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Por que substituí o Spotify pelo Google Play Music

Se você me visitar em minha mesa de trabalho, provavelmente vai me encontrar com um fone de ouvido escutando a algum tipo de música instrumental, pelo simples fato de que eu não consigo trabalhar sem música. Escutar a compositores clássicos ou a faixas mais eletrônicas ou meditativas serve como um sinal para meu cérebro de que é hora de engajar em trabalho profundo e ajuda a me isolar de conversas e ruídos de máquinas (fundamental se você passa os dias em um laboratório).

Até o final do ano de 2016, minha escolha para isso era o Spotify, em parte graças à sua extensa coleção de playlists de “foco” (as minhas preferidas estão descritas no link anterior) e de outros gêneros — no Spotify, as playlists são “cidadãs de primeira classe” (como diriam os programadores) e descobrir e escutar seleções interessantes é o grande ponto forte desse serviço.

Mas…

Não me lembro exatamente como descobri isso, mas há alguns meses percebi que o Google tinha o seu próprio serviço de streaming de música, o Google Play Music, e que ele tinha um recurso muito interessante: você pode fazer upload das músicas que você tem em mp3 no seu computador e importar músicas do iTunes (o que chamou muito a atenção para mim, que ainda era usuário Mac). Os álbuns que eu tinha digitalizado (da minha época adolescente de comprar CDs físicos) ou comprado via iTunes Stores podiam fazer parte da minha biblioteca, juntamente com o próprio acervo do Play Music, e eu podia escutar a todas essas músicas indiferentemente no computador ou no meu smartphone Android.

Na época, fiquei muito interessado, mas ao mesmo decepcionado com as playlists do Play Music. O que era tão fácil e presente no Spotify parecia que estava escondido na interface nada amigável do serviço do Google (“Como assim não há dezenas de playlists de música clássica para eu escolher?”). Depois do mês de teste, abandonei o serviço; continuei com o aplicativo instalado no celular para ouvir a alguns álbuns que eu tinha já adicionado e que não estavam no acervo ao Spotify (felizmente, você não precisa assinar a versão paga do Play Music para escutar as suas próprias músicas, até certo limite) .

Esse ponto negativo perdeu muito de importância no final do ano passado, quando o Spotify anunciou os seus []novos termos de uso, que seguem a tendência de todas as start-ups e empresas baseadas na web de ficarem cada vez mais assustadores e sedentos de informação pessoal. Eu normalmente não me importo com isso (e sei que estamos trocando privacidade por conforto), mas achei que uma explícita menção a uma “quebra de sigilo bancário” era um pouco demais, mesmo que não tenha validade legal nenhuma.

E é por isso que desde o começo do ano tenho usado o Google Play Music como meu único serviço de música por streaming. Como já falei, o recurso de permitir upload das suas próprias músicas é um grande diferencial, e encontrei um substituto muito interessante das playlists (embora elas existam no Play Music): as rádios de artistas e álbuns.

De tanto escutar a música para foco no Spotify, já conheço alguns artistas e álbuns interessantes, em particular de trilhas sonoras de filmes. Ao selecionar um álbum no Play Music, você pode escutar a uma “estação de rádio” apenas com músicas e artistas relacionados ao álbum em questão, e você ainda pode dizer se gostou ou não de cada faixa que estiver escutando (imagino que, se não agora, isso vai alimentar algum mecanismo de inteligência artificial para lhe mostrar apenas o que você vai gostar, bem do jeito Google de ser). Aqui vão algumas sugestões:

Uma última dica: uma grande desvantagem do serviço do Google são os apps: o aplicativo para Android tem uma navegação um tanto confusa (mas funciona bem) e não existe programa oficial para desktop, mas o Google Play Music Desktop Player tem sido muito usado, principalmente por permitir usar as teclas de Play/Pause e de volume que alguns teclados possuem. Recomendo!

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Como eu organizo minhas atividades diárias com Todoist

Em uma das últimas postagens, falei como uso o Trello para gerenciar meus projetos, monitar os grandes resultados que quero atingir numa escala de algumas semanas a alguns meses. Entretanto, o meu sistema de tarefas precisa de um segundo aplicativo: Todoist. Se o Trello me permite visualizar todas as coisas que tenho para fazer nessa semana ou nesse mês, o Todoist me ajuda a visualizar o que tenho para fazer hoje.

Para ser bem sincero, o Todoist foi uma escolha um tanto forçada. Quando eu usava apenas dispositivos Apple, usava exclusivamente o OmniFocus, o melhor gerenciador de tarefas que já usei mas que é exclusivo para macOS e iOS. Em 2015, precisei trocar de smartphone, e em 2016 de computador, e os preços abusivos da Apple me levaram a diversificar meus gadgets. Sem poder usar OmniFocus, procurei alternativas, e achei no Todoist um sistema que funciona.

A influência do OmniFocus, porém, me seguiu para o uso do Todoist, principalmente o guia Creating Flow with Omnifocus (2 ed.), de Kourosh Dini, que já citei várias vezes aqui. Tentei incorporar muitas das suas dicas com os recursos disponíveis no Todoist, principalmente o uso de rotinas, conforme vou explorar nesse texto.

Organizando tarefas no Todoist

Estrutura de uma tarefa no Todoist

Entender como tarefas são organizadas dentro do Todoist é fundamental para entender a lógica do meu sistema. Não é meu objetivo aqui ensinar os leitores a usar o aplicativo; recomendo a ajuda oficial ou os excelentes textos e vídeos da Thais Godinho do Vida Organizada para um tour mais completo e mais introdutório.

No Todoist, você insere tarefas e as organiza em listas (que o Todoist em si chama de projetos, mas que a Thais Godinho certeiramente explicou ser mais simples considerar como listas ou pastas). Por exemplo, aqui está a minha lista de errands, com todas as voltas que eu tenho para fazer:

Minha lista de voltas no Todoist

Cada tarefa pode ter um prazo (due date) — repare nas datas à direita das tarefas. Essa estrutura de nome e prazo para cada tarefa é a primeira base do meu sistema.

(A propósito, no meu uso de sites e aplicativos tendo a misturar inglês e português. Não estranhem.)

Tarefas recorrentes

Ainda relacionado ao exemplo das voltas a fazer, suponhamos que eu queira anotar no meu sistema uma tarefa de “Ir à feira”, que tem de ser feita toda quarta-feira por ser o dia de feira no meu bairro. Isso é uma tarefa recorrente, um dos principais recursos do Todoist. Você pode configurar tarefas com frequências variadas de repetição, de maneira que, quando você marca uma tarefa como feita, ela não some do seu sistema, mas recebe a nova data automaticamente. Por exemplo, se hoje é quarta e eu completo “Ir à feira” na minha lista de voltas (que tinha um prazo para hoje), o prazo muda para quarta que vem. Uma explicação completa de como configurar esses prazos recorrentes pode ser encontrada aqui.

