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Dias bons, dias ruins

A pedido de meu orientador e como preparação para meu trabalho pesado no doutorado mais à frente, estou escrevendo um relatório revisando as técnicas de medição de propriedades interfaciais de fluidos (eu sei, você agora quer largar tudo o que está fazendo e começar a estudar para o vestibular para ser Engenheiro Mecânico e fazer algo tão excitante). Na semana passada, dediquei um dia inteiro a isso, e devo ter escrito no máximo uma página — ruim, ainda por cima. Não conseguia pensar em nada para escrever, e às vezes fiquei preso no meio de uma frase como poucas vezes eu fiquei. Pode ter sido por ser segunda-feira, ou por estar me sentindo meio resfriado, ou pela minha cabeça simplesmente não conseguir me concentrar, mas aquele foi um dia perdido.

Dois dias depois, numa quarta-feira de manhã, resolvi continuar a tarefa, e os resultados foram outros. Eu sabia perfeitamento o que devia ser escrito, onde procurar as informações, e estava conseguindo traduzir rapidamente as minhas ideias em frases. Preenchi praticamente todas as lacunas que tinha deixado na segunda e, embora não tenha escrito muito mais, o texto de uma maneira geral ficou bem melhor. Depois de uma manhã produtiva e de retornar da pausa para o almoço, eu sabia qual artigo eu tinha de ler a seguir, de qual informação eu precisava, e o que mais estava faltando. Terminei o rascunho do capítulo (para atiçar ainda mais a sua curiosidade, sobre tensão interfacial dinâmica) naquele mesmo dia.

Este pequeno texto é apenas um lembrete a mim e a vocês de que existem dias ruins e dias bons. É claro que todos temos tarefas administrativas que têm prazos apertados, mas, para trabalhos criativos que têm prazo mais longo (mais de um mês, eu diria), não adiantar forçar a sua cabeça a entrar num assunto quando ela não quer. Eu me conheço e sei que num outro dia eu conseguiria produzir muito mais (como aconteceu nesse caso, com um intervalo de apenas dois dias), mas mesmo assim na segunda-feira eu insisti em ficar olhando para a tela, sem ideia de qual tecla apertar a seguir, apenas para me ater a meu planejamento (essa minha falta de habilidade em flexibilizar planejamentos é um de meus grandes defeitos).

Eu poderia ter feito muitas coisas. Poderia ter lido algum paper (uma atividade básica de um estudante de doutorado), ou poderia ter me dedicado a algum outro projeto (por exemplo, sempre tenho muitas ideias de classes e pacotes de LaTeX que quero criar para me ajudar a escrever meus documentos). Ou eu poderia ter ido à biblioteca e lido algum livro que me interessa. Ou poderia ter tirado a tarde para aprender alguma coisa a mais sobre Python, a linguagem que vou usar para meus códigos no doutorado. Ou poderia até ter organizado minhas gavetas. Atividades menores mas que sempre ajudam na rotina do trabalho ou têm resultado a longo prazo. É claro que você não pode dedicar todos os dias a esse tipo de atividade mas, periodicamente, dedicar algumas horas a isso pode ser bastante produtivo.

Quando você é organizado, interessa-se realmente pelo que faz e administra prazos, sabe que sempre existem aqueles dias nos quais você está de bom humor, dormiu bem e se sente energizado, e é aí que o trabalho acontece. Vamos todos aprender então a administrar melhor os dias ruins e aproveitar para riscar coisas da nossa lista de “algum dia/talvez”, aquela lista de coisas que você quer fazer quando tiver tempo.

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Os melhores filmes que vi em 2014

Esse é um assunto que adoro e que nunca falei aqui, mas, inspirado por episódios recentes do Rapaduracast e do Podcast Cinema em Cena, vou falar dos 3 melhores filmes que vi em 2014.

Antes, um aviso: como comentado em algum dos episódios (não lembro qual), fazer uma lista desse tipo sempre causa o risco de se priorizar os filmes vistos no fim do ano, que estão mais recentes na memória. Eu tenho o estranho hábito de anotar todos os filmes que vejo (e essa lista me diz que vi 69 filmes em 2014, contando lançamentos de cinema e filmes alugados), mas não costumo escrever comentários de filmes, o que me permitiria refletir melhor sobre cada filme. Então sim, os três filmes de que vou falar são recentes (e só vou falar de filmes lançados nesse ano), mas são excelentes.

Com certeza, o melhor filme de 2014 é Garota Exemplar, do diretor David Fincher (de Se7en, A Rede Social, Clube da Luta entre outros excelentes). Este filme é a definição de suspense, para mim, e foi o único nesse ano que atende ao critério Fábio Fortkamp de Qualidade Suprema de Cinema, que é quando acabar o filme eu falar “pqp, que filmaço!” (outro que atendeu foi Argo, que vi em 2013). É a história de uma mulher que some no dia do aniversário de casamento, e o marido, de comportamento estranho, vira suspeito. A partir daí, a cada 5 minutos você muda de opinião sobre a inocência ou não dele (acompanhando ou não a posição da polícia), e aprende um fato novo sobre o caso. Lá pela metade do filme, você acha que está tudo resolvido, e a parte mais interessante do filme começa. Absolutamente incrível, prende a atenção a cada segundo.

O segundo melhor filme de 2014, para muita controvérsia, é Interestelar, de Christopher Nolan. O filme é ousado, é poético, é bem-feito, é científico, é criativo (quantos filmes de exploração espacial tem como eixo a vontade de um homem em voltar logo e ver sua filha?). É mais um passo maravilhoso na reformulação de Matthew McConaughey como ator sério (lembra quando ele estava sempre sem camisa nos filmes de menininha?), é mais uma vez Michael Caine sendo Michael Caine, a trilha sonora é de arrepiar e tem muitas nerdices envolvidas. Ignore as críticas pontuais a falhas no diálogo e vá ver.

