Descobrindo a estrutura de um livro

No último post da série sobre Como Ler Livros, de Adler e van Doren (que eu abrevio conforme o inglês como HTRAB), falei da leitura inspecional. O fato é o seguinte: eu adoro ler livros e quero ficar cada mais melhor nisso. Adler a van Doren professam, e eu testemunho como verdade: é impossível ler um livro por completo apenas uma vez. Você corre o risco clássico de se perder em passagens difíceis sem ter certeza do que se trata, ou descobre no meio do livro que ele não interessa em nada a você. Assim, é mais interessante realizar uma primeira leitura por cima, para você ter uma visão panorâmica do livro, e só depois ler o livro com mais calma. De preferência, isso deve ser feito de uma só vez, em uma ou duas horas, para propriamente sentir o livro. Fiz isso com A Árvore do Dinheiro (que abrevio por AD), do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr. (Elsevier, 2010), e cheguei a esse resumo:

Este é um livro prático de finanças pessoais (relacionadas às ciências economômicas e à psicologia, sendo um livro científico portanto). O autor usa elementos da teoria financeira e comportamental para traçar um plano, cuja meta é construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar os objetivos do leitor. Os capítulos seguem a ordem proposta do plano: primeiramente é discutido como traçar objetivos coerentes com o nosso estilo de vida; em seguida é levantada a questão do orçamento pessoal e de como fazer sobrar dinheiro para que este seja investido. Uma breve explicação sobre risco, investimentos e capital segue, e o livro termina abordando três grandes grupos de investimentos: fundos, renda fixa e renda variável, a serem adotados pelo leitor conforme seus objetivos.

O próximo passo é a chamada leitura analítica, uma leitura lenta, atenta e bastante ativa (anotações são praticamente obrigatórias). Cada palavra deve ser entendida, e você deve constantemente fazer perguntas sobre o livro (já vamos falar sobre elas). Ao final, quando você fecha a última página do livro, seu trabalho como leitor não está terminado. É uma questão de respeito intelectual com o autor você digerir o livro.

A leitura analítica, sendo uma atividade complexa, na verdade consiste de várias etapas, não significando, como os autores enfatizam, que você deva ler o livro várias vezes (você deve ler um livro apenas quantas vezes for necessário para entendê-lo). O primeiro estágio compreende descobrindo sobre o quê é o livro.

Antes de continuar, devo dizer que fiz essa leitura mais especializada na versão digital atualizada da obra (Insular, 2013), pela comodidade que é fazer anotações no Kindle e para ter alguns dados mais atualizados.

Um outro detalhe é que, depois de terminado de ler o livro analiticamente, esperei pelo menos uma semana para começar a escrever esses textos, para dar tempo para as ideias sedimentarem na minha cabeça.

Passos do primeiro estágio da leitura analítica – descobrindo a estrutura do livro

Identificando o assunto

O primeiro passo sugerido pelos autores de HTRAB é identificar propriamente o assunto do livro (Essa é a Regra 1 da leitura analítica). Isso já foi feito na minha leitura inspecional (nesse sentido, acho que me antecipei um pouco em relação aos autores), mas após a leitura mais cuidadosa é interessante observar se aquele resumo que você produziu é verdadeiro. No caso de AD, que é um livro relativamente simples, a minha classificação foi acertada. É um livro primariamente sobre economia, com discussões sobre decisão, juros, risco, rendimentos, capitais; e é um livro prático, onde o autor constante sugere que o leitor faça alguma coisa para melhorar a sua vida financeira.

Identificando a unidade

O segundo passo é estabelecer a unidade do livro. Uma das minhas passagens favoritas e HTRAB é onde os autores pegam vários exemplos de livros e mostram como eles descreveriam a essência do livro, em algumas frases.

Naturalmente, uma boa leitura inspecional, seguida de uma leitura analítica atenta, ajuda muito nessa parte. Como falei, uma vez que você fechou o livro, afaste-se dele e procure estabelecer uma visão paranorâmica do livro. Fundamentalmente, do que se trata o livro? Aqui está como eu descreveria a unidade de AD:

Este é um livro detalhando um plano para que indivíduos usem conhecimentos sobre si mesmo (especificamente, sobre por que consumimos, por que não poupamos e por que temos aversão a riscos) e sobre o funcionamento dos mercados (chamando a atenção para o fato de que dinheiro é um mercadoria, e que existem mecanismos pelos quais você empresta dinheiro e recebe juros em cima disto) com o objetivo de construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar seus objetivos fincanceiros (como comprar casas e carros, realizar viagens, aposentar-se etc).

Essa não é a única forma de descrever a unidade dessa obra, e nem a melhor. É a minha versão, tendo em conta a minha experiência de ler o livro.

Fazer essa identificação é a Regra 2 da leitura analítica.

Identificado a estrutura

Livros expositórios tem como unidades de divisão básica as partes e os capítulos. Eu acho que sou um pouco chato com a questão “semântica” da divisão e logo me irrito com uma divisão de capítulos que não faz sentido. Para mim, uma boa divisão significa que, ao pular de um capítulo para outro, o leitor consegue entender tudo que há no livro até o capítulo recém-lido e percebe que uma nova ideia segue.

