Criticando livros

Uma das minhas passagens favoritas de Comer Ler Livros (How to Read a Book (HTRAB), Mortimer Adler e Charles van Doren, Touchstone, 1972) é esta (tradução livre minha):

Você deve lembrar de alguma ocasião onde alguém disse a algum palestrante, em uma respiração ou no máximo duas, “Eu não sei o que você quer dizer, mas acho que você está errado”

Ora, isto é completamente sem sentido. Se você não entendeu algo, não pode criticar (a Regra 9 da leitura analítica). É por isso que a última parte da leitura analítica de um livro (que estou cobrindo nesta série
) é realmente a última: só depois de você entender a estrutura
e o conteúdo
é que você pode começar a fazer julgamentos.

Vamos relembrar do último texto
que eu identifiquei os argumentos principais de A Árvore do Dinheiro (Macedo Jr., Insular, 2013), os quais, como se trata de um livro prático, se convertem em sugestões ao leitor. O Prof. Jurandir mostra algumas pesquisas, fala de sua experiência própria e usa de argumentação lógica para dizer: “Leitor, se você quiser melhorar sua relação com dinheiro e cumprir seus objetivos financeiros, estas são as dicas que você precisa seguir”. A questão é: eu, enquanto leitor, concordo?

Se sim, como os autores de HTRAB dizem, o trabalho está feito. Eu li um livro com o máximo de atenção que eu consegui, mapeei sua estrutura, achei as palavras e frases mais importantes e extrai o seu significado. No caso de um livro prático como este, eu concordei que os passos que ele propôs vão levar aos fins que ele estabeleceu, e que eu quero alcançar estes fins (note que são dois julgamentos diferentes que devem ser feitos em um livro prático). Se este é o caso, eu acabei a leitura — e preciso agora praticar as recomendações dele.

No caso de AD, eu concordo sim com o livro, e acho que então que terminei meu trabalho. Eu tenho apenas uma reserva, mas é aí que entram as Regras 10 e 11 da leitura analítica, que dizem que, antes de criticar, você deve se abster de ser violento nos seus comentários e deve diferenciar entre o que é a sua opinião e aquilo sobre o que você pode provar que o autor está errado. Eu não consigo fazer isso (dizer que o livro tem informações falsas), pois a argumentação e as dicas do Prof. Jurandir são bem construídas. Minha única divergência é que o autor recomenda clubes de investimento como uma maneira “divertida” e fácil de começar a investir, e as minha tendências levemente anti-sociais me fazem achar que começar sozinho, perguntando bastante mas aprendendo a fazer você mesmo, pode ser mais efetivo. Mas, novamente, eu reconheço que isto é uma opinião minha, e não consigo convencer ninguém que clubes de investimento não são uma boa opção (até porque conheço poucas pessoas que já participaram de algo assim).

As Regras 12 a 15 mostram como exatamente analisar como um autor está errado (onde ele omitiu informação? onde ele não foi lógico?), mas na minha análise de AD isto não se aplica (já que eu estabeleci que concordo com o livro), e portanto não vou abordar estas regras aqui (e por isso este texto ficou bastante curto). Vá comprar uma cópia de Como Ler Livros para aprender mais.


E chegamos ao final dessa série, que foi uma das coisas mais desafiadoras que já fiz em FabioFortkamp.com. Mostrei um processo exaustivo mas recompensandor de extrair o máximo de informação de um livro. Como no momento estou numa fase de me interessar pelo assunto, talvez eu resenhe mais alguns livros de finanças por aqui. E, como sempre, obrigado por lerem este blog.

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