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O Futuro do LaTeX, Parte II — Por Que LaTeX

Na primeira parte desta série, falamos da importância de linguagens de marcação.

Vamos analisar qual é o nosso problema e por que estou gastando tempo nisso. O seu computador contém arquivos em inúmeros formatos; alguns podem ser abertos por apenas um programa (ou um pequeno número deles). Geralmente se identifica o tipo de arquivo pela extensão do nome (algo do tipo nome_do_arquivo.extensao). Assim, o seu navegador não sabe o que fazer com um arquivo .xls, enquanto que o Excel não consegue abrir uma apresentação .ppt do PowerPoint.

Um arquivo é apenas uma sequência de bytes, um conjunto de 0 e 1 que você já deve ter visto em algum filme de ficção científica. A questão é como interpretar essa sequência, transformando-a em informação útil ao usuário. Os 0 e 1 de um arquivo do Word, por exemplo, contém todas as instruções sobre o texto, as imagens, as margens, as tabelas, as fontes etc

O formato mais básico de todos é um arquivo de texto puro (plain text). Um arquivo de texto puro contém apenas bytes que representam caracteres, sem nenhuma informação adicional. Os programas ainda precisam saber converter os bytes em letras, mas é só isso; é um formato bem documentado, aberto, e praticamente todos os sistemas lidam bem com texto puro. Se o leitor que usa Windows criar uma nota, salvar como um .txt e me mandar, posso abrir esse arquivo no meu iPhone. Existem alguns detalhes de apresentação que são característica do editor; a fonte na qual o leitor escreveu a sua nota não é a mesma na qual eu vou ler, porque esta informação não está embutida no arquivo. O programa lê o texto e o apresenta numa fonte arbitrária, ou até numa outra cor.

Mas, se o texto puro não contém formatação, como, usando esse tipo de arquivo leve e portável, produzir obras complexas como livros, sites, artigos, relatórios?

Fazemos isso com linguagens de marcação. Usando comandos em texto, marcamos regiões do nosso arquivo para serem formatadas; um programa então processa esse arquivo, interpreta os comandos e cria um arquivo final destinado à visualização.


No primeiro texto falamos de HTML e páginas da web. Agora vamos falar da produção de documentos científicos, com sua divisão em capítulos e seções e uso de equações, figuras, tabelas.

O formato mais usado na Academia para isso é o LaTeX, que é uma extensão de uma linguagem chamada TeX, que por sua foi criada por um matemático especificamente para produção de livros sobre programação e, não por acaso, é especialmente adequado para criação de equações.

(Se o leitor já está familiarizado com a linguagem e quer saber sobre o que eu acho do tal futuro do LaTeX, por favor aguarde o próximo texto. Primeiramente darei uma breve explicação do que é LaTeX e por que o uso.)

Um documento em LaTeX tem a seguinte forma:

\documentclass{article}

\usepackage[utf8]{inputenc}

\title{O Futuro do \LaTeX}
\author{Fábio}

\begin{document}

\maketitle

\section{Introdução}

O \LaTeX{} é ótimo para fazer equações, como essa na mesma linha $E = m c^2$ ou esta em um parágrafo a parte:

\begin{equation}
    a^2 + b^2 = c^2
\end{equation}

\end{document}

Repare na estrutura lógica desse trecho. Definimos a classe de um documento, (e existem diversas, como book, report, entre outras, que podem até ser criadas pelo usuário), definimos um título e um autor, damos um comando para um começo de seção. No primeiro parágrafo, colocamos uma equação, e depois criamos outra separada. Por último, fechamos um documento.

Vale repetir: isto é apenas texto. Na versão final, o título vai estar em um estilo, o cabeçalho do capítulo outro, o parágrafo normal em outro. As equações vão ter uma fonte diferente e assim por diante.

Como produzir esta versão final? Além de ser uma linguagem, existe um programa chamado LaTeX que compila um arquivo contendo um texto válido. Este post já está muito comprido, mas o leitor pode facilmente encontrar instruções de como fazer isso da maneira mais fácil na sua plataforma (Windows, Mac, Linux, até iOS). O resultado é algo assim, um PDF de onde tirei este screenshot:

Este documento é muito simples e não se compara à complexidade de uma dissertação. Existem muitas outras coisas que o LaTeX pode fazer, em especial citações. Se o leitor já fez algum trabalho acadêmico, sabe a dor que é produzir referências bibliográficas adequadamente formatadas; com o LaTeX, você cria um arquivo de bibliografia, separado do texto, contendo todas as suas referências escritas numa linguagem própria (BibTeX). Depois, cria um pacote dizendo como processar essa linguagem e produzir uma referência (como “AUTOR, Título. Local: Editora, Ano”), e, claro, existem inúmeros pacotes prontos, inclusive para ABNT. Assim, no texto, você precisa apenas escrever \cite{fortkamp}, por exemplo, e o LaTeX e BibTeX formatam a referência para você.

Isto é só uma introdução e não espero que o leitor aprenda a usar o LaTeX. Quero que fique claro apenas isso: é uma linguagem de marcação especializada para criar documentos científicos. Usando texto puro, é possível mesclar o texto que estou escrevendo com comandos que vão ser processados depois, gerando um arquivo pronto para ser distribuído.


Mas afinal, por que eu uso isso? Para repetir a pergunta que eu ouço muito, por que eu não uso o Word como uma pessoa normal?

Confiança é, para mim, um aspecto importante de como usar a tecnologia, e o Word simplesmente não é confiável. Eu já perdi muitos trabalhos feitos no Word, depois de ele travar quando eu adiciono uma figura muito grande, e isso é inaceitável. Além disso, se criar equações complicadas em LaTeX é difícil, no Word é impossível.

