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Resenha: Deep Work

No seu livro anterior, So Good They Can’t Ignore You (que já resenhei), Cal Newport defende que a satisfação profissional é derivada não do clássico “fazer o que se ama”, mas de três características básicas: criatividade, autonomia e impacto. Se você conseguir um trabalho onde consiga exercer essas três coisas, provavelmente conseguirá ser feliz no trabalho. Mas empregos que ofereçam essas vantagens são raros, e então você precisa se tornar raro e valioso; o chefe só vai lhe permitir ter horários flexíveis (um indicativo de controle) se ele tiver certeza de que você consegue cumprir suas tarefas. Newport usa o termo capital de carreira: você acumula habilidades que o tornam “tão bom que eles não possam ignorá-lo”, e as troca pelas condições de trabalho que deseja.

Embora em So Good Newport aborde maneiras de você acumular capital de carreira, o seu mais recente livro, Deep Work: Rules for Focused Success in a Distracted World é uma continuação natural do anterior, no sentido em que mostra mais maneiras de como desenvolver as habilidades profissionais necessárias. A pergunta a ser respondida é: o que você precisa fazer no seu dia-a-dia de trabalho para crescer profissionalmente, tornar-se realmente bom no que faz, ter o sucesso do subtítulo?

A resposta: trabalho — mas não qualquer tipo de trabalho. Se você quer se tornar raro e valioso, precisa aprender a trabalhar profundamente.


O cerne teórico básico de Deep Work é que parece haver uma grandeza na nossa mente, uma forma de energia mental ligada à atenção e à concentração, que é um recurso finito mas recarregável. Newport cita estudos que mostram que é impossível para alguém se manter num estado de concentração máxima o dia todo, pois o cérebro cansa. Não é surpreendente o fato de que, após uma sessão de estudo muito intenso, queiramos fazer algo mais leve, como ver vídeos no YouTube. Isso faz com que seja necessário sermos seletivos com aquilo em pomos a nossa atenção; mesmo uma atividade mundana como mandar emails consome um pouco dessa energia, e reduz a nossa capacidade de concentração quando vamos fazer algo importante depois.

Como o leitor ou leitora costuma trabalhar? Quando o leitor senta no computador (assumindo um trabalho “do conhecimento” típico), consegue se concentrar realmente na tarefa em mãos, ou mantém um olho no documento na sua frente, outro no aba do Facebook no navegador e os ouvidos atentos aos apitos do WhatsApp? Por causa do efeito citado no parágrafo anterior, na segunda situação a sua capacidade cognitiva está sendo dividida entre o seu trabalho, realmente importante, e as outras distrações. Corolário: se você dedicasse essa mesma concentração total apenas à sua tarefa principal, esta receberia mais atenção, e provavelmente seria melhor executada.

Ao enfatizar este ponto ao longo do livro, Cal Newport se diferencia de muitos autores de produtividade que propagandeiam toda sorte de hacks, aplicativos e sistemas complexos. Essas coisas são marginais se você não consegue desenvolver o trabalho profundo do título: dedicar-se a alguma atividade complexa, por horas a fio, num ambiente sem distrações, em alguma atividade que gere valor (e lhe permita desenvolver o seu capital de carreira). O oposto do trabalho profundo é o trabalho raso: aquele tipo de trabalho logístico, muitas vezes obrigatório para se manter o emprego, que não requer muita atenção mas que também não gera nada de muito importante. Coisas como responder emails, participar de reuniões sem sentido, preencher formulários, atualizar planilhas.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, o autor oferece uma motivação. Conta casos de pessoas famosas como Carl Jung, Richard Feynman e Bill Gates, e também anônimos, para mostrar que pessoas de sucesso tem uma característica em comum: elas não se importam em se isolar do mundo e atacar uma atividade intelectual realmente difícil quando necessário. Também mostra por que esse tipo de comportamento é raro; é difícil combater a impressão de que se você passou a tarde respondendo a emails foi bastante produtivo, enquanto que se passou dois dias estudando um artigo muito difícil, mas não tem nada para mostrar, você perdeu tempo. Além disso, Newport argumenta (com certa razão) que a economia desse início de século XXI é um tecnopólio, onde tudo que é tecnológico é bom e tudo que é analógico é ruim, onde somos ensinados pela propaganda a “nos conectar” e fazer check-in a cada vez que vamos na padaria.

Na segunda parte do livro, vemos quatro regras para imergir no trabalho profundo — a propósito, bem como em So Good…, Newport não faz questão nenhuma de esconder que ele é um professor universitário e cunha regras, leis, hipóteses. Estas regras derivam da finitude da energia mental que mencionei antes. Por exemplo, uma das dicas é formar rituais de trabalho profundo, como definir um local e horário para você trabalhar profundamente; o autor dá um exemplo de um doutorando que começou a trabalhar enquanto terminava a sua pesquisa, e que começou a acordar mais cedo para trabalhar na tese como primeira atividade do dia, antes da agitação do trabalho. Quando forma esses hábitos, não gasta a sua força de vontade (que também é uma reserva mental limitada no dia) tomando decisões de quando e onde trabalhar, e tem mais concentração disponível para trabalhar.

O lado mais “controverso” do livro certamente é sua crítica às redes sociais. Newport argumenta que, para você aprender a se concentrar profundamente, precisa treinar o cérebro a perder o vício em distrações, tanto que um dos capítulos é chamado Abrace o tédio (Embrace boredom). Se, ao chegar em casa, você passar todo o seu tempo ficando com raiva dos textões no Facebook, vai deixar de recarregar a sua capacidade de concentração. A analogia é da atenção como um músculo que precisa ser exercitado, então quanto menos você tirar o celular do bolso a cada minuto ocioso, mais vai aprender a manter o foco em uma só coisa, como necessário durante uma sessão de trabalho.

Para uma ideia tão simples como “aprender a se concentrar”, Deep Work foi um livro muito mais difícil de ler que pensei. Um dos seus poucos problemas é a densidade não-uniforme de explicações. Quando o autor fala das vantagens “filosóficas” do trabalho profundo, Newport usa apenas de dois livros como base, e a explicação parece um pouco forçada; efeito semelhante aparece quando o autor tenta aplicar as Disciplinas de Execução no trabalho profundo, numa seção que poderia ter sido cortada de tão superficial. Por outro lado, em algumas seções Newport tenta trazer mais profundidade que o necessário, como quando ele estabelece técnicas para abandonar as redes sociais.

Antes de ler o livro, eu já me considerava uma pessoa que consegue se concentrar profundamente, mas o livro me ensinou a perceber muitas nuances, principalmente à sua ênfase em experimentar o tédio e deixar o cérebro divagar livremente (como exemplo pessoal, parei de escutar podcasts a cada momento livre para começar a “meditar produtivamente”, como Newport ensina). Acho que todo trabalhador do conhecimento pode aprender muita coisa com Deep Work — aprender a trabalhar melhor e a gerar mais valor.

O contraste entre livros fáceis/difíceis e interessantes/entediantes

Austin Kleon traz uma fantástica citação de Jorge Luis Borges (tradução livre minha):

Acredito que a frase ‘leitura obrigatória’ é uma contradição em termos; a leitura não deveria ser obrigatória… Se um livro lhe entedia, abandone-o; não o leia apenas ele é famoso, não o leia porque é moderno, não leia um livro porque ele é velho… Se um livro é entediante a você, não leia; aquele livro não foi escrito para você. A leitura deveria ser uma forma de felicidade, e por isso eu aconselharia a todos os possíveis leitores do meu testamento — o qual eu não planejo escrever — eu os aconselharia a ler muito, e não ficarem intimidados por reputações de autores, a continuar a procurar por felicidade pessoal, satisfação pessoal. É a única maneira de ler.

Eu admitidamente tenho um comportamento estranho com livros. Pessoas muito próximas de mim dizem que eu só leio sobre produtividade. Para tentar contra-balancear esta tendência, tento me concentrar em ler livros de ficção à noite e nos finais de semana, mas aí minha família é unânime em dizer que eu só leio livros “cabeça”. Para o leitor ter uma ideia, no momento estou lendo O Cristo Recrucificado, de Nikos Kazantzákis, que parece interessante, mas não posso dizer que vou para a cama ansioso por ler esse livro, como é quando eu leio algum livro d’As Crônicas de Gelo e Fogo.

