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Como eu gerencio meu tempo: meus princípios básicos

Muitas pessoas costumam dizer que eu sou uma pessoa organizada, principalmente em relação ao meu tempo e minhas tarefas. Embora eu ache que tenho muito a melhorar a ainda sinta que desperdiço muito tempo, vou deixar minha modéstia de lado e reconhecer que pelo menos sou mais organizado que algumas pessoas. Por motivos estranhos até para mim, também tenho um interesse pelo assunto da produtividade e organização, sobre como fazer mais e melhor; em função disso, estudo bastante o assunto, testo com minhas próprias rotinas (a flexibilidade da carreira acadêmica permite isso), e provavelmente vem daí a impressão das pessoas de que sou mais organizado que a média.

Como abomino gurus de produtividade cuja maior realização é escrever sobre produtividade, vamos às minhas qualificações. Defendi um mestrado em Engenharia Mecânica, com um pequeno atraso, admito, mas com um trabalho considerado abrangente (incluindo a construção de uma bancada experimental e concepção de um modelo numérico) e elogiado pela banca, trabalho esse que já resultou um artigo publicado em um periódico importante. No meu doutorado, defendi meu Exame de Qualificação com menos de um mês de atraso do prazo regulamentar (algo raro, acreditem), e os resultados desse exame já foram convertidos em dois artigos enviados a congressos e um atualmente em preparação para um periódico importante na área. Paralelamente a essa parte profissional, arrumo tempo na minha rotina para esudar Alemão (lingua pelo qual sou apaixonado), escrever de maneira irregular mas contínua para esse blog, fazer exercícios regulares três vezes na semana. Durante um ano morei sozinho, e atualmente moro com minha namorada, então embutidas no meu dia-a-dia estão as atividades de manter e limpar a casa, fazer compras, preparar refeições todo dia. Ao chegar ao fim desse parágrafo, até eu estou suspreso com a quantidade de coisas que encaixo na minha rotina.

Vou começar com este texto uma série em FabioFortkamp.com documentando como eu, afinal, gerencio meu tempo. Como acabei de falar, acho sim que tenho algo a acrescentar ao tópico e se puder ajudar pelo menos uma pessoa que se ache muito desorganizado, ficarei feliz. A principal inspiração para essa série veio de uma excelente palestra de Randy Pausch, e o meu objetivo é eu mesmo fazer uma auto-avaliação e buscar sempre melhorar. Escrever, para mim, é melhor forma de pensar e de planejar.

Um aviso óbvio: para reforçar, sou estudante de doutorado; tenho macro-prazos a cumprir, mas não tenho horário fixo, e isso se reflete no que vou escrever a seguir. Como já vou aprofundar, um problema não-trivial que autônomos enfrentam é decidir o que fazer dia após dia e como dedicar tempo a cada uma das atividades. Talvez o leitor assalariado consiga adapatar algumas das ideias à sua própria rotina.

É outra coisa: se o leitor está querendo aprender a se organizar, mas tem dúvidas se eu sou a melhor fonte, não tome esses textos como sagrados. Observe as pessoas de sucesso na sua área: o que elas fazem? Continuamente eu estou observado as pessoas que admiro (até mesmo foram da minha área imediata), testando algumas ideias e, como vamos falar algumas vezes, incorporar rotinas de revisão e de feedback na sua vida é uma das bases do bom gerenciamento de tempo.

Comer, dormir, suar

Antes de chegar ao básico de como organizo meu tempo e minhas tarefas, precisamos tratar do nível mais básico de tudo (algo que Pausch também aborda): dormir, comer e fazer exercícios.

Você sabe, só não quer admitir: dormir umas poucas horas por dia não é sustentável. Claro que isso varia de pessoa para pessoa. Idealmente, gostaria de dormir 8 horas por dia, mas já me conheço e sei que dormir 7 por dia é sustentável (no sentido de que consigo ficar a semana toda dormindo apenas isso). Consigo dormir talvez três noites seguidas com 6 horas de sono, mas nitidamente noto diferença na minha energia no quarto dia. Assim, não adianta eu planejar trabalhar até altas horas da noite, se sei que meu corpo não vai aguentar. Isso de cara limita o tempo disponível que tenho para trabalhar. Para uma discussão sobre a prática (talvez extrema) de colocar dormir no seu calendário, ouça este excelente episódio do podcast Cortex.

Posso trabalhar todas as horas em que estou acordado? Não, porque preciso comer, e para isso preciso preparar comida. Isso embute um detalhe muito sutil: se não quero viver de caixas de lasanha, preciso levar em conta que, em alguns momentos da semana, preciso abdicar de trabalhar e mesmo de me divertir para cozinhar. E mais: preciso levar em conta que, nas quartas-feiras, vou começar a trabalhar mais tarde que o normal porque vou na feira de manhã, e contribui muito na minha qualidade de vida ter salada e frutas sempre na geladeira; além disso, mesmo que trabalhe bastante na semana, não posso passar o final de semana assistindo Netflix porque preciso preparar refeições para deixar prontas — ajuda muito na rotina ter sempre feijão e carnes ensopadas básicas no congelador, por exemplo, para descongelar num dia e comer no outro. Principalmente agora que estou morando com minha namorada, que leva almoço todo dia, é extremamente importante manter a rotina de descongelar e preparar refeições.

E eu também preciso fazer exercícios. É simples: tempo para ir na academia não é tempo disperdiçado; se preciso de mais tempo para cumprir algum prazo, preciso tirar de outra atividade, mas não de me exercitar. Quando machuquei a perna e fiquei algumas semanas sem me exercitar, foi muito claro como a minha produtividade caiu. Se eu não tivesse o privilégio de ter horários flexíveis, eu teria de embutir esse exercício ao longo do dia: ir a pé ou de bicicleta todo dia, procurar exercícios para fazer em casa, usar só a escada.

Enfatizo: sem saúde, é impossível ser organizado porque não há vida a organizar.

A importância de rotinas

Se existe algo que diferencia os meus colegas que tem sucesso daqueles que claramente patinam, é o horário de trabalho. Sim, é ótimo ter horários flexíveis, poder tomar um tempo maior para ir almoçar com meu pai, ou poder usar uma manhã para ir recepcionar meu primo no aeroporto, mas essas são situações especiais. Via de regra, eu estou trabalhando de segunda a sexta, das 8:30 às 17:30, e assim o fazem doutorandos e mestrandos que são sérios. Claro, existem aqueles que rendem muito mais de noite, e o privilégio de se ter horários flexíveis é ótimo para aproveitar isso, mas acho que é preciso ter muito cuidado. Em primeiro lugar, vamos tirar o elefante da sala: orientadores não amam alunos que chegam no laboratório só à tarde, mesmo que eles fiquem até tarde da noite. Em segundo lugar, pensar “tenho todo o tempo do mundo para fazer isso!” geralmente é seguido por “então posso ficar jogando mais um pouco”. Em terceiro, trabalhar de madrugada pode ser inútil se você precisa interagir com outras pessoas, que não compartilham dos seus hábitos. Para mim, sim, é ótimo ser flexível, mas horário de trabalho é para trabalhar.

Num post futuro, vou detalhar como estruturo meu dia, tendo em vista este esquema de horários. Mas ter uma rotina básica é um dos pontos de partida em como gerencio meu tempo.

O que é significativo

Minha filosofia geral quando se trata de gerenciamento de tempo é que tento sempre gastar tempo em coisas significativas. Esse é um dos principais conceitos que tirei do maravilhoso Workflow Mastery, de Kourosh Dini, que prega que nossa vida é melhorada quanto atribuímos significado ao que fazemos. No momento que agimos como robôs, apenas cumprindo ordens e apertando parafusos como Chaplin em Tempos Modernos, perdemos grandes oportunidades de ser felizes e desenvolver bom trabalho.

Um exemplo: eu tenho uma tarefa regular (mais sobre isso em outro post) de estudar Alemão toda terça e quinta. O Alemão é a minha terceira língua, estudei durante toda a faculdade, morei na Alemanha, e recentemente voltei a estudar para passar em um exame de proficiência exigido pelo meu Programa de Pós-Graduação. Por questões financeiras e de tempo, parei de fazer aulas depois de cumprir o tal exame, mas não parei de estudar. Para mim, falar alemão é significativo, e eu me orgulho de poder fazê-lo de maneira razoável. Não é vital saber alemão para o meu doutorado, mas certamente ajuda (já encontrei artigos e livros interessantes escritos em alemão e fiquei feliz de poder lê-los), e o processo de aprender outra língua movimenta o meu cerébro de uma maneira saudavelmente diversa de resolver modelos matemáticos. Então, eu regularmente dedico meu tempo e minha atenção a ler notícias e textos nessa língua, e eu o faço conscientemente.

