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Flores para Algernon

Como muitas de minhas leituras, começou como um livro disponível para alugar gratuitamente via Prime Reading, atraindo-me pelo título curioso. A premissa era interessante, uma pesquisa na Wikipedia revela que o livro era renomado e tocava no importante tema de saúde mental, e os parágrafos iniciais me mostravam um jeito de usar as palavras de uma maneira que nunca achei ser possível. Este feriadão de Proclamação da República de 2021 me deu a oportunidade de terminar, e proclamar: Flores para Algernon, de Daniel Keyes, é um dos livros mais brilhantes que já li.

Algernon é um nome de um rato de laboratório que passa por uma cirurgia para ficar mais inteligente, e o seu sucesso leva os cientistas a testarem em um ser humano com deficiência mental, Charlie Gordon, de 30 e poucos anos. A cirurgia dá muito certo, e depois dá muito errado.

O parágrafo acima pode parecer um spoiler, mas é meramente dizer o óbvio: alguma coisa em ficção científica tem de sair do controle. Mas mesmo que eu contasse tudo que acontece a leitura vale a pena: a melhor parte do livro não é a história em si, que chega a ficar chata em vários pontos, mas como ela é contada: através de “relatórios de progreso” (sic) que viram “Relatórios de Progresso” à medida que Charlie aprender a escrever. A linguagem infantil e amorosa dá lugar a uma escrita eloquente, científica e sem sentimentos.

O ponto central do livro é que Charlie não se transforma propriamente; no fundo, o Charlie doce e infantil convive com o Charlie inteligente e arrogante. Esse é o mesmo sentimento que eu tive quando enfrentei a depressão: o Fábio deprimido, com pensamentos perturbadores, não era o Fábio verdadeiro, mas uma aberração que tomou conta do seu cérebro, e depois foi embora.

É por isso que eu recomendo fortemente a leitura: para mim, esse é um livro sobre empatia; quando Charlie, ainda escrevendo errado, reclama a um dos pesquisadores que não sente que está melhorando, ele ouve a resposta e transcreve no seu relatório:

Ele disse Charlie você tem de ter confiansa em nós e em você mesmo.

Essa passagem me chamou a atenção pela ordem: você, um pobre coitado, tem de confiar primeiro em nós, e só depois no seu próprio poder.

Flores para Algernon é sobre amar as pessoas quando tudo está bem e quando tudo está um desastre, sobre aceitar os mentalmente doentes como pessoas acima de tudo.

Vamos conversar mais sobre saúde mental?

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A experiência de ler o mesmo livro em Kindle e em formato físico

Era só uma viagem de volta de Florianópolis para Joinville. Quando o bebê no banco de trás começou a reclamar de fome, reduzi até entrar uma destas paradas de beira de estrada – uma relativamente famosa, mas ainda assim uma parada de beira de estrada. Depois do café com pão de queijo, a caminho do caixa, eu vejo um monte de livros expostos, entre eles não um livro qualquer de ficção popular, mas um dos meus livros favoritos: Roube como um Artista, de Austin Kleon.

Principalmente pelo aparente absurdo de encontrar um livro sobre criatividade em um restaurante de BR, não resisti e comprei. O fato de eu comprar um livro por impulso não deve surpreender a ninguém, exceto talvez pelo fato de que eu já tenho esse livro, já li e reli inúmeras vezes, já resenhei aqui e já escrevi sobre muitas lições inspiradas pelo livro.

Ler o livro físico enquanto tomo café da manhã, no entanto, tem sido uma experiência diferente. Eu me engajo mais com o livro, presto mais atenção nas suas ideias, e ajo mais em cima dos seus conselhos. A leitora percebeu que tenho postado todos os dias de novembro? Pois é, o compartilhamento frequente de ideias é tema de um dos capítulos, e, devo dizer, um dos meus prazeres diários e resumir o que se passa na minha cabeça em um post por dia.

A minha relação com meus cadernos também mudou. Enquanto estudo, eu procuro não apenas sintetizar as ideias com minhas palavras, mas agora busco também copiar alguns parágrafos ou frases exatamente como escrito, para tentar imitar um pouco do estilo de escrever.

O livro digital logicamente tem suas vantagens. Esperando o dentista, eu posso ler um livro no celular em vez de perder tempo no Instagram, mas eu dificilmente levaria um livro de papel por aí. No Kindle (o dispositivo e nos apps) eu posso marcar passagens e escrever notas, e então exportar as anotações. Posso pesquisar qualquer palavra. Mas não aprendo tanto quanto no livro físico.

