Categorias
Artigos

Aprendendo Notion para planejar semestres de aula

Uma das tarefas mais difíceis do meu trabalho de professor é planejar o semestre: preencher cada uma das horas do curso com algum tipo de conteúdo — de preferência, que avance o aprendizado dos alunos.

Quando as aulas do primeiro semestre de 2020 foram retomadas pós-interrupção pandêmica, eu apressadamente criei uma tabela básica no Notion, que listava os temas em cada dia:

Agora, antes de começar um semestre novo, quero realmente aprender a usar o Notion de maneira mais efetiva.

Por que Notion?

Eu nem lembro quando ouvi falar pela primeira vez desse aplicativo que promete ser tudo. O que é fácil notar é a quantidade de conteúdo criado exclusivamente sobre ele: era citado em podcasts e blogs, enchia a minha lista de vídeos recomendados no YouTube… Quando algo tem tanto hype assim, os meus instintos nerds não conseguem seguir a lógica de ser mais racional e me dizem que é hora de testá-lo de uma vez-

Thomas Frank e Ali Abdaal têm ambos vídeos excelentes sobre como usam Notion para planejar os seus respectivos canais, o que me convenceu de que este app é perfeito para isso: planejar um projeto ambicioso e criativo. A recente notícia de que o Notion agora é grátis para uso pessoal foi o incentivo final.

Eis o objetivo que eu me coloquei: eu quero algo que me permita criar uma lista de aulas para cada disciplina, com notas de aula para cada aula, e que me permita visualizar na forma de calendário.

Alguns recursos para ajudar a começar

Eu segui todas as instruções e tutoriais que aparecem quando você cria uma conta, e isso foi o bastante para criar o calendário mostrado anteriormente, mas queria mergulhar de maneira mais profunda para melhorar a partir do próximo semestre.

Eis os pontos principais:

  • Eu quero não apenas um calendário de aulas, mas uma visualização de lista que me permita visualizar cada aula dentro do contexto da disciplina, e.g. “Aula 1: Introdução”, “Aula 2: Lei de Fourier”;
  • Eu quero que cada “aula” conforme vista na tabela contenha notas que eu possa consultar durante as aulas, links para materiais relevantes que vou citar e disponibilizar, slides usados, exercícios

Para re-começar basicamente do zero, esse vídeo do Keep Productive é um bom primeiro passo.

Montando as páginas no Notion

O Notion funciona na base de tabelas, que são propriamente bancos de dados. Após alguma experimentação, eu criei uma tabela com os seguintes campos:

  • ID: a sequência daquela aula na disciplina; por exemplo, uma disciplina que tenha aula 1x por semana, durante as 18 semanas do semestre, vai ter aulas numeradas de 1 a 18;
  • Nome: o título daquela aula (e.g. “Ciclo Padrão de Compressão a Vapor”)
  • Status: uma propriedade do tipo “Escolha” que indica em que estágio está a preparação da aula: “A fazer”, “Notas no papel”, “Slides prontos”, “Ministrada”
  • Disciplina, identificada pelo código para ficar mais curto
  • Tipo: se a aula vai ser síncrona, ou é uma prova, ou uma apresentação de trabalho etc

O trabalho duro foi rever as aulas que dei nesse semestre, refletir sobre o que quero mudar para o próximo, e de fato preencher a tabela:

E isto que ainda está faltando as aulas de uma disciplina, que não tenho certeza que vou ministrar ainda

Facilitando a visualização

Para filtrar por disciplina, é fácil definir um filtro pela propriedade relevante:

Não vou negar: é bem divertido brincar com o Notion, até o momento eu que eu realmente vou ter de preparar cada aula dessa

Notas de aula

A outra função que quero aplicar no Notion é uma versão pelo menos rudimentar de notas de aula para consultar durante a aula.

O Notion vem com templates prontos, inclusive sobre educação. Para montar a tabela, eu comecei adaptando o template Lessons Plans para a tabela, e traduzindo o template de nota Lesson Plan (no singular) para usar para cada aula. Assim, clicando em cada linha da tabela de aulas, eu posso começar a rascunhar ideias para as aulas, usando os prompts do template:

Traduzido do template “Lesson Plan” embutido no Notion

Próximos passos

O semestre 2020-1 foi uma confusão em termos de notas: as primeiras aulas estão em notas rascunhadas que eu usava para escrever no quadro negro; algumas disciplinas já tinham alguns slides; e depois das aulas remotas, todas as aulas foram dadas completamente em slides.

Tudo indica que o semestre 2020-2 vai começar de forma remota também. Agora, o trabalho a ser feito é consolidar todas essas notas espalhadas nessa tabela central (que eu criei aliás para isso), preparar slides de apoio, e começar um novo capítulo da minha carreira de professor.

E o leitor, usa o Notion nos seus projetos?

Categorias
Artigos

Como eu preparo provas para faculdade

Nota: esse texto está sendo publicado após a realização e correção dos exames mencionados aqui, sem nenhum prejuízo à lisura do processo. Nenhum aluno (nem nenhuma pessoa, aliás) teve acesso a este texto ou às fotos mostradas aqui, nem a nenhuma informação relevante para a realização dos exames.

Em outubro de 2020, a universidade em que trabalho está realizando os exames finais do primeiro semestre letivo desse ano, com o desafio adicional de tudo ser totalmente não-presencial. Penso que esta é uma excelente oportunidade para eu refletir como eu preparo provas e compartilhar neste blog o meu processo.

Papel e caneta para começar

Minha vida nerd dá voltas. Quando eu comecei a mergulhar no mundo Apple, em 2012, queria fazer tudo digitalmente, e cheguei ao extremo de tomar notas para uma disciplina enquanto fazia mestrado exclusivamente “escrevendo” em um iPad 2.

Agora, mais velho e menos infectado por hypes, eu sei que a melhor forma de escrever é em papel e caneta.

Começar a preparar uma prova é um processo analógico. No máximo, um iPad (agora o iPad Air 3ª geração, um presente para mim mesmo para finalizar esse semestre) para consultar PDFs e músicas:

Começando os trabalhos de preparar uma prova

Como exemplo, eu estava preparando uma prova da disciplina de Transferência de Calor e Massa I, do curso de Engenharia Mecânica. Então o grosso da prova é calcular propriedades e correlações empíricas:

Gosto de resolver as provas em papel, com caneta e calculadora, para simular precisamente como os alunos resolveriam

Esse processo leva de uma a duas horas. Vou escrevendo e resolvendo questões, tentando simular ao máximo como meu alunos resolveriam a prova. Esse gabarito naturalmente é usado para a correção das provas.