Já para o terceiro lugar… temos um problema. Eu vou ficar com a indicação que eu dei a muitas pessoas (incluindo a minha namorada, que discorda enfaticamente de mim sobre esse filme), que é Chef. O filme é lindo (apesar de muitos e muitos clichês), e se você gosta de cozinhar, como eu, é bem difícil não ficar sorrindo o filme todo. É um monumento à simplicidade que pode ser uma boa comida, mesmo que seja comida em pé e longe de um restaurante da moda (num lance meio autobiográfico do diretor Jon Favreau, de Homem de Ferro e Cowboys e Aliens). As atuações são boas, e o mais importante, você se sente bem vendo o filme; como não gostar?

Disse que este terceiro lugar era um problema porque, revendo minha lista, vi dois filmes mais para o começo do ano, que são excelentes mas não me marcaram como esses três; então ficam como uma menção honrosa. Um é X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, com um cruzamento brilhante das duas linhas do tempo da franquia, e Planeta dos Macacos: O Confronto, que só consolida o retorno dessa série de filmes maravilhosa, agora mais dramatizada e adaptada aos dias atuais, combinando questões de política ( como lideranças se formam?) com questões ambientais (até onde vai o limite da nossa ocupação da Terra?).

No post anterior falei de como quero rever hábitos em 2015. Definitivamente, o que eu quero continuar fazendo é vendo bons filmes como esses.

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Por um 2015 com foco

Deixem eu lhes contar um segredo, um defeito meu: eu adoro criar tarefas e odeio executá-las. Pior que isso, tendo a criar tarefas sem sentido, que se acumulam na minha lista de afazeres, e por vezes me sinto um robô clicando em botões, fazendo e lendo coisas que tomam tempo e sem ter ideia de por que eu comecei a ler aquilo em primeiro lugar.

Eu não sou muito de resoluções mágicas de ano novo, ainda mais quando são genéricas como “emagrecer” e “ganhar dinheiro”. Porém, acho que a virada do ano é uma época simbólica e propícia para reflexões, sendo uma época de feriados e recessos (principalmente no hemisfério sul). O ano de 2014 foi sem dúvida um ano misto; consolidei o meu relacionamento com minha namorada (estando com ela muito mais tempo que estive com qualquer outra menina) e tive uma grande conquista, que foi o meu mestrado, mas mesmo isso foi seguido de um período de incertezas quanto ao futuro profissional e sem renda nenhuma. Foi também um ano de muitas doenças e brigas na família. Por tudo isso, eu não posso negar que fico feliz que 2014 tenha ido embora.

Com o ano novo, é tempo então de rever objetivos e hábitos, principalmente aquele citado no início deste texto. Então, para começar, minha primeira prioridade é parar de criar tarefas desnecessárias. Em 2015, só vou dedicar tempo ao que realmente acrescenta para mim. Como diz o Prof. Cal Newport, o objetivo de um estudante de pós-graduação é fazer pesquisa de alta qualidade, e nada mais conta. Vou controlar meu tempo de ficar procurando livros e mais livros, pesquisando sobre linguagens de programação esotéricas, aprendendo tudo sobre algum programa de computador, e me dedicar às disciplinas e à minha pesquisa. É claro que um estudante de doutorado precisa também ter uma cabeça aberta e devanear um pouco, mas um tempo específico precisa ser criado para isso, e não tomar o dia todo.

Fora do doutorado, vou limitar o meu número de projetos. Se quero ler um livro e pesquisar mais sobre o assunto, mas tenho de levar o carro na oficina, procurar coisas para casa, comprar um presente de aniversário, não posso também assumir um projeto grande como começar um curso de idiomas ou trabalhar neste blog; é preciso fazer uma purga produtiva. E nada de ficar pesquisando apps à toa ou ficar zapeando à toa, sem objetivo.

Por último, vou tentar planejar mais minha agenda. Diz-se que uma tese (ou qualquer projeto grande) nunca é acabada, mas interrompida, e por isso não posso deixar isso ocupar todos os espaços da minha vida. Todo dia, antes de ir para casa, vou tentar criar um plano para o dia seguinte, limitando os tempos de execução, de maneira que eu me force a focar no que vai dar resultado, e ter tempo para minha vida pessoal. Eu sei, já é o terceiro link do Newport nesse texto de 500 palavras, mas a ideia de produtividade de agenda fixa me é muito atraente.

Acredito que só assim, com um mínimo de organização e o máximo de foco, é possível parar de pensar em metas e pensar em objetivos que são realizados naturalmente, fazendo-me ir melhor no meu doutorado e aproveitar melhor a minha vida pessoal.

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Coisas que aprendi com o mestrado – a sua profissão não é o bastante

Em março de 2012 eu recebi o grau de Engenheiro, habilitação Mecânica, depois de cumprir todos os requisitos necessários. Cumpri os créditos necessários, começando com os alicerces de Cálculo, Álgebra Linear, Desenho, Física e Programação e avançando para coisas mais específicas: Termodinâmica, Mecânica dos Sólidos, Usinagem, Moldagem de Polímeros, Mecânica dos Fluidos, Soldagem, Teoria de Projeto, Mecanismos, Elementos de Máquinas. Fiz um projeto pequeno de pesquisa e publiquei um TCC. Fui para a Alemanha fazer estágio em um instituto de pesquisa, onde trabalhei com pesquisadores e engenheiros para criar um programa que auxiliasse no projeto de refrigeradores.