Como alguém que anda estudando projetos de sistemas térmicos, eu sei que dificilmente existem ótimos globais; se livros físicos ou digitais fossem claramente melhor que a outra versão, não haveria ampla disponibilidade dos dois formatos. E por isso eu aproveito tudo: alguns livros no Kindle, outros na minha biblioteca física, e alguns de todas as formas possíveis.

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Você tem noção de escalas?

Em Four Thousand Weeks, Oliver Burkeman faz o alerta de que o ser humano típico vive apenas 4000 semanas em toda a vida, e conta que as pessoas (para quem ele perguntou de maneira não-científica) largamente sobre-estimam o tempo de vida numa unidade não-usual como “semanas”.

Como professor de engenharia, isso me faz pensar na noção de escalas, uma habilidade essencial de engenheiros que leva anos a desenvolver propriamente (eu mesmo estou longe de ter uma noção perfeita). Todo mundo sabe que 1000 ˚C é quente, mas e outras unidades e dimensões?

Ao considerar um equipamento que entrega 100 W de potência, você imediatamente consegue pensar no que é isso? É o consumo de uma lâmpada média.

Um compressor de geladeira consome algo em torno de 1/5 de HP – você tem noção de que isso é 200 vezes menor que o motor de um carro? (tudo isso são valores típicos).

O que é 60 km? É a distância que se percorre em 1 h de carro, com uma velocidade média de 60 km/h (que envolveria você trafegar por uma cidade em velocidades baixas, pegar uma rodovia a mais de 100 km/h, e depois entrar em outra cidade).

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O que são produtos da combustão?

Um motor a combustão interna aspira ar atmosférico, recebe uma adição de combustível, promove a combustão dessa mistura, realiza o seu trabalho, e depois joga os produtos da combustão na atmosfera. O que o motor descarrega não é ar e gotículas de combustíveis; os reagentes sofreram mudanças químicas, tanto que perderam energia no meio do caminho.

Quando eu comecei a estudar o assunto de combustão mais aprofundadamente para preparar as minhas disciplinas sobre o assunto, percebi o quanto é comum, em livros de termodinâmica, tratar do resultado da reação com um nome genérico como produtos da combustão, como se fosse uma substância química própria, cujas propriedades podem ser encontradas em tabelas. Acho que isso impede compreender de fato o assunto da combustão. O que acontece na queima de um combustível afeta a eficiência da máquina térmica que essa queima vai acionar, e são esses produtos que vão circular por motores e turbinas. Para estudar melhor os ciclos termodinâmicos, é preciso saber o que há ali dentro.

Recomendo a todos que se interessam pelo assunto de combustão, e a todos os meus estudantes, que leiam A História Química de uma Vela, onde Michael Faraday vai explicando e demonstrando passo a passo o que está acontecendo na combustão de uma vela.

Os produtos da combustão são gases, resultantes da oxidação do que há dentro do combustível com os componentes do ar atmosférico, que são basicamente gás oxigênio O2 e gás nitrogênio N2. A maioria dos combustíveis é baseado em hidrocarbonetos, então em primeiro lugar o carbono vai formar dióxido de carbono CO2 (que, surpreendentemente, não é um poluente, pois existe naturalmente na atmosfera; o problema é quando há CO2 em excesso). Se a combustão for defeituosa, vai faltar oxigênio, então vai haver liberação de fuligem – partículas sólidas de carvão. Faraday observou que são essas partículas que, quando ficam muito quentes, brilham muito quente e com uma chama laranja; uma chama “correta” é azul. Em condições ruins, pode haver também formação de monóxido de carbono CO, que é tóxico.

Se houver oxigênio demais, vai sobrar gás oxigênio nos produtos, e para prevenir os efeitos indesejados acima geralmente os processos de queima ocorrem com excesso de ar.

O nitrogênio do ar geralmente não participa da queima, a não ser em temperaturas muito altas (acima de 1800 ˚C). Na verdade, o nitrogênio, por ser muito pesado, acaba atuando como uma “esponja” térmica e sai muito quente da chama. Se a reação for quente demais, vai haver formação de óxidos NO e NO2; estes promovem chuva ácida quando se mistura com a umidade atmosférica. A chuva ácida também é uma consequência da formação de dióxido de enxofre, SO2, se o combustível contiver enxofre (os derivados líquidos de petróleo geralmente o tem).

