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Você não precisa de uma tela Retina

A minha namorada tem um celular Nokia antigo, daqueles de flip ainda
(lembram?). Não tem nenhum recurso a não ser os básicos: telefone,
mensagens, alarmes, uns joguinhos.

Os mais jovens dizem que o fato de ela ter um telefone velho assim “é
paia demais”, ou algo assim, não estou por dentro das gírias novas.
Apesar das críticas, é com esse celular que ela fala quase todo dia com
a mãe dela, a 800 km daqui. É com esse celular que ela se comunica com
os sobrinhos e irmãos que moram longe. É com esse celular que ela troca
mensagens comigo.

Ela não está nem aí para o que está acontecendo no Twitter (e eu,
namorado ruim que sou, continuo checando-o mesmo quando estou com ela).
Ela não ri das fotos com legendas engraçadas no Instagram. Ela consulta
o Facebook com calma, no computador dela. Ela não precisa consultar o
email quando está na fila do mercado.

Ela é formada numa universidade, trabalha, já morou em algumas cidades
diferentes, vai a festas, tem amigos, tem um namorado. Tudo isso sem um
smartphone. E ela diz que só vai comprar um outro celular quando este
estragar. Considerando que estamos falando de um Nokia antigo, isso quer
dizer nunca.

Namorá-la é com certeza a melhor coisa que me aconteceu nesse ano, e,
apesar de naturalmente não ser só por causa disso, ela é um lembrete
ativo do que queremos dizer quando precisamos de algo.

Você é um animal. Você precisa de água e comida. Precisa dormir. Precisa
fazer exercício. Precisa urinar e defecar.

Você também é um ser humano. Precisa ter cultura, sentir-se pertencente
a algo, relacionar-se com alguém (seja esse alguém Deus), integrar-se na
sociedade, estimular-se intelectualmente, descobrir a sua vocação.

O que você não precisa é de uma tela Retina.


Eu me formei em engenharia, então para mim a tecnologia é um meio de
vida. A minha profissão é criar tecnologia, então o leitor pode ter
certeza que não quero dizer que temos que abandonar toda tecnologia. O
que prego é que temos de ter uma atidude racional em relação a ela.

Meu tema de mestrado é a refrigeração, a ciência de produzir frio. Uma
geladeira é necessária? Depende. A humanidade viveu muito mais tempo sem
refrigeradores do que com eles. Mas eles certamente ajudam. Com uma
geladeira você precisa ir menos vezes ao mercado porque os alimentos
duram mais. Você se refresca com a cerveja no verão. Você pode preparar
a comida na véspera da festa para poder aproveitar com seus amigos. Tudo
isso é ótimo. Tempo e dinheiro poupado com a ajuda de uma geladeira
podem ser usados para outras coisas.

Tudo bem, os benefícios de ter um refrigerador são tantos que você
decide que precisa de um. Mas você não precisa de uma geladeira de
inox com duas portas. Você quer uma e pode comprar. Ótimo.

Da mesma forma, a minha namorada, por decisão própria, resolveu que não
precisa de um iPhone ou um Galaxy S4. Ela precisa manter contato com as
pessoas importantes na vida dela (eu humildemente arrisco me incluir
nesse grupo), e o aparelho que ela tem em mãos cumpre essas funções
perfeitamente. A tecnologia, nesse caso, está cumprindo o seu papel, de
resolver um problema real.


Nos últimos tempos, eu ando me cansando do lado mais podre do mundo
Apple. Desde o lançamento dos últimos modelo de iPad, só choveram
resenhas das mais aburdas, de como ele é mágico, de como dá vontade de
chorar de tão leve que ele é, de como ele se integra a sua mão. Não há
um dia que eu não veja um artigo comparando o iPad Mini ao iPad Air. E
podcasters e blogueiros famosos estão dizendo que vão comprar um iPad
Mini porque finalmente ele vai ter tela Retina e, afinal, não dá para
trabalhar sem uma tela Retina.

Eu tenho um MacBook Pro, modelo 2011. Ele não tem tela Retina. O
computador, além de lindo e bem construído, tem mais memória,
processador e armazenamento do que eu preciso, e o sistema operacional é
ótimo, rápido e robusto. E, mesmo sem a tela Retina, eu estou
trabalhando nele todo dia! Eu sou ou não sou o máximo?

E o mais importante de tudo: eu comprei um MacBook não porque eu
precisava dele, mas porque eu queria.


A Luana Oliveira escreveu um ótimo artigo comparando a
tecnologia à religião:

Quando se chega ao ponto de tentar convencer outras pessoas de que o
produto X é melhor, de que os aplicativos ABC são melhores, quando
gera inimizades porque determinada pessoa prefere outra plataforma, o
que isso te lembra? Pra mim isso se assemelha muito à religião.
Normalmente os discípulos ficam cegos para outras possibilidades e só
têm olhos e ouvidos para aquela religião (ou marca, no caso da
tecnologia). Tudo o que não pertence a essa condição é praticamente
demonizado.

Ela está certa. Quando se faz parte do mundo de usuários Apple, e se
quer manter-se informado, é impossível não ser bombardeado com artigos
fanáticos. O mais interessante de tudo é que esse culto se torna tão
arraigado que discutimos apps pelos apps em si, e não pelo que eles
fazem. Estamos rodando testes de velocidade em um iPad sem pensar no que
ele pode ser usado.

Há algum tempo, li um artigo do Michael Shechter que me marcou
profundamente. Ele se referia a um episódio do podcast Enough em que
Patrick Rhone falava que deveríamos pensar nas ações, e não em
apps:

When trying to figure out how to improve the way you work, Patrick is
right. You shouldn’t start with the app. It is indeed about the action
you want to take, but—at least for me—a big part of that process is
taking a step back in order to find the right tool or tactic to help
me to accomplish a necessary actions. Ultimately it’s about creating
processes that ensure those necessary actions happen.