A questão é, todo engenheiro mecânico formado numa Universidade boa tem essa formação. Como sempre fiquei do lado da pesquisa, eu nunca trabalhei profissionalmente como engenheiro, mas acho que seria um bom profissional. Porém, nada disso do que falei me distingue de outros.

Nos dois anos em que fiz mestrado, convivi com muitos engenheiros, alguns colegas meus da época de graduação, outros de outras regiões. E percebi que se destaca quem é bom em outra coisa além da sua formação, e isso é uma das coisas que aprendi com o mestrado.


Não estou nem entrando no mérito de que você não é o seu trabalho e você precisa ter um hobby. A questão é, mesmo dentro do contexto de seu trabalho, acho que é fundamental ter habilidades fora da sua profissão.

Na minha dissertação, uma parte importante era visualizar o fenômeno (especificamente, a formação de espuma em misturas de óleo lubrificante — o que vai dentro de motores e compressores — e fluido refrigerante — aquilo que circula dentro da geladeira), o que envolve fotografia e filmagem. Fotografar um processo rápido como uma bolha se formando em uma mistura turva, dentro de um recipiente altamente reflexivo como vidro, envolve mais habilidades que as fotos #nofilter dos seus amigos no Instagram, com muitos detalhes de foco, iluminação, controle, e eu sabia exatamente a quem pedir ajuda (obrigado, Daniel!). Se eu precisava de ajuda sobre o programa que usávamos para ler dados, tinha a pessoa certa em mente (obrigado, Dalton!), para a pergunta certa. Se queria saber mais detalhes sobre um medidor em particular, geralmente existe alguém no laboratório que sabe tudo sobre esse determinado equipamento (geralmente o meu amigo Moisés). Se tinha um dúvida cruel de MATLAB, tinha geralmente alguém (obrigado, Pedro!) que poderia me responder a pergunta.

(Quanto a mim, sem falsa modéstia geralmente sou reconhecido como “o cara do LaTeX”, um posto de que humilde e secretamente me orgulho).

Nada disso é “engenharia mecânica” em si; nós não temos aulas de fotografia ou de técnicas avançadas de programação, mas quem dedica seu tempo a dominar uma dessas atividades geralmente tem bons resultados. Um engenheiro que saiba muito de fotografia sempre vai conseguir ilustrar brilhantemente o seu trabalho, e engenheiros adoram visualizar coisas. Um engenheiro que seja excelente em programação geralmente vai se sair bem na criação de códigos de simulação, e pode então se concentrar em outras partes difíceis do seu projeto. Quanto a mim, admito que perco talvez até tempo demais pesquisando sobre LaTeX, mas é um pequeno hobby intelectual que ajuda muito na fundamental parte de reportar os resultados — meu mestrado teve muitos momentos difíceis, mas escrever e produzir a dissertação final não foi uma delas, pois eu já dominava a técnica.

Se você não confia no que eu digo, por achar minha experiência limitada, saiba que até um professor de computação e Steve Martin concordam comigo.


Um dos maiores benefícios que o mestrado me trouxe é aquela velha história de “abrir a cabeça”. Uma antiga colega reclamava de que as coisas num laboratório de pesquisa andavam muito devagar, ao que um amigo (e hoje professor de universidade federal) respondeu que “aqui a gente para e pensa”. E de fato, quando você se dá um tempo para parar e refletir sobre um problema, percebe que existe muito por trás, muita coisa esperando para ser aprendida. E lá pode estar uma habilidade que você não sabia que tinha e que pode ser o seu diferencial.

Mesmo que você não tenha a rotina de um estudante de pós-graduação ou pesquisador, pode identificar algo no seu trabalho que pode o distinguir de outros. Os benefícios são duplos: você será reconhecido, e achará algo dentro do seu universo de tarefas chatas a fazer que realmente lhe traz satisfação intelectual.

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Deus não é mensurável

O Papa Francisco, recentemente, deu uma declaração de que a noção do Big Bang e da evolução está perfeitamente de acordo com a existência de Deus. Nas suas palavras:

Quando lemos sobre a criação no Gênesis, corremos o risco de imaginar que Deus era um mágico com uma varinha capaz de fazer tudo. Mas não é isso. […] Deus criou os seres humanos e permitiu que se desenvolvessem de acordo com leis internas que deu a cada um para que alcancem sua realização.

O Papa declarando publicamente isso e você aí, ainda preocupado com ciência vs. religião.


Tenho uma relação curiosa com a religião. Estudei sempre em um colégio de freiras, mas minha família nunca foi praticante. Não lembro por quê, resolvi fazer crisma, entrei para um grupo jovem, ia à missa todo domingo — sozinho. Então, duas coisas aconteceram que fizeram com que eu largasse a Igreja. Primeiramente, o padre da minha paróquia foi persuadido a assumir outra paróquia, e todo mundo ficou sabendo que isso aconteceu porque ele era muito querido na nossa comunidade e o pároco da Igreja Matriz estava ficando com ciúmes.

Em segundo, na época da visita do Papa Bento XVI, um bispo disse que “ficar” transforma meninas em garotas de programas, uma declaração que, além de ser machista por definição, deveria ser a última das preocupações quando um país com tantos problemas sociais recebe um Papa.

