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Resenhas de apps

Drafts: a ferramenta perfeita de captura

Eu não gosto de dizer que eu preciso de um aplicativo ou programa para trabalhar. Não deve ser segredo aqui que tenho uma propensão ao vício em tecnologia, então eu preciso constantemente avaliar como estou usando meus apps, para ver se estou fazendo algo de útil ou apenas usando por usar.

Um iPhone pode ser um artigo de luxo ou um convite à produtividade. Conheço muitas pessoas que têm um celular de R$ 2000 para usar WhatsApp e algum jogo viciante na espera do médico; a minha cabeça de engenheiro abomina tal desperdício de tempo e dinheiro. Eu gosto de resolver problemas, e o uso de um smartphone é apenas uma extensão disso.

Um exemplo: eu gosto de passear com a minha namorada, e embora não tenha muita paciência para tirar milhões de fotos, sempre tiro algumas para deixar registrado aquele momento. Organizar as fotos em um iPhone é tedioso, difícil e ilógico; um celular naturalmente não foi feito para isso. Com esse computador de bolso, porém, é possível enviar automaticamente as fotos do iPhone com o seu computador, de maneira que você, ao chegar em casa pode organizar suas 1000 fotos sem precisar de cabos ou apertar um botão. Pergunte-me como.

Como no caso das fotos, o iPhone me facilita muitas atividade, mas eu não preciso de um para viver. Durante muito tempo eu conectei uma câmera ao computador e passei foto por foto.

Mas, num exercício hipótetico, se me fosse permitido violar minha regra, e escolher um aplicativo do qual eu realmente preciso, esse seria o Drafts.

O Drafts é basicamente um bloco de notas, com um detalhe que praticametente define esse app: quando você abre, ele te apresenta a tela branca acima, pronto para receber o seu texto. Você não precisa explicitamente criar uma nova nota ou abrir alguma já existente. Abrir o aplicativo significa criar um novo documento; uma vez no app, você pode navegar pelas suas notas.

O nobre leitor que me acompanha há algum tempo deve lembrar que revisei um livro chamado A Arte de Fazer Acontecer, que apresenta um método de produtividade e organização conhecido como GTD. Eu me concentrei mais no livro que no método em si, mas dei uma breve visão panorâmica. Escrevi:

Quando você está fazendo algo, seja relacionado ao seu trabalho (como preparar uma apresentação) ou à sua vida pessoal (como montar um armário), você se concentra nisso. Quando chega uma interrupção, você não pára e parte para outra atividade. Você anota a pendência numa caixa de entrada e continua o seu trabalho.

Esse processo de captura (como é chamado no jargão GTD) é o aspecto mais fundamental de organização. Não importa como você se organiza depois; na minha opinião, a chave de tudo é anotar tudo que chega até você.

O Drafts é a ferramenta perfeita de captura, devido à sua rapidez para criar uma nova nota. Tudo de que eu preciso me lembrar vai parar ali (tenho certeza que algumas pessoas, em especial minha namorada, devem estranhar quando tiro o iPhone do bolso por 15 segundos para escrever alguma coisa e depois volto a guardá-lo). Qualquer, absolutamente qualquer pensamento que eu tenha que não esteja relacionado ao que estou fazendo no momento vira uma nota no Drafts. Exemplos:

  • Eventos, festas, compromissos, com dia e horário (“Aniversário fulano amanhã 18:00”)
  • Ideias para textos (“Post sobre Drafts”)
  • Lembretes de tarefas para minha dissertação (“Corrigir figura no capítulo tal”)
  • Gastos (para depois eu adicionar ao YNAB) (“Mercado R$ 20,23”)
  • Pensamentos aleatórios (para depois adicionar ao meu diário)
  • Filmes que vi
  • Livros que li
  • Lista de compras para o mercado

Você poderia usar papel para isso, claro. Se você não tem smartphone, compre um caderno pequeno ou um bloquinho e tenha sempre consigo. Seu cérebro é para processar, e não para guardar. Mas o Drafts tem uma seguinda característica essencial, além da tela em branco rápida para você anotar: ações.

Uma coisa leva a outra

Vamos examinar o exemplo dos eventos. Encontro um amigo meu e ele me convida para seu aniversário. Imediatamente anoto:

Para agenda, eu uso um app muito bacana chamado Fantastical 2) (falei dele há pouco tempo). Ele não é nem de longe essencial, já que eu poderia usar a agenda nativa (ou até uma agenda de papel), mas ele tem um recurso interessante de permitir linguagem natural. Em inglês, você pode digitar uma frase exatamente como acima e ele vai entender, marcando um evento no dia especificado.

O Fantastical também tem um recurso avançado chamado esquema URL. Não se preocupe em saber o que é isso, apenas entenda que é uma maneira, no iPhone, de um aplicativo chamar outro. O Drafts também suporta esquemas URL, e isso permite criar ações. Eu tenho uma chamada “New Event” (gosto de configurar meus apps em inglês para treinar e porque não gosto das traduções que geralmente encontro), que pega esse texto do Drafts e manda para o Fantastical processar (lembrando que ele entende esta linguagem natural).

Após clicar nessa ação, e esperar os dois apps se falarem, como resultado, eu tenho um evento marcado na minha agenda. Tudo que eu fiz foi anotar, numa linguagem bem simples, e depois clicar num botão dentro do próprio Drafts.

Para montar essas ações, não se asuste com a complexidade. Existem muitos recursos que ensinam você a fazer isso e é possível encontrar muitas ações prontas; no próprio aplicativo, é possível ir até um diretório e procurar alguma coisa que você queira. Eu mesmo ainda estou aprendendo.

Todo dia eu faço tudo sempre igual

Rotinas ajudam a ligar o processo de captura com as ações. Ao longo do dia, eu já desenvolvi o hábito de anotar tudo; e, no fim da tarde, tenho uma rotina de processar essas notas. Para algumas, existem essas ações automáticas: mandar para o calendário, mandar para o meu gerenciador de tarefas, criar nova entrada no diário. Para outras ainda preciso copiar manualmente (o YNAB, por exemplo, não tem esquemas URL).

Se não tem smartphone, use um caderno. Se você tem Android, procure um aplicativo similar. E se tem iPhone, considere comprar o Drafts. Poder rapidamente anotar alguma coisa, e saber que após algum tempo essa informação estará no lugar certo, é a base do meu sistema de organização.