Hoje

Uma das partes principais do aplicativo é a sua tela de Hoje (Today). Quando você exibe essa tela, dentre todas as tarefas de todas as suas listas, apenas as que você marcou como “para ser feitas hoje” vão aparecer. Esse fato é fundamental para entender a dinâmica de como uso o Todoist para gerenciar minhas atividades diárias, como vou detalhar mais na frente.

Meus projetos no Todoist

Como falei anteriormente, as tarefas no Todoist são divididas em listas chamadas de projetos. Para referência, eis aqui as minhas principais listas:

Meus projetos no Todoist

O leitor pode notas a minha lista de errands que expliquei anteriormente. Também pode notar, conforme ressaltado pelo exemplo de Land and Sea, que as listas podem conter outras listas.

Land and Sea

O nome Land and Sea (Terra e Mar) vem (adivinhem de onde?) de Creating Flow…, que citei no começo deste texo. Este é um conjunto de listas que funciona como um verdadeiro “mapa” da minha vida, tanto que até usei um emoji correspondente no nome do projeto. As tarefas que estão nessas listas são as realmente importantes de cumprir.

Os projetos de Outcomes for the Year and Outcomes for the Month são listas das minhas metas para o ano e para o mês e são assunto para outro post.

Channels

A minha lista de Channels é o coração do meu sistema, e também é uma adaptação de Creating Flow….

No último post, detalhei que eu tenho um quadro no Trello chamado Dashboard, que mostra todos os meus projetos atuais. Aquele post foi escrito quando ainda estava de férias; para referência atualizada, aqui está o meu quadro hoje, numa semana em que estou trabalhando mais ativamente no meu doutorado:

Meu quadro Dashboard no Trello, atualizado

No outro post também falei que os projetos são divididos em listas que chamei de Channels, e que iria explicar futuramente o significado disso— chegou a hora!

Ler os livros e os posts de Kourosh Dini teve um profundo impacto na minha maneira de trabalhar e de encarar a vida de uma maneira geral. Primeiramente, ele me ensinou que existem dois tipos básicos de tarefas: as concretas e as criativas. As tarefas concretas são aquelas perfeitas de serem colocadas numa lista tradicional de tarefas (como prega o método GTD): “Entregar relatório para Prof. assinar”, “Comprar caderno novo na papelaria”, “Telefonar para clínica para marcar médico” etc. Na terminologia de Dini, essas tarefas concretas tem uma visão clara: você consegue visualizar todos os passos necessários para completar a sua intenção.

As tarefas criativas são aquelas que tem uma visão não muito clara. Por exemplo, se eu tenho um projeto “Escrever resumo para congresso X”, qual o próximo passo (ou próxima ação, como diz o GTD)? Pode ser “baixar template no site do Congresso”, mas eu duvido que alguém sente para trabalhar, baixe um arquivo, e vá fazer alguma outra coisa da sua lista de tarefas, já que esta aqui está “completa”. Após baixar o template, você sabe que existem outros passos, mas a sua visão de como completar esse projeto fica mais turva. Você pode querer fazer um brainstorming do que vai incluir, ou procurar nos seus arquivos alguma figura para analisar, ou simplesmente tentar escrever um parágrafo. Mais importante, as tarefas são criadas à medida que você trabalha nesse seu projeto.

Dini argumenta, pela sua experiência de psiquiatra, músico, e escritor, que a melhor maneira de trabalhar com tarefas criativas é criar rotinas. Ou seja, em vez de incluir as tarefas individuais do projeto do resumo na sua lista de tarefas, inclua uma tarefa com algum nome como “Desenvolver resumo para congresso X”, e que seja diária. Isso garante um ciclo de desenvolvimento e de luta contra a procrastinação: você se permite cada dia trabalhar um pouco em algum projeto a cada dia, porque tem a certeza de que vai trabalhar nele todo santo dia.

Na imagem acima, repare que apenas o primeiro projeto de cada canal tem uma etiqueta verde, indicando que ele está ativo. No meu projeto Channels no Todoist, eu tenho três tarefas recorrentes, uma para cada projeto ativo de cada canal no Trello, representando então canais de atenção (i.e. para onde direciono a minha atenção diariamente):

Projeto Channels no Todoist

Cada tarefa tem uma frequencia configurada para todo dia útil (as cores vermelhas são um recurso da versão Premium no Todoist, marcando as tarefas como prioridade 1; elas apenas servem para chamar mais a atenção e o leitor não precisa se preocupar com isso). As tarefas também contem um link para o cartão no Trello correspondente, de maneira que eu possa clicar no nome da tarefa e abrir a página no Trello. O Todoist permite você inserir um link em uma tarefa com a seguinte sintaxe:

{link} ({Nome da tarefa})

onde você substitui o que está entre {} pelo campo correspondente. Os parênteses são necessários para garantir a formatação.

Uma nota sobre o fraseamento das tarefas: eu acho que o verbo Develop, “desenvolver”, é um belo convite ao trabalho.

Outros projetos de Land and Sea

Além dos projetos de metas e dos canais de atenção, o leitor pode visualizar que eu tenho alguns outros projetos. Vamos a uma breve explicação.

Projeto Languages no Todoist

Ainda não está 100% certo, mas é bastante provável que eu vá cumprir um estágio de Doutorado Sanduíche na Dinamarca. Tenho então uma tarefa diária para estudar dinamarquês, com um link para o curso desse idioma no Duolingo. Não vai garantir que eu seja fluente, e já fui informado que lá todos costumam falar inglês, mas certamente vai ajudar e resolver algumas situação na vida lá (além de ser bom para desviar a cabeça de assuntos termodinâmicos).

O conceito de Touch the Keys é outro que Kourosh Dini explica com maestria, em especial do seu último curso, Zen & The Art of Work. Um estudante de piano, mesmo que não consiga praticar num dado dia, deve pelo menos tocar as teclas do instrumento e fazer soar ao menos uma nota, para não perder o ritmo. A ideia é ser um pouco mais leve que os canais de atenção; se não der tempo de dedicar muitos minutos ou horas, que seja apenas alguns minutos, para não perder o hábito.

Projeto de gerenciar finanças no Todoist

falei sobre finanças aqui no blog, e ando testando com a rotina de dedicar uns 90 minutos às sextas-feiras para cuidar das minhas finanças: monitorar meus investimentos (e tomar algumas ações), ler algum texto correspondente, atualizar o YNAB.

No ano passado, já tinha tentando implementar isso e percebi que não consegui manter por muito tempo, pois sempre tinha algo mais importante para fazer. Nesse ano, reorganzei meu sistema de canais de trabalho, então vamos ver como me saio em 2017.

Projeto de gerenciar FabioFortkamp.com no Todoist

Outro exemplo de uma tarefa Tocar nas teclas. Sobre a eficácia: notaram como houve um aumento na frequência dos posts nas últimas semanas, fruto do pequeno e regular trabalho?

A segunda tarefa é um teste que ando fazendo, inspirado em *31 Days to Build a Better Blog: no primeiro dia de cada mês, rever os últimos posts publicados e fazer um brainstorming de novos posts onde eu possa extender minhas ideias.