Saí da Igreja (o grupo jovem do qual participava ter sido dissolvido por contenção de gastos foi outro agravante). Comecei a ler Dawkins, e, bastante aborrecido com esses acontecimentos, cheguei a me considerar ateu, embora, a cada visita a uma igreja (por turismo ou por batizados e outras missas comemorativas), algo dentro de mim murmurasse que isso não podia ser verdade.

Nessa época, eu estava começando a faculdade de Engenharia, cheia das aulas de Física e Matemática, o que só incentivava o meu lado “pró-ciência”. Eu me acomodei e achei que o certo para mim era continuar a não ir à Igreja. Sobre a existência ou não de Deus, eu preferia simplesmente não pensar nisso.

Em 2013, comecei a namorar uma menina maravilhosa bastante católica (que, creio também, foi Deus quem colocou em minha vida), e em dezembro passei alguns dias na casa da minha sogra, que vai à missa todo dia. Foi nesse período que as minhas dúvidas contra a Igreja começaram a se tornar dúvidas pró-Igreja. O que eu estava observando ali era uma senhora ouvir a Palavra de Deus todo dia e tentando passar os valores cristãos básicos a seus netos (que já considero meus sobrinhos), valores de humildade, respeito e amor. Tão básico, tão senso comum, e tão esquecido.

Algum tempo depois que eu e minha namorada retornamos à nossa cidade, resolvemos voltar a ir à missa, e hoje esse momento é aguardado por mim durante toda a semana. É quando eu paro, e sento, e só escuto músicas positivas, observo um ritual muito bonito, e vejo o padre falando de ações sociais, e de agradecimento e de perdão.

Na prática, ser católico não significa aquelas coisas que Dawkins e os inimigos da religião sempre pregam, de que ser religioso é ser cego, é acreditar em mágica, é ser inimigo da razão. Ser católico (e não posso discursar sobre as outras religiões por ignorância, mas suspeito que a sua mensagem não seja muito diferente) é simplesmente uma questão de cultivar uma boa relação com Deus e com o outro. Levar uma vida boa não é uma questão de que Deus está nos observando e se cometermos pecado ele vai nos punir, e sim de que Jesus abriu os nossos olhos de que isso, uma vida vivida para os outros, é que leva a uma vida plena. Eu vou à Igreja pelo motivo mais egoísta possível, que é porque eu me sinto muito bem ali, e ao fazer isso eu me torno mais altruísta.


Eu sou um cientista em formação, e acredito que minha religiosidade não interfere no meu trabalho. Quando me deparo com um problema, o caminho que eu sigo não é dizer que “isso acontece porque Deus quer”, mas sim pedir a Deus que me ajude a encontrar as equações certas.

Quando eu rezei a Deus pela cirurgia de meu avô, eu sei que o que fez a cirurgia dar certo foi a competência dos médicos, e que isso é um resultado direto do seu estudo. Ainda assim, tanta coisa pode dar errado: um médico menos capacitado pode ser escolhido, ou o anestesista pode estar em um mau dia, ou o coração do meu avô pode estar enfraquecido, ou um instrumento pode ter sido mal esterilizado. São tantos fatores combinados que achar que a nossa racionalidade humana tem o controle absoluto é ingenuidade. Rezar a Deus é um ato de humildade.

A nossa inteligência não é incompatível com nossa religião. Eu continuo defendendo a ciência e acreditando no poder da lógica, das provas e da experimentação, mas eu reconheço que a ciência não explica tudo. Eu aceito as cada vez mais presentes indicações de que o homem conhecido como Jesus de Nazaré teria até irmãos, mas isso não invalida a minha crença de que existiu um homem santo, verdadeiramente Filho de Deus, que veio espalhar uma mensagem de amor, morreu na cruz e ressucitou.

Na consagração da hóstia, como todo católico, acredito que o corpo de Cristo se faz presente. Aposto que, se medirmos a massa da hóstia antes e depois da consagração, a massa será a mesma, mas isso não invalida a religião e nem todas as nossas teorias. A ciência só consegue lidar com o que pode ser medido ou calculado, e Deus não é mensurável.

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Coisas que aprendi com o mestrado: na graduação não há tempo para pensar

Esta é uma série sobre o que eu aprendi com o mestrado.


Não que quem leia este blog não saiba, mas no Ensino Médio eu era parte de uma daquelas tribos esquisitas que gostava mais de Física que de Educação Física. Tinha gente bem pior que eu, claro, que adorava discutir a origem do universo ou as implicações da mecânica quântica, mas eu realmente queria entender o máximo possível por achar tudo aquilo fascinante. E uma das minhas maiores frustações intelectuais foi sair da escola sem ter entendido aquele negócio chamado de quantidade de movimento.

O leitor talvez lembre das aulas do Ensino Médio (se já o concluiu), dizendo que a quantidade de movimento de uma partícula era o produto da sua massa pela sua velocidade. Mas e daí? O que é isso?

Talvez seja mais provável que o leitor lembre da famosa Segunda Lei de Newton, que diz que a força resultante sobre uma partícula é o produto da sua massa pela sua aceleração. Esta é a equação básica da Mecânica e uma das Equações Fundamentais da Engenharia Mecânica (nome pomposo meu). Este é um conceito mais fácil de entender: existe uma coisa, um tipo de ação, chamado força, que faz um objeto mudar de velocidade; objetos de maior massa (maior inércia) aceleram menos.

Voltemos à quantidade de movimento. Quando entrei na faculdade, achei que ia entender melhor esse conceito, mas as disciplinas das primeiras fases lidam com situações muito simples, assumindo que tudo é uma partícula. De repente, você começa a saltar para disciplinas mais sofisticadas, como Mecânica dos Fluidos e Dinâmica, e está usando a quantidade de movimento a todo instante sem nem saber direito o que é. Novamente, frustrei-me ao me formar sem saber o que era isso.