Precisamos urgentemente parar de delirar a cada vez que a Apple (ou
outra empresa) lança um produto novo e começar a consumir tecnologia de
maneira inteligente. O que estamos fazendo com esses aparelhos
excelentes que temos à disposição


Há algum tempo, eu falei que ia fazer mais resenhas de apps. Bem, eu
mudei de ideia.

Eu quero discutir tecnologia, e a nossa relação com ela. Gosto desse
tópico (tanto que, repito, escolhi uma carreira que estuda e desenvolve
tecnologia). Mas quero falar de assuntos relacionados: ciência,
produtividade, criatividade, desenvolvimento pessoal. E quero fazer
artigos longos, opinativos.

Apps são um meio, e podem servir de exemplo para alguma ideia, mas não
quero escrever um testo centrado num aplicativo. Assim, não vai mais
haver resenhas de apps. As que escrevi foram um teste, e foram
interessantes. O que eu não quero é me juntar ao culto Apple; eu sou
apenas um usuário, e não quero converter ninguém. Quero que as pessoas
usem o que for melhor para elas.

Para mim, o ecossistema Apple está funcionando bem. Todos os meus
aparelhos são de dois anos atrás e eles estão ótimos. Eu não preciso
de nada melhor. Eventualmente, eu vou trocar de aparelho. E talvez eu
compre um com tela Retina. Ou talvez não. Talvez eu volte pro Linux.
Talvez eu resolva experimentar um Android.

Eu não quero ser um fanático. Quero apenas fazer o meu trabalho,
continuar escrevendo, continuar me comunicando. E quero passar mais
tempo com minha namorada e menos tempo conferindo o Twitter.

Porque isso é o que importa.

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Simplifique sua vida: ambientes

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu
narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações,
seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Limpar os ambientes tem dois efeitos, na minha experiência:

  1. Você questiona a necessidade de ter tanta coisa e se concentra em
    manter o essencial
  2. Você não se sente distraído com tanta poluição visual

Minha mesa aqui no laboratório onde faço mestrado era extremamente
bagunçada. Eu tinha pilhas de livros e papéis quase literalmente na
frente de mim. Hoje na minha mesa há:

  1. Um computador
  2. Uma pilha de papel para rascunho em cima de alguns poucos livros
    aleatórios
  3. Um porta-canetas
  4. Um violão em miniatura que ganhei da minha namorada

E devo dizer, a sensação de sentar numa mesa tão limpa é muito boa. Eu
posso trabalhar nas minhas simulações, ou escrever trechos da minha
dissertação, sem achar que tem um livro caindo em cima de mim.

Para simplificar nossa vida, é fundamental limpar nossos ambientes. Se
você se sente perdido no meio de tanta bagunça, e têm dificuldades para
encontrar espaço, é por que tem coisas demais. Você ter a coleção
inteira de livros de algum autor é muito bom, mas questione os custos
disso. Ter enfeites é bom, e melhora a qualidade do ambiente, mas
selecione alguns.

No meu quarto, há uma estante onde eu guardava (acredite) caixas de
cabos, teclados antigos, mouses etc. Chegava a ser cansativo acordar e
dar de cara com uma coleção de periféricos jogados numa prateleira. O que eu
fiz? Transferi essas coisas para um armário, que foi feito justamente
para guardar coisas aleatórias, e coloquei alguns livros naquele
ambiente (o que ajudou também a organizar um pouco minha prateleira
principal de livros).

A regra básica que funciona para mim é essa: superfícies abertas e
visíveis não foram feitas para armazenar seus pertences, a não ser que
eles tenham algum efeito decorativo
.

No seu excelente livro Workflow, Kourosh Dini fala em três
aspectos que um objeto deve ter:

  1. Estar disponível (i.e. existir)
  2. Estar acessível quando necessário
  3. Estar invisível quando desnecessário

Um livro em uma prateleira, em vez de em cima de uma mesa, pode estar
perfeitamente acessível, e ausente da nossa visão quando não precisamos
dele. Outro exemplo: as suas chaves num claviculário atrás da porta; não
está jogada em cima da mesa e está à disposição para quando vai precisar
dela, ao sair de casa. Esse é o ideal: alcançar estes três pilares de
organização. Tente aplicar esse conceito a todos os seus pertences.

Lembre-se: ter menos coisas materiais é muito bom. Ninguém vive na mesma
moradia por muito tempo, hoje em dia, então pense na hora de mudança.
Ter menos coisas também permite a você escolher morar num lugar
pequeno e com poucos armários.

Em ação

  1. Limpe suas mesas, prateleiras, estantes, enfim, todas as suas
    superfícies visíveis
  2. Se você tiver certeza de que precisa manter dos objetos que forem
    retirados, transfira-os para armários fechados, mas de forma
    organizada. Ponha papeis em caixas etiquetadas, dedique porções dos
    armários para coisas específicas, tenha uma gaveta para todos seus
    cabos/acessórios.

Eu não sou nenhum especialista em organização, estou justamente narando
a minha jornada para simplificar minha vida. Para dicas mais específicas
(e muito melhores), visite o blog Vida Organizada.

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O Futuro do LaTeX, Parte I – A importância de linguagens de marcação

Esse parágrafo que você está lendo não tem nenhum recurso de formatação
especial. Há uma fonte, de um determinado tamanho, com algumas margens,
espaçamento entre linhas, mas isso é o mínimo para um texto ser
apresentável; são detalhes tão básicos que o leitor quase nem se dá
conta. Na prática, são apenas caracteres, um após o outro, formando a
mensagem que eu, escritor, quero passar a você, leitor.