Quando estou escrevendo um texto em LaTeX, eu não clico em nenhum menu para inserir figura, ou deixar um pedaço negrito, ou nada disso. Vou repetir mais uma vez porque sou chato: é apenas texto. Você não insere tabelas no arquivo fonte; você dá um comando para o processador LaTeX produzir uma tabela ali. Com a prática (e com um livro de referência do lado para consultar), fica muito fácil criar uma equação complexa, digitando apenas comandos.

Além disso, o LaTeX separa a formatação da escrita. No exemplo acima, eu dou um comando para criar um título, mas não existe nenhuma informação de como o título vai estar formatado; isso é papel da classe do documento. Como falei, é possível criar classes próprias (existe uma ótima que formata todo o documento já seguindo a ABNT). Essa filosofia desencoraja o hábito nada produtivo de ficar “ajustando” a fonte e o estilo de um documento enquanto se escreve.

Gosto também da extensibilidade. O LaTeX foi criado para textos em inglês, sem acentos, mas existe um pacote que permite esses caractereres a mais (é o pacote inputenc que usei acima) — observe que a data ficou em inglês, e omiti o pacote que faz a tradução justamente para chamar a atenção para este fato. Existe outro, um dos meus preferidos atualmente, que formata unidades SI adequadamente. Ou seja: quando você está escrevendo, e encontra um problema, a chance de você achar um pacote pronto é alta.

Por último, o LaTeX é independente de programas. O compilador é software livre e pode ser facilmente instalado em qualquer sistema. E o editor… não existe um “editor de LaTeX”. Vamos repetir? É apenas texto. Você pode escrever no maldito Bloco de Notas, se quiser; ou pode escrever em algum editor de texto poderoso (voltado geralmente para programação), como o Notepad++ no Windows ou TextWrangler no Mac (que eu adoro e estou usando para escrever este post). Se preferir algo mais fácil, existem editores “integrados”, que reúnem a edição com o processamento (no Mac, muitas vezes eu uso o Texpad , que é bem razoável) — mas eles são apenas isso, editores. O texto que você escrever em um editor do Windows e me mandar vai ser aberto e, se eu tiver instalado todos os pacotes que você usou, compilado normalmente no Texpad.

Mas se o LaTeX é tão bom, por que eu acho, como é o título desta série, que ele precisa de um futuro? Aguardem cenas do próximo capítulo.

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A Guerra dos Tronos e a Religião

falei que não tenho qualificações para analisar um livro de ficção, mas gostaria de traçar alguns comentários interessantes, começando com um dos meus livros preferidos, A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Desde já aviso que esse texto é resultado da minha observação apenas, sem nenhum tipo de pesquisa.

A Guerra… é um romance de fantasia, situado num tempo e lugar místico que se parecem com a Europa medieval, com reis, castelos, casamentos políticos e guerras. Isso está evidente e todo mundo fala disso. Há um detalhe, porém, que talvez poucas pessoas tenham percebido.

Se essa história se passasse mesmo na Idade Média, teríamos personagens muito importantes: bispos, padres, o Papa. Não sou historiador, mas parece-me impossível falar da história política da Europa nessa época sem falar da Igreja. Com as cruzadas, a Inquisição, os bens e tesouros da Igreja, o relacionamento do Papa com os reis, esta instituição moldou esse período.

Em A Guerra dos Tronos, não vemos esse tipo de personagem. A religião é um elemento de bastidores.

Em Westeros, o continente onde se passa a maior parte da história (e onde vou me concentrar), existem duas religiões: uma primitiva, de deuses da floresta, sem nome; e uma mais “moderna”, mais organizada, oficiada por homens chamados de septões e mulheres chamadas septãs (convém dizer que o nome do deus dessa religião também não aparece, embora seja sugerido que há um, em contraste com a outra). A religião primitiva já foi dominante, trazido pelos primeiros habitantes do continente, mas agora é seguida apenas por poucos grupos, em geral ligados diretamente aos Primeiros Homens. Não vemos nenhum tipo de discriminação, mas uma certa marginalização dos seguidores dos deuses primitivos — situação iconificada em Jon Snow, o bastardo, o que é diferente em tudo, incluindo, é claro, a sua religião antiga. A maioria dos personagens seguem a religião dos septões, que, lembrem-se, veio depois.

Uma religião que é introduzida, começa pequena e aos poucos domina as outras. Claro que você já viu isso antes.

Martin apenas usou um padrão que se repete. Pelo que me lembro da aulas de História, o próprio Cristianismo começou marginalizado, uma religião de judeus dissidentes, perseguido pelos chefes judaicos e pelos seguidores dos deuses romanos. Uma religião mais “primitiva”, de pescadores e marceneiros, que celebra a morte de um Homem na cruz, comendo da Sua Carne e bebendo do Seu Sangue. Essa mesma religião foi dominante por muitos séculos depois, passando de perseguida a perseguidora, incluindo dos mesmos judeus que foram os algozes no começo. Hoje, vemos um declínio, com o Catolicismo perdendo espaço para as igrejas neopentecostais.

Análises similares, da ascenção e declínio de religiões, poderiam ser feitas com o Judaísmo e com o Islamismo. É um padrão que repete ao longo da História, e o autor assim cria um cenário interessante.


Outro ponto interessante é a “união Estado-Igreja”. Como falei, não parece haver uma Igreja que participe de fato do jogo político, mas muitos acontecimentos cívicos acontecem no âmbito religioso. Casamentos, por exemplo, são oficiados por um septão em um septo, e isso o torna sagrado; não é preciso havei lei de casamento civil. Da mesma forma, juramentos da Muralha, uma ordem de guardiões do reino, são feitos com juramentos aos deuses (e cada iniciado por expressar o seu juramento na sua fé), e assim tomados como perpétudos. Romper o juramento, abandonar o seu posto, equivale a mentir para os deuses, e o leitor o que acontece com quem faz isso.

