Arquivo da tag: tecnologia

Como um padre usa a tecnologia

Eu não uso mais os produtos da Apple, mas esse episódio do podcast Mac Power Users com o Padre Gabriel Mosher é fantástico. Como alguém que se interessa profundamente pela intersecção da religião com outros aspectos da vida, fico muito fascinado pelo pragmatismo do Father Gabriel: não se trata de “pecado” ou de um “luxo excessivo”, e sim de usar a tecnologia para se fazer o trabalho da melhor maneira possível. Se esse trabalho é preparar homilias e administrar uma paróquia, coisas que fazem a diferença na vida de muitas pessoas, é mais importante ainda ser eficiente e eficaz.

Mesmo se você não se interessa nada por Apple, vale a pena ouvir o episódio só pela definição de que ser padre é como “ser um pai solteiro que administra quatro empresas ao mesmo tempo”.

Padre Gabriel também apareceu nesse episódio do Systematic, igualmente interessante. E falando em podcasts, preciso atualizar a minha lista de podcasts favoritos. Em breve.

(E depois de se recuperarem do choque de ver dois posts em dois dias seguidos aqui, após um hiato de dois meses, podem voltar à sua vida normal).

Por que tenho o meu próprio endereço de email

Eu tenho 26 anos. Sou (do fim) da década de 80, do ano da nossa constituição, antes da queda da União Soviética.

Sou também de uma das últimas gerações que nasceram antes da internet e dos computadores onipresentes. Tenho muitos primos mais novos e eles não vivenciaram muitas experiências interessantes. Lembro muito bem do dia em que meu pai chegou em casa com uma novidade, um telefone que mostrava o número de quem estava ligando, e eu achava que aquilo só poderia ser mágica. O primeiro computador que tivemos em casa não entrava no Windows automaticamente; era preciso digitar C:\win na linha de comando. O Windows 95 foi outra mágica.

Meu contato com a internet é mais recente ainda, totalizando alguns poucos anos no total. Mesmo assim, já vi tecnologias, programas e sites irem e virem. Eu usava muito um buscador chamado Cadê?, que sumiu. Usei o Yahoo, que depois perdeu relevância para o Google. Também tive contato com algumas redes sociais; ouvi muito falar do MySpace, embora não tenha chegado a usar. Depois, veio o Orkut, com comunidades e depoimentos. Depois todo mundo migrou para o Facebook, que já está decaindo (só não vê quem não quer), com sua propaganda excessiva. O Twitter para mim é muito mais interessante mas está sumindo também.

Meu primeiro email era do nosso antigo provedor de internet (que acho que nem existe mais). Depois tive um no Hotmail (na época em que ele era extremamente popular), e outro no Gmail (o “email que todo mundo tem” de agora). O Uol foi bastante popular por um tempo também.

Da mesma maneira que eu já vi serviços subirem e descerem, não existe nada que garanta que os de agora não vão sumir. Há alguns anos, todo mundo achava que o MSN duraria para sempre. Por isso, não podemos nos deixar enganar: o grande serviço popular que você usa vai sumir, ou no mínimo ficar estagnado. Vai surgir outro serviço e você vai querer ser cool e migrar, junto com seus amigos (você já quis ir para o Facebook só porque estava todo mundo lá). E aí vai precisar de outro endereço de email.


Na minha resenha do livro Platform, escrevi:

Platform: Get noticed in a noisy world foi o livro que me motivou a lançar FabioFortkamp.com.

Não foi só na decisão de criar esse blog. Platform me fez pensar muito na minha presença online. Que imagem eu quero passar? E como organizar todas as minhas atividades?

Na base, tudo começa com o domínio. FabioFortkamp.com é o meu domínio, o meu endereço na internet. Se alguém quiser saber o que esse cara chamado Fábio Pinto Fortkamp pensa, ou o que ele faz, pode começar por esse site. Ou pode procurar por @fabiofortkamp no Twitter, ou por fabiofortkamp no Github, se você for nerd como eu. Como Marco Arment escreveu num texto muito inspirador para mim, você precisa tomar posse da sua identidade.

O fato do domínio ser meu nome é um mero detalhe. Qualquer que seja a marca (o tal branding), o importante é controlá-lo.

E é por isso que o meu email principal usa o meu domínio: fabio arroba fabiofortkamp ponto com. E é por isso que, em 2014, eu pago por um serviço de email.

Veja você, ter um domínio próprio custa US$ 13 — por ano. Como falei, esse domínio é meu. Se eu estiver insatisfeito com a empresa que administra esse domínio, ou se ela deixar de existir, posso trocar de empresa e levar esse endereço (como na portabilidade de telefones).

Para o serviço de email propriamente dito, eu uso o excelente Fastmail (link afiliado; se você assinar o serviço por esse link, eu vou ganhar uma pequena comissão, mas você não vai pagar nada a mais. Caso não se sinta confortável com isso, aqui vai um link padrão) — por sugestão do próprio Arment. Por US$ 40 anuais, eu tenho um serviço de email excelente, controlado pelo dinheiro dos usuários e não por publicidade. Isso me custa, já com o dólar alto e com IOF, cerca de R$ 9 por mês. Menos que um almoço a quilo, nessa economia de hoje. Essa pequena quantia, junto com o custo do domínio (que já é baixo e me permite ter outras coisas, como este blog), de certa forma me protege um pouco contra as oscilações da internet. Se o Fastmail acabar, como o domínio é meu, posso facilmente mudar de provedor de email, mantendo o mesmo endereço. Se é que email vai existir ainda, quem sabe meus netos vão poder mandar emails para mim por esse endereço.


