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Quadros negros e bancadas

Uma alegria em meio a tantas tragédias

Nas últimas semanas, passamos por muitas tragédias, como a queda do avião em Santos, matando o candidato Eduardo Campos, e a morte de Robin Williams, para ficar apenas nas mais noticiadas. Estamos todos um pouco acostumados a ver isso nos jornais, mas parece que a intensidade aumentou recentemente.

Em meio a tanta tristeza, uma notícia excelente passou quase batida: o brasileiro Artur Ávila ganhou a Medalha Fields. A medalha é tão importante quanto o Nobel, sem os constantes escândalos políticos e com o detalhe de só premiar jovens (de até 40 anos), como incentivo para as pesquisas futuras. No seu livro Symmetry: A Mathematical Journey, Marcus du Sautoy reflete sobre o seu aniversário de 40 anos (tradução livre minha):

Eu não fico terrivelmente incomodado com aniversários, mas para um matemático 40 é significativo; não por causa de uma numerologia fantástica e esotérica, mas porque geralmente se acredita que aos 40 você já fez seu melhor trabalho. Matemática, diz-se, é um negócio para jovens.

Todos esperamos que Ávila faça ainda muitos bons trabalhos, mas antes dos 40 anos ele foi longe. Ganhou o maior prêmio que um pesquisador brasileiro já ganhou.

Esse prêmio vai mudar o Brasil?

É claro que não, e provavelmente nem vai haver um aumento significativo dos inscritos para o vestibular de Matemática. Não vamos ser ingênuos e acreditar que no ano que vem já vamos ganhar outros prêmios, quem sabe até um Nobel.

Mas podemos usar esse prêmio para um como um lembrete. Um lembrete de que é possível fazer carreira em ciência, mesmo no país dos apaixonados por trabalho em escritórios e fascinados por firmas reconhecidas. Um lembrete de que existem pessoas que não foram feitas para esse tipo de trabalho, mas sim para serem pesquisadores, viver na frente de quadros negros e bancadas de laboratório.

Vamos também usar esse prêmio para discutir o ensino da Matemática no Brasil. Como engenheiro e pesquisador, alguém que está em contato constante com a Matemática, nada fica mais distante da realidade que as tabuadas decoradas no Ensino Fundamental, ou dos professores de cursinho fazendo a turma repetir as músicas para decorar as fórmulas. Vamos ensinar essas crianças a pensar mais. Vamos estimular o pensamento abtrato e criativo que é a base da Matemática. Vamos explicar o significado dos teoremas, em vez de passar exercícios que envolvem apenas a aplicação mecânica de equações.

E vamos parar de chamar a Matemática de “inútil”. Por acaso a História é útil, ou as aulas de Artes são úteis? As escolas não são profissionalizantes, e as diferentes disciplinas ajudam a desenvolver diferentes habilidades. A Matemática é um ciência e uma linguagem por si só, um dos maiores feitos da mente humana. A Física de Newton reinou absoluta por séculos até que Einsten começou a questioná-la, mas o Teorema de Pitágoras será válido para sempre.

Mas Fábio, você poderia explicar qual o trabalho de Ávila?

Não, não posso. Mesmo sendo engenheiro, Mestre em Engenharia, candidato a doutor, eu não me arrisco a entender o trabalho dele. É uma matemática muito mais avançada que a minha compreensão permite. As reportagens geralmente fazem menção aos estudos dele sobre “sistemas dinâmicos”, o que para o engenheiro é um termo bastante genérico para designar qualquer coisa que varie no tempo. É claro que o trabalho dele é muito mais sofisticado que isso.

Ao Artur: parabéns, e obrigado por fazer de nós, pessoas que sonham em ser cientistas, mais esperançosos na nossa profissão.

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O Futuro do LaTeX, Parte II — Por Que LaTeX

Na primeira parte desta série, falamos da importância de linguagens de marcação.

Vamos analisar qual é o nosso problema e por que estou gastando tempo nisso. O seu computador contém arquivos em inúmeros formatos; alguns podem ser abertos por apenas um programa (ou um pequeno número deles). Geralmente se identifica o tipo de arquivo pela extensão do nome (algo do tipo nome_do_arquivo.extensao). Assim, o seu navegador não sabe o que fazer com um arquivo .xls, enquanto que o Excel não consegue abrir uma apresentação .ppt do PowerPoint.

Um arquivo é apenas uma sequência de bytes, um conjunto de 0 e 1 que você já deve ter visto em algum filme de ficção científica. A questão é como interpretar essa sequência, transformando-a em informação útil ao usuário. Os 0 e 1 de um arquivo do Word, por exemplo, contém todas as instruções sobre o texto, as imagens, as margens, as tabelas, as fontes etc

O formato mais básico de todos é um arquivo de texto puro (plain text). Um arquivo de texto puro contém apenas bytes que representam caracteres, sem nenhuma informação adicional. Os programas ainda precisam saber converter os bytes em letras, mas é só isso; é um formato bem documentado, aberto, e praticamente todos os sistemas lidam bem com texto puro. Se o leitor que usa Windows criar uma nota, salvar como um .txt e me mandar, posso abrir esse arquivo no meu iPhone. Existem alguns detalhes de apresentação que são característica do editor; a fonte na qual o leitor escreveu a sua nota não é a mesma na qual eu vou ler, porque esta informação não está embutida no arquivo. O programa lê o texto e o apresenta numa fonte arbitrária, ou até numa outra cor.