O que me chama a atenção, porém, é que a religião faz parte da vida nesses momentos importantes, mas ela não parece fazer parte da vida cotidiana dos personagens. Não existem cultos regulares, a que os personagens vão. Não existem também personagens religiosos, como seria de se esperar num romance desse tipo; não existem personagens “cegos” pela fé, ou que guiam suas ações pelos deuses. Todos têm motivações muito mais mundanas.


Leu um livro e tentar traçar uma análise assim se provou uma experiência riquíssima, uma que aconselho a todos. Eu quero me tornar um leitor cada vez melhor, e acredito que para isso é preciso absorver os detalhes dos livros, interpretá-los, aprender com eles, não apenas fechar o livro e pôr de volta na estante. Escrever as resenhas de livros de não ficção têm me ajudando muito, e estas análises dos romances são o próximo passo.

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O aspecto fundamental do email

Vladimir Campos escreveu um artigo interessante sobre o tal “futuro do email”:

Mas preciso confessar, é cada vez maior o número de contatos comerciais que recebo via mensagem interna do Facebook, WhatsApp, Hangouts, Skype etc. São tantos, que tenho certeza que logo ultrapassaram o tradicional e-mail. Afirmo isso mesmo considerando algo tão sério quanto a negociação de um contrato. A propósito, já negociei sim com um cliente, do início ao fim, via Facebook. Só no momento do envio do Doc com as cláusulas contratuais usamos o e-mail.

Já vi muitas discussões desse tipo, mas muitas perdem um aspecto fundamental do email, para mim: a universalidade.

Eu tenho pessoas muito próximas de mim que não têm smartphone, ou não sabem usá-lo, ou se recusam a instalar quaisquer aplicativos; para essas pessoas, WhatsApp não é uma possibilidade de comunicação. Outras não têm Facebook ou, como eu, não querem mais usá-lo. Outros não ouviram nem falar em Hangouts. Algumas gostam mesmo de falar pelo telefone.

O email, porém, é universal. Todas as pessoas que eu conheco têm email e acessam com certa regularidade; elas estão dispostas a pagar por um computador, uma ferramenta de trabalho e onde checam os emails, mas não podem se dar ao luxo de ter um iPhone (que, embora possa ser bem útil, ainda não pode ser usada para trabalho por muitos), ou Galaxy. Você pode ter email de graça (em troca de anúncios), ou, se for um paranoico com privacidade como eu, pagar por um serviço privado. Todos os grandes provedores fornecem uma plataforma na web geralmente boa, mas também é possível configurar email em programas de desktop ou mesmo nos smartphones, para os que têm. O email é antigo, bem documentado, padronizado, conhecido; a minha prima que “nasceu na era digital” e a minha tia que teve o primeiro computador aos 40 sabem usá-lo. Também é confiável; já cansei de mandar mensagems por SMS, WhatsApp ou Facebook que nunca chegaram ao destinatário, coisa que acontece muito raramente com email.

Eu concordo que, para comunicação individual, certas tecnologias são melhores. Não vou mandar um email para minha mãe cada vez que quiser falar com ela. Porém, para atingir um grande número de pessoas simultaneamente, eu ainda preciso dele.

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O Ponto de Imersão

Algumas pessoas gostam de jogar videogame, outras de ver filmes, outras de bisbilhotar no Facebook. Eu, quando estou sozinho, gosto de ler.

Na minha adolescência, minhas preferências eram os romances, especialmente os “mistérios” do estilo O Código Da Vinci. Eu sei, esse tipo de livro pode não ter muito valor, os capítulos são curtos como cenas de cinema para prender a atenção, mas o que eu posso fazer? As histórias são divertidas.

Quando chegou a faculdade, minha cabeça mudou, e comecei a ler muitos livros de não-ficção, sobre ciência, história, produtividade, finanças — e, desde que comecei FabioFortkamp.com, resenhei quase todos que li. Esse tipo de leitura pode ser bastante prazeroso, e você ainda aprende alguma coisa, mas pode cansar também. Eu aos poucos fui perdendo um grande prazer meu, que era ler antes de dormir, por preguiça. No fim do dia, estou exausto, e não quero aprender mais nada. Quero apenas ler um pouco, por entretenimento.

A solução para isso, e que até me fez dormir melhor, foi voltar a ler romances de noite. Eu dei uma pausa nos livros de não-ficção, lendo apenas quando estou numa semana mais leve (como quando resenhei The Information Diet). Depois de terminar um dia de trabalho, tomar um banho, preparar-me para o dia seguinte, eu sento numa cadeira boa (ou na cama, mas nada de deitar), pego um romance e me perco nas histórias.

Nem sempre o livro é bom, porém. Quando é ruim, acontece o mesmo problema, de eu não querer ler antes de dormir. E percebi que existe um critério para determinar quando isso acontece.

Eu recentemente terminei um livro desconhecido chamado A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Não tente encontrar em livrarias que você não encontrar. Também dizem que virou uma série da HBO com o nome de Game of Thrones, mas não posso confirmar. Na verdade, essa é segunda vez que leio esse livro; na primeira, não gostei porque não entendi muita coisa da trama e não acompanhava quem é quem. Dessa vez, só não acompanho quem é quem.

Acho que não preciso dizer, mas o livro é muito bom. Já sei que há muita discussão, sobre o enfoque político do livro, as cenas de incesto, a matança generalizada. Como falei, eu tento abstrair esse tipo de coisa; o livro conta uma baita história de maneira eficaz e pronto. Deixo para fazer esse tipo de análise depois de ler.