Este parágrafo têm uma ênfase. Esse recurso imediatamente chama
atenção para uma palavra determinada, e altera a mensagem. Nas minhas
resenhas de livro, eu dizer que um livro é extremamente bom ou
extremamente bom são coisas diferentes, apesar da palavra ser a
mesma. Ou, quando falo de apps, dizer que um app é levemente
caro ou levemente caro provoca sentimentos diferentes por parte de
quem está lendo. Quando eu digo que algo é levemente caro, eu estou
sendo irônico, ou estou apenas dizendo que o produto não é nem caro nem
barato?

A forma da escrita afeta o conteúdo. Ênfase, ênfase ou ênfase são
três formas de escrever a mesma palavra, mas a interpretação do leitor
varia conforme o uso dos recursos.

Outro exemplo: eu poderia simplesmente dizer que Aristóteles falou que o
todo é maior que a soma das partes. Ou poderia escrever:

O todo é maior que a soma das partes – Aristóteles

Aqui, eu não alterei a forma de uma letra, mas sim a apresentação de uma
frase. Observe como eu consigo imediatamente chamar mais a atenção.

Agora, um detalhe: eu poderia configurar este site para exibir este
texto com uma outra fonte, mas eu não precisaria escrever o texto de
novo, em outra fonte. De fato, a fonte na qual eu estou escrevendo o
texto não é a mesma no qual você está lendo. Mais: eu poderia trocar os
negritos por itálicos e não precisaria reescrever essas palavras.
Poderia trocar a forma como a citação acima é exibida. Como isso é
possível?

É possível porque esses recursos são visuais. Eles não fazem parte do
conteúdo, mas se relacionam com ele. Na prática, as informações de forma
e de conteúdo são armazenadas de forma indepedente nos computadores.

O formato mais básico de texto é o chamado texto puro, plain text em
inglês. É o texto que o leitor digita no Bloco de Notas do Windows, por
exemplo, ou no TextEdit no OS X, ou em algum editor básico do Linux. São
apenas caracteres, sem formatação nenhuma. O programa exibe o texto em
alguma fonte padrão, com algum espaçamento.

Esse formato é tão básico que se o leitor escrever algum texto no Bloco
de Notas no Windows e mandar para mim, eu vou conseguir abrir no meu
iPhone. Todos os sistemas modernos conseguem interpretar texto puro.
Além disso, esse formato é extremamente leve. Repito: são apenas letras.

Porém, como já vimos, a formatação é essencial. Eu poderia escrever
todos os meus textos em texto puro e mandar para os leitores, mas isso
está longe de ser ideal. É preciso uma maneira de, usando texto puro (um
formato que o computador consegue entender), marcar o texto,
produzindo um texto rico (um formato que o leitor consegue entender). Em
vez de armazenar as palavras em negrito, armazenam-se comandos para
produzir negrito. E, então, um programa analisa essas instruções e
produz o resultado visual desejado.

Uma linguagem que marque o texto com recursos de formatação é chamada de
linguagem de marcação (markup language).

Uma linguagem de marcação usada todos os dias

O leitor é exposto a uma linguagem de marcação todo dia, sempre que
navega pela internet em um browser. As páginas da Web são escritas em
HTML (HyperText Markup Language); é função dos navegadores interpretar
o HTML e exibir os recursos gráficos na sua tela, convertendo comandos
em pixels.

Por exemplo, este parágrafo tem a seguinte estrutura em HTML:

<p>Por exemplo, este parágrafo tem a seguinte estrutura em HTML:</p>

Repare nos elementos adicionais: <p> e </p>. Repito: um arquivo de
texto num computador é armazenado como uma sequência de caracteres,
incluindo espaços e quebras de linha. O arquivo de texto não sabe o que
é um parágrafo. O que esse comandos fazem então é instruir ao
navegador: “exiba essa sequência de caracteres como se fosse um
parágrafo, isto é, com um espaçamento antes e depois, com uma certa
tabulação etc”. Os detalhes da formatação podem ser alterados com uma
linguagem auxiliar chamada de CSS, sigla para Cascading Style Sheets
(que determinam a fonte, as margens e outros detalhes do estilo).

O parágrafo acima é interessante porque tem vários detalhes
tipográficos. Repare na sua versão em HTML:

<p>Repare nos elementos adicionais: <code><p></code> e <code></p></code>. Repito: um arquivo de texto num computador é armazenado como uma sequência de caracteres, incluindo espaços e quebras de linha. O arquivo de texto não sabe o que é um <em>parágrafo</em>. O que esse comandos fazem então é instruir ao navegador: “exiba essa sequência de caracteres como se fosse um parágrafo, isto é, com um espaçamento antes e depois, com uma certa tabulação etc”. Os detalhes da formatação podem ser alterados com uma linguagem auxiliar chamada de CSS, sigla para <em>Cascading Style Sheets</em> (que determinam a fonte, as margens e outros detalhes do <em>estilo</em>).</p>

Na maioria dos navegadores, é possível ver o código-fonte da página,
para ver como aquele site foi escrito em HTML. Recomendo como um
exercício interessante.

Separação entre produtor e consumidor

Este não é um tutorial de HTML então vamos voltar ao conceito. Uma
linguagem de marcação fundamentalmente separa o produtor do consumidor
de conteúdo. O produtor usa os comandos e os recursos da linguagem
escolhida para criar recursos gráficos.

Mas que tipo de recursos? Basta pensar em tudo que não é texto puro:

  • Margens
  • Tipo de fonte
  • Tamanho de fonte
  • Figuras
  • Tabelas
  • Equações
  • Diagramas
  • Negrito, itálico, sublinhado
  • Alinhamento dos parágrafos
  • Citações

Naturalmente, as boas linguagens permitem aos usuários criarem os seus
recursos adicionais.