Mas, se o texto puro não contém formatação, como, usando esse tipo de arquivo leve e portável, produzir obras complexas como livros, sites, artigos, relatórios?

Fazemos isso com linguagens de marcação. Usando comandos em texto, marcamos regiões do nosso arquivo para serem formatadas; um programa então processa esse arquivo, interpreta os comandos e cria um arquivo final destinado à visualização.


No primeiro texto falamos de HTML e páginas da web. Agora vamos falar da produção de documentos científicos, com sua divisão em capítulos e seções e uso de equações, figuras, tabelas.

O formato mais usado na Academia para isso é o LaTeX, que é uma extensão de uma linguagem chamada TeX, que por sua foi criada por um matemático especificamente para produção de livros sobre programação e, não por acaso, é especialmente adequado para criação de equações.

(Se o leitor já está familiarizado com a linguagem e quer saber sobre o que eu acho do tal futuro do LaTeX, por favor aguarde o próximo texto. Primeiramente darei uma breve explicação do que é LaTeX e por que o uso.)

Um documento em LaTeX tem a seguinte forma:

\documentclass{article}

\usepackage[utf8]{inputenc}

\title{O Futuro do \LaTeX}
\author{Fábio}

\begin{document}

\maketitle

\section{Introdução}

O \LaTeX{} é ótimo para fazer equações, como essa na mesma linha $E = m c^2$ ou esta em um parágrafo a parte:

\begin{equation}
    a^2 + b^2 = c^2
\end{equation}

\end{document}

Repare na estrutura lógica desse trecho. Definimos a classe de um documento, (e existem diversas, como book, report, entre outras, que podem até ser criadas pelo usuário), definimos um título e um autor, damos um comando para um começo de seção. No primeiro parágrafo, colocamos uma equação, e depois criamos outra separada. Por último, fechamos um documento.

Vale repetir: isto é apenas texto. Na versão final, o título vai estar em um estilo, o cabeçalho do capítulo outro, o parágrafo normal em outro. As equações vão ter uma fonte diferente e assim por diante.

Como produzir esta versão final? Além de ser uma linguagem, existe um programa chamado LaTeX que compila um arquivo contendo um texto válido. Este post já está muito comprido, mas o leitor pode facilmente encontrar instruções de como fazer isso da maneira mais fácil na sua plataforma (Windows, Mac, Linux, até iOS). O resultado é algo assim, um PDF de onde tirei este screenshot:

Este documento é muito simples e não se compara à complexidade de uma dissertação. Existem muitas outras coisas que o LaTeX pode fazer, em especial citações. Se o leitor já fez algum trabalho acadêmico, sabe a dor que é produzir referências bibliográficas adequadamente formatadas; com o LaTeX, você cria um arquivo de bibliografia, separado do texto, contendo todas as suas referências escritas numa linguagem própria (BibTeX). Depois, cria um pacote dizendo como processar essa linguagem e produzir uma referência (como “AUTOR, Título. Local: Editora, Ano”), e, claro, existem inúmeros pacotes prontos, inclusive para ABNT. Assim, no texto, você precisa apenas escrever \cite{fortkamp}, por exemplo, e o LaTeX e BibTeX formatam a referência para você.

Isto é só uma introdução e não espero que o leitor aprenda a usar o LaTeX. Quero que fique claro apenas isso: é uma linguagem de marcação especializada para criar documentos científicos. Usando texto puro, é possível mesclar o texto que estou escrevendo com comandos que vão ser processados depois, gerando um arquivo pronto para ser distribuído.


Mas afinal, por que eu uso isso? Para repetir a pergunta que eu ouço muito, por que eu não uso o Word como uma pessoa normal?

Confiança é, para mim, um aspecto importante de como usar a tecnologia, e o Word simplesmente não é confiável. Eu já perdi muitos trabalhos feitos no Word, depois de ele travar quando eu adiciono uma figura muito grande, e isso é inaceitável. Além disso, se criar equações complicadas em LaTeX é difícil, no Word é impossível.

Quando estou escrevendo um texto em LaTeX, eu não clico em nenhum menu para inserir figura, ou deixar um pedaço negrito, ou nada disso. Vou repetir mais uma vez porque sou chato: é apenas texto. Você não insere tabelas no arquivo fonte; você dá um comando para o processador LaTeX produzir uma tabela ali. Com a prática (e com um livro de referência do lado para consultar), fica muito fácil criar uma equação complexa, digitando apenas comandos.