Projeto com rotinas variadas no Todoist

Por fim, algumas rotinas meio aleatórias. Por exemplo, às quintas-feiras tenho uma reunião do meu grupo de pesquisa, então tenho uma tarefa de preparar a minha apresentação. Também tenho uma outra tarefa recorrente para minha Revisão Semanal nas sextas-feiras, uma para assistir algum vídeo do supra-citado Zen & The Art of Work, etc.

Outros projetos

Os outros projetos são bem simples e não valem uma explicação muito detalhada:

  • Maintenance são as tarefas “logísticas”, separadas por frequência. Pagar as contas que não estão em débito automático, planejar os presentes que tenho que comprar regularmente, cuidar da nossa horta na varanda.
  • Meu projeto Next Actions são tarefas avulsas, como marcar uma consulta ou pesquisar a data de algum evento.
  • VB é o código que uso para meu apartamento, e ali estão tarefas de limpeza.
  • Como já falei, tenho uma lista de voltas, errands
  • Agenda é onde marco as tarefas que tem de ser tratadas especificamente com alguém (como meu orientador ou meus pais)
  • Waiting é uma lista de todas as coisas pelo qual estou esperando resposta (encomendas que estou esperando, artigos a serem corrigidos)
  • Someday guarda uma coleção de coisas a se fazer algum dia, como passeios. Esta lista está desorganizada, e na verdade eu gerencio melhor esse tipo de coisa com mapas mentais.

Minha tela de Hoje e minha rotina diária

Não consigo expressar o quanto esse sistema me permite me concentrar melhor e gerenciar meu estresse. Aparentemente a população é dividida em dois grandes grupos, e eu faço parte daquele que paralisa sob pressão. Eu me conheço e sei que não consigo funcionar vendo que tenho mil tarefas na minha lista de afazeres.

Com todo o sistema descrito acima, a minha tela de Hoje no Todoist tem essa simplicidade:

Minha tela de Hoje no Todoist

A cada dia, então eu sei que tenho três grandes projetos a trabalhar, e mais algumas pequenas tarefas avulsas que vão surgindo (como uma necessidade urgente de comprar algo que faltou em casa, por exemplo). De manhã, eu trabalho no meu primeiro canal de atenção, que eu já preencho com os projetos mais intensos; abro a lista no Trello, vejo o que preciso fazer, e trabalho de maneira concentrada. Se há tempo, faço alguns exercícios de Dinamarquês. Após o almoço, escrevo um pouco para FabioFortkamp.com e trabalho no segundo item por umas duas horas, quando paro para fazer algum lanche leve e descansar um pouco. Ao final do dia, dedico-me às atividades do canal 3, geralmente por volta de 45-60 minutos; justamente por isso que esse canal é reservado a coisas mais pessoais ou tarefas administrativas do doutorado.

Terminadas as três grandes tarefas, eu vou para academia e depois para casa, onde descanso, cuido da casa, passo um tempo com minha noiva. No dia seguinte, as tarefas vão estar esperando por mim. Nos finais de semana, descanso.

O leitor pode pensar que esse sistema cria amarras na minha rotina, quando na verdade ele dá mais liberdade. Por exemplo, se eu tiver algum evento ou compromisso após o almoço, não vou ter tempo para me dedicar ao canal 2. Eu fico tranquilo em relação a isso, porque tenho então a certeza de que no dia seguinte já vou retormar o trabalho.

E quando um projeto é concluído? Esse é o outro lado da configuração dos canais como filas de projetos. Se um projeto é completado (e.g. o tal resumo do congresso foi submetido), eu:

  • Arquivo o cartão correspondente no Todoist
  • Configuro o próximo projeto na fila com uma etiqueta verde
  • Deleto a tarefa antiga no Todoist
  • Crio uma nova tarefa no projeto Channels, com um link para o cartão do novo projeto, e com a mesma frequência diária, começando no dia seguinte.

Vou repetir: não consigo expressar o quando esta cadência de trabalho diário me ajuda a completar meus projetos.

Alguma dúvida, sugestão, ou crítica: deixem nos comentários!

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Como eu uso o Trello para gerenciar meus projetos

Em um link recente, comentei a ideia de que “um sistema de produtividade simples não é suficiente”. Apesar de eu já ter tentado, a ideia de começar cada dia selecionando 3 Tarefas Mais Importantes e ignorando todo o resto simplesmente não funciona. Eu conheço o meu modo de trabalhar e sei que preciso de uma maneira de visualizar tudo que tenho para fazer, desde projetos pequenos e mundanos aos maiores e mais importantes.

No último post dessa série em que discuto gerenciamento de tempo, falei de três conceitos básicos: projeto, sessão de trabalho e tarefas. Também falei que a noção fundamental é a de projeto, por representar um resultado que você quer alcançar. “Comprar um presente de aniversário” é um projeto, assim como “Terminar primeiro rascunho do paper X”, “Criar apresentação para reunião importante na data Y” e “Planejar viagem Z”.

A minha principal ferramenta para gerenciar projetos é o Trello. A minha escolha por esse aplicativo foi bem orgânica; eu e meu co-orientador Jaime estávamos discutindo opções para gerenciar o nosso grupo de pesquisa e resolvemos testar o Trello, do qual ambos tínhamos ouvido falar. Para minimizar o uso de aplicativos, resolvi começar a usá-lo para meus projetos pessoais, e me surpreendi positivamente com o quanto ele ajuda na minha produtividade.

O problema de gerenciamento de projetos

Repare que estou usando o termo Gerenciamento de Projetos de forma bem solta, sem muita relação com o campo acadêmico, tema de MBAs e afins. Por “gerenciar projetos” eu quero dizer simplesmente visualizar o que preciso fazer no curto prazo (escala de alguns meses). Para cada projeto, quero saber o que é preciso fazer, qual o seu prazo e onde estão armazenados as informações e os arquivos importantes.

Estrutura básica do meu sistema no Trello

O Trello é um sistema composto de 3 módulos básicos: quadros, listas e cartões. Quando comecei a pesquisar dicas de como usar o Trello para gerenciar projetos e tarefas, notei que existem maneiras muito diferentes de combinar essas três estruturas. O que vou descrever a seguir é a minha maneira, a que mais faz sentido para mim:

  • no meu sistema, quadros são macro-áreas;
  • dentro de cada quadro, cada cartão representa um projeto;
  • as listas são grupos de projetos.

Quadros

Os quadros (boards) são a principal maneira de visualizar informação no Trello. Geralmente, quando você está no aplicativo web, está vendo um dos seus quadros. O meu quadro principal se chama Dashboard, nome (e conceito) roubados de Creating Flow with OmniFocus (2. ed), de Kourosh Dini:

Meu quadro Dashboad no Trello

Como falei, cada cartão (os pequenos retângulos brancos que o leitor vê na figura) representa um único projeto, e os cartões estão separados em listas. Explicarei o sistema de Channels em outro posts, mas o leitor pode apenas entender que são grupos de projetos. Tenho o costume de colocar etiquetas (labels) nos projetos da Dashboard como um sistema binário: verde significa que o projeto está ativo (i.e. estou trabalhando cotidianamente nele), vermelho que ele está suspenso por enquanto.