Processadores de texto como o Word da Microsoft e o Pages da Apple
também usam uma linguagem de marcação, mas que fica invisível ao
público. Em vez de haver um comando para transformar uma palavra em
negrito, o usuário seleciona um texto e clica num botão. O ato de clicar
num botão efetivamente produz o comando internamente e atualiza a tela
para mostrar uma nova palavra em negrito.

A vantagem principal dessa abordagem é que ela é muito fácil de
aprender. No HTML, é preciso consultar alguma referência que o negrito é
produzido assim: <b>negrito</b>. Nos processadores, basta apertar um
botão.

Uma das “vantagens” alardeadas é que processadores são do tipo WYSIWYG,
what you see is what you get, significando que o que o leitor vê é
aquilo que está acontecendo. Se o usuário do Word está editando um texto
em Arial, o texto impresso vai estar em Arial; quando o arquivo for
mandado para outra pessoa, ele também vai estar em Arial, no mesmo
tamanho. As instruções de formatação estão codificadas internamente no
arquivo (mas independentes do conteúdo, lembre-se). O mesmo arquivo
usado para escrever o texto é usado para visualizá-lo.

Processadores de texto violam a separação entre produtor e consumidor, o
que é na verdade uma desvantagem.

O que um autor de página da Web vê quando escreve uma página em HTML é
bem diferente do que um leitor vê quando usa o Safari, Chrome, Firefox
ou outro navegador. O autor faz testes, mas quando ele está escrevendo,
ele não está preocupado com detalhes como margem e fonte. As (boas)
linguagens de marcação estimulam a boa prática de escrever e marcar o
texto de maneira apropriada, e só depois implementar a formatação. É
importante saber que em determindo lugar há uma ênfase, mas não de que
forma essa ênfase vai aparecer. É importante saber que ali há uma
tabela, mas não qual a espessura da linha.

A linguagem HTML reforça isso ainda mais ao requerer uma segunda
linguagem (o CSS) para definir detalhes de estilo. O código em HTML
define a estrutura: o que é um título, o que é um parágrafo, o que é uma
tabela, e o estilo em CSS define os detalhes: qual fonte o título usa,
qual a margem dos parágrafos, qual o tamanho das células nas tabelas.

Abordagens WYSIWYG distraem. Você está escrevendo e vê um texto poluído
cheio de imagens, e repara que uma não está corretamente alinhada. Você
interrompe a sua linha de raciocínio para arrumar a imagem. Algum tempo
depois, para de novo porque acha que a fonte não está boa. O autor é
praticamente instruído a escrever e formatar o conteúdo ao mesmo tempo,
o que é altamente improdutivo. É preciso ter muita força de vontade para
escrever sem se deixar distrair pelos detalhes.

Para piorar, as linguagens de marcação por trás de processadores
comerciais de texto não são nem um pouco robustas. Quantas vezes o
leitor já abriu um documento do Word para encontrar o trabalho da semana
toda desorganizado? Algum erro interno na hora de salvar e abrir de novo
o documento provocou um desastre.

Para produzir documentos sérios, em que se controla a aparência final
com precisão, é preciso usar uma linguagem de marcação que esteja
explícita, e não que esteja escondida.

E o LaTeX?

Esse texto começou pequeno na minha cabeça e já se tornou grande demais.
Num post futuro, vou falar especificamente do LaTeX e em como ele se
encaixa nesse cenário.

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O novo Mac Pro é uma obra-prima de engenharia mecânica

Quando interagimos com um computador, usamos softwares, alguns ótimos e
outros nem tanto que melhoram a nossa vida, ajudando-nos em tarefas
reais, ou mesmo por mero entretenimento. O hardware muitas vezes fica
completamente invisível, e nem é notado pela maioria das pessoas.
Pessoas normais estão se lixando para o novo chip do iPhone, só querem
saber quais apps vão poder instalar.

Um programa de computador, escrito por alguém, na verdade apenas passa
instruções aos componentes físicos. “Calcule essa quantidade”, “exiba
esse pixel nessa posição” etc. É preciso algo em que executar esses
programas. Repito: um app é uma interface entre nós e o hardware.

Os componentes elétricos e eletrônicos são portanto o coração de um
computador, e devemos os avanços a grandes engenheiros eletricistas e
eletrônicos. Porém, ninguém quer comprar uma placa com um monte de fios
soldados. É preciso uma estrutura física na qual as placas, discos e
chips são montados, e que tenha de preferência um aspecto agradável. É
aí que entra a engenharia mecânica.

O leitor talvez não saiba, mas eu tenho um diploma de engenharia
mecânica, embora não faça nem dois anos desde que me formei. Estou
fazendo mestrado e ainda não trabalhei em uma indústria, e portanto me
recuso a me considerar um engenheiro. Ainda assim, acho que já posso
apreciar um belo trabalho de engenharia e tentar espalhar o
reconhecimento da nossa profissão.

O novo Mac Pro é espetacular. Eu nunca vou comprá-lo, porque não é o
tipo de computador de que eu preciso. O Pro é direcionado a trabalhos
pesados computacionalmente (edição de música, vídeo e imagens, ou
cálculos bastante complexos) e tem seu nome justificado tanto nas
especificações quanto no seu preço. E é uma obra-prima de engenharia
mecânica por dois motivos principais.

Design e implementação

Você não contrataria um engenheiro civil para desenhar sua casa e nem um
arquiteto para supervisionar a construção. São duas tarefas distintas.
Um arquiteto cria espaços nos quais vivemos, estuda a melhor
configuração de salas e móveis, otimiza a iluminação e o conforto
térmico. Não é fácil.