Além disso, o LaTeX separa a formatação da escrita. No exemplo acima, eu dou um comando para criar um título, mas não existe nenhuma informação de como o título vai estar formatado; isso é papel da classe do documento. Como falei, é possível criar classes próprias (existe uma ótima que formata todo o documento já seguindo a ABNT). Essa filosofia desencoraja o hábito nada produtivo de ficar “ajustando” a fonte e o estilo de um documento enquanto se escreve.

Gosto também da extensibilidade. O LaTeX foi criado para textos em inglês, sem acentos, mas existe um pacote que permite esses caractereres a mais (é o pacote inputenc que usei acima) — observe que a data ficou em inglês, e omiti o pacote que faz a tradução justamente para chamar a atenção para este fato. Existe outro, um dos meus preferidos atualmente, que formata unidades SI adequadamente. Ou seja: quando você está escrevendo, e encontra um problema, a chance de você achar um pacote pronto é alta.

Por último, o LaTeX é independente de programas. O compilador é software livre e pode ser facilmente instalado em qualquer sistema. E o editor… não existe um “editor de LaTeX”. Vamos repetir? É apenas texto. Você pode escrever no maldito Bloco de Notas, se quiser; ou pode escrever em algum editor de texto poderoso (voltado geralmente para programação), como o Notepad++ no Windows ou TextWrangler no Mac (que eu adoro e estou usando para escrever este post). Se preferir algo mais fácil, existem editores “integrados”, que reúnem a edição com o processamento (no Mac, muitas vezes eu uso o Texpad , que é bem razoável) — mas eles são apenas isso, editores. O texto que você escrever em um editor do Windows e me mandar vai ser aberto e, se eu tiver instalado todos os pacotes que você usou, compilado normalmente no Texpad.

Mas se o LaTeX é tão bom, por que eu acho, como é o título desta série, que ele precisa de um futuro? Aguardem cenas do próximo capítulo.

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A Guerra dos Tronos e a Religião

falei que não tenho qualificações para analisar um livro de ficção, mas gostaria de traçar alguns comentários interessantes, começando com um dos meus livros preferidos, A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Desde já aviso que esse texto é resultado da minha observação apenas, sem nenhum tipo de pesquisa.

A Guerra… é um romance de fantasia, situado num tempo e lugar místico que se parecem com a Europa medieval, com reis, castelos, casamentos políticos e guerras. Isso está evidente e todo mundo fala disso. Há um detalhe, porém, que talvez poucas pessoas tenham percebido.

Se essa história se passasse mesmo na Idade Média, teríamos personagens muito importantes: bispos, padres, o Papa. Não sou historiador, mas parece-me impossível falar da história política da Europa nessa época sem falar da Igreja. Com as cruzadas, a Inquisição, os bens e tesouros da Igreja, o relacionamento do Papa com os reis, esta instituição moldou esse período.

Em A Guerra dos Tronos, não vemos esse tipo de personagem. A religião é um elemento de bastidores.

Em Westeros, o continente onde se passa a maior parte da história (e onde vou me concentrar), existem duas religiões: uma primitiva, de deuses da floresta, sem nome; e uma mais “moderna”, mais organizada, oficiada por homens chamados de septões e mulheres chamadas septãs (convém dizer que o nome do deus dessa religião também não aparece, embora seja sugerido que há um, em contraste com a outra). A religião primitiva já foi dominante, trazido pelos primeiros habitantes do continente, mas agora é seguida apenas por poucos grupos, em geral ligados diretamente aos Primeiros Homens. Não vemos nenhum tipo de discriminação, mas uma certa marginalização dos seguidores dos deuses primitivos — situação iconificada em Jon Snow, o bastardo, o que é diferente em tudo, incluindo, é claro, a sua religião antiga. A maioria dos personagens seguem a religião dos septões, que, lembrem-se, veio depois.

Uma religião que é introduzida, começa pequena e aos poucos domina as outras. Claro que você já viu isso antes.

Martin apenas usou um padrão que se repete. Pelo que me lembro da aulas de História, o próprio Cristianismo começou marginalizado, uma religião de judeus dissidentes, perseguido pelos chefes judaicos e pelos seguidores dos deuses romanos. Uma religião mais “primitiva”, de pescadores e marceneiros, que celebra a morte de um Homem na cruz, comendo da Sua Carne e bebendo do Seu Sangue. Essa mesma religião foi dominante por muitos séculos depois, passando de perseguida a perseguidora, incluindo dos mesmos judeus que foram os algozes no começo. Hoje, vemos um declínio, com o Catolicismo perdendo espaço para as igrejas neopentecostais.

Análises similares, da ascenção e declínio de religiões, poderiam ser feitas com o Judaísmo e com o Islamismo. É um padrão que repete ao longo da História, e o autor assim cria um cenário interessante.


Outro ponto interessante é a “união Estado-Igreja”. Como falei, não parece haver uma Igreja que participe de fato do jogo político, mas muitos acontecimentos cívicos acontecem no âmbito religioso. Casamentos, por exemplo, são oficiados por um septão em um septo, e isso o torna sagrado; não é preciso havei lei de casamento civil. Da mesma forma, juramentos da Muralha, uma ordem de guardiões do reino, são feitos com juramentos aos deuses (e cada iniciado por expressar o seu juramento na sua fé), e assim tomados como perpétudos. Romper o juramento, abandonar o seu posto, equivale a mentir para os deuses, e o leitor o que acontece com quem faz isso.

