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Resenhas de livros

Resenha: Os Testamentos

Os Testamentos, de Margaret Atwood, é a continuação de O Conto da Aia (minha resenha). O universo compartilhado entre os dois romances mostram um mundo onde guerras nucleares provocaram uma epidemia de infertilidade nos EUA. Como resposta, um grupo religioso fundamentado no Antigo Testamento toma o poder, funda a República de Gilead e estabelece uma nova sociedade de castas. As mulheres férteis são escravizadas como aias, que devem copular com os seus mestres, os Comandantes da Fé, numa cerimônia com o testemunho das suas Esposas supostamente inférteis — os próprios maridos podem ser biologicamente, mas não legalmente, estéreis.

Os testamentos dos títulos são relatos de três figuras relacionadas ao regime; como era de se esperar, as aventuras das três se une no meio do romance.

Pelo que as opiniões do Goodreads deixam claro, minha opinião não parece ser muito popular, mas aqui vai: Os Testamentos é um romance superior ao seu antecessor. A alternância de personagens torna a leitura mais fluida; O Conto da Aia usa um recurso de se focar em apenas uma personagem (Offred), mas deixa dúvidas se não está se referindo a todas as aias. O romance tem bem mais elementos de ação, ao mesmo tempo que educa o leitor sobre a origem de Gilead (a grande pergunta não respondida do primeiro livro, pelo que Margaret Atwood comentou no prefácio). É uma combinação certeira em um livro de ficção: entretimento simples, ao mesmo tempo em que promove reflexões sobre o feminismo (que a autora não abraça, aliás) e política.

Uma reflexão ainda não tem resposta, porém: qual o propósito de Gilead? Quem de fato se beneficia com o regime? A vida dos líderes (comandantes) parece bem miserável. Não há grandes luxos disponíveis, como carros, bebidas, cigarros; e eles têm de constantemente gerenciar o regime para não sucumbir à resistência e manter as mulheres sob controle. Mesmo o bordel de O Conto da Aia parece bem melancólico. Claro, há comportamentos como o de um dos personagens, que coleciona esposas-crianças; mas mesmo ele tem de disfarçar as suas preferências, e sendo assim o que diferencia de um pedófilo no mundo atual?

O mais perturbador do universo de Gilead é que ele não é absurdo. A classe de políticos estilo Bolsonaro-Trump certamente adoraria um mundo onde não existisse qualquer resquício de participação feminina na política, e onde elas pudesse ser avaliadas livremente pelo potencial sexual; nosso presidente até se envolveu em uma discussão online e no Facebook dizendo que as críticas do presidente Macron da França contra o desmatamento da Amazônia são porque a sua mulher é muito feia. Por outro lado, o livro mostra mais um exemplo de como a Segunda Lei da Termodinâmica é cruel: sistemas onde a ordem é imposta artificialmente requerem muito trabalho para serem mantidos, e estão fadados a voltarem a um estado mais natural.

Tudo bem se eu encerrar esse texto dizendo que a esperança, afinal, vem da Termodinâmica?

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Miscelânea

Diário dos dias de hoje

Segunda-feira, 11 de maio de 2020, 11:00: meu empregador passou a aceitar formulários que antes eram preenchidos a mão apenas no formato digital. Gasto alguns minutos aprendendo a usar os sistemas. Faz algumas semanas que meu empregador me deu acesso a uma assinatura digital.

Segunda-feira, 11 de maio de 2020, 14:00: nosso plano de saúde nos avisou que um formulário preenchido no computador é inaceitável, e precisa ser preenchido a mão, a caneta (a marca não foi especificada). No momento estou numa casa sem impressora, então pus minhas roupas de sair, peguei uma das minhas máscaras, e sai, no meio de uma pandemia, para imprimir 6 folhas de papel. Aproveitei para comprar fraldas. Na volta, gastei 30 minutos desinfetando o envelope, o pacote de fraldas, minha carteira, minhas chaves, minha máscara, meu celular, a mesa onde pus tudo isso, e tomando banho. Pelo menos depois comi um pedaço de bolo e assisti um pouco de um filme sobre o 11 de setembro.

Segunda-feira, 11 de maio de 2020, 21:00: esqueci de avisar, hoje é meu aniversário. Para comemorar, pedimos Poke, e pus a máscara para receber o entregador. Aí lembrei que ele provavelmente nem tem plano de saúde de que reclamar. Que dias são esses?

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Resenhas de livros

Resenha: Fogo & Sangue Volume 1

Quando eu e minha esposa estávamos para nos casar, amigas dela fizeram aquela brincadeira de perguntar meus favoritos: livro, banda, filme etc, e ver se ela acertava. Minha banda favorita é fácil: qualquer um que me conhece um pouco mais profundamente sabe o quanto eu gosto dos Beatles. Saber o meu livro favorito exige um pouco mais de intimidade, de tantos livros que eu leio, mas minha esposa acertou em cheio: meu livro favotiro são As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

Eu não sou o nerd típico no sentido de nunca ter sido muito fã de fantasia. Não jogava RPG e muitos dos livros do gênero me soam cansativos — ainda nem terminei de ler O Senhor dos Anéis. E na primeira vez que li A Guerra dos Tronos, o primeiro livro da série, também me senti cansado. Meses depois, persisti e tentei ler mais uma vez, com um pouco mais de paciência e esforço, e daí não parei mais. Acho que o que me encanta mais não é o aspecto fantasioso, que nem é tão abundante assim, mas o aspecto histórico e político. Aí sim fui o CDF típico, de adorar histórias medievais, jogar Age of Empires e Civilization. Lembro-me do meu espanto quando, adolescente, dei-me conta de que ainda existem reis e monarquias no mundo. Para ser bem sincero, acho as monarquias europeias muito mais fascinante que as repúblicas. Os aspectos políticos do mundo em geral me interessam; quando pensei em ser jornalista, flertei com a ideia de ser jornalista político e fazer análises precisas, e ainda hoje é o que mais me interessa nos jornais.