Um outro exemplo: pela primeira vez em minha carreira, estou tendo de orientar o trabalho de alguém, que está fazendo Iniciação Científica comigo. Fiquei surpreso com o quando complexo pode ser sincronizar o trabalho de duas pessoas. Por conta disso, para montar nossos cronogramas (e inseri-loas no cronograma da nossa equipe de pesquisa), estou fazendo esse curso on-line de Microsoft Project (o software que a nossa equipe usa). É perda de tempo estudar Project? Não, porque eu vejo significado nisso. Durante a minha graduação, cometi o erro de achar que tudo que seja ligado à gestão é perda de tempo, mas agora que tenho mais responsabilidades vejo que saber o básico de gerenciamento de projetos é uma habilidade muito interessante para um aprendiz de pesquisador. Aprendendo a usar o Project, eu acho que posso coordenar melhor as atividades com o meu IC, posso fazer um melhor trabalho, e espero que ele tenha uma experiência melhor. Significativo, portanto.

Um terceiro exemplo não ligado ao trabalho: em um tempo livre à noite ou no final de semana, é melhor eu voltar a trabalhar em um artigo ou assistir Gilmore Girls com minha namorada (sim, eu sou um namorado bom assim)? Por definição, passar tempo de qualidade com minha namorada é algo bastante significativo (se não fosse, por que duas pessoas namorariam?). Se tive uma semana boa, e essa é a primeira oportunidade em algum tempo que temos de passar um tempo juntos sem nenhuma outra tarefa a fazer, não é muito difícil escolher ver o filme. Mesmo sabendo que eu poderia estar avançando no meu doutorado, eu tomo uma decisão consciente de ver o filme, porque sei que a vida não é só trabalho.

O que é perder tempo, então, para mim? É gastar tempo com o que não é significativo. Perceba que isso leva a algumas conclusões não-intuitivas. Algo que não traz significado para mim são congestionamentos, que me irritam bastante. Para evitar isso, eu vou caminhando para a Universidade em vez de carro, mesmo que às vezes demore mais tempo; o tempo que passo caminhando, muitas vezes ouvindo um podcast bom e pegando um solzinho de manhã, é mais significativo. Outro hábito não significativo é ficar lendo artigos aleatório na Folha, ou procurar vídeos quaisquer no YouTube, apenas para passar o tempo. Pegar A Dança dos Dragões para ler, se quero apenas relaxar um pouco, é mais significativo.

Tomar decisões com base no conceito de significado pode ser bastante libertador. Eu fazia parte de um grupo que propunha melhoramentos para o nosso laboratório, mas no momento em que deixei de ver significado naquilo, pedi para sair. Sim, era até pouco tempo, mas eu quero manter o meu tempo desperdiçado tão próximo de zero quanto possível.

De cima para baixo: definindo metas

Um última detalhe dessa visão mais global de como gerencio meu tempo e minha atividades é hábito que aprendi com o livro Vida Organizada, da Thais Godinho: começar a sua organização de cima para baixo.

Acabamos de ver que uma maneira de minimizar o desperdício de tempo é procurar sempre gastar tempo que o que é significativo. Porém, pode ser difícil distinguir o que é significativo no meio da correria, especialmente se você não tem plano de nenhum tipo. Um exemplo tipicamente nerd ao meu estilo: aprender uma nova linguagem de programação é perda de tempo? Como não sou programador profissional, aprender uma nova linguagem pode ser um hobby bastante interessante (imagino que menos para quem só faz isso o dia inteiro), mas que demanda tempo e energia. Dado que meu tempo é finito, será que aprender alguma linguagem é desperdício? Não é, se aprender esta linguagem está alinhado com meus objetivos.

Há uns dois anos, li o livro da Thais e fiz o exercício sugerido de definir metas para “100 anos” (i.e. como me imagino minha vida no final dela), de 5 anos e de 2 anos. A grande mágica é a desconstrução de metas impossíveis em planos de dois anos, que permitem maior flexibilidade que as infames resoluções de ano-novo. Não me sinto confortável compatilhando todas as minhas metas, mas posso dar um exemplo: não é segredo para ninguém que me conhece que quero me aposentar daqui a muitos anos como um professor renomado na minha área. Se quero isso daqui a 100 anos, o que posso fazer no médio prazo? Em 5 anos, para cumprir essa meta, preciso já ter passado em algum concurso para alguma universidade de qualidade. O que é necessário a curto prazo então para isso? Em dois anos (o “curto prazo” sugerido pela Thais e que acho que funciona muito bem), a contar de quando fiz esse plano, não vou conseguir defender meu doutorado e passar em um concurso, mas posso começar passando no Exame de Qualificação (o que já fiz) e publicando pelo menos um artigo, já que esse é um requisito básico para a defesa da Tese e um aspecto importante das provas de concurso. Então, presto: quaisquer ações que se direcionem a passar na Qualificação e em publicar artigos é bastante significativo porque contribui para esse projeto de longo prazo. Por isso que, como mencionei acima, abandonei o grupo de trabalho que propunha melhoramentos para o laboratório.

Parece tolo, mas através dessa mentalidade as metas que defini no início de 2015 com prazo até o fim de 2016 estão quase todas cumpridas. E, para isso fazer sentido, eu preciso periodicamente revisar essa “lista” (eu uso um mapa mental) de metas e verificar se o que que estou fazendo no momento se alinha com essas metas.

Um exemplo de projeto que abandonei porque não condizia com minhas metas: estudar piano. Eu fiz aula de teclado e violão quando mais jovem, e ao longo do mestrado flertei com a possibilidade de fazer aulas novamente, dessa vez de piano. Mas eu me conheço e sei que nunca vou ter a disciplina de me tornar um músico excelente, e eu não me enxergo como um excelente pianista no final da vida. Por mais que certamente seja interessante, não está alinhado com meus objetivos de vida, e por isso abandonei. Isso não é um exemplo de que “metas” só se aplicam ao trabalho. Eu conscientemente quero melhorar minhas habilidades na cozinha e gostaria de ser lembrado por isso quando morrer, por isso tenho tentado receber mais amigos aqui em casa. Para mim, é significativo dedicar-me a isso.

Também quero ser conhecido como escritos, e é por isso que estou escrevendo posts como esse.

Sugestões de ações

Como falei na introdução, não me considero um expert em produtividade e estou apenas documentando as minhas práticas, para eu continuamente avaliar o que dá certo e o que dá errado. Mesmo assim, se você leu esse texto e pensou “preciso fazer essas coisas que o Fábio”, aqui está uma lista de tarefas que recomendo:

  1. Examine a sua rotina e veja se você está dedicando tempo à sua saúde. Se você não faz exercício por falta de tempo, onde pode melhorar? Que outra atividade está tomando um tempo precioso?
  2. Leia o livro Vida Organizada, especialmente os primeiros capítulos. Imagine sua vida daqui a 100 anos; o que você quer realizar? Agora, o que pode fazer em um médio prazo para ir lá? E num curto prazo? Agora veja a suas atividades diárias; elas vão lhe levar a essa sua visão de vida? Visto de outra forma, você perde tempo que o que não significativo?
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Duas dicas para lidar com a desmotivação durante a pós-graduação

Um leitor deixou um comentário em outro post, dizendo que está fazendo mestrado em uma área diferente da sua formação, está tendo problemas em trabalhar com seu orientador e que se encontra desmotivado de maneira geral. Comecei a respondê-lo, mas logo vi que um assunto dessa importância merecia um post público, para que outras pessoas possam visualizar também.

Acredito que não exista estudante de pós-graduação que não se sinta terrivelmente desmotivado em pelo menos algum instante. Eu mesmo passei por isso: no meio de meio mestrado, uma sequência de coisas começaram a dar errado (incluindo tubos de vidro explodindo, jogando água e cacos de vidro pelo laboratório todo), e comecei a esbravejar para meus amigos me internarem se eu resolvesse fazer doutorado, depois de passar por tudo isto. Bem, aqui estou no supra-citado doutorado há mais de um ano. A empolgação de terminar o seu trabalho, ver um documento científico com seu nome e o diploma com o título de Mestre mais do que compensam as dificuldades.

Porém, antes da alegria da conclusão, o desânimo é um problema real e mal abordado. Fazer mestrado ou doutorado é ingrato: você ganha pouco, trabalha muito, tem de enfrentar a burocracia da pesquisa brasileira e ainda tem de ouvir de todas as pessoas à sua volta a pergunta “mas você só estuda?”. Mas também é um privilégio: você (ao menos teoricamente) ganha dinheiro para estudar e se debruçar no que (também teoricamente) gosta, não têm um chefe para lhe dar ordens, tem todos os direitos de estudante, têm horários mais flexíveis. O segredo está em saber então aproveitar essas vantagens e adquirir hábitos que ajudem a passar por fases ruins. Tenho duas dicas principais.