O que me chama a atenção, porém, é que a religião faz parte da vida nesses momentos importantes, mas ela não parece fazer parte da vida cotidiana dos personagens. Não existem cultos regulares, a que os personagens vão. Não existem também personagens religiosos, como seria de se esperar num romance desse tipo; não existem personagens “cegos” pela fé, ou que guiam suas ações pelos deuses. Todos têm motivações muito mais mundanas.


Leu um livro e tentar traçar uma análise assim se provou uma experiência riquíssima, uma que aconselho a todos. Eu quero me tornar um leitor cada vez melhor, e acredito que para isso é preciso absorver os detalhes dos livros, interpretá-los, aprender com eles, não apenas fechar o livro e pôr de volta na estante. Escrever as resenhas de livros de não ficção têm me ajudando muito, e estas análises dos romances são o próximo passo.

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Resenhas de livros

Resenha: Conecte-se ao que importa

Um dos meus textos favoritos publicados em FabioFortkamp.com é Você não precisa de uma tela Retina, onde falei que nem todo mundo precisa do melhor smartphone do mercado; precisamos usar a tecnologia para resolver nossos problemas da melhor maneira, e detalhes como a qualidade ultra-refinada da tela ou a velocidade do processador muitas vezes são supérfluos.

Não é um dos textos mais populares desse site, mas tê-lo escrito teve um impacto grande sobre a minha maneira de pensar. Quando sai alguma notícia sobre algum gadget ou app novo, eu ainda não consigo evitar ficar bem animado, mas sempre paro e me pergunto que utilidade teria aquilo na minha vida. O que conseguiria fazer de bom com essa nova tecnologia? Tirando a infame parte cool da novidade, para que serve?

Essa minha visão utilitária de engenheiro não significa que menosprezo áreas abstratas como Física e Matemática — pelo contrário, admiro-as profundamente! A nossa busca por conhecimento é que nos faz humanos, em parte. Porém, quando somos usuários da tecnologia, precisamos pensar sim na utilidade de coisas nas quais gastamos nosso dinheiro e nosso tempo.

Um livro que expressa muito bem essa minha filosofia, de usar os recursos tecnológicos para um fim maior, é Conecte-se ao que importa, do jornalista Pedro Burgos, e se você concorda ao menos em parte comigo, deve lê-lo.


Burgos era editor do Gizmodo Brasil mas se cansou de escrever sobre GHz, como ele mesmo diz. Conecte-se … é uma reunião das suas ideias sobre tecnologia como um meio, sobre o quanto a nossa permanente conexão (seja à internet, seja simplesmente à tela do celular) está afetando a nossa ligação com o mundo real, e sobre como precisamos curar esse nosso vício.

Não é difícil atestar que estamos sim viciados. Num exemplo matador, o autor exemplifica que nossa definição de um lugar distante e remoto é “onde não pega sinal de celular”, ou seja, onde nem existe mais civilização. E quando isso se torna um fator para não querermos ir mais viajar, ficar com pessoas que nos fazem bem, pelo simples medo de ficar desconectado, isso é um problema.

Existe uma analogia muito interessante com carros no livro. No começo, o carro era uma invenção revolucionária, que agilizou muito o transporte de pessoas. Hoje, porém, usamos o carro para ir na padaria da esquina, usamos o carro como transporte individual para tudo, e achamos estranho quando alguém usa o ônibus — pior, sentimos pena. O resultado nos afeta, com cada vez mais acidentes e congestionamentos. O que estamos fazendo, então? Propondo uma volta à bicicleta, ao rodízio de carros, ao incentivo ao transporte público — ou seja, ao uso mais esporádico do carro — em busca de um equilíbrio. No futuro, vamos ter de fazer isso com a internet.

Ao longo do livro, então, Burgos analisa diversos aspectos da nossa relação com tecnologia, expõe problemas e mostra como pode-se pensar numa solução. Num dos meus exemplos preferidos, o autor conta que encontrou um amigo para contar sobre sua viagem, mas percebeu que o outro estava desinteressado, pois já tinha visto todas as fotos no Facebook e lido tudo no blog. As redes sociais talvez estejam eliminando o fator “quais são as novidades?” de uma conversa.

Existem vários outros pontos que me chamaram realmente a atenção. Os aplicativos de navegação, por exemplo, são fantásticos, e, repito, resolvem um problema real. Mas a febre do social é tão grande que queremos socializar até mesmo quando estamos dirigindo, usando o Waze (que pertence ao Google) para informar onde há blitz e para nos comunicar com outros motoristas, porque claro que isso é sensato. Ou o paradoxo em que chegamos em relação a internet: temos acesso a todo tipo de opinião, mas o Google e o Facebook fazem um esforço enorme para personalizar a nossa internet, exibindo-nos apenas o que interessa. Ou sobre a nossa aversão ao tédio, onde puxamos nosso smartphone a cada vez que ficamos sem fazer nada, e isso pode estar tirando nossa capacidade de pensar.