Eu tenho outros problemas com o Gmail (uso-o como exemplo porque era o que eu usava e acredito que seja o mais popular). O meu lado engenheiro gosta de padrões, e o Gmail não é um serviço padronizado de email. Configurar um aplicativo de email qualquer, que não seja feito especialmente para o Gmail, é um trabalho monstruoso. No ano passado, problemas entre o Mail.app do OS X e o Gmail renderam discussões e mais discussões. Simplesmente, o Gmail não segue à risca o IMAP, o padrão dos emails. Tem muitas tecnologias inovadoras, como a busca fantástica, o sistema de tags, mas ainda assim não é padronizado. Ele praticamente força você a usar o site e os apps do Google.

A padronização também facilita a migração, no caso de problemas. Caso eu queira ou precise mudar de provedor de email, basta apontar o domínio para o novo serviço e sincronizar as pastas de caixa de entrada, arquivo e quaisquer outras.

Há também o lado da privacidade, mas isso sinceramente é um detalhe. Eu continuo achando assustador o Gmail me mostrar anúncios baseado no texto do email, mas enfim, é assim que as coisas são. Por outro lado, ao usar um serviço próprio de email, pagando por ele como você pagaria pelo Netflix ou Spotify, você se protege em pelo menos mais um local.


Como falei, eu uso o Fastmail, mas honestamente meu objetivo é fazer os leitores pensarem um pouco mais na importância de identidade digital e de quem sabe considerarem terem seu domínio (numa nota adicional, também pode ser divertido ver a cara das pessoas quando você diz o seu email com um endereço personalizado assim). Ainda estou apredendo a usar os recuros do Fastmail; por enquanto, posso dizer que a proteção de spam e os filtros diversos funcionam muito bem. O podcast Technical Difficulties fez uma excelente cobertura. Mas com certeza existem outros serviços excelentes.

E não custa repetir: para mim, o email está longe de morrer.

Ebooks

No último episódio do Posdemfio, Bia Kunze e Glauco Damas discutiram o mercado de ebooks. Como leitor assíduo (de livros físicos e alguns poucos eletrônicos) há muito tempo, gostaria de dar minha opinião sobre o assunto.

Antes, por favor, escute o episódio. Aproveite e assine o podcast de uma vez porque ele é ótimo.

Ferramentas

Um pouco de contexto primeiro. Eu não tenho nenhum leitor eletrônico dedicado. Penso em comprar um Kindle, mas é para depois. O dispositivo que uso para ler livros digitais é um iPad 2; nele tenho o app do Kindle, leio alguns livros no formato do iBooks e alguns PDFs. Assim, minha discussão se baseia nesse conjunto de ferramentas.

Fetiche

O primeiro ponto que muitas pessoas discutem é sobre o tal “fetiche” por livros de papel, o cheiro de livro novo, o toque das páginas. Isso não se aplica a mim; quanto à questão da sensação física de se ler um livro, não tenho nenhum interesse no aspecto de sentir o papel em minhas mãos; acho que a principal diferença para mim é o conforto de ler.

Eu gosto muito de ler na cama, e a iluminação do iPad, mesmo no nível de brilho mais baixo, incomoda bastante (e eu sempre tive problemas de sono). Porém, como falei, não tenho um e-reader, e dizem que as telas desses gadgets é muito melhor, mas custo a acreditar que seria tão confortável quanto o papel — no máximo, muito melhor que o iPad (embora a tela Retina faça diferença). Tive pouco contato com Kindles de outras pessoas, então não posso falar se a tal tela que “foi feita para ler” não causa absolutamente nenhum cansaço.

Outra coisa ainda impossível de se fazer num ebook é segurar uma página enquanto se olha outra, para recuperar um conceito ou uma figura. Mas isso pode ser detalhista da minha parte.

Formatação

O segundo grande ponto em relação a livros eletrônicos é quanto à formatação.

Os livros de programação que comprei no formato Kindle são praticamente inutilizáveis, com muitos códigos mal formatados, alinhamento que dificulta a leitura do código, além de figuras mal posicionadas. Livros de programação geralmente utilizam fontes diferentes para texto e para o código, tarefa que, creio, o formato Kindle (eu sei, o formato do arquivo tem outro nome, mas vou me referir como Kindle por simplicidade) não facilita. Para piorar, com muitas figuras, as diagramações ficam muito esquisitas.

Hoje acredito que, para livros técnicos, com elementos estáticos (já vou falar disso), o único formato aceitável é PDF.

Para livros que se constituem de muito texto, porém, os livros em Kindle e ePub que li são bons — permitem ajustar por exemplo o tamanho da fonte e a cor da página (para não ficar aquele branco brilhante). Alguns livros que resenhei depois de ler no app Kindle do iPad e ter ficado satisfeito com a leitura são Platform e The Information Diet.

Recursos

É aqui que os ebooks brilham.

Pegue um livro de David Sparks (como o ótimo Paperless, o maior autor de ebooks interativos do mundo, ou de Vladimir Campos com o ótimo Planejando Viagens no Evernote, a maior expoente do gênero aqui no Brasil.

(Aos dois: vocês são meus ídolos.)