Um engenheiro implementa o projeto de um arquiteto. OK, cada
apartamento vai ter 2 quartos, mas como sustentar o seu peso? Quão
grandes tem de ser as vigas? Naturalmente, o arquiteto tem noções disso
e um engenheiro tem noções de arquitetura, e idealmente há uma interação
entre esses tipos de profissionais, mas cada um fica responsável
primariamente pela sua área.

Em escala muito menor, é o que acontece com os produtos físicos que
compramos. A muito talentosa equipe de designers da Apple projetou o Mac
Pro, mas como fabricá-lo? Que processos usar? Como garantir a forma
cilíndrica? O material proposto pode ser trabalhado dessa maneira?

Uma das grandes áreas da engenharia mecânica é o estudo da fabricação, e
embora nunca tenha sido a minha área preferida, esse vídeo,
mostrando a criação desse computador, é simplesmente sensacional.
Recomendo a todos os engenheiros mecânicos que assistam, e aconselho às
outras pessoas que também o façam, para apreciar a importância dessa
profissão.

Repare na sequência de operações, no movimento dos braços mecânicos, na
escolha da forma de pintura. Não se trata apenas de materializar um
desenho. É preciso assegurar os detalhes: que o produto não quebre, que
o processo não produza lascas perigosas no produto final, que ele
suporte determinadas cargas, que ao aquecer o computador não vai se
expandir demais etc.

Construir o novo Mac Pro é um trabalho de engenharia.

O grande gargalo para os processadores

Você deve ter notado que o seu laptop esquenta no seu colo,
principalmente depois de usar certos programas. É simples, corrente
elétrica está passando pelos circuitos e gerando calor com isso. Remover
calor é que é o problema. Um computador superaquecido pode simplesmente
parar de funcionar e é perigoso para o usuário.

Está se tornando um consenso entre pesquisadores que o grande gargalo
para a melhoria dos processadores é a refrigeração. Temos tecnologia o
suficiente para produzir chips mais rápidos, mas ainda não temos
tecnologia o suficiente para resfriá-los.

Falando de maneira bem básica, a taxa de remoção de calor depende de
três fatores:

  • a diferença de temperatura entre o sistema que você quer resfriar e
    um segundo sistema, mais frio, para absorver esse calor
  • a área de contato entre o sistema quente e o sistema frio
  • o mecanismo de transferência entre o sistema quente e o sistema
    frio. Aqui entram muitos outros fatores, mas um exemplo prático: ar
    a alta velocidade retira calor mais depressa que ar parado, à mesma
    temperatura (por isso o seu computador tem um ventilador dentro
    dele).

As temperaturas de trabalho são fixas: você tem um computador, que não
pode ter a sua temperatura acima de um limite, e o ar, que está à
temperatura ambiente.

A área disponível em um computador é pequena, e não interessa a ninguém
ter um ventilador gigante dentro de um laptop. Esse é o gargalo.
Resfriar um sistema pequeno, sem recorrer a dispositivos exagerados
(como uma micro-geladeira dentro de um computador), é um magnífico
trabalho de engenharia mecânica.

A melhor solução possível é usar a geometria de forma inteligente. Pense
numa serpentina: ao dobrarmos um tubo, mantemos a mesma área de contato
com o ar e ainda ocupamos bem menos espaço. Pensando de maneira inversa:
num espaço fixo, podemos acomodar bem mais área.

O novo Mac Pro faz isso. A sua geometria interna, circular dividida em
segmentos e afunilando no topo, permite acomodar muitos componentes de maneira
inteligente (novamente, mantendo o máximo de contato) e faz o ar escoar
uniformemente, aumentando a troca de calor. Os engenheiros na prática
criaram um sistema de canais nos quais o ar escoa. É muito diferente de
um ventilador sobre uma placa (como no caso de desktops) e bem mais
inteligente que simplesmente acomodar os componentes na parede de um
tubo (todo o interior do tubo seria desperdiçado).

Não é trivial, não é fácil de fabricar, e provavelmente foram
necessários muitos projetos até chegar a uma versão que tenha um um
custo relativamente baixo e que retire calor suficiente.

Quando eu crescer, quero trabalhar num projeto assim.

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Simplifique sua vida: consumo de informação

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu
narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações,
seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Assim como passar a manhã toda respondendo emails não é nada
produtivo, passar a noite toda na frente da TV provavelmente não é (a
não ser que você seja um fã verdadeiro).

O excesso de informação que chega até nós foi um dos principais
motivadores para essa minha jornada para simplificar. Abrimos um jornal
(ou sua página na web), e vemos centenas de notícias, notas, colunas.
Entramos no Twitter e a nossa linha do tempo está recheada de links e
comentários sobre o iPhone dourado. Abrimos nosso Facebook e alguém
ainda acha que os memes são legais. Acompanhamos alguns blogs e nosso
leitor de RSS tem 200 itens não lidos.

Não pode ser assim. Simplificar a nossa vida envolve consumir menos
informação.

O perigo de querer manter-se informado

Leo Babauta toca nesse ponto sensível e eu realmente me questionei. Eu
era daqueles que achava absurdo uma pessoa não ler jornal; como assim,
você não sabe o nome da Chanceler da Alemanha? Eu achava que saber
exatamente o que está acontecendo é a única maneira de evitar que outras
pessoas nos enganem.

Vamos combinar: o que muda na minha vida se eu não soubesse que a Angela
Merkel é a chefe de governo da Alemanha?

Nichts, como diriam os alemães.

Nós não precisamos saber de tudo. Você não precisa saber os detalhes
do último escândalo. Não precisa monitorar as contratações do seu time.
Não precisa saber todos os recursos do novo iOS ou do novo Android. Se
você quiser realmente saber de tudo, vai precisar gastar uma quantidade
absurda de tempo. É melhor então se conformar e adimitir que não é
possível ficar sempre atualizado. Eu tenho achado muito mais eficiente
dedicar um tempo para pesquisar mais sobre algum assunto, se eu quiser
saber mais.