De uma certa maneira, As Crônicas de Gelo e Fogo arruinaram a minha leitura. Perto da sua complexidade, outros livros parecem bobos, sem intrigas inteligentes, sem personagens de cujas intenções não se sabem. Eu leio muitos romances históricos, e nesse tipo de livro, quando aparece uma donzela, filha de cavaleiro ou nobre, eu já sei o que vem por aí: ela quer se casar com um camponês, mas precisa se casar com o visconde; ela é virgem e ele frequenta prostíbulos; ela quer estudar mas o mundo é dos homens. Ainda que o mundo devesse ser assim, custo a crer que na sua intimidade elas eram tão unidimensionais. Nas Crônicas, por outro lado, você têm Sansa, que começa como uma donzela sonhadora mas logo começa a participar das conspirações (ainda que sempre assustada).

Este Fogo & Sangue: Volume 1 é um prólogo à série — e, desconfio fortemente, uma distração para o autor para não continuar nos próximos livros sequenciais. Martin se coloca na pele de um arquimeistre (para os completamente leigos: um erudito) para contar a primeira metade da história da Dinastia Targaryen, como se fosse um historiador pesquisando e relatando o que aconteceu séculos antes. E é aí que me causa o primeiro espanto: Martin está no mesmo universo de todos os seus outros livros da série, mas consegue inventar outra voz completamente diferente, como se de fato não fosse a mesma pessoa que escreveu As Crônicas e este livro. Como acadêmico, também me identifico com o pretenso estilo científico, de “citar” várias fontes, como se fosse um tratado mesmo: “este autor fala disso, mas não podemos confiar; este outro diz isso, e estava presente nesses acontecimentos”.

Para qualquer fã, este livro vai apresentar claramente episódios que são mencionados em fragmentos ao longo da série, especialmente toda a conquista de Aegon no começo. Também tem detalhes sobre os Baratheon que ajudam a entender como Westeros aceitou Robert tão facillmente como rei após a queda de Aerys II.

O que esse livro não responde é o que mais me intriga e incomoda: como é possível haver tanto incesto em uma família sem consequências biológicas e sociais. Será o mundo retratado na série tão diferente da vida real. Será que “os Targaryen não ficam doentes” (o que se torna um ponto importante de discussão no meio do livro)? Jaehaerys I, por exemplo, era justo, sábio, bravo, conciliador — mas teve mais de 10 filhos com a irmãzinha. Só eu fico incomodado com isso?

Questiono algumas escolhas narrativas: na cronologia da dinastia, duas crianças assumem o trono em seguida, com os mesmos problemas, e os mesmos acontecimentos (regentes ambiciosos, meninos querendo ser adulto etc). Acho que essa repetição só torna o livro mais cansativo e não acrescenta nenhuma discussão nova. Também tenho dificuldade em seguir tantos nomes parecidos: Daemons e Daerons, Rhaenys e Rhaenyras.

Mas Fogo e Sangue: Volume 1 é um livro de leitura fácil e deliciosa, que permite mergulhar num mundo fascinante que na verdade nos ajuda a entender o nosso mundo. Algumas pandemias aparecem na história, e o que se faz é trancar os castelos, ninguém entra e ninguém sai, os doentes são tratados, todo os portos e mercados são fechados, até o que o problema acabe. Estranho, não?

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Como tenho lidado com essa quarentena

Ficar isolado em casa não é fácil. Aliás, deixe-me reformular. Eu sou incrivelmente privilegiado por estar com minha família, protegido, conseguindo trabalhar e ganhar meu salário. Além do mais, eu adoro trabalhar em casa. De fato, passei grande parte de meu doutorado brigando por esse direito. As ideias de Cal Newport deixaram marcas em mim: eu trabalho melhor completamente isolado e concentrado numa tarefa. Odeio reuniões. Valorizo mais conversas por email, onde tenho tempo de pensar no assunto, do que encontros de corredor. Estar trabalhando em casa nessa quarentena, sempre em contato com minha esposa e meu filho, não é um problema.

Mas esse senso de incerteza, de que algo está errado, da insegurança de como vai ser quando acabar, de se vou pegar a doença quando vou ao supermercado, se alguém da minha família vai ficar doente — isso não é fácil, especialmente para aqueles que, como eu, sofrem com ansiedade e têm experiência com depressão. Como falei, a calma de ficar em casa é boa, mas não há variedade, corridas na rua, passeios com meu filho, restaurantes com minha esposa. E, claro: sinto falta de estar numa sala de aula, com os alunos tirando dúvidas, escrevendo em giz.

Estamos nos aproximando de completar um mês dessa situação, e em muitos lugares isto está longe de acabar. Aqui está o me ajuda a tornar esse momento mais leve, e espero que ajude outras pessoas. Essa dicotomia entre gostar de ficar em casa mas saber que as coisas não estão bem (e o que fazer em relação a isso) foi bem tratada em um Nerdcast recente.