Um dia, quando ia ao shopping, peguei-me pensando no livro . Estava pensando no que ia acontecer com Lorde Eddard, ou com o Rei, ou com Jon. Ficava imaginando o que seriam os meistres ou as septãs, e como o autor insere a religião sutilmente na história. Fiquei pensando na época em que eu jogava Age of Empires — tudo por causa de A Guerra dos Tronos.

Quando me dei conta disso, percebi que o livro cumpriu o seu papel, e já passou do ponto de imersão na minha cabeça. Eu estava completamente mergulhado na história. Quando chegava a noite, eu não reclamava de preguiça de ler um livro chato, mas sim por só ter tido tempo de ler naquela hora. Agora mesmo, quero saber o que vai acontecer no próximo volume.

E isso é um livro bom. Não é um livro que as pessoas dizem que tenho de ler, porque é um clássico. Quando eu terminá-lo, vou ficar pensando nele. Quando acabar a série, vou lamentar, como lamentei quando terminei Harry Potter.

Num dos meus livros (de não-ficção) de cabeceira, Como Ler Livros, Mortimer J. Adler a Charles van Doren dão um conselho crucial:

Não tente resistir ao efeito que uma obra de literatura imaginativa tem sobre você.

(Tradução livre minha de How to Read a Book, Adler e van Doren, Touchstone, edição revista e atualizada).

Sempre digo que a vida é muita curta para se ler livro ruim. Ache um livro na qual você possa imergir e aproveite.

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Impondo barreiras produtivas

Eu gosto de Friends. Gosto também de The Big Bang Theory, de Two and a Half Men (antes de Ashton Kutcher, naturalmente), da nova série da Warner Mom. Como diz minha mãe, gosto de todas essas séries com aquelas risadas de fundo (irritantes, na opinião dela).

Às vezes eu estou cansado mentalmente, depois de ler ou escrever muito. Ligo inocentemente a televisão do meu quarto, em um horário que sei que está passando algumas destas séries. Apenas um relaxada básica, antes de continuar o que eu estava fazendo, antes de terminar aquele capítulo. Dez minutinhos e deu. Sério! Não acredita em mim?

Nem eu acredito em mim.

Os poucos minutos em que eu paro para assistir se transformam em horas, episódios inteiros. Eu fico sentado, olhando para a televisão como um zumbi, e o tempo voa. De repente, eu me dou conta do que tenho para fazer, desligo a televisão, grito um palavrão qualquer e volto ao trabalho.

Eu nunca fui muito de assistir televisão. Lembre-se, eu era o garoto esquisito que gostava de ler. Hoje em dia eu assito bem mais, principalmente em companhia, assistindo ao jornal ou vendo algum filme. Isto não é o problema, e sim aquelas escapas durante o dia, para dar a tal da “relaxada”. A minha força de vontade não é suficiente para acabar com esse hábito.

O que eu fiz então foi tirar a TV da tomada.

Muito do que se fala sobre produtividade envolve eliminar barreiras. Como falei há pouco tempo, um aplicativo como o Drafts pode ser um aliado importante na organização, ao eliminar a barreira de tempo e ferramentas para anotar o que vem na sua cabeça. Você pega o celular, desbloqueia-o, abre o Drafts e pronto: pode anotar — com o tempo, até o movimento dos dedos para digitar e localizar o ícone se tornam automáticos. Ou veja o caso do meu ambiente agora: eu uso um programa de notas chamado nvAlt, que está sempre aberto no meu computador. Quando estou sentado em frente ao computador, e quero escrever, a barreira entre vontade e ação é muito pequena: um atalho de teclado me leva ao programa, onde tenho uma lista de todos os meus textos, incluindo rascunhos. Um exemplo agora fora do computador: eu deixo todas as roupas destinadas a praticar esporte separadas num canto. Quando quero andar de bicicleta, ou caminhar, não existe a dificuldade de ir pegar uma camiseta num lugar e a bermuda em outro. Abro meu armário e está tudo lá.

Mas um outro aspecto importante de produtividade menos mencionado é impor barreiras onde é preciso. Como no caso da TV, desligo da tomada. Se eu realmente quero assistir TV, quero rir um pouco, já terminei meu trabalho, eu posso facilmente esticar o braço e ligar na tomada. Mas essa pequena dificuldade já serve como ponto de parada nas pequenas pausas. Faz-me pensar se eu realmente quero assistir, se não é melhor fazer outra coisa. Uma barreira articial, imposta pelo meu eu sensato, age sobre o meu eu imprudente.

Outra dica que funciona muito bem para mim é mover aplicativos da tela inicial do iPhone. Ultimamente vendo tentando adquirir o hábito de escutar mais podcasts e menos músicas enquanto faço exercício. O simples fato de mover o app do Rdio da tela inicial tem sido de grande ajuda; ter de navegar até a segunda tela, mesmo que envolva arrastar o dedo por um segundo, já é um gatilho psicológico importante.

Funciona muito bem com comidas, também. Por algum motivo obscuro, eu guardei os ovos de páscoa no meu quarto. Claro, um convite perfeito para aquele “pedacinho” inocente. Não cometa esse erro. Deixe comida na cozinha, e se dê ao trabalho de ir até lá.

Assim, se o leitor está tendo dificuldade com algum hábito que gostaria de largar, experimente agir para torná-lo difícil. Hábitos são coisas tão naturais que quando se foge do cenário habitual a sua mente tem dificuldades de se adaptar, forçando-o a pensar de maneira mais deliberada.

E sintam-se à vontade para compartilhar resultados nos comentários.

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Um calendário para minha namorada

Aqui vai uma pequena dica de produtividade que comecei a testar recentemente e tem dado muitos bons resultados. Muitos programas de calendário, em especial o Google Calendar e o calendário do iCloud (o serviço que iPhones, iPads e Macs usam) permitem definir múltiplos calendários. Muitas pessoas recomendam então criar calendários baseado nas suas atividades, como um calendário para seus compromissos pessoais e outros para os de trabalho; a Bia Kunze inclusive recomendou isso num episódio recente (e excelente) do seu podcast.

