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Sobre Fábio Fortkamp

Escritor, engenheiro, estudante de doutorado, interessado em ciência, tecnologia e produtividade, leitor serial, bebedor de cerveja, apaixonado por bons filmes.

Quer progredir no trabalho? Estude criatividade

A nobre leitora deve ter percebido um grande aumento de textos recentes nesse blog sobre criatividade. Não é de se espantar, já que Fábio Fortkamp.com reflete o que se passa na cabeça do Fábio Fortkamp, e ultimamente ele parece que só lê coisas sobre criatividade.

Mas como criatividade afeta a minha vida bastante mundana de pesquisador/marido/Guia das Oficinas? E por que eu me incomodo em partilhar isso, e porque eu encho a cabeça dos meus leitores sobre criatividade?

Para mim, criatividade é sobre ter ideias, e (quase) todo mundo pode se beneficiar disso.

Eu, sentado em um sítio, escrevendo no meu Bullet Journal, rodeado de cachorros
Eu, tendo muitas ideias

Kourosh Dini define um projeto concreto como aquele que tem passos bem definidos: ir à loja tal comprar isto; entrar no site X e submeter documento Y. Para esses tipos, que encontramos todo dia, não precisamos de muitas ideias, apenas de tempo e energia.

Na terminologia de Dini, projeto criativo, por outro lado, tem um fim desconhecido e passos não muito claro. Trabalhadores do conhecimento lidam com projetos criativos o tempo todo: escrever um relatório, preparar uma apresentação, criar um plano de negócios, preparar uma aula. O próximo passo não é simplesmente “digitar relatório”; você precisa pensar sobre ele. Ter ideias, enfim.

É por isso que, além de ler material mais técnico como artigos sobre circuitos magnéticos ou livros sobre otimização, no meu trabalho como pesquisador eu me cerco de textos sobre como aproveitar melhor essas referências e produzir mais. Quando Austin Kleon fala de usar um caderno para “guardar seus roubos”, isso não é aplicável apenas para artistas; meus cadernos estão cheios de anotações sobre incerteza experimental e precisão numérica. Quando Cal Newport fala da importância de caminhadas para a produtividade, eu levo a sério e me vejo pensando sobre alguma técnica de otimização no trajeto de casa até o laboratório. Se a Thais Godinho sugere “alternar contextos” (trabalhar no computador, depois sair um pouco das telas, depois voltar e etc), eu estou sempre com um livro ou um paper na minha mesa para descansar os olhos e aprender alguma coisa nova, sem cansar muito meu cérebro.

Nada disso é assunto “de engenharia”, mas tudo isso me ensina a ser um engenheiro pesquisador melhor.

E, de tanto ler sobre isso, essas técnicas de criatividade se irradiam para outras áreas da minha vida. Se vejo algum vídeo com uma receita interessante, da próxima vez em que for fazer alguma atividade “mundana” provavelmente estarei refletindo sobre ela, e sobre como posso usá-la para preparar um jantar para minha esposa. Ou estou meditando com algum livro da Bíblia, e faço conexões com outras passagens porque tenho muitos pensamentos registrados no meu Caderno Espiritual.

Ao prestar atenção e dedicar tempo a esse tipo de soft skill como criatividade, a minha vida fica melhor — a do leitor pode ficar também.

Para os cristãos como eu, estamos na Quaresma. E por que não usar elementos do dia a dia para nos lembrar disso?

Vaso de flores artificiais, mostrando flores brancas e roxas

Como bom marido que sou, sugerir incluir a cor roxa na decoração da casa
Screenshot do Todoist no iPhone, usando um tema de cor roxa
Meu Todoist, talvez o app que mais uso durante o dia, também me lembra diariamente da Quaresma
Captura de tela do aplicativo PCalc no iPhone, mostrando detalhes em roxo
E se for para fazer contas, que tal um toque de roxo quaresmal também?

Uma breve reflexão sobre “não ter tempo”

Uma das ideias valiosas de 168 Hours, de Laura Vanderkam, é que o nosso uso do tempo não diz respeito ao tempo em si, mas a prioridades. Num exemplo tão ingênuo quanto bom, você diz que não tempo para limpar sua casa — mas e se alguém lhe oferecesse muito dinheiro por isso, você não iria… arranjar tempo?