Depois, quando fiz as disciplinas do mestrado, veio a luz.


Uma situação muito interessante e fácil de visualizar é uma roda d’água.

Enchanting Waterwheel

(Foto do Peter Kurdulija no Flickr.)

A água vem por um cano, entra em contato com a roda, que passa a girar; ao mesmo tempo, a água segue uma determinada trajetória, numa determinada velocidade. Todos podemos concordar que a roda faz força sobre a água, o que nos estimula a aplicar a Segunda Lei de Newton. Mas qual é a “massa” da água? A roda faz força sobre uma porção de água, mas essa porção não é um corpo rígido; parte da água que bate na roda vai seguir por um caminho, parte por outro. Num instante seguinte, a água que estava em contato não está mais, dando lugar a outra quantidade de água. Como definir uma partícula para a qual aplicamos a Segunda Lei? Se escolhemos uma gota de água, de massa fixa, até poderíamos aplicar esse modelo, mas a força que age sobre ela seria altamente dinâmica (existe a força da pressão atmosférica, a força da pressão da própria água etc).

É muito mais fácil analisarmos este problema de outra forma. Imagine o escoamento da água como um todo. Diferentes locais vão exibir diferentes velocidades. A força da roda age sobre um ponto; este ponto por sua vez faz força sobre outro ponto, que age sobre outro ponto e assim por diante. A água que é acelerada pela ação da força “empurra” outra região da água.

A essa informação sobre forças que é transmitida ao longo de um escoamento é dado o nome de quantidade de movimento. O problema da roda d’água é um problema de transferência de quantidade de movimento, que é uma forma mais generalizada da Segunda Lei de Newton. O produto da massa pela velocidade é apenas uma forma matemática de expressar esse conceito, e não é o conceito em si.


Eu só pude aprender esse tipo de coisa no mestrado porque eu tive tempo para pensar. Na faculdade, fazendo mais de 20 créditos por semestre, com todos os prazos de provas e trabalhos, e mais um emprego, estágio, iniciação científica etc, é impossível pensar, e isso é uma das coisas que aprendi com o mestrado.

Não sou pedagogo, nem filósofo, nem especialista em políticas públicas. Também não quero me gabar, dizendo que sou muito mais inteligente só porque fiz mestrado (inteligência é algo muito relativo). Quero apenas dizer, como alguém que saiu da graduação e continuou os estudos, que ali se aprende o básico do básico, e que é importante todos terem isso em conta. Não é possível ter uma formação abrangente em apenas cinco anos, e o preço a pagar é essa falta de tempo para ter discussões do mestrado.

Claro, aprofundar-se é um objetivos de se fazer pós-graduação. Com o mestrado, aprendi o quanto me faltam alguns conceitos básicos, e sei que quando terminar o doutorado ainda vai haver muito a aprender.

Acreditem, só sei que nada sei não é apenas um clichê.

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Coisas que aprendi com o mestrado

No dia 30 de junho de 2014 eu defendi a minha dissertação de mestrado, intitulada Análise experimental e teórica da formação de espuma em misturas óleo-refrigerante, fui aprovado e, após fazer as correções necessárias, recebi o título de Mestre em Engenharia Mecânica.

Esses dois anos e meio foram o maior projeto individual em que me envolvi. Sim, uma graduação demora muito mais, mas o mestrado é um projeto meu. Eu estudei, fiz o projeto dos equipamentos e da bancada de testes, desenvolvi programas de computador para fazer cálculos e realizar medições, planejei e conduzi experimentos. Claro, tive muita ajuda, sem a qual não seria possível fazer este trabalho — mas ainda assim é o meu trabalho.

Pensei em desistir várias vezes no meio do caminho, como depois de ver minha bancada (de vidro) estourar em alta pressão algumas vezes, ou cansado da burocracia para comprar equipamentos, ou desanimado com a falta de interesse de muitas pessoas em ajudar (que teoricamente são contratadas para isso), ou inconformado com as particularidades de se estudar em uma universidade pública. O momento de revelação foi quando percebi o quanto estava sendo ingênuo: sempre há do que reclamar. Amigos meus que trabalham em diversas repartições públcas reclamam dos conchavos políticos ou dos cabides de emprego; os que trabalham na iniciativa privada relatam intrigas entre colegas, demandas de horários absurdas, alienação dos chefes (quando só querem saber de resultados) aos problemas dos funcionários.

Problemas existem em todo canto. Quando assumi isso, e comecei a dar muito mais ênfase às coisas boas do mestrado, tudo mudou. O que estou fazendo é simplesmente construir a ciência. Eu, o garoto que sempre gostou de ciência, que sempre pareceu entender a Física e a Matemática quando todos os outros só viam sentido em Educação Física, de repente estava participando ativamente disso — e mais, eu podia fazer disso uma carreira. Eu podia ser, no futuro, uma dessas pessoas cujos nomes aparecem em livros de Engenharia e são conhecidas por milhões de estudantes em todo o mundo. Eu aceitei que eu jamais poderia ser feliz num emprego de escritório, burocrático; como já escrevi, o meu mundo é de quadro-negros e bancadas. Eu nasci para ser cientista e ser professor, e quero ser o maior especialista na minha área no mundo.

Ao longo das próximas semanas, vou publicar aqui em FabioFortkamp.com uma série de posts com algumas reflexões sobre esse período. Meu objetivo principal é ajudar quem por acaso queira seguir essa carreira, mas não nego que esta é uma ótima oportunidade para mim mesmo de fazer um balanço e aprender com os erros.