E entro em sites de notícias uma ou duas vezes por dia, checho o Twitter
uma vez a cada três ou quatro horas, e mantenho uma lista de apenas doze
blogs que eu realmente quero acompanhar. O resto é supérfluo.

Em ação

Pense nas maneiras pelas quais informação chega até você, e reduza esse
número ao máximo. Sugestões:

  • Dedique um tempo específico para ler notícias. Leia um pouco de
    manhã e um pouco à noite, mas não tenhe ficar acompanhando os
    acontecimentos durante o dia.
  • Limpe a sua linha do tempo no Facebook e no Twitter. Siga menos
    pessoas.
  • Se você acompanha blogs por RSS, evite excessos.

E vá fazer outras coisas.

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Uma regra básica de etiqueta em anexos de email

Um dia desses, o Vladimir Campos postou uma questão interessante
no App.net: por que algumas pessoas insistem em mandar arquivos .rar em
email, muitas vezes quando ele é desnecessário — e impede a visualização
em smartphones?

Esse problema leva a uma questão ainda maior. Poucas coisas me irritam
mais que receber um arquivo de um programa que eu não tenho, e que de
repente sou obrigado a ter porque ele se tornou supostamente “um
padrão”. Então deixem-me clarificar uma coisa.

Eu uso um Mac, por opção pessoal (sim, eu sou milionário sarcasm
detected
). No meu Mac, existem os programas que eu uso: as ferramentas
de programação para meu mestrado, um editor de texto geral, o Safari, o
YNAB, o Day One. Periodicamente, eu vou deletando tudo o que não
preciso. E tenho uma política de só instalar aquilo que acho realmente
que vou usar. E é por isso eu não tenho o Office instalado no meu
computador.

Como?

Sim, eu não tenho no meu computador pessoal nem o Word, nem o Excel, nem
o Powerpoint. Sim, eles existem para Mac. Mas, antes de ter um Mac,
eles não estavam instalados no meu computador Windows. E há um tempo eu
usei Linux por mais de um ano e, claro, não usava Office.

Eu odeio o Office com todo o ódio que meu coração é capaz de conter — é
lento, a interface é um lixo, é complicado de usar, não é confiável, é
um inferno para tratar arquivos antigos. Mas isso não importa. Eu não
uso o Office principalmente porque eu não preciso dele, e tenho certeza
que muita gente odeia-o mais ainda mas usa por necessidade.

Deixem-me então propor uma regra básica de etiqueta de anexos de email:
não mande arquivos por email se você não tem a absoluta certeza de que a
outra pessoa vai conseguir abri-lo.

Para os leigos, existem formatos de arquivos que são proprietários e que
são abertos. Por exemplo, arquivos de texto puro, geralmente com
extensão .txt (ou formatos de programação: .c, .cc, .m, .f, .html),
podem ser abertos por milhares de programa. Fotos em formatos JPG e PNG
e documentos PDF podem ser visualizados e editados em muitas opções. O
código por trás desses formatos, as instruções para seu computador
transformar 0s e 1s em fotos e documentos (por exemplo), está disponível
para todos, e assim os programadores podem criar programas que os
interpretem. Isso gera um corolário interessante: como os programas não
podem se diferenciar no formato final, eles competem pela qualidade das
ferramentas. Um arquivo .pdf é universal, mas determinado programa pode
ser mais rápido na hora de abri-lo, outro pode focar no reconhecimento
de caracteres, outro na edição. Mas repito: um arquivo editado por um
programa pode ser aberto e reeditado com muita facilidade por outro, já
que o tipo de arquivo é independente do aplicativo.

Formatos proprietários não têm a sua especificação aberta. Outros
programas até conseguem abrir, mas o resultado final é ruim porque
alguém teve de fazer uma espécie de “engenharia reversa” para descobrir
como os arquivos são codificados. Um arquivo DOCX foi feito
especialmente para ser aberto com o Word. A consequência é obvia: não
existe exatamente pressão para a Microsoft melhorar o programa; qual a
opção? Será que as pessoas estão dispostas a migrar todos os seus
documentos antigos?

Se algum dia eu for trabalhar num ambiente que exija usar o Office, eu o
farei sem problemas. Mas eu jamais enviarei um arquivo do Office para
alguém de fora da empresa a não ser que seja previamente combinado.

Ah, uma palavra sobre compactação: como o Vladimir falou, com as
velocidades de internet disponíveis, geralmente ela não é necessária.
Além de gerar suspeitas sobre o conteúdo, ainda exige um programa
adicional só para visualizar. Formatos mais “populares” como o .zip
ainda são extraídos automaticamente e tratados nativamente pela maioria
dos sistemas, então devem ser priorizados. Se você usa o Dropbox, ainda
é possível mandar um link para a pessoa baixar – o que não ocupa nem
espaço no email.

O tempo passa e as tecnologias avançam — vamos usar isso a nosso favor.

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Simplifique sua vida: comunicação

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu
narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações,
seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

O primeiro item prático do manifesto (e note
que não estamos seguindo aqui item por item, estou apenas explorando
alguns) é simplificar a nossa forma de comunicação.

Você, quando definiu a sua lista de prioridades, provavelmente incluiu
as pessoas da sua vida, seu trabalho e seu hobby. Muito provavelmente
lidar com email não está nessa lista, e portanto é supérfluo.

Comunicar-se é necessário, e é importante ter um sistema funcional que
permita a você conversar com as pessoas. O que não é necessário é ter 3
contas de email para conferir e ter 10 conversas abertas no
Skype/Facebook/Gmail/MSN (a não ser, naturalmente, que seu trabalho
exija isso). O tempo que você gasta acompanhando todos os seus canais de
comunicação é tempo que você não dedica a coisas importantes.