Falando em umidade, a combustão do hidrogênio, além de produzir uma chama muito brilhante, também cria vapor d’água. Eu não sei isso é surpreendente só para mim; associamos água como algo que apaga o fogo, e não que é criada a partir do fogo. Faraday deu a receita fácil: retire água de uma fonte, ponha para ferver, e direcione o vapor para reagir com ferro; o ferro se oxida e sobre gás hidrogênio. Esse gás é a única substância que, ao se oxidar, produz apenas água; com as reações corretas, você retém o hidrogênio e reconstrui as moléculas de água usando o oxigênio atmosférico.

Então, agora você já sabe, produtos da combustão não são uma entidade, mas em geral uma mistura de fuligem, CO2, CO, SO2, O2, N2, NO, NO2 e H2O. Para entender o assunto, você precisa dar nome às coisas.

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Meu autor favorito de livros de Engenharia Mecânica: Yunus A. Çengel

Continuando a conversa sobre livros de Engenharia, não posso deixar de falar sobre um autor cujos livros possuo quase na sua totalidade: Yunus A. Çengel, professor na University of Nevada, Reno.

Eu tive contato com ele quando estava na 4a fase da graduação em Engenharia Mecânica mas, contrariando a relevância do que falei no post anterior, não comprei nenhum quando estava na faculdade. Talvez porque eu trapaceava: o Termodinâmica era o livro que meu orientador usava nas suas disciplinas, e eu tinha certo acesso fácil a ele (era só pedir).

Quando eu virei professor, uma das minhas primeiras decisões foi comprar toda a coleção disponível no Brasil – falta apenas o Equações Diferenciais, que na minha situação atual é o menos relevante (mas, conhecendo a minha personalidade obsessiva, um dia eu completo a coleção).

Como dá para ver, as figuras são excelentes para ilustrar conceitos e elas mesmo quase não precisam de legendas

Os livros do Çengel para mim possuem a combinação perfeita de explicações didáticas com figuras bem trabalhadas. Por exemplo, no momento ando mergulhando em Mecânica dos Fluidos, um assunto que frequentemente aparece nas minhas disciplinas (ainda que eu mesmo não ministre nenhum curso especificamente sobre isso) e sempre aparece em concursos para professor efetivo. Meu método de estudo consiste em montar mapas no MindNode, cheio de equações produzidas no LaTeXiT e figuras do livro do Çengel. O texto é fácil de seguir e há muitos exercícios disponíveis.

Como professor, o material de apoio disponível no site da editora é excelente, com soluções de exercícios e ilustrações do livro em alta resolução. Quando estou montando slides das várias disciplinas, as pastas com as imagens de todos os livros estão sempre abertas para ilustrar as apresentações.

Essa figura, por exemplo, aparece em todas as minhas disciplinas. É simples, bem feita, fácil de entender: a gasolina é o derivado mais leve e o óleo combustível, o mais pesado.

Qual o lado ruim? O didatismo vem às custas de pouca profundidade em alguns assuntos. Por exemplo, o Transferência de Calor e Massa do Çengel é um livro muito menos completo que o famoso e amado Incropera – mas o que eu faço: uso o último das minhas aulas mas monto slides com as figuras muito melhores do primeiro.

Para terminar um texto sobre livros, não posso deixar de linkar um texto do Austin Kleon: os livros do Çengel me influenciam profundamente como educador de engenharia, e eu assumo isso e procuro sempre estudá-los.

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Por que eu sempre comprei livros para a faculdade

Pergunte a qualquer pessoa que me conhece e você ouvirá: o Fábio ama livros, ao ponto de ser anti-social e ler na mesa enquanto outros compartilham dela (já não faço mais isso, pelo menos). Esse meu traço de personalidade está comigo desde a infância, e por isso nunca hesitei na faculdade em comprar livros. Aqui está por que eu acho que sempre vale a pena fazer isso.

Primeiro, vamos falar da realidade cruel: às vezes gastar com livros não é uma opção. Eu tive amigos que passavam fome na faculdade, fazendo de tudo para conseguir se manter numa cidade estranha e concluir o curso, mesmo com o esforço dos pais e auxílios estudantis. Felizmente, eles se formaram, alguns fizeram doutorado, e estão numa situação muito melhor. Se você conta dinheiro para comer e pagar aluguel, obviamente esse post não é para você. Aguente firme e peça ajuda; vai melhorar. Tente absorver o máximo possível de conhecimento, e você terá uma vida inteira para comprar os livros que marcaram a sua faculdade. Se achar que eu possa contribuir de alguma forma, entre em contato nos comentários.

