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Resenha: The Information Diet

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações, seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Eu já falei aqui de simplificar nosso consumo de informação, mas reconhecidamente fui bastante superficial. Sete meses depois de publicar aquele texto, eu me sinto bombardeado de novo pela quantidade de coisas a ler, ver, escutar e processar. Gosto de ler blogs, escutar a podcasts, ler romances, ler livros de não-ficção. Como achar tempo para tudo isso, e mais importante, para fazer outras coisas além disso?

Foi no blog da Luana Oliveira que notei pela primeira vez o termo dieta da informação, e fiquei bastante interessado. À época, eu já estava sentindo dificuldades de acompanhar tudo, e claro, eu achava que tinha de estar por dentro de tudo. Comecei a simplificar um pouco, lendo menos blogs, abrindo menos o site do jornal, e já não me preocupava mais com esse problema de primeiro mundo.

Mas isso é um vício. Eu leio um artigo em um blog, ele cita outro autor e de repente eu quero ler todos os artigos desse outro blog — e é mais uma coisa a acompanhar. Ou eu quero seguir todo mundo no Twitter, porque vai que alguém diz alguma coisa interessante e eu perdi? E aquela pausa de 5 minutos para ver as notícias, que se transformam em meia hora para saber tudo de um assunto.

Eu não quero isso. Não quero checar o Twitter a cada vez que volto do banheiro. Quero poder sentar com calma e ler todos os meus blogueiros favoritos, pensando sobre o que eles escreveram. Quero voltar a ler romances, um prazer que sempre esteve presente na minha vida e que andava esquecido.

Depois de pensar e pesquisar sobre essa saturação de informação, descobri um livro apropriadamente chamado The Information Diet, de Clay A. Johnson (que, relendo o texto da Luana, vi que ela também mencionou) e, através do O’Reilly Reader Review Program, resolvi lê-lo e ver se aprendo alguma coisa. Um primeiro passo, para criar um plano e gerenciar melhor a informação que consumo

Um aviso: essa resenha se baseia na versão em inglês, mas existe uma tradução em português.

Obesidade de informação

A tese central do livro é uma analogia entre consumo de informação e consumo de comida. Pelo menos nas sociedades “desenvolvidas” (sejá lá o que isso signifique), a obesidade é um problema maior que a fome, principalmente porque existe comida farta de má qualidade: gordura e açúcar, alimentos que evolutivamente aprendemos a gostar, são muito baratos de fabricar e entopem grande parte da comida industrialzada.

Da mesma forma, consumimos informação recheada de publicidade, sensacionalismo e sem checagem básica de fatos, que se tornou barata de produzir e não tem valor algum.

O autor trabalhou durante muito tempo com política americana, e criou a empresa que organizou a bem-sucedida campanha de Barack Obama em 2008. Seu trabalho sempre envolveu os conceitos de transparência e transmissão de informação. E percebeu que, mesmo com todo esse esforço, muitas pessoas não tinham ideia do que falavam. Queriam que o governo “tirasse as mãos” de um programa que é governamental; elas não tinham pouca informação, pois conheciam o programa, mas estavam informadas da maneira errada. Sofriam de obesidade de informação.

A noção de que seu trabalho estava sendo inútil fez com o autor pesquisasse mais sobre o assunto. Por onde os dados sobre um programa criado e mantido pelo governo se desviavam até formar na cabeça de pessoas cultas a opinião de o governo não deveria se meter no tal programa, como se ele tivesse chegado depois e estragado tudo?

A experiência política do autor se faz presente em todo o texto, e isso é o grande problema do livro.

Um dos conceitos que o autor apresenta é de agnotologia (a melhor tradução que encontrei para agnotology, embora existam poucos resultados relevantes no Google), ou o “estudo da dúvida induzida culturamente”. O autor usa como exemplo os “estudos” patrocinados por empresas petrolíferas pondo em dúvida o aquecimento global. É um ótimo assunto, terreno de muito debate científico — mas logo em seguida, Johnson apresenta as porcentagens de Republicanos e Democratas que acreditam em cada lado. O que isso acrescenta ao texto?

Fala também dos filtros que as empresas como Google e Facebook incorporam nos seus serviços, alegando que isso só faz que com acompanhemos pessoas e páginas “com as mesmas crenças políticas”. Para mim, filtrar a News Feed por critérios políticos é o menor dos problemas do Facebook.

Estar mal informado sobre política é um grande problema, com certeza, e uma dieta de informação saudável envolve acompanhar o que acontece na sua cidade de maneira imparcial — mas não é o único problema. Como falei no início do texto, eu consumo informação de diversas fontes (e acho que não sou o único), e esperava que o livro fosse mais geral. Por exemplo, parece que “ver TV” se resume basicamente a “ver programas de notícias”. Twitter e email são apenas brevemente mencionados, como se nem fizessem parte do problema de consumo de informação.

O que eu gostei

No geral o livro me decepcionou por falar demais em política, mas não significa que não aprendi nada. The Information Diet tem três partes; a segunda, homônima ao livro, é a que apresenta um plano para um consumo de informação. Algumas ideias me chamaram a atenção:

  • Se você quer saber mais sobre algum assunto, aprenda a pesquisar. Aquilo que você vê no Jornal Nacional é apenas uma parte, uma visão. E só porque todo mundo compartilhou uma notícia no Facebook não significa que ela é verdadeira.
  • Precisamos exercitar a atenção, treinar nossa mente a focar no que importa. Escrever aquele trabalho vendo televisão não é fisicamente possível.
  • Precisamos ser mais ativos e menos reativos. Isso significa principalmente parar de usar notificações dos smartphones.
  • Vamos tentar evitar ao máximo as fontes que contém propagandas, pois elas poluem visualmente as páginas e geralmente contaminam o que o autor quer dizer (ninguém vai dar sua opinião sincera sobre uma marca que patrocina o seu trabalho)
  • O autor dá a sugestão (que eu já vinha experimentando) de criar uma “agenda” para consumo de informação, como um horário delimitado para ver TV, outro para ler email etc.

Eu vou reler essa segunda parte, e tentar adaptar essas ideias à minha realidade. E provavelmente, pesquisar mais sobre o assunto. Aguardem.