Em primeiro lugar, com toda a discussão de pós-graduação ser trabalho ou não, ela certamente tem elementos de um trabalho “normal”. Quando você ingressa em um programa de pós-graduação, você carrega o nome do programa em tudo o que você faz: se você se atrasa para defender a sua dissertação ou tese, isso é reportado às agências de fomento e o seu programa perde pontos; quando você publica um artigo ou se apresenta em algum congresso, o nome da sua instituição é uma das primeiras coisas que aparece; quando você sai para trabalhar em algum lugar, você provavelmente será “o fulano que veio de tal universidade”, pelo menos para algumas pessoas. E se você ganha bolsa, isso pode estar atrelado aos esforços do seu orientador. Portanto, você não é um mero estudante, mas sim alguém que deve prestar contas de alguma forma, ainda mais se participa de algum grupo de pesquisa, fazendo com o próprio trabalho de outras pessoas dependa do seu.

Por esses motivos, tratar o ritmo de pós-graduação com profissionalismo é, na minha opinião, uma das coisas mais sensatas a se fazer, e isso envolve ter rotinas de trabalho. Sei que sou minoria, mas nunca em toda a minha jornada de mestrado ou doutorado virei noites no laboratório, assim como abomino a ideia de fazer do trabalho em fins de semanas um hábito (embora vésperas de prazos para artigos ou defesas sejam motivos aceitáveis, para mim). Algo que sempre me ajudou, mesmo nos piores momentos de desânimo, foi não abandonar o ritmo da vida cotidiana. Mesmo com tubos explodindo, eu ia correr quase toda manhã, ficava com minha namorada nos fins de semana, mantinha os horários das refeições e pelo menos aparecia para trabalhar todo dia, mesmo que seja para escrever um parágrafo de algum relatório.

Se você está desmotivado, a pior coisa que você pode fazer, na minha experiência, é seguir os extremos: ou se tornar a pessoa relapsa na qual ninguém confia, ou trabalhar demais para resolver os problemas rápido e ficar permanentemente cansado. A solução para o primeiro eu já falei: por pior que você se sinta, tente pelo menos, de segunda a sexta, sentar em alguma cadeira e fazer alguma coisa, qualquer coisa; uma vez vencida essa inércia inicial, você pode acabar entrando no ritmo. E a solução para o segundo problema teoricamente é fácil; durma o número de horas suficiente, alimente-se bem (nada de almoçar uma coxinha), exercite-se, e quando chegar em casa descanse, veja um filme, toque violão. Acredite: às vezes é tudo uma questão de energia.


A segunda dica se refere a aproveitar ao máximo as partes boas do seu mestrado ou doutorado. Você pode estar desmotivado com alguma coisa, mas certamente há outras nas quais você é bom e das quais você gosta. Já falei por aqui que o mestrado me ensinou que as pessoas que se destacam são aquelas que se especializam em algo paralelo à sua profissão, como engenheiros que são apaixonados por fotografia e se tornam admirados pelas imagens que eles produzem para seus trabalhos. O leitor que deixou o comentário que originou este post disse que estava tendo dificuldades em estudar o tópico (presumivelmente ao fazer a revisão da literatura). Caro leitor, deve haver algo de que você goste no seu trabalho (caso não haja nada, pode ser hora de procurar ajuda psicológica e conversar com seu orientador sobre possibilidades de mudar de projeto); aproveite ao máximo as suas horas nesse trabalho. Se ler artigos está chato, mas você gosta de desenhar, então produza os melhores desenhos possíveis. Se você tem de criar modelos numéricos, odeia programação mas gosta de escrever, pratique a escrita — talvez sobre o seu modelo numérico.

Como falei anteriormente, a primeira atitude é criar um sistema manter o profissionalismo, e pelo menos sentar para trabalhar. Ao começar o dia, resolva as suas prioridades primeiro, mas não deixe de fazer coisas das quais você gosta. Agora mesmo, são 16:30 da tarde e eu me dou o luxo de estar escrevendo este blog — mas só depois de ter passado mais de 4 horas trabalhando no Exame de Qualificação.


Essas são as duas principais dicas, baseados no que eu vivi e no que observo das pessoas à minha volta. Conheci algumas pessoas que adoravam reclamar da vida e se dizer arrependidas por fazer mestrado/doutorado, mas muitas delas achavam que a solução era dormir o dia inteiro para poder jogar videogame, ter horários caóticos e atrapalhar o trabalho dos outros (e essas pessoas não deixaram uma boa impressão). Por mais desmotivado que você esteja, você assumiu um compromisso (como falei anteriormente), e simplesmente não fazer nada não resolve a sua situação. Conheci também algumas pessoas que não estavam 100% felizes, mas que podiam ser encontradas todo dia no laboratório avançando no seu trabalho, motivando-se a terminar da maneira mais rápida para poder partir para outros projetos.

Um último caso, pode ser que você precise de ajuda mais especializada (recentemente conhecida minha teve séries crises nervosas e está precisando de atendimento psicológico). Considere também delimitar um período de férias (mas de no máximo uma semana), dedicada unicamente a fazer você refletir sobre a sua vida, ou no limite pedir trancamento para que você embarcar em outra jornada, pelo menos temporariamente. Mas, enfatizo novamente, faça alguma coisa.

Sei que fazer pós-graduação não é fácil. Espero que essas dicas possam trazer alguma luz a meus leitores que estejam passando por estes problemas.

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Criticando livros

Uma das minhas passagens favoritas de Comer Ler Livros (How to Read a Book (HTRAB), Mortimer Adler e Charles van Doren, Touchstone, 1972) é esta (tradução livre minha):

Você deve lembrar de alguma ocasião onde alguém disse a algum palestrante, em uma respiração ou no máximo duas, “Eu não sei o que você quer dizer, mas acho que você está errado”

Ora, isto é completamente sem sentido. Se você não entendeu algo, não pode criticar (a Regra 9 da leitura analítica). É por isso que a última parte da leitura analítica de um livro (que estou cobrindo nesta série
) é realmente a última: só depois de você entender a estrutura
e o conteúdo
é que você pode começar a fazer julgamentos.

Vamos relembrar do último texto
que eu identifiquei os argumentos principais de A Árvore do Dinheiro (Macedo Jr., Insular, 2013), os quais, como se trata de um livro prático, se convertem em sugestões ao leitor. O Prof. Jurandir mostra algumas pesquisas, fala de sua experiência própria e usa de argumentação lógica para dizer: “Leitor, se você quiser melhorar sua relação com dinheiro e cumprir seus objetivos financeiros, estas são as dicas que você precisa seguir”. A questão é: eu, enquanto leitor, concordo?

Se sim, como os autores de HTRAB dizem, o trabalho está feito. Eu li um livro com o máximo de atenção que eu consegui, mapeei sua estrutura, achei as palavras e frases mais importantes e extrai o seu significado. No caso de um livro prático como este, eu concordei que os passos que ele propôs vão levar aos fins que ele estabeleceu, e que eu quero alcançar estes fins (note que são dois julgamentos diferentes que devem ser feitos em um livro prático). Se este é o caso, eu acabei a leitura — e preciso agora praticar as recomendações dele.

No caso de AD, eu concordo sim com o livro, e acho que então que terminei meu trabalho. Eu tenho apenas uma reserva, mas é aí que entram as Regras 10 e 11 da leitura analítica, que dizem que, antes de criticar, você deve se abster de ser violento nos seus comentários e deve diferenciar entre o que é a sua opinião e aquilo sobre o que você pode provar que o autor está errado. Eu não consigo fazer isso (dizer que o livro tem informações falsas), pois a argumentação e as dicas do Prof. Jurandir são bem construídas. Minha única divergência é que o autor recomenda clubes de investimento como uma maneira “divertida” e fácil de começar a investir, e as minha tendências levemente anti-sociais me fazem achar que começar sozinho, perguntando bastante mas aprendendo a fazer você mesmo, pode ser mais efetivo. Mas, novamente, eu reconheço que isto é uma opinião minha, e não consigo convencer ninguém que clubes de investimento não são uma boa opção (até porque conheço poucas pessoas que já participaram de algo assim).

As Regras 12 a 15 mostram como exatamente analisar como um autor está errado (onde ele omitiu informação? onde ele não foi lógico?), mas na minha análise de AD isto não se aplica (já que eu estabeleci que concordo com o livro), e portanto não vou abordar estas regras aqui (e por isso este texto ficou bastante curto). Vá comprar uma cópia de Como Ler Livros para aprender mais.


E chegamos ao final dessa série, que foi uma das coisas mais desafiadoras que já fiz em FabioFortkamp.com. Mostrei um processo exaustivo mas recompensandor de extrair o máximo de informação de um livro. Como no momento estou numa fase de me interessar pelo assunto, talvez eu resenhe mais alguns livros de finanças por aqui. E, como sempre, obrigado por lerem este blog.

