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Por um 2015 com foco

Deixem eu lhes contar um segredo, um defeito meu: eu adoro criar tarefas e odeio executá-las. Pior que isso, tendo a criar tarefas sem sentido, que se acumulam na minha lista de afazeres, e por vezes me sinto um robô clicando em botões, fazendo e lendo coisas que tomam tempo e sem ter ideia de por que eu comecei a ler aquilo em primeiro lugar.

Eu não sou muito de resoluções mágicas de ano novo, ainda mais quando são genéricas como “emagrecer” e “ganhar dinheiro”. Porém, acho que a virada do ano é uma época simbólica e propícia para reflexões, sendo uma época de feriados e recessos (principalmente no hemisfério sul). O ano de 2014 foi sem dúvida um ano misto; consolidei o meu relacionamento com minha namorada (estando com ela muito mais tempo que estive com qualquer outra menina) e tive uma grande conquista, que foi o meu mestrado, mas mesmo isso foi seguido de um período de incertezas quanto ao futuro profissional e sem renda nenhuma. Foi também um ano de muitas doenças e brigas na família. Por tudo isso, eu não posso negar que fico feliz que 2014 tenha ido embora.

Com o ano novo, é tempo então de rever objetivos e hábitos, principalmente aquele citado no início deste texto. Então, para começar, minha primeira prioridade é parar de criar tarefas desnecessárias. Em 2015, só vou dedicar tempo ao que realmente acrescenta para mim. Como diz o Prof. Cal Newport, o objetivo de um estudante de pós-graduação é fazer pesquisa de alta qualidade, e nada mais conta. Vou controlar meu tempo de ficar procurando livros e mais livros, pesquisando sobre linguagens de programação esotéricas, aprendendo tudo sobre algum programa de computador, e me dedicar às disciplinas e à minha pesquisa. É claro que um estudante de doutorado precisa também ter uma cabeça aberta e devanear um pouco, mas um tempo específico precisa ser criado para isso, e não tomar o dia todo.

Fora do doutorado, vou limitar o meu número de projetos. Se quero ler um livro e pesquisar mais sobre o assunto, mas tenho de levar o carro na oficina, procurar coisas para casa, comprar um presente de aniversário, não posso também assumir um projeto grande como começar um curso de idiomas ou trabalhar neste blog; é preciso fazer uma purga produtiva. E nada de ficar pesquisando apps à toa ou ficar zapeando à toa, sem objetivo.

Por último, vou tentar planejar mais minha agenda. Diz-se que uma tese (ou qualquer projeto grande) nunca é acabada, mas interrompida, e por isso não posso deixar isso ocupar todos os espaços da minha vida. Todo dia, antes de ir para casa, vou tentar criar um plano para o dia seguinte, limitando os tempos de execução, de maneira que eu me force a focar no que vai dar resultado, e ter tempo para minha vida pessoal. Eu sei, já é o terceiro link do Newport nesse texto de 500 palavras, mas a ideia de produtividade de agenda fixa me é muito atraente.

Acredito que só assim, com um mínimo de organização e o máximo de foco, é possível parar de pensar em metas e pensar em objetivos que são realizados naturalmente, fazendo-me ir melhor no meu doutorado e aproveitar melhor a minha vida pessoal.

Resenha: O Poder do Hábito

Por que você escova os dentes todo dia?

Você gostaria de pensar algo do tipo: “eu me preocupe com minha saúde
bucal, por isso assim que saio da mesa eu ponho um pouco de pasta de
dente na escova e escovo do jeito que o dentista ensinou”. Para você, é
uma ação completamente racional.

Não funciona assim. Você acaba de comer e vai escovar os dentes sem
pensar
. É um hábito, uma ação já programada no seu cérebro, nas regiões
mais primitivas; você não tem controle.

O jornalista Charles Duhigg investiga essas ações automáticas em O
Poder do Hábito
, um relato de casos famosos que contribuem para
nosso entendimento do assunto.

Do tabagismo aos protestos

A grande ideia do livro é conectar três diferentes níveis de agrupamento
(um indivíduo, uma organização e uma sociedade) sob uma mesma ideia; o
livro em si segue essa divisão em três partes. Todos já ouvimos falar de
pessoas que pararam de fumar voluntariamente, de empresas que quase
foram à falência e de protestos que começam “do nada”; o grande ponto de
Duhigg é dizer que todas estas situações são frutos de hábitos.

Na primeira parte, vemos exemplos individuais, com o objetivo de explicar
a estrutura do hábito. O modelo proposto é o do loop do hábito,
composto de uma deixa, uma rotina, uma recompensa e um anseio. O
autor nos mostra exemplos de pessoas que tiveram danos cerebrais, e
ainda assim mantém os hábitos básicos (um paciente era incapaz de
indicar o caminho da cozinha de casa, segundos antes de ir lá buscar um
pote de biscoitos). Fala dos Alcóolicos Anônimos e seu programa de
mudança de rotinas. De como publicitários com conhecimentos de
psicologia (e do loop do hábito) estão nos fazendo ter o hábito de usar
pasta de dente (e como ainda não conseguiram fazer o mesmo com protetor
solar).

A segunda e a terceira parte são mais interessantes. Num capítulo de
leitura obrigatória, fala de como as empresas estão monitorando nossas
tendências de compras (spoiler alert para as mulheres: algumas
empresas estão estimando o seu ciclo menstrual para enviar os anúncios
certos no período certo). De como os médicos renomados ainda falham nas
cirurgias mais triviais, porque o hospital adquiriu maus hábitos de
falta de controle. De como a Starbucks se tornou o que é ao treinar os
funcionários a tratarem os clientes automaticamente, mimando os que
estão de bom humor e lidando com os desagradáveis.

No capítulo final e dedicado a polêmicas, Duhigg nos questiona o que
fazer quando os hábitos (ações inconscientes) de alguém leva ao
assassinato.

Uma grande reportagem

O livro é bom, não vou negar. A minha decepção particular é que, talvez
por falta de pesquisa, eu esperava um livro científico, um guia de
como mudar hábitos. O Poder do Hábito é uma grande reportagem, um
livro de história. Embora haja explicações científicas e um apêndice com
dicas sobre mudança de comportamento, esse não é o foco.

Porém, como falei, isso não desqualifica o livro, é apenas fruto de uma
concepção minha. Duhigg, sendo jornalista, escreve muito bem e sabe
conectar as histórias. Portanto, mesmo que você não aprenda nada de
prático, há muita informação interessante (e você pelo menos vai
questionar os seus hábitos).