O simples ato de abrir o quadro e ver essas listas já me dá uma visão panorâmica das minhas responsabilidades profissionais e pessoais. Repare na diversidade típica de projetos: um paper a ser escrito, livros a serem lidos e analisados, exames médicos a serem feitos, preparativos para um potencial Doutorado Sanduíche que vou realizar em 2017.

Cartões no Trello

Cada cartão no Trello pode ser ser aberto, exibindo mais informações. Como exemplo, o cartão do meu projeto de ler Deep Work, de Cal Newport, é assim:

Um exemplo de cartão de projeto no Trello

No campo de descrição do cartão, gosto de colocar informações que me ajudam a me orientar, totalmente inspirados em um Webinário da Thais Godinho sobre Planejamento de Projetos segundo o GTD. Logo abaixo existe uma checklist de tudo que preciso fazer para cumprir o resultado esperado do projeto. Na parte da direita existem alguns botões, como um labels para inserir a etiqueta verde, um para configurar um prazo (due date), entre outros.

Outros exemplos de quadros, listas e cartões

Como um outro exemplo de quadro, recentemente comecei a organizar melhor meus projetos para esse blog:

Meu quadro FabioFortkamp.com no Trello

Aqui a estrutura está um pouco mais solta. Tenho uma lista de projetos específicos (como um para implementar algumas ideias desse livro que comprei há muito tempo) e uma lista de miscelânia: um cartão para ideias de posts que tenho, outro como uma lista de coisas a fazer periodicamente (como ler os blos que sigo, compartilhar meus posts no Twitter etc.).

Tenho também um quadro para o nosso grupo de pesquisa, que não vou compartilhar. Mas a estrutura é parecida, embora mais complexa. Como sou o principal “gerente” desse quadro, tento manter a relação de um cartão por projeto. Temos listas de papers em preparação, listas de projetos específicos para cada membro do grupo e uma lista de log com os projetos já completados.

Meta-projetos

Um pequeno truque que se tornou essencial é “linkar” projetos. Cada quadro e cada cartão possuem um link único que pode ser aberto no navegador. Na minha Dashboard o leitor reparou que existe um cartão sobre um paper que estou escrevendo. Esse cartão contém apenas um link para o cartão principal, dentro do quadro do nosso grupo de pesquisa:

Um exemplo de cartão com link no Trello

Isso me permite, quando estou trabalhando na Dashboard, visualizar compromissos profissionais e pessoais. Além disso, este quadro é privado, enquanto que o quadro do nosso grupo de pesquisa têm meus colegas como “membros”. Assim, o cartão principal do paper (seguindo a mesma estrutura do cartão de Deep Work que apresentei antes) pode ser visualizado pelos meus colegas, mas eu gerencio esse projeto através do meu quadro privado.

Experimentando o Trello

O Trello é grátis nos seus recursos básicos (como todos esses que descrevi). Se o leitor quiser experimentar, peço que usem esse link, para que eu ganhe um mês da versão profissional (e o aplicativo continua sendo de graça para vocês). E peço também que deixem dúvidas nos comentários, pois pretendo abordar mais o uso desse aplicativo em posts futuros.

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Reclamar da bolsa de pós-graduação é receita de infelicidade

Num evento recente, um colega que está terminando o mestrado me fez alguns questionamentos sobre a vida de doutorando. Dentre os vários assuntos discutidos, um em particular me chamou a atenção a tal ponto que achei que renderia um post interessante. A grosso modo, aqui está o pensamento do meu colega:

Um estudante de doutorado é antes de tudo um mestre, e portanto deveria ser remunerado como tal. Se a média dos salários de um engenheiro mestre que entra numa empresa de alto nível é X, então a bolsa de doutorado deveria ser próxima de X, principalmente se o doutorando trabalhar em projetos ligados a uma empressa desse tipo.

Vou falar para vocês, leitores, o que falei para ele:

Equiparar a bolsa de pós-graduação com o salário dos colegas que se formaram com você é uma receita garantida de infelicidade e frustração profissional.

Perdoem a minha possível arrogância, mas eu posso garantir a vocês que eu ganho muito menos do que a minha inteligência vale, porque eu não trabalho em nada diretamente rentável. Como diz Gustavo Cerbasi, quando você trabalha em uma corporação você está na verdade dedicando tempo a enriquecer os patrões, e recebe uma “indenização” na forma de salário por conta desse tempo gasto em benefício dos outros. Como assalariado, você contribui effetivamente para o produto ou serviço da sua empresa. Como pós-graduando, porém, você não está participando dos lucros de nenhuma empresa (nem mesmo das universidades); é muito difícil traçar uma linha direta entre um trabalho de pesquisa e o retorno financeiro para a universidade, agência de fomento ou empresa.

Portanto, um estudante de mestrado e doutorado investe tempo primariamente em si, na sua formação (palavras do meu amigo e co-orientador Jaime). A nossa bolsa é simplesmente um auxílio (como confirma esse texto bastante catastrofista da Galileu) que recebemos de agências de fomento ou mesmo de empresas por participar de projetos estratégicos a elas; a bolsa não é uma medida do nosso trabalho. Como consequência, também não temos benefícios trabalhistas nenhum, como férias, décimo-terceiro, vale-alimentação. Mas como já falei em outras vezes, isso vem com contra-partidas: eu posso manter o meu regime de trabalho, tenho todos os benefícios brasileiros de ser estudante e passo os dias estudando assuntos extremamente interessantes, ganhando o suficiente para viver de maneira confortável.

Sim, como falei, eu concordo que ganhamos pouco, que somos pouco valorizados, que é um absurdo as bolsas ficarem congeladas enquanto a inflação sobe. Também não morro de felicidade quando vejo meus colegas comprando carro e apartamento (nem todos, porque a economia do Brasil como um todo está mal). Mas isso não me abate, porque eu escolhi isso. Eu quero seguir a carreira acadêmica, por acreditar que ela é ideal para mim, e as pessoas à minha volta me apóiam; o doutorado é uma etapa transitória mas necessária, cheia de sacrifícios e de experiências boas rumo ao desafio de ser professor em uma boa universidade.

Num texto meio exagerado, o Prof. Matt Might diz que a vida de doutorado se assemelha à vida monástica, incluindo um voto de pobreza. Acredite em mim quando digo que os pós-graduandos mais infelizes e com menor chance de sucesso são aqueles que se deixam desmotivar porque acham que ganham pouco, enquanto que aqueles que tem mais sucesso depois são aqueles que abraçam esse período, com todos os seus desafios, sempre pensando nos objetivos finais.

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6 livros que moldaram a minha visão de produtividade

Surpresa: eu sou fascinado por produtividade. Eu invejo as pessoas que tiveram carreiras de sucesso e quero seguir os seus passos. O meu lado acadêmico me faz então sempre querer estudar mais do assunto, investigar o que determina que algumas pessoas tenham uma excelente vida profissional, equilibrada com a vida pessoal, enquanto outras ficam estagnadas.