Meditação

Se pudesse elencar um ato que tem me ajudado, é a meditação, o que tenho feito com o Headspace. Desde o nascimento do meu filho João, eu andava meio relapso nessa prática, dedicando-me apenas em alguns dias esporádicos. Nessa quarentena, porém, eu não falhei nenhum dia.

Meditar não é um ato religioso; é apenas parar e respirar. Embora digam que a meditação verdadeira deva ser completamente silenciosa, eu gosto de ter o guia do Headspace me sugerindo diferentes pontos no que me focar; gosto de explorar os diferentes temas; e a voz do Andy simplesmente me relaxa. O Headspace é um serviço pago, e eu trato como um gasto de saúde mental; mas se você está interessado, eles liberaram muitas sessões de graça. Baixe o app e se permite experimentar.

Oração

Eu acabei de falar que não trato a meditação como uma forma de orar, porque isso para mim é uma atividade em separado. Eu medito ao longo do dia, geralmente quando quero me acalmar, e durante apenas 10 minutos. Na oração, as Oficinas de Oração e Vida me ensinaram a praticar a Sagrada Meia Hora, 30 minutos dedicados à leitura da Bíblia e ao diálogo com Deus.

Pronto para orar bem aconhegado

Eu confesso que, desde o nascimento do João, em muitos dias não consigo achar 30 minutos de calma pois, quando ele vai dormir, eu mal mantenho os meus olhos abertos de tanto cansaço. Mesmo assim, sempre fiz um esforço de todo dia pelo menos fechar os olhos e fazer uma oração silenciosa, geralmente agradecendo a Deus. Nessa quarentena, consegui voltar a dedicar mais tempo, com uma rotina mais estável, e posso me sentar no sofá e me abrir. Como bem identificado por Frei Ignácio Larrañaga em Salmos para a Vida, eu alterno entre diferentes modos de orar: às vezes me comunico diretamente com Jesus, tentando seguir Seu exemplo humano; às vezes me dirijo ao Pai, pedindo ajuda e me aninhando eu Seus braços; e muitas vezes apenas contemplo a Sua Figura, sem falar nada.

O app Liturgia Diária da Canção Nova tem sido de grande ajuda nesse período. O app me mostra a Liturgia do dia e ainda traz uma homilia e um texto sobre o santo do dia. Muitas vezes eu apenas consulto as leituras no app mas leio de fato na minha Bíblia, mas ocasionalmente, quando estou cansado demais num dia corrido, eu leio no próprio app e medito um pouco.

Há um efeito colateral de medir a passagem do tempo, que anda bastante bagunçada, através do calendário litúrgico.

A meditação é o mínimo necessário para minha mente não se agitar muito. É na oração, porém, que eu realmente me consolo.

Exercícios

Já que não há mais caminhadas e passeios, meu corpo precisa liberar energia de outra forma. Tenho feito exercícios de manhã para me ajudar a acordar e me energizar um pouco.

Minha escolha de app de exercícios é o Seven, que propõe circuitos de sete minutos de exercícios sem equipamentos. Não se deixe enganar pelo tempo, pois o ritmo é intenso. Eu sempre faço dois circuitos, o que me dá 15 minutos de suor para começar o dia.

Eu tenho seguido um treino do Seven personalizado, que alterna as partes do corpo a focar em três sessões por semana. Nos outros dias, às vezes uso o “Move Mode” do Headspace, que tem exercícios estilo Yoga para alongar e relaxar (embora tenha treinos aeróbicos também), e muitas vezes faço treinos de abdominais e flexões apenas para fazer alguma coisa.

Meu filho adora ver o papai pulando na cozinha

Outra forma de variedade nos exercícios é ter alguns dias para simplesmente fazer abdominais e flexões, e uso dois apps da Adidas que não estão mais disponíveis na App Store.

Quanto ao espaço para praticar tudo isso, eu simplesmente coloco um tapete de ioga e um rolo na minha cozinha, quando ninguém está mais aqui. Não é o ideal nem a minha forma preferida de praticar exercícios, mas esse não é o tempo para se preocupar com perfeição.

Falta de espaço para me exercitar não pode ser desculpa

Leitura

Eu tenho lido muito nessa querentena e, depois de muito tempo pregar a superioridade de livros em papel, a paternidade me ensinou a ser mais pragmático e ler livros no Kindle, muitas vezes no celular ou no meu Kindle Paperwhite, em pequenos intervalos ao longo do tempo. Acho que não sou o único a ver meus hábitos mudarem.

Eu estou numa febre de livros de fantasia e históricos — e acho que isso tem a ver com fugir do tempo presente. A leitura é o meu momento de relaxar, e parei de me exigir tanto.

Foco

Nos momentos em que quero trabalhar de fato e desenvolver minhas aulas, uso o app Forest, que me força gentilmente a focar em uma tarefa e não tocar no meu telefone. Sendo sincero, para mim funciona como uma maneira lúdica de alternar entre momentos profissionais e pessoais (quando vou ficar um pouco com meu filho, arrumar algo da casa etc).

No Forest, você configura um tempo e escolhe uma árvore para plantar; se sair do app antes do tempo configurado, a árvore morre. Nada revolucionário, apenas uma maneira agradável de delimitar momentos de trabalho profundo.

Fazer o que eu gosto

Em geral, o mais importante tem sido tratar o momento com leveza. A Thais Godinho tem sido muito sensível em salientar muito isso em seus posts, e você deveria acompanhá-la, se gosta do que eu escrevo. Esse período não é fácil, mas vai passar. Acho que o mais importante é aproveitar as coisas boas, e faço questão de sempre registrar isso no meu diário: a oportunidade de almoçar todo dia com minha esposa, assinar o Globoplay só para assistir Modern Family, continuar cozinhando ouvindo podcasts.

