalhe especial para a rotuladora, uma das minhas melhores aquisições recentes).

Na segunda, estão suprimentos, como uma meia dúzia de elásticos e pastas vazias para usar sempre que quiser arquivar…

Gaveta no Home Office com suplementos de escritório

… algo na minha gaveta de documentos:

Gaveta no Home Office com pastas de documentos

Conclusões

Sim, querido leitor: eu gosto de ter tudo à mão e organizado. Com um ambiente robusto assim, fica muito mais fácil desenvolver os hábitos de produtividade.

Mas me digam: o que acharam do meu setup?

Como gerenciar uma agenda caótica

O Thomas Frank, cujo canal do YouTube eu adoro, recentemente publicou um vídeo sobre como gerenciar sua agenda em tempos caóticos. Embora o vídeo não seja ruim, para mim faltam dicas realmente eficazes.

Como alguém que está a dois dias de casar, a uma semana de uma viagem internacional e a um mês de defender uma tese de doutorado, essas são as minhas dicas para quem quer gerenciar uma agenda caótica.

Use um calendário e uma lista de tarefas

A sua mente normalmente já é ruim para se lembrar de tudo que tem de fazer; quando há coisas demais a fazer, essa situação só piora.

Não importa a sua profissão, você precisa de um calendário. O Google Calendar é grátis, excelente e tem aplicativos para qualquer plataforma. Além disso, bons programas de calendário podem se conectar a ele. No macOS, estou experimentando o BusyCal; no iOS, meu favorito é o Fantastical, embora o próprio app do Google Calendar não seja ruim.

Sistemas de calendário em geral fazem diferenciação entre eventos regulares, com horário marcado, e eventos “de dia todo” — esse último é ótimo para colocar simples lembretes.

Para começo de conversa, todos os seus compromissos têm de estar no seu calendário. Quanto eu digo todos, eu quero dizer inclusive:

  • Consultas de qualquer tipo
  • Aulas de qualquer tipo
  • Lembretes para vencimentos para contas
  • Jantares e almoços com a família
  • Lembretes para fazer check-in para viagens
  • Lembretes para aniversários de outras pessoas
  • Tempos de deslocamento para compromissos

Eu admito que pode ser demais, mas no meu calendário estão também eventos como “dormir” e “almoçar”. Pode parecer loucura, mas isso garante que eu, ao examinar e planejar um dia, eu possa imediatamente ver quais os meus horários realmente livres. Eu uso um sistema de cores que me permite identificar quais são os compromissos realmente marcados (principalmente se envolverem outras pessoas), quais são apenas meus hábitos e quais são apenas “desejos” meus de fazer alguma coisa (como correr em um determinado horário.

Você precisa também de uma lista de tarefas. Como já falei aqui, eu uso o Todoist. Se a sua agenda está realmente caótica, não se preocupe muito em organizar suas tarefas por “projetos” ou “contextos” (embora isso seja muito útil, e pretendo continuar falando sobre GTD aqui). Insira tarefas que não tenham horário ou dia predefinido (que entrariam no calendário), adicione prazos (se realmente existirem)

Nos intervalos entre seus muitos compromissos, examine regularmente o calendário e sua lista de tarefas, e assim a chance de você se perder no meio do caos diminui bastante.

Nota: sim, você pode gerenciar esse tipo de coisa com uma agenda de papel. Eu apenas acho conveniente usar esses serviços por eu estar sempre perto de um computador ou de um celular e tudo ser sincronizado entre todos os meus dispositivos.

Priorize o essencial mas mantenha seus compromissos

Como falei, vou casar daqui a dois dias, mas mesmo assim hoje fui ao meu laboratório entregar um material para meu colega, simplesmente porque eu havia assumido esse compromisso. Mesma coisa para minhas Oficinas de Oração e Vida — por mais que eu esteja cheio de coisas para fazer, isso não muda o fato de que a cada semana eu tenho 15 pessoas esperando que eu as ajude a orar melhor.

Claro que, para haver tempo para fazer tudo, eu tive de abandonar alguns compromissos, como algumas reuniões nas quais eu não era tão essencial assim. Também ajuda o fato de que eu já sabia que seria assim faz tempo, então adiantei muito minha Tese no mês passado e mantive a serenidade quando passei dias sem escrever nada, quando a agenda começou a ficar lotada. Voltando a falar do Todoist, só recebe prazo o que realmente precisa ser feito em determinado dia.