E antes que alguém pergunte, é claro que já comecei o doutorado.

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Por que tenho o meu próprio endereço de email

Eu tenho 26 anos. Sou (do fim) da década de 80, do ano da nossa constituição, antes da queda da União Soviética.

Sou também de uma das últimas gerações que nasceram antes da internet e dos computadores onipresentes. Tenho muitos primos mais novos e eles não vivenciaram muitas experiências interessantes. Lembro muito bem do dia em que meu pai chegou em casa com uma novidade, um telefone que mostrava o número de quem estava ligando, e eu achava que aquilo só poderia ser mágica. O primeiro computador que tivemos em casa não entrava no Windows automaticamente; era preciso digitar C:\win na linha de comando. O Windows 95 foi outra mágica.

Meu contato com a internet é mais recente ainda, totalizando alguns poucos anos no total. Mesmo assim, já vi tecnologias, programas e sites irem e virem. Eu usava muito um buscador chamado Cadê?, que sumiu. Usei o Yahoo, que depois perdeu relevância para o Google. Também tive contato com algumas redes sociais; ouvi muito falar do MySpace, embora não tenha chegado a usar. Depois, veio o Orkut, com comunidades e depoimentos. Depois todo mundo migrou para o Facebook, que já está decaindo (só não vê quem não quer), com sua propaganda excessiva. O Twitter para mim é muito mais interessante mas está sumindo também.

Meu primeiro email era do nosso antigo provedor de internet (que acho que nem existe mais). Depois tive um no Hotmail (na época em que ele era extremamente popular), e outro no Gmail (o “email que todo mundo tem” de agora). O Uol foi bastante popular por um tempo também.

Da mesma maneira que eu já vi serviços subirem e descerem, não existe nada que garanta que os de agora não vão sumir. Há alguns anos, todo mundo achava que o MSN duraria para sempre. Por isso, não podemos nos deixar enganar: o grande serviço popular que você usa vai sumir, ou no mínimo ficar estagnado. Vai surgir outro serviço e você vai querer ser cool e migrar, junto com seus amigos (você já quis ir para o Facebook só porque estava todo mundo lá). E aí vai precisar de outro endereço de email.


Na minha resenha do livro Platform, escrevi:

Platform: Get noticed in a noisy world foi o livro que me motivou a lançar FabioFortkamp.com.

Não foi só na decisão de criar esse blog. Platform me fez pensar muito na minha presença online. Que imagem eu quero passar? E como organizar todas as minhas atividades?

Na base, tudo começa com o domínio. FabioFortkamp.com é o meu domínio, o meu endereço na internet. Se alguém quiser saber o que esse cara chamado Fábio Pinto Fortkamp pensa, ou o que ele faz, pode começar por esse site. Ou pode procurar por @fabiofortkamp no Twitter, ou por fabiofortkamp no Github, se você for nerd como eu. Como Marco Arment escreveu num texto muito inspirador para mim, você precisa tomar posse da sua identidade.

O fato do domínio ser meu nome é um mero detalhe. Qualquer que seja a marca (o tal branding), o importante é controlá-lo.

E é por isso que o meu email principal usa o meu domínio: fabio arroba fabiofortkamp ponto com. E é por isso que, em 2014, eu pago por um serviço de email.

Veja você, ter um domínio próprio custa US$ 13 — por ano. Como falei, esse domínio é meu. Se eu estiver insatisfeito com a empresa que administra esse domínio, ou se ela deixar de existir, posso trocar de empresa e levar esse endereço (como na portabilidade de telefones).

Para o serviço de email propriamente dito, eu uso o excelente Fastmail (link afiliado; se você assinar o serviço por esse link, eu vou ganhar uma pequena comissão, mas você não vai pagar nada a mais. Caso não se sinta confortável com isso, aqui vai um link padrão) — por sugestão do próprio Arment. Por US$ 40 anuais, eu tenho um serviço de email excelente, controlado pelo dinheiro dos usuários e não por publicidade. Isso me custa, já com o dólar alto e com IOF, cerca de R$ 9 por mês. Menos que um almoço a quilo, nessa economia de hoje. Essa pequena quantia, junto com o custo do domínio (que já é baixo e me permite ter outras coisas, como este blog), de certa forma me protege um pouco contra as oscilações da internet. Se o Fastmail acabar, como o domínio é meu, posso facilmente mudar de provedor de email, mantendo o mesmo endereço. Se é que email vai existir ainda, quem sabe meus netos vão poder mandar emails para mim por esse endereço.


Eu tenho outros problemas com o Gmail (uso-o como exemplo porque era o que eu usava e acredito que seja o mais popular). O meu lado engenheiro gosta de padrões, e o Gmail não é um serviço padronizado de email. Configurar um aplicativo de email qualquer, que não seja feito especialmente para o Gmail, é um trabalho monstruoso. No ano passado, problemas entre o Mail.app do OS X e o Gmail renderam discussões e mais discussões. Simplesmente, o Gmail não segue à risca o IMAP, o padrão dos emails. Tem muitas tecnologias inovadoras, como a busca fantástica, o sistema de tags, mas ainda assim não é padronizado. Ele praticamente força você a usar o site e os apps do Google.

A padronização também facilita a migração, no caso de problemas. Caso eu queira ou precise mudar de provedor de email, basta apontar o domínio para o novo serviço e sincronizar as pastas de caixa de entrada, arquivo e quaisquer outras.