Por influência de Como Ler Livros, cobro-me para ler livros ditos importantes para aprender alguma coisa, mesmo que eles sejam difíceis e/ou chatos. O próprio livro que citei acima foi achado em uma coleção de livros “clássicos” na casa de praia da família. Sempre que pego um livro assim para ler, esforço-me para conseguir ler até o final, porque afinal gente inteligente lê livros clássicos; mas quando desisto, sinto-me culpado. Se então leio algum livro mais fácil e mais interessante, acho que estou perdendo tempo.

Essa mentalidade do devemos ler livros famosos naturalmente tem sua importância, já que esses “grandes livros da humanidade” tem muito a ensinar. Porém, existe um detalhe escondido, abordado por Cal Newport em seu excelente Deep Work: aprender algo extremamente difícil pode ser extremamente prazeroso. Como um exemplo atual, estou lendo uma tese de doutorado sobre projeto de ímas, que é uma das coisas mais desafiadores que já li — só que a cada dia, quando começo a trabalhar, estou ansioso para dominar essa tese e aprender mais. Também sempre tive prazer em ler as obras de José Saramago, com seus parágrafos que ocupam 5 páginas.

Borges identificou a palavra-chave: tédio. O livro pode ser difícil, mas não pode ser entediante. Aliás, mesmo livros fáceis, daqueles escritos para serem logo adaptados para o cinema, podem ser bastante entediantes. Sim, devemos procurar ler os grandes livros, mas “nem todos foram escritos para nós”. Devemos ler aqueles que sejam tão desafiadores que nos motivem a querer ler mais, como mostrei no parágrafo anterior. Existem milhões de livros com coisas a me ensinar; é só procurar, e às vezes eles estão nas prateleiras de best-sellers.

6 livros que moldaram a minha visão de produtividade

Surpresa: eu sou fascinado por produtividade. Eu invejo as pessoas que tiveram carreiras de sucesso e quero seguir os seus passos. O meu lado acadêmico me faz então sempre querer estudar mais do assunto, investigar o que determina que algumas pessoas tenham uma excelente vida profissional, equilibrada com a vida pessoal, enquanto outras ficam estagnadas.

Livros são uma parte fundamental desse processo. Eu sempre fui “a criança estranha que lê”, e depois me tornei o adulto estranho que lê — ao ponto em que acho que a melhor parte de ir à praia é poder ler um bom livro de frente para o mar (uma água de coco ou uma cerveja gelada certamente não atrapalham). As resenhas de livros que publico aqui reúnem alguns dos posts mais populares de FabioFortkamp.com e são os posts que mais gosto de escrever.

Nos últimos posts, tenho reunido as minhas observações sobre gerenciamento de tempo e estou tentando refinar alguns conceitos, até para eu mesmo entender qual a melhor maneira de eu trabalhar. Enquanto eu desenvolvo melhor os próximos textos, vou apresentar ao leitor os 6 livros que efetivamente moldaram a minha visão de produtividade e que servem de base para essa série de posts:

1. A Arte de Fazer Acontecer, de David Allen

Provavelmente nenhuma lista de livros sobre produtividade que tenha sido publicada na útlima década deixa de incluir esta obra, que já foi tema de resenha. Embora eu venha adotando uma versão mais relaxada do método GTD (tema do livro), a obra de David Allen é essencial para sistematizar alguns conceitos que mudaram a minha organização: anotar o que vem a cabeça em algum lugar que você revise, manter listas de todas as coisas que você tem para fazer, dedicar um tempo todo semana para fazer uma revisão geral dos seus projetos etc.

2. Vida Organizada, de Thais Godinho

Livro que condensa muitos posts do blog de mesmo nome, que já linkei muitas vezes aqui. Como mencionei em outro post, a principal ideia que esse livro me apresentou foi uma decomposição de cima para baixo de produtividade: comece refletindo sobre o que você quer atingir no fim da vida, identifique quais são suas metas de médio prazo e termine determinando quais os projetos importantes você precisa fazer neste ano para atingir os seus objetivos de vida.

3. Workflow Mastery, de Kourosh Dini

O autor é um psiquiatra e portanto essa obra-prima contém muitas discussões sobre como a mente encara o ato de trabalhar. Apresentou-me muitos conceitos importantes que serão abordados mais para frente neste blog, como a importância de rotinas e de fluxos de trabalho, e é a fonte da ideia de sessões de trabalho, que abordei em outro post.

4. Creating Flow with Omnifocus (2nd edition), de Kourosh Dini

Este é na verdade um manual do software de gerenciamento de tarefas Omnifocus, que usei muito quando ainda usava um Mac. Entretanto, a segunda edição foi publicada depois de Workflow Mastery, e Kourosh Dini não perdeu a oportunidade de aprimorar os conceitos desse livro e, mais importante, mostrar como implementá-los na prática. Mesmo sem usar Omnifocus, consigo reproduzir muitos métodos no Todoist, e pretendo explicar como em breve.

5. So Good They Can’t Ignore You, de Cal Newport

O que determina a felicidade e o sucesso profissional não é quanto que você ganha (já que nunca estamos satisfeitos com o nosso salário), mas o grau de controle, criatividade e impacto que você tem enquanto exerce o seu trabalho. Como essas características são raras, você precisa se diferenciar e se tornar raro e valioso para conseguir as melhores condições de trabalho. Para mais detalhes, veja a minha resenha. Esse livro proporciona um belo contraste com A Arte de Fazer Acontecer (primeiro item dessa lista) e livros afins por sua ênfase mais no simples ato de se tornar muito bom e menos em hacks e técnicas de produtividade,

6. Deep Work, de Cal Newport

Ainda estou terminando de ler essa obra, mas já tenho colocado em prática alguns conceitos. Continuando a linha de raciocínio de So Good, nesse livro o Prof. Newport mergulha no que é necessário para que nos tornemos realmente bons no que fazemos, e defende que a atividade básica que desenvolve as habilidades profissionais é o trabalho profundo: focado, intenso, livre de distrações, por horas a fio. Mais: como a concetração parece se comportar como um músculo, é preciso exercitá-la mesmo nos horários fora de trabalho (Abrace o tédio é o título de um dos capítulos). Desnecessário dizer, mas aguardem resenha em breve.

Acostumando-se com o desconfortável

A minha namorada reclamou que a minha resenha de So Good They Can’t Ignore You ficou meio incompleta e sem muitos exemplos (“principalmente depois de você viver carregando esse livro para lá e para cá”, foi o que ela ficou com vergonha de dizer). Então vamos tentar corrigir esse problema

So Good pode parecer um livro estranho. “É óbvio que você deve ser bom no que você faz”, o leitor pensa. Não é difícil aceitar que pessoas de sucesso trabalharam duro e são boas no que faz. O que não é óbvio é a relação disso com a felicidade no trabalho, e como é isso é mais importante que “sonhos” ou “paixão”. Na minha curta carreira científica, conheço muitos professores e pesquisadores que tomo como exemplo (alguns são grandes amigos), e que percebo que são felizes no trabalho. Porém, embora eu nunca tenha perguntado, posso adivinhar que eles não diziam “Quero ser um especialista em Termodinâmica” quando perguntados o que queriam ser quando crescer; de fato, pouco importa como eles foram parar nessa profissão. Essas pessoas donas de careiras notáveis são felizes porque são admiradas pelos seus pares, possuem cargos em universidades de prestígio, perseguem os projetos que lhe interessam — e o que os fez chegar até ali não foi sorte, ou um amor incondicional pelas ciências, mas o fato de que eles são extremamente habilidosos.

A pergunta seguinte é: como, então, se tornar tão bom a esse ponto? E essa é a segunda ideia não-trivial de So Good: você precisa se acostumar a fazer coisas difíceis.

Como esse assunto me interessa, ainda pretendo pesquisar muito (e o próprio Newport traz referências), mas os conceitos giram em torno da prática deliberada. Para ficar em um exemplo mencionado no livro, você não fica bom em guitarra praticando a escala de Dó Maior 100 vezes por dia; você pode ser tornar o próximo Clapton se praticar cada vez mais rápido, ou mudar de escalas, ou tentar um riff que você nunca tentou. Como diz Matt Might, o conforto fomenta a fossilização técnica.

Falando na minha namorada, ela mencionou que estava tendo dificuldades em utilizar um novo modelo de planilhas do Excel. “Ótimo!”, foi o que respondi. A maneira mais efetiva de ficar tão bom que eles não possam ignorá-lo é buscar rotineiramente fazer coisas difíceis, esticando (um termo de Newport) o seu cérebro e as suas habilidades. Se aquele modelo de planilha, com novos procedimentos de cálculo, é difícil de usar, significa que poucas pessoas vão conseguir fazê-lo, e aquelas que conseguem vão se diferenciar.