Ontem pude comprovar o quanto isso é verdadeiro na prática. Minha esposa pediu ajuda para um projeto pessoal, e minha reação instintiva foi dizer “eu não tenho tempo agora”. Porém, logo pensei no que tinha lido nesse livro. E sempre que eu faço uma lista de prioridades na vida, minha esposa sempre está no topo da lista. Eu jurei solenemente cuidar dela até o dia da minha morte. E o tempo é o mesmo para todo mundo e para qualquer tarefa… Eu não tenho tempo para ajudá-la, mas tenho tempo para qualquer outra coisa que eu iria fazer na hora? Como, se justamente ela é minha prioridade?

Felizmente, consegui ajudá-la. Espero, daqui para a frente, incorporar mais essa ideia daqui para a frente. Eu nunca vou “ter tempo”, ou pelo menos ter mais tempo que eu tenho agora. Se eu quero fazer alguma coisa, basta eu fazer uma escolha consciente.

A maneira mais efetiva de vencer a ansiedade é aprender a ficar em silêncio

No que eu escrevo essas palavras, faz um pouco mais de 24 horas da minha volta ao mundo real depois de 36 horas em um Retiro Espiritual para Guias das Oficinas de Oração e Vida. E como a minha esposa achou espantoso o que foi feito lá, vou compartilhar com vocês também a principal característica desse retiro:

Da noite de sexta-feira ao almoço de domingo, eu não conversei com ninguém — exceto, é claro, com o Senhor Deus, Vivo e Verdadeiro.


Eu não sou perfeito, não sou humilde, estou longe de ser santo. Tenho muitos defeitos. Sou impaciente. Mas de algo eu não abro mão de reconhecer: desde o começo do meu tratamento contra ansiedade e depressão, em 2017, eu realmente aprendi a ficar em silêncio e solidão. Quisera eu que isso se transportasse para as reuniões tensas na qual não consigo segurar a língua; tudo é uma caminhada e exige paciência. Mas, sentando observando a natureza no Morro das Pedras, não pude deixar de perceber: (1) como isso se tornou natural para mim, e (2) como isso soaria como uma loucura para a maioria das pessoas. Como assim, ficar 36 horas sem olhar Instagram, sem ver TV, sem conversar com ninguém?

Meus leitores: muitos de vocês me escrevem contando de problemas de ansiedade na pós-graduação e na vida. Mas isso nem seria necessário, porque basta eu olhar à minha volta e vejo tantas pessoas queridas acometidas por transtornos de ansiedade, perdendo qualidade de vida e achando que a vida é essa correria sem volta.

Não é. A vida pode ser calma e boa. Como foi dito nesse retiro, o ser humano foi criado por Deus para amar e ser amado, e a chave para isso é o silêncio. Quando tudo cala, só Deus fala; só o vazio absoluto pode ser preenchido pelo Infinito.

Existem muitas maneiras de começar. Procure um bom terapeuta. Procure apps e cursos de meditação — vejo cada vez mais cursos do tipo sendo oferecidos por aí, muitos gratuitos. Se você é cristão, procure as Oficinas de Oração e Vida na sua cidade. Mas não se deixe vencer pela ansiedade.

Aprenda a parar e contemplar.

Vista do Morro das Pedras, em Florianópolis, mostrando uma bela praia e morros ao fundo, num dia levemente nublado
A minha vista diária durante meu Retiro. Perdi meu tempo?

Em março, eu estou sem redes sociais e sem outras tecnologias digitais. E isso tem me feito ficar muito mais calmo e mais focado.

O que mais tem causado efeitos benéficos foi ter saído de grupos de WhatsApp. Olhando agora com essa perspectiva de quem está fora, percebo o WhatsApp como um simples substituto de SMS via WiFi que saiu totalmente de controle. Naturalmente, eu perco informações, mas as realmente importantes acabam chegando a mim, sem prejuízo da minha vida como um todo. A Thais Godinho, recentemente, fez ótima reflexão sobre isso. 

Falando nisso: eu parei de ler blogs, mas resisti a cancelar minhas diversas newsletters, porque são leituras que aprecio muito — e foi de onde tirei o link acima. Estou enganando a mim mesmo?

Também tenho aumentado muito a minha capacidade de gerar ideias ao caminhar sem escutar podcasts e audiolivros — esse tempo em solidão e silêncio, aliás, era um dos benefícios que eu estava mais buscando.

Última observação: agora que não tenho por que pegar o celular a cada momento de tédio, eu estou chocado como absolutamente todos à minha volta fazem isso o tempo todo…

 

Tudo é arte.

Essa foi minha impressão ontem, quando estava na barbearia. De um lado da minha cadeira, ouvi um barbeiro discutindo técnicas de afiação de tesouras com um cliente. De outro, um grupo de barbeiros queria ver as ferramentas “inovadoras” que um barbeiro novo trouxe para o local.