Para mim isso não faz sentido. Eu tenho múltiplas áreas de responsabilidade, mas sou uma pessoa só. Se tenho uma consulta médica e uma reunião no mesmo horário, de que adianta marcar em dois calendários diferentes? Pode ser por eu não ter um “emprego” propriamente dito, mas não consigo me adaptar a esse raciocício. Durante uma semana eu tenho alguns compromissos, alguns são de família, outros são relacionados ao meu mestrado, outros são meus, mas tenho de atender a todos (caso contrário eles não estariam na minha agenda). Por isso, a ideia de múltiplos calendários nunca fez sentido. Até agora.

Recentemente passei por um quase problema. A minha namorada está envolvida em uma atividade profissional que envolve viagens a outra cidade em alguns dias específicos. Fui marcar com o meu orientador a data da minha defesa de mestrado, olhei no meu calendário e não havia nada no dia sugerido por ele; depois, porém, ao conversar com minha namorada, descobri que é um dia em que ela estará viajando. Como para mim é muito importante que ela esteja na minha defesa, existe uma falha na minha organização; se ela precisa estar presente em algum evento meu, eu preciso saber em que dias ela está livre, e não apenas eu. A tecnologia está dando uma informação falsa pra mim, e isto é inadmissível.

A solução foi definir um calendário para a minha namorada. Naturalmente que não marco todos os compromissos dela (isso seria assustador), mas marco os eventos importantes, como estas viagens. Nesses dias, embora eu esteja livre para os meus compromissos (consultas médicas, reuniões, levar o carro na oficina), não posso assumir compromissos que envolvam ela, como a dita defesa, ou festas, ou jantares. E é aí que o conceito de múltiplos calendários faz sentido.

Fantastical 2 multiple calendars

Viu? Os pontos em azul mostram o meu calendário (que é o padrão), e os em laranja os compromissos dela. Quando preciso marcar algo, tenho uma visão muito mais completa.

Um exemplo muito prático da tecnologia servindo a mim e não o contrário.

A propósito, o screenshot acima é do excelente Fantastical 2.

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Foco e Ergonomia

Tem havido uma grande quantidade de textos falando do iPad como ferramenta de trabalho, incluindo um livro. O assunto aparece em podcasts também: Alexandre Costa recentemente falou de com usa o apenas o iPad para fazer seus podcasts, o que é um feito considerável.

Um iPad é mais leve, mais portátil, mais barato e quase tão capaz quanto um computador tradicional, mas o ponto principal desse tipo de análise é geralmente o foco. Com uma tela pequena, você só pode se concentrar em um programa por vez, forçando-o a fazer escolhas. Você não pode acomodar do lado da sua janela principal uma janela para o Twitter, ou chat, ou Facebook. Distraction-free é a expressão da moda.

Apesar de não ser sobre o iPad, Matt Gemmell publicou um texto excelente na mesma linha, dizendo que o seu MacBook Air é uma ferramente muito melhor de trabalhar que seu iMac. O segredo é usar a sua tela pequena da maneira certa, criando um arranjo eficiente de janelas e usando bem o teclado (confira também esse texto seu sobre atalhos de teclado no Mac).

Para o meu tipo de uso do computador, porém, foco não quer dizer muita coisa. Como Dr. Drang falou:

Which brings us to the type of writing being done. I don’t write fiction, but I can imagine that a lot of fiction writing can be done without any reference materials whatsoever. Similarly, a lot of editorials and opinion pieces are remarkably fact-free; these also can spring directly from the writer’s head. But the type of writing I typically do—mostly for work, but also here—is loaded with facts. I am constantly referring to photographs, drawings, experimental test results, calculations, reports written by others, textbooks, journal articles, and so on. These are not distractions; they are essential to the writing process.

Meu setup atual

Meu setup atual (lembrando que trabalho em casa) é um MacBook Pro 13”, sobre um suporte, conectado a um monitor de 24”. É muito espaço de tela, mas não é um convite para distração. Edito minha dissertação com um artigo do lado, para que eu possa fazer uma citação. Escrevo algum programa com uma janela do Safari ao lado para eu consultar alguma documentação. No monitor auxiliar, do próprio MacBook, eu mantenho uma janela do Rdio, para poder controlar minhas músicas, e às vezes uma janela do Finder para eu fazer alguma manipulação de arquivos. O espaço extra que eu tenho tem utilidade. Veja como está minha tela agora mesmo, com esse texto do lado esquerdo (escrito em Markdown) e uma visualização do lado direito:

byword-marked

Para pessoas como eu, um iPad não pode ser uma ferramenta de trabalho. A restrição de um programa por janela é claramente uma desvantagem, uma restição, e não um “convite ao foco”.

Mas não é sobre foco que eu quero falar, e sim sobre dor na coluna.


Durante muito tempo, eu usei meu MacBook exclusivamente puro, sem monitor externo. Há muito o que gostar: a tela é de alta qualidade, o teclado é excelente (tirando que você tem de se acostumar com o padrão americano), já tem câmera e microfone embutido.

O problema é isso:

ergonomics-notebook

(Você também pode ver como um engenheiro desenha e porque precisamos de arquitetos e designers.)

Como resultado do conjunto disso e de anos de má postura em geral, eu estou tendo de fazer Reeducação Postural Global. E por isso que hoje eu não abro mão de ter um monitor grande. Eu cheguei a trabalhar com o notebook sobre um suporte apenas; você não precisa manter o pescoço tão inclinado, mas esse setup não é ideal porque uma tela de 13” meio que é feita para você ver de perto.