Digitando em LaTeX

Para disponibilizar um arquivo que será distribuído aos alunos (e que seria impresso se o semestre fosse presencial), eu uso LaTeX, sobre o qual já escrevi extensamente.

Como editor de LaTeX, eu ainda uso Emacs. Para automatizar o processo, eu tenho um template que insere um modelo básico de prova (e que chamo de LaTeX Problem Set porque uso para listas de exercícios também) com um comando do menu, assim que crio um novo arquivo LaTeX:

Tendo como resultado:

Sim, é 2020 e eu ainda estou usando Emacs

Se o leitor quiser usar esse modelo, aqui está:

\documentclass[english,brazil,shortlabels,article]{techreport}
%% see https://github.com/fabiofortkamp/techreport
%% I honestly cannot remember where I got this from
\newenvironment{problem}[2][Problem]{\begin{trivlist}
\item[\hskip \labelsep {\bfseries #1}\hskip \labelsep {\bfseries #2.}]}{\end{trivlist}}
\usepackage{siunitx}
\usepackage{enumitem}
\usepackage{pdfpages}
\sisetup{
output-decimal-marker = {,},
per-mode = symbol, }
%% see https://github.com/fabiofortkamp/engsymbols
\usepackage{engsymbols}
\begin{document}
\pretextual
\titulo{Final Exam}
\autor{Prof. Fábio Pinto Fortkamp}
{\ABNTEXchapterfont\large University ...}
\par
{\ABNTEXchapterfont\large Departament of ...}
\par
\begin{center}
\vspace{\baselineskip}
{\ABNTEXchapterfont\LARGE\imprimirtitulo}
\par
\vspace{\baselineskip}
\ABNTEXchapterfont\large\imprimirautor
\par
\vspace{\baselineskip}
\end{center}
\textual
\begin{center}
\vspace{\baselineskip}
{\ABNTEXchapterfont\large\bfseries Basic Instructions:}
\par
\vspace{\baselineskip}
\end{center}
\begin{itemize}
\item Be explicit in every calculation
\item ...
\end{itemize}
\begin{center}
\vspace{\baselineskip}
{\ABNTEXchapterfont\large\bfseries Problems:}
\par
\vspace{\baselineskip}
\end{center}
Some introductory text.
\begin{problem}{1 (2,0 points)}
Calculate something.
\end{problem}
\end{document}

O bom desse template é que ele tem espaço para instruções básicas e já defini um ambiente para criar questões, com uma formatação adequada.

Após revisão, o PDF está pronto para ser publicado no Moodle.

De onde as ideias vem

Tudo isto é ótimo, mas esse processo eficiente só funciona se, ao sentar para rascunhar a prova, eu já tiver a ideia na cabeça.

O meu segredo principal é usar as caminhadas matinais com meu bebê para falar em voz alta algumas ideias. Ele se tranquiliza com o som da minha voz, e (provavelmente) reclama menos que a minha esposa se fosse ela a ouvinte das minhas ideias de prova. Na foto acima, eu sentei para escrever logo depois de chegar de uma caminhada.

Algo que, ao final do meu primeiro semestre, já se tornou meu estilo é mesclar questões numéricas (essenciais num curso de Engenharia), com “pausas estratégicas” para os alunos pensarem um pouco na teoria:

Já faz parte do meu estilo colocar algumas questões teóricas no meio da prova para fazer uma pausa de cálculas

Além disso, trata-se da pergunta geral sobre criatividade. Não há resposta senão as básicas: ao longo desse semestre, eu fui roubando ideias dos livros que estudei para preparar aulas; eu observei quais os tópicos que mais geram discussões (e que portanto tendem a ser mais importantes) entre os alunos; eu fiquei subconscientemente pensando em que questões colocar, a cada vez que tomava banho ou lavava a louça; e eu arrisquei, sem ter 100% de certeza de que é a melhor prova que eu poderia preparar. Eu preparei a prova, e cronometrei o meu tempo para ter certeza de que os alunos também vão conseguir fazer (sendo naturalmente mais lentos que eu), e tenho confiança em mim e conheço meus alunos para perceber que é uma prova justa e mediana.

Uma das maiores vantagens de ser professor universitário: sempre há um próximo semestre para melhorar.

Categorias
Artigos

Métodos de entrada no meu computador

Este texto é uma continuação do post sobre como ministro aulas
Por métodos de entrada, quero falar de todas as formas pelas quais interajo com o computador.

Sobre o computador em si

Minha máquina principal, e sobre a qual vou falar aqui neste texto, é um MacBook Pro 2017 13’’, comprado quando eu morei na Europa em 2017. Eu adoro esse computador: é leve, potente, não deu problema até agora, roda macOS (um sistema operacional simplesmente fantástico).

Sobre os embutidos no computador em si

Eu gosto do teclado embutido do MacBook Pro. Ele é confortável de digitar, não faz muito barulho (o que é ótimo quando esse mesmo computador mora na mesma casa de um bebê — embora eu esteja louco para experimentar um bom teclado mecânico e avaliar como é a experiência) e nunca deu problema, apesar de sua má fama.

O trackpad embutido também é ótimo. Ele responde bem, permite um fácil deslizamento, é enorme sem comprometer o peso do laptop, e é uma ótima plataforma para os vários gestos permitidos pelo macOS (como deslizar com quatro dedos para trocar de app em modo Tela Cheia). Esses gestos podem até ser personalizados, e novos gestos podem ser criados. Quando estou “no modo laptop”, i.e. sem monitor externo, nunca pego um mouse para usar o laptop.

Meu teclado externo de preferência

Quando estou usando o laptop em modo “Desktop”, sentado numa mesa em frente a um monitor externo, o teclado que uso é o Logitech MK 220. Minha escolha por esse foi simples: eu gosto da Logitech, e queria um bom custo-benefício.

Foi uma escolha acertada: é confortável de digitar, tem várias media keys que permitem controlar brilho, volume, reprodução de música, silencioso.