Este, portanto é o conceito que eu mais estou tentando implementar e testar no meu dia-a-dia. Como parte do meu doutorado, eu preciso aprender a usar um programa de simulação, e vinha evitando com medo da dificuldade e da angústia da frustração. Depois de ler So Good, percebi o quanto isso é normal e que eu precisava combater esse sentimento. Comecei então a todo dia tentar fazer alguma coisa que seja, cumprindo um novo desafio a cada semana. Agora, não me sinto um expert no tal programa, mas já me mais satisfeito quando tenho de trabalhar com ele, e sinto que poder usar esse software de uma forma nova pode fazer diferença no meu doutorado. E já sei o próximo desafio que preciso cumprir, e estou animado para atacar mais esse problema.

Para ficar em um outro exemplo, uma das carreiras que admiro é Myke Hurley, fundador da rede de podcasts Relay FM. Não tenho dúvidas que um dos motivos do seu sucesso é a sua disposição de tentar coisas novas e difícies; quantas pessoas se arriscariam a dedicar um show a entrevistar nerds sobre o seu álbum favorito? Isto exigia um novo nível de produção de podcasts, mas isso não foi impedimento.

Sugiro então que o leitor faça essa pequena auto-avaliação. Que habilidade o leitor está ignorando mas que pode fazer diferença? O que o leitor pode aprender na sua profissão que ninguém mais quer aprender por causa das barreiras, e que vai tornar o leitor na maior autoridade no assunto?

Resenha: So Good They Can’t Ignore You

Além de ímãs, Termodinâmica, refrigeradores, regeneradores e todos esses maravilhosos assuntos que formam o tema do meu doutorado, carreira tem sido a minha maior obsessão intelectual.

Isto pode ser um sinal de maturidade. Quando fazia o mestrado, enxergava-o mais com uma extensão natural da minha graduação. Praticamente todas as pessoas com que conversei antes de iniciar o mestrado concordavam em um ponto: o tempo gasto em um mestrado é baixo se comparado aos benefícios que ele traz, o que se torna ainda mais verdade numa economia com menos contratações e onde uma qualificação maior faz a diferença. Você sai do mestrado aos vinte e poucos, tem uma formação a mais e experiência na condução de um grande projeto; depois do mestrado, ainda existem muitas opções de carreira disponíveis, para a maioria das áreas.

Quando refleti sobre fazer o doutorado, porém, percebi que isso se tratava de uma decisão de carreira muito significativa. Eu terminaria o meu doutorado com 30 anos e nenhuma experiência em indústria; fazê-lo então quase que representa um comprometimento com o mundo acadêmico (embora, naturalmente, existam casos de sucesso de doutores que foram para o mundo empresarial e industrial). Para ser bem sucedido como acadêmico (professor e/ou pesquisador de uma boa instituição de pesquisa ou universidade), fazer um bom doutorado é necessário (mas não suficiente), e vem seguido de muitos desagios. Como guiar a minha carreira, aumentando o meu sucesso e sendo feliz no processo? O que determina uma carreira bem sucedida?

So Good They Can’t Ignore You foi escrito por alguém em situação próxima a minha: um estudante terminando o seu doutorado e querendo saber o que ele deve fazer para encontrar uma carreira que ele ame — e talvez seja por essa proximidade que eu me identifico tanto. O autor, Cal Newport, agora é já um professor bem estabelecido, e esse nome não deve ser estranho a leitores de FabioFortkamp.com, tal o número de vezes que eu cito o seu ótimo blog, Study Hacks. O título (em tradução livre, Tão Bom Que Eles Não Possam Ignorá-lo), vem deste clipe de uma entrevista de Steve Martin:

Este livro prático (com muitas discussões baseadas na Economia e na Psicologia) defende a ideia de que uma carreira de sucesso, que você ame, não é contruída baseada no sonho de “ir fazer o que se ama”, mas na ideia de quando você se torna realmente bom no seu trabalho você aprender a amar o que faz. Reparar que esta é uma tese dividida em dois pontos centrais:

Primeiramente, ass coisas pelos quais nos declaramos apaixonados, como música, esportes, religião, artes etc não são carreiras fáceis a não ser que você seja absolutamente brilhante. Este, aliás, é um ponto sutil do livro; sim, existem casos de pessoas que eram apaixonadas por alguma coisa e ganham a vida fazendo isso, mas eles são mais raros do que se pensa e representam casos extremos. Se você é fanático pelos Beatles, por exemplo, dificilmente consegue contruir uma carreira em cima disso, a não ser que seja algo especial — ou você toca igualzinho ao George, ou descobriu um novo ponto sobre a biografia deles… Adicionalmente, ter de trabalhar em cima de uma paixão tão profunda talvez até faça você gostar menos desse assunto. Ou seja, a maneira de construir a carreira ideal não é indo atrás das suas paixões.

Mas qual é a maneira, então? Na realidade, é difícil ter muito controle sobre a carreira em vamos parar. Eu queria cursar Jornalismo até os meus dezessete anos; mudei de ideia às vésperas da inscrição no Vestibular e agora estou fazendo Doutorado na área de Refrigeração. Mesmo que você “caia de para-quedas” em uma carreira, Newport defende que é possível você desenvolver gosto pelo que faz, e o seu argumento é bastante microeconômico: nas suas entrevistas, o autor percebeu que os profissionais realmentes de sucesso que se declaram felizes profissionalmente (em áreas diversas como programação, investimentos, medicina, construção de pranchas se surfe e redação de programas de TV) têm em comum o controle sobre a sua carreira e impacto sobre os outros. Essas condições são difíceis de encontrar, então você precisa se diferenciar para ter acesso a elas. E a melhor maneira de se diferenciar é através da aplicação sistemática do trabalho árduo, deliberado, esticando as suas habilidades além de um nível confortável é o que tem mais chances de lhe fazer ter sucesso. Como Martin diz no vídeo acima, essa conclusão é óbvia e sem graça a tal ponto que as pessoas não querem ouvir, mas é mais importante que tentar ser um gênio, ou conhecer alguem famoso, ou conseguir muitos seguidores.

O ponto mais curioso em relação à livro é que ficam evidente que o autor é professor universitário. Todo o livro é escrito de forma muito didática, com “leis”, “regras”, “teorias”, que facilitam bastante o entendimento. Newport muitas vezes para, lembra do que já foi dito, revisa os conceitos — e não consegui esconder o sorriso e perceber que era um (bom) professor conversando comigo.

CGP Grey recomendou So Good… como uma das bases para o seu entendimento do que é uma vida de sucesso. Acho que a época em que estou é a ideal para pensar seriamente nessas questões, mas também acho que, independente da idade, se o leitor precisa refletir sobre a sua carreira, se está na dúvida sobre o que fazer, e se quer simplesmente ser mais feliz no trabalho, pode se beneficiar da leitura desse livro.

Resenha: Adeus, aposentadoria

Não deve ser novidade por aqui que um grande interesse meu é o assunto de finanças pessoais. Eu e você, leitor, provavelmente temos profissões, mas ambos precisamos de dinheiro para coisas necessárias e também para as desejáveis. Mesmo que você odeie Matemática e pule a seção de economia do jornal, ainda assim você tem de lidar com dinheiro no dia; se isso for algo que você entende e que domina, há de ser mais fácil. Por isso, acho que pelo menos um mínimo de estudo de finanças pessoais é fundamental para todos.

Fiquei sabendo de Adeus, aposentadoria (Sextante, 2014) através de um texto da Thais Godinho, e logo ele me chamou a atenção. Nos últimos meses, quando resolvi fazer uma grande revisão do assunto de finanças para atualizar minhas práticas — que continuavam as mesmas desde a primeira vez que li A Árvore do Dinheiro, em 2011 — sabia que queria incluí-lo na minha lista de leitura. O título e a promessa de dar adeus à noção de aposentadoria como a conhecemos é intrigante e tentador, mas ao mesmo parece desnecessário se você é o brasileiro médio que quer apenas passar em algum concurso público e não se preocupar com mais nada (ao menos financeiramente) para o resto da vida.