O último capítulo, “O Preço do Gratuito”, deveria ser impresso à parte e todos os brasileiros deveriam ler. É 2014, o Netflix custa menos de R$ 20 por mês, um filme numa locadora custa R$ 5, e ainda tem gente baixando filme por torrents — pior, achando que isso é um direito, já que está lá na internet mesmo, e que isso não é roubar já que não diminui a quantidade de filmes disponíveis, e que pelo menos você não está dando dinheiro para o camelô da esquina.

Não se iluda. Se você baixa um filme, você está roubando uma obra. Produzir um filme é um trabalho, assim como o seu emprego, e as pessoas são pagas pelo dinheiro gerado — bilheteria, marketing, vendas e locação de DVDs, streaming. Você não tem direito de assistir a um filme se não quiser pagar, como não tem direito de comer num restaurante se não quiser pagar. Ninguém lhe obriga a fazer nenhuma dessas duas coisas, mas se fizer, deve pagar.

Como o autor diz, os jornais dão muito espaço às histórias de sucesso do “compartilhamento de cultura” e ignora os que dizem que perderam muito dinheiro. Leia e reflita, e pense que é o seu emprego que poderia ser “compartilhado” por aí.


No fim, Conecte-se ao que importa é um livro que provoca uma reflexão profunda. O quanto que a tecnologia nos ajuda? O iPad, que pode ser usado para ler e falar com pessoas distantes, pode ser um terminal de YouTube permamente. A internet 3G, móvel, pode ao mesmo tempo lhe liberar da mesa de trabalho (já que você não precisa mais estar no escritório para ver seus emails) ou o ligar continuamente a ela (quando em jantares com a família você recebe notificações de assuntos supostamente “urgentes”).

Escolha um problema, e procure uma solução por meio da tecnologia, que lhe permita voltar rapidamente ao que gosta.

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Notas do autor

Eu mudei de ideia

Quando se comete um erro, acho que é melhor admitir e corrigir a tempo.

Há algumas semanas, eu disse que ia sair do WordPress.com e e manter o blog eu mesmo em um servidor, usando a versão self-hosted do WordPress (onde eu instalaria e faria manutenção no software). Fazia isso para ter mais controle e não pagar tanto pelos pacotes da plataforma atual. Disse também que isso ia demorar umas duas semanas.

Para pôr o resultado de uma maneira leve, o WordPress.org é uma bagunça. Comecei a fazer alguns testes, e poder modificar o blog da maneira que eu estava pretendendo é incrivelmente difícil. A estrutura de arquivos é complexa, a documentação existente é confusa, e o resultado das pesquisas no Google são em sua maioria para você comprar um tema pronto. Além disso, existem custos que eu não estava esperando, como sistemas anti-spam e backups (e com o WordPress não se pode descuidar da segurança, baseado em muitos artigos que li).

No fim das contas, trocar ia sair mais caro e eu não conseguiria ter o tal controle que eu queria, além de demorar muitas semanas para ter o resultado mais básico.

Por isso, eu mudei de ideia. Tudo fica como está. O WordPress.com está funcionando bem para mim, e vou tentar explorá-lo ao máximo para deixar o blog do meu jeito. Escrever aqui é uma das coisas que mais gosto de fazer, e não quero gastar minhas energias excessivamente com outras que não o próprio ato de escrever.

Peço desculpas aos meus leitores pela confusão, e espero que todos continuem seguindo o blog por email ou RSS. Nesse meio tempo produzi alguns textos que logo irão ao ar. Obrigado por ler FabioFortkamp.com, e agora de volta à programação normal.

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Notas do autor

Anunciando mais mudanças em FabioFortkamp.com

Eu já mudei esse site algumas vezes, tanto a estrutura quanto o design. Comecei com uma versão bem simples no Squarespace, e me cansei de puder usar apenas a versão web do site para publicar e de não poder fazer mudanças mais profundas. Mudei para uma versão estática no Jekyll, mas era muito trabalho e eu não estava preparado; então mudei rapidamente para o WordPress.com, a plataforma atual.

Eu gosto do WordPress.com. É fácil de usar, bem documentado, e, ao contrário do Squarespace, é possível configurar programas (tanto no computador quanto nos dispositivos móveis) que se conectam ao site, permitindo-me trabalhar no site de qualquer lugar (embora nunca houvesse uma necessidade real de publicar a partir do iPhone; uso mais o recurso de usar diferentes editores de texto no Mac). Mas eu continuo não tendo muito controle sobre o site, pelo menos sem pagar.

Essa plataforma tem um modelo de negócios interessante e que parece funcionar. Na versão mais básica, pode-se criar um blog de graça, apenas com o domínio .wordpress.com (este blog também pode ser acessado em https://fabiofortkamp.wordpress.com). É possível então comprar pequenos pacotes que vão atualizando o site. Eu uso um que me permite usar meu domínio próprio, fabiofortkamp.com. Existe um que tira os anúncios ao final dos posts, outro que aumenta o armazenamento (para quem usa muitos vídeos e fotos), outro que permite modificar o design etc. São relativamente baratos, mas os custos se somam, naturalmente.