Usando este teclado, minha velocidade média de digitação é de 57 palavras por minuto, bem na média, portanto. Claramente, tenho algo a melhorar.

Também uso vários atalhos de teclado no próprio macOS que eu mesmo criei, geralmente para abrir apps (e.g. Cmd+Shift+Ctrl+Option+L abre a janela do BusyCal para que eu possa rapidamente criar um evento — e tenha em mente que eu remapeei a tecla Ctrl do lado esquerdo para a combinação Cmd+Shift+Ctrl+Option; quer saber mais sobre isso? Deixe nos comentários!

Também uso extensivamente o Alfred e diversos workflows para abrir programas, procurar arquivos, navegar pelo meu histórico de copiar e colar, invocar meus Bunches

Meu mouse de preferência

Uma extravagância que cometi nessa quarentena foi um Mouse Trackball Logitech Mx Ergo. Eu acho que ouvi falar de trackballs em algum episódio de Cortex, provavelmente nesse, e, intrigado, comprei um.

A grande vantagem de um trackball é que você não precisa mover o braço para mover o ponteiro, e usa apenas o polegar para mover a bola — e, ainda por cima, o mouse é ergonônico, elevado:

Duas fotos lado a lado, mostrando o mesmo mouse em duas posições: horizontal e levemente inclinada
As duas posições do Logitech MX Ergo

Um mouse poderoso desse ainda vem com vários botões que podem ser personalizados com o app da Logitech. Sinceramente, ainda não me acostumei a usar esse poder. Apenas sentar confortável e ergonomicamente, com o mouse numa posição fixa, já vale.

Magic Trackpad (externo)

Uma das minhas coisas favoritas da Apple é que eles fabricam exatamente isso: um trackpad externo, para usar todos os gestos de que falei acima mesmo com o computador montado a um monitor, sem que eu interaja olhando para o laptop.

O fluxo de trabalho de trabalhar num app usando o teclado, e erguendo levemente o braço para a esquerda para alcançar o trackpad (muitas vezes enquanto minha mão direita continua usando o teclado) para rolar páginas é sensacional.

Mesa digitalizadora

Essa tem sido uma ferramenta essencial para dar aulas. A One by Wacom é uma forma de efetivamente desenhar na tela do computador, e tem sido muito usada.

Ainda estou me acostumando com esse método, essa mesa é a mais simples da Wacom, e minha letra ainda é feia. Mas, como o site acima propagandeia, seu uso abriu novas formas de interagir com o computador.

Conclusões

E chego ao fim desse texto com essa mensagem: eu gastei tempo documentando tudo isso para mostrar que, mais que gadgets, essas ferramentas são ferramentas de criatividade. A mesa digitalizadora mudou a minha concepção de aulas remotas, permitindo-me rabiscar livremente em cima de documentos e apresentações. O bom teclado e o bom mouse me fazem querer sentar e trabalhar para preparar boas aulas.

Volto sempre ao que Austin Kleon diz: as ferramentas importam e as ferramentas não importam.

Categorias
Artigos

Como ministro aulas remotamente

Meu estilo de ministrar e gravar aulas remotamente é basicamente narrar em cima de slides e documentos e, quando as aulas são síncronas (eu e meus alunos ao mesmo tempo em uma vídeo-conferência), promover e moderar discussões sobre o assunto. Geralmente, disponibilizo vídeos e textos adicionais de outras fontes da internet.

Vamos aos detalhes então:

Apps

Keynote

Para cada disciplina, sigo um estilo visual no Keynote. Nos slides, coloco as informações chave e muitas imagens e gráficos; evito texto já que vou falar “ao vivo” para os alunos ou gravar uma narração.

Uma grande ajuda para preparar bons slides é o Presentations Field Guide, de David Sparks. É bom para reforçar alguns pontos, como usar os alinhamentos automáticos, ajustar a transparência de figuras para evitar um fundo branco, apps auxiliares para gravar vídeos e editar imagens, entre outros.

Estou desenvolvendo um sistema de criar slides automaticamente. A ideia surgiu nesse episódio do Automators, que me levou a esse AppleScript. O fluxo é:

  1. À medida que vou estudando o conteúdo de uma aula, vou desenvolvendo um mapa mental no MindNode;
  2. Quando estou satisfeito, exporto para OmniOutliner — primeiro exporto um OPML, que abro no OmniOutliner e em seguido salvo no seu formato padrão, para poder ter acesso a todos os seus recursos;
  3. Rearranjo o outline com base na regra do script: um tópico por slide;
  4. Quando estou satisfeito, invoco o programa, que pede o tema do Keynote e se o formato dos slides é panorâmico ou padrão;
  5. Então edito a apresentação até chegar no formato final.

PDFpenPro

Ultimamente, tenho usado o PDFpenPro para 2 coisas:

  1. Editar slides prontos que o meu orientador muito gentilmente me cedeu — acrescento textos, rearranjo figuras, etc.;
  2. Também uso as funções de escrita livre para gravar enquanto resolvo exercícios.

Screenflow

Para gravar a tela do meu computador e criar vídeos, uso o Screenflow. É caro como toda ferramenta profissional, mas fácil de usar ao mesmo tempo em que é acessível. Encarei também como um investimento, pois sempre quis aprender a fazer screencasts e aprender mais sobre produção de áudio e vídeo. Como todo nerd, comecei esse aprendizado com uma ferramenta superdimensionada.

Alguns recursos interessantes que de fato ajudam:

  • Filtrar o ruído de fundo;
  • Equalização automática do nível de volume, evitando um som inaudível ou estourado de tão alto:
Volume de som conforme gravado…
… e depois de equalizar os volumes
  • Atalhos de teclado fáceis e uma interface intuitiva para cortar pedaços de vídeo, como quando eu parei de falar, ou quando repito os “éééééé”:
Cortando um pedaço de silêncio muito grande
  • Poder aumentar o tamanho do mouse, ou mesmo eliminar de um trecho:
Aumentando o tamanho do ponteiro em 70%
  • Poder facilmente colocar textos explicativos durante a edição, se percebo que falei algo que não ficou claro:
Corrigindo uma pequena basteira que falei
  • Congelar o vídeo em um freeze frame para estimular os alunos a pensarem um pouco sem eles terem de pausar o vídeo — após alguns segundos, a narração e imagens continuam.