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Um calendário para minha namorada

Aqui vai uma pequena dica de produtividade que comecei a testar recentemente e tem dado muitos bons resultados. Muitos programas de calendário, em especial o Google Calendar e o calendário do iCloud (o serviço que iPhones, iPads e Macs usam) permitem definir múltiplos calendários. Muitas pessoas recomendam então criar calendários baseado nas suas atividades, como um calendário para seus compromissos pessoais e outros para os de trabalho; a Bia Kunze inclusive recomendou isso num episódio recente (e excelente) do seu podcast.

Para mim isso não faz sentido. Eu tenho múltiplas áreas de responsabilidade, mas sou uma pessoa só. Se tenho uma consulta médica e uma reunião no mesmo horário, de que adianta marcar em dois calendários diferentes? Pode ser por eu não ter um “emprego” propriamente dito, mas não consigo me adaptar a esse raciocício. Durante uma semana eu tenho alguns compromissos, alguns são de família, outros são relacionados ao meu mestrado, outros são meus, mas tenho de atender a todos (caso contrário eles não estariam na minha agenda). Por isso, a ideia de múltiplos calendários nunca fez sentido. Até agora.

Recentemente passei por um quase problema. A minha namorada está envolvida em uma atividade profissional que envolve viagens a outra cidade em alguns dias específicos. Fui marcar com o meu orientador a data da minha defesa de mestrado, olhei no meu calendário e não havia nada no dia sugerido por ele; depois, porém, ao conversar com minha namorada, descobri que é um dia em que ela estará viajando. Como para mim é muito importante que ela esteja na minha defesa, existe uma falha na minha organização; se ela precisa estar presente em algum evento meu, eu preciso saber em que dias ela está livre, e não apenas eu. A tecnologia está dando uma informação falsa pra mim, e isto é inadmissível.

A solução foi definir um calendário para a minha namorada. Naturalmente que não marco todos os compromissos dela (isso seria assustador), mas marco os eventos importantes, como estas viagens. Nesses dias, embora eu esteja livre para os meus compromissos (consultas médicas, reuniões, levar o carro na oficina), não posso assumir compromissos que envolvam ela, como a dita defesa, ou festas, ou jantares. E é aí que o conceito de múltiplos calendários faz sentido.

Fantastical 2 multiple calendars

Viu? Os pontos em azul mostram o meu calendário (que é o padrão), e os em laranja os compromissos dela. Quando preciso marcar algo, tenho uma visão muito mais completa.

Um exemplo muito prático da tecnologia servindo a mim e não o contrário.

A propósito, o screenshot acima é do excelente Fantastical 2.

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Foco e Ergonomia

Tem havido uma grande quantidade de textos falando do iPad como ferramenta de trabalho, incluindo um livro. O assunto aparece em podcasts também: Alexandre Costa recentemente falou de com usa o apenas o iPad para fazer seus podcasts, o que é um feito considerável.

Um iPad é mais leve, mais portátil, mais barato e quase tão capaz quanto um computador tradicional, mas o ponto principal desse tipo de análise é geralmente o foco. Com uma tela pequena, você só pode se concentrar em um programa por vez, forçando-o a fazer escolhas. Você não pode acomodar do lado da sua janela principal uma janela para o Twitter, ou chat, ou Facebook. Distraction-free é a expressão da moda.

Apesar de não ser sobre o iPad, Matt Gemmell publicou um texto excelente na mesma linha, dizendo que o seu MacBook Air é uma ferramente muito melhor de trabalhar que seu iMac. O segredo é usar a sua tela pequena da maneira certa, criando um arranjo eficiente de janelas e usando bem o teclado (confira também esse texto seu sobre atalhos de teclado no Mac).

Para o meu tipo de uso do computador, porém, foco não quer dizer muita coisa. Como Dr. Drang falou:

Which brings us to the type of writing being done. I don’t write fiction, but I can imagine that a lot of fiction writing can be done without any reference materials whatsoever. Similarly, a lot of editorials and opinion pieces are remarkably fact-free; these also can spring directly from the writer’s head. But the type of writing I typically do—mostly for work, but also here—is loaded with facts. I am constantly referring to photographs, drawings, experimental test results, calculations, reports written by others, textbooks, journal articles, and so on. These are not distractions; they are essential to the writing process.

Meu setup atual

Meu setup atual (lembrando que trabalho em casa) é um MacBook Pro 13”, sobre um suporte, conectado a um monitor de 24”. É muito espaço de tela, mas não é um convite para distração. Edito minha dissertação com um artigo do lado, para que eu possa fazer uma citação. Escrevo algum programa com uma janela do Safari ao lado para eu consultar alguma documentação. No monitor auxiliar, do próprio MacBook, eu mantenho uma janela do Rdio, para poder controlar minhas músicas, e às vezes uma janela do Finder para eu fazer alguma manipulação de arquivos. O espaço extra que eu tenho tem utilidade. Veja como está minha tela agora mesmo, com esse texto do lado esquerdo (escrito em Markdown) e uma visualização do lado direito:

byword-marked

Para pessoas como eu, um iPad não pode ser uma ferramenta de trabalho. A restrição de um programa por janela é claramente uma desvantagem, uma restição, e não um “convite ao foco”.

Mas não é sobre foco que eu quero falar, e sim sobre dor na coluna.


Durante muito tempo, eu usei meu MacBook exclusivamente puro, sem monitor externo. Há muito o que gostar: a tela é de alta qualidade, o teclado é excelente (tirando que você tem de se acostumar com o padrão americano), já tem câmera e microfone embutido.

O problema é isso:

ergonomics-notebook

(Você também pode ver como um engenheiro desenha e porque precisamos de arquitetos e designers.)

Como resultado do conjunto disso e de anos de má postura em geral, eu estou tendo de fazer Reeducação Postural Global. E por isso que hoje eu não abro mão de ter um monitor grande. Eu cheguei a trabalhar com o notebook sobre um suporte apenas; você não precisa manter o pescoço tão inclinado, mas esse setup não é ideal porque uma tela de 13” meio que é feita para você ver de perto.

Quando tenho de levar o MacBook para algum lugar, para algum trabalho temporário, ele é portável. Eu consigo trabalhar por algumas poucas horas na sua tela pequena. Mas no dia-a-dia, trabalhando efetivamente, eu não posso me dar ao luxo de ficar com o pescoço torto o dia inteiro.
Eu ainda uso meu iPad ocasionalmente, para ler os blogs que acompanho, para fazer anotações na minha dissertação, para fazer alguma pesquisa rápida, ou alguma anotação no meu diário, especialmente quando meu computador está desligado, mas são períodos curtos.