Eles sabem aproveitar as vantagens que a mídia digital proporciona. Seus livros tem muitos vídeos, fotos que os leitores podem ampliar e visualizar de muitas formas, links para sites e outros aplicativos, e são extremamente bem formatados. Nesse caso, com esses elementos dinâmicos, têm uma clara vantagem sobre PDF (ver seção anterior).

E o que falar da habilidade de poder procurar quaisquer expressões em um livro eletrônico? É o único momento em que às vezes me dá raiva de usar um livro de papel (principalmente quando índice de assuntos é mal feito, para os livros mais técnicos).

Autopublicação

Por último, vamos falar do tema principal do podcast que mencionei, a autopublicação, onde os autores publicam seus livros sem necessidade de editora.

Sempre dei sorte com livros autopublicados. Além dos livros dos autores que mencionei na outra seção, posso citar os livros do Kourosh Dini sobre Omnifocus. Porém, sinceramente, eu tenho algumas reservas em relação à autopublicação. Ao contrário de alguns setores, que talvez só se aproveitam de um monopólio, eu considero as editoras grandes participantes no mercado de livros, que prestam um serviço muito bom aos leitores. Por exemplo, eu posso ter quase 100% de certeza que um livro da O’Reilly vai ser bom, porque passou pelo processo de edição, foi revisado, com a parte técnica muito bem analisada. A editora nesse caso não se atravessa no caso do autor, ela faz um pouco do trabalho com uma equipe especializada.

Coisa semelhante ocorre com livros de ficção. É claro que muitas pessoas podem ter a capacidade de escrever, dar para algumas pessoas revisarem, e publicar, e o livro vai ser ótimo. Mas acho que isso funciona melhor para autores experientes. Eu sempre sonho em escrever e publicar livros, mas não sei se teria coragem de autopublicar meu eventual primeiro romance.

Conclusões

Na minha opinião, ebooks têm um futuro bom, mas acho que vai demorar para eles serem uma “revolução”. Ainda estamos na fase de um mercado fragmentado, com leitores de uma empresa incompatíveis com as obras de outras lojas (e sem motivação para fazer um leitor universal). O preço também conta; o Kindle, o mais famoso (e que permite acessar o catálogo gigantesco da Amazon), é mais caro que o a maioria das pessoas gasta em livros por ano (mas não vamos entrar no mérito de se o brasileiro lê pouco ou não).

Esses detalhes tendem a ser menos relevante com o tempo; a competição tende as grandes lojas de livros a terem catálogo equivalente, com o adicional de diminuir o preço dos aparelhos. Como bônus, a qualidade tende a aumentar (tanto do hardware quanto do software) e muitas reclamações que eu fiz aqui tendem a desaparecer.

Ainda precisamos aproveitar mais o e do que o book. Eu faço muitas anotações enquanto leio; no app do Kindle ou do iBooks, mesmo para livros mais simples, ainda não sei um jeito fácil de exportar todas as minhas notas num único arquivo, coisa que muito me ajudaria para organizar minhas notas e formatar minhas resenhas.

Para os livros mais técnicos, quem sabe um dia vamos poder digitar um código em um livro de programação e vê-lo ser executado. Ou visualizar um gráfico quando alguma função matemática é mencionada em um livro de engenharia, talvez com a ajuda do Wolfram Alpha. Convém sonhar.

Resenha: Conecte-se ao que importa

Um dos meus textos favoritos publicados em FabioFortkamp.com é Você não precisa de uma tela Retina, onde falei que nem todo mundo precisa do melhor smartphone do mercado; precisamos usar a tecnologia para resolver nossos problemas da melhor maneira, e detalhes como a qualidade ultra-refinada da tela ou a velocidade do processador muitas vezes são supérfluos.

Não é um dos textos mais populares desse site, mas tê-lo escrito teve um impacto grande sobre a minha maneira de pensar. Quando sai alguma notícia sobre algum gadget ou app novo, eu ainda não consigo evitar ficar bem animado, mas sempre paro e me pergunto que utilidade teria aquilo na minha vida. O que conseguiria fazer de bom com essa nova tecnologia? Tirando a infame parte cool da novidade, para que serve?

Essa minha visão utilitária de engenheiro não significa que menosprezo áreas abstratas como Física e Matemática — pelo contrário, admiro-as profundamente! A nossa busca por conhecimento é que nos faz humanos, em parte. Porém, quando somos usuários da tecnologia, precisamos pensar sim na utilidade de coisas nas quais gastamos nosso dinheiro e nosso tempo.

Um livro que expressa muito bem essa minha filosofia, de usar os recursos tecnológicos para um fim maior, é Conecte-se ao que importa, do jornalista Pedro Burgos, e se você concorda ao menos em parte comigo, deve lê-lo.


Burgos era editor do Gizmodo Brasil mas se cansou de escrever sobre GHz, como ele mesmo diz. Conecte-se … é uma reunião das suas ideias sobre tecnologia como um meio, sobre o quanto a nossa permanente conexão (seja à internet, seja simplesmente à tela do celular) está afetando a nossa ligação com o mundo real, e sobre como precisamos curar esse nosso vício.

Não é difícil atestar que estamos sim viciados. Num exemplo matador, o autor exemplifica que nossa definição de um lugar distante e remoto é “onde não pega sinal de celular”, ou seja, onde nem existe mais civilização. E quando isso se torna um fator para não querermos ir mais viajar, ficar com pessoas que nos fazem bem, pelo simples medo de ficar desconectado, isso é um problema.