Livros são uma parte fundamental desse processo. Eu sempre fui “a criança estranha que lê”, e depois me tornei o adulto estranho que lê — ao ponto em que acho que a melhor parte de ir à praia é poder ler um bom livro de frente para o mar (uma água de coco ou uma cerveja gelada certamente não atrapalham). As resenhas de livros que publico aqui reúnem alguns dos posts mais populares de FabioFortkamp.com e são os posts que mais gosto de escrever.

Nos últimos posts, tenho reunido as minhas observações sobre gerenciamento de tempo e estou tentando refinar alguns conceitos, até para eu mesmo entender qual a melhor maneira de eu trabalhar. Enquanto eu desenvolvo melhor os próximos textos, vou apresentar ao leitor os 6 livros que efetivamente moldaram a minha visão de produtividade e que servem de base para essa série de posts:

1. A Arte de Fazer Acontecer, de David Allen

Provavelmente nenhuma lista de livros sobre produtividade que tenha sido publicada na útlima década deixa de incluir esta obra, que já foi tema de resenha. Embora eu venha adotando uma versão mais relaxada do método GTD (tema do livro), a obra de David Allen é essencial para sistematizar alguns conceitos que mudaram a minha organização: anotar o que vem a cabeça em algum lugar que você revise, manter listas de todas as coisas que você tem para fazer, dedicar um tempo todo semana para fazer uma revisão geral dos seus projetos etc.

2. Vida Organizada, de Thais Godinho

Livro que condensa muitos posts do blog de mesmo nome, que já linkei muitas vezes aqui. Como mencionei em outro post, a principal ideia que esse livro me apresentou foi uma decomposição de cima para baixo de produtividade: comece refletindo sobre o que você quer atingir no fim da vida, identifique quais são suas metas de médio prazo e termine determinando quais os projetos importantes você precisa fazer neste ano para atingir os seus objetivos de vida.

3. Workflow Mastery, de Kourosh Dini

O autor é um psiquiatra e portanto essa obra-prima contém muitas discussões sobre como a mente encara o ato de trabalhar. Apresentou-me muitos conceitos importantes que serão abordados mais para frente neste blog, como a importância de rotinas e de fluxos de trabalho, e é a fonte da ideia de sessões de trabalho, que abordei em outro post.

4. Creating Flow with Omnifocus (2nd edition), de Kourosh Dini

Este é na verdade um manual do software de gerenciamento de tarefas Omnifocus, que usei muito quando ainda usava um Mac. Entretanto, a segunda edição foi publicada depois de Workflow Mastery, e Kourosh Dini não perdeu a oportunidade de aprimorar os conceitos desse livro e, mais importante, mostrar como implementá-los na prática. Mesmo sem usar Omnifocus, consigo reproduzir muitos métodos no Todoist, e pretendo explicar como em breve.

5. So Good They Can’t Ignore You, de Cal Newport

O que determina a felicidade e o sucesso profissional não é quanto que você ganha (já que nunca estamos satisfeitos com o nosso salário), mas o grau de controle, criatividade e impacto que você tem enquanto exerce o seu trabalho. Como essas características são raras, você precisa se diferenciar e se tornar raro e valioso para conseguir as melhores condições de trabalho. Para mais detalhes, veja a minha resenha. Esse livro proporciona um belo contraste com A Arte de Fazer Acontecer (primeiro item dessa lista) e livros afins por sua ênfase mais no simples ato de se tornar muito bom e menos em hacks e técnicas de produtividade,

6. Deep Work, de Cal Newport

Ainda estou terminando de ler essa obra, mas já tenho colocado em prática alguns conceitos. Continuando a linha de raciocínio de So Good, nesse livro o Prof. Newport mergulha no que é necessário para que nos tornemos realmente bons no que fazemos, e defende que a atividade básica que desenvolve as habilidades profissionais é o trabalho profundo: focado, intenso, livre de distrações, por horas a fio. Mais: como a concetração parece se comportar como um músculo, é preciso exercitá-la mesmo nos horários fora de trabalho (Abrace o tédio é o título de um dos capítulos). Desnecessário dizer, mas aguardem resenha em breve.

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Como arruinar a minha atenção durante uma apresentação de congresso

Nos últimos três meses tive o privilégio de participar de dois congressos acadêmicos na minha área de doutorado, um internacional e outro nacional, sendo que no final do ano passado também apresentei o meu trabalho de mestrado em um congresso nacional. Devo ter assistido a meia centena de apresentações de trabalho nesses eventos todos, e em muitas delas a minha atenção foi arruinada.

Eu sou ainda muito inexperiente em relação a participação em conferências, e não acho que sou um apresentador excepcional. O que segue é uma lista, do ponto de vista estritamente como expectador, de coisas que você pode fazer se quiser destruir o meu interesse pelo seu trabalho durante o próximo congressos.

Tente espremer todo o seu trabalho durante o tempo de apresentação

Um artigo submetido aos anais de um congresso tem entre 4 e 8 páginas (pelo menos na área de engenharia) e geralmente compreende um ano de trabalho. Uma apresentação, por outro lado, geralmente tem o limite de 15 minutos.

Vamos pôr em perspectiva: tentar resumir o trabalho de um mestrado ou doutorado durante 50 minutos (como é nas defesas do meu Programa de Pós-Graduação) é absurdo. Tentar resumir um ano de trabalho em 15 minutos é mais irreal ainda. A questão é: você não precisa relatar o seu trabalho de um ano durante esses 15 minutos. Os trabalhos que mais me chamaram a atenção durante esses congressos que frequentei não foram aqueles em que eu consegui efetivamente entender o assunto (porque o tempo é realmente curto para aprender), mas aqueles que me fizeram ir ler os respectivos artigos.

Se você tentar falar tudo o que é importante durante esses 15 minutos, a sua apresentação vai se tornar muito difícil de acompanhar; pior, se você passar do tempo, vai atrapalhar a agenda de todos os expectadores.

Copie parágrafos do seu artigo para os slides

Sinto que isso é um lugar-comum, mas eu vou repetir aqui: eu não consigo ler o que está nos seus slides e ouvir o que você está dizendo ao mesmo tempo. Assim, cada texto grande que você coloca rouba minutos da minha atenção sobre o que você está falando (e ouvir você é o objetivo de eu ir a uma apresentação sua).

Como falei no ponto acima, a sua apresentação tem um artigo como suporte. Os seus 15 minutos não são para eu ler o seu artigo, mas para você me convencer a lê-lo. Use e abuse de recursos que não estão disponíveis nos documentos escritos: muitas imagens (ao contrário dos papers, não há limite de figuras nos slides), animações, cores, explicações.

Uma das piores apresentações a que fui no último congresso foi uma em que o autor usou slides brancos com textos em preto de cima baixo, e o apresentador ficava olhando para a tela e lendo (acho que nos 15 minutos ele mostrou 2 figuras). Impossível prestar atenção.