Pode ser que falte um pouco de diversidade na minha fila de podcasts.

Coisas materiais podem ter parado, mas a vida continua.

Eu fazendo o que gosto. Em dias que não são a Sexta-Feira Santa o chá geralmente dá lugar à cerveja
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Meu estilo de preparar e dar aulas

Falei no post anterior sobre como venho moldando minha rotina para preparar aulas, então pensei que seria interessante compartilhar exatamente como eu preparo e dou aulas.

Sei que soa ridículo alguém que começou a fazer isso há apenas um mês já estabelecer o seu “manual”, mas enfim, é tempo de quarentena e esse é o tempo que eu tenho para pensar em como eu faço as coisas.

Escolhendo no que trabalhar com Todoist

Com o meu alto volume de aulas (17 créditos), eu sempre sei que preciso estar trabalhando na preparação de aulas, mas como vou determinar qual disciplina eu vou preparar hoje?

Já falei aqui do meu sistema de canais de atenção, uma maneira de ter três projetos importantes entre os quais vou alternando meu foco (e, escrevendo isso, percebo preciso atualizar aquele post). Um desses projetos é concluir o semestre de aulas na Udesc, mas isso implica várias tarefas diferentes. No Todoist, tenho uma etiqueta para esse canal, e mais etiquetas adicionais para cada disciplina; se acabo uma tarefa da disciplina, muitas vezes já engato em ações da mesma área:

Captura de tela do Todoist, mostrando meu filtro "Channel 2" com todas as tarefas de preparar aulas
Assustado com o número de assuntos diferentes?

Todo dia, o Todoist me mostra as ações mais urgentes. Quando meu bebê está sendo bem cuidado pela mãe maravilhosa dele (ou, antes da quarentena, quando eu estava na minha sala na Udesc), eu sento para trabalhar, ligo o Deezer:

Captura de tela do Deezer, mostrando que ele me recomenda apenas playlists de música clássica e ambiente
Sim, Deezer, sua Inteligência Artificial conseguiu aprender os meus gostos

…e vou completando as tarefas da disciplina que é prioridade nesse momento.

Aulas analógicas…

Para mim, preparar aulas é um processo essencialmente analógico. Minha mesa de jantar fica tomada por livros, folhas de anotações, artigos impressos. Meu laptop está do lado com uma música e eventualmente com algum material de consulta, mas é na caneta que as ideias saem da minha cabeça.

Aos meus colegas engenheiros: saudades das aulas de Transferência de Calor?

Não só preparar, mas dar aulas também é um processo analógico. Minha aulas são praticamente todas em giz; é assim que eu lembro das melhores aulas que tive (mesmo durante o Mestrado e Doutorado), e é assim que são muitas das aulas que já assisti do MIT. Fora que, como descobri muito rápido, existe uma satisfação imensa em debulhar suas ideias em giz:

Naturalmente, esse tempo de quarentena muda tudo, e na Udesc estamos nos preparando para dar um grande número de aulas online. Nos meus primeiros testes preparando aulas para serem transmitidas pela internet, percebi que ainda é mais eficiente primeiro preparar aulas no papel, e depois passar para formatos digitais.

… com slides para complementar, com uma identidade visual fixa

Apesar do que acabei de escrever, ainda uso slides para complementar as aulas (mesmo as presenciais), apresentando fotos de componentes, gráficos mais complexos, resultados de artigos científicos. Posso estar muito enganado, mas acho que alcanço um bom balanço.

Para prepará-los, eu uso o Keynote da Apple. É mais leve que Powerpoint, tem estilos muito bonitos, e as animações são fáceis de configurar. Os textos do Teddy Svoronos tem me ajudado a pensar em como usar a tecnologia para dar aulas de maneira eficiente.

Falando em slides e no Keynote, algo que me ajuda meu cérebro a trocar de contexto cada vez que tenho de trabalhar em uma das minhas 5 disciplinas é criar uma identidade visual, com um tema do Keynote fixo para cada disciplina:

Automatizando o que precisa ser feito no computador

Quando de fato uso o computador, realizo várias tarefas: editar os slides de que falei acima, consultar arquivos em PDFs de livros e artigos, fazer cálculos e gráficos.

Para automatizar tudo isso, e para me ajudar a trocar de contexto, tenho usado o Bunch do Brett Terpstra. Esse é um aplicativo que fica na minha barra de menus:

A leitora consegue adivinhar qual código corresponde a qual disciplina na galeria de slides acima?

Quando eu seleciono um desses tópicos, acontecem várias coisas:

  • As janelas abertas de fecham para deixar um estado limpo no meu computador
  • O Finder abre na pasta da disciplina correspondente, de onde acesso os materiais complementares
  • O MindNode abre no mapa mental correspondente
  • O iTerm2 abre na pasta da disciplina, e ativa um ambiente Conda onde posso usar o CoolProp (para calcular propriedades termodinâmicas)
  • Para algumas disciplinas, já abro PDFs frequentemente acessados.