Eu fico me perguntando se daqui a alguns anos vamos ter uma nova epidemia de problemas na coluna, em virtude de todas essas pessoas que trabalham com um iPad. Depois de anos de pesquisa, conseguimos criar o setup ideal, e estamos ignorando tudo que aprendemos.

Eu tenho uma obrigação com o meu futuro eu, com a minha saúde, de estar olhando para uma tela grande — e não para perder o foco, mas para ganhar ergonomia.

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Resenhas de livros

Resenha: The Information Diet

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações, seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Eu já falei aqui de simplificar nosso consumo de informação, mas reconhecidamente fui bastante superficial. Sete meses depois de publicar aquele texto, eu me sinto bombardeado de novo pela quantidade de coisas a ler, ver, escutar e processar. Gosto de ler blogs, escutar a podcasts, ler romances, ler livros de não-ficção. Como achar tempo para tudo isso, e mais importante, para fazer outras coisas além disso?

Foi no blog da Luana Oliveira que notei pela primeira vez o termo dieta da informação, e fiquei bastante interessado. À época, eu já estava sentindo dificuldades de acompanhar tudo, e claro, eu achava que tinha de estar por dentro de tudo. Comecei a simplificar um pouco, lendo menos blogs, abrindo menos o site do jornal, e já não me preocupava mais com esse problema de primeiro mundo.

Mas isso é um vício. Eu leio um artigo em um blog, ele cita outro autor e de repente eu quero ler todos os artigos desse outro blog — e é mais uma coisa a acompanhar. Ou eu quero seguir todo mundo no Twitter, porque vai que alguém diz alguma coisa interessante e eu perdi? E aquela pausa de 5 minutos para ver as notícias, que se transformam em meia hora para saber tudo de um assunto.

Eu não quero isso. Não quero checar o Twitter a cada vez que volto do banheiro. Quero poder sentar com calma e ler todos os meus blogueiros favoritos, pensando sobre o que eles escreveram. Quero voltar a ler romances, um prazer que sempre esteve presente na minha vida e que andava esquecido.

Depois de pensar e pesquisar sobre essa saturação de informação, descobri um livro apropriadamente chamado The Information Diet, de Clay A. Johnson (que, relendo o texto da Luana, vi que ela também mencionou) e, através do O’Reilly Reader Review Program, resolvi lê-lo e ver se aprendo alguma coisa. Um primeiro passo, para criar um plano e gerenciar melhor a informação que consumo

Um aviso: essa resenha se baseia na versão em inglês, mas existe uma tradução em português.

Obesidade de informação

A tese central do livro é uma analogia entre consumo de informação e consumo de comida. Pelo menos nas sociedades “desenvolvidas” (sejá lá o que isso signifique), a obesidade é um problema maior que a fome, principalmente porque existe comida farta de má qualidade: gordura e açúcar, alimentos que evolutivamente aprendemos a gostar, são muito baratos de fabricar e entopem grande parte da comida industrialzada.

Da mesma forma, consumimos informação recheada de publicidade, sensacionalismo e sem checagem básica de fatos, que se tornou barata de produzir e não tem valor algum.

O autor trabalhou durante muito tempo com política americana, e criou a empresa que organizou a bem-sucedida campanha de Barack Obama em 2008. Seu trabalho sempre envolveu os conceitos de transparência e transmissão de informação. E percebeu que, mesmo com todo esse esforço, muitas pessoas não tinham ideia do que falavam. Queriam que o governo “tirasse as mãos” de um programa que é governamental; elas não tinham pouca informação, pois conheciam o programa, mas estavam informadas da maneira errada. Sofriam de obesidade de informação.

A noção de que seu trabalho estava sendo inútil fez com o autor pesquisasse mais sobre o assunto. Por onde os dados sobre um programa criado e mantido pelo governo se desviavam até formar na cabeça de pessoas cultas a opinião de o governo não deveria se meter no tal programa, como se ele tivesse chegado depois e estragado tudo?

A experiência política do autor se faz presente em todo o texto, e isso é o grande problema do livro.

Um dos conceitos que o autor apresenta é de agnotologia (a melhor tradução que encontrei para agnotology, embora existam poucos resultados relevantes no Google), ou o “estudo da dúvida induzida culturamente”. O autor usa como exemplo os “estudos” patrocinados por empresas petrolíferas pondo em dúvida o aquecimento global. É um ótimo assunto, terreno de muito debate científico — mas logo em seguida, Johnson apresenta as porcentagens de Republicanos e Democratas que acreditam em cada lado. O que isso acrescenta ao texto?

Fala também dos filtros que as empresas como Google e Facebook incorporam nos seus serviços, alegando que isso só faz que com acompanhemos pessoas e páginas “com as mesmas crenças políticas”. Para mim, filtrar a News Feed por critérios políticos é o menor dos problemas do Facebook.

Estar mal informado sobre política é um grande problema, com certeza, e uma dieta de informação saudável envolve acompanhar o que acontece na sua cidade de maneira imparcial — mas não é o único problema. Como falei no início do texto, eu consumo informação de diversas fontes (e acho que não sou o único), e esperava que o livro fosse mais geral. Por exemplo, parece que “ver TV” se resume basicamente a “ver programas de notícias”. Twitter e email são apenas brevemente mencionados, como se nem fizessem parte do problema de consumo de informação.

O que eu gostei

No geral o livro me decepcionou por falar demais em política, mas não significa que não aprendi nada. The Information Diet tem três partes; a segunda, homônima ao livro, é a que apresenta um plano para um consumo de informação. Algumas ideias me chamaram a atenção:

  • Se você quer saber mais sobre algum assunto, aprenda a pesquisar. Aquilo que você vê no Jornal Nacional é apenas uma parte, uma visão. E só porque todo mundo compartilhou uma notícia no Facebook não significa que ela é verdadeira.
  • Precisamos exercitar a atenção, treinar nossa mente a focar no que importa. Escrever aquele trabalho vendo televisão não é fisicamente possível.
  • Precisamos ser mais ativos e menos reativos. Isso significa principalmente parar de usar notificações dos smartphones.
  • Vamos tentar evitar ao máximo as fontes que contém propagandas, pois elas poluem visualmente as páginas e geralmente contaminam o que o autor quer dizer (ninguém vai dar sua opinião sincera sobre uma marca que patrocina o seu trabalho)
  • O autor dá a sugestão (que eu já vinha experimentando) de criar uma “agenda” para consumo de informação, como um horário delimitado para ver TV, outro para ler email etc.