Eu gostaria de ter mais controle sobre meu site. Quero sim tirar essas propagandas, por respeito ao leitor. Quero poder atualizar a aparência de vez em quando. E, sendo nerd, quero poder mexer no código por trás do blog, podendo deixar FabioFortkamp.com do meu jeito. Poder fazer tudo isso sairia caro e nunca me daria o grau de personalização que eu desejo.

O WordPress é um software, voltado para criar blogs e sites. É possível instalar e configurar no seu servidor próprio, ou é possível usar uma versão “pronta”, hosted, mantida por uma empresa (a Automattic, que desenvolve o software) que cobra uma taxa pelo recursos extras de que falei. Isto é o WordPress.com.

Assim, estou mudando esse site mais uma vez. Vou sair desta plataforma, e passar para a versão self-hosted do WordPress.org, totalmente gerenciada por mim. Vai dar muito mais trabalho, mas em contrapartida vou ter muito mais controle. E espero também aprender muita coisa, já que o WordPress é um dos softwares mais usados na internet, e portanto manter um site assim pode render futuros projetos de sites (por que não?).

Para o leitor, as coisas não vão mudar. Os endereços vão continuar os mesmos, assim como o feed RSS e, espero, os posts recebidos por email. Apenas há dois detalhes:

  1. Nessa semana e na próxima, esse blog vai ficar fora do ar em alguns momentos, enquanto faço essa migração.
  2. Se o leitor também usa o WordPress.com e costuma ler meus posts no leitor dessa plataforma, isso não vai funcionar mais. Por favor, ative o recebimento por email ou assine o feed.

Quando tudo estiver resolvido, publicarei um novo post, que servirá de teste.

E, uma vez mais, obrigado por ler FabioFortkamp.com.

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Notas do autor

Sobre resenhas e comentários de livros de ficção

Num texto anterior, eu falei de como imergi em A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin, e de como tinha dado uma pausa me livros de não-ficção para me dedicar aos romances e às estórias.

Resenhar livros de não-ficção é uma das minhas coisas favoritas em FabioFortkamp.com. Eu tento seguir duas regrinhas básicas quando publico uma resenha assim:

  1. Se o livro é muito ruim, eu simplesmente não escrevo nada. Quando vou eu procurar alguma resenha, e encontro poucos, isso já é indicativo da qualidade do produto. Não preciso ocupar esse blog com textos negativos.
  2. Só escrevo sobre aquilo que posso interpretar.

Por que acho que tenho algo a dizer sobre O Andar do Bêbado? Porque esse é um livro sobre estatística, e eu sou engenheiro, mestre em engenharia, e tenho o conhecimento mínimo de matemática e física para interpretar a mensagem do autor. Com livros mais práticos, como A Arte de Fazer Acontecer ou Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, eu posso experimentar as sugestões do autor na minha vida e dar minha opinião.

Coisa diferente ocorre com livros de ficção. Parte do motivo pelo qual eu nunca publiquei uma resenha de um é por causa do imenso respeito que tenho pelos livros. Isso não é desmerecer os livros de não-ficção, mas reconhecer que um romance ou um livro de poesia tem muitos mais sutilezas que posso não perceber. Como dizem Adler e van Doren em Como Ler Livros, um livro expositivo bom é aquele que é claro e direto, ao passo que uma estória interessante tem muitas ambiguidades e muitos detalhes nas entrelinhas. Assim, interpretar um romance exige conhecimentos que eu não tenho, sobre outras obras do autor, e obras de autores clássicos que possam ter influenciado o presente autor, e o contexto social e econômico da época.

Em resumo: eu não tenho qualificações para resenhar um livro de ficção. Não sou um crítico literário (sempre digo que um dia vou fazer Letras, o que pode ser um primeiro passo, mas isso é para o futuro). Porém, isso não me impede de ter algumas observações pontuais a fazer sobre alguma estória. A Guerra dos Tronos, por exemplo, é um livro rico em detalhes, e embora eu não possa comentar com propriedade todos, acho que posso traçar algumas análises, mesmo que superficiais, sobre pequenas coisas que chamam minha atenção, baseado apenas na minha experiência pessoal.

Esse texto começou como uma pequena nota e acabou se transformando num post completo. Tudo isso para dizer o seguinte: tive algumas ideias lendo A Guerra dos Tronos, e pretendo compartilhá-las aqui (esse blog afinal serve para isso). Quero apenas deixar claro que são análises pequenas, a minha opinião apenas, e não são tentativas de fazer uma análise profunda. Não são resenhas.

No fim, quero apenas estimular os meus leitores a ler mais.