A premissa básica do livro em questão é que esta e outras soluções tradicionais de aposentadoria têm tudo para não funcionar quando os trabalhadores de hoje se aposentadorem. Vamos pensar na solução de “passar em um concurso público, trabalhar com estabilidade e se aposentar com salário integral” que é a tradução do sonho brasileiro. Pense nos servidores públicos que você conhece que estão aposentados. Sim, os mais velhos aproveitaram um regime de ouro, e hoje vivem confortavelmente; porém, se você tiver um contexto social parecido com o meu, vai perceber que as pessoas de uma geração seguinte, que estão entrando agora na idade permitida para aposentadoria, já enfrentam situação diferente. Com as mudanças de regras, o salário desses servidores são engordados por benefícios que não vão entrar no cálculo de aposentadoria. Os jovens que estão ingressando nessa carreira hoje vão encontrar condições piores ainda, já que o déficit só tende a aumentar. Aposentar-se no serviço público pode ser mais fácil que na carreira privada, mas não é tranquilo.

Qual a alternativa, então, para o caminho de ouro da aposentadoria? Cerbasi elenca muitas opções, e mostra o defeito de todas. Previdência privada? As taxas de administração vão comer parte do rendimento. Investimentos tradicionais em ações ou fundos? A inflação vai comer grande parte do rendimento. Viver de renda de aluguel? Boa sorte passando a sua velhice lidando com inquilinos. O fato é o seguinte: por questões de saúde, todos vamos precisar parar de trabalhar (entendido no livro como trocar o seu tempo por um salário), mas ninguém quer perder renda. Quando você ficar cansado de trabalhar, não vai aceitar ganhar menos (um fato inescapável de como humanos funcionam). Você vai querer descansar, e ter renda para continuar a viver com conforto, e ter essa renda até morrer.

Na minha leitura analítica do livro, consegui identificar cinco argumentos principais.

  1. A solução proposta por Cerbasi para conseguir parar de trabalhar para os outros mas não parar de ganhar dinheiro é o empreendedorismo. Enquanto você é assalariado, na prática é muito difícil guardar e investir dinheiro suficiente para que, quando você pare de trabalhar, você consiga a partir desse momento viver apenas dos rendimentos dessa massa crítica (um conceito fundamental de outro livro do autor, Dinheiro: os segredos de quem tem). Outras soluções de aposentadoria envolvem a sua dependência em fatores externos. Por outro lado, se você ao longo da vida contrói um verdadeiro projeto empreendedor, terá o potencial de algo que gere valor (um termo que eu achei apropriado para encapsular essa ideia do autor) para você.
  2. Mesmo com o empreendedorismo, parar de trabalhar repentinamente e a partir daí viver do seu “negócio próprio” não é viável. Cerbasi prega que devemos desenvolver nossa vida profissional de maneira gradual. Começamos sem dinheiro nem experiência, e a melhor coisa a fazer é achar um bom emprego. À medida que vamos crescendo na carreira, idealmente vamos atingir um ponto em que nossa saída representa uma grande perda para a empresa, e não precisamos trabalhar tão arduamente; a partir desse ponto, devemos dedicar menos horas ao trabalho e mais horas a um projeto paralelo. É só quando este estiver sólido que você deve se dedicar integralmente a ele. Finalmente, você terá dinheiro e experiência, pelo que deve deixar o negócio ir sendo gerenciado por outros e investir as suas finanças de maneira mais séria (e aproveitando o tempo disponível mais abundante). Também incluindo nesse conceito é a diminuição do ritmo; sim, pode demorar até que você consiga se dedicar somente ao seu negócio para que ele lhe sustente, e mais ainda para que você pare de se envolver com ele, então é preciso adotar ao longo da vida um ritmo de trabalho mais humano, que lhe dê eneria para trabalhar até mais tarde na vida.
  3. O risco do empreendedorismo pode ser atenuado com camadas de segurança (também outro termo meu). Baseado no item anterior, você constrói o seu projeto ao longo de muitos anos, ao mesmo tempo em que acumula reservas financeiras. Se você não tem pressa, não precisa tomar decisões muito arriscadas. Cerbasi prega, por exemplo, que você deve contribuir para o INSS como pelo menos uma primeira camada, e que deve ter sempre disponível investimentos de baixo risco de onde você possa tirar dinheiro em emergências.
  4. O sucesso do empreendedorismo está na diferenciação. Empresas existem de monte, mas muitas são simplesmente medíocres. Novamente, baseado na ideia de fazer as coisas gradualmente, você deve usar o seu tempo enquanto mero empregado para fazer networking, conhcer o mercado, aprender muito. Nessas horas, é preciso ter um pé no chão e evitar “correr atrás da sua paixão”; explore algo que você aprecie mas dentro da sua área. Porque você tem tempo para se aprimorar, pode lançar o seu negócio com um diferencial.
  5. A fase de início de carreira (20 aos 30 anos) é onde você deveria estar trabalhando desenfreadamente, poupando muito e aprendendo mais ainda. Uma ideia que não está no livro mas que eu tiro de experiência própria é pessoas nessa faixa ainda não se esqueceram de como é ser estudante; essa é a fase, portanto, em que você consegue viver com pouco ao mesmo tempo em que tem possibilidade de ganhar muito, e é em que oportunidades boas podem aparecer em qualquer lugar. Tudo isso deveria servir de incentivo para os meus amigos pararem de querer praticar loucuras como comprar um apartamento nessa idade. Um adendo: esse quinto argumento foi o que mais me fez pensar e é o que está me fazendo escrever esse texto de noite, buscando desenvolver minha carreira de escritor, enquanto que antes de ler Adeus, aposentadoria eu apenas diria “estou cansado” e iria assistir qualquer coisa na Netflix.

Essas cinco ideias não são revolucionárias, mas ter contato com elas provoca uma pequena e saudável reflexão. Dito isso, tenho alguns problemas com este que considero o livro mais fraco de Cerbasi. Por exemplo, o autor começa o livro com uma discussão desnecessária sobre a justiça do capitalismo. O autor não demostra ter embasamento filosófico para tanto e propõe uma argumentação fraca. Cerbasi diz que, se todos tiverem condições iguais, o capitalismo será idealmente justo e portanto todos têm a chance de ser empreendedores. Primeiro, imaginar que em alguma sociedade capitalista típica “todos tem condições iguais” é uma hipótese bastante questionável; e segundo, o quarto argumento acima se baseia de certa forma no competição e em você ter mais sucesso que outras pessoas. Sim, eu concordo que é possível praticar o capitalismo almejando ser o mais ético possível, e que é possível praticar a concorrência em um mercado de maneira limpa, mas essa discussão inicial não acrescenta nada à tese do livro.

Outro problema do livro é que faltam exemplos práticos. Com exceção de um ou outro relato, Cerbasi não mostra nenhum caso de sucesso de alguém que teve o negócio próprio com sucesso e hoje vive apenas dos rendimentos dele. Para um campo bastante empírico como o das finanças pessoais, fica difícil ignorar essa lacuna nessa obra.

Por esses motivos, tenho dificuldades em recomendar Adeus, aposentadoria sem ressalvas e concordar com tudo que o autor diz. Por outro lado, a leitura é curta (e Cerbasi escreve muito bem) e um ponto em que definitivamente concordo com ele é que deveríamos seguir uma abordagem contínua de desenvolvimento pessoal e profissional. Assim, sugiro que você leia esse livro não como algo que vai mudar sua vida, mas como algo que faz parte de um processo contínuo de educação financeira e que reforça a necessidade de pensar no futuro. Você talvez não concorde que ter um negócio próprio é a melhor saída para parar de trabalhar, e você naturalmente tem o direito de não concordar; mas já pensou em alguma saída? Se acha que o concurso público é a saída, você está totalmente por dentro das regras de aposentadoria e de como elas mudaram. Se acha que a previcêndia privada vai ser suficiente, já fez as contas, descontando taxas, Imposto de Renda e inflação? Assim, mais importante que as ideias do livro, para mim, é ele sugerir que pessoas já no começo da carreira pensem nisso, e que pessoas de idades diferentes devem tomar atitudes muito diferentes em relação a dinheiro e carreira (e o roteiro que ele traça para cada década de vida é um dos pontos altos da obra).

Minha recomendação final? É melhor ler do que não ler. Não é o melhor livro de finanças pessoais, mas você não vai perder nada se dedicar um tempo a ele. Cerbasi entra em mais detalhes do que eu tratei aqui (principalmente destacando os problemas das soluções tradicionais de aposentadoria) e, como falei, faz você pensar um pouco no futuro.