Eu vou reler essa segunda parte, e tentar adaptar essas ideias à minha realidade. E provavelmente, pesquisar mais sobre o assunto. Aguardem.

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Por que trabalhar em casa

Matt Gemmell escreveu um texto bastante interessante sobre o assunto cada vez mais discutido de “trabalhar em casa”, falando dos cuidados que se tem de ter, dicas para um melhor rendimento etc.

Eu não vou aqui fazer um texto semelhante porque enfim, ele disse muito bem o que penso. O meu objetivo é discutir por quê eu gosto de trabalhar em casa.

Vamos primeiro começar com a natureza do meu “trabalho”. Quem segue esse site deve saber, mas para os outros, no momento sou estudante de mestrado, agora em fase de conclusão. Minha tarefa primária é escrever a minha dissertação, o que envolve não apenas digitar mas todo o processo por trás — fazer figuras, rever artigos e livros para colocar a referência certa, consultar as normas para rever a formatação, ler e reler à procura de erros. Também estou criando programas de computador para fazer os cálculos de que preciso para reforçar as minhas conclusões.

Para a grande parte dessas atividades eu preciso apenas de um computador. Meu trabalho envolve uma parte experimental, de laboratório, mas isto felizmente já foi concluído. Eu também dependo de poucos pessoas, e não faço parte de nenhuma “equipe”, pelo menos não no sentido corporativo. Troco emails com meu orientador e com alguns colegas.

Meu ponto principal é que posso trabalhar em casa. Também poderia levar o meu computador para a universidade, ou usar o de lá. Vamos analisar por que prefiro a primeira opção.

  • Trabalhar em casa é economizar dinheiro. Primeiro, há o custo de ônibus ou da gasolina; depois, a alimentação. O restaurante universitário da UFSC não está funcionando (além da comida ser péssima), e os preços praticados pelos restaurantes da região são muito altos — apesar de serem muito mais baratos que em outras regiões. Estou cada vez mais convencido de que, a não ser que você tenha um bom vale-alimentação, comer fora virou atividade de luxo. Para piorar, o laboratório onde trabalho tem uma política de não permitir que as pessoas levem almoço — temos muito a aprender com a Europa em alguns aspectos.
  • Ficando em casa, eu não preciso pegar trânsito. Já se tornou rotina demorar uma hora e meia num trecho em que há dois anos demoraria 20 minutos. Já passei da idade de discutir política, e não vou aqui fazer um longo discurso sobre carros e transporte público. O trânsito é ruim; não precisar encarar isso todo dia é uma economia de tempo e um alívio mental.
  • Eu me considero uma pessoa bastante disciplinada. Eu não sofro tentanções em tirar uma soneca ou ver Friends só porque não tem ninguém olhando (por isso não vejo razão para seguir as dicas de Matt Gemmell e instalar programas que bloqueiam diversos sites). Se é para trabalhar, vamos trabalhar. Ainda mais porque meu trabalho só interessa a mim; se eu ficar deitado o dia todo, eu não vou ser demitido, mas vou perder o prazo e não ser aprovado.
  • Um ambiente de trabalho é um ambiente social, e como tal as pessoas querem socializar. Eu adoro conversar com meus colegas, e muitas vezes nessas conversas aprendo mais que lendo um livro. Entretanto, eu não tenho uma sala só para mim (nem gostaria de ter), e ao longo de um dia temos inúmeras distrações de pessoas entrando e saindo, mais o telefone tocando, mais aquele colega que quer fazer uma fofoca. Como uma pessoa naturalmente introvertida, poucas coisas matam mais a minha produtividade que essas pequenas distrações. Em casa geralmente há poucas pessoas, o que signifca menos distrações. E continuo tendo os fins de semana e WhatsApp para socializar.
  • Pequenas liberdades. Como falei, sou uma pessoa disciplinada, e consigo render trabalhando em casa. Isso me dá direito a certas liberdades; por exemplo, depois do almoço, posso querer ler uns capítulos de um livro que estou lendo. Eu sei que já rendi de manhã e que vou conseguir cumprimir minhas metas de tarde, então me dou esse luxo. Tiro uma hora e meia de almoço e não apenas uma hora.

Trabalhar em casa tem sido uma experiência ótima, e pretendo explorar ao máximo isso no meu futuro, sempre que possível.

Um último recado, porêm, para reforçar um ponto do Matt. Se você resolver experimentar ficar em casa, vista-se. Você está trabalhando, e você não trabalharia de pijamas e nem de bermuda de praia. Eu sou tão paranóico que às vezes entro no espírito e fico até de sapatos (para espanto da minha mãe), tamanho é o impacto psicológico.

E você leitor, trabalha em casa? Gostaria de poder fazer isso? Compartilhe nos comentários.

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Simplifique suas compras

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações, seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Eu sei que parece ridículo um estudante que mora com os pais falar de compras e finanças, mas preste atenção.

Quer você ganhe uma bolsa de R$ 500 ou um salário de R$ 20 000, o seu dinheiro ainda assim é finito. Você pode fazer o possível para viver dentro dos R$ 500, e conseguir, ou pode gastar mais que os seus R$ 20 000 e viver cheio de dívidas. Dinheiro precisa ser administrado.

Baseado nas pessoas que conheço, um dos comportamentos humanos mais previsíveis é que as pessoas sempre querem ganhar mais. Quem está satisfeito com o que ganha? Assim, quando você vê algo que quer comprar, mas não pode, surgem problemas. Você se torna infeliz no trabalho, porque ele não está lhe permitindo comprar o que você deseja. Você se torna invejoso das pessoas que ganham mais e podem (na sua cabeça) comprar tudo o que querem. Essa angústia atrapalha a sua vida, e não lhe permite viver suas prioridades; por exemplo, se você quer passar mais tempo mais com sua família, talvez não possa trabalhar tanto, mas com isso não vai ter tanto dinheiro para comprar tudo que quer. O que é mais importante para você?