Não esqueça do corpo e da mente

Sim, estou no meio do caos, mas eu medito todo dia (usando o ótimo Headspace), oro todo dia por no mínimo trinta minutos, e entre os compromissos que eu abandono (como falei no item anterior) não estão minha corrida e a musculação.

Cair na tentação de parar completamente de fazer exercícios pela falta de tempo é uma péssima ideia: o sedentarismo só vai deixar com menos energia.


E o leitor, como mantém o controle como a agenda pega fogo?

A minha rotina matinal

Eu me sinto meio tolo sendo mais um blogueiro que fala da minha rotina matinal, mas em nome da documentação do meu trabalho, aqui vai.

Thomas Frank hilariamente toca num ponto sensível sobre a obsessão por rotinas matinais: logo cai-se no perigo que achar que, se você não acordar às 4 da manhã e não fizer todo dia as mesmas 100 atividades na mesma ordem e no mesmo horário, nunca vai ter sucesso.

Para usar a terminologia newportiana, geralmente essas dicas são dadas por quem já tem capital de carreira suficiente (mesmo que sejam jovens) para conseguirem ter bastante liberdade de trabalho. Para os outros, que têm obrigações de local e horário, é irreal achar que vai ser possível encaixar meditação, atividades físicas, leitura, escrita de um diário e todas essas dicas comuns de rotinas matinais no intervalo de tempo entre acordar e sair de casa.

O principal ponto da rotina matinal é ajudar na produtividade. Como diz David Allen na nova edição de A Arte de Fazer Acontecer, é um objetivo nobre querer ser produtivo porque, se o que temos a fazer é desagradável, podemos concluir de maneira mais rápida se formos produtivos; e se for uma tarefa interessante, podemos nos dedicar a fazer o melhor trabalho possível com o tempo disponível. E como o próprio Allen defende, e eu rotineiramente comprovo, o requisito fundamental para a produtividade é o estado calmo e relaxado da mente. A rotina matinal é apenas isso: um maneira de começar o dia de maneira mais calma. Os dias em que as manhãs são tumultuadas tendem a ser os menos produtivos, porque justamente eu não tive tempo de me acalmar e começar o dia.

A minha rotina, enfim

Para sermos bem claros em relação ao contexto: essa é a rotina matinal de um estudante de doutorado que mora na Dinamarca, em um studio pequeno e provisório, junto com sua noiva, e tem de fazer um trajeto de trem de uma hora todos os dias. No total, entre acordar e sair de casa eu levo uma hora e vinte minutos. Essa é a rotina que tenho executado de maneira sólida no último mês, e tem três partes principais:

  1. Necessidades básicas
  2. Preparação para o dia
  3. Planejamento do dia

Necessidades básicas

Na faculdade fiz uma disciplina horrível que só me ensinou uma coisa: a pirâmide de Maslow de necessidades humanas. Na base da pirâmide estão as necessidades básicas, e é assim que eu começo o dia:

  1. Logo que acordar, tomar água (por isso a minha garrafa sempre está comigo)
  2. Abluções (sem entrar em detalhes)
  3. Exercício leve (algo somente para “ativar as juntas”; geralmente faço 10 flexões e 10 abdominais)
  4. Café da manhã de verdade

A inspiração para esses passos veio do app The Fabulous, que usei por pouco tempo antes de decidir que não valia a pena pagar. Mas o objetivo é bem básico: garantir que eu esteja hidratado, alongado e nutrido.

Uma nota sobre a parte de exercício: essa não é a minha atividade física principal. Para não gastar muito tempo de manhã, geralmente faço meus treinos de corrida no final da tarde, quando volto para casa. Prefiro fazer nesse horário para dar um descanso ao meu cérebro após um dia de trabalho, mas agora que estamos acordando bem mais cedo por causa do horário de trabalho da minha noiva, vou repensar isso e experimentar correr de manhã. Mas como falei, essa rotina de que tenho falado aqui é a minha atual, que vem seguido no último mês.