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Interpretando um livro

Na nossa jornada para aprender a tirar o máximo dos livros, falamos como é interessante você primeiro inspecionar uma obra, com o objetivo principal de saber se ela vai lhe ajudar a cumprir seus objetivos. Se sim, você procede a uma leitura analítica, lenta e atenciosa, prestando atenção a cada frase. De acordo com Adler e van Doren, os autores de Como Ler Livros (HTRAB), existem três etapas principais para você realmente analisar um livro por completo. No último texto, falamos da estruturação do livro. Sobre o que é o livro? Qual a ideia principal? Como o autor estrutura essa ideia? Quais os problemas que ele quer resolver? Essas são as primeiras quatro regras da leitura analítica.

O segundo estágio (que pode ser feito simultaneamente com o primeiro, na verdade), consiste em interpretar o livro, e o modelo de HTRAB segue uma boa seqüência de dentro para fora do livro.

Passos da interpretação de um livro

Identificando os termos

Uma obra literária, no mais detalhado grau, é um conjunto de palavras, e bons autores se diferenciam pelo uso eficiente destas. Nem todas as palavras são importantes, e uma das tarefas do leitor, a Regra 5 da leitura analítica, é identificar quais são importantes e o que elas querem dizer.

Muitas vezes o autor repete incessantemente uma palavra, ou usa diversos sinôminos com um significado só, ou mesmo faz uso extensivo de sublinhados e itálico. Isso é um alerta, um modo do autor dizer “Cuidado! Essa palavra é importante!”. Não exatamente a palavra, mas o termo, o que ela precisamente significa dentro das ideias do livro.

Umas dos termos mais importantes de A Árvore do Dinheiro (AD), (Macedo Jr., Insular, 2013), sem dúvida, é dinheiro, significando algo que você recebe pelo seu trabalho, por presentes, prêmios ou investimentos, e troca por outros bens e serviço; a mais simples definição de dinheiro, para mim, e que serve dentro do contexto de AD foi exemplificada por Alexandre Versignassi em Crash (Leya, 2011):

Dinheiro é um mecanismo engenhoso: permite que uma manicure compre seis pãezinhos sem ter de fazer as unhas do padeiro.

Como acontece com muitas habilidades, é apenas com o hábito de ler muito (como eu estou tentando continuamente cultivar em mim) que você aprende a identificar os termos mais importantes. Aqui está uma lista dos outros que eu identifiquei em AD:

  • Investimento: mecanismo pelo qual você aplica dinheiro e recebe rendimentos, algum tempo depois
  • Felicidade: estado de contentamento, plenitude e paz interior
  • Consumo: hábito controlado ou não de comprar coisas
  • Desejar: querer algo de maneira passional
  • Juros: preço do dinheiro em um investimento: é o que você paga quando empresta dinheiro ou recebe quando o investe
  • Objetivo: algo que você quer realizar dentro de algum prazo
  • Risco: variação temporal dos preços dos investimentos
  • Aposentadoria: processo pelo qual você vive de renda não gerada pelo seu trabalho
  • Mercado: conjunto de pessoas que compram ou vendem algum produto ou serviço
  • Decisão: ato de escolha de alguma ação (no sentido de atividade)
  • Finanças: é usado em dois sentidos ao longo do texto: como estudo de assuntos relacionados a dinheiro (como em “Finanças Comportamentais”), ou como o conjunto do seu patrimônio, renda, dívida e hábitos relacionados a dinheiro (as suas famosas “finanças pessoais”).
  • Emoções: característica dos mamíferos de se apegar a algo ou alguma ideia de maneira irracional (eu usei “mamíferos” porque isso é importante no primeiro capítulo — a propósito, leia o livro!
  • Títulos: tipo de investimento no qual você empresta dinheiro a empresas/governo/bancos, e recebe juros em cima disto
  • Ações: tipo de investimento equivalentes a cotas de uma empresa que você compra, dando direito a receber parte dos seus lucros
  • Fundos: tipos de investimento formado por vários outros sub-tipos
  • Carteira: o seu conjunto pessoal de investimentos.

Identificando proposições

Subindo um nível no livro, passamos de termos a proposições — e, assim como ler um livro com qualidade é ler fazendo perguntas, as proposições mais importantes, segundo HTRAB, são aquelas que levantam as melhores perguntas, ou que melhor contribuem para resolver os problemas do autor. Para relembrar do último texto), os problemas que eu identifiquei que A Árvore do Dinheiro tenta resolver são:

  1. Como construir uma “árvore do dinheiro”, isto é, o que deve ser feito ao longo da vida de uma pessoa para que, quando a pessoa estiver mais idosa, ela comece a receber rendimentos do dinheiro que foi aplicado?
  2. Por que o conhecimento clássico, puramente matemático, das finanças não é suficiente? Por que as nossas emoções nos atrapalham na construção dessa árvore do dinheiro?
  3. Quais são os mecanismos pelos quais uma pessoa constrói a sua árvore do dinheiro? Qual a melhor estratégia?

Por exemplo, referente à primeira pergunta, o autor faz uma proposição importante:

Se você pretende ficar rico, só existe uma receita: precisa gastar menos do que ganha e investir suas economias

Esse é o próprio resumo da resposta à primeira pergunta. Mas isso levanta outras duas perguntas: como gastar menos, e como investir as nossas economias?

Quão fácil é poupar dinheiro? Analisemos um trecho de AD:

Acreditamos que você pode facilmente poupar e ser previdente sem deixar de aproveitar a vida. Pode dosar trabalho e lazer sem prejudicar seu desempenho profissional. […] O segredo é poupar nos gastos que não contribuem para sua qualidade de vida e fazer um bom planejamento financeiro.

A proposição central é então “uma das chaves para ter mais dinheiro para investir é identificar os gastos que não trazem felicidade”. Veja esta outra passagem:

Na Europa é comum que as pessoas ricas adquiram objetos de luxo apenas com o rendimento de seu capital. Somente com a renda que provém de seus investimentos é que os milionários nesses países compram determinados artigos, como carros potentes e bolsas de grife, que têm preço exorbitante. No Brasil é comum presenciarmos situações de pessoas que se endividam para comprar roupas, carros e joias que não condizem com seus ganhos mensais. É importante frisar que você deve tomar cuidado ao adquirir objetos de luxo com o dinheiro que é fruto de seu trabalho. Até porque o trabalho demanda tempo, que é o bem mais precioso.

Mas por que afinal as pessoas se endividam para comprar artigos de luxo? A resposta está distribuída ao longo de várias passagens ao longo do texto, mas a proposição central é que “poupar para o futuro é uma atitude puramente racional e que se baseia na hipótese de que não vamos morrer, mas gastar agora traz uma dose de prazer imediato, e nosso lado mais primitivo adora essas recompensas momentâneas”. Diante da oportunidade de comprar um carro novo e exibir para o seu desafeto na empresa, fica difícil controlar esse instinto de estabelecer status para poupar para a aposentadoria. Quem disse que estaremos vivos até lá?

E assim você vai analisando o livro, montando proposições (que devem ser feitas a partir com suas palavras) a partir de uma ou mais frases do autor (a Regra 6 da leitura analítica). Como outro exemplo, outra proposição principal é que “à medida que você vai envelhecendo, deve trocar seus investimentos de ações para títulos públicos”. (Isso é parte da resposta à pergunta 3 acima). Ou, referente à pergunta 2, uma outra proposição diz que “mercados são compostos de pessoas, e pessoas muitas tomam decisões no calor do momento, mesmo que não faça sentido nenhum, e isso é difícil de calcular matematicamente”.
AD tem muito mais proposições; aqui está uma lista de algumas (estas são, em sua maioria, palavras minhas):

  • Pesquisas e a experiência comum mostram que a felicidade está ligada a aspectos que o dinheiro não pode comprar, como espiritualidade e relacionamento com pessoas amadas
  • Porém, falta de dinheiro e endividamento estão quase sempre ligados à infelicidade
  • Não há sentido nenhum em trabalhar mais para ganhar mais, se isto chega a um ponto em que você não tem mais tempo para aproveitar esse dinheiro
  • Poupar demais pode ser tão ruim quanto não poupar de menos
  • O planejamento financeiro é uma maneira de controlarmos os nossos instintos de consumo e aumenta nossas chances de poupar
  • Pessoas que não se planejam delegam esse planejamento para gerentes de banco
  • No jogo econômico, ou você paga juros, ou os recebe
  • Você se torna rico quando os rendimentos dos seus investimentos (e não o seu trabalho) geram a receita que você precisa e quer para viver.
  • Você deve separar o dinheiro para poupança como uma despesa fixa, todo mês.
  • Fundos de investimento cobram taxas de administração, mas permitem que pequenos investidores se juntem e consigam negociar como grandes investidores
  • Investimentos em títulos de Tesouro Direto são uma das mais atrativas opções para o investidor típico
  • Os títulos do Tesouro Direto (e outros títulos de renda fixa), por terem rendimento fixo (ou indexado a algum fator determinado, como a Selic ou os índices de inflação), só representam prejuízo garantido para o investidor na muita remota hipótese de o governo dar o calote
  • As ações rendem tanto quanto o sucesso financeiro das empresas o permite, mas a chance de rendimento positivo significativo em um prazo menor que dez anos é muito remota
  • A tributação brasileira sobre investimentos favorece muito quem segura os investimentos por três anos ou mais
  • Pesquisas e teorias economômicas mostram que a especulação (compra e venda ativa e diárias de ações) não rende mais que um investimento passivo, onde o o investidor compra ações ao longo de um horizonte de dez anos ou mais e depois começa a colher dividendos
  • Uma carteira de investimentos diversificada, onde a proporção de renda variável decresce ao longo do tempo, é, segundo mostram alguns exemplos, a melhor estratégia de investimentos
  • Planejamento financeiro é algo dinâmico e exige constante reavaliação.