Quando tenho de levar o MacBook para algum lugar, para algum trabalho temporário, ele é portável. Eu consigo trabalhar por algumas poucas horas na sua tela pequena. Mas no dia-a-dia, trabalhando efetivamente, eu não posso me dar ao luxo de ficar com o pescoço torto o dia inteiro.
Eu ainda uso meu iPad ocasionalmente, para ler os blogs que acompanho, para fazer anotações na minha dissertação, para fazer alguma pesquisa rápida, ou alguma anotação no meu diário, especialmente quando meu computador está desligado, mas são períodos curtos.

Eu fico me perguntando se daqui a alguns anos vamos ter uma nova epidemia de problemas na coluna, em virtude de todas essas pessoas que trabalham com um iPad. Depois de anos de pesquisa, conseguimos criar o setup ideal, e estamos ignorando tudo que aprendemos.

Eu tenho uma obrigação com o meu futuro eu, com a minha saúde, de estar olhando para uma tela grande — e não para perder o foco, mas para ganhar ergonomia.

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Por que trabalhar em casa

Matt Gemmell escreveu um texto bastante interessante sobre o assunto cada vez mais discutido de “trabalhar em casa”, falando dos cuidados que se tem de ter, dicas para um melhor rendimento etc.

Eu não vou aqui fazer um texto semelhante porque enfim, ele disse muito bem o que penso. O meu objetivo é discutir por quê eu gosto de trabalhar em casa.

Vamos primeiro começar com a natureza do meu “trabalho”. Quem segue esse site deve saber, mas para os outros, no momento sou estudante de mestrado, agora em fase de conclusão. Minha tarefa primária é escrever a minha dissertação, o que envolve não apenas digitar mas todo o processo por trás — fazer figuras, rever artigos e livros para colocar a referência certa, consultar as normas para rever a formatação, ler e reler à procura de erros. Também estou criando programas de computador para fazer os cálculos de que preciso para reforçar as minhas conclusões.

Para a grande parte dessas atividades eu preciso apenas de um computador. Meu trabalho envolve uma parte experimental, de laboratório, mas isto felizmente já foi concluído. Eu também dependo de poucos pessoas, e não faço parte de nenhuma “equipe”, pelo menos não no sentido corporativo. Troco emails com meu orientador e com alguns colegas.

Meu ponto principal é que posso trabalhar em casa. Também poderia levar o meu computador para a universidade, ou usar o de lá. Vamos analisar por que prefiro a primeira opção.

  • Trabalhar em casa é economizar dinheiro. Primeiro, há o custo de ônibus ou da gasolina; depois, a alimentação. O restaurante universitário da UFSC não está funcionando (além da comida ser péssima), e os preços praticados pelos restaurantes da região são muito altos — apesar de serem muito mais baratos que em outras regiões. Estou cada vez mais convencido de que, a não ser que você tenha um bom vale-alimentação, comer fora virou atividade de luxo. Para piorar, o laboratório onde trabalho tem uma política de não permitir que as pessoas levem almoço — temos muito a aprender com a Europa em alguns aspectos.
  • Ficando em casa, eu não preciso pegar trânsito. Já se tornou rotina demorar uma hora e meia num trecho em que há dois anos demoraria 20 minutos. Já passei da idade de discutir política, e não vou aqui fazer um longo discurso sobre carros e transporte público. O trânsito é ruim; não precisar encarar isso todo dia é uma economia de tempo e um alívio mental.
  • Eu me considero uma pessoa bastante disciplinada. Eu não sofro tentanções em tirar uma soneca ou ver Friends só porque não tem ninguém olhando (por isso não vejo razão para seguir as dicas de Matt Gemmell e instalar programas que bloqueiam diversos sites). Se é para trabalhar, vamos trabalhar. Ainda mais porque meu trabalho só interessa a mim; se eu ficar deitado o dia todo, eu não vou ser demitido, mas vou perder o prazo e não ser aprovado.
  • Um ambiente de trabalho é um ambiente social, e como tal as pessoas querem socializar. Eu adoro conversar com meus colegas, e muitas vezes nessas conversas aprendo mais que lendo um livro. Entretanto, eu não tenho uma sala só para mim (nem gostaria de ter), e ao longo de um dia temos inúmeras distrações de pessoas entrando e saindo, mais o telefone tocando, mais aquele colega que quer fazer uma fofoca. Como uma pessoa naturalmente introvertida, poucas coisas matam mais a minha produtividade que essas pequenas distrações. Em casa geralmente há poucas pessoas, o que signifca menos distrações. E continuo tendo os fins de semana e WhatsApp para socializar.
  • Pequenas liberdades. Como falei, sou uma pessoa disciplinada, e consigo render trabalhando em casa. Isso me dá direito a certas liberdades; por exemplo, depois do almoço, posso querer ler uns capítulos de um livro que estou lendo. Eu sei que já rendi de manhã e que vou conseguir cumprimir minhas metas de tarde, então me dou esse luxo. Tiro uma hora e meia de almoço e não apenas uma hora.

Trabalhar em casa tem sido uma experiência ótima, e pretendo explorar ao máximo isso no meu futuro, sempre que possível.

Um último recado, porêm, para reforçar um ponto do Matt. Se você resolver experimentar ficar em casa, vista-se. Você está trabalhando, e você não trabalharia de pijamas e nem de bermuda de praia. Eu sou tão paranóico que às vezes entro no espírito e fico até de sapatos (para espanto da minha mãe), tamanho é o impacto psicológico.

E você leitor, trabalha em casa? Gostaria de poder fazer isso? Compartilhe nos comentários.

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Simplifique suas compras

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações, seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Eu sei que parece ridículo um estudante que mora com os pais falar de compras e finanças, mas preste atenção.

