Todos os posts de Fábio Fortkamp

Sobre Fábio Fortkamp

Escritor, engenheiro, estudante de doutorado, interessado em ciência, tecnologia e produtividade, leitor serial, bebedor de cerveja, apaixonado por bons filmes.

Lendo um paper, e me deparo com a seguinte frase:

O valor de tal variável foi escolhido por conveniência…

Mas o autor poderia muito ter escrito de maneira mais direta:

Testamos vários valores dessa variável, mas esse foi o que gerou os gráficos mais bonitos.

Tenho certeza de que a profissão do leitor tem suas próprias maneiras de suavizar “gambiarras” na hora de comunicar-se — quais são?

Como edito minha Tese de Doutorado de maneira eficiente

Em Fator de Enriquecimento, Paulo Vieira fala que um dos segredos para a riqueza é dedicar uma hora por dia, seis dias por semana, ao estudo, ao aprimoramento do seu trabalho. Com o tempo, isso leva a um grande desenvolvimento de suas habilidades, até um ponto em que você pode trocá-las por melhores salários.

Apesar de ter muitas ressalvas em relação a esse livro, essa ideia é seu o melhor ensinamento, e tenho tentado ficar mais atento a como melhorar minhas atividades. As teorias de sistemas enxutos (lean) também se baseiam no conceito de Kaizen: se algo está errado, precisa ser imediatamente consertado — a melhoria contínua.

Para melhorar meus processos de trabalho, o primeiro passo é simplesmente ficar mais atento a eles; esse post é uma maneira de documentar meu processo para editar minha Tese de Doutorado, junto com indicações de melhorias de processo. Enfatizo o verbo editar, e não apenas escrever, porque o que vou descrever aqui se aplica a essa situação específica: eu já tenho um manuscrito completo, tenho arquivos de referência com alterações dos meus orientadores, e preciso então mudar algumas frases e imagens da minha Tese.

O primeiro passo, aparentemente trivial, é sentar na minha mesa, com uma versão impressa e corrigida da Tese ao lado. Gosto de sentar de maneira bem confortável, com um caderno para anotações sempre por perto.

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Como todo pesquisador que se preze, eu escrevo meus documentos científicos em \LaTeX, que já cobri aqui algumas vezes. O meu editor de texto preferido para \LaTeX é o Emacs, um programa bastante arcaico e bastante poderoso — mais sobre ele em um minuto. Para visualizar o PDF compilado, no macOS a melhor opção para integração com Emacs é o Skim. Para tornar esse início de processo o mais consistente e eficiente possível, eu criei um fluxo de trabalho no Alfred que, com um comando, executa os seguintes passos:

  1. Abre um terminal de comando
  2. Muda o diretório atual para a pasta com a minha Tese
  3. Baixa a versão mais recente do repositório da minha Tese no GitHub
  4. Abre o Emacs no arquivo .tex em que estou trabalhando, a abre o Skim do lado:

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(Sim, claro que estou usando Palatino).

O principal recurso que me interessa no Skim é que posso manter o PDF aberto no Skim de um lado da tela, trabalhar no Emacs de outro, e ao re-compilar o documento o PDF é automaticamente atualizado:

A razão de, com tantos editores mais “modernos” disponíveis, eu ainda continuar usando o Emacs é que, especialmente com o pacote AUCTeX, esse programa sinceramente faz um pouco de mágica. Veja no video a seguir como, quando eu quero inserir uma referência, com um comando eu posso procurar por palavras chaves e o Emacs me mostra as opções lindamente formatadas:

Quanto a minha configuração do Emacs, ela está no GitHub para os aventureiros; se for do desejo dos leitores, posso falar mais sobre esse editor aqui no blog (deixem comentários!). Um detalhe que quero abordar é em relação ao tema de cores, já que ter um ambiente confortável para se trabalhar faz parte da melhoria contínua. Depois de muito tempo usando temas de fundo escuro, nas últimas semanas estou muito satisfeito com o Leuven, que tem essas cores bem interessantes (a minha parte preferida é a barra azulzinha embaixo). E para todas as coisas que envolvem programação, a minha fonte preferida é a DejaVu Sans Mono.

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E o leitor, que achou do meu processo? Tem alguma dúvida? Deixem nos comentários!

Lidando com Depressão

“Eu não tenho dúvidas de que você é uma pessoa doente.”

Quando você vai a um médico, até espera ouvir que está doente , posto que ir ao médico com a certeza de não ter nada é uma perda de tempo. Mesmo assim, ouvir essa frase, e de um médico psiquiatra ainda por cima, causa certo impacto. Estava acostumado a lidar com gripes, infecções, inflamações. Tudo isso é palpável, cotidiano, fácil de lidar. Mas quando você descobre que seu cérebro está doente, que a sua própria maneira de pensar está desajustada, o que fazer?