Por outro lado, se você tiver dinheiro sobrando e comprar tudo que quiser, você cria outros problemas. Você não consegue mais manter seus ambientes limpos, porque precisa de lugar para guardar suas coisas. Também precisa de tempo para cuidar da manutenção de tudo, o que tira tempo das coisas que importa.

Assim, quando queremos comprar e gastar demais, nossa vida fica complicada.

A solução de Leo Babauta para isso é escapar do materialismo:

This message to continually buy, buy, buy … and that it will somehow make us happier … is drilled into our heads from the days of Happy Meals and cartoons until the day we die. It’s inescapable.

Well, almost. You could go and live in a cabin in the woods (and that actually sounds nice), or you could still live in our modern society, but find ways to escape materialism.

Não se trata aqui se fazer pregações contra o capitalismo ou algo do tipo. Como Leo diz, a solução não é ir morar na floresta, mas saber frear o nosso desejo de consumo.

Evite propagandas

O primeiro passo para gastar menos é querer gastar menos, ou melhor ainda, não querer gastar mais.

A propaganda tem um objetivo: fazer você querer comprar. Não vamos ser ingênuos e dizer que a propaganda é “a raiz de todo o mal”, e os publicitários são criaturas malvadas que querem que você gaste todo seu dinheiro por sadismo. É apenas um trabalho: alguém fabrica um produto, quer que as pessoas conheçam esse produto, e contrata outro para fazer propaganda.

E propaganda nem sempre é ruim. Se você precisa comprar uma geladeira, e abre uma revista e vê uma propaganda de algum modelo novo de geladeira, pode ficar interessado e resolver seu problema. Ou você está procurando um presente para sua mãe e vê um anúncio de promoção da sua loja preferida de cosméticos.

O problema é você criar o desejo de comprar baseado na publicidade que vê. Um produto repentinamente vai resolver um problema que você nem sabia que tinha.

É pior ainda quando você tem fraqueza por algum tipo de item e fica constatemente em contato com propagandas. Se você tem compulsão por sapatos, não deve se arriscar olhar um catálogo de sapatos, porque você vai querer comprar todos, e não vai ter dinheiro, e vai se frustrar…

Eu me considero uma pessoa de gostos simples. Não tenho fetiche por roupas, não gosto de “baladas”, gosto do meu carro simples e econômico. Como já devo ter falado algumas vezes aqui, minha fraqueza são apps (e a tecnologia em geral). Se eu não tomar cuidado, todo dinheiro que sobra vai para comprar algum aplicativo novo que saiu, e que de repente vai me ajudar a ser megaprodutivo.

Quando você se interessa por esse mundo tech, é usual seguir minhas pessoas no Twitter e muitos blogs e podcasts que vivem falando justamente dos apps e gadgets novos que saíram e mudaram a vida de “toda a gente” (saudades de Portugal).

A minha solução então foi parar de seguir essas pessoas. Se alguma pessoa só usava o Twitter para dizer “look how cool is this app“, o que basicamente inclui todos os blogueiros do mundo Apple, ela saia da minha timeline. Se um blog ou podcast é só uma longa conversa sobre apps e mais apps, eu tiro ele da minha lista.

Eu continuo gostando do assunto, mas eu não me exponho a essa propaganda frequente. Eu continuo lendo alguns blogs e acompanho o mínimo de lançamento de apps, pesquisando com calma se algum me interessa. Não quero ninguém me obrigando a comprar nada, nem me dizendo que eu preciso de uma tela Retina.

Assim, se você acha que está gastanto demais com algum item, simplesmente se afaste. Não visite aquele site de viagens que vive fazendo propaganda de mochilas, nem leia aquele revista de moda com “dicas irresistíveis”. Sempre haverá alguém dizendo que você tem de comprar. Apenas diga não.

Mantenha uma lista de desejos

As compras por impulso são as grandes inimigas, como deve ter ficado claro. E existe uma solução que também funciona surpreendemente bem, tanto que aparece em praticamente todos os livros e blogs sobre finanças pessoais.

Basicamente, você deve manter uma lista de desejos, anotando tudo que você quer comprar.

Quando você vê algo que deseja (e claro, não é um item de necessidade primária como comida), pare e anote. Dê a si mesmo um tempo para pensar naquela compra (pelo menos um mês). Se ao final desse período você concluir que tem dinheiro para comprar, e acha que o produto vai ser bom, compre. Mas pode ser que você simplesmente desista, e perceba que foi só um pensamento passageiro. Você conseguiu vencer o impulso.

Vou dizer como eu faço. Eu uso o Evernote (recomendo visitar o site do Vladimir Campos, Embaixador de Viagens do Evernote), e mantenho um caderno com tudo que quero comprar. O principal para mim, claro, são apps. Mas também marco os livros que quero comprar, até alguma roupa, algum restaurante que quero ir. Uma vez por mês, quando dou uma organizada geral nas minhas finanças, eu olho esse lista e vejo o que está há mais de um mês lá. E compro o que quero — sem impulso.

Também recomendo definir categorias para seus gastos, de onde você tire fundos para os itens da sua lista de desejos. Se algo não cabe no seu orçamento mensal, guarde um pouco por mês. Mas não crie dívidas desnecessariamente. Já falei que gosto do YNAB para gerenciar minhas finanças.

Eu sou nerd e gosto de usar essas coisas tech ( que já admiti que são uma tentação para mim) , mas você pode começar com um caderno de papel e anotar tudo que quer comprar, e criar uma planilha bem simples para seus gastos (o Gustavo Cerbasi tem um modelo que eu gostava bastante antes de usar o YNAB — procure nessa página por “Orçamento Familiar Mensal”).

Invente programas que não envolvam dinheiro

Por fim, uma pequena dica que pode ter um impacto grande. Tente se divertir sem gastar muito. Và à praia, dê uma caminhada, faça um piquenique. Veja a programação da cidade. Muitas vezes existem eventos culturais de graça, ou uma promoção de cinema. Ou simplesmente fique em casa, veja um filme, pratique suas habilidades de cozinha.

É claro que é bom sair, ir jantar num restaurante, especialmente se você está num relacionamento. Mas valorize esses momentos, escolhendo lugares bons, e aproveitando os outros momentos. Você quer a companhia da sua namorada ou apenas impressioná-la com seu dinheiro?