Quando várias pessoas lêem o mesmo livro, a divisão do autor é naturalmente a mesma, mas um ponto importante que os autores de HTRAB lembram é que a maneira com que você, leitor, faz as divisões, não necessariamente é a mesma do autor. Diferentes leitores vão identificar a estrutura do livro de maneira diferente. Tomemos A Árvore do Dinheiro como exemplo. O livro tem seis capítulos:

  1. Comportamento Financeiro
  2. Planejamento Financeiro
  3. Teoria Financeira
  4. Fundos e Clubes de investimentos
  5. Investimentos em Renda Fixa
  6. Investimentos em Renda Variável

Quando eu li o livro, para mim ficou claro que o livro é composto de duas macro-partes, com uma divisão em capítulos — com o detalhe de que, para mim, os capítulos estão na ordem errada. Eis o meu outline do livro:

  1. Fundamentos de teoria e planejamento financeiro
    1.1. Comportamento financeiro (Cap.1) — onde é discutido por que tendemos a ser consumistas, qual a relação entre dinheiro e felicidade e como esse conhecimento pode ajudar a poupar mais
    1.2. Teoria Financeira (Cap. 3) — deveria vir logo depois do primeiro capítulo, onde é apresentado um resumo da teoria econômica de investimentos: o que é risco, o que o “mercado”, quais as principais tendências da teoria de investimentos
  2. Estratégias de investimento — onde os conhecimentos teóricos são postos em práticas
    2.1. Planejamento financeiro (Cap. 2) — onde é apresentado um modelo de passos a seguir para cumprir seus objetivos financeiros
    2.2. Tipos de investimento — como fazer o seu planejamento do item anterior ser posto em prática
    2.2.1. Fundos e Clubes de investimentos (Cap. 4)
    2.2.2. Investimentos em Renda Fixa (Cap. 5)
    2.2.3. Investimentos em Renda Variável (Cap. 6)

Isso é só uma opinião minha, e não estou dizendo que o livro deve ser mudado. Após ter lido o livro, essa divisão me ajuda a entendê-lo melhor e seria a que eu usaria se tivesse de explicar o seu conteúdo para alguém (como estou fazendo agora mesmo).

Essa divisão poderia ser refinada ainda mais, mas os capítulos de AD são curtos e atômicos, e eu sinto que o delineamento que eu acabei de fazer é suficiente. Como Adler e van Doren constantemente repetem ao longo de HTRAB, cada livro é único no esforço que demanda do leitor. AD é um livro interessante porém fácil de ler, e portanto uma estrutura simples como a acima deve bastar para consolidar a minha compreensão do livro.

Delinear um livro é a Regra 3 da leitura analítica.

Identificando os problemas

Uma pessoa escreve um livro porque nele documenta a solução de algum problema — em geral, o autor procurou entender mais de algum assunto e então mostrou o resultado dessa pesquisa em algum livro.

Nesse sentido, a introdução de AD ajuda muito. Nela, o Prof. Macedo Jr. escreve:

[A experiência de ministrar cursos de mercado de capitais] propiciou uma série de contatos com milhares de alunos que, em sua maioria, conheciam muito bem o mercado financeiro e sabiam manipular ferramentas de controle de orçamento. No entanto, esses mesmos profissionais afirmavam ter enormes dificuldades para controlar suas finanças pessoais

Por que pessoas capacitadas em administrar e aconselhar seus clientes em questões financeiras não conseguiam controlar as próprias finanças? Essa dúvida inicial, que me desafiava e atormentava, certamente foi o que me conduziu a este livro.

O autor segue contando como ele se enveredou pelo estudo das Finanças Comportamentais e aplicou esse conhecimento em cursos, palestras e artigos.

Naturalmente, essa indicação não é suficiente para identificar esse problema — afinal, eu dediquei esforço a ler o livro analiticamente, e devo usar esse conhecimento. Aqui está como eu identifico os probemas do autor (a Regra 4 da leitura analítica):

  1. Como construir uma “árvore do dinheiro”, isto é, o que deve ser feito ao longo da vida de uma pessoa para que, quando a pessoa estiver mais idosa, ela comece a receber rendimentos do dinheiro que foi aplicado?
  2. Por que o conhecimento clássico, puramente matemático, das finanças não é suficiente? Por que as nossas emoções nos atrapalham na construção dessa árvore do dinheiro?
  3. Quais são os mecanismos pelos quais uma pessoa constrói a sua árvore do dinheiro? Qual a melhor estratégia?

O passo seguinte da leitura analítica

Nada disso propriamente faz você entender o conteúdo de um livro, o que é o tema das próximas regras da leitura analítica. Porém, não deve ser difícil perceber que ter esse mapa que acabamos de fazer ajuda. No meu próprio caso: eu tenho várias anotações sobre o livro, passagens que me chamaram a atenção ou comentários que eu fiz sobre alguma seção. À medida que eu for processando-as para escrever os próximos textos (e ter um arquivo com a minha análise de AD), vai ficar mais fácil ver como passagens em partes distintas se conectam com a unidade central do livro, e entender por que o autor disse algo no começo do livro, tendo em vista que lá no capítulo final ele volta a esse problema.

Aliás, tendo identificado precisamente quais os problemas (e eu só tive essa percepção clara quando escrevi este post) vai me fazer ter outra visão sobre as minhas anotações.

E sim, ser um bom leitor dá trabalho. Mas, se você quer elevar o seu conhecimento, esse trabalho vale a pena.

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