Existe uma analogia muito interessante com carros no livro. No começo, o carro era uma invenção revolucionária, que agilizou muito o transporte de pessoas. Hoje, porém, usamos o carro para ir na padaria da esquina, usamos o carro como transporte individual para tudo, e achamos estranho quando alguém usa o ônibus — pior, sentimos pena. O resultado nos afeta, com cada vez mais acidentes e congestionamentos. O que estamos fazendo, então? Propondo uma volta à bicicleta, ao rodízio de carros, ao incentivo ao transporte público — ou seja, ao uso mais esporádico do carro — em busca de um equilíbrio. No futuro, vamos ter de fazer isso com a internet.

Ao longo do livro, então, Burgos analisa diversos aspectos da nossa relação com tecnologia, expõe problemas e mostra como pode-se pensar numa solução. Num dos meus exemplos preferidos, o autor conta que encontrou um amigo para contar sobre sua viagem, mas percebeu que o outro estava desinteressado, pois já tinha visto todas as fotos no Facebook e lido tudo no blog. As redes sociais talvez estejam eliminando o fator “quais são as novidades?” de uma conversa.

Existem vários outros pontos que me chamaram realmente a atenção. Os aplicativos de navegação, por exemplo, são fantásticos, e, repito, resolvem um problema real. Mas a febre do social é tão grande que queremos socializar até mesmo quando estamos dirigindo, usando o Waze (que pertence ao Google) para informar onde há blitz e para nos comunicar com outros motoristas, porque claro que isso é sensato. Ou o paradoxo em que chegamos em relação a internet: temos acesso a todo tipo de opinião, mas o Google e o Facebook fazem um esforço enorme para personalizar a nossa internet, exibindo-nos apenas o que interessa. Ou sobre a nossa aversão ao tédio, onde puxamos nosso smartphone a cada vez que ficamos sem fazer nada, e isso pode estar tirando nossa capacidade de pensar.


O último capítulo, “O Preço do Gratuito”, deveria ser impresso à parte e todos os brasileiros deveriam ler. É 2014, o Netflix custa menos de R$ 20 por mês, um filme numa locadora custa R$ 5, e ainda tem gente baixando filme por torrents — pior, achando que isso é um direito, já que está lá na internet mesmo, e que isso não é roubar já que não diminui a quantidade de filmes disponíveis, e que pelo menos você não está dando dinheiro para o camelô da esquina.

Não se iluda. Se você baixa um filme, você está roubando uma obra. Produzir um filme é um trabalho, assim como o seu emprego, e as pessoas são pagas pelo dinheiro gerado — bilheteria, marketing, vendas e locação de DVDs, streaming. Você não tem direito de assistir a um filme se não quiser pagar, como não tem direito de comer num restaurante se não quiser pagar. Ninguém lhe obriga a fazer nenhuma dessas duas coisas, mas se fizer, deve pagar.

Como o autor diz, os jornais dão muito espaço às histórias de sucesso do “compartilhamento de cultura” e ignora os que dizem que perderam muito dinheiro. Leia e reflita, e pense que é o seu emprego que poderia ser “compartilhado” por aí.


No fim, Conecte-se ao que importa é um livro que provoca uma reflexão profunda. O quanto que a tecnologia nos ajuda? O iPad, que pode ser usado para ler e falar com pessoas distantes, pode ser um terminal de YouTube permamente. A internet 3G, móvel, pode ao mesmo tempo lhe liberar da mesa de trabalho (já que você não precisa mais estar no escritório para ver seus emails) ou o ligar continuamente a ela (quando em jantares com a família você recebe notificações de assuntos supostamente “urgentes”).

Escolha um problema, e procure uma solução por meio da tecnologia, que lhe permita voltar rapidamente ao que gosta.

O aspecto fundamental do email

Vladimir Campos escreveu um artigo interessante sobre o tal “futuro do email”:

Mas preciso confessar, é cada vez maior o número de contatos comerciais que recebo via mensagem interna do Facebook, WhatsApp, Hangouts, Skype etc. São tantos, que tenho certeza que logo ultrapassaram o tradicional e-mail. Afirmo isso mesmo considerando algo tão sério quanto a negociação de um contrato. A propósito, já negociei sim com um cliente, do início ao fim, via Facebook. Só no momento do envio do Doc com as cláusulas contratuais usamos o e-mail.

Já vi muitas discussões desse tipo, mas muitas perdem um aspecto fundamental do email, para mim: a universalidade.

Eu tenho pessoas muito próximas de mim que não têm smartphone, ou não sabem usá-lo, ou se recusam a instalar quaisquer aplicativos; para essas pessoas, WhatsApp não é uma possibilidade de comunicação. Outras não têm Facebook ou, como eu, não querem mais usá-lo. Outros não ouviram nem falar em Hangouts. Algumas gostam mesmo de falar pelo telefone.

O email, porém, é universal. Todas as pessoas que eu conheco têm email e acessam com certa regularidade; elas estão dispostas a pagar por um computador, uma ferramenta de trabalho e onde checam os emails, mas não podem se dar ao luxo de ter um iPhone (que, embora possa ser bem útil, ainda não pode ser usada para trabalho por muitos), ou Galaxy. Você pode ter email de graça (em troca de anúncios), ou, se for um paranoico com privacidade como eu, pagar por um serviço privado. Todos os grandes provedores fornecem uma plataforma na web geralmente boa, mas também é possível configurar email em programas de desktop ou mesmo nos smartphones, para os que têm. O email é antigo, bem documentado, padronizado, conhecido; a minha prima que “nasceu na era digital” e a minha tia que teve o primeiro computador aos 40 sabem usá-lo. Também é confiável; já cansei de mandar mensagems por SMS, WhatsApp ou Facebook que nunca chegaram ao destinatário, coisa que acontece muito raramente com email.

