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Como tenho lidado com essa quarentena

Ficar isolado em casa não é fácil. Aliás, deixe-me reformular. Eu sou incrivelmente privilegiado por estar com minha família, protegido, conseguindo trabalhar e ganhar meu salário. Além do mais, eu adoro trabalhar em casa. De fato, passei grande parte de meu doutorado brigando por esse direito. As ideias de Cal Newport deixaram marcas em mim: eu trabalho melhor completamente isolado e concentrado numa tarefa. Odeio reuniões. Valorizo mais conversas por email, onde tenho tempo de pensar no assunto, do que encontros de corredor. Estar trabalhando em casa nessa quarentena, sempre em contato com minha esposa e meu filho, não é um problema.

Mas esse senso de incerteza, de que algo está errado, da insegurança de como vai ser quando acabar, de se vou pegar a doença quando vou ao supermercado, se alguém da minha família vai ficar doente — isso não é fácil, especialmente para aqueles que, como eu, sofrem com ansiedade e têm experiência com depressão. Como falei, a calma de ficar em casa é boa, mas não há variedade, corridas na rua, passeios com meu filho, restaurantes com minha esposa. E, claro: sinto falta de estar numa sala de aula, com os alunos tirando dúvidas, escrevendo em giz.

Estamos nos aproximando de completar um mês dessa situação, e em muitos lugares isto está longe de acabar. Aqui está o me ajuda a tornar esse momento mais leve, e espero que ajude outras pessoas. Essa dicotomia entre gostar de ficar em casa mas saber que as coisas não estão bem (e o que fazer em relação a isso) foi bem tratada em um Nerdcast recente.

Meditação

Se pudesse elencar um ato que tem me ajudado, é a meditação, o que tenho feito com o Headspace. Desde o nascimento do meu filho João, eu andava meio relapso nessa prática, dedicando-me apenas em alguns dias esporádicos. Nessa quarentena, porém, eu não falhei nenhum dia.

Meditar não é um ato religioso; é apenas parar e respirar. Embora digam que a meditação verdadeira deva ser completamente silenciosa, eu gosto de ter o guia do Headspace me sugerindo diferentes pontos no que me focar; gosto de explorar os diferentes temas; e a voz do Andy simplesmente me relaxa. O Headspace é um serviço pago, e eu trato como um gasto de saúde mental; mas se você está interessado, eles liberaram muitas sessões de graça. Baixe o app e se permite experimentar.

Oração

Eu acabei de falar que não trato a meditação como uma forma de orar, porque isso para mim é uma atividade em separado. Eu medito ao longo do dia, geralmente quando quero me acalmar, e durante apenas 10 minutos. Na oração, as Oficinas de Oração e Vida me ensinaram a praticar a Sagrada Meia Hora, 30 minutos dedicados à leitura da Bíblia e ao diálogo com Deus.

Pronto para orar bem aconhegado

Eu confesso que, desde o nascimento do João, em muitos dias não consigo achar 30 minutos de calma pois, quando ele vai dormir, eu mal mantenho os meus olhos abertos de tanto cansaço. Mesmo assim, sempre fiz um esforço de todo dia pelo menos fechar os olhos e fazer uma oração silenciosa, geralmente agradecendo a Deus. Nessa quarentena, consegui voltar a dedicar mais tempo, com uma rotina mais estável, e posso me sentar no sofá e me abrir. Como bem identificado por Frei Ignácio Larrañaga em Salmos para a Vida, eu alterno entre diferentes modos de orar: às vezes me comunico diretamente com Jesus, tentando seguir Seu exemplo humano; às vezes me dirijo ao Pai, pedindo ajuda e me aninhando eu Seus braços; e muitas vezes apenas contemplo a Sua Figura, sem falar nada.