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O aspecto fundamental do email

Vladimir Campos escreveu um artigo interessante sobre o tal “futuro do email”:

Mas preciso confessar, é cada vez maior o número de contatos comerciais que recebo via mensagem interna do Facebook, WhatsApp, Hangouts, Skype etc. São tantos, que tenho certeza que logo ultrapassaram o tradicional e-mail. Afirmo isso mesmo considerando algo tão sério quanto a negociação de um contrato. A propósito, já negociei sim com um cliente, do início ao fim, via Facebook. Só no momento do envio do Doc com as cláusulas contratuais usamos o e-mail.

Já vi muitas discussões desse tipo, mas muitas perdem um aspecto fundamental do email, para mim: a universalidade.

Eu tenho pessoas muito próximas de mim que não têm smartphone, ou não sabem usá-lo, ou se recusam a instalar quaisquer aplicativos; para essas pessoas, WhatsApp não é uma possibilidade de comunicação. Outras não têm Facebook ou, como eu, não querem mais usá-lo. Outros não ouviram nem falar em Hangouts. Algumas gostam mesmo de falar pelo telefone.

O email, porém, é universal. Todas as pessoas que eu conheco têm email e acessam com certa regularidade; elas estão dispostas a pagar por um computador, uma ferramenta de trabalho e onde checam os emails, mas não podem se dar ao luxo de ter um iPhone (que, embora possa ser bem útil, ainda não pode ser usada para trabalho por muitos), ou Galaxy. Você pode ter email de graça (em troca de anúncios), ou, se for um paranoico com privacidade como eu, pagar por um serviço privado. Todos os grandes provedores fornecem uma plataforma na web geralmente boa, mas também é possível configurar email em programas de desktop ou mesmo nos smartphones, para os que têm. O email é antigo, bem documentado, padronizado, conhecido; a minha prima que “nasceu na era digital” e a minha tia que teve o primeiro computador aos 40 sabem usá-lo. Também é confiável; já cansei de mandar mensagems por SMS, WhatsApp ou Facebook que nunca chegaram ao destinatário, coisa que acontece muito raramente com email.

Eu concordo que, para comunicação individual, certas tecnologias são melhores. Não vou mandar um email para minha mãe cada vez que quiser falar com ela. Porém, para atingir um grande número de pessoas simultaneamente, eu ainda preciso dele.

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O Ponto de Imersão

Algumas pessoas gostam de jogar videogame, outras de ver filmes, outras de bisbilhotar no Facebook. Eu, quando estou sozinho, gosto de ler.

Na minha adolescência, minhas preferências eram os romances, especialmente os “mistérios” do estilo O Código Da Vinci. Eu sei, esse tipo de livro pode não ter muito valor, os capítulos são curtos como cenas de cinema para prender a atenção, mas o que eu posso fazer? As histórias são divertidas.

Quando chegou a faculdade, minha cabeça mudou, e comecei a ler muitos livros de não-ficção, sobre ciência, história, produtividade, finanças — e, desde que comecei FabioFortkamp.com, resenhei quase todos que li. Esse tipo de leitura pode ser bastante prazeroso, e você ainda aprende alguma coisa, mas pode cansar também. Eu aos poucos fui perdendo um grande prazer meu, que era ler antes de dormir, por preguiça. No fim do dia, estou exausto, e não quero aprender mais nada. Quero apenas ler um pouco, por entretenimento.

A solução para isso, e que até me fez dormir melhor, foi voltar a ler romances de noite. Eu dei uma pausa nos livros de não-ficção, lendo apenas quando estou numa semana mais leve (como quando resenhei The Information Diet). Depois de terminar um dia de trabalho, tomar um banho, preparar-me para o dia seguinte, eu sento numa cadeira boa (ou na cama, mas nada de deitar), pego um romance e me perco nas histórias.

Nem sempre o livro é bom, porém. Quando é ruim, acontece o mesmo problema, de eu não querer ler antes de dormir. E percebi que existe um critério para determinar quando isso acontece.

Eu recentemente terminei um livro desconhecido chamado A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Não tente encontrar em livrarias que você não encontrar. Também dizem que virou uma série da HBO com o nome de Game of Thrones, mas não posso confirmar. Na verdade, essa é segunda vez que leio esse livro; na primeira, não gostei porque não entendi muita coisa da trama e não acompanhava quem é quem. Dessa vez, só não acompanho quem é quem.

Acho que não preciso dizer, mas o livro é muito bom. Já sei que há muita discussão, sobre o enfoque político do livro, as cenas de incesto, a matança generalizada. Como falei, eu tento abstrair esse tipo de coisa; o livro conta uma baita história de maneira eficaz e pronto. Deixo para fazer esse tipo de análise depois de ler.

Um dia, quando ia ao shopping, peguei-me pensando no livro . Estava pensando no que ia acontecer com Lorde Eddard, ou com o Rei, ou com Jon. Ficava imaginando o que seriam os meistres ou as septãs, e como o autor insere a religião sutilmente na história. Fiquei pensando na época em que eu jogava Age of Empires — tudo por causa de A Guerra dos Tronos.