Uma última nota final: não que seja do interesse do leitor, mas eu estudei a língua alemã por muitos anos e ainda hoje procuro regularmente ler notícias nesse idioma. Se por um acaso o leitor desafia todas as probabilidades e também sabe ler em alemão, aqui está um pequeno texto com que me deparei hoje, falando das prováveis dificuldades que os aposentados na Alemanha vão enfrentar no futuro.

Resenha: Dinheiro: os segredos de quem tem

Há algum tempo, publiquei uma série de textos  sobre um dos meus livros preferidos de finanças pessoais. A releitura de alguns conceitos me incentivou a fazer uma revisão geral da minha organização financeira, incluindo ler algumas outras obras.

O primeiro que li foi o ótimo Dinheiro: os segredos de quem tem (Editora Gente, 2010), do famoso autor de finanças Gustavo Cerbasi. É o seu primeiro livro e um dos menos conhecidos, mas o título provocativo sempre me provocou uma curiosidade em ver o que ele tem a dizer num nível mais fundamental e geral, sem falar de finanças de casais ou aposentadoria, como outros livros mais recentes e mais famosos.

Dinheiro é um livro prático introdutório sobre finanças pessoais, focando em ensinar o leitor na construção de riqueza, aqui definida pelo autor como o estado em que o indivíduo tem uma renda perpétua segura suficiente para cobrir todos os seus gastos. Quando o leitor atinge uma massa crítica de investimentos que renda mensalmente uma quantia suficiente para viver de maneira confortável, pode se aposentar, mas não deve parar de trabalhar (como Cerbasi afirma e eu concordo, trabalhar faz muito bem para a alma). Mas se o faz, é no que quer e porque quer, já que ele não precisa do salário para sobreviver.

Já faz uns cinco anos que me interesso e me aprofundo cada vez mais no assunto de finanças pessoais, então muitos dos conceitos que o autor apresentam não são novos para mim, mas Dinheiro tem dois aspectos que achei muito interessantes:

  • Assim como A Árvore do Dinheiro (revisada na minha série já citada), Dinheiro argumenta que discussões sobre dinheiro devem começar pelo que ele não compra. Como pesquisas e a experiência comum mostram, o prazer que se obtém quando se compra algo novo é bastante efêmero e pode levar a uma vida vazia. Não vamos ser ingênuos: é importante ter dinheiro sim, pela segurança que ele traz, mas escapar do materialismo é uma das melhores maneiras de enriquecer. Quanto menos você precisar para sustentar o seu “padrão de vida”, mais fácil será acumular a massa crítica, e você não terá tantas posses que requerem cada vez mais gastos.
  • Enriquecer demanda conhecimento e tomada de boas decisões, e isto exige fazer cálculos. Pode ser a minha cabeça de engenheiro, mas a ênfase na matemática financeira, mostrando para o leitor como quantificar o efeito dos juros compostos (que é o faz a pessoa enriquecer), das taxas e da inflação, é uma das melhores características do livro. Cálculos cuidadosos ilustram uma das melhores seções de Dinheiro, em que o autor se junta ao debate “o que é melhor, comprar ou alugar?”.

Ao longo do livro, Cerbasi mostra como construir um plano de riqueza, começando pela definição da sua renda desejada (na qual o primeiro aspecto acima é importante), passando pela escolha de investimentos e cálculo de quanto é preciso investir a cada mês, até um plano concreto de investimentos.

A minha principal crítica é que o autor se mostra um pouco incompleto nos exemplos de cálculos de rendimento. No caso de investimentos em renda variável, é difícil prever a taxa de retorno dos investimentos, e acho que o autor poderia dar um pouco de cobertura a essa área (mostrando alguns exemplos). Pode haver a impressão de que qualquer tipo de investimento informa a taxa de juros como uma informação pronta. Além disso, minha mente de engenheiro me leva a questionar se as projeções tão cuidadoas do autor fazem sentido num cenário de incerteza inflacionário como o nosso. Reconheço que eu mesmo devo comparar o rendimento da minha carteira com estes cálculos para poder ter mais certeza sobre isso.

Pessoalmente, recomendo a leitura de Dinheiro. O autor escreve bem e o livro é de leitura fácil. Se você está começando, leia esse em parceria com A Árvore do Dinheiro e veja o que eles têm em comum e de diferente; você terá uma boa base para começar a investir. Se você já tem experiência em investimentos, acho que sempre é bom revisar o básico, porque isso dá uma base muito mais profunda para nos aprofundar no assunto. Enriquecer passa por um ciclo contínuo, de se informar sobre investimentos e, claro, investir sempre em soluções inteligentes.

Criticando livros

Uma das minhas passagens favoritas de Comer Ler Livros (How to Read a Book (HTRAB), Mortimer Adler e Charles van Doren, Touchstone, 1972) é esta (tradução livre minha):

Você deve lembrar de alguma ocasião onde alguém disse a algum palestrante, em uma respiração ou no máximo duas, “Eu não sei o que você quer dizer, mas acho que você está errado”

Ora, isto é completamente sem sentido. Se você não entendeu algo, não pode criticar (a Regra 9 da leitura analítica). É por isso que a última parte da leitura analítica de um livro (que estou cobrindo nesta série
) é realmente a última: só depois de você entender a estrutura
e o conteúdo
é que você pode começar a fazer julgamentos.

Vamos relembrar do último texto
que eu identifiquei os argumentos principais de A Árvore do Dinheiro (Macedo Jr., Insular, 2013), os quais, como se trata de um livro prático, se convertem em sugestões ao leitor. O Prof. Jurandir mostra algumas pesquisas, fala de sua experiência própria e usa de argumentação lógica para dizer: “Leitor, se você quiser melhorar sua relação com dinheiro e cumprir seus objetivos financeiros, estas são as dicas que você precisa seguir”. A questão é: eu, enquanto leitor, concordo?

Se sim, como os autores de HTRAB dizem, o trabalho está feito. Eu li um livro com o máximo de atenção que eu consegui, mapeei sua estrutura, achei as palavras e frases mais importantes e extrai o seu significado. No caso de um livro prático como este, eu concordei que os passos que ele propôs vão levar aos fins que ele estabeleceu, e que eu quero alcançar estes fins (note que são dois julgamentos diferentes que devem ser feitos em um livro prático). Se este é o caso, eu acabei a leitura — e preciso agora praticar as recomendações dele.

No caso de AD, eu concordo sim com o livro, e acho que então que terminei meu trabalho. Eu tenho apenas uma reserva, mas é aí que entram as Regras 10 e 11 da leitura analítica, que dizem que, antes de criticar, você deve se abster de ser violento nos seus comentários e deve diferenciar entre o que é a sua opinião e aquilo sobre o que você pode provar que o autor está errado. Eu não consigo fazer isso (dizer que o livro tem informações falsas), pois a argumentação e as dicas do Prof. Jurandir são bem construídas. Minha única divergência é que o autor recomenda clubes de investimento como uma maneira “divertida” e fácil de começar a investir, e as minha tendências levemente anti-sociais me fazem achar que começar sozinho, perguntando bastante mas aprendendo a fazer você mesmo, pode ser mais efetivo. Mas, novamente, eu reconheço que isto é uma opinião minha, e não consigo convencer ninguém que clubes de investimento não são uma boa opção (até porque conheço poucas pessoas que já participaram de algo assim).

As Regras 12 a 15 mostram como exatamente analisar como um autor está errado (onde ele omitiu informação? onde ele não foi lógico?), mas na minha análise de AD isto não se aplica (já que eu estabeleci que concordo com o livro), e portanto não vou abordar estas regras aqui (e por isso este texto ficou bastante curto). Vá comprar uma cópia de Como Ler Livros para aprender mais.


E chegamos ao final dessa série, que foi uma das coisas mais desafiadoras que já fiz em FabioFortkamp.com. Mostrei um processo exaustivo mas recompensandor de extrair o máximo de informação de um livro. Como no momento estou numa fase de me interessar pelo assunto, talvez eu resenhe mais alguns livros de finanças por aqui. E, como sempre, obrigado por lerem este blog.