Eu concordo que, para comunicação individual, certas tecnologias são melhores. Não vou mandar um email para minha mãe cada vez que quiser falar com ela. Porém, para atingir um grande número de pessoas simultaneamente, eu ainda preciso dele.

Note to Selfie

John Dickerson:

When you pause to write about something—even if it’s for Twitter or
Facebook—you are engaging with it.

Já se tornou um clichê tão grande criticar as pessoas que tiram fotos e
tuítam sobre tudo que quando alguém apresenta um ponto de vista
diferente a reação imediata é de surpresa.

Nessa belo texto, Dickerson argumenta que o fato de você registrar um
momento mostra que ele significa algo tão importante para você que você
está dedicando um tempo para registrá-lo e compartilhá-lo com outras
pessoas.

É um ponto de vista interessante. O meu problema não é com a frequência
com que as pessoas compartilham é com a qualidade do quê se
compartilha. Se alguém vai em um restaurante e publica que a comida é
maravilhosa, isso é uma utilidade pública. Se publica uma foto de si e
do seu cônjuge num jantar maravilhoso, com uma legenda do tipo “10 anos
de casado”, isso faz com que eu, como humano, me sinta tocado.
Realmente, como disse Dickerson, essas pessoas deram um sentido maior ao
evento em questão ao parar e registrar seus sentimentos.

Por outro lado, se alguém simplesmente faz um check-in do restautante no
Foursquare que automaticamente aparece no Twitter, essa pessoa só quer
se mostrar. E tem gente que só usa as redes sociais para isto.

Eu sigo muitas pessoas que são desconhecidas para mim, e elas geralmente
publicam coisas muito interessante, mas também trivialidades que não me
interessam. Não me importa — são pessoas reais que estão por trás
dali, e ninguém é interessante 24 horas por dia.

Meu problema é com tuítes do tipo “Oie”, “Bom dia”, “Que fome”. Dezenas
de fotos seguidas do cachorro. Xingamentos do time adversário que fez
gol. Isso não acrescenta absolutamente nada.

Não se trata de compartilhar mais ou menos, e sim de compartilhar
melhor.

Simplifique sua vida digital

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu
narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações,
seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Na nossa caminhada para simplificar nossa vida, chegamos a uma etapa que é
crítica para mim e para todos que tendem a se viciar em tecnologia.
Temos que simplificar nossa vida digital.

No manifesto, Leo se concentra em dois
tópicos da área de tecnologia: usar a nuvem, para evitar os problemas de
sincronizar múltiplos dispositivos e poupar espaço no computador (ele se
refere principalmente ao Google Docs), e simplificar o número de coisas
que você guarda ou acessa no computador – menos fotos, menos emails,
menos arquivos.

Aqui vou tomar um ponto de vista mais direcionado: quero simplificar o
meu uso de computadores e outros gadgets.

É normal usar um computador (claro, se a tarefa pede isso), mas há
alguns problemas. É normal querer um smartphone por achar que ele vai
acrescentar, mas não é normal se desesperar se o seu smartphone estraga.
É normal gastar dinheiro em algum app que você vai usar, é um problema
gastar dinheiro demais comprando aplicativos só porque todo mundo usa. É
normal você bater uma foto do encontro com os amigos e compartilhar no
Instagram, mas registrar cada garfada (e a cor do seu esmalte) é
ridículo.

Sempre que você gasta tempo demais com tecnologia em detrimento das suas
prioridades, é preciso simplificar.

Para mim, simplificar a vida digital tem três etapas.

Simplifique os seus dispositivos

Algumas pessoas têm um notebook, um computador de mesa, um smatphone, um
tablet, um e-reader, um tocador de mp3 e sabe-se lá o que mais.

Em primeiro lugar, veja se você não pode reduzir esse número. O
propósito de se ter um dispositivo poderosos (como o iPhone) é ele poder
executar várias funções ao menos tempo. Ter menos dispositivos significa
menos gastos com manutenção, menos chance de roubo e ter de carregar
menos coisas.

Existe um limite, porém. Dependendo das suas necessidades, ter um
dispositivo dedicado pode ser um grande ganho de experiência. Por
exemplo, um tablet pode servir para ler livros digitais, mas um e-reader
especializado (como o Kindle ou o Kobo) é mais leve, tem bateria muito
mais durável, não induz à distração e tem tela menos cansativa aos
olhos. Repito: depende da sua frequência de uso. Se você praticamente só
usa o tablet para ler livros (no app do Kindle ou no iBooks, por
exemplo), pense em vender e comprar um leitor digital — muito
provavelmente você vai ganhar dinheiro.

Outro ponto é algo sobre o qual já falei: use o dispositivo certo
para a coisa certa. Não tente ter todos os aplicativos no seu
computador, no tablet e no seu smartphone. Isso é caro e inútil. Observe
o seu uso e instale aquilo que é pertinente.

E não se esqueça: talvez você não precise de um smartphone, muito menos
de uma tela Retina
.