Quando me dei conta disso, percebi que o livro cumpriu o seu papel, e já passou do ponto de imersão na minha cabeça. Eu estava completamente mergulhado na história. Quando chegava a noite, eu não reclamava de preguiça de ler um livro chato, mas sim por só ter tido tempo de ler naquela hora. Agora mesmo, quero saber o que vai acontecer no próximo volume.

E isso é um livro bom. Não é um livro que as pessoas dizem que tenho de ler, porque é um clássico. Quando eu terminá-lo, vou ficar pensando nele. Quando acabar a série, vou lamentar, como lamentei quando terminei Harry Potter.

Num dos meus livros (de não-ficção) de cabeceira, Como Ler Livros, Mortimer J. Adler a Charles van Doren dão um conselho crucial:

Não tente resistir ao efeito que uma obra de literatura imaginativa tem sobre você.

(Tradução livre minha de How to Read a Book, Adler e van Doren, Touchstone, edição revista e atualizada).

Sempre digo que a vida é muita curta para se ler livro ruim. Ache um livro na qual você possa imergir e aproveite.

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Impondo barreiras produtivas

Eu gosto de Friends. Gosto também de The Big Bang Theory, de Two and a Half Men (antes de Ashton Kutcher, naturalmente), da nova série da Warner Mom. Como diz minha mãe, gosto de todas essas séries com aquelas risadas de fundo (irritantes, na opinião dela).

Às vezes eu estou cansado mentalmente, depois de ler ou escrever muito. Ligo inocentemente a televisão do meu quarto, em um horário que sei que está passando algumas destas séries. Apenas um relaxada básica, antes de continuar o que eu estava fazendo, antes de terminar aquele capítulo. Dez minutinhos e deu. Sério! Não acredita em mim?

Nem eu acredito em mim.

Os poucos minutos em que eu paro para assistir se transformam em horas, episódios inteiros. Eu fico sentado, olhando para a televisão como um zumbi, e o tempo voa. De repente, eu me dou conta do que tenho para fazer, desligo a televisão, grito um palavrão qualquer e volto ao trabalho.

Eu nunca fui muito de assistir televisão. Lembre-se, eu era o garoto esquisito que gostava de ler. Hoje em dia eu assito bem mais, principalmente em companhia, assistindo ao jornal ou vendo algum filme. Isto não é o problema, e sim aquelas escapas durante o dia, para dar a tal da “relaxada”. A minha força de vontade não é suficiente para acabar com esse hábito.

O que eu fiz então foi tirar a TV da tomada.

Muito do que se fala sobre produtividade envolve eliminar barreiras. Como falei há pouco tempo, um aplicativo como o Drafts pode ser um aliado importante na organização, ao eliminar a barreira de tempo e ferramentas para anotar o que vem na sua cabeça. Você pega o celular, desbloqueia-o, abre o Drafts e pronto: pode anotar — com o tempo, até o movimento dos dedos para digitar e localizar o ícone se tornam automáticos. Ou veja o caso do meu ambiente agora: eu uso um programa de notas chamado nvAlt, que está sempre aberto no meu computador. Quando estou sentado em frente ao computador, e quero escrever, a barreira entre vontade e ação é muito pequena: um atalho de teclado me leva ao programa, onde tenho uma lista de todos os meus textos, incluindo rascunhos. Um exemplo agora fora do computador: eu deixo todas as roupas destinadas a praticar esporte separadas num canto. Quando quero andar de bicicleta, ou caminhar, não existe a dificuldade de ir pegar uma camiseta num lugar e a bermuda em outro. Abro meu armário e está tudo lá.

Mas um outro aspecto importante de produtividade menos mencionado é impor barreiras onde é preciso. Como no caso da TV, desligo da tomada. Se eu realmente quero assistir TV, quero rir um pouco, já terminei meu trabalho, eu posso facilmente esticar o braço e ligar na tomada. Mas essa pequena dificuldade já serve como ponto de parada nas pequenas pausas. Faz-me pensar se eu realmente quero assistir, se não é melhor fazer outra coisa. Uma barreira articial, imposta pelo meu eu sensato, age sobre o meu eu imprudente.

Outra dica que funciona muito bem para mim é mover aplicativos da tela inicial do iPhone. Ultimamente vendo tentando adquirir o hábito de escutar mais podcasts e menos músicas enquanto faço exercício. O simples fato de mover o app do Rdio da tela inicial tem sido de grande ajuda; ter de navegar até a segunda tela, mesmo que envolva arrastar o dedo por um segundo, já é um gatilho psicológico importante.

Funciona muito bem com comidas, também. Por algum motivo obscuro, eu guardei os ovos de páscoa no meu quarto. Claro, um convite perfeito para aquele “pedacinho” inocente. Não cometa esse erro. Deixe comida na cozinha, e se dê ao trabalho de ir até lá.

Assim, se o leitor está tendo dificuldade com algum hábito que gostaria de largar, experimente agir para torná-lo difícil. Hábitos são coisas tão naturais que quando se foge do cenário habitual a sua mente tem dificuldades de se adaptar, forçando-o a pensar de maneira mais deliberada.

E sintam-se à vontade para compartilhar resultados nos comentários.