Seguindo recomendações que vi em praticamente todo lugar (mas essa página do MIT é um bom guia geral para começar a se preparar para dar aulas online), tento manter vídeos de no máximo 20 minutos. Dizem que o ideal mesmo seria 5-6 minutos, mas isso aumenta o número de vezes que tenho de parar e começar a gravar, e não sei o quão ótimo isso seria.

BBB

Big Blue Button é uma ferramenta open source de video-conferência. A Udesc usa em conjunto com o LMS Moodle (LMS = Learning Management System, sistema de gerenciamento de aprendizado); há muitos desenvolvedores na universidade mais que qualificados a gerenciarem os servidores, sem ter que pagar por um serviço comercial (que, na escala de uma universidade, certamente custaria muito caro).

Por que é interessante? O recurso matador para mim é poder fazer upload de um PDF e anotar em cima dele, como escrevendo um quadro (do que, aliás, sinto muita falta nesses tempos de aulas remotas). Há um chat integrado então posso ir acompanhando as dúvidas.

Nas últimas semanas do semestre letivo de 2020-1, parei de usar o Screenflow e tenho usado o BBB para gravar aulas também, entrando numa “sala” vazia e gravando. A qualidade não fica tão boa, mas não preciso me preocupar com editar, exportar, fazer upload. E posso anotar livremente em cima dos slides; depois que passei a usar o BBB exclusivamente, um aluno chegou a me mandar um email dizendo que a qualidade das aulas melhorou muito.

Um adendo sobre o fluxo de gravação de vídeos

O lado ruim de usar o BBB é que não tenho cópias dos vídeos. Nesse semestre tive de preparar muitas aulas rapidamente, então não sei se gostaria de reaproveitar essas gravações de qualquer jeito, e o semestre 2020-2 (a começar em novembro/2020) vai ser dedicado a melhorar os “primeiros rascunhos” de aulas. Com isso quero gravar vídeos mais definitivos, que possa reusar nos próximos semestres (eu estou nessa profissão para ficar).

O que me leva a pensar em como fazer upload efetivo. No meu mestrado cheguei a me aventurar na edição de vídeos, mas isso já faz 6 anos e esqueci tudo que aprendi naquela época. Assim, ter de aprender rapidamente a gravar e editar vídeos em tão pouco tempo foi levemente insano.

Para de fato disponibilizar os vídeos para os alunos, estava usando o método burro, que era criar páginas dedicadas no Moodle e fazendo upload manual dos vídeos ou usando a integração do Moodle com o OneDrive, que é meu serviço de nuvem — por nenhum motivo em particular a não ser vir com uma assinatura do Office e é usado como compartilhamento de pastas de fotos com minha esposa. A Udesc também fornece Office e tenho inclusive de melhor organizar essa separação entre arquivos pessoais e arquivos de aula.

Esse método é “burro” porque é bastante lento — de fazer upload e para os alunos assistirem, além de sobrecarregar o servidor. No semestre que vem, vou usar o YouTube ou a Microsoft Stream, que é a ferramenta institucionalizada de vídeos da Udesc.

Equipamentos

MacBook Pro 2017

Meu computador exclusivo para dar aulas é um MacBook Pro (13-inch, 2017, Two Thunderbolt 3 ports). Considero seu desempenho excelente para os usos dos softwares que listei acima.

Uso a webcam embutida para aparecer para meus alunos; é boa o suficiente, embora eu quero montar um setup com uma webcam melhor, até para poder usar um monitor externo para efetivamente dar aulas enquanto a tela do laptop fica como apoio (atualmente tenho de ficar alternando entre o Chrome com o BBB e algum material que esteja consultando, como exercícios).

Fones de ouvido

O headset que uso como ferramenta de áudio é o Kotion each G200 (veja foto de capa deste post). Acho ele meio pesado, mas nunca fico muitas horas com ele.

Eu queria um headset mediano, e aparentemente esse mercado é dominado pelo segmento gamer. Eu não amo o seu visual chamativo (mas, para ser sincero, também não odeio).

A qualidade do áudio é decente para um professor que está dando aulas pela primeira vez. E ele se conecta à interface de audio do laptop, então não preciso me preocupar com interfaces externas. Eu até comprei um microfone condensador para me aventurar, mas não considerei o quando a interface é realmente necessária (ele veio com uma mini placa de áudio USB que não adianta de nada). Um projeto para o futuro.

Métodos de entrada

Aguarde; amanhã haverá um post apenas sobre meu teclado, mouse e outros acessórios.

Ambientes

Por último, um comentário sobre o processo de gravação. Quando vou gravar um vídeo ou dar aula síncrona, enquanto estava numa casa maior em Florianópolis, eu usava um quarto cheio de almofadas e travesseiros para abafar o eco. Na minha casa atual em Joinville, não tenho um quarto extra disponível (e, como minha esposa pode facilmente atestar, minha voz alta tem o risco de acordar o bebê — um pecado capital para pais).

Assim, tenho gravado aulas na minha sala na Udesc. Não é perfeita, tem bastante eco e a iluminação não está nada arrumada…

Mas foi assim que eu consegui terminar o meu primeiro semestre como professor.

Categorias
Resenhas de livros

O Médico e o Monstro e eu e você

Como parte da minha assinatura Amazon Prime, tenho acesso a alguns ebooks gratuitos todo mês no regime de empréstimo: posso ter 10 títulos na minha biblioteca do Kindle, e se quiser mais tenho de devolver algum. Geralmente são livros ditos “clássicos”, e o fato de que estou lendo mais livros desse tipo meio que já justifica os R$9,90 mensais.

Um dos títulos que li recentemente foi justamente O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Eu não sei o leitor, mas eu não era nenhum um pouco familiar com a história, e na minha cabeça o Monstro da história era algo do tipo um lobisomem, ou um The Hulk: uma criatura gigantesca, incapaz de controlar a raiva, de aparência abominável. Minha grande surpresa é que o monstro do título é um ser humano, apenas… mau.

O livro é muito curto, uma novela, e de leitura fácil. A lição principal, porém, é muito relevante.

Eu já falei aqui de saúde mental, da minha luta contra depressão e ansiedade. Eu estou mais que ciente de que essa luta é para a vida toda. Eu não me sinto mais deprimido, mas a doença só está adormecida, e desponta com sinais conhecidos: pessimismo, senso de tragédia, mau humor. Felizmente, anda controlada. Eu aceito e acolho meu lado deprimido, meu lado que tem pensamentos violentos, o meu lado que diz para não aceitar uma vida que não seja perfeita.