Preparação para o dia

Por preparação quero dizer as atividades básicas para garantir que eu possa sair de casa de maneira tranquila:

  1. Vestir-me (naturalmente)
  2. Encher a minha garrafa de água
  3. Separar os meus lanches do dia (frutas, nozes, sanduíches, bolos etc)
  4. Pensar no que vamos jantar e se é preciso comprar alguma coisa

Sobre as duas últimas tarefas: eu tento me alimentar bem e, quando estava no Brasil, ia regularmente à nutricionista. Por conta disso, tenho o costume de, aos finais de semana, sentar por uns minutos e pensar no que vou comer ao longo da semana, para garantir o máximo de diversidade. Por isso, antes de sair de caso tento pensar em que lanches preciso levar para a universidade. O planejamento das refeições inclui pensar nos jantares, tarefa que minha noiva fica muito feliz em deixar para mim, e assim todo dia eu consulto o nosso “menu” apenas para conferir se é preciso comprar alguma coisa na volta para casa.

Planejamento do dia

Os dois últimos itens são essenciais para garantir que eu possa sair de casa. Sinceramente falando, esta etapa de planejamento pode ser feito no trabalho ou até mesmo no trem, mas tento sempre fazer em casa para garantir que eu esteja 100% pronto ao cruzar a porta.

A grande inspiração para a minha rotina de planejamento diário veio de (quem mais?) Cal Newport. O propósito é tomar decisões conscientes sobre o que vou fazer e em que horário. E, relendo o supracitado A Arte de Fazer Acontecer, começo com uma revisão básica do dia segundo o GTD.

Aqui estão os passos:

  1. Conferir e processar todas as minhas inboxes de tarefas: Todoist, anotações em papel, coisas que guardei no Evernote (mas não email) — para detalhes sobre processamento de tarefas, consulte esse texto da Thais
  2. Conferir calendário para compromissos do dia
  3. Conferir calendário para ações do dia — coisas que só posso fazer hoje, como “comprar coisas fresquinhas para café da manhã de amanhã”
  4. Conferir calendário para lembretes gerais (e.g. “hoje é o prazo para submeter o artigo ao tal congresso”)
  5. Conferir próximas ações que tem prazo para hoje (“mandar mensagem para Fulano confirmando presença no evento de sábado”) — novamente, veja a diferença entre as ações pontuais do calendário e próximas ações
  6. Conferir as minhas metas da semana (mais sobre isso em posts futuros)
  7. Conferir minha Dashboard no Trello e ver quais os meus projetos mais importantes
  8. Com base em todos os itens acima, definir as metas para o dia e planejar dia hora a hora

O resultado final desse planejamento é um plano para o meu dia. Eu sempre carrego um caderno comigo, e nele sigo o esquema de Newport e crio uma mini-agenda para cada hora. No final, escrevo as minhas metas para o dia de hoje: três tarefas principais que, se completadas, fazem com que o dia seja considerado um sucesso. Com isso tenho sempre uma visão panorâmica do que devo fazer, e não preciso ficar consultando o Todoist ou o Trello. A minha notação para essas tarefas é uma versão simplificada do Bullet Journal

Uma página de planejamento do dia no meu caderno

Perdoem a qualidade da imagem, a letra feia e o caderno bagunçado, mas eu quis mostrar como é uma página real de planejamento. A parte em branco à direita da agenda e a parte livre na base da folha servem como uma área de anotações rápidas, geralmente criadas no meio de alguma atividade. Quando acabo a tarefa em questão, revejo e processo essas anotações em um formato mais permamente, colocando tarefas no Todoist, criando pequenas notas no Evernote etc.

Quando crio o meu plano do dia, isto significa que estou pronto para trabalhar. Já sei tudo que há para fazer, já limpei as minhas caixas de entrada, já garanti que estou trabalhando em coisas importantes. Posso pegar o trem, e quando chegar no trabalho basta revisar qual a primeira coisa a se fazer, colocar uma música e comecar a me engajar nas minhas tarefas.

Uma checklist no Evernote

Como falei, o objetivo de uma rotina relativamente longa assim é garantir que eu comece a trabalhar num estado calmo e relaxado. Então, justamente para que eu não esqueça nada e atinja esse estado, eu tenho uma checklist no Evernote onde detalho todos esses passos. Muitas destas atividades já se tornaram um hábito, mas consulto essa lista como um mecanismo de segurança.

Se o leitor não tem uma conta no Evernote, pode criar uma aqui1. E para os que já tem uma conta então, podem baixar essa checklist aqui.

E o leitor, tem alguma rotina ou hábitos para a parte da manhã que ajudam a preparar para o dia? Contem-me nos comentários!