Interpretando um livro

Na nossa jornada para aprender a tirar o máximo dos livros, falamos como é interessante você primeiro inspecionar uma obra, com o objetivo principal de saber se ela vai lhe ajudar a cumprir seus objetivos. Se sim, você procede a uma leitura analítica, lenta e atenciosa, prestando atenção a cada frase. De acordo com Adler e van Doren, os autores de Como Ler Livros (HTRAB), existem três etapas principais para você realmente analisar um livro por completo. No último texto, falamos da estruturação do livro. Sobre o que é o livro? Qual a ideia principal? Como o autor estrutura essa ideia? Quais os problemas que ele quer resolver? Essas são as primeiras quatro regras da leitura analítica.

O segundo estágio (que pode ser feito simultaneamente com o primeiro, na verdade), consiste em interpretar o livro, e o modelo de HTRAB segue uma boa seqüência de dentro para fora do livro.

Passos da interpretação de um livro

Identificando os termos

Uma obra literária, no mais detalhado grau, é um conjunto de palavras, e bons autores se diferenciam pelo uso eficiente destas. Nem todas as palavras são importantes, e uma das tarefas do leitor, a Regra 5 da leitura analítica, é identificar quais são importantes e o que elas querem dizer.

Muitas vezes o autor repete incessantemente uma palavra, ou usa diversos sinôminos com um significado só, ou mesmo faz uso extensivo de sublinhados e itálico. Isso é um alerta, um modo do autor dizer “Cuidado! Essa palavra é importante!”. Não exatamente a palavra, mas o termo, o que ela precisamente significa dentro das ideias do livro.

Umas dos termos mais importantes de A Árvore do Dinheiro (AD), (Macedo Jr., Insular, 2013), sem dúvida, é dinheiro, significando algo que você recebe pelo seu trabalho, por presentes, prêmios ou investimentos, e troca por outros bens e serviço; a mais simples definição de dinheiro, para mim, e que serve dentro do contexto de AD foi exemplificada por Alexandre Versignassi em Crash (Leya, 2011):

Dinheiro é um mecanismo engenhoso: permite que uma manicure compre seis pãezinhos sem ter de fazer as unhas do padeiro.

Como acontece com muitas habilidades, é apenas com o hábito de ler muito (como eu estou tentando continuamente cultivar em mim) que você aprende a identificar os termos mais importantes. Aqui está uma lista dos outros que eu identifiquei em AD:

  • Investimento: mecanismo pelo qual você aplica dinheiro e recebe rendimentos, algum tempo depois
  • Felicidade: estado de contentamento, plenitude e paz interior
  • Consumo: hábito controlado ou não de comprar coisas
  • Desejar: querer algo de maneira passional
  • Juros: preço do dinheiro em um investimento: é o que você paga quando empresta dinheiro ou recebe quando o investe
  • Objetivo: algo que você quer realizar dentro de algum prazo
  • Risco: variação temporal dos preços dos investimentos
  • Aposentadoria: processo pelo qual você vive de renda não gerada pelo seu trabalho
  • Mercado: conjunto de pessoas que compram ou vendem algum produto ou serviço
  • Decisão: ato de escolha de alguma ação (no sentido de atividade)
  • Finanças: é usado em dois sentidos ao longo do texto: como estudo de assuntos relacionados a dinheiro (como em “Finanças Comportamentais”), ou como o conjunto do seu patrimônio, renda, dívida e hábitos relacionados a dinheiro (as suas famosas “finanças pessoais”).
  • Emoções: característica dos mamíferos de se apegar a algo ou alguma ideia de maneira irracional (eu usei “mamíferos” porque isso é importante no primeiro capítulo — a propósito, leia o livro!
  • Títulos: tipo de investimento no qual você empresta dinheiro a empresas/governo/bancos, e recebe juros em cima disto
  • Ações: tipo de investimento equivalentes a cotas de uma empresa que você compra, dando direito a receber parte dos seus lucros
  • Fundos: tipos de investimento formado por vários outros sub-tipos
  • Carteira: o seu conjunto pessoal de investimentos.

Identificando proposições

Subindo um nível no livro, passamos de termos a proposições — e, assim como ler um livro com qualidade é ler fazendo perguntas, as proposições mais importantes, segundo HTRAB, são aquelas que levantam as melhores perguntas, ou que melhor contribuem para resolver os problemas do autor. Para relembrar do último texto), os problemas que eu identifiquei que A Árvore do Dinheiro tenta resolver são:

  1. Como construir uma “árvore do dinheiro”, isto é, o que deve ser feito ao longo da vida de uma pessoa para que, quando a pessoa estiver mais idosa, ela comece a receber rendimentos do dinheiro que foi aplicado?
  2. Por que o conhecimento clássico, puramente matemático, das finanças não é suficiente? Por que as nossas emoções nos atrapalham na construção dessa árvore do dinheiro?
  3. Quais são os mecanismos pelos quais uma pessoa constrói a sua árvore do dinheiro? Qual a melhor estratégia?

Por exemplo, referente à primeira pergunta, o autor faz uma proposição importante:

Se você pretende ficar rico, só existe uma receita: precisa gastar menos do que ganha e investir suas economias

Esse é o próprio resumo da resposta à primeira pergunta. Mas isso levanta outras duas perguntas: como gastar menos, e como investir as nossas economias?

Quão fácil é poupar dinheiro? Analisemos um trecho de AD:

Acreditamos que você pode facilmente poupar e ser previdente sem deixar de aproveitar a vida. Pode dosar trabalho e lazer sem prejudicar seu desempenho profissional. […] O segredo é poupar nos gastos que não contribuem para sua qualidade de vida e fazer um bom planejamento financeiro.

A proposição central é então “uma das chaves para ter mais dinheiro para investir é identificar os gastos que não trazem felicidade”. Veja esta outra passagem:

Na Europa é comum que as pessoas ricas adquiram objetos de luxo apenas com o rendimento de seu capital. Somente com a renda que provém de seus investimentos é que os milionários nesses países compram determinados artigos, como carros potentes e bolsas de grife, que têm preço exorbitante. No Brasil é comum presenciarmos situações de pessoas que se endividam para comprar roupas, carros e joias que não condizem com seus ganhos mensais. É importante frisar que você deve tomar cuidado ao adquirir objetos de luxo com o dinheiro que é fruto de seu trabalho. Até porque o trabalho demanda tempo, que é o bem mais precioso.

Mas por que afinal as pessoas se endividam para comprar artigos de luxo? A resposta está distribuída ao longo de várias passagens ao longo do texto, mas a proposição central é que “poupar para o futuro é uma atitude puramente racional e que se baseia na hipótese de que não vamos morrer, mas gastar agora traz uma dose de prazer imediato, e nosso lado mais primitivo adora essas recompensas momentâneas”. Diante da oportunidade de comprar um carro novo e exibir para o seu desafeto na empresa, fica difícil controlar esse instinto de estabelecer status para poupar para a aposentadoria. Quem disse que estaremos vivos até lá?

E assim você vai analisando o livro, montando proposições (que devem ser feitas a partir com suas palavras) a partir de uma ou mais frases do autor (a Regra 6 da leitura analítica). Como outro exemplo, outra proposição principal é que “à medida que você vai envelhecendo, deve trocar seus investimentos de ações para títulos públicos”. (Isso é parte da resposta à pergunta 3 acima). Ou, referente à pergunta 2, uma outra proposição diz que “mercados são compostos de pessoas, e pessoas muitas tomam decisões no calor do momento, mesmo que não faça sentido nenhum, e isso é difícil de calcular matematicamente”.
AD tem muito mais proposições; aqui está uma lista de algumas (estas são, em sua maioria, palavras minhas):

  • Pesquisas e a experiência comum mostram que a felicidade está ligada a aspectos que o dinheiro não pode comprar, como espiritualidade e relacionamento com pessoas amadas
  • Porém, falta de dinheiro e endividamento estão quase sempre ligados à infelicidade
  • Não há sentido nenhum em trabalhar mais para ganhar mais, se isto chega a um ponto em que você não tem mais tempo para aproveitar esse dinheiro
  • Poupar demais pode ser tão ruim quanto não poupar de menos
  • O planejamento financeiro é uma maneira de controlarmos os nossos instintos de consumo e aumenta nossas chances de poupar
  • Pessoas que não se planejam delegam esse planejamento para gerentes de banco
  • No jogo econômico, ou você paga juros, ou os recebe
  • Você se torna rico quando os rendimentos dos seus investimentos (e não o seu trabalho) geram a receita que você precisa e quer para viver.
  • Você deve separar o dinheiro para poupança como uma despesa fixa, todo mês.
  • Fundos de investimento cobram taxas de administração, mas permitem que pequenos investidores se juntem e consigam negociar como grandes investidores
  • Investimentos em títulos de Tesouro Direto são uma das mais atrativas opções para o investidor típico
  • Os títulos do Tesouro Direto (e outros títulos de renda fixa), por terem rendimento fixo (ou indexado a algum fator determinado, como a Selic ou os índices de inflação), só representam prejuízo garantido para o investidor na muita remota hipótese de o governo dar o calote
  • As ações rendem tanto quanto o sucesso financeiro das empresas o permite, mas a chance de rendimento positivo significativo em um prazo menor que dez anos é muito remota
  • A tributação brasileira sobre investimentos favorece muito quem segura os investimentos por três anos ou mais
  • Pesquisas e teorias economômicas mostram que a especulação (compra e venda ativa e diárias de ações) não rende mais que um investimento passivo, onde o o investidor compra ações ao longo de um horizonte de dez anos ou mais e depois começa a colher dividendos
  • Uma carteira de investimentos diversificada, onde a proporção de renda variável decresce ao longo do tempo, é, segundo mostram alguns exemplos, a melhor estratégia de investimentos
  • Planejamento financeiro é algo dinâmico e exige constante reavaliação.