O Bunch requer certa experiência em programação para poder ser configurado; você cria arquivos com instruções para cada “projeto” do Bunch. A título de referência, aqui vai um desses arquivos que uso, com algumas informações mais sensíveis removidas:

# Comments start with a hash symbol, blank lines are ignored
# Use @@ to hide all visible apps. Usually used at the top of the file
# before launching the rest of the bunch
@@
# Include a line starting with a dash to open specific
# files in the app
# If the first file listed is "XX", all open windows
# for the app will be closed first
# Please check which is your MindNode folder and replace below
# Draq the folder into the Terminal and issue `pwd`to find out the current directory
MindNode
- ~/Library/Mobile Documents/<MindNode Folder>/Documents/Aulas ST1GEE1/Geração de Energia I.mindnode
Keynote
- ~/OneDrive/Udesc 2020-1 ST1GEE1/ST1GEE1 Aula 1.key
%Finder
- /Users/fabiofortkamp/OneDrive/Udesc 2020-1 ST1GEE1/
%iTerm
- ~/OneDrive/Udesc 2020-1 ST1GEE1/
Preview
- <PDF files to open, one per line>
view raw ST1GEE1.bunch hosted with ❤ by GitHub

Não economizar em livros

Eu gasto uma quantidade impublicável de dinheiro em livros de Engenharia, mas ter essa quantidade de material à disposição (o que quer dizer ter muita teoria e muitos exercícios) vale muita a pena; para disciplinas onde não há bons livros-texto, a tarefa mais difícil é justamente ficar coletando materiais aqui e ali.

Aqui a influência do meu orientador é muito visível: a coisa que mais me chama a atenção na sala dele é a estante carregada de livros. No meu apartamento alugado, tenho de dividir os livros em vários locais — principalmente para não sobrecarregar as prateleiras, que não foram feitas para um maníaco por livros como eu.

Sou fã dos livros do Çengel
Foto de pastas de plástico e alguma livros antigos
Eu adoro a minha etiquetadora
Foto de livros diversos sobre motores de combustão interna
O Fábio de alguns anos atrás, que nunca gostou de carros, não acreditaria que o Fábio de 2020 teria uma prateleira só de livros de motores

Fazer os alunos interagirem

Por fim, algo que aprendi rapidamente: uma maneira das aulas passarem mais rápido e torná-las mais interessantes é, a cada coisa “surpreendente” que eu falar, virar para a sala e perguntar: “por que isso acontece”? Muitos alunos realmente prestam atenção e conseguem responder da maneira que eu esperaria, o que é sempre gratificante.

E esse é o ponto: todo esse trabalho, toda essa rotina, alimenta um dos trabalhos mais gratificantes que Deus me deu: ensinar.

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Trabalhar 3 horas seguidas ou 1 hora por 3 dias?

Se faz tempo que não aparece um texto aqui, é porque tenho estado ocupado como nunca estive. Em meados de fevereiro, assumi um cargo de Professor Substituto na Udesc de Joinville; e, além das três disciplinas para qual fui contratado, ofereceram-me mais duas (e eu aceitei). Se o leitor está com preguiça de contar, isso me faz responsável por 5 disciplinas diferentes.

Aceitei esse desafio imenso para mergulhar na experiência de ensinar (tomando um tempo longe da pesquisa) e para complementar minha renda, dando mais segurança para que eu e minha esposa possamos criar o João Pedro. Mas mesmo minha juventude, energia e vontade de trabalhar não torna a rotina menos cansativa.

Para um inexperiente como eu, foi difícil pegar o ritmo de preparar aulas. Não escondo que, muitas vezes, estava de tarde preparando as aulas da noite, para na manhã seguinte acordar cansado (após dar aulas até 22:20) e finalizar as aulas da tarde. Para dar conta, trabalhei bastante em todos os finais de semana desde que comecei. O que tem me ajudado nesse processo é muita meditação, apoio da minha família, e o simples fato desse trabalho de preparar e dar aulas ser cansativo mas extremamente prazeroso.

Minha rotina de trabalho basicamente consistia em trabalhar por horas seguidas (com alguns intervalos para atender o bebê) num mesmo assunto, pois a tarefa em questão precisa ser terminada até a hora de eu entrar na sala de aula. Funcionou, mas me desgastou bastante.

Hoje, após pegar o ritmo e ter algumas aulas adiantadas, estou me re-estabelecendo na rotina que eu gosto de cultivar: várias sessões de trabalho de menor duração, de assuntos variados. Uma hora em uma disciplina, uma pausa, uma hora em outra.

Há quem diga que isso é subótimo, e eu reconheço que mergulhar num assunto por 3 horas seguida nos faz atingir níveis de concentração surpreendente, como diz um de meus ídolos. Porém, aceito que prefiro trocar esse nível de concentração pelos efeitos de interação entre as sessões. Se trabalho na disciplina 1 por um tempo, e no resto do dia faço outras coisas, ao continuar o trabalho na disciplina 1 no dia seguinte vou estar contaminado (no bom sentido) com as ideias que tive fazendo as outras coisas. Talvez na disciplina 2 eu selecionei alguns exercícios que acho que vão encerrar bem a aula, então ao voltar a preparar aula da disciplina 1 eu procuro exercícios semelhantes para dar esse fechamento; mas a própria ideia de fechar a aula com problemas numéricos só veio quando eu reconectei meu cérebro ao trocar de assunto.

Assim, para mim, prefiro trabalhar picado, mas eu só sei disso por ter experimentado — e eu aproveito os efeitos de trabalho profundo ao pausar entre uma sessão de outra para realmente descansar o cérebro, e não perder tempo e concentração no celular.

A minha esposa vai ficar orgulhosa: depois de tanto debater isso com ela, agora estou usandoneste espaço para discutir se gosto mais do metodismo de Cal Newport ou da criatividade mais livre de Austin Kleon.