O app Liturgia Diária da Canção Nova tem sido de grande ajuda nesse período. O app me mostra a Liturgia do dia e ainda traz uma homilia e um texto sobre o santo do dia. Muitas vezes eu apenas consulto as leituras no app mas leio de fato na minha Bíblia, mas ocasionalmente, quando estou cansado demais num dia corrido, eu leio no próprio app e medito um pouco.

Há um efeito colateral de medir a passagem do tempo, que anda bastante bagunçada, através do calendário litúrgico.

A meditação é o mínimo necessário para minha mente não se agitar muito. É na oração, porém, que eu realmente me consolo.

Exercícios

Já que não há mais caminhadas e passeios, meu corpo precisa liberar energia de outra forma. Tenho feito exercícios de manhã para me ajudar a acordar e me energizar um pouco.

Minha escolha de app de exercícios é o Seven, que propõe circuitos de sete minutos de exercícios sem equipamentos. Não se deixe enganar pelo tempo, pois o ritmo é intenso. Eu sempre faço dois circuitos, o que me dá 15 minutos de suor para começar o dia.

Eu tenho seguido um treino do Seven personalizado, que alterna as partes do corpo a focar em três sessões por semana. Nos outros dias, às vezes uso o “Move Mode” do Headspace, que tem exercícios estilo Yoga para alongar e relaxar (embora tenha treinos aeróbicos também), e muitas vezes faço treinos de abdominais e flexões apenas para fazer alguma coisa.

Meu filho adora ver o papai pulando na cozinha

Outra forma de variedade nos exercícios é ter alguns dias para simplesmente fazer abdominais e flexões, e uso dois apps da Adidas que não estão mais disponíveis na App Store.

Quanto ao espaço para praticar tudo isso, eu simplesmente coloco um tapete de ioga e um rolo na minha cozinha, quando ninguém está mais aqui. Não é o ideal nem a minha forma preferida de praticar exercícios, mas esse não é o tempo para se preocupar com perfeição.

Falta de espaço para me exercitar não pode ser desculpa

Leitura

Eu tenho lido muito nessa querentena e, depois de muito tempo pregar a superioridade de livros em papel, a paternidade me ensinou a ser mais pragmático e ler livros no Kindle, muitas vezes no celular ou no meu Kindle Paperwhite, em pequenos intervalos ao longo do tempo. Acho que não sou o único a ver meus hábitos mudarem.

Eu estou numa febre de livros de fantasia e históricos — e acho que isso tem a ver com fugir do tempo presente. A leitura é o meu momento de relaxar, e parei de me exigir tanto.

Foco

Nos momentos em que quero trabalhar de fato e desenvolver minhas aulas, uso o app Forest, que me força gentilmente a focar em uma tarefa e não tocar no meu telefone. Sendo sincero, para mim funciona como uma maneira lúdica de alternar entre momentos profissionais e pessoais (quando vou ficar um pouco com meu filho, arrumar algo da casa etc).

No Forest, você configura um tempo e escolhe uma árvore para plantar; se sair do app antes do tempo configurado, a árvore morre. Nada revolucionário, apenas uma maneira agradável de delimitar momentos de trabalho profundo.

Fazer o que eu gosto

Em geral, o mais importante tem sido tratar o momento com leveza. A Thais Godinho tem sido muito sensível em salientar muito isso em seus posts, e você deveria acompanhá-la, se gosta do que eu escrevo. Esse período não é fácil, mas vai passar. Acho que o mais importante é aproveitar as coisas boas, e faço questão de sempre registrar isso no meu diário: a oportunidade de almoçar todo dia com minha esposa, assinar o Globoplay só para assistir Modern Family, continuar cozinhando ouvindo podcasts.

Pode ser que falte um pouco de diversidade na minha fila de podcasts.

Coisas materiais podem ter parado, mas a vida continua.

Eu fazendo o que gosto. Em dias que não são a Sexta-Feira Santa o chá geralmente dá lugar à cerveja

Por Fábio Fortkamp

Pai do João Pedro, Marido da Maria Elisa, Professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade do Estado de Santa Catarina, católico devoto, nerd

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