Quer você ganhe uma bolsa de R$ 500 ou um salário de R$ 20 000, o seu dinheiro ainda assim é finito. Você pode fazer o possível para viver dentro dos R$ 500, e conseguir, ou pode gastar mais que os seus R$ 20 000 e viver cheio de dívidas. Dinheiro precisa ser administrado.

Baseado nas pessoas que conheço, um dos comportamentos humanos mais previsíveis é que as pessoas sempre querem ganhar mais. Quem está satisfeito com o que ganha? Assim, quando você vê algo que quer comprar, mas não pode, surgem problemas. Você se torna infeliz no trabalho, porque ele não está lhe permitindo comprar o que você deseja. Você se torna invejoso das pessoas que ganham mais e podem (na sua cabeça) comprar tudo o que querem. Essa angústia atrapalha a sua vida, e não lhe permite viver suas prioridades; por exemplo, se você quer passar mais tempo mais com sua família, talvez não possa trabalhar tanto, mas com isso não vai ter tanto dinheiro para comprar tudo que quer. O que é mais importante para você?

Por outro lado, se você tiver dinheiro sobrando e comprar tudo que quiser, você cria outros problemas. Você não consegue mais manter seus ambientes limpos, porque precisa de lugar para guardar suas coisas. Também precisa de tempo para cuidar da manutenção de tudo, o que tira tempo das coisas que importa.

Assim, quando queremos comprar e gastar demais, nossa vida fica complicada.

A solução de Leo Babauta para isso é escapar do materialismo:

This message to continually buy, buy, buy … and that it will somehow make us happier … is drilled into our heads from the days of Happy Meals and cartoons until the day we die. It’s inescapable.

Well, almost. You could go and live in a cabin in the woods (and that actually sounds nice), or you could still live in our modern society, but find ways to escape materialism.

Não se trata aqui se fazer pregações contra o capitalismo ou algo do tipo. Como Leo diz, a solução não é ir morar na floresta, mas saber frear o nosso desejo de consumo.

Evite propagandas

O primeiro passo para gastar menos é querer gastar menos, ou melhor ainda, não querer gastar mais.

A propaganda tem um objetivo: fazer você querer comprar. Não vamos ser ingênuos e dizer que a propaganda é “a raiz de todo o mal”, e os publicitários são criaturas malvadas que querem que você gaste todo seu dinheiro por sadismo. É apenas um trabalho: alguém fabrica um produto, quer que as pessoas conheçam esse produto, e contrata outro para fazer propaganda.

E propaganda nem sempre é ruim. Se você precisa comprar uma geladeira, e abre uma revista e vê uma propaganda de algum modelo novo de geladeira, pode ficar interessado e resolver seu problema. Ou você está procurando um presente para sua mãe e vê um anúncio de promoção da sua loja preferida de cosméticos.

O problema é você criar o desejo de comprar baseado na publicidade que vê. Um produto repentinamente vai resolver um problema que você nem sabia que tinha.

É pior ainda quando você tem fraqueza por algum tipo de item e fica constatemente em contato com propagandas. Se você tem compulsão por sapatos, não deve se arriscar olhar um catálogo de sapatos, porque você vai querer comprar todos, e não vai ter dinheiro, e vai se frustrar…

Eu me considero uma pessoa de gostos simples. Não tenho fetiche por roupas, não gosto de “baladas”, gosto do meu carro simples e econômico. Como já devo ter falado algumas vezes aqui, minha fraqueza são apps (e a tecnologia em geral). Se eu não tomar cuidado, todo dinheiro que sobra vai para comprar algum aplicativo novo que saiu, e que de repente vai me ajudar a ser megaprodutivo.

Quando você se interessa por esse mundo tech, é usual seguir minhas pessoas no Twitter e muitos blogs e podcasts que vivem falando justamente dos apps e gadgets novos que saíram e mudaram a vida de “toda a gente” (saudades de Portugal).

A minha solução então foi parar de seguir essas pessoas. Se alguma pessoa só usava o Twitter para dizer “look how cool is this app“, o que basicamente inclui todos os blogueiros do mundo Apple, ela saia da minha timeline. Se um blog ou podcast é só uma longa conversa sobre apps e mais apps, eu tiro ele da minha lista.

Eu continuo gostando do assunto, mas eu não me exponho a essa propaganda frequente. Eu continuo lendo alguns blogs e acompanho o mínimo de lançamento de apps, pesquisando com calma se algum me interessa. Não quero ninguém me obrigando a comprar nada, nem me dizendo que eu preciso de uma tela Retina.

Assim, se você acha que está gastanto demais com algum item, simplesmente se afaste. Não visite aquele site de viagens que vive fazendo propaganda de mochilas, nem leia aquele revista de moda com “dicas irresistíveis”. Sempre haverá alguém dizendo que você tem de comprar. Apenas diga não.

Mantenha uma lista de desejos

As compras por impulso são as grandes inimigas, como deve ter ficado claro. E existe uma solução que também funciona surpreendemente bem, tanto que aparece em praticamente todos os livros e blogs sobre finanças pessoais.

Basicamente, você deve manter uma lista de desejos, anotando tudo que você quer comprar.

Quando você vê algo que deseja (e claro, não é um item de necessidade primária como comida), pare e anote. Dê a si mesmo um tempo para pensar naquela compra (pelo menos um mês). Se ao final desse período você concluir que tem dinheiro para comprar, e acha que o produto vai ser bom, compre. Mas pode ser que você simplesmente desista, e perceba que foi só um pensamento passageiro. Você conseguiu vencer o impulso.

Vou dizer como eu faço. Eu uso o Evernote (recomendo visitar o site do Vladimir Campos, Embaixador de Viagens do Evernote), e mantenho um caderno com tudo que quero comprar. O principal para mim, claro, são apps. Mas também marco os livros que quero comprar, até alguma roupa, algum restaurante que quero ir. Uma vez por mês, quando dou uma organizada geral nas minhas finanças, eu olho esse lista e vejo o que está há mais de um mês lá. E compro o que quero — sem impulso.

