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Só valorizamos a história de amor quando ela vem acompanhada de sofrimento

Algo sempre me intrigou na música popular. O amor é com certeza o tema
mais frequente (e como falei na minha análise dos Beatles, tem gente
que praticamente só fala disso na sua carreira inteira) porém sempre com
uma visão: o amor sofrido. Algo do tipo “eu amo você, mas a sua família
não me aceita, ou somos de classes diferentes, ou somos de cores
diferentes, ou você só olha para ele, e por isso não podemos ficar
juntos. Mesmo assim eu vou escrever essa música sobre nós dois”. E essas
letras vêm acompanhadas de músicas lentas, em ritmo de balada leve, com
acordes menores, sombrios, fechados.

Aliás, quanto mais sombrio, melhor.

O amor dói. Quer dizer, o amor não correspondido e não realizado dói. Eu
entendo isso (quem nunca passou por algo assim?). E o músico, aquele
rapaz teoricamente mais sensível, quer pôr as mágoas para fora e usa a
música para esse exorcismo.

O que eu não posso aceitar é que isso se torne a regra, que celebremos
esse tipo de visão de amor, e que — tragédia — só valorizamos a
história de amor quando ela vem acompanhada de sofrimento
. E de repente
esse é o único tipo de amor que deve ser expresso.

Todas essa músicas são lindas, mas isso é o tipo de coisa que desvirtua
o que deveria ser o amor.

Amar é bom. É aquela sensação de que nenhum problema mais importa,
porque você sabe que tem alguém a seu lado, alguém que vai dizer que
tudo vai dar certo, que vai consolar quando preciso. É aquela sensação
de partilhar os momentos bons, de associar aquela viagem àquela
pessoa, de querer que ela esteja junto nas suas conquistas, de não
conseguir trabalhar por não parar de pensar nela. E por que não
estamos cantando sobre isso?

O que aconteceu com aquela história de “A conhece B na
aula/academia/festa, saem uma vez, duas vezes, três vezes, várias vezes,
apaixonam-se, começam a namorar, são felizes”? Por acaso esse tipo de
história é menos importante, só porque ninguém sofreu chorando?

O amor para mim é isso:

Acordes maiores, violão, acordeon, dá quase para dançar. Estava escrito
que eu ia lhe amar e eu vou lhe segurar por quanto tempo você quiser. Eu
amo você e a vida é bela. Now we’re talking.

A primeira vez que um homem diz eu te amo

Um homem passa por muitas experiências ao longo da vida.

Somos alimentados com leite materno, e é bom. Somos desmamados, e embora
com certa relutância, aceitamos. Comemos terra, e a julgar pelas nossas
caras de prazer, é a maior iguaria do mundo.

Andamos de bicicleta, e caimos, e queremos morrer de tanta dor.

Chutamos uma bola, e um mundo se abre a nós. Ou não.

Achamos que não tem nada de mais ficar até tarde jogando videogame na
casa de um amigo sem avisar aos pais, e levamos bronca.

Recebemos nota baixa naquela matéria insuportável.

Passamos no vestibular, e descobrimos que somos burros.

Aprendemos a dirigir, e batemos o carro na mureta de casa. Ou sonhamos
em ser o próximo Senna.

Assumimos o primeiro emprego, e somos demitidos.

Morremos.

Tudo isso faz parte da vida de um homem. Mas nada disso importa.

Porque os momentos, as experiências que realmente importam, passamos ao
lado de uma mulher.

Livros, teses, filmes, estudos foram feitos sobre as primeiras vezes. O
primeiro selinho naquela brincadeira de “verdade ou consequência”, e as
meninas não são mais tão chatas. O primeiro beijo de língua, também
conhecido como “o paraíso é aqui”, ou a sua variação “menina com gosto
de morango”. A primeira vez no hiper-americano second base. A primeira
vez que se vê uma mulher nua, provavelmente a cena mais bonita do mundo.
A primeira transa.

Tudo isso é muito bom, e todo homem lembra disso para sempre. Lembramos
inclusive das segundas vezes, e terceiras e quartas.

O que niguém fala é o mais importante. É a primeira vez que um homem diz
“eu te amo”.

Porque isso define um homem. Depois que um homem diz para uma mulher que
a ama, depois que um homem tem a coragem de o fazer, o mundo muda. Um
garoto de 14 anos pode transar, mas dificilmente pode dizer isso tendo
noção da sua importância. Porque amar não é andar de mãos dadas no
shopping, ou admitir que ama na frente dos amigos, ou comprar
chocolates, ou colocar a foto da menina como fundo de tela no celular.

É tudo isso, e muito mais. É dizer todos os dias que a sua garota está
linda sem precisar mentir, porque um homem que se preze acha a sua
mulher linda. É dar flores não por dar, mas por que isso vai provocar o
sorriso mais bonito do mundo. É fazer qualquer por esse sorriso, aliás.
É pedir desculpas por algo errado, mas ser firme quando se acha na razão
(e pedir desculpas novamente se descobrir que não está mais). É tratar a
sogra como se deve. É tratar a mulher como se deve. É priorizar a
mulher na hora do sexo (porque um sexo com uma mulher não é uma
masturbação a dois, ao contrário de crença popular).

Amor não é coisa de criança. Amor exige responsabilidade – por outra
pessoa.

Você pode ser tímido, retraído, pouco desinibido (*sounds like me*) e
ter dito poucas vezes. Pode ser experiente e ter dito muitas vezes. Pode
ser um mentiroso e dizer toda semana. Pode ter dito uma única vez.

Não importa. Foi aquela primeira vez (*A* primeira vez) que realmente
mudou tudo.