Identitificando os argumentos

Proposições se juntam para formar argumentos, uma sequência lógica de ideias. Como A Árvore do Dinheiro é um livro prático, as proposições e arguementam se mesclam também com as sugestões que o autor faz para que você siga. Ou seja, ao ler um livro prático, é interessante identificar o que o autor recomenda que você faça para melhorar a sua vida no aspecto que ele está estudando.

A lista acima dá muitos exemplos de proposições que se juntam para formar argumentos. Por exemplo: dado que nossos sistemas primitivos sempre vão nos puxar para o lado do prazer imediato (pense no pico de prazer ao tomar sorvete, mesmo que você racionalmente saiba que não deveria comer tanto açúcar), para vencer isso você deve formar o hábito de planejar as suas finanças e se pagar primeiro. Trate a sua poupança como uma despesa fixa, onde assim que você recebe o seu salário você dedica uma parcela (de 8 a 20% é o recomendado pelo autor; pessoas mais jovens podem se dar ao luxo de poupar menos, porque terão mais tempo de poupança) para algum investimento. Como fazer para não faltar dinheiro para as outras despesas (incluindo contas a pagar): poupe naqueles itens que não contribuem na sua qualidade de vida. Uma sugestão boa do autor é regularmente se perguntar “o que me traz felicidade?”. Literalmente, de tempos em tempos pegue uma folha de papel e faça uma lista do que é importante. De repente você descobre que assitir TV a cabo não entrou na sua lista, e poderia cortar essa despesa.

Porém, o perigo inverso é poupar demais, e nem chegar a viver para ver os frutos dessa poupança. O autor mostra uma pesquisa de um psicólogo americano que concluiu que a felicidade está ligada a prazer, engajamento e significado. O dinheiro só pode comprar prazer (não tendo muito efeito prático na relação com sua mãe nem com o sentido que você atribui à sua existência), e é imporante não esquecer dos pequenos prazeres que podem trazer muita felicidade. Tomar uma cerveja com seus amigos numa sexta-feira pode ser bastante barato (se você não se deixar levar pela tentação de frequentar bares da moda) e trazer bastante felicidade. Ou o cinema que você vai com sua namorada para ver aquele filme pelo qual você não aguenta esperar. Ou o livro do seu autor favorito. Em geral, todos esses pequenos gastos podem ser encaixados no orçamento, com algum planejamento, e trazem grande benefício.

Outro exemplo, para finalizar: a tributação e a maneira como os mercados oscilam favorecem muito o investimento em longo prazo. Investidores “amadores” não têm tempo para tentar adivinhar qual empresa está melhor em cada dia, e parte do lucro que supostamente pode ser obtido com um jogo de trading vai ser comido por impostos e pelas taxas das corretoras. Além disso, pesquisas em Economia mostram que os preços das coisas semprem tendem ao seu valor eficiente; você até pode encontrar uma ação que está muito barata, mas as milhões de outras pessoas logo vão perceber e corrigir isso (comprando ações), e você não vai conseguir correr atrás de todas as ações muito baratas. Logo, a melhor estratégia (de acordo com essas pesquisas e com a experiência do autor) para construir a árvore do dinheiro é ser passivo: pague-se primeiro (como já falado) e investa essa poupança em títulos de tesouro e um ações de empresas de setores diferentes (indústiras, alimentos, serviços financeiros, mercado de roupas…), de maneira que uma crise em um setor seja “amortecido” pelos outros; o crescimento natural da economia vai se encarregar de valorizar o seu patrimônio. Á medida que você for envelhecendo, vá direcionando mais e mais para o tesouro, que tem rendimento menor porém garantido. Entretanto, você também vai ter objetivos de curto e médio prazo, como uma viagem ou trocar de carro; para esses casos, a renda variável é muito arriscada, mas a caderneta de poupança (que sempre perde para a inflação em prazos muito longos) e alguns tipos de títulos do tesouro funcionam bem. Trace seus objetivos e trace planos para cada um, de acordo com o horizonte de tempo disponível (lembram que esse era um dos meus principais problemas?).

Juntar proposições em argumentos é a Regra 7 da leitura analítica.

Identificando as respostas aos problemas do autor

O último passo da interpretação do livro é verificar se o autor responder às perguntas que ele mesmo propôs, e caso contrário, onde ele falhou (a Regra 8 da leitura analítica).

No caso de livros práticos, a minha percepção é que o autor raramente vai deixar claro onde estão as falhas (em um livro prático a pessoa propõe uma metodologia, e não vai querer apontar onde ela é incompleta). No caso de AD, que é um livro relativamente curto, para mim fica claro que o Prof. Jurandir concatenou todas as respotas para as suas três perguntas principais, através dos argumentos que eu delineei na última seção.

Da interpretação à crítica

O último estágio da leitura é criticar o livro — e isto significa muito mais que dizer se o autor está certo ou errado. É usar a sua experiência para avaliar o livro.

Aguardem para a última parte desta série que está me dando muito trabalho, mas está me dando uma luz incrível, tanto sobre Como Ler Livros quanto sobre A Árvore do Dinheiro.

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Descobrindo a estrutura de um livro

No último post da série sobre Como Ler Livros, de Adler e van Doren (que eu abrevio conforme o inglês como HTRAB), falei da leitura inspecional. O fato é o seguinte: eu adoro ler livros e quero ficar cada mais melhor nisso. Adler a van Doren professam, e eu testemunho como verdade: é impossível ler um livro por completo apenas uma vez. Você corre o risco clássico de se perder em passagens difíceis sem ter certeza do que se trata, ou descobre no meio do livro que ele não interessa em nada a você. Assim, é mais interessante realizar uma primeira leitura por cima, para você ter uma visão panorâmica do livro, e só depois ler o livro com mais calma. De preferência, isso deve ser feito de uma só vez, em uma ou duas horas, para propriamente sentir o livro. Fiz isso com A Árvore do Dinheiro (que abrevio por AD), do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr. (Elsevier, 2010), e cheguei a esse resumo:

Este é um livro prático de finanças pessoais (relacionadas às ciências economômicas e à psicologia, sendo um livro científico portanto). O autor usa elementos da teoria financeira e comportamental para traçar um plano, cuja meta é construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar os objetivos do leitor. Os capítulos seguem a ordem proposta do plano: primeiramente é discutido como traçar objetivos coerentes com o nosso estilo de vida; em seguida é levantada a questão do orçamento pessoal e de como fazer sobrar dinheiro para que este seja investido. Uma breve explicação sobre risco, investimentos e capital segue, e o livro termina abordando três grandes grupos de investimentos: fundos, renda fixa e renda variável, a serem adotados pelo leitor conforme seus objetivos.

O próximo passo é a chamada leitura analítica, uma leitura lenta, atenta e bastante ativa (anotações são praticamente obrigatórias). Cada palavra deve ser entendida, e você deve constantemente fazer perguntas sobre o livro (já vamos falar sobre elas). Ao final, quando você fecha a última página do livro, seu trabalho como leitor não está terminado. É uma questão de respeito intelectual com o autor você digerir o livro.

A leitura analítica, sendo uma atividade complexa, na verdade consiste de várias etapas, não significando, como os autores enfatizam, que você deva ler o livro várias vezes (você deve ler um livro apenas quantas vezes for necessário para entendê-lo). O primeiro estágio compreende descobrindo sobre o quê é o livro.

Antes de continuar, devo dizer que fiz essa leitura mais especializada na versão digital atualizada da obra (Insular, 2013), pela comodidade que é fazer anotações no Kindle e para ter alguns dados mais atualizados.

Um outro detalhe é que, depois de terminado de ler o livro analiticamente, esperei pelo menos uma semana para começar a escrever esses textos, para dar tempo para as ideias sedimentarem na minha cabeça.

Passos do primeiro estágio da leitura analítica – descobrindo a estrutura do livro

Identificando o assunto

O primeiro passo sugerido pelos autores de HTRAB é identificar propriamente o assunto do livro (Essa é a Regra 1 da leitura analítica). Isso já foi feito na minha leitura inspecional (nesse sentido, acho que me antecipei um pouco em relação aos autores), mas após a leitura mais cuidadosa é interessante observar se aquele resumo que você produziu é verdadeiro. No caso de AD, que é um livro relativamente simples, a minha classificação foi acertada. É um livro primariamente sobre economia, com discussões sobre decisão, juros, risco, rendimentos, capitais; e é um livro prático, onde o autor constante sugere que o leitor faça alguma coisa para melhorar a sua vida financeira.

