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Você não precisa de uma tela Retina

A minha namorada tem um celular Nokia antigo, daqueles de flip ainda
(lembram?). Não tem nenhum recurso a não ser os básicos: telefone,
mensagens, alarmes, uns joguinhos.

Os mais jovens dizem que o fato de ela ter um telefone velho assim “é
paia demais”, ou algo assim, não estou por dentro das gírias novas.
Apesar das críticas, é com esse celular que ela fala quase todo dia com
a mãe dela, a 800 km daqui. É com esse celular que ela se comunica com
os sobrinhos e irmãos que moram longe. É com esse celular que ela troca
mensagens comigo.

Ela não está nem aí para o que está acontecendo no Twitter (e eu,
namorado ruim que sou, continuo checando-o mesmo quando estou com ela).
Ela não ri das fotos com legendas engraçadas no Instagram. Ela consulta
o Facebook com calma, no computador dela. Ela não precisa consultar o
email quando está na fila do mercado.

Ela é formada numa universidade, trabalha, já morou em algumas cidades
diferentes, vai a festas, tem amigos, tem um namorado. Tudo isso sem um
smartphone. E ela diz que só vai comprar um outro celular quando este
estragar. Considerando que estamos falando de um Nokia antigo, isso quer
dizer nunca.

Namorá-la é com certeza a melhor coisa que me aconteceu nesse ano, e,
apesar de naturalmente não ser só por causa disso, ela é um lembrete
ativo do que queremos dizer quando precisamos de algo.

Você é um animal. Você precisa de água e comida. Precisa dormir. Precisa
fazer exercício. Precisa urinar e defecar.

Você também é um ser humano. Precisa ter cultura, sentir-se pertencente
a algo, relacionar-se com alguém (seja esse alguém Deus), integrar-se na
sociedade, estimular-se intelectualmente, descobrir a sua vocação.

O que você não precisa é de uma tela Retina.


Eu me formei em engenharia, então para mim a tecnologia é um meio de
vida. A minha profissão é criar tecnologia, então o leitor pode ter
certeza que não quero dizer que temos que abandonar toda tecnologia. O
que prego é que temos de ter uma atidude racional em relação a ela.

Meu tema de mestrado é a refrigeração, a ciência de produzir frio. Uma
geladeira é necessária? Depende. A humanidade viveu muito mais tempo sem
refrigeradores do que com eles. Mas eles certamente ajudam. Com uma
geladeira você precisa ir menos vezes ao mercado porque os alimentos
duram mais. Você se refresca com a cerveja no verão. Você pode preparar
a comida na véspera da festa para poder aproveitar com seus amigos. Tudo
isso é ótimo. Tempo e dinheiro poupado com a ajuda de uma geladeira
podem ser usados para outras coisas.

Tudo bem, os benefícios de ter um refrigerador são tantos que você
decide que precisa de um. Mas você não precisa de uma geladeira de
inox com duas portas. Você quer uma e pode comprar. Ótimo.

Da mesma forma, a minha namorada, por decisão própria, resolveu que não
precisa de um iPhone ou um Galaxy S4. Ela precisa manter contato com as
pessoas importantes na vida dela (eu humildemente arrisco me incluir
nesse grupo), e o aparelho que ela tem em mãos cumpre essas funções
perfeitamente. A tecnologia, nesse caso, está cumprindo o seu papel, de
resolver um problema real.


Nos últimos tempos, eu ando me cansando do lado mais podre do mundo
Apple. Desde o lançamento dos últimos modelo de iPad, só choveram
resenhas das mais aburdas, de como ele é mágico, de como dá vontade de
chorar de tão leve que ele é, de como ele se integra a sua mão. Não há
um dia que eu não veja um artigo comparando o iPad Mini ao iPad Air. E
podcasters e blogueiros famosos estão dizendo que vão comprar um iPad
Mini porque finalmente ele vai ter tela Retina e, afinal, não dá para
trabalhar sem uma tela Retina.

Eu tenho um MacBook Pro, modelo 2011. Ele não tem tela Retina. O
computador, além de lindo e bem construído, tem mais memória,
processador e armazenamento do que eu preciso, e o sistema operacional é
ótimo, rápido e robusto. E, mesmo sem a tela Retina, eu estou
trabalhando nele todo dia! Eu sou ou não sou o máximo?

E o mais importante de tudo: eu comprei um MacBook não porque eu
precisava dele, mas porque eu queria.


A Luana Oliveira escreveu um ótimo artigo comparando a
tecnologia à religião:

Quando se chega ao ponto de tentar convencer outras pessoas de que o
produto X é melhor, de que os aplicativos ABC são melhores, quando
gera inimizades porque determinada pessoa prefere outra plataforma, o
que isso te lembra? Pra mim isso se assemelha muito à religião.
Normalmente os discípulos ficam cegos para outras possibilidades e só
têm olhos e ouvidos para aquela religião (ou marca, no caso da
tecnologia). Tudo o que não pertence a essa condição é praticamente
demonizado.

Ela está certa. Quando se faz parte do mundo de usuários Apple, e se
quer manter-se informado, é impossível não ser bombardeado com artigos
fanáticos. O mais interessante de tudo é que esse culto se torna tão
arraigado que discutimos apps pelos apps em si, e não pelo que eles
fazem. Estamos rodando testes de velocidade em um iPad sem pensar no que
ele pode ser usado.

Há algum tempo, li um artigo do Michael Shechter que me marcou
profundamente. Ele se referia a um episódio do podcast Enough em que
Patrick Rhone falava que deveríamos pensar nas ações, e não em
apps:

When trying to figure out how to improve the way you work, Patrick is
right. You shouldn’t start with the app. It is indeed about the action
you want to take, but—at least for me—a big part of that process is
taking a step back in order to find the right tool or tactic to help
me to accomplish a necessary actions. Ultimately it’s about creating
processes that ensure those necessary actions happen.

Precisamos urgentemente parar de delirar a cada vez que a Apple (ou
outra empresa) lança um produto novo e começar a consumir tecnologia de
maneira inteligente. O que estamos fazendo com esses aparelhos
excelentes que temos à disposição


Há algum tempo, eu falei que ia fazer mais resenhas de apps. Bem, eu
mudei de ideia.

Eu quero discutir tecnologia, e a nossa relação com ela. Gosto desse
tópico (tanto que, repito, escolhi uma carreira que estuda e desenvolve
tecnologia). Mas quero falar de assuntos relacionados: ciência,
produtividade, criatividade, desenvolvimento pessoal. E quero fazer
artigos longos, opinativos.

Apps são um meio, e podem servir de exemplo para alguma ideia, mas não
quero escrever um testo centrado num aplicativo. Assim, não vai mais
haver resenhas de apps. As que escrevi foram um teste, e foram
interessantes. O que eu não quero é me juntar ao culto Apple; eu sou
apenas um usuário, e não quero converter ninguém. Quero que as pessoas
usem o que for melhor para elas.

Para mim, o ecossistema Apple está funcionando bem. Todos os meus
aparelhos são de dois anos atrás e eles estão ótimos. Eu não preciso
de nada melhor. Eventualmente, eu vou trocar de aparelho. E talvez eu
compre um com tela Retina. Ou talvez não. Talvez eu volte pro Linux.
Talvez eu resolva experimentar um Android.

Eu não quero ser um fanático. Quero apenas fazer o meu trabalho,
continuar escrevendo, continuar me comunicando. E quero passar mais
tempo com minha namorada e menos tempo conferindo o Twitter.

Porque isso é o que importa.