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2020: O ano do novo

Eu sou grande fã do podcast Cortex e, no ano passado, comecei a brincar com a ideia de temas para o ano: um palavra ou frase que guie as minhas decisões para um ano novo que se segue.

Em 2019, eu estabeleci que queria ser mais intencional sobre minhas ações e minha vida. Mantive um diário regularmente, continuei na terapia, e fui muito mais reflexivo em relação ao que estava acontecendo. Eu terminei o ano com uma sensação muito maior de controle sobre minha vida — portanto, tive sucesso em seguir o meu tema.

Agora, em 2020, é hora de testar coisas novas.

O maior desafio novo: ser pai

No final de 2019, nasceu o João Pedro, e apenas isso já garantiria um ano muito diferente dos 31 anos anteriores de minha vida.

Ser pai implica ter uma nova rotina, um novo comportamento (demorou dois dias para eu me espantar como meu celular só tem fotos dele), novos desafios. Principalmente: coisas antigas não cabem mais na minha vida, como ir à academia, ver séries, sair para jantar apenas com minha esposa.

Sem problemas: muito desses abandonos são apenas temporários, enquanto que a aventura de ver uma criança crescendo vai se renovar ano após ano, para sempre.

Um novo emprego

Após 12 anos como parte do POLO, estou partindo para novos desafios: a partir de fevereiro, vou assumir uma posição de Professor Substituto no Centro de Ciências Tecnológicas da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina).

Eu escolhi entrar para o mundo acadêmico em 2012, quando ingressei no mestrado, mas desde então só havia trabalhando com pesquisa. No meio de 2019, fiz um concurso para professor da UFSC que me fez perceber como faltava experiência docente. Desde então, dei algumas aulas quando meu orientador viajava, e percebi o quanto adoro o ambiente de sala de aula.

Eu já havia decidido não fazer mais concursos e terminar meu pós-doutorado e talvez estendê-lo em 2020, mas aconteceu que numa determinada noite vi um anúncio em um telejornal sobre o concurso para a Udesc, com inscrições vencendo em poucos dias. Fiz o concurso e passei.

Eu quase nunca assisto a jornais, mas bem naquele dia eu estava sentado no sofá quando veio esse notícias. A área do concurso era a minha área. Não seria vontade de Deus que eu passasse?

Uma nova cidade

Uma consequência do novo emprego é sair de Florianópolis, minha cidade natal, e ir para Joinville, a maior cidade de Santa Catarina.

Eu já morei fora de Florianópolis por alguns períodos, todos delimitadoa por no máximo 1 ano. Agora, eu estou indo por período indeterminado. Quem sabe eu volte. Mas também quem sabe não vou me estabelecer em Joinville, ou depois tomar outro rumo?

Não saio de Floripa sem pesar, dado que é a cidade mais bonita do mundo, além de estarem aqui minha família e a maioria de meus amigos. Mas, em 2020, eu vou experimentá-la como visitante — e quem sabe assim eu não aprenda a conhecer essa ilha de outra forma?

Eu estou muito animado para ver tudo isso acontecendo nesse ano. Todos esses aspectos vão me fazer sair da minha zona de conforto e crescer — como pai, marido, profissional, e simplesmente como homem.

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Ser pai é ser ineficiente

Ainda lembro do dia em que, passeando pela Fnac na Rua de Santa Catarina, na cidade do Porto, deparei-me com um livro intitulado Fazer bem as coisas (publicado no Brasil como A Arte de Fazer Acontecer), e aprendi sobre listas, projetos, calendário… Estudar produtividade virou quase um vício, a ponto de precisar tratar na terapia como lidar se as coisas não saem como planejado.

E ainda bem que aprendi a não ser produtivo, porque quando o João Pedro nasceu, junto vieram os dias mais ineficientes que já vivi.

Eu escrevo isso não como uma reclamação, mas como um simples reconhecimento de agora tudo mudou: o meu tempo não é mais meu, é do meu filho, e funciona numa outra escala. Posso planejar o quanto quiser tarefas para quando ele estiver dormindo, mas há dias em que ele simplesmente quer acordar de hora em hora, e não há como se concentrar em algo por muito tempo. Posso marcar num calendário com máxima precisão os horários e trajetos para sairmos de casa para visitarmos alguém, mas se ele quiser mamar bem nessa hora, nós vamos chegar atrasados. E eu nunca posso dizer para o bebê com cólicas que eu estou cansado e só queria ler um pouco.

Pode parecer estranho um pai de um recém-nascido já querer escrever regras de paternidade, mas isso tem estado o tempo todo na minha mente nesse primeiro mês. Além disso, observando pais de crianças mais velhas, imagino que a ineficiência vai fazer parte de minha vida por muito tempo — por exemplo, ao andar de carro para lá e para cá, algo que sempre me incomodou.

Quando eu escrevo “ineficiência”, é mais para chamar a atenção, porque não é bem verdade. Prefiro pensar que troquei eficiência por eficácia. Tudo leva mais tempo, poucas tarefas cabem num dia, mas as que acontecem têm real significado. As inúmeras trocas de fralda e horas em pé para fazê-lo arrotar não são itens a marcar numa lista, mas atos de cuidado. Quando sou interrompido no que estou fazendo para pegá-lo e confortá-lo, isso é algo que só eu posso fazer, e que tem grande impacto sobre o bem estar dele. E quando eu de fato trabalho, quando ele estiver dormindo ou com a mãe, eu preciso me forçar a trabalhar no que é realmente importante – principalmente porque agora eu trabalho para o futuro dele.