Os sintomas foram se acumulando: crises de choro, pensamentos negativos intrusivos (sem conseguir pensar em outra coisa que não morte e doenças), irritabilidade em excesso, insônia, tensão muscular, pessimismo exarcebado.

De repente, frente àquela pergunta do médico se eu sentia prazer na vida, a resposta vinha rápida: Não. Eu mesmo já tinha pensado que se eu morresse, não seria a pior coisa do mundo.

Ainda bem que eu estava ali.


O diagnóstico: Transtorno de Ansiedade Generalizada e Depressão.

A causa? Difícil precisar. Através da Terapia Cognitiva, aprendi a me conhecer melhor e a evitar gatilhos para a ansiedade. Eu percebi que, durante toda a minha vida, acostumei-me a ser cobrado a sempre fazer mais; adquiri a mentalidade de que erros são catastróficos e vergonhosos, e é melhor sempre guardá-los para mim; e incorporei a visão de que, se algo não sai como eu planejava, é porque tinha dado muito errado.

Tudo isso foi se formando na minha mentalidade, ao longo da minha infância, sob influência do meu ambiente familiar e das várias pessoas que conviviam comigo. E agora, aos 30 anos, é hora de consertar a minha visão de mundo.


Agora estou bem. Estou medicado, estou fazendo terapia, casei-me com o amor da minha vida, e nunca larguei da mão de Jesus para me ajudar a passar por isso. Para mim, esses são os quatro pilares fundamentais para lidar com depressão:

  1. Tratamento clínico
  2. Terapia
  3. Apoio da família
  4. Vivência da espiritualidade

Se você se identifica com essa história, ou conhece alguém assim, eu vou ser mais um que fala: a depressão não é chatice, não é tristeza, não é uma fase — é uma doença.

Vejo que é comum ter preconceitos contra remédios psiquiátricos, como se fosse uma solução mágica. Eu gosto de pensar nos anti-depressivos como “desengatar o freio de estacionamento”. Antes de ir no psiquiatra, eu já estava fazendo terapia, orava constantemente, tinha ajuda da família. Mas era como um carro com o freio de mão engatado; por mais que empurrasse, não ia para frente. Começar um tratamento com medicamentos me libertou; agora, eu posso usar todos esses apoios e retomar o controle da minha vida. Com o tempo, vou também aprender a manejar eu mesmo o freio de mão.

Meu maior conselho: não hesite em procurar ajuda. Vá num posto de saúde e procure encaminhamento. Procure psiquiatras que atendam pelo seu plano de saúde; e se ele não estiver ajudando, procure outro (foi o que fiz). Em último caso, procure um psiquiatra particular e tire dinheiro de outra fonte — tire da poupança, pare por um tempo com algum gasto recorrente. Se você perdeu o ânimo para viver, isso é uma emergência.

Não é normal se sentir miserável o tempo todo. Não é normal viver numa correria eterna. Não é normal passar o dia de hoje preocupado com o amanhã. Não é normal tratar os outros com raiva.

O normal é ser feliz.

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Diário de viagem em Darmstadt – Dia 2: Passeio em Frankfurt

Supostamente este é um diário de viagem em Darmstadt, mas este blogueiro que vos fala vai falar de Frankfurt.

Aproveitando a visita de um amigo que está morando na Alemanha e conhece Frankfurt, formamos um grupo e fomos fazer turismo lá. Exista uma linha de S-Bahn que liga Darmstadt a Frankfurt (a S3), e o trajeto passar por subúrbios muitos bonitos. Um ticket diário para andar de maneira ilimitada entre Darmstadt e Frankfurt custa €16.55.

A capital econômica da Europa não é exatamente uma cidade turística, mas existem muitos pontos bonitos. E é um clássico exemplo de “cidade grande que parece pequena”. Minha hipótese para explicar esse efeito é que a cidade comporta o grande número de pessoas que tem, ao contrário de cidades como Florianópolis, cujas ruas foram construídas para a população de 40 anos atrás.

Em muitos aspectos, Frankfurt parece uma típica cidadezinha europeia, com suas ruas de comércio e praças. Mas também comporta galerias comerciais grandes e muitos bancos, incluindo o Banco Central Europeu.

E, claro, não podem faltas igrejas, como a de Santa Catarina:

a de São Paulo, que já serviu de sede para o proto-Parlamento alemão:

e a Catedral de São Bartolomeu, de onde é possível subir e tirar muitas fotos do Rio Main:

Falando a língua

Um adendo para terminar o post de hoje. Eu já morei na Alemanha como estagiário e estudei durante muitos anos. Desde que cheguei em Darmstadt, praticamente só me comunico em alemão. Meu segredo: eu não tenho de falar errado — eu simplesmente tento.