Identitificando os argumentos

Proposições se juntam para formar argumentos, uma sequência lógica de ideias. Como A Árvore do Dinheiro é um livro prático, as proposições e arguementam se mesclam também com as sugestões que o autor faz para que você siga. Ou seja, ao ler um livro prático, é interessante identificar o que o autor recomenda que você faça para melhorar a sua vida no aspecto que ele está estudando.

A lista acima dá muitos exemplos de proposições que se juntam para formar argumentos. Por exemplo: dado que nossos sistemas primitivos sempre vão nos puxar para o lado do prazer imediato (pense no pico de prazer ao tomar sorvete, mesmo que você racionalmente saiba que não deveria comer tanto açúcar), para vencer isso você deve formar o hábito de planejar as suas finanças e se pagar primeiro. Trate a sua poupança como uma despesa fixa, onde assim que você recebe o seu salário você dedica uma parcela (de 8 a 20% é o recomendado pelo autor; pessoas mais jovens podem se dar ao luxo de poupar menos, porque terão mais tempo de poupança) para algum investimento. Como fazer para não faltar dinheiro para as outras despesas (incluindo contas a pagar): poupe naqueles itens que não contribuem na sua qualidade de vida. Uma sugestão boa do autor é regularmente se perguntar “o que me traz felicidade?”. Literalmente, de tempos em tempos pegue uma folha de papel e faça uma lista do que é importante. De repente você descobre que assitir TV a cabo não entrou na sua lista, e poderia cortar essa despesa.

Porém, o perigo inverso é poupar demais, e nem chegar a viver para ver os frutos dessa poupança. O autor mostra uma pesquisa de um psicólogo americano que concluiu que a felicidade está ligada a prazer, engajamento e significado. O dinheiro só pode comprar prazer (não tendo muito efeito prático na relação com sua mãe nem com o sentido que você atribui à sua existência), e é imporante não esquecer dos pequenos prazeres que podem trazer muita felicidade. Tomar uma cerveja com seus amigos numa sexta-feira pode ser bastante barato (se você não se deixar levar pela tentação de frequentar bares da moda) e trazer bastante felicidade. Ou o cinema que você vai com sua namorada para ver aquele filme pelo qual você não aguenta esperar. Ou o livro do seu autor favorito. Em geral, todos esses pequenos gastos podem ser encaixados no orçamento, com algum planejamento, e trazem grande benefício.

Outro exemplo, para finalizar: a tributação e a maneira como os mercados oscilam favorecem muito o investimento em longo prazo. Investidores “amadores” não têm tempo para tentar adivinhar qual empresa está melhor em cada dia, e parte do lucro que supostamente pode ser obtido com um jogo de trading vai ser comido por impostos e pelas taxas das corretoras. Além disso, pesquisas em Economia mostram que os preços das coisas semprem tendem ao seu valor eficiente; você até pode encontrar uma ação que está muito barata, mas as milhões de outras pessoas logo vão perceber e corrigir isso (comprando ações), e você não vai conseguir correr atrás de todas as ações muito baratas. Logo, a melhor estratégia (de acordo com essas pesquisas e com a experiência do autor) para construir a árvore do dinheiro é ser passivo: pague-se primeiro (como já falado) e investa essa poupança em títulos de tesouro e um ações de empresas de setores diferentes (indústiras, alimentos, serviços financeiros, mercado de roupas…), de maneira que uma crise em um setor seja “amortecido” pelos outros; o crescimento natural da economia vai se encarregar de valorizar o seu patrimônio. Á medida que você for envelhecendo, vá direcionando mais e mais para o tesouro, que tem rendimento menor porém garantido. Entretanto, você também vai ter objetivos de curto e médio prazo, como uma viagem ou trocar de carro; para esses casos, a renda variável é muito arriscada, mas a caderneta de poupança (que sempre perde para a inflação em prazos muito longos) e alguns tipos de títulos do tesouro funcionam bem. Trace seus objetivos e trace planos para cada um, de acordo com o horizonte de tempo disponível (lembram que esse era um dos meus principais problemas?).

Juntar proposições em argumentos é a Regra 7 da leitura analítica.

Identificando as respostas aos problemas do autor

O último passo da interpretação do livro é verificar se o autor responder às perguntas que ele mesmo propôs, e caso contrário, onde ele falhou (a Regra 8 da leitura analítica).

No caso de livros práticos, a minha percepção é que o autor raramente vai deixar claro onde estão as falhas (em um livro prático a pessoa propõe uma metodologia, e não vai querer apontar onde ela é incompleta). No caso de AD, que é um livro relativamente curto, para mim fica claro que o Prof. Jurandir concatenou todas as respotas para as suas três perguntas principais, através dos argumentos que eu delineei na última seção.

Da interpretação à crítica

O último estágio da leitura é criticar o livro — e isto significa muito mais que dizer se o autor está certo ou errado. É usar a sua experiência para avaliar o livro.

Aguardem para a última parte desta série que está me dando muito trabalho, mas está me dando uma luz incrível, tanto sobre Como Ler Livros quanto sobre A Árvore do Dinheiro.

Descobrindo a estrutura de um livro

No último post da série sobre Como Ler Livros, de Adler e van Doren (que eu abrevio conforme o inglês como HTRAB), falei da leitura inspecional. O fato é o seguinte: eu adoro ler livros e quero ficar cada mais melhor nisso. Adler a van Doren professam, e eu testemunho como verdade: é impossível ler um livro por completo apenas uma vez. Você corre o risco clássico de se perder em passagens difíceis sem ter certeza do que se trata, ou descobre no meio do livro que ele não interessa em nada a você. Assim, é mais interessante realizar uma primeira leitura por cima, para você ter uma visão panorâmica do livro, e só depois ler o livro com mais calma. De preferência, isso deve ser feito de uma só vez, em uma ou duas horas, para propriamente sentir o livro. Fiz isso com A Árvore do Dinheiro (que abrevio por AD), do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr. (Elsevier, 2010), e cheguei a esse resumo:

Este é um livro prático de finanças pessoais (relacionadas às ciências economômicas e à psicologia, sendo um livro científico portanto). O autor usa elementos da teoria financeira e comportamental para traçar um plano, cuja meta é construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar os objetivos do leitor. Os capítulos seguem a ordem proposta do plano: primeiramente é discutido como traçar objetivos coerentes com o nosso estilo de vida; em seguida é levantada a questão do orçamento pessoal e de como fazer sobrar dinheiro para que este seja investido. Uma breve explicação sobre risco, investimentos e capital segue, e o livro termina abordando três grandes grupos de investimentos: fundos, renda fixa e renda variável, a serem adotados pelo leitor conforme seus objetivos.

O próximo passo é a chamada leitura analítica, uma leitura lenta, atenta e bastante ativa (anotações são praticamente obrigatórias). Cada palavra deve ser entendida, e você deve constantemente fazer perguntas sobre o livro (já vamos falar sobre elas). Ao final, quando você fecha a última página do livro, seu trabalho como leitor não está terminado. É uma questão de respeito intelectual com o autor você digerir o livro.