Identificando a unidade

O segundo passo é estabelecer a unidade do livro. Uma das minhas passagens favoritas e HTRAB é onde os autores pegam vários exemplos de livros e mostram como eles descreveriam a essência do livro, em algumas frases.

Naturalmente, uma boa leitura inspecional, seguida de uma leitura analítica atenta, ajuda muito nessa parte. Como falei, uma vez que você fechou o livro, afaste-se dele e procure estabelecer uma visão paranorâmica do livro. Fundamentalmente, do que se trata o livro? Aqui está como eu descreveria a unidade de AD:

Este é um livro detalhando um plano para que indivíduos usem conhecimentos sobre si mesmo (especificamente, sobre por que consumimos, por que não poupamos e por que temos aversão a riscos) e sobre o funcionamento dos mercados (chamando a atenção para o fato de que dinheiro é um mercadoria, e que existem mecanismos pelos quais você empresta dinheiro e recebe juros em cima disto) com o objetivo de construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar seus objetivos fincanceiros (como comprar casas e carros, realizar viagens, aposentar-se etc).

Essa não é a única forma de descrever a unidade dessa obra, e nem a melhor. É a minha versão, tendo em conta a minha experiência de ler o livro.

Fazer essa identificação é a Regra 2 da leitura analítica.

Identificado a estrutura

Livros expositórios tem como unidades de divisão básica as partes e os capítulos. Eu acho que sou um pouco chato com a questão “semântica” da divisão e logo me irrito com uma divisão de capítulos que não faz sentido. Para mim, uma boa divisão significa que, ao pular de um capítulo para outro, o leitor consegue entender tudo que há no livro até o capítulo recém-lido e percebe que uma nova ideia segue.

Quando várias pessoas lêem o mesmo livro, a divisão do autor é naturalmente a mesma, mas um ponto importante que os autores de HTRAB lembram é que a maneira com que você, leitor, faz as divisões, não necessariamente é a mesma do autor. Diferentes leitores vão identificar a estrutura do livro de maneira diferente. Tomemos A Árvore do Dinheiro como exemplo. O livro tem seis capítulos:

  1. Comportamento Financeiro
  2. Planejamento Financeiro
  3. Teoria Financeira
  4. Fundos e Clubes de investimentos
  5. Investimentos em Renda Fixa
  6. Investimentos em Renda Variável

Quando eu li o livro, para mim ficou claro que o livro é composto de duas macro-partes, com uma divisão em capítulos — com o detalhe de que, para mim, os capítulos estão na ordem errada. Eis o meu outline do livro:

  1. Fundamentos de teoria e planejamento financeiro
    1.1. Comportamento financeiro (Cap.1) — onde é discutido por que tendemos a ser consumistas, qual a relação entre dinheiro e felicidade e como esse conhecimento pode ajudar a poupar mais
    1.2. Teoria Financeira (Cap. 3) — deveria vir logo depois do primeiro capítulo, onde é apresentado um resumo da teoria econômica de investimentos: o que é risco, o que o “mercado”, quais as principais tendências da teoria de investimentos
  2. Estratégias de investimento — onde os conhecimentos teóricos são postos em práticas
    2.1. Planejamento financeiro (Cap. 2) — onde é apresentado um modelo de passos a seguir para cumprir seus objetivos financeiros
    2.2. Tipos de investimento — como fazer o seu planejamento do item anterior ser posto em prática
    2.2.1. Fundos e Clubes de investimentos (Cap. 4)
    2.2.2. Investimentos em Renda Fixa (Cap. 5)
    2.2.3. Investimentos em Renda Variável (Cap. 6)

Isso é só uma opinião minha, e não estou dizendo que o livro deve ser mudado. Após ter lido o livro, essa divisão me ajuda a entendê-lo melhor e seria a que eu usaria se tivesse de explicar o seu conteúdo para alguém (como estou fazendo agora mesmo).

Essa divisão poderia ser refinada ainda mais, mas os capítulos de AD são curtos e atômicos, e eu sinto que o delineamento que eu acabei de fazer é suficiente. Como Adler e van Doren constantemente repetem ao longo de HTRAB, cada livro é único no esforço que demanda do leitor. AD é um livro interessante porém fácil de ler, e portanto uma estrutura simples como a acima deve bastar para consolidar a minha compreensão do livro.

Delinear um livro é a Regra 3 da leitura analítica.

Identificando os problemas

Uma pessoa escreve um livro porque nele documenta a solução de algum problema — em geral, o autor procurou entender mais de algum assunto e então mostrou o resultado dessa pesquisa em algum livro.

Nesse sentido, a introdução de AD ajuda muito. Nela, o Prof. Macedo Jr. escreve:

[A experiência de ministrar cursos de mercado de capitais] propiciou uma série de contatos com milhares de alunos que, em sua maioria, conheciam muito bem o mercado financeiro e sabiam manipular ferramentas de controle de orçamento. No entanto, esses mesmos profissionais afirmavam ter enormes dificuldades para controlar suas finanças pessoais

Por que pessoas capacitadas em administrar e aconselhar seus clientes em questões financeiras não conseguiam controlar as próprias finanças? Essa dúvida inicial, que me desafiava e atormentava, certamente foi o que me conduziu a este livro.

O autor segue contando como ele se enveredou pelo estudo das Finanças Comportamentais e aplicou esse conhecimento em cursos, palestras e artigos.

Naturalmente, essa indicação não é suficiente para identificar esse problema — afinal, eu dediquei esforço a ler o livro analiticamente, e devo usar esse conhecimento. Aqui está como eu identifico os probemas do autor (a Regra 4 da leitura analítica):

  1. Como construir uma “árvore do dinheiro”, isto é, o que deve ser feito ao longo da vida de uma pessoa para que, quando a pessoa estiver mais idosa, ela comece a receber rendimentos do dinheiro que foi aplicado?
  2. Por que o conhecimento clássico, puramente matemático, das finanças não é suficiente? Por que as nossas emoções nos atrapalham na construção dessa árvore do dinheiro?
  3. Quais são os mecanismos pelos quais uma pessoa constrói a sua árvore do dinheiro? Qual a melhor estratégia?

O passo seguinte da leitura analítica

Nada disso propriamente faz você entender o conteúdo de um livro, o que é o tema das próximas regras da leitura analítica. Porém, não deve ser difícil perceber que ter esse mapa que acabamos de fazer ajuda. No meu próprio caso: eu tenho várias anotações sobre o livro, passagens que me chamaram a atenção ou comentários que eu fiz sobre alguma seção. À medida que eu for processando-as para escrever os próximos textos (e ter um arquivo com a minha análise de AD), vai ficar mais fácil ver como passagens em partes distintas se conectam com a unidade central do livro, e entender por que o autor disse algo no começo do livro, tendo em vista que lá no capítulo final ele volta a esse problema.

Aliás, tendo identificado precisamente quais os problemas (e eu só tive essa percepção clara quando escrevi este post) vai me fazer ter outra visão sobre as minhas anotações.

E sim, ser um bom leitor dá trabalho. Mas, se você quer elevar o seu conhecimento, esse trabalho vale a pena.

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Um exemplo de leitura inspecional

Continuando a série
sobre Como Ler Livros, vou agora demonstrar como eu faço a leitura inspecional do livro. Como dito no último post (de leitura obrigatória para este), estou usando como exemplo A Árvore do Dinheiro (Elsevier, 2010), do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr., que estou re-lendo com o objetivo expresso de melhorar a minha compreensão sobre diferentes atitudes financeiras a se tomar para diferentes horizontes de tempo. Eu já anoto todos os meus gastos, aprendi a controlar as receitas e despesas, e já estou investindo em ações, pensando no longo prazo. Minha pergunta é: como investir inteligentemente para o médio prazo, de 3 a 5 anos, quando os investimentos em ações têm um risco enorme de resultarem em prejuízo (ou serem consumidos pelo imposto de renda).

Seguindo as técnicas de HTRAB, antes de se ler um livro em atenção, é importante ter uma visão geral da obra, e é esse o objetivo da leitura inspecional. Como dizem os autores (tradução livre minha):

O tremendo prazer que pode vir de ler Shakespeare, por exemplo, foi arruinado para gerações de estudantes de ensino médio forçados a trabalharem em cima de “Júlio César”, “Como Gostais”, ou “Hamlet”, cena por cena, procurando todas as palavras estranhas em um glossário e estudando todas as notas de rodapé acadêmicas.