Porque se eu não aceitar o meu lado mau, ele aflora, exatamente como no livro. O médico da história tenta separar as suas personalidades boa e ruim, com resultados catastróficos — o lado mau sempre vai vencer pela trapaça e pela violência. Dr. Jekyll não era Edward Hyde, mas o continha.

O Setembro Amarelo está acabando, mas não existe tempo certo para falar de sanidade mental. Se você tem pensamentos sombrios, são só isso, pensamentos, e não quer dizer que você é sombrio. Se você não consegue ver a diferença, procure ajuda: familiar, terapêutica, médica, espiritual. É literalmente um caso de vida ou morte.

Categorias
Resenhas de livros

Resenha: Os Testamentos

Os Testamentos, de Margaret Atwood, é a continuação de O Conto da Aia (minha resenha). O universo compartilhado entre os dois romances mostram um mundo onde guerras nucleares provocaram uma epidemia de infertilidade nos EUA. Como resposta, um grupo religioso fundamentado no Antigo Testamento toma o poder, funda a República de Gilead e estabelece uma nova sociedade de castas. As mulheres férteis são escravizadas como aias, que devem copular com os seus mestres, os Comandantes da Fé, numa cerimônia com o testemunho das suas Esposas supostamente inférteis — os próprios maridos podem ser biologicamente, mas não legalmente, estéreis.

Os testamentos dos títulos são relatos de três figuras relacionadas ao regime; como era de se esperar, as aventuras das três se une no meio do romance.

Pelo que as opiniões do Goodreads deixam claro, minha opinião não parece ser muito popular, mas aqui vai: Os Testamentos é um romance superior ao seu antecessor. A alternância de personagens torna a leitura mais fluida; O Conto da Aia usa um recurso de se focar em apenas uma personagem (Offred), mas deixa dúvidas se não está se referindo a todas as aias. O romance tem bem mais elementos de ação, ao mesmo tempo que educa o leitor sobre a origem de Gilead (a grande pergunta não respondida do primeiro livro, pelo que Margaret Atwood comentou no prefácio). É uma combinação certeira em um livro de ficção: entretimento simples, ao mesmo tempo em que promove reflexões sobre o feminismo (que a autora não abraça, aliás) e política.

Uma reflexão ainda não tem resposta, porém: qual o propósito de Gilead? Quem de fato se beneficia com o regime? A vida dos líderes (comandantes) parece bem miserável. Não há grandes luxos disponíveis, como carros, bebidas, cigarros; e eles têm de constantemente gerenciar o regime para não sucumbir à resistência e manter as mulheres sob controle. Mesmo o bordel de O Conto da Aia parece bem melancólico. Claro, há comportamentos como o de um dos personagens, que coleciona esposas-crianças; mas mesmo ele tem de disfarçar as suas preferências, e sendo assim o que diferencia de um pedófilo no mundo atual?

O mais perturbador do universo de Gilead é que ele não é absurdo. A classe de políticos estilo Bolsonaro-Trump certamente adoraria um mundo onde não existisse qualquer resquício de participação feminina na política, e onde elas pudesse ser avaliadas livremente pelo potencial sexual; nosso presidente até se envolveu em uma discussão online e no Facebook dizendo que as críticas do presidente Macron da França contra o desmatamento da Amazônia são porque a sua mulher é muito feia. Por outro lado, o livro mostra mais um exemplo de como a Segunda Lei da Termodinâmica é cruel: sistemas onde a ordem é imposta artificialmente requerem muito trabalho para serem mantidos, e estão fadados a voltarem a um estado mais natural.

Tudo bem se eu encerrar esse texto dizendo que a esperança, afinal, vem da Termodinâmica?

Categorias
Miscelânea

Diário dos dias de hoje

Segunda-feira, 11 de maio de 2020, 11:00: meu empregador passou a aceitar formulários que antes eram preenchidos a mão apenas no formato digital. Gasto alguns minutos aprendendo a usar os sistemas. Faz algumas semanas que meu empregador me deu acesso a uma assinatura digital.

Segunda-feira, 11 de maio de 2020, 14:00: nosso plano de saúde nos avisou que um formulário preenchido no computador é inaceitável, e precisa ser preenchido a mão, a caneta (a marca não foi especificada). No momento estou numa casa sem impressora, então pus minhas roupas de sair, peguei uma das minhas máscaras, e sai, no meio de uma pandemia, para imprimir 6 folhas de papel. Aproveitei para comprar fraldas. Na volta, gastei 30 minutos desinfetando o envelope, o pacote de fraldas, minha carteira, minhas chaves, minha máscara, meu celular, a mesa onde pus tudo isso, e tomando banho. Pelo menos depois comi um pedaço de bolo e assisti um pouco de um filme sobre o 11 de setembro.

Segunda-feira, 11 de maio de 2020, 21:00: esqueci de avisar, hoje é meu aniversário. Para comemorar, pedimos Poke, e pus a máscara para receber o entregador. Aí lembrei que ele provavelmente nem tem plano de saúde de que reclamar. Que dias são esses?

Categorias
Resenhas de livros

Resenha: Fogo & Sangue Volume 1

Quando eu e minha esposa estávamos para nos casar, amigas dela fizeram aquela brincadeira de perguntar meus favoritos: livro, banda, filme etc, e ver se ela acertava. Minha banda favorita é fácil: qualquer um que me conhece um pouco mais profundamente sabe o quanto eu gosto dos Beatles. Saber o meu livro favorito exige um pouco mais de intimidade, de tantos livros que eu leio, mas minha esposa acertou em cheio: meu livro favotiro são As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

Eu não sou o nerd típico no sentido de nunca ter sido muito fã de fantasia. Não jogava RPG e muitos dos livros do gênero me soam cansativos — ainda nem terminei de ler O Senhor dos Anéis. E na primeira vez que li A Guerra dos Tronos, o primeiro livro da série, também me senti cansado. Meses depois, persisti e tentei ler mais uma vez, com um pouco mais de paciência e esforço, e daí não parei mais. Acho que o que me encanta mais não é o aspecto fantasioso, que nem é tão abundante assim, mas o aspecto histórico e político. Aí sim fui o CDF típico, de adorar histórias medievais, jogar Age of Empires e Civilization. Lembro-me do meu espanto quando, adolescente, dei-me conta de que ainda existem reis e monarquias no mundo. Para ser bem sincero, acho as monarquias europeias muito mais fascinante que as repúblicas. Os aspectos políticos do mundo em geral me interessam; quando pensei em ser jornalista, flertei com a ideia de ser jornalista político e fazer análises precisas, e ainda hoje é o que mais me interessa nos jornais.