Ser pai é ser ineficiente, mas é trocar eficiência por amor. É trocar uma noite de sono inteira, que me faria trabalhar melhor, por uma noite interrompida para consolá-lo e ver as mãozinhas dele se aninharem no meu peito depois que ele se acalma. E então eu penso: eficiência para quê?

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João Pedro

João

Ontem, 27 de dezembro, foi dia de São João, Apóstolo e Evangelista. A minha Bíblia (Edição Pastoral) apresenta o Evangelho de Jesus Cristo segundo João como “diferente dos três primeiros”. A começar por abrir o seu livro com um poema:

No começo a Palavra já existia:

a Palavra estava voltada para Deus,

a Palavra era Deus.

No começo ela estava voltada para Deus.

Tudo foi feito por meio dela,

e, de tudo o que existe,

nada foi feito sem ela.

Nela estava a vida,

e a vida era a luz dos homens.

Essa luz brilha nas trevas,

e as trevas não conseguiram apagá-la.

Jo 1, 1-5

A vida era a luz dos homens. Eu já falei aqui sobre minha luta contra a depressão, e a oração foi uma arma muito poderosa, a luz que brilha nas trevas. Inúmeras noites me sentei nessa mesma escrivaninha onde escrevo estas palavras, derramando-me em lágrimas e pedindo o consolo da Palavra. E Ela nunca falhou, especialmente quando mergulhava nos escritos de João.

É impossível ler muitas páginas do Evanhelho e das Cartas de João sem se deparar com inúmeros mensagens sobre o Amor. Em contraponta às inúmeras regras do Antigo Testamento, João mostra como a mensagem de Jesus é simples: “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15, 12). Mas como amar? “Não existe amor maior que dar a vida pelos amigos” (Jo 15, 13). Depois, na sua Primeira Carta, João nos chama a toda hora de “filhinhos” e outros vocativos carinhosos: “Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus” (1 Jo 4, 7). João me ensinou, portanto, que a minha Fé, o que me faz Cristão, é que eu creio no Amor; não precisamos nos castigar uns aos outros, pois o Amor salva: “E o amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados” (1 Jo 4, 10).

Muitos outros fundamentos e lições da Fé estão ilustrados no Quarto Evangelho. Quando eu me pego indagando se a oração é uma perda de tempo, eu lembro d’Ele falando à samaritana: “Quem bebe desta água vai ter sede de novo. Mas aquele que beber a água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe darei, vai se tornar dentro dele uma fonte de água que jorra para a vida eterna.” (Jo 4, 13-14). Quando eu, envergonhadamente, penso se um doutor como eu deveria gastar tempo trocando a bombona d’água do meu laboratório, eu lembro d’Ele: “Pois bem: eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros.” (Jo 13, 14). E se fico pensando se devo orar para o Pai ou para o Filho, percebo que isto não faz diferença: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9).

O próprio Jesus percebeu que João era especial, a ponto de lhe confiar Sua Mãe depois que Ele morresse (Jo 19, 26-27). João era assim: puro Amor e Cuidado.

Outro João

São João da Cruz foi um frade, poeta e místico espanhol. Para quem está envolvido com as Oficinas de Oração e Vida, é impossível não entrar em contato com a sua obra, dado que Frei Ignácio Larrañaga, nosso fundador, era seu grande admirador. João da Cruz compreendeu e então capturou como é a verdadeira oração:

Descobre Tua presença,

e mantém Tua vista e formosura,

olha que a doença de amor não se cura,

senão com a Presença e a Figura.

São João da Cruz, citado por Frei Ignácio na Mensagem da Oitava Sessão dos TOV Adulto

Orar é estar na Presença da Figura, e é só esta presença que preenche a Alma sedenta de Amor, a “fonte de água viva” como São João Evangelista colocou.

Eu entrei nas Oficinas em 2016, e elas foram essenciais em me ajudar a lidar com o luto da morte de minha avó. Desde então, tornei-me eu mesmo um Guia, e para o mim o maior benefício pragmático do nosso programa é ajudar as pessoas a lidarem com as loucuras do dia a dia. É saindo do celular e entrando em nós mesmos que conseguimos nos esvaziar dos problemas, e então conseguir consolo com Jesus. E não é preciso muito para se isolar do mundo e se encontrar com Deus, segundo São João da Cruz:

A noite sossegada,

a música calada,

a solidão sonora,

e a ceia que recreia e enamora.

São João da Cruz, citado por Frei Ignácio na Mensagem da Oitava Sessão dos TOV Adulto

Relendo o meu diário neste ano de 2019, percebi que os meus momentos de felicidade foram assim: simples e leves como uma noite sossegada.

Pedro

São Pedro foi tema constante das minhas sessões de terapia em 2019. Uma das minhas maiores aflições é o medo de errar, e o maior aprendizado desse ano foi superar os padrões rígidos de perfeição impostos pela minha profissão e minha família. E o que mais me chama atenção em Pedro é, surpreendemente, o quanto ele errou.

Mesmo tendo o Filho de Deus diante de si, ordenando que ele caminhasse sobre as águas, Pedro sentiu medo e começou a afundar, recebendo uma reprimenta de Jesus (Mt 14, 28-31). Desesperado quando Jesus estava para morrer, Pedro atacou seus inimigos, contrariando a mensagem de Paz e Entrega de Jesus (Jo 18, 10-11), e ainda por cima negou ser seu discípulo – três vezes (Jo 18, 17.25-27). Ele próprio sabia das suas falhas; quando Jesus fez encherem as redes de pesca antes vazias, Pedro se horroriza: “Senhor, afasta-te mim, porque eu sou um pecador!” (Lc 5, 8).