Isso foi uma revelação para mim. Quantos livros abandonei na décima página por já ter perdido a noção do assunto sobre o qual estou lendo? Pensando bem, a ideia da leitura inspecional é natural. Se eu tenho um livro na minha mão, e quero aprender algo sobre ele, a probabilidade de que eu esteja num nível muito abaixo de compreensão em relação ao autor do livro é grande. Seria irrealista da minha parte achar que com apenas uma leitura muito atencionsa eu conseguirei entender tudo e me tornar um especialista no assunto.

O primeiro nível de leitura é o elementar, onde enxergamos, letras, palavras e frases que formam um significado. Subindo de nível, temos agora seções, capítulos, o livro como um todo — ou seja, a estrutura de um livro, e é exatamente isso que precisamos identificar. Ainda não atingimos o nível das ideias e do assunto em si, mas já podemos visualizar o livro como uma entidade.

Algoritmo básico da leitura inspecional

Adler e van Doren propõem uma sequência de passos a serem tomados:

  1. Leia o título
  2. Estude o sumário
  3. Estude o índice
  4. Procure os capítulos que parecem importantes para os argumentos do autor
  5. “Passeie” por esses capítulos, parando para ler alguns parágrados — mas não mais do que isso

É importante ressaltar, nessa fase, a necessidade de possuir um livro e tomar notas. É por isso que eu adoro livros digitais, por ser tão fácil marcar trechos e tomar notas (no caso do Kindle, é possível ainda facilmente exportar as notas como um arquivo de texto). Para livros físicos, eu gosto de usar post-its grandes, que depois eu posso destacar e organizar, antes de escrever notas e textos como esse que vocês estão lendo.

Mas sobre o quê exatamente você precisa tomar notas?

Perguntas básicas da leitura inspecional

As três perguntas básicas a serem respondidas na leitura inspecional são:

  1. De que tipo é o livro?
  2. Sobre o que é o livro como um todo?
  3. Como o autor estrutura o seu argumento e a sua compreensão do assunto?

Classificação dos livros

À medida que você vá realizando esses passos, procure identificar de que tipo é esse livro. Segundo HTRAB, o primeiro nível de classificação é se o livro é:

  • Ficcional, isto é, conta algo que não aconteceu?
  • Expositivo, ou seja, apresenta algo que existe no mundo real?

Ler um livro de ficção exige uma mentalidade bastante diferente em relação a outros livros (como já argumentei aqui
), devido ao uso de metáforas e outros artifícios. Por isso, vamos nos concentrar nos livros de não-ficção. Eles podem ser:

  • Teóricos
  • Práticos

Livros práticos são manuais. Geralmente contém títulos como A Arte de…, Como … e estão cheio de expressões como você deve, para conseguir isso, faça aquilo, etc. Livros teóricos contam o quê e livros práticos se concentram no como.

Independente do livro (expositivo) ser teórico ou prático, ele ainda pode, na classificação de HTRAB, abarcar três grandes assuntos:

  • História: uma narrativa de fatos que aconteceram em algum momento passado
  • Ciência: um relato de coisas que acontecem, sem tempo definido. Geralmente livros científicos se baseiam em observações da natureza ou em raciocício abstrato bem articulado
  • Filosofia: como ciência, mas lidando com assuntos mais próximos da experiência cotidiana do ser humano.

Expressando o todo e as partes de um livro

Muito bem. Eu sentei com o meu exemplar de A Árvore do Dinheiro, peguei post-its, e dei uma lida superficial mas sistemática. Estudei o sumário, o prefácio e li algumas páginas. Marquei algumas passagens como imporantes, e o tempo todo pensava em como eu poderia melhor expressar o conteúdo do livro (o processo todo levou aproximadamente uma hora). Aqui está a minha melhor tentativa:

Este é um livro prático de finanças pessoais (relacionadas às ciências economômicas e à psicologia, sendo um livro científico portanto). O autor usa elementos da teoria financeira e comportamental para traçar um plano, cuja meta é construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar os objetivos do leitor. Os capítulos seguem a ordem proposta do plano: primeiramente é discutido como traçar objetivos coerentes com o nosso estilo de vida; em seguida é levantada a questão do orçamento pessoal e de como fazer sobrar dinheiro para que este seja investido. Uma breve explicação sobre risco, investimentos e capital segue, e o livro termina abordando três grandes grupos de investimentos: fundos, renda fixa e renda variável, a serem adotados pelo leitor conforme seus objetivos.

Observe que com um parágrafo eu consegui ter uma visão macro do livro, mesmo que eu ainda não tenha entendido os detalhes do plano que o autor defende.

Conclusões e próximos passos

Da próxima vez que o leitor for um livro e quiser lê-lo com toda a atenção, experimente fazê-lo em dois estágios, fazendo uma leitura inspecional primeiro. Antes de ler com a total energia, tenha uma noção geral do que é o livro, com o objetivo de melhor adotar estratégias.

Por exemplo, tendo relembrado a estrutura de A Árvore do Dinheiro, e tendo o meu objetivo em vista, eu sei que eu preciso dedicar especial atenção aos capítulos onde são discutidos “como definir objetivos financeiros” e sobre renda fixa, que eu já identifiquei (através da lida rápida mas atenciosa em alguns capítulos) como sendo a peça chave em objetivos de médio prazo.

O próximo passo é a leitura analítica, tema dos próximos posts.

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Objetivos quando se lê um livro

Há mais de dois anos (!), eu publiquei uma resenha de um livro que me marcou profundamente, Como Ler Livros de Adler e van Doren. Ler é uma parte tão fundamental da minha vida que venho criando o hábito de regularmente revisitar essa obra-prima e repensar a maneira como leio, sempre com o objetivo de ser um leitor melhor, e não de apenas ler mais.

Esse é o primeiro de uma série de textos com as minhas interpretações desse livro e de como tenho aplicado suas ideias.


Você tem um livro na sua frente. E agora?

O ponto principal que Adler e van Doren enfatizam é que ler ativamente, ler com qualidade, é ler fazendo perguntas e procurando respostas. Em outras palavras, você precisa ler com algum objetivo em mente. Numa das minhas passagens preferidas (numa tradução muito livre minha do original em inglês
, uma edição da Simon & Schuster de 1972):

Com nada mais que o poder da sua própria mente, você opera nos símbolos à sua frente de tal maneira que você gradualmente se eleva de um estado de compreender menos para um estado de compreender mais. Tal elevação, realizada pela mente trabalhando sobre um livro, é leitura de alta habilidade, o tipo de leitura que um livro que desafia a sua compreensão merece.

Essa “elevação de estado” é a chave para uma boa leitura, e possui dois pressupostos não muito óbvios. Primeiramente, o livro — ou melhor, o autor — precisa entender mais do assunto que você. Ler um livro de alguém que sabe menos que você é perda de tempo. Em segundo, é possível ler por puro entretenimento, mas não existem regras para esse tipo de leitura.

Por exemplo, recentemente li um bom livro de gerenciamente de tempo chamado Eat that frog!, de Brian Tracy (Berrett-Koehler Publishers, 2007). O meu objetivo era claro: eu estava me atrapalhando com as minhas atividades, esse livro era recomendado por muitas pessoas que eu admiro na internet e eu desejava aprender mais sobre o assunto. Hoje, não vou dizer que o livro “mudou minha vida” ou algo do tipo, mas reforçou algumas ideas sobre focar nas atividades mais importantes e eliminar ineficiências de tempo.

Em outro exemplo, estou com um projeto de ler e reler alguns livros de finanças, como um dos meus preferidos, A Árvore do Dinheiro, do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr. Meu objetivo é bem claro: embora eu acredite que já tenha aprendido a importância do planejamento diário, do orçamento, e dos investimentos a longo prazo, tenho esquecido de levar em conta os objetivos de médio prazo, como uma viagem daqui a quatro anos ou trocar de computador daqui a três. Preciso ser mais inteligente em como fazer esse tipo de planejamento.

Isso não vale apenas para livros práticos, lógico. Quando estava lendo Rápido e Devagar
, o tempo todo eu estava tentando pensar em situações nas quais aquelas ideias podiam ser aplicadas. À medida que eu lia, eu queria me focar em entender algumas pessoas e porque elas agiam assim. Isso me permitiu me concentrar nas passagens certas e absorver melhor os conceitos.

Ou, para fechar os exemplos, nesse momento estou completamente mergulhado
em A Eternidade por um Fio, de Ken Follet. Embora eu saiba que é uma obra de ficção com muita licenças poéticas, eu quero entender como as pessoas viviam na Guerra Fria (e, como um bônus, o livro tem me feito pensar muito em como os preconceitos não mudam com o tempo).

Enfim, você quer aprender ou entender melhor alguma coisa, e tem um objetivo claro. Seleciona um livro que pode ajudar. É agora que o trabalho começa.