Simplifique os seus programas

Isso é uma extensão da seção anterior. Você não precisa ter os melhores
e mais caros aplicativos, e nem os que todo mundo usa.

Um exemplo prático e pessoal: Evernote. É um bom serviço com bons
aplicativos, mas simplesmente não se adapta a mim. Para os leigos,
Evernote é serviço de armazenamento de notas, e suporta texto, PDFs,
fotos, websites. É um gerenciador de informações universal, mas a minha
filosofia é usar apps que fazem a sua tarefa bem feita. Guardo minhas
notas de texto, meus PDFS e minhas fotos em pastas sincronizadas pelo
Dropbox. Já falei do 1Password, que gerencia minhas informações
mais sensíveis. Os sites e tudo que acho de interessante na Web estão no
Pinboard.

Eu poderia usar o Evernote porque muitos usam (e quem acompanha blogs
tech sabe o quanto ele é popular na blogosfera e no Twitter). Mas não é
bom para mim.

Outra coisa que faço é desinstalar programas sem remorso. Se eu
realmente precisar deles, posso instalar de novo, mas até lá eles não
ficam ocupando memória e espaço na tela.

Uma dica de ouro que roubei do Brett Terspstra e do Michael
Schechter
foi criar um arquivo de texto contendo todo as funções que
realizo no computador, seguido do programa que uso, e sugiro fortemente
que o leitor faça isso. Sente e defina o que você faz em um computador:
organiza suas fotos, vê filmes, escreve, processa emails ou qualquqer
tarefa especializada. Para cada item, faça uma pesquisa breve sobre as
opções de apps e serviços, decida por uma e aprenda a usá-la — e não
fique mudando. Revisite essa nota mensalmente, para ter um documento
atualizado de auto-avaliação.

Simplifique seus arquivos

É fácil inundar nosso computador com arquivos em uma estrutura bagunçada
e depois perder tempo demais tentando encontrar informação.

Novamente, não existe receita para isso, e você deve ver a estrutura que
mais se adapta a você. Minha sugestão: comece com pastas abrangentes:
documentos, fotos, músicas, videos. A partir daí, vá especializando,
conforme seu uso. Eu, dentro da pasta de documentos, tenho uma pasta
para rascunhos de textos para FabioFortkamp.com, um pasta para a
faculdade, uma para meu mestrado… dentro desta, por exemplo, tenho uma
para os desenhos, outra para a dissertação, uma para manuais dos
equipamentos. Vá adaptando aos poucos.

O importante, enfatizo, é não perder tempo procurando. Se a sua
estrutura não se adapta ao seu pensamento, mude.

Como mencionei, a dica do Leo é para usar ferramentar online, como o
Google Docs, porque isso o permite trabalhar de qualquer lugar e não se
preocupar com organização de arquivos. Como abomino ter de depender do
Google, acho que com uma estrutura bem feita e com serviços como o
Dropbox você pode alcançar esses objetivos.

Em resumo

Computadores são ferramentas poderosas, mas não podem roubar atenção das
outras coisas. E, se você usar o computador como uma ferramenta de
trabalho, não deve perder tempo com coisas inúteis, para poder se
concentrar em fazer algo.

Simplificar a minha vida digital é uma tarefa contínua. As dicas que dei
aqui são as que me permitem fazer um uso mais racional da tecnologia,
usando os programas certos, organizando a informação para quando eu
preciso, evitar preocupações decorrentes disso. Espero que elas possam
ajudar o leitor também.

Os blogs que acompanho e por quê

Eu gosto muito de ler blogs; gosto de ler a opinião individual de alguém
sobre algum tema interessante. É uma mídia antiga (relativamente), mas
ainda relevante. Uma ideia central, desenvolvida, e maior que alguns
caracteres é geralmente melhor apresentada na forma de um post.

A seguir, eu listo os blogs que estão no meu leitor de RSS. Eu uso o
Feed Wrangler para isso, e é excelente. Pretendo escrever um texto
no futuro sobre esse serviço, mas o leitor pode usar qualquer serviço
(só não o Feedly).

E se algum dos meus leitores gosta de blogs, mas não sabe o que é RSS,
avisem-me que posso escrever um texto sobre o assunto. É a melhor forma
de acompanhar blogs, sem ter de ficar visitando a página em busca de
atualizações.