Conclusões

Aí está, o que fiz para escapar um pouco do materialismo. Funciona para mim, “apenas um estudante que mora com os pais”, mas como falei, não vejo como isso não é universal. Você só não pode deixar que comprar e gastar se torne uma atividade importante demais na sua vida. Simplificar é poupar nosso tempo e nossa atenção para o que realmente importa.

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Carta aos CDFs

Ei, você. Sim, você, o gordinho CDF sentado na primeira fila de carteira, quase colado no quadro-negro. O puxa-saco dos professores. Aquele de quem todo mundo cola nas provas. O que não gosta tanto assim de festas e baladas, mas vai forçado para se integrar; eu sei que você preferia ficar em casa lendo um livro. O que gosta de Física mas mata a aula de Educação Física.

Precisamos conversar. Deixe-me contar como você acha que vai ser a sua vida. E depois deixe eu dizer como vai ser de verdade.

Eu já fui assim como você. Na verdade, eu ainda sou um CDF, um nerd, só estou mais maduro e não esquento a cabeça com isso. Ainda sou tímido, ainda tenho pânico de multidões, ainda me sinto desconfortável conhecendo pessoas novas. Isso não sai de nós; o segredo é saber lidar com esses nossos defeitos.

Eu sei como você vê o seu futuro. Vai entrar em alguma profissão bem técnica — engenharia, quase certamente, ou talvez computação. Como você não gosta de fazer exercícios, vai ser sermpre obeso, tomando uma garrafa de Coca-Cola por dia e comendo chocolate no café da manhã. Na faculdade, os seus colegas vão para festas muito loucas, regadas a sertanejo universitário (na verdade, esqueça isso. Quando você entrar na faculdade a moda vai ser outra), ou qualquer gênero que você odeia. Seus amigos vão comer (perdão, fazer sexo com) a faculdade inteira, e você vai morrer virgem. Você sempre vai ser o amigo esquisito, que as pessoas vão convidar para aniversários e casamentos por pena.

Eu sei, eu sei, quando você está entrando no ensino médio, a vida parece realmente que vai ser assim. Que diabos, alguns dos seus amigos já estão transando e você mal beijou na boca. É estranho. Você é estranho.

Agora, eu tenho 25. Sou Engenheiro Mecânico formado numa Universidade Federal, quase mestre em Engenharia. Saí há 8 anos da escola, e ainda tenho contato freqüente com meus amigos — até fui convidado para ser padrinho de casamento de dois deles. Já morei em Portugal e na Alemanha. Mantenho esse blog, que já fez um ano. Estou namorando há um ano com uma menina maravilhosa que aceita as minhas nerdices frequentes. Escolhi a carreira acadêmica, e minha família me dá suporte a isso. Gosto de cozinhar, de comer, de beber, de ouvir música, de dançar (acredite se quiser, nerds também dançam).

Na faculdade conheci gente como eu, e conheci aqueles que pegavam todo mundo. Passada a faculdade, algo estranho aconteceu. Os meus amigos nerds estão muito bem — alguns casados, muitos já mestres, todos bem realizados profissionalmente. Os “baladeiros” via de regra estão sozinhos, trabalhando feito condenados em algum lugar do mundo, ganhando mais do que conseguem aproveitar no tempo disponível.

É normal você ser assim. Aceite-se. Se você não quer ir naquela festa, não vá. Vão surgir festas nas quais você vai querer ir, você só precisa achar o seu tipo. Se você não consegue se entrosar com os mais populares, deixe para lá; existem amigos feitos para você. Leia os seus livros, veja os seus filmes — aliás, aproveite enquanto você tem tempo para isso. Provavelmente você vai ficar com poucas meninas, mas quem se importa (tirando aquela tia que quer saber quando você vai deixar de ser um solteirão — aos 20)? Um dia, você vai estar fazendo algo de que gosta, na companhia dos seus amigos, e vai conhecer alguém. Relaxe.


Apenas, se me permite dar um conselho, ache um esporte. Você pode ser um nerd, só é melhor se for um nerd saudável. Eu sei que você é o pior jogador de futebol do mundo (depois de mim), mas experimente outras coisas. Tente um esporte individual, como uma corrida, ou pedaladas. Escute uma música, um podcast, ou um audiolivro. Com o tempo você se acostuma.

Confie em mim, você vai se dar bem na vida.

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Vou dar uma caminhada

Todos os dias, uma vez de manhã e uma vez pela tarde, eu dou uma caminhada de 15 minutos pela UFSC.

Esse é um dos hábitos mais fundamentais do meu dia de trabalho, de tal maneira que quando está chovendo e eu não consigo caminhar, eu começo a me sentir mal, como se algo estivesse errado — como se tivesse faltado água em casa e eu não pudesse tomar banho, e eu fico me sentindo sujo o dia inteiro.

Por que eu faço isso?

Não lembro como começou, mas provavelmente foi aos poucos. Em um certo dia, eu estava trabalhando em algo intelectualmente intenso, como programação, ou leitura de algum artigo, ou escrita da minha dissertação. Depois de duas horas fazendo isso, a cabeça começa a ferver, o olho fica cansado, você não consegue nem raciocinar direito. Estava um dia bonito, então pensei, “vou dar uma caminhada”. Coisa simples: pôr o fone de ouvido, uma música boa, respirar ar puro, ir até a biblioteca e voltar. Senti-me relaxado, e depois voltei ao trabalho com foco renovado.

No dia seguinte, retomei a tarefa cansativa, e resolvi repetir a experiência. No outro dia também. Depois de um tempo, vira uma rotina: depois de duas ou três horas de trabalho intenso, eu saio para minha caminhada.

Aos poucos, eu comecei a perceber mais benefícios diretos. Para começar, é uma maneira de ficar em pé, e estamos morrendo de tanto ficar sentados. Como diz o Dr. Drauzio Varella:

Se o corpo humano fosse projetado para os usos de hoje, para que pernas tão compridas e braços tão longos? Se é só para ir de um assento a outro, elas poderiam ter metade do comprimento. Se os braços servem apenas para alcançar o teclado do computador, para que antebraços? Seríamos anões de membros atrofiados, mas com um traseiro enorme, acolchoado, para nos dar conforto nas cadeiras.

Essas pausas para uma caminhada também ajuda a marcar a transição entre uma atividade e outra: eu leio, caminho, e depois escrevo. É um sinal para o cérebro que eu mudando de contexto.


E o tempo perdido? Por acaso eu não tenho prazos?