Mesmo assim, Pedro foi o líder escolhido por Jesus para a Sua Igreja. Um simples pescador, alguém que poderíamos encontrar na gente simples de Florianópolis, foi convidado a ser pescador de homens (Mt 4, 19), e recebeu d’Ele as chaves do Reino dos Céus (Mt 16, 15-19). Pedro não nasceu perfeito; errou, aprendeu, fortaleceu-se, e guiou os seguidores de Jesus após a Ressureição (At 2).

João Pedro

Desde que eu e minha esposa começamos a falar seriamente em ter um filho, eu estabeleci para mim mesmo, e ela depois concordou, que a nossa primeira criança teria um nome inspirado em alguma figura bíblica. Eu não consigo lembrar muito bem de quando e como aconteceu, mas em algum momento o nome João Pedro, uma combinação dos dois Apóstolos, entrou em minha mente e ali se fixou.

No dia 14 de dezembro de 2019, dia de São João da Cruz, nasceu o nosso João Pedro. Alguém que eu espero que una as características dessas figuras que citei neste texto: que seja amoroso, carinhoso, cuidadoso com sua família, capaz de se recolher e meditar, como os Joões deste texto; mas ao mesmo tempo forte, ciente dos seus erros e capaz de superá-los, como Pedro.

O ano de 2019 foi, para mim, esperá-lo. E ele chegou, presente de Natal antecipado de Jesus, o mesmo Jesus que seduziu a João, a Pedro, a João da Cruz – e a mim e à minha esposa. Que venha 2020, com o privilégio de ver um ser humano crescendo.

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Como organizar resultados de simulações númericas

Como muitas de minhas ideias, está começou com um podcast, e especificamente sobre minha mais recente obsessão: ciência de dados.

A situação: tenho um modelo numérico que simula algum problema físico. Para um mesmo modelo, é possível fazer várias análises: com e sem alguma característica, modificando ou não alguma das equações governantes do problema. O problema: como organizar todas essas análises?

Para meu deleite acadêmico, esse episódio de Talk Python to Me referenciou alguns artigos científicos, e desde então tenho testado as soluções que cientistas antes de mim já procuraram implementar para o mesmo problema.

A pasta results

Quando vou testar alguma próxima modificação no meu modelo ou analisar a influência particular de algum parâmetro , onde vou armazenar todos os resultados, de maneira a poder referencia-los depois?

O meu modelo está encapsulado numa pasta no meu computador:

Captura de tela de uma pasta no Windows, mostrando como ela está organizada

A pasta raiz tem imagens, um arquivo de sumário README, alguns arquivos de dados, arquivos de suporte para Python, e diversas subpastas:

  • Já falei anteriormente sobre testes, e eles estão devidamente organizados. O programa de testes que uso, pytest, cria uma pasta de cache, que aparece no topo da lista.
  • A pasta src contém o código fonte (neste caso, em Python). Kenneth Reitz havia me convencido de que uma pasta assim deve ter o mesmo nome da biblioteca sendo desenvolvida (neste caso, magnet3Dpolomag, como aparece em outro post), mas estes artigos me convenceram de que afinal é melhor ter uma pasta chamada src (de source code), e suas bibliotecas dentro dessa pasta, para melhor execução de testes. Os artigos científicos citados no começo deste posts também recomendam uma pasta genérica src.
  • docs contém um protótipo de documentação
  • .vscodecontém arquivos de configuração do Visual Studio Code
  • e results é onde a mágica acontece.

A pasta results é um repositório de todos os resultados que esse modelo já gerou. Respondendo à pergunta anterior: quando quero fazer uma nova análise, o primeiro passo é criar uma nova subpasta dentro de results:

Captura de tela da interface web do GitHub, mostrando diversas análises dentro de uma pasta "results"

Um ponto importante dessa minha estratégia é fazer uso da interface web do GitHub, como visto acima, serve como referência online. Nas reuniões do nosso grupo de pesquisa, tenho compartilhado links para cada uma dessa subpastas junto com capturas de tela como essa, para mostrar em que estado minha pesquisa está e o que foi feito em um período. Seguindo a recomendação dos artigos citados, ponho a data no início do nome da pasta para uma ordenação temporal e para ter ideia de quando uma análise foi feita.

Cada pasta dessa armazena scripts para cálculo e processamento de dados, imagens e tabelas salvas, arquivos de referência — tudo que ajuda uma pessoa de fora (ou meu futuro eu) a entender uma parte da pesquisa usando meu modelo.

Captura de tela da interface web do GitHub, mostrando arquivos e pastas dentro de uma subpasta de "results"

Numa organização dessa, é crucial criar um README bem feito, para evitar a confusão de abrir uma pasta cheia de arquivos soltos sem nenhuma explicação. Usando a interface web do GitHub, o README é renderizado quando se abre uma pasta, o que é muito interessante.

Captura de tela de um arquivo README de uma subpasta de "results", mostrando explicações sobre como a análise dessa subpasta foi feita

Conclusões

É assim que organizo minhas simulações numéricas. Ainda estou aprendendo a implementar esse método, mas ele tem me dado bastante tranquilidade, permite-me facilmente achar análises passadas, e elimina a dúvida de “por onde começar”, ao testar algo novo nos meus modelos numéricos.

Esse é um assunto que me interessa muito. Os leitores têm alguma dica?