Há também o lado da privacidade, mas isso sinceramente é um detalhe. Eu continuo achando assustador o Gmail me mostrar anúncios baseado no texto do email, mas enfim, é assim que as coisas são. Por outro lado, ao usar um serviço próprio de email, pagando por ele como você pagaria pelo Netflix ou Spotify, você se protege em pelo menos mais um local.


Como falei, eu uso o Fastmail, mas honestamente meu objetivo é fazer os leitores pensarem um pouco mais na importância de identidade digital e de quem sabe considerarem terem seu domínio (numa nota adicional, também pode ser divertido ver a cara das pessoas quando você diz o seu email com um endereço personalizado assim). Ainda estou apredendo a usar os recuros do Fastmail; por enquanto, posso dizer que a proteção de spam e os filtros diversos funcionam muito bem. O podcast Technical Difficulties fez uma excelente cobertura. Mas com certeza existem outros serviços excelentes.

E não custa repetir: para mim, o email está longe de morrer.

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Ebooks

No último episódio do Posdemfio, Bia Kunze e Glauco Damas discutiram o mercado de ebooks. Como leitor assíduo (de livros físicos e alguns poucos eletrônicos) há muito tempo, gostaria de dar minha opinião sobre o assunto.

Antes, por favor, escute o episódio. Aproveite e assine o podcast de uma vez porque ele é ótimo.

Ferramentas

Um pouco de contexto primeiro. Eu não tenho nenhum leitor eletrônico dedicado. Penso em comprar um Kindle, mas é para depois. O dispositivo que uso para ler livros digitais é um iPad 2; nele tenho o app do Kindle, leio alguns livros no formato do iBooks e alguns PDFs. Assim, minha discussão se baseia nesse conjunto de ferramentas.

Fetiche

O primeiro ponto que muitas pessoas discutem é sobre o tal “fetiche” por livros de papel, o cheiro de livro novo, o toque das páginas. Isso não se aplica a mim; quanto à questão da sensação física de se ler um livro, não tenho nenhum interesse no aspecto de sentir o papel em minhas mãos; acho que a principal diferença para mim é o conforto de ler.

Eu gosto muito de ler na cama, e a iluminação do iPad, mesmo no nível de brilho mais baixo, incomoda bastante (e eu sempre tive problemas de sono). Porém, como falei, não tenho um e-reader, e dizem que as telas desses gadgets é muito melhor, mas custo a acreditar que seria tão confortável quanto o papel — no máximo, muito melhor que o iPad (embora a tela Retina faça diferença). Tive pouco contato com Kindles de outras pessoas, então não posso falar se a tal tela que “foi feita para ler” não causa absolutamente nenhum cansaço.

Outra coisa ainda impossível de se fazer num ebook é segurar uma página enquanto se olha outra, para recuperar um conceito ou uma figura. Mas isso pode ser detalhista da minha parte.

Formatação

O segundo grande ponto em relação a livros eletrônicos é quanto à formatação.

Os livros de programação que comprei no formato Kindle são praticamente inutilizáveis, com muitos códigos mal formatados, alinhamento que dificulta a leitura do código, além de figuras mal posicionadas. Livros de programação geralmente utilizam fontes diferentes para texto e para o código, tarefa que, creio, o formato Kindle (eu sei, o formato do arquivo tem outro nome, mas vou me referir como Kindle por simplicidade) não facilita. Para piorar, com muitas figuras, as diagramações ficam muito esquisitas.

Hoje acredito que, para livros técnicos, com elementos estáticos (já vou falar disso), o único formato aceitável é PDF.

Para livros que se constituem de muito texto, porém, os livros em Kindle e ePub que li são bons — permitem ajustar por exemplo o tamanho da fonte e a cor da página (para não ficar aquele branco brilhante). Alguns livros que resenhei depois de ler no app Kindle do iPad e ter ficado satisfeito com a leitura são Platform e The Information Diet.

Recursos

É aqui que os ebooks brilham.

Pegue um livro de David Sparks (como o ótimo Paperless, o maior autor de ebooks interativos do mundo, ou de Vladimir Campos com o ótimo Planejando Viagens no Evernote, a maior expoente do gênero aqui no Brasil.

(Aos dois: vocês são meus ídolos.)

Eles sabem aproveitar as vantagens que a mídia digital proporciona. Seus livros tem muitos vídeos, fotos que os leitores podem ampliar e visualizar de muitas formas, links para sites e outros aplicativos, e são extremamente bem formatados. Nesse caso, com esses elementos dinâmicos, têm uma clara vantagem sobre PDF (ver seção anterior).

E o que falar da habilidade de poder procurar quaisquer expressões em um livro eletrônico? É o único momento em que às vezes me dá raiva de usar um livro de papel (principalmente quando índice de assuntos é mal feito, para os livros mais técnicos).

Autopublicação

Por último, vamos falar do tema principal do podcast que mencionei, a autopublicação, onde os autores publicam seus livros sem necessidade de editora.

Sempre dei sorte com livros autopublicados. Além dos livros dos autores que mencionei na outra seção, posso citar os livros do Kourosh Dini sobre Omnifocus. Porém, sinceramente, eu tenho algumas reservas em relação à autopublicação. Ao contrário de alguns setores, que talvez só se aproveitam de um monopólio, eu considero as editoras grandes participantes no mercado de livros, que prestam um serviço muito bom aos leitores. Por exemplo, eu posso ter quase 100% de certeza que um livro da O’Reilly vai ser bom, porque passou pelo processo de edição, foi revisado, com a parte técnica muito bem analisada. A editora nesse caso não se atravessa no caso do autor, ela faz um pouco do trabalho com uma equipe especializada.