Esse tipo de crítica parte do pressuposto que, se eu não estivesse caminhando, eu estaria trabalhando com foco total, o que não é verdade. Depois de horas pondo o cérebro pra funcionar, eu preciso de um descanso, preciso relaxar. Se eu não estivesse caminhando, eu estaria olhando para a tela do computador, sem ter ideia do que escrever a seguir, de tão exausto. Ou estaria no YouTube, ou no Twitter. Certamente não poderia continuar a trabalhar no mesmo ritmo.

A nossa concentração é finita. Todo mundo adora ver filmes, mas um filme de três horas não é mais cansativo que um de uma hora e meia? Se você ler o seu livro favorito por cinco horas, no final da tarde vai estar tendo dificuldades até de focalizar na leitura.

Todos precisamos de pausa. É por isso que dormimos.

Vejo muitas pessoas atacando isso com aquela espiada no Facebook “ocasional” que dura meia hora. Eu tento fazer isso de maneira estruturada. Há algums anos, descobri a técnica Pomodoro, que estipula isso: alterne períodos de descanso e foco. Ponha um despertador e diga “na próximo meia hora vou me engajar nessa dissertação e em nada mais”. Quando o despertador tocar, levante, tome uma água, deixe o seu cérebro absorver o que você acabou de escrever. Repita. De vez em quando, faça uma pausa mais longa. É aí que faço minhas caminhadas.

Se você tem dificuldades de concentração, experimente isso. Concentre-se o máximo que puder e, quando não consiguir mais, pare, dê uma volta. Caminhe. Quando sentir que isso está funcionando, leia o livro grátis da técnica e melhore o seu dia de trabalho.

Certamente melhorou o meu.

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Como melhorei meu sono

Desde que me lembro, eu durmo mal. Demorar para dormir depois de deitar, acordar no meio da noite sem sono nenhum, acordar antes de todo mundo nos fins de semana eram situações bem comuns para mim quando criança.

O problema não é dormir pouco, dormir menos de um certo número de horas, e sim dormir menos que o necessário individualmente. E eu muitas vezes dormia pouco, mas acordava bem; tinha descansado o suficiente. Em outras, porém, eu sentia a falta de sono. Eu acordava de madrugada, sem nenhuma razão aparente, e não conseguia mais dormir, mesmo me sentindo cansado. A isso é somada uma tensão psicológica: eu me forçava a dormir, já com raiva antecipada por ter de acordar em alguma horas e estar perdendo tempo de sono, e por isso não conseguia relaxar o necessário. É como se a insônia gerasse mais insônia.

No fim do ano passado, em função provavelmente de um aumento nas minhas atividades do mestrado, essa situação começou a ficar mais crítica. De tão cansado, eu até dormia bastante, mas dormia mal. Isso começou a afetar o meu rendimento, o meu humor, a minha saúde. Por isso, dei um basta. Resolvi que deveria fazer da melhoria do meu sono um projeto ativo. Pesquisei muitos artigos, testei diferentes técnicas, e os resultados foram muito positivos. Hoje, alguns meses depois de começar esses experimentos, ainda tenho algumas noites ruins, mas posso dizer que durmo muito melhor. O sono, felizmente, não é mais um problema para mim.

O que segue é um relato de como melhorei meu sono. Não é recomendação médica; se você sente algum problema de saúde que acha que pode ser decorrente do sono, procure um médico. O que fiz foi adquirir uma série de hábitos simples, sem grandes impactos, que em conjunto contribuíram para melhorar meu sono.

Descaifenado

A maior melhora que tive no sono foi depois de abandonar um hábito em particular.

Eu parei de tomar café após o meio dia.

Estudantes tomam muito café. É um estimulante, é gostoso e é um incentivador natural de conversas. Porém, é fácil o hábito sair de controle e você, como eu, pode começar a beber café quase como água. Eu costumava tomar uma xícara de café de manhã, geralmente outra no meio da manhã, uma depois do almoço e outra no meio da tarde. É uma quantidade monstruosa de cafeína (que fica mais de 12 horas no organismo).

Troquei a quantidade pela qualidade. Tomo uma xícara (não cheia) de café de manhã (e preparado com cuidado, não um monte de água quente sobre um pouco de café solúvel). Essa xícara, tomada com calma, é um momento importante do dia; é um preparativo para o dia que começa, ajuda-me a acordar, aquece no inverno e me estimula a trabalhar concentrado nas primeiras horas da manhã, sob os efeitos benéficos da cafeína.

Há quatro meses, não tomo nada de café depois do almoço. E há quatro meses comecei a dormir muito melhor.

De minha experiência, percebi que tomar café era mais um hábito impensado, um vício, que uma necessidade. Acredite em mim: depois de um tempo, você não vai ficar mais sonolento se deixar de tomar café. Se você está constantemente com sono, alguma coisa está errada, e tomar café praticamente como um remédio só vai mascarar seu problema!

Observe o seu consumo de café. É a primeira coisa que você pode fazer se quiser dormir melhor.

Outras mudanças

Além da redução de cafeína, adotei uma série de atitudes que contribuíram para melhorar ainda mais meu sono:

  • Manter-se longe das telas — o brilho das telas de TV, celular e computador é bastante artificial, e estimula bastante o seu cérebro, que depois tem dificulade para repousar. Uma hora antes de deitar, eu procuro deixar as telas de lado e ler um livro ou uma revista. Se for preciso trabalhar no compuador, é interessante usar um programa como o f.lux, que ajusta a cor da sua tela conforme a hora, para que fique com um brilho mais ameno de noite.
  • Apagar a luz — na mesma linha do item anterior, quando você está deitado (ou algum tempo antes de disso), é bom manter as luzes do quarto acesas o mínimo possível. Quando fico de noite lendo no meu quarto, deixo só um abajur aceso (e o livro bem iluminado; é para os seus olhos descansarem, e não ficarem mais cansados). E cheguei ao ponto de tapar com fita isolante os aparelhos que ficam emitindo luz ininterruptamente, como roteadores e conversores de TV. Acho que o ideal é você, quando for dormir, poder fechar a porta, apagar a luz e não ver absolutamente nada de luz residual.
  • Comer menos — é quase um consenso e a correlação mais fácil de perceber, para mim. Se eu como (ou bebo) demais de noite, eu durmo mal.
  • Fazer exercícios — eu tive um problema no quadril e fiquei alguns meses sem fazer atividade física. Quando retornei, já senti uma melhora. Minha hipótese é que o exercício de uma maneira geral regula o corpo — de noite, o seu corpo fica mais preparado para descansar, já que ele usou bastante energia.
  • Deitar-se quando se está cansado — cama foi feito para duas coisas: dormir e a outra vou deixar para imaginação do leitor. Ler ou ver televisão na cama faz mal para a postura e acostuma mal o corpo. Antes eu deitava quando estava na “hora de dormir”, ficava lendo e esperando o sono chegar; agora, eu tento ir para a cama quando eu sinto que estou cansado. Eu até leio um pouco na cama, mas é rapidamente, apenas para pegar no sono.
  • Alongar-se — também em função do meu problema do quadril, voltei a usar um livro de alongamento que comprei há algum tempo. Faço um breve alongamento antes de dormir e logo quando acordar. É possível sentir o corpo ir relaxando e, naturalmente, isso afeta o sono de maneira positiva.
  • Tratar o bruximo — por último, um conselho: eu comentei com minha dentista que acordava com dor de cabeça frequentemente e ela, após exames, diagnosticou-me com bruxismo e me prescreveu uma placa de silicone para usar quando dormir. É caro, mas hoje é decisivo para minha qualidade de vida dormir com aquilo. Se você acordar sentindo muita tensão na cabeça, converse com seu dentista.

Para pesquisar mais

Como falei, eu comecei esse projeto pesquisando alguns artigos. Em vez de listar aqui todas as minhas fontes, vou sugerir ao leitor que visite a minha coleção de artigos sobre sono no Pinboard (marcados com a tag sleep), que vai ser atualizada sempre que achar mais algum artigo bom sobre o tema.

Você não precisa se conformar em dormir mal. Muitos dos problemas de sono decorrem de hábitos ruins (café demais, ficar vendo TV até tarde, comer muito de noite), e felizmente podemos mudar nossos hábitos, principalmente quando temos uma motivação tão grande quanto dormir melhor.

Espero que esse relato possa ajudar os leitores, e convido a todos a testarem essas práticas e deixarem um comentário dizendo o que funciona. Esse é um assunto que me interessa e é importante estar sempre consciente das atitudes que levam a um melhor sono.

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Escrevendo para o seu eu presente

No dia 1º de janeiro de 2013, eu comecei a manter um diário.

O ano de 2013 foi um ano de acontecimentos para mim. Publiquei o primeiro post deste blog; completei um quarto de século de vida; comecei a namorar a mulher que está comigo até hoje; conclui a contrução da bancada experimental para o meu mestrado, o maior projeto no qual já fiquei envolvido como engenheiro. Também foi o ano em qie comecei a manter uma lista de todos os livros que leio e filmes que vejo.

Hoje, um ano e três meses depois de ter começado a manter um diário, eu tenho 592 entradas. No começo, eu escrevia em inglês, para treino; depois, decidi que esse tipo de coisa é algo profundamente pessoal e queeu preciso me expressar na minha língua materna. Escrever algo em inglês é a maneira mais fácil de maximizar o número de pessoas que vão ler. Um diário, por outro lado, é pessoal e privado. O que está lá é para ser lido por você. Você pode até querer compartilhar algo, mas isso é algo posterior ao processo de criação.

Eu escrevo muitos tipos de texto. Desabafo nos momentos de raiva. Faço um simples registro do que fiz no dia para meu mestrado. Escrevo uma pequena resenha sobre algum filme que vi. Coloco alguma foto daquela manhã na praia com minha namorada. Registro alguma grande alegria que me ocorreu. Tento explicar para mim mesmo algum problema que tenho, em uma tentativa de achar uma solução (geralmente funciona). Escrever ali também tem sido uma excelente forma de simplesmente treinar a escrita.

Ainda assim, apesar de estar advogando o hábito de escrever num diário, eu não tenho o habito de ler minhas entradas. E isso sempre me incomodou. Quando se fala desse hábito, geralmente é para ajudar o seu “futuro eu”; supostamente, daqui a dez anos você vai ler seus registros e chorar de nostalgia. Vai mostrar para seus filhos. Afinal, para que registrar todos esses momentos, se não é para alguém ler depois?

Há algum tempo, numa noite, eu sentei e comecei a ler algumas entradas minhas do ano passado. Foi interessante, sem dúvida, mas é difícil eu compreender agora a importância de algo que aconteceu no ano passado. Da mesma maneira que não tenho paixão por olhar fotos antigas, ou de como não vejo graça em gravar um show para mostrar para outras pessoas.


Eu já comentei aqui sobre um artigo de John Dickerson chamado Note to Selfie. Meu trecho preferido desse texto é esse:

When you pause to write about something—even if it’s for Twitter or Facebook—you are engaging with it. Something within you is inspired and, at the very least, you’ve got to pick the words and context to convey meaning for your private recollection or, if you make it public, for the larger world

Só agora eu percebi o que isso tem a ver com meus hábitos de manter um diário.

Quando eu estava no segundo ano do Ensino Médio, o professor de Geografia nos instruiu a fazer anotações à medida que ele falava. Anotações sem organização nenhuma, apenas para registrar o que foi dito na aula. Antes da prova, ele sugeriu revisar essas anotações. Estudar apenas baseado no livro não é suficiente; é preciso digerir aquela informação.

O curioso é que muitas vezes eu nem precisava consultar minhas anotações. O simples ato de escrever me ajudou a absorver aquela informação. Quando eu estava anotando o que o professor falava, eu estava interagindo com aquela ideia, repetindo mentalmente para poder escrever, talvez mudando alguma palavra. E é isso o que Dickerson quer dizer, e é isso que faço com meus textos. Eu não escrevo para esquecer e depois revisar; eu escrevo para processar aquele momento, para ter uma ideia mais clara do que eu estou pensando — e isso tem como consequência que aquele fato fica gravado. Eu me lembro de muita coisa que escrevi, mesmo sem consultar.

Para manter um diário, eu uso o Day One (e já até escrevi uma resenha desse app), mas isso é um mero detalhe. Se eu tiver de ou quiser abandonar o programa, vou perder tudo aquilo que já escrevi (embora o app tenha opções de exportar o conteúdo); entretanto, isso não importa. E esse é o meu ponto: eu não tenho interesse em revisitar o passado. Eu não escrevo para o meu “eu futuro”, e sim para o meu “eu presente”.