De uma certa maneira, As Crônicas de Gelo e Fogo arruinaram a minha leitura. Perto da sua complexidade, outros livros parecem bobos, sem intrigas inteligentes, sem personagens de cujas intenções não se sabem. Eu leio muitos romances históricos, e nesse tipo de livro, quando aparece uma donzela, filha de cavaleiro ou nobre, eu já sei o que vem por aí: ela quer se casar com um camponês, mas precisa se casar com o visconde; ela é virgem e ele frequenta prostíbulos; ela quer estudar mas o mundo é dos homens. Ainda que o mundo devesse ser assim, custo a crer que na sua intimidade elas eram tão unidimensionais. Nas Crônicas, por outro lado, você têm Sansa, que começa como uma donzela sonhadora mas logo começa a participar das conspirações (ainda que sempre assustada).

Este Fogo & Sangue: Volume 1 é um prólogo à série — e, desconfio fortemente, uma distração para o autor para não continuar nos próximos livros sequenciais. Martin se coloca na pele de um arquimeistre (para os completamente leigos: um erudito) para contar a primeira metade da história da Dinastia Targaryen, como se fosse um historiador pesquisando e relatando o que aconteceu séculos antes. E é aí que me causa o primeiro espanto: Martin está no mesmo universo de todos os seus outros livros da série, mas consegue inventar outra voz completamente diferente, como se de fato não fosse a mesma pessoa que escreveu As Crônicas e este livro. Como acadêmico, também me identifico com o pretenso estilo científico, de “citar” várias fontes, como se fosse um tratado mesmo: “este autor fala disso, mas não podemos confiar; este outro diz isso, e estava presente nesses acontecimentos”.

Para qualquer fã, este livro vai apresentar claramente episódios que são mencionados em fragmentos ao longo da série, especialmente toda a conquista de Aegon no começo. Também tem detalhes sobre os Baratheon que ajudam a entender como Westeros aceitou Robert tão facillmente como rei após a queda de Aerys II.

O que esse livro não responde é o que mais me intriga e incomoda: como é possível haver tanto incesto em uma família sem consequências biológicas e sociais. Será o mundo retratado na série tão diferente da vida real. Será que “os Targaryen não ficam doentes” (o que se torna um ponto importante de discussão no meio do livro)? Jaehaerys I, por exemplo, era justo, sábio, bravo, conciliador — mas teve mais de 10 filhos com a irmãzinha. Só eu fico incomodado com isso?

Questiono algumas escolhas narrativas: na cronologia da dinastia, duas crianças assumem o trono em seguida, com os mesmos problemas, e os mesmos acontecimentos (regentes ambiciosos, meninos querendo ser adulto etc). Acho que essa repetição só torna o livro mais cansativo e não acrescenta nenhuma discussão nova. Também tenho dificuldade em seguir tantos nomes parecidos: Daemons e Daerons, Rhaenys e Rhaenyras.

Mas Fogo e Sangue: Volume 1 é um livro de leitura fácil e deliciosa, que permite mergulhar num mundo fascinante que na verdade nos ajuda a entender o nosso mundo. Algumas pandemias aparecem na história, e o que se faz é trancar os castelos, ninguém entra e ninguém sai, os doentes são tratados, todo os portos e mercados são fechados, até o que o problema acabe. Estranho, não?

Categorias
Artigos

Como tenho lidado com essa quarentena

Ficar isolado em casa não é fácil. Aliás, deixe-me reformular. Eu sou incrivelmente privilegiado por estar com minha família, protegido, conseguindo trabalhar e ganhar meu salário. Além do mais, eu adoro trabalhar em casa. De fato, passei grande parte de meu doutorado brigando por esse direito. As ideias de Cal Newport deixaram marcas em mim: eu trabalho melhor completamente isolado e concentrado numa tarefa. Odeio reuniões. Valorizo mais conversas por email, onde tenho tempo de pensar no assunto, do que encontros de corredor. Estar trabalhando em casa nessa quarentena, sempre em contato com minha esposa e meu filho, não é um problema.

Mas esse senso de incerteza, de que algo está errado, da insegurança de como vai ser quando acabar, de se vou pegar a doença quando vou ao supermercado, se alguém da minha família vai ficar doente — isso não é fácil, especialmente para aqueles que, como eu, sofrem com ansiedade e têm experiência com depressão. Como falei, a calma de ficar em casa é boa, mas não há variedade, corridas na rua, passeios com meu filho, restaurantes com minha esposa. E, claro: sinto falta de estar numa sala de aula, com os alunos tirando dúvidas, escrevendo em giz.

Estamos nos aproximando de completar um mês dessa situação, e em muitos lugares isto está longe de acabar. Aqui está o me ajuda a tornar esse momento mais leve, e espero que ajude outras pessoas. Essa dicotomia entre gostar de ficar em casa mas saber que as coisas não estão bem (e o que fazer em relação a isso) foi bem tratada em um Nerdcast recente.

Meditação

Se pudesse elencar um ato que tem me ajudado, é a meditação, o que tenho feito com o Headspace. Desde o nascimento do meu filho João, eu andava meio relapso nessa prática, dedicando-me apenas em alguns dias esporádicos. Nessa quarentena, porém, eu não falhei nenhum dia.

Meditar não é um ato religioso; é apenas parar e respirar. Embora digam que a meditação verdadeira deva ser completamente silenciosa, eu gosto de ter o guia do Headspace me sugerindo diferentes pontos no que me focar; gosto de explorar os diferentes temas; e a voz do Andy simplesmente me relaxa. O Headspace é um serviço pago, e eu trato como um gasto de saúde mental; mas se você está interessado, eles liberaram muitas sessões de graça. Baixe o app e se permite experimentar.