Eu morei na Dinamarca no ano passado e não consegui aprender a língua, sobrevivendo no inglês. Eu acho fortemente que qualquer pessoa com condição deve falar inglês, e que ela simplesmente é a língua universal; em um congresso na Alemanha, eu consigo conversar naturalmente com dinamarqueses, italianos e esloveno. Mas também acho fortemente que a experiência de visitar um país e poder se comunicar no idioma local é algo fantástico.

Diário de viagem em Darmstadt – Dia 1

Estou aqui em Darmstadt para participar do maior congresso da minha área, e resolvi fazer um experimento não antes tentado aqui neste blog: documentar meu diário de viagem.

A experiência de chegar em Darmstadt

Eis algo que os leitores precisam conhecer sobre mim: eu não gosto de andar de avião. Como eu moro em Florianópolis, ir para a Europa geralmente envolve três trajetos aéreos: um para Rio ou São Paulo, outro para um aeroporto de entrada no continente europeu, e possivelmente um terceiro trajeto. A melhor parte dessa viagem é que basta ir para o Aeroporto de Frankfurt.

Abre parênteses: presenciei muito estrangeiros nos Aeroportos de Florianópolis e São Paulo, e em todos os casos em que eles precisaram interagir com alguém, o funcionário não soube falar inglês, e ainda usou a técnica bizarra de falar português mais alto e devagar para se fazer entender. Sei que existem muitas questões socioeconômicas por trás disso, mas parece-me que esses dois aeroportos privatizados têm mais que condições de ensinar inglês aos seus colaboradores, já que receber pessoas é o seu negócio. Fecha parênteses.

Minha experiência de vôo foi boa, e o Aeroporto de Frankfurt estava vazio. Desenferrujei meu alemão e perguntei onde pegávamos o ônibus para Darmstadt, e está bem escondido. O trajeto do aeroporto para Darmstadt custa EUR 8,70, mas o trajeto é tranquilo e o ônibus é bem confortável.

Primeiras impressões

Não consegui tirar muitas fotos por causa do horário e do cansaço, mas Darmstadt parece ser muito agradável. Estamos localizados bem ao lado da Estação Central (Hauptbahnhof), e inclusive já fiz algo que adoro fazer quando viajo: fazer umas comprinhas de lanches para ter no hotel e conhecer um supermercado local.

Também já matei a saudade da comida alemã com um típico Schnitzel (filé de porco empanado):

Esse prato é da cervejaria Braustübl; abstive-me de cerveja para cumprir a promessa para minha adorável esposa de não-preciso-beber-todo-dia-só-porque-estou-viajando. Mas o lugar é muito bom e tipicamente alemão, acompanhando inclusive da grosseria usual dos germânicos ao atender pessoas.

***** 
Ao longo da próxima semana, pretendo mostrar mais coisas da minha viagem. Fiquem ligados!

Breves comentários sobre Tomb Raider: A Origem

Estou aqui em um avião indo para Frankfurt, e como não tenho nada melhor para fazer no momento, vou tecer alguns comentários sobre o filme que acabei de ver: Tomb Raider: A Origem (2018).

Eu sou grande fã da Alicia Vikander, joguei os jogos quando era adolescente (em um PlayStation da primeira geração), e vi os filmes com a Angeline Jolie — mas sinceramente, não me lembro destes o suficiente para fazer paralelos com o filme atual. Minha análise é como expectador que está relativamente familiarizado com a história. Resumindo a trama em uma sentença: Lara Croft descobre que o pai que a abandonara quando criança deixou pistas sobre um lugar sobrenatural e parte para encontrá-lo.

O filme é bom, e recomendo ao fãs da franquia de video game. Mas para os que nunca jogaram, temos um problema: o maior defeito do filme para mim é que ele se parece demais com um video game, com pulos acrobáticos, lutas cinematográficas a toda hora e até os gritos de Lara Croft que parecem sons gravados.

A história peca em alguns pontos, na minha visão. No começo do filme, Lara perde uma luta em uma academia onde treina, dando indícios de uma pessoa que está se iniciando em artes marciais apesar de ter um corpo com nada de gordura — mas depois, quando viaja para encontrar o pai, de repente ela consegue saltar entre árvores e bater em soldados armados. Como diabos ela começou a lutar tão bem assim? E além disso, a explicação do pai sobre por que começou a ir atrás dessas coisas místicas me parece uma preguiça de roteiro; sem querer dar muitos spoilers, parecx§e-me mais natural que uma pessoa que sofre uma perda ir atrás de Deus do que de repente se tornar o maior especialista em ocultismo do mundo.

Em resumo: um bom filme de ação, mas nada sensacional.