Coloque um grande número de equações complexas

Eu faço Doutorado em Engenharia Mecânica e portanto não tenho medo de matemática, mas interpretar equações dá trabalho. Vou repetir: eu posso ler o seu artigo depois, com calma, de preferência escutando música clássica. Na sua apresentaçao, eu quero ter um panorama do seu modelo matemático, entender de onde você partiu e onde você chegou, e entender o que é possível inferir ou calcular com ele.

Se você põe equações cujos termos você não consegue explicar claramente em um minuto, vai ficar muito difícil de prestar atenção em você.

Tente me enganar

Eu, que sou um expectador mediano, consigo perceber quando o seu trabalho é uma enganação; que dirá de professores e pesquisadores mais experientes. Se eu, como alguém que está assistindo à sua apresentação, perceber que você está tentando fazer o seu trabalho parecer muito maior que é, você vai perder a credibilidade comigo, e não há motivo para eu prestar atenção em alguém que não é confiável.

Penso que uma apresentação de congresso não precisa ser revolucionária. Eu sei que a falta de recursos financeiros e materiais dificulta as pesquisas. Uma das apresentações mais interessantes a que assisti recentemente envolvou a repetição de um experimento clássico, mas variando um parâmetro ainda pouco explorado. O aparato experimental era simples, a ideia era simples, mas o trabalho era consistente e rigoroso, e representou um avanço no conhecimento (palavras de um colega meu, quando discutíamos essas questões).

O que você não deveria fazer é gerar dois gráficos de um experimento que você preparou em um mês, não representando nada de novo em relação ao disponível na literatura, e achar que está em pé de igualdade com todos os outros apresentadores do congresso.


Esses são desabafos mostrando que o eu acho que você não deveria fazer. Agora, se você quer dicas do que fazer, sugiro esse artigo do Prof. Matt Might, de onde tirei algumas das ideias acima.

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Spotify como ferramenta de trabalho

Há algumas semanas, em parte tentando economizar e parte como um exercício de penitência, eu cancelei minha assinatura do Spotify.

Existem duas situações principais em que uso o Spotify:

  1. Na esteira da academia
  2. Trabalhando

O primeiro foi fácil de resolver. Eu tenho uma seleção razoável de músicas na minha conta no iTunes, que podem ser exportadas para o app do Google Play Music no meu Moto X. Como essas músicas já foram compradas, eu não gastaria nada a mais para ouvi-las, e ficaria sem a possibilidade de experimentar música nova a cada dia, que era uma minúscula privação a que eu estava disposto a me submeter. Ou eu podia simplesmente escutar algum bom podcast.

Já a segunda situação foi bem mais difícil, e foi o que me motivou a assinar o Spotify de volta.


O Spotify já não é mais um luxo para mim, mas uma das minhas ferramentas de trabalho mais importantes. Se você tiver a chance de me observar no laboratório onde trabalho, frequentemente vai me ver com fones de ouvido, lendo, escrevendo ou programando. Além de ajudar a isolar parte do barulho de equipamentos e conversas e de servir como um sinal de “não perturbe”, a música efetivamente me ajuda a me concentrar. Não qualquer música, naturalmente, mas algo instrumental, clássico, calmo. Minhas playlists favoritas são:

Uma situação que tem se tornado típica é escutar a essas playlist mesmo longe do computador. De fato, o que me fez assinar de volta foi uma viagem que fiz a um congresso; estava levando material impresso para estudar e sabia que ir escutando música ia fazer diferença, e a conta Free do Spotify não permite sincronizar as músicas com celular para ouvir offline (como eu estaria no avião). Acredite: os trajetos de avião ficaram bem mais produtivos com algumas das playlistas acima a postos no meu bolso.

Para usar os termos do post anterior, escutar esse tipo de música é parte essencial das minhas sessões de trabalho.


O Spotify também é um excelente exemplo da diferença entre custo e valor. O Spotify me custa pouco (de tal forma que o valor economizado com o cancelamento da assinatura ia ter pouco impacto nos meus objetivos financeiros) mas me traz muito valor. Como Gustavo Cerbasi falou num vídeo recente, o importante não é simplesmente cortar gastos, mas cortar aquilo que não contribui na sua qualidade de vida. Como um exemplo de situação oposta, recentemente cancelei minha assinatura em um daqueles Clubes de Cerveja: por mais que seja interessante, eu achava que estava gastando muito dinheiro e não encontrava satisfação (frequentemente recebia cervejas que não eram do meu gosto, por exemplo). Economizar esse valor mensal foi uma decisão fácil.


E o leitor, costuma ouvir música enquanto trabalha? Tem algum estilo preferido? Respondam nos comentários!

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Como eu gerencio meu tempo: projetos, sessões de trabalho, tarefas

À medida que vamos discutindo gerenciamento de tempo, é importante definirmos alguns conceitos básicos para que a linguagem seja a mesma.

Projetos

Para mim, o conceito fundamental do gerenciamento do tempo é o de projeto. Numa visão simples, um projeto é um resultado que você quer alcançar. É um passo rumo às metas que você define em diferentes horizontes de tempo, conforme discutimos em outro post. Você vai decompondo as suas metas em estágios, até chegar em um projeto que você conseguiria completar em alguns meses.

Por exemplo, para ficar num exemplo pessoal e atual, uma das minha metas mais importantes é defender o meu doutorado daqui a dois anos. O que preciso fazer para chegar até lá? Para que o leitor entenda, minha tese envolve parte de um projeto inovador de um refrigerador magnético. Um dos subcomponentes é o ímã que vai operar esse sistema, então aí temos a primeira decomposição: para defender meu doutorado, preciso “projetar o ímã”. Entretanto, isso ainda é algo muito geral, abrangente e difícil de visualizar, e precisamos decompor melhor essa visão. Uma tarefa referente ao projeto do ímã, após ter feito toda uma revisão da literatura, é propor uma solução e executar simulações numéricas para ver se ele vai atender aos requisitos — e temos mais uma deconstrução: “executar simulações da solução proposta de ímã”, ainda muito geral (vamos simular variando quais parâmetros?). Após alguns testes, surge-me a ideia: escolher faixas para os principais parâmetros (as dimensões, as propriedades dos materiais, o número e a forma das partes que formam o ímã), executar as simulações e plotar os resultados para essas faixas; “criar gráficos mostrando campo magnético obtido em função dos principais parâmetros” se torna um projeto. Por que parar aí? Porque eu consigo imaginar os passos individuais que me levam a este projeto, e consigo imaginar como vai ser o resultado final, físico: uma série de gráficos que eu possa analisar e discutir com meu grupo de pesquisa.

Para a metodologia GTD, projeto também é uma definição importante: é tudo que demanda 2 ou mais passos para ser executado. Acho essa definiçãomais ou menos equivalente à minha; eu só gosto mais de focar na questão de que resultados queremos com esses 2 ou mais passos (tenha em mente, porém, que a definição do “Resultado Esperado” é uma etapa importante da organização de projetos segundo o GTD).