Oração

Eu acabei de falar que não trato a meditação como uma forma de orar, porque isso para mim é uma atividade em separado. Eu medito ao longo do dia, geralmente quando quero me acalmar, e durante apenas 10 minutos. Na oração, as Oficinas de Oração e Vida me ensinaram a praticar a Sagrada Meia Hora, 30 minutos dedicados à leitura da Bíblia e ao diálogo com Deus.

Pronto para orar bem aconhegado

Eu confesso que, desde o nascimento do João, em muitos dias não consigo achar 30 minutos de calma pois, quando ele vai dormir, eu mal mantenho os meus olhos abertos de tanto cansaço. Mesmo assim, sempre fiz um esforço de todo dia pelo menos fechar os olhos e fazer uma oração silenciosa, geralmente agradecendo a Deus. Nessa quarentena, consegui voltar a dedicar mais tempo, com uma rotina mais estável, e posso me sentar no sofá e me abrir. Como bem identificado por Frei Ignácio Larrañaga em Salmos para a Vida, eu alterno entre diferentes modos de orar: às vezes me comunico diretamente com Jesus, tentando seguir Seu exemplo humano; às vezes me dirijo ao Pai, pedindo ajuda e me aninhando eu Seus braços; e muitas vezes apenas contemplo a Sua Figura, sem falar nada.

O app Liturgia Diária da Canção Nova tem sido de grande ajuda nesse período. O app me mostra a Liturgia do dia e ainda traz uma homilia e um texto sobre o santo do dia. Muitas vezes eu apenas consulto as leituras no app mas leio de fato na minha Bíblia, mas ocasionalmente, quando estou cansado demais num dia corrido, eu leio no próprio app e medito um pouco.

Há um efeito colateral de medir a passagem do tempo, que anda bastante bagunçada, através do calendário litúrgico.

A meditação é o mínimo necessário para minha mente não se agitar muito. É na oração, porém, que eu realmente me consolo.

Exercícios

Já que não há mais caminhadas e passeios, meu corpo precisa liberar energia de outra forma. Tenho feito exercícios de manhã para me ajudar a acordar e me energizar um pouco.

Minha escolha de app de exercícios é o Seven, que propõe circuitos de sete minutos de exercícios sem equipamentos. Não se deixe enganar pelo tempo, pois o ritmo é intenso. Eu sempre faço dois circuitos, o que me dá 15 minutos de suor para começar o dia.

Eu tenho seguido um treino do Seven personalizado, que alterna as partes do corpo a focar em três sessões por semana. Nos outros dias, às vezes uso o “Move Mode” do Headspace, que tem exercícios estilo Yoga para alongar e relaxar (embora tenha treinos aeróbicos também), e muitas vezes faço treinos de abdominais e flexões apenas para fazer alguma coisa.

Meu filho adora ver o papai pulando na cozinha

Outra forma de variedade nos exercícios é ter alguns dias para simplesmente fazer abdominais e flexões, e uso dois apps da Adidas que não estão mais disponíveis na App Store.

Quanto ao espaço para praticar tudo isso, eu simplesmente coloco um tapete de ioga e um rolo na minha cozinha, quando ninguém está mais aqui. Não é o ideal nem a minha forma preferida de praticar exercícios, mas esse não é o tempo para se preocupar com perfeição.

Falta de espaço para me exercitar não pode ser desculpa

Leitura

Eu tenho lido muito nessa querentena e, depois de muito tempo pregar a superioridade de livros em papel, a paternidade me ensinou a ser mais pragmático e ler livros no Kindle, muitas vezes no celular ou no meu Kindle Paperwhite, em pequenos intervalos ao longo do tempo. Acho que não sou o único a ver meus hábitos mudarem.

Eu estou numa febre de livros de fantasia e históricos — e acho que isso tem a ver com fugir do tempo presente. A leitura é o meu momento de relaxar, e parei de me exigir tanto.

Foco

Nos momentos em que quero trabalhar de fato e desenvolver minhas aulas, uso o app Forest, que me força gentilmente a focar em uma tarefa e não tocar no meu telefone. Sendo sincero, para mim funciona como uma maneira lúdica de alternar entre momentos profissionais e pessoais (quando vou ficar um pouco com meu filho, arrumar algo da casa etc).

No Forest, você configura um tempo e escolhe uma árvore para plantar; se sair do app antes do tempo configurado, a árvore morre. Nada revolucionário, apenas uma maneira agradável de delimitar momentos de trabalho profundo.

Fazer o que eu gosto

Em geral, o mais importante tem sido tratar o momento com leveza. A Thais Godinho tem sido muito sensível em salientar muito isso em seus posts, e você deveria acompanhá-la, se gosta do que eu escrevo. Esse período não é fácil, mas vai passar. Acho que o mais importante é aproveitar as coisas boas, e faço questão de sempre registrar isso no meu diário: a oportunidade de almoçar todo dia com minha esposa, assinar o Globoplay só para assistir Modern Family, continuar cozinhando ouvindo podcasts.

Pode ser que falte um pouco de diversidade na minha fila de podcasts.

Coisas materiais podem ter parado, mas a vida continua.

Eu fazendo o que gosto. Em dias que não são a Sexta-Feira Santa o chá geralmente dá lugar à cerveja
Categorias
Artigos

Meu estilo de preparar e dar aulas

Falei no post anterior sobre como venho moldando minha rotina para preparar aulas, então pensei que seria interessante compartilhar exatamente como eu preparo e dou aulas.

Sei que soa ridículo alguém que começou a fazer isso há apenas um mês já estabelecer o seu “manual”, mas enfim, é tempo de quarentena e esse é o tempo que eu tenho para pensar em como eu faço as coisas.

Escolhendo no que trabalhar com Todoist

Com o meu alto volume de aulas (17 créditos), eu sempre sei que preciso estar trabalhando na preparação de aulas, mas como vou determinar qual disciplina eu vou preparar hoje?

Já falei aqui do meu sistema de canais de atenção, uma maneira de ter três projetos importantes entre os quais vou alternando meu foco (e, escrevendo isso, percebo preciso atualizar aquele post). Um desses projetos é concluir o semestre de aulas na Udesc, mas isso implica várias tarefas diferentes. No Todoist, tenho uma etiqueta para esse canal, e mais etiquetas adicionais para cada disciplina; se acabo uma tarefa da disciplina, muitas vezes já engato em ações da mesma área:

Captura de tela do Todoist, mostrando meu filtro "Channel 2" com todas as tarefas de preparar aulas
Assustado com o número de assuntos diferentes?