Como gerenciar uma agenda caótica

O Thomas Frank, cujo canal do YouTube eu adoro, recentemente publicou um vídeo sobre como gerenciar sua agenda em tempos caóticos. Embora o vídeo não seja ruim, para mim faltam dicas realmente eficazes.

Como alguém que está a dois dias de casar, a uma semana de uma viagem internacional e a um mês de defender uma tese de doutorado, essas são as minhas dicas para quem quer gerenciar uma agenda caótica.

Use um calendário e uma lista de tarefas

A sua mente normalmente já é ruim para se lembrar de tudo que tem de fazer; quando há coisas demais a fazer, essa situação só piora.

Não importa a sua profissão, você precisa de um calendário. O Google Calendar é grátis, excelente e tem aplicativos para qualquer plataforma. Além disso, bons programas de calendário podem se conectar a ele. No macOS, estou experimentando o BusyCal; no iOS, meu favorito é o Fantastical, embora o próprio app do Google Calendar não seja ruim.

Sistemas de calendário em geral fazem diferenciação entre eventos regulares, com horário marcado, e eventos “de dia todo” — esse último é ótimo para colocar simples lembretes.

Para começo de conversa, todos os seus compromissos têm de estar no seu calendário. Quanto eu digo todos, eu quero dizer inclusive:

  • Consultas de qualquer tipo
  • Aulas de qualquer tipo
  • Lembretes para vencimentos para contas
  • Jantares e almoços com a família
  • Lembretes para fazer check-in para viagens
  • Lembretes para aniversários de outras pessoas
  • Tempos de deslocamento para compromissos

Eu admito que pode ser demais, mas no meu calendário estão também eventos como “dormir” e “almoçar”. Pode parecer loucura, mas isso garante que eu, ao examinar e planejar um dia, eu possa imediatamente ver quais os meus horários realmente livres. Eu uso um sistema de cores que me permite identificar quais são os compromissos realmente marcados (principalmente se envolverem outras pessoas), quais são apenas meus hábitos e quais são apenas “desejos” meus de fazer alguma coisa (como correr em um determinado horário.

Você precisa também de uma lista de tarefas. Como já falei aqui, eu uso o Todoist. Se a sua agenda está realmente caótica, não se preocupe muito em organizar suas tarefas por “projetos” ou “contextos” (embora isso seja muito útil, e pretendo continuar falando sobre GTD aqui). Insira tarefas que não tenham horário ou dia predefinido (que entrariam no calendário), adicione prazos (se realmente existirem)

Nos intervalos entre seus muitos compromissos, examine regularmente o calendário e sua lista de tarefas, e assim a chance de você se perder no meio do caos diminui bastante.

Nota: sim, você pode gerenciar esse tipo de coisa com uma agenda de papel. Eu apenas acho conveniente usar esses serviços por eu estar sempre perto de um computador ou de um celular e tudo ser sincronizado entre todos os meus dispositivos.

Priorize o essencial mas mantenha seus compromissos

Como falei, vou casar daqui a dois dias, mas mesmo assim hoje fui ao meu laboratório entregar um material para meu colega, simplesmente porque eu havia assumido esse compromisso. Mesma coisa para minhas Oficinas de Oração e Vida — por mais que eu esteja cheio de coisas para fazer, isso não muda o fato de que a cada semana eu tenho 15 pessoas esperando que eu as ajude a orar melhor.

Claro que, para haver tempo para fazer tudo, eu tive de abandonar alguns compromissos, como algumas reuniões nas quais eu não era tão essencial assim. Também ajuda o fato de que eu já sabia que seria assim faz tempo, então adiantei muito minha Tese no mês passado e mantive a serenidade quando passei dias sem escrever nada, quando a agenda começou a ficar lotada. Voltando a falar do Todoist, só recebe prazo o que realmente precisa ser feito em determinado dia.

Não esqueça do corpo e da mente

Sim, estou no meio do caos, mas eu medito todo dia (usando o ótimo Headspace), oro todo dia por no mínimo trinta minutos, e entre os compromissos que eu abandono (como falei no item anterior) não estão minha corrida e a musculação.

Cair na tentação de parar completamente de fazer exercícios pela falta de tempo é uma péssima ideia: o sedentarismo só vai deixar com menos energia.


E o leitor, como mantém o controle como a agenda pega fogo?

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Um dia de trabalho típico (e um bom dia): programando em Python e plotando coisas no PyCharm.

A propósito: em 2018 eu finalmente parei de ser teimoso com a mentalidade de “uso apenas um editor de texto” ou “vou criar uns gráficos rápidos em Jupyter” para minhas tarefas que exigem programação. O PyCharm é fantástico para o meu fluxo de trabalho: lidando com módulos grandes, navegando entre classes e funções, executando scripts de pós-processamento. E eles oferecem gratuitamente licenças acadêmicas!