  1. And now it’s all this — Dr. Drang é o pseudônimo de um
    engenheiro americano, que faz uma mistura muito interessante de
    artigos sobre apps, engenharia, ciência e programação. O estilo é
    muito agradável de ler e nos posts mais técnicos dá para aprender
    muita coisa boa.
  2. BitQuill — Sobre tecnologia. Eu acompanho mais pelas
    entrevistas muito interessantes com blogueiros, desenvolvedores,
    podcasters. Também fala de resenhas de apps (num nível mais
    prático, como eu gosto), algumas dicas Apple e muitos artigos
    interessantes sobre filmes (outra das paixões do autor, Devir
    Kahan).
  3. BR-Mac.org — O melhor blog sobre Apple no Brasil. Os
    textos são muito práticos, sem nada de hype. E, não que isso faça
    diferença, o autor Augusto Campos é meu conterrâneo.
  4. BrettTerpstra.com — Terpstra é um programador americano
    criador do Marked, apresentador do ótimo podcast
    Systematic, e tem vários projetos para customizar o seu Mac.
    Blog técnico (sem dúvida é para aqueles que querem usar o seu Mac de
    maneira mais nerd) mas excelente.
  5. Chambers Daily — Bradley Chambers é autor de um ótimo
    ebook sobre organização de fotos, e traz dicas boas e textos
    curtos sobre tecnologia. A sua posição como diretor de TI na área de
    educação oferece um ponto de vista interessante.
  6. Efetividade — Do mesmo autor do BR-Mac.org, uma
    referência de produtividade do Brasil. Nada de muito tech; o blog
    fala de princípios básicos, que você pode implementar com a
    tecnologia que quiser. Traz dicas que foram implementadas na
    prática.
  7. MacDrifter — Outro blog técnico sobre Apple (nos moldes de
    And now it’s all this e BrettTerpstra.com). Uma boa fonte de
    aprendizado para usar melhor o seu Mac, e com muitos links para
    outros textos interessantes. Escrito por Gabe Weatherhead (de outro
    podcast que adoro, Technical Difficulties).
  8. MacSparky — David Sparks muitas vezes entra no hype de
    apps e gadgets, mas tem muitos textos interessantes sobre o mundo
    Apple. Também é autor de livros ótimos e apresenta o Mac Power
    Users
    .
  9. MattGemmell.com — Ensaios mais aprofundados sobre temas
    gerais de tecnologia. Do tipo “leia para refletir”.
  10. Productivityist — Mike Vardy escreve sobre produtividade,
    com textos curtos mas bem valiosos sobre usar melhor o tempo. Gosto
    do fato de ele citar apps como exemplos, e não do tipo você tem de
    usar isso
    .
  11. Shawn Blanc — Shawn Blanc escreve (bem) sobre Apple, e
    traz links muito interessantes. Se eu tivesse de escolher apenas um
    blog sobre Mac e iPhones, seria esse, por ser o mais abrangente.
  12. The Brooks Review — Ben Brooks fala de tecnologia de
    maneira crítica, com muitas e muitas críticas ao Google, Twitter,
    Facebook, NSA etc.
  13. Unretrofied — Chris Gonzalez apresenta algumas entrevistas
    interessantes sobre tecnologia e criatividade, além de algumas
    resenhas muito úteis. Gosto porque ele foge dos programas óbvios e
    explora casos de uso.
  14. Vida Organizada — Constantemente atualizado pela Thais
    Godinho. Muitos posts sobre produtividade e organização e algumas
    reflexões interessantes. É sempre uma das melhores leituras da
    semana.
  15. Zen Habits — O blog de Leo Babauta sobre minimalismo e
    simplicidade de onde tirei a série Simplifique sua vida.
    Infelizmente, alguns textos ultimamente estão sendo bem repetitivos,
    mas ainda assim vale acompanhar (à espera daquele texto profundo e
    que nos faz pensar).

Como o leitor pode ver, muitos blogs em inglês, e sobre tecnologia;
simplesmente não consigo encontrar muitos blogs brasileiros sobre
tecnologia e produtividade, os temas que mais me interessam.

Ao mesmo tempo, estou tentando variar os assuntos que leio, para evitar
o vício em tecnologia (e lembrar das coisas que importam).

Assim, se o leitor souber de algum blog interessante, compartilhe
comigo! Sempre estou em busca de aprender coisas novas e, acima de tudo,
ler um texto de boa qualidade.

Você não precisa de uma tela Retina

A minha namorada tem um celular Nokia antigo, daqueles de flip ainda
(lembram?). Não tem nenhum recurso a não ser os básicos: telefone,
mensagens, alarmes, uns joguinhos.

Os mais jovens dizem que o fato de ela ter um telefone velho assim “é
paia demais”, ou algo assim, não estou por dentro das gírias novas.
Apesar das críticas, é com esse celular que ela fala quase todo dia com
a mãe dela, a 800 km daqui. É com esse celular que ela se comunica com
os sobrinhos e irmãos que moram longe. É com esse celular que ela troca
mensagens comigo.

Ela não está nem aí para o que está acontecendo no Twitter (e eu,
namorado ruim que sou, continuo checando-o mesmo quando estou com ela).
Ela não ri das fotos com legendas engraçadas no Instagram. Ela consulta
o Facebook com calma, no computador dela. Ela não precisa consultar o
email quando está na fila do mercado.

Ela é formada numa universidade, trabalha, já morou em algumas cidades
diferentes, vai a festas, tem amigos, tem um namorado. Tudo isso sem um
smartphone. E ela diz que só vai comprar um outro celular quando este
estragar. Considerando que estamos falando de um Nokia antigo, isso quer
dizer nunca.

Namorá-la é com certeza a melhor coisa que me aconteceu nesse ano, e,
apesar de naturalmente não ser só por causa disso, ela é um lembrete
ativo do que queremos dizer quando precisamos de algo.

Você é um animal. Você precisa de água e comida. Precisa dormir. Precisa
fazer exercício. Precisa urinar e defecar.

Você também é um ser humano. Precisa ter cultura, sentir-se pertencente
a algo, relacionar-se com alguém (seja esse alguém Deus), integrar-se na
sociedade, estimular-se intelectualmente, descobrir a sua vocação.

O que você não precisa é de uma tela Retina.


Eu me formei em engenharia, então para mim a tecnologia é um meio de
vida. A minha profissão é criar tecnologia, então o leitor pode ter
certeza que não quero dizer que temos que abandonar toda tecnologia. O
que prego é que temos de ter uma atidude racional em relação a ela.

