Deus não é mensurável

O Papa Francisco, recentemente, deu uma declaração de que a noção do Big Bang e da evolução está perfeitamente de acordo com a existência de Deus. Nas suas palavras:

Quando lemos sobre a criação no Gênesis, corremos o risco de imaginar que Deus era um mágico com uma varinha capaz de fazer tudo. Mas não é isso. […] Deus criou os seres humanos e permitiu que se desenvolvessem de acordo com leis internas que deu a cada um para que alcancem sua realização.

O Papa declarando publicamente isso e você aí, ainda preocupado com ciência vs. religião.


Tenho uma relação curiosa com a religião. Estudei sempre em um colégio de freiras, mas minha família nunca foi praticante. Não lembro por quê, resolvi fazer crisma, entrei para um grupo jovem, ia à missa todo domingo — sozinho. Então, duas coisas aconteceram que fizeram com que eu largasse a Igreja. Primeiramente, o padre da minha paróquia foi persuadido a assumir outra paróquia, e todo mundo ficou sabendo que isso aconteceu porque ele era muito querido na nossa comunidade e o pároco da Igreja Matriz estava ficando com ciúmes.

Em segundo, na época da visita do Papa Bento XVI, um bispo disse que “ficar” transforma meninas em garotas de programas, uma declaração que, além de ser machista por definição, deveria ser a última das preocupações quando um país com tantos problemas sociais recebe um Papa.

Saí da Igreja (o grupo jovem do qual participava ter sido dissolvido por contenção de gastos foi outro agravante). Comecei a ler Dawkins, e, bastante aborrecido com esses acontecimentos, cheguei a me considerar ateu, embora, a cada visita a uma igreja (por turismo ou por batizados e outras missas comemorativas), algo dentro de mim murmurasse que isso não podia ser verdade.

Nessa época, eu estava começando a faculdade de Engenharia, cheia das aulas de Física e Matemática, o que só incentivava o meu lado “pró-ciência”. Eu me acomodei e achei que o certo para mim era continuar a não ir à Igreja. Sobre a existência ou não de Deus, eu preferia simplesmente não pensar nisso.

Em 2013, comecei a namorar uma menina maravilhosa bastante católica (que, creio também, foi Deus quem colocou em minha vida), e em dezembro passei alguns dias na casa da minha sogra, que vai à missa todo dia. Foi nesse período que as minhas dúvidas contra a Igreja começaram a se tornar dúvidas pró-Igreja. O que eu estava observando ali era uma senhora ouvir a Palavra de Deus todo dia e tentando passar os valores cristãos básicos a seus netos (que já considero meus sobrinhos), valores de humildade, respeito e amor. Tão básico, tão senso comum, e tão esquecido.

Algum tempo depois que eu e minha namorada retornamos à nossa cidade, resolvemos voltar a ir à missa, e hoje esse momento é aguardado por mim durante toda a semana. É quando eu paro, e sento, e só escuto músicas positivas, observo um ritual muito bonito, e vejo o padre falando de ações sociais, e de agradecimento e de perdão.

Na prática, ser católico não significa aquelas coisas que Dawkins e os inimigos da religião sempre pregam, de que ser religioso é ser cego, é acreditar em mágica, é ser inimigo da razão. Ser católico (e não posso discursar sobre as outras religiões por ignorância, mas suspeito que a sua mensagem não seja muito diferente) é simplesmente uma questão de cultivar uma boa relação com Deus e com o outro. Levar uma vida boa não é uma questão de que Deus está nos observando e se cometermos pecado ele vai nos punir, e sim de que Jesus abriu os nossos olhos de que isso, uma vida vivida para os outros, é que leva a uma vida plena. Eu vou à Igreja pelo motivo mais egoísta possível, que é porque eu me sinto muito bem ali, e ao fazer isso eu me torno mais altruísta.


Eu sou um cientista em formação, e acredito que minha religiosidade não interfere no meu trabalho. Quando me deparo com um problema, o caminho que eu sigo não é dizer que “isso acontece porque Deus quer”, mas sim pedir a Deus que me ajude a encontrar as equações certas.

Quando eu rezei a Deus pela cirurgia de meu avô, eu sei que o que fez a cirurgia dar certo foi a competência dos médicos, e que isso é um resultado direto do seu estudo. Ainda assim, tanta coisa pode dar errado: um médico menos capacitado pode ser escolhido, ou o anestesista pode estar em um mau dia, ou o coração do meu avô pode estar enfraquecido, ou um instrumento pode ter sido mal esterilizado. São tantos fatores combinados que achar que a nossa racionalidade humana tem o controle absoluto é ingenuidade. Rezar a Deus é um ato de humildade.

A nossa inteligência não é incompatível com nossa religião. Eu continuo defendendo a ciência e acreditando no poder da lógica, das provas e da experimentação, mas eu reconheço que a ciência não explica tudo. Eu aceito as cada vez mais presentes indicações de que o homem conhecido como Jesus de Nazaré teria até irmãos, mas isso não invalida a minha crença de que existiu um homem santo, verdadeiramente Filho de Deus, que veio espalhar uma mensagem de amor, morreu na cruz e ressucitou.

Na consagração da hóstia, como todo católico, acredito que o corpo de Cristo se faz presente. Aposto que, se medirmos a massa da hóstia antes e depois da consagração, a massa será a mesma, mas isso não invalida a religião e nem todas as nossas teorias. A ciência só consegue lidar com o que pode ser medido ou calculado, e Deus não é mensurável.

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