Eu estou imaginando conversar com alguém de classe média, aluno de uma faculdade pública ou privada, que tem dinheiro para gastar com livros mas não sabe se vai servir para alguma coisa. Serve – ainda que dependa da sua personalidade e da sua visão para o futuro.

Livros que comprei durante a Graduação, Mestrado e Doutorado e que foram muito usados na minha carreira

Eu entrei na faculdade há 15 anos, e todos os livros que eu comprei e fui acumulando me acompanharam nesses anos, em diferentes projetos. Você pode argumentar que eu segui a carreira acadêmica e naturalmente uso mais livros que um engenheiro de chão de fábrica. Eu concordo, mas também não acho que meus papeis eram muito diferentes de um engenheiro qualquer. Eu participei de projetos de bancadas experimentais junto com outros técnicos, discutindo materiais e dimensões – e recorri ao meu livro de Projeto de Máquinas para revisar assuntos de engrenagens e projetos de eixos. Eu tive de conferir sistemas de medição, coisa que qualquer engenheiro que trabalhe com controle de qualidade precisa dominar – e recorri aos meus livros de Estatística e Metrologia. Antes de ser pós-graduando, eu era (e ainda sou) Engenheiro – só não ganhava direitos trabalhistas.

Agora, preparando aulas, eu sempre estou com um livro aberto perto de mim. É muito mais conveniente que ter de procurar por um PDF (muitas vezes de má qualidade), e tem muito mais garantia de estar correto que uma pesquisa rápida no Google. A informação está ali, de maneira didática, geralmente acompanhada de tabelas e figuras, para praticamente qualquer desafio que você enfrenta.

Minha visão de trabalho 70% do tempo

Há ainda o efeito de acumulação. Com um pouco de dinheiro gasto por semestre, ao final de uma faculdade você tem dezenas de livros à sua disposição, que podem lhe acompanhar por uma vida profissional. Você está entrando na sua profissão a sério.

Meu companheiro desde 2008

Sobre o dinheiro, como tudo nessa vida, é uma questão de prioridades. Independente do seu curso, você já deve conhecer os livros clássicos que são usados muitas vezes em mais de um semestre. Você pode pesquisar em fóruns ou grupos de ex-alunos, Amazon, Estante Virtual – livros usados são ótimos, e ainda geralmente já vêm com anotações do que outras pessoas acharam importante (o que para mim é uma feature, não um bug). Procure nas livrarias locais e nos sebos que ficam próxima à sua faculdade. Peça de presente. Vá em algumas festas a menos.

Você não quer levar a sua profissão a sério?

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Frankenstein, ou como conhecimento superficial não conta

Frankenstein, ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley, foi o último livro de ficção que li em 2020, e um exemplo de como conhecimento superficial não é bem conhecimento.

O que eu achava que conhecia sobre a obra, baseado em apenas ouvir dizer: um cientista maluco cria um monstro chamado Frankenstein com parafusos na cabeça, grita IT’S ALIVE, e a criatura sai quebrando tudo.

Sobre o que o livro realmente é: o impacto de decisões erradas. Frankenstein é o estudante de filosofia natural (e não a criatura) que se vê no meio de uma briga de ego de dois professores, que resulta numa descoberta “mágica” (melhor dizendo, alquímica) sobre a origem da vida. Ele faz um experimento, fica horrorizado, e tem de lidar com o que acontece depois. É ele quem fica louco de arrependimento.

O ato da criação em si consome muito pouco tempo do livro, o que me leva a questionar a classificação de Frankenstein como “horror” ou “ficção científica”. Para mim, é um drama, cheio de reflexões sobre o sofrimento do protagonista, com toques de fantasia.

O que mais eu não sabia? Que esse é um livro suíço. A geografia da Suíça, com seus lagos, planícies e Alpes são parte importante da relação entre criador e criatura.

E, surpresa, o monstro não tem parafusos na cabeça. Ou pelo menos Mary Shelley não queria nos dar essa imagem vívida. Aliás, ambíguo é um adjetivo apropriado para descrever esse livro.