  1. Esse link permite ao leitor criar uma conta grátis no Evernote, com direito a um mês da opção Premium. Para cada leitor que se registrar esse link, eu ganho pontos que posso trocar por meses de assinatura da versão paga. Resumindo: se o leitor quiser experimentar o Evernote, ao usar esse link não há nenhum custo envolvido e você ainda pode ajudar o seu blogueiro favorito. 

O impacto da falta de carro na produtividade

Há uma observação aparentemente comum entre brasileiros que moram na Dinamarca: a vida aqui é mais calma. Não é uma quesão de impressão, ou de simplesmente concordar com o que os outros pensam; como já falei outras vezes, eu efetivamente me sinto mais calmo e produtivo, e naturalmente, tenho todo o interesse do mundo em descobrir como incorporar essa mentalidade quando voltar ao Brasil. Por isso não estranham os recentes (e provavelmente futuros) registros das minhas observações e aprendizados aqui.

Mas por que a vida aqui é mais calma? Existem muitos fatores, mas há um que acho que é fundamental: dirigir. Ou melhor, não dirigir.

O principal argumento meu para provar que o hábito de dirigir acaba com o estado calmo que é fundamental para a produtividade é a observação de que eu me sinto especialmente calmo nos extremos do dia de trabalho, ao contrário do que acontecia no Brasil — quando era justamente nesses momentos em que eu andava de carro. Claro, no meio do dia de trabalho eu posso me sentir cansado ou frustrado com coisas que não certo, mas os períodos de trajetos casa-universidade são agora momentos de relaxamento. Eu simplesmente pego o trem (de preferência no mesmo horário), fico sentado a viagem inteira, e posso fazer o que quiser: ler, escutar podcasts, perder tempo no Twitter, pegar o meu computador e escrever (como estou fazendo precisamente agora), ou simplesmente descansar e pensar na vida.

No Brasil, quando ia de carro para o trabalho, os trajetos eram sinônimo de estresse. Filas crônicas, motoristas mal educadados, e o eterno problema de achar vaga na UFSC 1. Eu chegava para trabalhar estressado, o que certamente atrapalhava a produtividade, e voltava para casa estressado, quando deveria estar relaxado.


Naturalmente, os menos ingênuos podem vir correndo comentar que a realidade de transporte no Brasil é muito diferente que na Dinamarca, mas fico me perguntando se não temos um excesso de conceitos pré-formados. Em relação à nossa total falta de estrutura para ciclistas não tenho como comentar (ao contrário de Copenhague, que é uma cidade feita para ciclistas), mas os trems também atrasam ocasionalmente, as áreas mais afastadas não tem a mesma cobertura de transporte público que o centro da cidade, e andar de trem e metrô aqui é caríssimo. Mas as pessoas que não podem fazer o trajeto de bicicleta (especialmente se for muito longe) ainda preferem o transporte público a andar de carro.

O que acho que eu posso levar para o Brasil é uma mudança de mentalidade. Primeiramente, aproveitar o fato de que moro perto da universidade e evitar andar de carro durante os dias de semana nos horários de pico a todo custo. Segundo, reclamar menos e planejar mais. Se aqui eu consigo carregar uma mesa de cozinha no ônibus (embora reconhecidamente não seja a coisa mais fácil do mundo), por que no Brasil o “padrão” parece ser usar o carro ao menor indicativo de que é preciso carregar alguma coisa? E se aqui eu planejo cuidadosamente que ônibus e trens pegar, por que no Brasil eu logo penso “dá muito trabalho, vou ter de pegar dois ônibus, e vai demorar horrores”? O meu trajeto diário aqui também demora horrores, mas esse não é tempo perdido, como falei. Seja para descansar a cabeça ou para ler um livro, o tempo dentro de um ônibus pode rendar muita coisa.

O que é tempo duplamente perdido é o tempo de ficar sentado nas filas de Florianópolis, somado ao tempo para parar de reclamar do estacionamento cheio e começar a trabalhar.


  1. Confesso que um dos meus maiores choques ao chegar aqui foi ver a quantidade de vagas para carro não utilizadas na Universidade aqui 

O Sedentário Digital

Se o leitor, como eu, tem uma queda por blogs e podcasts de produtividade, deve ter notado que existe uma corrente crescente nos últimos anos: o das pessoas que pregam os benefícios do escritório móvel e viver basicamente do trabalho online. Trabalhe de qualquer lugar! Aproveite a liberdade e trabalhe em cafés, em casa, em parques, de preferência alternando a cada dia. E vá além: viaje muito, passe um ano em cada país, desde que você tenha conexão com a internet.