Você deve também evitar as complicações de ter de pensar qual meio
utilizar. Se quero falar com alguém, devo mandar um email, ou ligar, ou
mandar um SMS, ou mandar uma mensagem no Facebook? Um exemplo prático:
por mais que eu goste do WhatsApp, estou encontrando cada vez menos
utilidade para ele. O grupo de pessoas em volta de mim não tem WhatsApp
em sua totalidade, o que o torna inútil para conversas de grupo.
Recentemente, quis organizar um churrasco com meus amigos, e comentei no
WhatsApp. A maioria topou. Quando fui mandar um email, um número maior
de pessoas, que não têm WhatsApp, respondeu que naquele dia específico
não poderia. Quanta dor de cabeça! O app é ótimo para conversas
individuais simples, mas ele não é essencial para mim. Estou mantendo
mas usando cada vez menos.

Cada tipo de conversa deve ter seu canal. Eu telefono o mínimo possível
(mais para marcar compromissos ou para coisas urgentes), uso o email
para mensagens longas e/ou importantes, SMS e Whatsapp para mensagens
curtas individuais, e só. Por enquanto, tem dado certo.

Em ação

Faça uma lista das formas com que você se comunica e avalie se aquela é
a melhor forma; você não pode correr o risco de ficar sem saber de algo
importante porque ficou uma semana sem entrar no Facebook. Escolha
alguns meios e utilize-os de forma eficiente. E não deixe o email aberto
o dia todo.

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Palavra-chave: ciência

Um dos podcasts que acompanho é o Palavra Chave Podcast, do psicólogo
Fellipe Salgado, que oferece análises do cotidiano sob um ponto de
vista psicológico. Os assuntos são sempre relevantes e interessantes,
Fellipe demonstra saber o que fala e se esforça em fazer muita pesquisa,
e o podcast tem uma duração que acho ideal: cerca de 20 minutos, mais ou
menos o tempo de translado entre minha casa e a universidade. Perfeito.
Fica a dica.

O último episódio fala de ciência, inspirado na notícia de que o bóson
de Higgs, ou a partícula de Deus, rendeu o prêmio Nobel de Física aos
seus teóricos
. A partir daí, Fellipe traz algumas questões sobre o
“fazer ciência” e sobre o que a tal “verdade científica” significa.

Na qualidade de engenheiro, ou seja, “um cara das exatas” como gostam de
me chamar, gostaria de oferecer meu ponto de vista em dois pontos
principais. Repare que isso é minha opinião e não representa de maneira
alguma uma crítica ao Fellipe. Ele também é estudante de mestrado e sabe
que discordar faz parte.

Não existe Eureka

Fellipe pondera como o psicólogo de Peter Higgs (que deu nome ao bóson)
reagiria se seu paciente agora famoso chegasse e tivesse dito ter
descoberto uma partícula de Deus. Será que não seria um caso de delírio
de grandeza?

Não pesquisei a fundo em entrevistas com Higgs, mas se tem algo em que
acredito, baseado nessa minha minúscula experiência na carreira
científica, é que não existem momentos de Eureka. Higgs, muito
provavelmente, não largou o lápis e pensou “Senhor, descobri a Sua
partícula”. Vamos pensar num cenário mais iterativo. Higgs estava
resolvendo um problema teórico e fez uma hipótese simplificativa:
“suponha que exista uma partícula com uma propriedade tal”. Para sua
surpresa, essa partícula teórica resolvia o problema. Algum tempo
depois, ele deve ter tido a ideia de usar essa mesma partícula em
problema semelhante, e viu que também funcionava. Higgs foi então
refinando o modelo e viu que ele explicava muita coisa.

Pode ser que eu esteja enganado, mas vamos combinar que esse cenário é
muito mais plausível. Fazer ciência é um processo criativo, e
criatividade é iterativa por natureza. Você começa com um rascunho e
vai refinando.

O que é uma lei científica?

O outro comentário que me fez refletir é sobre a questão de ciências
“objetivas” e “subjetivas”. Por exemplo, a Física é tida como uma
ciência objetiva: a Lei da Gravidade é verdadeira e ponto. Por sua vez,
a psicologia é bastante subjetiva. A analogia usada é entre “átomos”,
que podem ser visualizados, e a “memória”, que é difícil de definir.

O próprio Fellipe depois questiona isso, dizendo que a física pode ser
subjetiva e a psicologia, objetiva. Mas deixe-me reforçar esse ponto.

A “Lei da Gravidade” não é verdadeira, porque não existe uma lei da
gravidade. O que é existe é o fato de que, empiricamente, quando você
solta um objeto ele tende a cair. Entretanto, e aí é que está, nada
garante que amanhã não seja descoberto um material que não caia. As
“leis” da Física, como a Segunda Lei de Newton, ou as Leis da
Termodinâmicas, não são provadas, como é, por exemplo, o Teorema de
Pitágoras. Nós temos confiança nelas com base na estatística, na
ausência de contra-exemplos.

Basta você ver que a “Lei da Gravidade” já mudou de forma. Newton disse
que era uma força e Einstein disse que é uma deformação do espaço.
Atualmente, trabalha-se com a hipótese de que é um campo gerado por uma
partícula ainda a ser descoberta, o gráviton.

Reconhecer as limitações da ciência não é criticá-la, mas admitir que
ainda temos muito a aprender. A natureza é muito mais complexa do que a
mente humana é capaz de entender. É nosso papel, como cientistas, de
criar abstrações que expliquem os fenômenos, chegando numa solução
plausível — e essas abstrações geram resultados fabulosos.