Por dentro das coisas

Donald Knuth tem uma frase que adoro, difícil de traduzir, mas que basicamente significa que o trabalho dele é conhecer os detalhes profundos de poucas coisas, e não uma visão geral de tudo.

Por uma questão de personalidade, eu também sou assim. Dê-me um livro e um fone de ouvido e me largue por horas e consigo ser feliz. Porém, na minha carreira, diversas vezes sofri pressão para abandonar essa abordagem em favor de um conhecimento mais raso porém mais amplo. Os resultados sempre foram ruins.

Conhecimento superficial não é conhecimento. Nunca há tempo para saber tudo que há para saber, e há que se tomar cuidado para não perder tempo demais pesquisando e de menos fazendo. Porém, acredito que geralmente é possível se organizar e realmente aprender alguma coisa, estudando-a efetivamente, tomando notas. Querer realizar uma tarefa com base em um vídeo rápido do YouTube vai exigir retrabalho depois para cobrir os detalhes que ficaram para trás. Mais valia a pena ter se dedicado a estudar com mais afinco antes.

Esse texto é para lembrar desse lema pessoal: Fábio, você é uma pessoa que gosta de estar on bottom of things. Ler o livro Frankenstein (que, sinceramente, é chato de ler) dá um conhecimento muito superior a ler todos os resumos e artigos na Wikipedia ou ver todas as adaptações.

Próximo passo: ler Drácula e ver o quanto eu realmente sei sobre vampiros

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A Curva da Libertação

Há muitos meses, tenho me dedicado a estudar os Salmos mais profundamente, com o auxílio de Salmos para a Vida, de Inácio Larrañaga. Além de apontar diversos Salmos sobre diferentes temas, o autor traz ideias religiosas que provocam muita reflexão.

Há um capítulo sobre o exercício do Abandono: a oração em que nos entregamos totalmente a Deus. “Eu já fiz a minha parte; agora é Contigo”. Esse exercício revela um fato: os momentos de maior presença de Deus são os momentos de maior desespero; Deus aparece no seu máximo poder quando nós estamos no nosso mínimo poder.

Como engenheiro, não posso deixar de exprimir isso numa curva simples mas significativa:

Incontáveis vezes já passei por isso. Quando fiz as Oficinas de Oração e Vida pela primeira vez, os exercícios de Abandono foram o que me ajudaram a superar a morte da minha avó. Foi só percebendo que não havia nada que eu pudesse fazer que eu entrei na parte descendente dessa curva.

Não é escapismo, é fazer o que se pode fazer, e então parar. Um exemplo recente e pessoal: estou com um problema de cadastro das disciplinas que ministro para o semestre que vem, e pode ser que eu não pegue essa turma. Isso implica em redução de salário, o que sem dúvida é ruim. O que posso fazer? Já falei com meu Chefe, com o pessoal de suporte aos sistemas acadêmicos, já conferi o cadastro que eu mesmo fiz. Agora não tenho mais nada a fazer, a não ser esperar e ver como vai ser resolvido. Se ficar com a discipina, ótimo; se não, vou dar um jeito, sem necessidade de desespero.

Um fato: esse estado de espírito para o Abandono é vacilante, e não podemos nos angustiar com isso. Ora temos medo, ora confiamos totalmente em Deus. Aceitemos em paz.

Principalmente para os mais ansiosos como eu, é muito comum que a angústia entre numa curva ascendente. É possível antecipar o pico e começar a se sentir melhor com um exercício de oração. Se o leitor está se sentindo muito ansioso com algo, experimente esse exercício: pegue um caderno, respire fundo, faça o sinal-da-cruz, e escreva uma carta para Deus sobre tudo que está acontecendo na sua vida. Conte dos seus problemas, revise o que você já fez, e peça ajuda.

Depois venha contar aqui o quão bem você dormiu.

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O Médico e o Monstro e eu e você

Como parte da minha assinatura Amazon Prime, tenho acesso a alguns ebooks gratuitos todo mês no regime de empréstimo: posso ter 10 títulos na minha biblioteca do Kindle, e se quiser mais tenho de devolver algum. Geralmente são livros ditos “clássicos”, e o fato de que estou lendo mais livros desse tipo meio que já justifica os R$9,90 mensais.

Um dos títulos que li recentemente foi justamente O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Eu não sei o leitor, mas eu não era nenhum um pouco familiar com a história, e na minha cabeça o Monstro da história era algo do tipo um lobisomem, ou um The Hulk: uma criatura gigantesca, incapaz de controlar a raiva, de aparência abominável. Minha grande surpresa é que o monstro do título é um ser humano, apenas… mau.