Todo dia, o Todoist me mostra as ações mais urgentes. Quando meu bebê está sendo bem cuidado pela mãe maravilhosa dele (ou, antes da quarentena, quando eu estava na minha sala na Udesc), eu sento para trabalhar, ligo o Deezer:

Captura de tela do Deezer, mostrando que ele me recomenda apenas playlists de música clássica e ambiente
Sim, Deezer, sua Inteligência Artificial conseguiu aprender os meus gostos

…e vou completando as tarefas da disciplina que é prioridade nesse momento.

Aulas analógicas…

Para mim, preparar aulas é um processo essencialmente analógico. Minha mesa de jantar fica tomada por livros, folhas de anotações, artigos impressos. Meu laptop está do lado com uma música e eventualmente com algum material de consulta, mas é na caneta que as ideias saem da minha cabeça.

Aos meus colegas engenheiros: saudades das aulas de Transferência de Calor?

Não só preparar, mas dar aulas também é um processo analógico. Minha aulas são praticamente todas em giz; é assim que eu lembro das melhores aulas que tive (mesmo durante o Mestrado e Doutorado), e é assim que são muitas das aulas que já assisti do MIT. Fora que, como descobri muito rápido, existe uma satisfação imensa em debulhar suas ideias em giz:

Naturalmente, esse tempo de quarentena muda tudo, e na Udesc estamos nos preparando para dar um grande número de aulas online. Nos meus primeiros testes preparando aulas para serem transmitidas pela internet, percebi que ainda é mais eficiente primeiro preparar aulas no papel, e depois passar para formatos digitais.

… com slides para complementar, com uma identidade visual fixa

Apesar do que acabei de escrever, ainda uso slides para complementar as aulas (mesmo as presenciais), apresentando fotos de componentes, gráficos mais complexos, resultados de artigos científicos. Posso estar muito enganado, mas acho que alcanço um bom balanço.

Para prepará-los, eu uso o Keynote da Apple. É mais leve que Powerpoint, tem estilos muito bonitos, e as animações são fáceis de configurar. Os textos do Teddy Svoronos tem me ajudado a pensar em como usar a tecnologia para dar aulas de maneira eficiente.

Falando em slides e no Keynote, algo que me ajuda meu cérebro a trocar de contexto cada vez que tenho de trabalhar em uma das minhas 5 disciplinas é criar uma identidade visual, com um tema do Keynote fixo para cada disciplina:

Automatizando o que precisa ser feito no computador

Quando de fato uso o computador, realizo várias tarefas: editar os slides de que falei acima, consultar arquivos em PDFs de livros e artigos, fazer cálculos e gráficos.

Para automatizar tudo isso, e para me ajudar a trocar de contexto, tenho usado o Bunch do Brett Terpstra. Esse é um aplicativo que fica na minha barra de menus:

A leitora consegue adivinhar qual código corresponde a qual disciplina na galeria de slides acima?

Quando eu seleciono um desses tópicos, acontecem várias coisas:

  • As janelas abertas de fecham para deixar um estado limpo no meu computador
  • O Finder abre na pasta da disciplina correspondente, de onde acesso os materiais complementares
  • O MindNode abre no mapa mental correspondente
  • O iTerm2 abre na pasta da disciplina, e ativa um ambiente Conda onde posso usar o CoolProp (para calcular propriedades termodinâmicas)
  • Para algumas disciplinas, já abro PDFs frequentemente acessados.

O Bunch requer certa experiência em programação para poder ser configurado; você cria arquivos com instruções para cada “projeto” do Bunch. A título de referência, aqui vai um desses arquivos que uso, com algumas informações mais sensíveis removidas:

# Comments start with a hash symbol, blank lines are ignored
# Use @@ to hide all visible apps. Usually used at the top of the file
# before launching the rest of the bunch
@@
# Include a line starting with a dash to open specific
# files in the app
# If the first file listed is "XX", all open windows
# for the app will be closed first
# Please check which is your MindNode folder and replace below
# Draq the folder into the Terminal and issue `pwd`to find out the current directory
MindNode
- ~/Library/Mobile Documents/<MindNode Folder>/Documents/Aulas ST1GEE1/Geração de Energia I.mindnode
Keynote
- ~/OneDrive/Udesc 2020-1 ST1GEE1/ST1GEE1 Aula 1.key
%Finder
- /Users/fabiofortkamp/OneDrive/Udesc 2020-1 ST1GEE1/
%iTerm
- ~/OneDrive/Udesc 2020-1 ST1GEE1/
Preview
- <PDF files to open, one per line>
view raw ST1GEE1.bunch hosted with ❤ by GitHub

Não economizar em livros

Eu gasto uma quantidade impublicável de dinheiro em livros de Engenharia, mas ter essa quantidade de material à disposição (o que quer dizer ter muita teoria e muitos exercícios) vale muita a pena; para disciplinas onde não há bons livros-texto, a tarefa mais difícil é justamente ficar coletando materiais aqui e ali.

Aqui a influência do meu orientador é muito visível: a coisa que mais me chama a atenção na sala dele é a estante carregada de livros. No meu apartamento alugado, tenho de dividir os livros em vários locais — principalmente para não sobrecarregar as prateleiras, que não foram feitas para um maníaco por livros como eu.

Sou fã dos livros do Çengel
Foto de pastas de plástico e alguma livros antigos
Eu adoro a minha etiquetadora
Foto de livros diversos sobre motores de combustão interna
O Fábio de alguns anos atrás, que nunca gostou de carros, não acreditaria que o Fábio de 2020 teria uma prateleira só de livros de motores

Fazer os alunos interagirem

Por fim, algo que aprendi rapidamente: uma maneira das aulas passarem mais rápido e torná-las mais interessantes é, a cada coisa “surpreendente” que eu falar, virar para a sala e perguntar: “por que isso acontece”? Muitos alunos realmente prestam atenção e conseguem responder da maneira que eu esperaria, o que é sempre gratificante.

E esse é o ponto: todo esse trabalho, toda essa rotina, alimenta um dos trabalhos mais gratificantes que Deus me deu: ensinar.