Eu considero essa definição a mais básica porque gerenciar o tempo, para mim, é gerenciar e organizar os projetos que vão me levar às minhas metas de vida. Conforme falei no outro post, essa visão de organizar as suas tarefas “de cima para baixo” mudou bastante a minha percepção de tempo. Futuramente vou falar mais detalhadamente de como organizo meus projetos.

Sessões de trabalho

De maneira agora bastante diferente da metologia de GTD (e de muitos métodos de gerenciamento de trabalho), para mim a definição lógica seguinte à de projetos é da sessão de trabalho. Os meus projetos não são realizados/completados de maneira solta e livre, mas quando eu (para usar um jargão bem sofisticado) “sento e trabalho”. É esse ato de sentar e pôr a minha capacidade de pensar a serviço de algum projeto que é o que estou chamando de sessão de trabalho.

Eu nunca tinha parado para pensar nessa questão de formalizar a sessão de trabalho até ler Workflow Mastery, de Kourosh Dini. O autor define a sessão como “o tempo, espaço e atenção usados para desenvolver um fluxo de trabalho”. A componente de atenção é particularmente importante; em futuros textos, vamos investigar muito a fundo a relação entre gerenciar a sua atenção e gerenciar o seu tempo. Se, num sessão de trabalho, é desejável você trabalhar com o máximo de atenção (para aumentar a qualidade do que você faz durante essa sessão), então, como argumenta Dini, é interessante você se preparar antes da sessão, impedindo que a sua atenção seja roubada durante. Por exemplo, se você precisa estudar um documento importante (um livro, um artigo, até um contrato), o simples ato de deixar à vista algo que remeta você a uma procupação (como aquele formulário que você precisa preencher, ou uma lista de exercícios de uma disciplina, ou até mesmo um simples objeto que você só precisa guardar) pode arruinar a sua concentração.

Em textos futuros, pretendo explorar mais a fundo a maneira como eu abordo sessões de trabalho; por agora, fica essa reflexão de que, para avançar em algum projeto, você precisa criar um conjunto de condições que, quando organizadas, elas formam uma sessão de trabalho.

Pessoalmente, encaro sessões de trabalho como ferramentas para realizar projetos, e aí está a minha principal divergência com a metodologia GTD. No GTD, aprendemos que devemos trabalhar por contextos: idealmente, você teria uma lista de coisas que têm de fazer ao computador, e quando estiver ao computador trabalharia somente nessas tarefas; você também pode ter uma lista para fazer em casa, e quando estiver em casa se concentraria só nessas tarefas. Para mim, essa mentalidade não reflete em nada como eu trabalho. O maior problema é que eu não procuro trabalho baseado no contexto em que estou, eu procuro formar o contexto baseado no trabalho (em algum projeto) que eu quero fazer.

Uma visão similar é encontrada nesse post de Kourosh Dini: ao começar o dia, você tem a chance de planejá-lo baseado nas sessões de trabalho a que quer se dedicar. Se estou em casa e vejo que tenho um projeto importante a desenvolver mas que requer que eu esteja no laboratório, muitas vezes faz mais sentido ir até lá em vezes de “trabalhar pelo contexto de casa”; as atividades que eu poderia adiantar em casa possivelmente não vão contribuir tanto para meus projetos importantes (e minhas metas) quanto aquelas que eu poderia estar fazendo se fosse para o laboratório.

Para uma outra visão sobre planejamento do dia, com essa noção de sessões apenas implícita, esse post de Cal Newport (sempre ele) tem me influenciado bastante.

Tarefas

Uma tarefa é a atividade que pode ser realizada numa sessão de trabalho. “Pegar assinatura de orientador para formulário” é uma tarefa simples de desenvolver: eu subo até a sala dele, bato na porta, pego a assinatura e volto para minha sala; assim, “pegar assinatura de orientador para formulário” é uma tarefa que poderia ir numa lista de tarefas para o dia de hoje, sem precisar quebrar em sub-passos como “pegar elevador”, “bater na porta” etc.

Mas “Trabalhar no rascunho do artigo X” também é uma tarefa. Se quero trabalhar no artigo X, sento na frente do computador, abro os arquivos correspondentes e vejo de onde parei. À medida que vou escrevendo, vou percebendo outras “tarefas” relacionadas, como criar uma figura explicativa, ou procurar a referência para tal informação, mas todas elas são desenvolvidas dentro de uma sessão de trabalho, principalmente porque você delimita um tempo e um espaço. Eu começo sentado ao computador, mas depois me levanto para pegar um livro na prateleira; então reviso o capítulo que queria, escrevo uma breve análise no tal artigo, e assim continuo. Quando acho que fez o suficiente pelo dia, eu completo a tarefa de trabalhar no artigo, mesmo que não tenha terminado o artigo em si.

Em próximos textos, vou explicar que o problema fundamental para quem tem de criar as próprias listas de tarefas é a mistura entre esses dois extremos do que entende-se por “tarefas”.

Sugestões de ações

No primeiro texto dessa série, sugerir algumas ações que o leitor podia tomar se quiser tentar se organizar de forma similar a mim. Aqui vão mais algumas dicas relacionadas a esse texto de hoje:

  1. Revise as suas metas de curto prazo, i.e. que você quer realizar em até dois anos. Agora tente chegar numa lista de projetos que você pode executar agora (e terminar em alguns meses) que vão levar a essas metas.
  2. No começo de cada dia, tome um tempo para planejar: que tarefas você quer realizar hoje? Quais são os projetos prioritários que você quer fazer avançar hoje? E como vai encaixar no seu dia sessões de trabalho para elas?
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Orar como exercício de produtividade

Vou fazer algo que acho que nunca fiz aqui, que é citar a Bíblia:

Então Jesus falou a seus discípulos: “[…] Quanto a vocês, não fiquem procurando o que vão comer e o que vão beber. Não fiquem inquietos. Porque são os pagãos deste mundo que procuram tudo isso. O Pai bem sabe que vocês têm necessidade dessas coisas. Portanto, busquem o Reino dele, e Deus dará a vocês essas coisas em acréscimo.” (Lc 12, 29-31)

Pode ser estranho estudar um assunto como produtividade, porque corre-se o risco de entrar num círculo vicioso: você gasta tanto tempo estudando como cumprir tarefas de maneira rápida e organizada que não sobra tempo para cumprir as suas tarefas de fato. Com o tempo, desde que li A Arte de Fazer Acontecer pela primeira vez, amadureci e percebi que é sim importante estudar e tentar ser organizado, mas que existem muitas nuances que escapam das dicas tradicionais como “mantenha uma lista de tarefas” ou “deslique as notificações do celular”.

Para mim, ser produtivo significa fazer o melhor doutorado do mundo (ambicioso eu, não?), publicar artigos de qualidade e defender minha Tese no prazo, ao mesmo tempo que eu não passe noites e fins de semana sem fim trabalhando e consiga aproveitar os momentos em que não estou trabalhando. Eu quero ter a liberdade de assistir um filme com minha noiva sem ficar pensando se não deveria estar adiantando aquela tarefa, e quero ter a certeza de vou chegar nas vésperas da minha defesa e não vou surtar porque “deveria ter feito tanta coisa”.