Também recomendo definir categorias para seus gastos, de onde você tire fundos para os itens da sua lista de desejos. Se algo não cabe no seu orçamento mensal, guarde um pouco por mês. Mas não crie dívidas desnecessariamente. Já falei que gosto do YNAB para gerenciar minhas finanças.

Eu sou nerd e gosto de usar essas coisas tech ( que já admiti que são uma tentação para mim) , mas você pode começar com um caderno de papel e anotar tudo que quer comprar, e criar uma planilha bem simples para seus gastos (o Gustavo Cerbasi tem um modelo que eu gostava bastante antes de usar o YNAB — procure nessa página por “Orçamento Familiar Mensal”).

Invente programas que não envolvam dinheiro

Por fim, uma pequena dica que pode ter um impacto grande. Tente se divertir sem gastar muito. Và à praia, dê uma caminhada, faça um piquenique. Veja a programação da cidade. Muitas vezes existem eventos culturais de graça, ou uma promoção de cinema. Ou simplesmente fique em casa, veja um filme, pratique suas habilidades de cozinha.

É claro que é bom sair, ir jantar num restaurante, especialmente se você está num relacionamento. Mas valorize esses momentos, escolhendo lugares bons, e aproveitando os outros momentos. Você quer a companhia da sua namorada ou apenas impressioná-la com seu dinheiro?

Conclusões

Aí está, o que fiz para escapar um pouco do materialismo. Funciona para mim, “apenas um estudante que mora com os pais”, mas como falei, não vejo como isso não é universal. Você só não pode deixar que comprar e gastar se torne uma atividade importante demais na sua vida. Simplificar é poupar nosso tempo e nossa atenção para o que realmente importa.

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Carta aos CDFs

Ei, você. Sim, você, o gordinho CDF sentado na primeira fila de carteira, quase colado no quadro-negro. O puxa-saco dos professores. Aquele de quem todo mundo cola nas provas. O que não gosta tanto assim de festas e baladas, mas vai forçado para se integrar; eu sei que você preferia ficar em casa lendo um livro. O que gosta de Física mas mata a aula de Educação Física.

Precisamos conversar. Deixe-me contar como você acha que vai ser a sua vida. E depois deixe eu dizer como vai ser de verdade.

Eu já fui assim como você. Na verdade, eu ainda sou um CDF, um nerd, só estou mais maduro e não esquento a cabeça com isso. Ainda sou tímido, ainda tenho pânico de multidões, ainda me sinto desconfortável conhecendo pessoas novas. Isso não sai de nós; o segredo é saber lidar com esses nossos defeitos.

Eu sei como você vê o seu futuro. Vai entrar em alguma profissão bem técnica — engenharia, quase certamente, ou talvez computação. Como você não gosta de fazer exercícios, vai ser sermpre obeso, tomando uma garrafa de Coca-Cola por dia e comendo chocolate no café da manhã. Na faculdade, os seus colegas vão para festas muito loucas, regadas a sertanejo universitário (na verdade, esqueça isso. Quando você entrar na faculdade a moda vai ser outra), ou qualquer gênero que você odeia. Seus amigos vão comer (perdão, fazer sexo com) a faculdade inteira, e você vai morrer virgem. Você sempre vai ser o amigo esquisito, que as pessoas vão convidar para aniversários e casamentos por pena.

Eu sei, eu sei, quando você está entrando no ensino médio, a vida parece realmente que vai ser assim. Que diabos, alguns dos seus amigos já estão transando e você mal beijou na boca. É estranho. Você é estranho.

Agora, eu tenho 25. Sou Engenheiro Mecânico formado numa Universidade Federal, quase mestre em Engenharia. Saí há 8 anos da escola, e ainda tenho contato freqüente com meus amigos — até fui convidado para ser padrinho de casamento de dois deles. Já morei em Portugal e na Alemanha. Mantenho esse blog, que já fez um ano. Estou namorando há um ano com uma menina maravilhosa que aceita as minhas nerdices frequentes. Escolhi a carreira acadêmica, e minha família me dá suporte a isso. Gosto de cozinhar, de comer, de beber, de ouvir música, de dançar (acredite se quiser, nerds também dançam).

Na faculdade conheci gente como eu, e conheci aqueles que pegavam todo mundo. Passada a faculdade, algo estranho aconteceu. Os meus amigos nerds estão muito bem — alguns casados, muitos já mestres, todos bem realizados profissionalmente. Os “baladeiros” via de regra estão sozinhos, trabalhando feito condenados em algum lugar do mundo, ganhando mais do que conseguem aproveitar no tempo disponível.

É normal você ser assim. Aceite-se. Se você não quer ir naquela festa, não vá. Vão surgir festas nas quais você vai querer ir, você só precisa achar o seu tipo. Se você não consegue se entrosar com os mais populares, deixe para lá; existem amigos feitos para você. Leia os seus livros, veja os seus filmes — aliás, aproveite enquanto você tem tempo para isso. Provavelmente você vai ficar com poucas meninas, mas quem se importa (tirando aquela tia que quer saber quando você vai deixar de ser um solteirão — aos 20)? Um dia, você vai estar fazendo algo de que gosta, na companhia dos seus amigos, e vai conhecer alguém. Relaxe.


Apenas, se me permite dar um conselho, ache um esporte. Você pode ser um nerd, só é melhor se for um nerd saudável. Eu sei que você é o pior jogador de futebol do mundo (depois de mim), mas experimente outras coisas. Tente um esporte individual, como uma corrida, ou pedaladas. Escute uma música, um podcast, ou um audiolivro. Com o tempo você se acostuma.

Confie em mim, você vai se dar bem na vida.