Venho buscando uma atividade intelectual para fazer à noite e forçar minha mente a descansar dos estudos de termodinâmica e magnetismo. Como maneira de ilustrar a aplicação da técnica de Como Ler Livros (a que eu muitas vezes me refiro pela abreviação em inglês HTRAB), e de eu mesmo revisá-la, durante as próximas semanas vou dedicar esse tempo livre a ler o já citado A Árvore do Dinheiro (especificamente, uma edição da Elsevier de 2010) e postar aqui uma “resenha” em partes, ao mesmo tempo em que mostro como eu abordo a leitura de um livro de maneira atenta. Para a minha pergunta de “como investir para objetivos de médio prazo?”, vou ler um livro do professor que criou o primeiro curso universitário brasileiro de Finanças Pessoais (e que portanto entende mais do que eu) em busca de respostas. Fiquem atentos.

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skim2md – thermocode.net

Do meu outro blog:

skim2md is an AppleScript that grabs all your notes and highlights from a Skim document and creates a Markdown file, with one paragraph per note. Each paragraph is preceded by a line stating which line this note was taken from.

 

Um pequeno script que criei para exportar anotações de um PDF para um arquivo de texto.

Documentar esse tipo de aventura no mundo da programação é exatamente um dos motivos pelos quais eu criei thermocode.net.

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Precisão

Se eu algum dia tiver de fazer um discurso em alguma formatura para (supostamente meus) estudantes, eis algo que falaria: não se esqueçam das habiliades que vocês aprenderam durante a faculade e não pensem que elas só se aplicam ao seu “emprego”.

Eu sou um engenheiro mecânico. Nunca trabalhei como um per se (por toda a minha curta vida profissional trabalhei em universidades, ainda que em parcerias com empresas), mas sim, eu me considero um engenheiro. Não é meu trabalho ou minha ocupação, mas é uma parte integral da minha personalidade. Quando me deparo com algum objeto novo, não consigo evitar pensar em como ele foi fabricado (isso que as disciplinas de fabricação foram as de que eu menos gostei). Quando eu ponho água para ferver, naturalmente eu filosofo por alguns momentos no que está acontecendo, termodinamicamente, à água. E me dói a cabeça ver um ar condicionado na parte inferior de uma parede (é raro mas acontece, acreditem).

Eu tenho pensando muito sobre isso desde que me formei. E ainda assim, muitas vezes me esquecia de uma importante lição de engenheria e fazia muitas coisas erradas em relação a uma das atividades que mais me traz prazer: cozinhar.

Não faz muito tempo, eu assisti a Julie & Julia, um filme absolutamente maravilhoso sobre culinária (não vou dar nenhum detalhe sobre o roteiro, então apenas logue no Netflix e assista), que me lembrou de algo que eu vinha negligenciano: cozinhar demanda esforço. É uma forma de expressão de ciência que requer amor e cuidado. O maior objetivo de alguém que cozinha deveria ser reunir pessoas queridas e aproveitar boa comida. E é aí que entra a lição esquecida: precisão.

Eu muitas vezes tenho a pretensão de me considerar um bom cozinheiro. E minha escola de pensamento vai nas linhas de “esqueça as medidas e o trabalho duro, vamos simplificar coisas e comer uma comida boa”. Vamos apenas jogar essa pizza no forno por alguns minutos, ou deixar esse molho ferver, e quem se importa com contar o tempo. Mais frequentemente que eu gostaria de admitir, minha comida estava levemente queimada, ou com excesso de algum ingrediente, ou apenas sem gosto nenhum.

Precisão e o poder das medidas são pilares de engenheria. Lord Kelvin (lembra das aulas de Física e da escala aboluta de temperatura?) dizia que medir é necessário para conhecer. Eu venho treinando para ser um cientista e uma grande parte disso é estudar estatística para melhor quantificar a precisão (embora, tecnicamente falando, precisão não é um termo técnico) de um resultado. O que não é medido não pode ser melhorado. E da mesma maneira que as dimensões e formas dos nossos objetos cotidianos são o resultado de muitos testes, também as quantidades dos ingredientes e os tempos de cozimento não são aleatórios.

É claro que, com o tempo, você pega o feeling da coisa e passa a ter uma noção melhor das proporções, mesmo sem olhar a receita e medir cuidadosamente. Mas a culinária é ciência, e a ciência requer pelo menos que pensemos.

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O que é tempo? – Parte 1

O que é tempo?


Hoje eu achava que teria um dia muito produtivo. Não tenho aulas, então poderia ficar o dia todo em casa, onde não há interrupções. Já havia separado as sobras da janta de ontem para almoçar rapidamente. E estava animado, pois havia coisas muito interessantes a fazer. Então, um pouco antes do horário de almoço, minha namorada me convidou para almoçar. Com o tempo de trajeto, mais as filas em restaurantes, mais o trânsito, isso significaria perder muito do tempo que eu havia separado para me dedicar a algumas tarefas. Ainda assim, depois de menos de 5 minutos de análise, eu fechei meu trabalho aqui e fui.

Algumas coisas levaram às condições que me permitiram fazer isso:

  • Eu tenho o privilégio de ter o “trabalho” de ser estudante de doutorado, o que significa poucos rendimentos e nenhum benefício trabalhista, mas muitos privilégios de ser estudante e ainda ter uma liberdade de horários incrível
  • Eu comecei o dia com a minha tarefa mais importante, que era um trabalho de Termodinâmica. Sem avançar nesse trabalho, eu não vou ser aprovado na disciplina. Se eu não for aprovado, não vou poder obter o título de doutor. Sem o título de doutor, para que estou fazendo isso mesmo? Então, mesmo depois de “perder” muito tempo almoçando com minha namorada, eu poderia voltar para casa sabendo que, se nada mais der certo, o mais importante já foi cuidado.
  • Eu uso um programa maravilhoso chamado Omnifocus. Se você olhar os preços nessa página, vai achar que eu sou louco (quando comprei a licensa, o programa custava muito menos, mas acho que pagaria o preço atual). Porém, esse complexo aplicativo é o que mantém a minha sanidade e o meu controle das atividades. Nele coloco todas as minhas tarefas, desde uma rotina de limpar a casa, coisas que tenho de organizar (como uma festa junina com meus amigos do tempo de escola) até os meus prazos de trabalhos do doutorado. Se há algo com prazo estourando, o programa me avisa. Antes de tomar a decisão de ir almoçar, eu consultei minha lista de tarefas para hoje, vi que não havia nada de urgente ou extremamente importante, apenas algumas tarefas que poderia ser postergadas para amanhã sem nenhum prejuízo ou que poderia ser feitas assim que eu voltasse do almoço.
  • Eu tenho muitas rotinas e regularmente visito o meu trabalho (um conceito que vem do absolutamente espetacular livro Workflow Mastery, de Kourosh Dini, que pretendo explorar nessa série e ainda resenhar nesse blog). Além do trabalho de Termodinâmica, eu tenho outro trabalho muito importante, da disciplina de Refrigeração. Porém, já havia decidido não trabalhar nele hoje, depois de ter gastado a maior parte do dia de ontem envolvido nele e conseguido avançar bastante (e na semana passado já havia feita alguma coisa a respeito).. Também, assim que acordei, já tinha dado uma arrumação geral muito básica na minha casa, e já tinha ido inclusive à feira. Ou seja, olhando o panorama geral da minha vida, eu sei que não havia nada correndo o risco de explodir, e que está tudo ordem.

Tendo em vista isso, eu fui almoçar com ela. Ela está passando por um tratamento dentário muito chato e realmente queria minha companhia. Fomos em um de nossos lugares preferidos, falamos das novidades e combinamos o nosso fim de semana. Foi uma experiência bastante agradável.

Ou seja, levando em consideração tudo isso que falei, a melhor coisa que eu podia fazer com meu tempo era ir almoçar com minha namorada. Agora eu voltei para minha casa, realmente confirmei que nada está explodindo e estou aqui escrevendo isso.

Olhando em retrospecto, será que eu perdi mesmo tempo? Ou apenas o gastei de uma maneira que não esteja diretamente relacionada com minha fonte de renda, mas que, neste dia e cenário específico, era a maneira mais significativa possível de usar as horas do dia?


Esse é o primeiro post em muito tempo neste blog. Eu deixei de escrever quando comecei a ser atropelado pela falta de tempo: fui morar sozinho, comecei uma série de disciplinas muito trabalhosas no doutorado, além de uma série de compromissos pessoais que não param de chegar. Nesses meses, tive de rever muitas coisas em relação à gestão de tempo e o que isso significa, baseado nas minhas experiências anteriores, nos blogs que acompanho, e em alguns livros (incluindo o de que falei ainda há pouco).

Por isso, para remarcar a volta desse blog (e, de maneira realista, sem previsão de quando será o próximo post), eu vou tratar das minhas reflexões sobre o tempo, o que ele significa, e como pode ser gerenciado. Obviamente, eu tenho muito mais perguntas que respostas, e cada texto é uma maneira de eu mesmo tentar entender, visto que escrever é a melhor forma de pensar, para mim.