Meu tema de mestrado é a refrigeração, a ciência de produzir frio. Uma
geladeira é necessária? Depende. A humanidade viveu muito mais tempo sem
refrigeradores do que com eles. Mas eles certamente ajudam. Com uma
geladeira você precisa ir menos vezes ao mercado porque os alimentos
duram mais. Você se refresca com a cerveja no verão. Você pode preparar
a comida na véspera da festa para poder aproveitar com seus amigos. Tudo
isso é ótimo. Tempo e dinheiro poupado com a ajuda de uma geladeira
podem ser usados para outras coisas.

Tudo bem, os benefícios de ter um refrigerador são tantos que você
decide que precisa de um. Mas você não precisa de uma geladeira de
inox com duas portas. Você quer uma e pode comprar. Ótimo.

Da mesma forma, a minha namorada, por decisão própria, resolveu que não
precisa de um iPhone ou um Galaxy S4. Ela precisa manter contato com as
pessoas importantes na vida dela (eu humildemente arrisco me incluir
nesse grupo), e o aparelho que ela tem em mãos cumpre essas funções
perfeitamente. A tecnologia, nesse caso, está cumprindo o seu papel, de
resolver um problema real.


Nos últimos tempos, eu ando me cansando do lado mais podre do mundo
Apple. Desde o lançamento dos últimos modelo de iPad, só choveram
resenhas das mais aburdas, de como ele é mágico, de como dá vontade de
chorar de tão leve que ele é, de como ele se integra a sua mão. Não há
um dia que eu não veja um artigo comparando o iPad Mini ao iPad Air. E
podcasters e blogueiros famosos estão dizendo que vão comprar um iPad
Mini porque finalmente ele vai ter tela Retina e, afinal, não dá para
trabalhar sem uma tela Retina.

Eu tenho um MacBook Pro, modelo 2011. Ele não tem tela Retina. O
computador, além de lindo e bem construído, tem mais memória,
processador e armazenamento do que eu preciso, e o sistema operacional é
ótimo, rápido e robusto. E, mesmo sem a tela Retina, eu estou
trabalhando nele todo dia! Eu sou ou não sou o máximo?

E o mais importante de tudo: eu comprei um MacBook não porque eu
precisava dele, mas porque eu queria.


A Luana Oliveira escreveu um ótimo artigo comparando a
tecnologia à religião:

Quando se chega ao ponto de tentar convencer outras pessoas de que o
produto X é melhor, de que os aplicativos ABC são melhores, quando
gera inimizades porque determinada pessoa prefere outra plataforma, o
que isso te lembra? Pra mim isso se assemelha muito à religião.
Normalmente os discípulos ficam cegos para outras possibilidades e só
têm olhos e ouvidos para aquela religião (ou marca, no caso da
tecnologia). Tudo o que não pertence a essa condição é praticamente
demonizado.

Ela está certa. Quando se faz parte do mundo de usuários Apple, e se
quer manter-se informado, é impossível não ser bombardeado com artigos
fanáticos. O mais interessante de tudo é que esse culto se torna tão
arraigado que discutimos apps pelos apps em si, e não pelo que eles
fazem. Estamos rodando testes de velocidade em um iPad sem pensar no que
ele pode ser usado.

Há algum tempo, li um artigo do Michael Shechter que me marcou
profundamente. Ele se referia a um episódio do podcast Enough em que
Patrick Rhone falava que deveríamos pensar nas ações, e não em
apps:

When trying to figure out how to improve the way you work, Patrick is
right. You shouldn’t start with the app. It is indeed about the action
you want to take, but—at least for me—a big part of that process is
taking a step back in order to find the right tool or tactic to help
me to accomplish a necessary actions. Ultimately it’s about creating
processes that ensure those necessary actions happen.

Precisamos urgentemente parar de delirar a cada vez que a Apple (ou
outra empresa) lança um produto novo e começar a consumir tecnologia de
maneira inteligente. O que estamos fazendo com esses aparelhos
excelentes que temos à disposição


Há algum tempo, eu falei que ia fazer mais resenhas de apps. Bem, eu
mudei de ideia.

Eu quero discutir tecnologia, e a nossa relação com ela. Gosto desse
tópico (tanto que, repito, escolhi uma carreira que estuda e desenvolve
tecnologia). Mas quero falar de assuntos relacionados: ciência,
produtividade, criatividade, desenvolvimento pessoal. E quero fazer
artigos longos, opinativos.

Apps são um meio, e podem servir de exemplo para alguma ideia, mas não
quero escrever um testo centrado num aplicativo. Assim, não vai mais
haver resenhas de apps. As que escrevi foram um teste, e foram
interessantes. O que eu não quero é me juntar ao culto Apple; eu sou
apenas um usuário, e não quero converter ninguém. Quero que as pessoas
usem o que for melhor para elas.

Para mim, o ecossistema Apple está funcionando bem. Todos os meus
aparelhos são de dois anos atrás e eles estão ótimos. Eu não preciso
de nada melhor. Eventualmente, eu vou trocar de aparelho. E talvez eu
compre um com tela Retina. Ou talvez não. Talvez eu volte pro Linux.
Talvez eu resolva experimentar um Android.

Eu não quero ser um fanático. Quero apenas fazer o meu trabalho,
continuar escrevendo, continuar me comunicando. E quero passar mais
tempo com minha namorada e menos tempo conferindo o Twitter.

Porque isso é o que importa.