O livro é muito curto, uma novela, e de leitura fácil. A lição principal, porém, é muito relevante.

Eu já falei aqui de saúde mental, da minha luta contra depressão e ansiedade. Eu estou mais que ciente de que essa luta é para a vida toda. Eu não me sinto mais deprimido, mas a doença só está adormecida, e desponta com sinais conhecidos: pessimismo, senso de tragédia, mau humor. Felizmente, anda controlada. Eu aceito e acolho meu lado deprimido, meu lado que tem pensamentos violentos, o meu lado que diz para não aceitar uma vida que não seja perfeita.

Porque se eu não aceitar o meu lado mau, ele aflora, exatamente como no livro. O médico da história tenta separar as suas personalidades boa e ruim, com resultados catastróficos — o lado mau sempre vai vencer pela trapaça e pela violência. Dr. Jekyll não era Edward Hyde, mas o continha.

O Setembro Amarelo está acabando, mas não existe tempo certo para falar de sanidade mental. Se você tem pensamentos sombrios, são só isso, pensamentos, e não quer dizer que você é sombrio. Se você não consegue ver a diferença, procure ajuda: familiar, terapêutica, médica, espiritual. É literalmente um caso de vida ou morte.

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Resenha: Os Testamentos

Os Testamentos, de Margaret Atwood, é a continuação de O Conto da Aia (minha resenha). O universo compartilhado entre os dois romances mostram um mundo onde guerras nucleares provocaram uma epidemia de infertilidade nos EUA. Como resposta, um grupo religioso fundamentado no Antigo Testamento toma o poder, funda a República de Gilead e estabelece uma nova sociedade de castas. As mulheres férteis são escravizadas como aias, que devem copular com os seus mestres, os Comandantes da Fé, numa cerimônia com o testemunho das suas Esposas supostamente inférteis — os próprios maridos podem ser biologicamente, mas não legalmente, estéreis.

Os testamentos dos títulos são relatos de três figuras relacionadas ao regime; como era de se esperar, as aventuras das três se une no meio do romance.

Pelo que as opiniões do Goodreads deixam claro, minha opinião não parece ser muito popular, mas aqui vai: Os Testamentos é um romance superior ao seu antecessor. A alternância de personagens torna a leitura mais fluida; O Conto da Aia usa um recurso de se focar em apenas uma personagem (Offred), mas deixa dúvidas se não está se referindo a todas as aias. O romance tem bem mais elementos de ação, ao mesmo tempo que educa o leitor sobre a origem de Gilead (a grande pergunta não respondida do primeiro livro, pelo que Margaret Atwood comentou no prefácio). É uma combinação certeira em um livro de ficção: entretimento simples, ao mesmo tempo em que promove reflexões sobre o feminismo (que a autora não abraça, aliás) e política.

Uma reflexão ainda não tem resposta, porém: qual o propósito de Gilead? Quem de fato se beneficia com o regime? A vida dos líderes (comandantes) parece bem miserável. Não há grandes luxos disponíveis, como carros, bebidas, cigarros; e eles têm de constantemente gerenciar o regime para não sucumbir à resistência e manter as mulheres sob controle. Mesmo o bordel de O Conto da Aia parece bem melancólico. Claro, há comportamentos como o de um dos personagens, que coleciona esposas-crianças; mas mesmo ele tem de disfarçar as suas preferências, e sendo assim o que diferencia de um pedófilo no mundo atual?

O mais perturbador do universo de Gilead é que ele não é absurdo. A classe de políticos estilo Bolsonaro-Trump certamente adoraria um mundo onde não existisse qualquer resquício de participação feminina na política, e onde elas pudesse ser avaliadas livremente pelo potencial sexual; nosso presidente até se envolveu em uma discussão online e no Facebook dizendo que as críticas do presidente Macron da França contra o desmatamento da Amazônia são porque a sua mulher é muito feia. Por outro lado, o livro mostra mais um exemplo de como a Segunda Lei da Termodinâmica é cruel: sistemas onde a ordem é imposta artificialmente requerem muito trabalho para serem mantidos, e estão fadados a voltarem a um estado mais natural.

Tudo bem se eu encerrar esse texto dizendo que a esperança, afinal, vem da Termodinâmica?