A leitura analítica, sendo uma atividade complexa, na verdade consiste de várias etapas, não significando, como os autores enfatizam, que você deva ler o livro várias vezes (você deve ler um livro apenas quantas vezes for necessário para entendê-lo). O primeiro estágio compreende descobrindo sobre o quê é o livro.

Antes de continuar, devo dizer que fiz essa leitura mais especializada na versão digital atualizada da obra (Insular, 2013), pela comodidade que é fazer anotações no Kindle e para ter alguns dados mais atualizados.

Um outro detalhe é que, depois de terminado de ler o livro analiticamente, esperei pelo menos uma semana para começar a escrever esses textos, para dar tempo para as ideias sedimentarem na minha cabeça.

Passos do primeiro estágio da leitura analítica – descobrindo a estrutura do livro

Identificando o assunto

O primeiro passo sugerido pelos autores de HTRAB é identificar propriamente o assunto do livro (Essa é a Regra 1 da leitura analítica). Isso já foi feito na minha leitura inspecional (nesse sentido, acho que me antecipei um pouco em relação aos autores), mas após a leitura mais cuidadosa é interessante observar se aquele resumo que você produziu é verdadeiro. No caso de AD, que é um livro relativamente simples, a minha classificação foi acertada. É um livro primariamente sobre economia, com discussões sobre decisão, juros, risco, rendimentos, capitais; e é um livro prático, onde o autor constante sugere que o leitor faça alguma coisa para melhorar a sua vida financeira.

Identificando a unidade

O segundo passo é estabelecer a unidade do livro. Uma das minhas passagens favoritas e HTRAB é onde os autores pegam vários exemplos de livros e mostram como eles descreveriam a essência do livro, em algumas frases.

Naturalmente, uma boa leitura inspecional, seguida de uma leitura analítica atenta, ajuda muito nessa parte. Como falei, uma vez que você fechou o livro, afaste-se dele e procure estabelecer uma visão paranorâmica do livro. Fundamentalmente, do que se trata o livro? Aqui está como eu descreveria a unidade de AD:

Este é um livro detalhando um plano para que indivíduos usem conhecimentos sobre si mesmo (especificamente, sobre por que consumimos, por que não poupamos e por que temos aversão a riscos) e sobre o funcionamento dos mercados (chamando a atenção para o fato de que dinheiro é um mercadoria, e que existem mecanismos pelos quais você empresta dinheiro e recebe juros em cima disto) com o objetivo de construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar seus objetivos fincanceiros (como comprar casas e carros, realizar viagens, aposentar-se etc).

Essa não é a única forma de descrever a unidade dessa obra, e nem a melhor. É a minha versão, tendo em conta a minha experiência de ler o livro.

Fazer essa identificação é a Regra 2 da leitura analítica.

Identificado a estrutura

Livros expositórios tem como unidades de divisão básica as partes e os capítulos. Eu acho que sou um pouco chato com a questão “semântica” da divisão e logo me irrito com uma divisão de capítulos que não faz sentido. Para mim, uma boa divisão significa que, ao pular de um capítulo para outro, o leitor consegue entender tudo que há no livro até o capítulo recém-lido e percebe que uma nova ideia segue.

Quando várias pessoas lêem o mesmo livro, a divisão do autor é naturalmente a mesma, mas um ponto importante que os autores de HTRAB lembram é que a maneira com que você, leitor, faz as divisões, não necessariamente é a mesma do autor. Diferentes leitores vão identificar a estrutura do livro de maneira diferente. Tomemos A Árvore do Dinheiro como exemplo. O livro tem seis capítulos:

  1. Comportamento Financeiro
  2. Planejamento Financeiro
  3. Teoria Financeira
  4. Fundos e Clubes de investimentos
  5. Investimentos em Renda Fixa
  6. Investimentos em Renda Variável

Quando eu li o livro, para mim ficou claro que o livro é composto de duas macro-partes, com uma divisão em capítulos — com o detalhe de que, para mim, os capítulos estão na ordem errada. Eis o meu outline do livro:

  1. Fundamentos de teoria e planejamento financeiro
    1.1. Comportamento financeiro (Cap.1) — onde é discutido por que tendemos a ser consumistas, qual a relação entre dinheiro e felicidade e como esse conhecimento pode ajudar a poupar mais
    1.2. Teoria Financeira (Cap. 3) — deveria vir logo depois do primeiro capítulo, onde é apresentado um resumo da teoria econômica de investimentos: o que é risco, o que o “mercado”, quais as principais tendências da teoria de investimentos
  2. Estratégias de investimento — onde os conhecimentos teóricos são postos em práticas
    2.1. Planejamento financeiro (Cap. 2) — onde é apresentado um modelo de passos a seguir para cumprir seus objetivos financeiros
    2.2. Tipos de investimento — como fazer o seu planejamento do item anterior ser posto em prática
    2.2.1. Fundos e Clubes de investimentos (Cap. 4)
    2.2.2. Investimentos em Renda Fixa (Cap. 5)
    2.2.3. Investimentos em Renda Variável (Cap. 6)

Isso é só uma opinião minha, e não estou dizendo que o livro deve ser mudado. Após ter lido o livro, essa divisão me ajuda a entendê-lo melhor e seria a que eu usaria se tivesse de explicar o seu conteúdo para alguém (como estou fazendo agora mesmo).

Essa divisão poderia ser refinada ainda mais, mas os capítulos de AD são curtos e atômicos, e eu sinto que o delineamento que eu acabei de fazer é suficiente. Como Adler e van Doren constantemente repetem ao longo de HTRAB, cada livro é único no esforço que demanda do leitor. AD é um livro interessante porém fácil de ler, e portanto uma estrutura simples como a acima deve bastar para consolidar a minha compreensão do livro.

Delinear um livro é a Regra 3 da leitura analítica.

Identificando os problemas

Uma pessoa escreve um livro porque nele documenta a solução de algum problema — em geral, o autor procurou entender mais de algum assunto e então mostrou o resultado dessa pesquisa em algum livro.

Nesse sentido, a introdução de AD ajuda muito. Nela, o Prof. Macedo Jr. escreve:

[A experiência de ministrar cursos de mercado de capitais] propiciou uma série de contatos com milhares de alunos que, em sua maioria, conheciam muito bem o mercado financeiro e sabiam manipular ferramentas de controle de orçamento. No entanto, esses mesmos profissionais afirmavam ter enormes dificuldades para controlar suas finanças pessoais

Por que pessoas capacitadas em administrar e aconselhar seus clientes em questões financeiras não conseguiam controlar as próprias finanças? Essa dúvida inicial, que me desafiava e atormentava, certamente foi o que me conduziu a este livro.

O autor segue contando como ele se enveredou pelo estudo das Finanças Comportamentais e aplicou esse conhecimento em cursos, palestras e artigos.

Naturalmente, essa indicação não é suficiente para identificar esse problema — afinal, eu dediquei esforço a ler o livro analiticamente, e devo usar esse conhecimento. Aqui está como eu identifico os probemas do autor (a Regra 4 da leitura analítica):

  1. Como construir uma “árvore do dinheiro”, isto é, o que deve ser feito ao longo da vida de uma pessoa para que, quando a pessoa estiver mais idosa, ela comece a receber rendimentos do dinheiro que foi aplicado?
  2. Por que o conhecimento clássico, puramente matemático, das finanças não é suficiente? Por que as nossas emoções nos atrapalham na construção dessa árvore do dinheiro?
  3. Quais são os mecanismos pelos quais uma pessoa constrói a sua árvore do dinheiro? Qual a melhor estratégia?

O passo seguinte da leitura analítica

Nada disso propriamente faz você entender o conteúdo de um livro, o que é o tema das próximas regras da leitura analítica. Porém, não deve ser difícil perceber que ter esse mapa que acabamos de fazer ajuda. No meu próprio caso: eu tenho várias anotações sobre o livro, passagens que me chamaram a atenção ou comentários que eu fiz sobre alguma seção. À medida que eu for processando-as para escrever os próximos textos (e ter um arquivo com a minha análise de AD), vai ficar mais fácil ver como passagens em partes distintas se conectam com a unidade central do livro, e entender por que o autor disse algo no começo do livro, tendo em vista que lá no capítulo final ele volta a esse problema.

Aliás, tendo identificado precisamente quais os problemas (e eu só tive essa percepção clara quando escrevi este post) vai me fazer ter outra visão sobre as minhas anotações.

E sim, ser um bom leitor dá trabalho. Mas, se você quer elevar o seu conhecimento, esse trabalho vale a pena.