Primariamente, as coisas que me impedem de ser produtivo são aquelas que destroem minha atenção e minha concentração. Se não consigo me concentrar em um dado dia, não vou conseguir escrever, nem revisar um artigo, nem realizar simulações dos meus problemas de engenharia, nem criar nada de relevante. Se não consigo fazer isso ao longo de vários dias de trabalho, vou ter de compensar isso de alguma forma lá na frente e nos momentos que eram para ser de descanso. Ou seja, se quero ser (e me sentir) produtivo, preciso aprender a controlar minha atenção e ser capaz de manter o foco, regularmente, durante os dias e horários de trabalho.

Por isso, ao longo das últimas semanas, eu tenho descoberto que a religião é uma das melhores ferramentas de produtividade.


Nos últimos meses, eu e minha noiva temos participado das Oficinas de Oração e Vida, que são grupos católicos onde se aprendem técnicas para orar mais profundamente. Uma das bases das técnicas é a Sagrada Meia Hora, onde somos convidados a separar trinta minutos diários para sentar, com calma e concentração, abrir a Bíblia e lê-la profundamente, meditar, orar e conversar com Deus. É uma experiência realmente transformadora, porque traz a experiência religioso para o cotidiano, em vez de ficar relegada às missas aos domingos e ocasiões festivas.

Para mim, o melhor horário para cumprir a Sagrada Meia Hora é de manhã cedo, logo que acordo (e acordando um pouco mais cedo, se necessário), porque é quando minha mente está mais calma. E foi numa dessas sessões que me deparei com a passagem que citei acima, e ao meditá-la tive uma revelação. Eu percebi o quanto que, desde que comecei a frequentar as Oficinas de Oração e Vida, sinto-me mais produtivo, porque me sinto mais calmo. Logo de manhã cedo, eu já desabafo minhas angústias e minhas preocupações, muitas vezes escrevendo-as em forma de oração, e isso se reflete na minha capacidade de me concentrar ao longo do dia. A oração também me ajuda a esquecer alguns problemas profissionais, a relevar conflitos com colegas, a esquecer arrependimentos.

Na passagem acima, subsititua “comer” e “beber” por “fazer”, “alcançar”, “cumprir”, e a mensagem torna-se mais clara. Ao buscar Deus, ao orar regularmente, ao exercer o bem, ao esquecer as mágoas, criamos uma estrutura de vida tal que outras coisas boas começam a acontecer conosco — e isso é Ele nos dando em acréscimo.


Não estou tentando evangelizar ninguém (apenas, caso o leitor seja católico, recomendo fortemente experimentar as Oficinas). Tente trocar a experiência da oração por outra, como uma simples meditação, ou uma leitura de algum livro inspirador e significativo, ou uma forma de trabalho voluntário. Meu ponto é: tão importante quanto conferir o calendário regularmente é saber cuidar da sua mente, saber resolver conflitos internos. Por mais que muitas vezes tenhamos a imagem de “máquinas de criar resultados” para nós, no fundo somos apenas humanos e queremos apenas viver melhor.

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Acostumando-se com o desconfortável

A minha namorada reclamou que a minha resenha de So Good They Can’t Ignore You ficou meio incompleta e sem muitos exemplos (“principalmente depois de você viver carregando esse livro para lá e para cá”, foi o que ela ficou com vergonha de dizer). Então vamos tentar corrigir esse problema

So Good pode parecer um livro estranho. “É óbvio que você deve ser bom no que você faz”, o leitor pensa. Não é difícil aceitar que pessoas de sucesso trabalharam duro e são boas no que faz. O que não é óbvio é a relação disso com a felicidade no trabalho, e como é isso é mais importante que “sonhos” ou “paixão”. Na minha curta carreira científica, conheço muitos professores e pesquisadores que tomo como exemplo (alguns são grandes amigos), e que percebo que são felizes no trabalho. Porém, embora eu nunca tenha perguntado, posso adivinhar que eles não diziam “Quero ser um especialista em Termodinâmica” quando perguntados o que queriam ser quando crescer; de fato, pouco importa como eles foram parar nessa profissão. Essas pessoas donas de careiras notáveis são felizes porque são admiradas pelos seus pares, possuem cargos em universidades de prestígio, perseguem os projetos que lhe interessam — e o que os fez chegar até ali não foi sorte, ou um amor incondicional pelas ciências, mas o fato de que eles são extremamente habilidosos.

A pergunta seguinte é: como, então, se tornar tão bom a esse ponto? E essa é a segunda ideia não-trivial de So Good: você precisa se acostumar a fazer coisas difíceis.

Como esse assunto me interessa, ainda pretendo pesquisar muito (e o próprio Newport traz referências), mas os conceitos giram em torno da prática deliberada. Para ficar em um exemplo mencionado no livro, você não fica bom em guitarra praticando a escala de Dó Maior 100 vezes por dia; você pode ser tornar o próximo Clapton se praticar cada vez mais rápido, ou mudar de escalas, ou tentar um riff que você nunca tentou. Como diz Matt Might, o conforto fomenta a fossilização técnica.

Falando na minha namorada, ela mencionou que estava tendo dificuldades em utilizar um novo modelo de planilhas do Excel. “Ótimo!”, foi o que respondi. A maneira mais efetiva de ficar tão bom que eles não possam ignorá-lo é buscar rotineiramente fazer coisas difíceis, esticando (um termo de Newport) o seu cérebro e as suas habilidades. Se aquele modelo de planilha, com novos procedimentos de cálculo, é difícil de usar, significa que poucas pessoas vão conseguir fazê-lo, e aquelas que conseguem vão se diferenciar.

Este, portanto é o conceito que eu mais estou tentando implementar e testar no meu dia-a-dia. Como parte do meu doutorado, eu preciso aprender a usar um programa de simulação, e vinha evitando com medo da dificuldade e da angústia da frustração. Depois de ler So Good, percebi o quanto isso é normal e que eu precisava combater esse sentimento. Comecei então a todo dia tentar fazer alguma coisa que seja, cumprindo um novo desafio a cada semana. Agora, não me sinto um expert no tal programa, mas já me mais satisfeito quando tenho de trabalhar com ele, e sinto que poder usar esse software de uma forma nova pode fazer diferença no meu doutorado. E já sei o próximo desafio que preciso cumprir, e estou animado para atacar mais esse problema.

Para ficar em um outro exemplo, uma das carreiras que admiro é Myke Hurley, fundador da rede de podcasts Relay FM. Não tenho dúvidas que um dos motivos do seu sucesso é a sua disposição de tentar coisas novas e difícies; quantas pessoas se arriscariam a dedicar um show a entrevistar nerds sobre o seu álbum favorito? Isto exigia um novo nível de produção de podcasts, mas isso não foi impedimento.

Sugiro então que o leitor faça essa pequena auto-avaliação. Que habilidade o leitor está ignorando mas que pode fazer diferença? O que o leitor pode aprender na sua profissão que ninguém mais quer aprender por causa das barreiras, e que vai tornar o leitor na maior autoridade no assunto?