O que há de errado com isso? Absolutamente nada. Para algumas pessoas, como a Bia Kunze ou o Federico Viticci, poder trabalhar de qualquer lugar é uma necessidade. Para outras é apenas um estilo de vida bem interessante, pessoas que juram ter sua criatividade e produtividade em geral aumentasas quando alternam entre ambientes.

Mas o que eu aprendi na Dinamarca é que eu definitivamente não sou assim, e aprendi que também não há nada de errado com isso.


Nesse um mês que estou aqui, completado enquanto escrevo essas palavras, tenho me sentido produtivo, calmo, e organizado como nunca, e naturalmente pretendo explorar FabioFortkamp.com para discutir os porquês. No último texto, já falei um pouco sobre os hábitos de almoço, e como a prática de um almoço mais simples, rápido e leve faz com que a tarde seja um período de trabalho quase equivalente à manhã. Mas naturalmente existem muitos outros fatores, e um deles é a observação de como os meus dias estão mais estruturados aqui.

Como era no Brasil: por eu morar relativamente perto da Universidade, ia a pé quase todos os dias, então podia sair a hora que quisesse. E muitas vezes trabalhava de casa, seduzido por aquele estilo de vida que descrevi no começo, o que era bom mas trazia problemas: os almoços vendo House of Cards se alongavam demais, a necessidade de fazer algo relacionado à casa fazia com que eu procrastinasse nas tarefas de trabalho, a falta de horário fixo alimentava a tentação de dormir até mais tarde e por consequência começar a trabalhar mais tarde.

Aqui na Dinamarca, eu não tenho esse luxo. Na minha casa provisória aqui, também não tenho o conforto do meu apartamente em Florianópolis: um conjunto bom de monitor, teclado e mouse, uma cadeira boa, um Home Office propriamente. E o meu trabalho na Universidade daqui envolve mais interação com outras pessoas e mais trabalho prático de laboratório. Aqui, eu preciso ir para a Universidade todo dia, e isso é bom. Morando muito mais longe do trabalho, isso significa que preciso pegar o mesmo trem todos os dias (caso contrário vou chegar de 15 a 30 minutos depois do que gostaria), o que significa que preciso sair de casa todo dia no mesmo horário. E todo dia, no mesmo horário, eu chego na minha sala, e começo a trabalhar. Para não chegar mais tarde do que gostaria em casa, todo dia pego o mesmo trem de volta, e no trajeto eu volto para a minha vida pessoal. Essa rotina funciona.

Eu e minha noiva já discutimos infelizmente um bom número de vezes sobre como sou muito apegado a rotinas e gosto de horários fixos para tudo (e muitas vezes fico irritado quando algo do plano). Aprender a relaxar e ser mais flexível é algo que preciso melhorar, tanto na minha vida pessoal quanto na profissional, mas isso não me impede de querer achar pelo menos a dose ideal de estrutura e rotina aos meus dias para maximizar a minha produtividade. Vez por outra posso abandonar meus planos e fazer algo que parece muito interessante (como o próprio David Allen diz, às vezes ser produtivo significa simplesmente seguir a sua intuição), mas eu sempre vou preferir que a maioria dos meus dias seja previsível. Eu não estou sozinho: John Grisham escreve todos os dias no mesmo lugar, tomando o mesmo café na mesma caneca, a maioria dos grandes intelectuais tinha suas rotinas, Cal Newport discute esse assunto em Deep Work, Gustave Flaubert disse aquela famosa citação “Seja regular e ordeiro na sua vida para que você possa ser violento e criativo no seu trabalho”.

Como falei, mesmo se quisesse, não poderia ser completamente um nômade digital, já que preciso estar fisicamente na Universidade para a maioria das coisas. Mas o ponto é: mesmo se eu pudesse, não tenho certeza de que iria optar por ser assim. Eu poderia dedicar alguns dias a ir trabalhar de alguma biblioteca, ou de um café, ou mesmo tentar a partir de casa, para as tarefas que envolvem apenas meu computador (como ler e escrever artigos); porém, a rotina de estar todo dia no mesmo lugar me convida a me concentrar no meu trabalho.

E, como eu falei, não há nada de errado em ser assim.