Quando eu falo de criatividade aqui, sempre acabo pensando muito em trabalhadores do conhecimento, de escritório, com tarefas como “preparar apresentação”, “escrever relatório”, ou mesmo mais específicas, como programar, projetar uma casa ou equipamento. E, na minha grande ignorância, sempre pensei justamente em barbeiros como o oposto disso, como um simples trabalho manual. Como eu estava errado; é claro que existe muita arte na barbearia.

A propósito: esse tipo de observação foi grandemente facilitada pela minha mente estar muito mais vazia nesse mês.

Resenha: O Método Bullet Journal

Fiquei sabendo de O Método Bullet Journal pela Newsletter de BulletJournal.com, mas eu fiquei realmente empolgado por O Método Bullet Journal depois da Thais Godinho ter chamado de “o livro do ano”.

Eu não sei se concordo com esse superlativo, mas é realmente muito bom. No site oficial do método, grande parte conteúdo se apresenta em alguns artigos e em um vídeo de poucos minutos, o que causa uma impressão de superficialidade. O livro, ao contrário, se aprofunda em muitos tópicos: criatividade, planejamento, reflexão, hábitos. Tudo a ver com meus interesses.

Para os completos alheios, o método Bullet Journal consiste em usar apenas um caderno para organizar toda a sua vida. Com alguns “marcadores” especiais (para tarefas, compromissos, notas, coisas urgentes), e alguns templates de páginas, você cria um registro de tudo que tem para fazer em um dia/semana/mês/ano.

Para mim, o livro fez parte de um período meio dedicado a criatividade, e considero ele parte de um conjunto com os livros do Austin Kleon. O Método BulletJournal me ensinou como juntar informações mistas, provenientes de meu app de gerenciamento de tarefas, de meu calendário, ideias da minha cabeça etc, em um único lugar: uma página de um caderno, que levo sempre comigo. Se algo aparece à minha frente, eu anoto no meu Bullet Journal. Anotações de reunião vão para o Bullet Journal. Problemas que vou encontrando enquanto trabalho em um projeto Python… Você já sabe. O papel aceita tudo. Periodicamente, reviso essas anotações e organizo de maneira mais apropriada.

Se você quer melhorar a sua organização, a sua escrita ou ambos, ou se já usa um caderno/diário/agenda de papel e quer ter mais estrutura, recomendo fortemente a leitura.

Breves comentários literários sobre “O Conto da Aia” (por quem não entende nada de literatura)

Minha motivação para ler O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi uma combinação de coisas: fotos de gente lendo o livro no Instagram, comentários sobre a série da Amazon Prime baseada no livro pipocando pelas internetes, e uma grande promoção da Amazon.

Mesmo com essa motivação meramente circunstancial, não é difícil mergulhar completamente no universo de *O Conto… * — o que aliás é um dos grandes sinais de um bom livro de ficção. E falando sobre o universo, devo admitir que, como aparentemente a maioria da população hoje em dia, tenho um franco por universos distópicos e pós-apocalípticos; mas não vamos perder de vista que esse livro é um produto da década de 80.

A sinopse em um parágrafo: após guerras nucleares, a infertilidade contaminou a maioria da população norte-americana. Um grupo fundamentalista cristão se apoia nisso e instala uma ditadura onde as mulheres férteis, por serem raras, tornam-se propriedades do governo na forma de aias a serem alocadas a líderes cujas esposas são inférteis (pelo menos oficialmente, já que nesse regime não se admite que homens podem ser estéreis). A história é um relato de um dessas aias, de como ela chegou até ali e de como funciona a vida nesse país.

Como ler e escrever é proibido, os relatos são confusos (e no final o leitor entende por quê), o que dá margem ao meu primeiro comentário: esse não é um livro fácil. Sem querer parecer exagerado, o estilo me lembra um pouco Saramago, onde os pensamentos e as ações dos personagens se confundem. O quanto aquilo que está escrito de fato aconteceu? Essa pergunta se torna crítica no Epílogo.

A história é interessante, o estilo de escrita é intrigante… Mas à medida que eu lia, a mesma sensação tomava conta de mim: eu não sou o público alvo desse livro. Como homem decididamente feminista, liberal do século XXI e que não consegue simplesmente compreender a escalada de feminicídio no Brasil de 2019, algumas passagens do livro de escravização das mulheres soam absurdas demais, enquanto os pensamentos libertadores da Aia soam óbvios demais.

Ou será que eu que sou ingênuo demais?