Coisa semelhante ocorre com livros de ficção. É claro que muitas pessoas podem ter a capacidade de escrever, dar para algumas pessoas revisarem, e publicar, e o livro vai ser ótimo. Mas acho que isso funciona melhor para autores experientes. Eu sempre sonho em escrever e publicar livros, mas não sei se teria coragem de autopublicar meu eventual primeiro romance.

Conclusões

Na minha opinião, ebooks têm um futuro bom, mas acho que vai demorar para eles serem uma “revolução”. Ainda estamos na fase de um mercado fragmentado, com leitores de uma empresa incompatíveis com as obras de outras lojas (e sem motivação para fazer um leitor universal). O preço também conta; o Kindle, o mais famoso (e que permite acessar o catálogo gigantesco da Amazon), é mais caro que o a maioria das pessoas gasta em livros por ano (mas não vamos entrar no mérito de se o brasileiro lê pouco ou não).

Esses detalhes tendem a ser menos relevante com o tempo; a competição tende as grandes lojas de livros a terem catálogo equivalente, com o adicional de diminuir o preço dos aparelhos. Como bônus, a qualidade tende a aumentar (tanto do hardware quanto do software) e muitas reclamações que eu fiz aqui tendem a desaparecer.

Ainda precisamos aproveitar mais o e do que o book. Eu faço muitas anotações enquanto leio; no app do Kindle ou do iBooks, mesmo para livros mais simples, ainda não sei um jeito fácil de exportar todas as minhas notas num único arquivo, coisa que muito me ajudaria para organizar minhas notas e formatar minhas resenhas.

Para os livros mais técnicos, quem sabe um dia vamos poder digitar um código em um livro de programação e vê-lo ser executado. Ou visualizar um gráfico quando alguma função matemática é mencionada em um livro de engenharia, talvez com a ajuda do Wolfram Alpha. Convém sonhar.

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Quadros negros e bancadas

Uma alegria em meio a tantas tragédias

Nas últimas semanas, passamos por muitas tragédias, como a queda do avião em Santos, matando o candidato Eduardo Campos, e a morte de Robin Williams, para ficar apenas nas mais noticiadas. Estamos todos um pouco acostumados a ver isso nos jornais, mas parece que a intensidade aumentou recentemente.

Em meio a tanta tristeza, uma notícia excelente passou quase batida: o brasileiro Artur Ávila ganhou a Medalha Fields. A medalha é tão importante quanto o Nobel, sem os constantes escândalos políticos e com o detalhe de só premiar jovens (de até 40 anos), como incentivo para as pesquisas futuras. No seu livro Symmetry: A Mathematical Journey, Marcus du Sautoy reflete sobre o seu aniversário de 40 anos (tradução livre minha):

Eu não fico terrivelmente incomodado com aniversários, mas para um matemático 40 é significativo; não por causa de uma numerologia fantástica e esotérica, mas porque geralmente se acredita que aos 40 você já fez seu melhor trabalho. Matemática, diz-se, é um negócio para jovens.

Todos esperamos que Ávila faça ainda muitos bons trabalhos, mas antes dos 40 anos ele foi longe. Ganhou o maior prêmio que um pesquisador brasileiro já ganhou.

Esse prêmio vai mudar o Brasil?

É claro que não, e provavelmente nem vai haver um aumento significativo dos inscritos para o vestibular de Matemática. Não vamos ser ingênuos e acreditar que no ano que vem já vamos ganhar outros prêmios, quem sabe até um Nobel.

Mas podemos usar esse prêmio para um como um lembrete. Um lembrete de que é possível fazer carreira em ciência, mesmo no país dos apaixonados por trabalho em escritórios e fascinados por firmas reconhecidas. Um lembrete de que existem pessoas que não foram feitas para esse tipo de trabalho, mas sim para serem pesquisadores, viver na frente de quadros negros e bancadas de laboratório.

Vamos também usar esse prêmio para discutir o ensino da Matemática no Brasil. Como engenheiro e pesquisador, alguém que está em contato constante com a Matemática, nada fica mais distante da realidade que as tabuadas decoradas no Ensino Fundamental, ou dos professores de cursinho fazendo a turma repetir as músicas para decorar as fórmulas. Vamos ensinar essas crianças a pensar mais. Vamos estimular o pensamento abtrato e criativo que é a base da Matemática. Vamos explicar o significado dos teoremas, em vez de passar exercícios que envolvem apenas a aplicação mecânica de equações.

E vamos parar de chamar a Matemática de “inútil”. Por acaso a História é útil, ou as aulas de Artes são úteis? As escolas não são profissionalizantes, e as diferentes disciplinas ajudam a desenvolver diferentes habilidades. A Matemática é um ciência e uma linguagem por si só, um dos maiores feitos da mente humana. A Física de Newton reinou absoluta por séculos até que Einsten começou a questioná-la, mas o Teorema de Pitágoras será válido para sempre.

Mas Fábio, você poderia explicar qual o trabalho de Ávila?

Não, não posso. Mesmo sendo engenheiro, Mestre em Engenharia, candidato a doutor, eu não me arrisco a entender o trabalho dele. É uma matemática muito mais avançada que a minha compreensão permite. As reportagens geralmente fazem menção aos estudos dele sobre “sistemas dinâmicos”, o que para o engenheiro é um termo bastante genérico para designar qualquer coisa que varie no tempo. É claro que o trabalho dele é muito mais sofisticado que isso.

Ao Artur: parabéns, e obrigado por fazer de nós, pessoas que sonham em ser cientistas, mais esperançosos na nossa profissão.