Como engenheiro, estudando mais a fundo a área de Termodinâmica de
Misturas e de Refrigeração, eu me questiono o tempo todo. Essa equação
de estado é válida? Essa hipótese de sistema adiabático é realista? Só
assim é possível aprender alguma coisa.

A palavra-chave é ciência. Federico Viticci do MacStories escreveu:
ciência é aquilo que injeta fótons no seu corpo para matar o câncer.
Como não se maravilhar com isso?

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Simplifique sua vida: monitore seu tempo

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu
narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações,
seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Uma vez que você já definiu suas prioridades e seus
compromissos, é hora de comparar a sua realidade aos seus objetivos.

Nosso cotidiano é uma infinidade de tempo perdido: trânsito, filas,
consultórios. Além disso, perdemos muito tempo fazendo coisas de que não
gostamos de forma ineficiente. Se você (como eu) odeia falar ao
telefone, vai naturalmente procrastinar na hora de fazer uma ligação:
vai misteriosamente demorar na hora de encontrar o número, vai
desistir no segundo toque alegando que ninguém atendeu…

Todos queremos gastar o mínimo de tempo possível fazendo coisas chatas e
o máximo fazendo aquilo que nos agrada. Para sobrar tempo para o que nos
interessa, é preciso então cortar o tempo que gastamos fazendo o que não
nos interessa. Mas por onde começar?

Nós na engenharia temos o hábito muito chato de querer medir, ou pelo
menos estimar, as coisas. É esse hábito que nos permite fazer nosso
trabalho. Como alguém pode projetar uma ponte sem saber qual o peso que
ela deve suportar? Como alguém pode criar algum meio de aumentar a
eficiência de um sistema sem saber a eficiência atual? Como alguém pode
projetar um sistema de refrigeração sem saber em qual temperatura o
sistema vai trabalhar? É preciso ter valores para algumas grandezas e
tomar decisões com base neles.

Portanto, se você quer eliminar o supérfluo, as atividades que estão
complicando sua vida, é preciso primeiro avaliar como você gasta seu
tempo e identificar os pontos problemáticos. Você talvez ache que gasta
tempo demais no trânsito, e então usa um caminho alternativo. Mesmo
assim você continua chegando atrasado. Então você mantém um registro dos
seus dias e descobre que demora duas horas para sair de casa de manhã. O
gargalo não é o deslocamento, mas o tempo que você demora no banho.

Em ação

Por um a três dias, mantenha uma folha de papel por perto (ou algum
aplicativo) e relate suas atividades: acordar, tomar café, tomar banho,
sair de casa, chegar no trabalho, responder emails, fazer o seu
trabalho, chegar em casa, fazer faxina, lavar a louça, assistir TV,
dormir.

Identifique as atividades nas quais você demora mais e veja se essa
situação está de acordo com os seus objetivos.

Preparação

Essas primeiras três etapas (identificar prioridades,
assumir compromissos e monitorar seu tempo) são as
etapas de preparação para nossa jornada rumo à simplificação. Agora você
já conhece as suas prioridades e como sua vida está em relação a elas.
Já sabe o que quer manter e o que quer simplificar. É hora de partir
para a ação.

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FaceTime e o que realmente importa

Recentemente minha irmã fez aniversário. Normalmente, eu daria um beijo
nela pela manhã e jantaria com ela e nossos pais pela noite. Acontece
que esse ano não é normal, e ela está estudando na França, e eu não
posso fazer o que normalmente faria.

Eu tentei usar o Skype, mas não deu certo. Então resolvi testar esse
app, FaceTime, para fazer chamadas de áudio e vídeo pela internet. E o
detalhe: é um app nativo da Apple, e tem também para OS X, o sistema
operacional da Apple e que eu uso.

Então foi assim: eu, sentado na minha mesa, confortavelmente, usando um
app que veio com o meu computador, e ela, pegando um trem para ir para a
aula, com o iPhone dela, com 3G padrão europeu. Não foi preciso instalar
nada, nem configurar, nem adicionar nenhum contato. Eu já tinha o número
dela no meu iPhone, os contatos são sincronizados pelo iCloud com meu
computador, e só precisei buscar pelo nome dela. E nós conversamos (com
vídeo) enquanto ela tomava o trem. E eu pude dar os parabéns a ela.

Vejam, quando falo de tecnologia neste blog, é sobre isso que quero
falar. Quando as pessoas me vêem com um MacBook, um iPhone e um iPad,
fazem piadas, me chamam de Apple-boy ou Mac-fag, dizem que eu sou
riquinho filhinho de papai (porque claro, no Brasil chamar alguém de
rico é ofensa). Eu não sei exatamente o que essas pessoas tem a ver com
isso, mas foi esse conjunto de ferramentas que eu pude dar parabéns à
minha irmã, no aniversário dela, não gastando nada a não ser um pouco
dos dados de pacote de 3G dela. Usar produtos Apple tem seu preço, mas
tem suas vantagens. A integração entre os produtos é fantástica. Ao
contrário do que a maioria das pessoas pensam, eu não uso a tríade
iPhone-iPad-Mac para parecer cool. Eu tento ser produtivo ao máximo
com esses gadgets.

Poderia ser feito de outra forma? Claro que sim. Se eu tivesse um
computador rodando Linux (como eu já tive durante muito tempo) e minha
irmã tivesse um Android, ou poderia no mínimo comprar créditos em VoIP
(mais baratos que telefone normal) e telefonar para ela. Ou por Skype,
ou por Google Hangout, o que seja. Não estou dizendo para você comprar
um iPhone. Estou dizendo que para você abraçar a tecnologia como
resolvedora de problemas.

A cor do meu telefone? É um detalhe. As animações do OS X? Detalhes. Os
ícones 2D do iOS 7? Detalhes. Eu poder conversar por vídeo com minha
irmã no aniversário dela usando apps já instalados? O que realmente
importa.