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Um exemplo de leitura inspecional

Continuando a série
sobre Como Ler Livros, vou agora demonstrar como eu faço a leitura inspecional do livro. Como dito no último post (de leitura obrigatória para este), estou usando como exemplo A Árvore do Dinheiro (Elsevier, 2010), do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr., que estou re-lendo com o objetivo expresso de melhorar a minha compreensão sobre diferentes atitudes financeiras a se tomar para diferentes horizontes de tempo. Eu já anoto todos os meus gastos, aprendi a controlar as receitas e despesas, e já estou investindo em ações, pensando no longo prazo. Minha pergunta é: como investir inteligentemente para o médio prazo, de 3 a 5 anos, quando os investimentos em ações têm um risco enorme de resultarem em prejuízo (ou serem consumidos pelo imposto de renda).

Seguindo as técnicas de HTRAB, antes de se ler um livro em atenção, é importante ter uma visão geral da obra, e é esse o objetivo da leitura inspecional. Como dizem os autores (tradução livre minha):

O tremendo prazer que pode vir de ler Shakespeare, por exemplo, foi arruinado para gerações de estudantes de ensino médio forçados a trabalharem em cima de “Júlio César”, “Como Gostais”, ou “Hamlet”, cena por cena, procurando todas as palavras estranhas em um glossário e estudando todas as notas de rodapé acadêmicas.

Isso foi uma revelação para mim. Quantos livros abandonei na décima página por já ter perdido a noção do assunto sobre o qual estou lendo? Pensando bem, a ideia da leitura inspecional é natural. Se eu tenho um livro na minha mão, e quero aprender algo sobre ele, a probabilidade de que eu esteja num nível muito abaixo de compreensão em relação ao autor do livro é grande. Seria irrealista da minha parte achar que com apenas uma leitura muito atencionsa eu conseguirei entender tudo e me tornar um especialista no assunto.

O primeiro nível de leitura é o elementar, onde enxergamos, letras, palavras e frases que formam um significado. Subindo de nível, temos agora seções, capítulos, o livro como um todo — ou seja, a estrutura de um livro, e é exatamente isso que precisamos identificar. Ainda não atingimos o nível das ideias e do assunto em si, mas já podemos visualizar o livro como uma entidade.

Algoritmo básico da leitura inspecional

Adler e van Doren propõem uma sequência de passos a serem tomados:

  1. Leia o título
  2. Estude o sumário
  3. Estude o índice
  4. Procure os capítulos que parecem importantes para os argumentos do autor
  5. “Passeie” por esses capítulos, parando para ler alguns parágrados — mas não mais do que isso

É importante ressaltar, nessa fase, a necessidade de possuir um livro e tomar notas. É por isso que eu adoro livros digitais, por ser tão fácil marcar trechos e tomar notas (no caso do Kindle, é possível ainda facilmente exportar as notas como um arquivo de texto). Para livros físicos, eu gosto de usar post-its grandes, que depois eu posso destacar e organizar, antes de escrever notas e textos como esse que vocês estão lendo.

Mas sobre o quê exatamente você precisa tomar notas?

Perguntas básicas da leitura inspecional

As três perguntas básicas a serem respondidas na leitura inspecional são:

  1. De que tipo é o livro?
  2. Sobre o que é o livro como um todo?
  3. Como o autor estrutura o seu argumento e a sua compreensão do assunto?

Classificação dos livros

À medida que você vá realizando esses passos, procure identificar de que tipo é esse livro. Segundo HTRAB, o primeiro nível de classificação é se o livro é:

  • Ficcional, isto é, conta algo que não aconteceu?
  • Expositivo, ou seja, apresenta algo que existe no mundo real?

Ler um livro de ficção exige uma mentalidade bastante diferente em relação a outros livros (como já argumentei aqui
), devido ao uso de metáforas e outros artifícios. Por isso, vamos nos concentrar nos livros de não-ficção. Eles podem ser:

  • Teóricos
  • Práticos

Livros práticos são manuais. Geralmente contém títulos como A Arte de…, Como … e estão cheio de expressões como você deve, para conseguir isso, faça aquilo, etc. Livros teóricos contam o quê e livros práticos se concentram no como.

Independente do livro (expositivo) ser teórico ou prático, ele ainda pode, na classificação de HTRAB, abarcar três grandes assuntos:

  • História: uma narrativa de fatos que aconteceram em algum momento passado
  • Ciência: um relato de coisas que acontecem, sem tempo definido. Geralmente livros científicos se baseiam em observações da natureza ou em raciocício abstrato bem articulado
  • Filosofia: como ciência, mas lidando com assuntos mais próximos da experiência cotidiana do ser humano.

Expressando o todo e as partes de um livro

Muito bem. Eu sentei com o meu exemplar de A Árvore do Dinheiro, peguei post-its, e dei uma lida superficial mas sistemática. Estudei o sumário, o prefácio e li algumas páginas. Marquei algumas passagens como imporantes, e o tempo todo pensava em como eu poderia melhor expressar o conteúdo do livro (o processo todo levou aproximadamente uma hora). Aqui está a minha melhor tentativa:

Este é um livro prático de finanças pessoais (relacionadas às ciências economômicas e à psicologia, sendo um livro científico portanto). O autor usa elementos da teoria financeira e comportamental para traçar um plano, cuja meta é construir um patrimônio que gere rendimentos capazes de realizar os objetivos do leitor. Os capítulos seguem a ordem proposta do plano: primeiramente é discutido como traçar objetivos coerentes com o nosso estilo de vida; em seguida é levantada a questão do orçamento pessoal e de como fazer sobrar dinheiro para que este seja investido. Uma breve explicação sobre risco, investimentos e capital segue, e o livro termina abordando três grandes grupos de investimentos: fundos, renda fixa e renda variável, a serem adotados pelo leitor conforme seus objetivos.

Observe que com um parágrafo eu consegui ter uma visão macro do livro, mesmo que eu ainda não tenha entendido os detalhes do plano que o autor defende.

Conclusões e próximos passos

Da próxima vez que o leitor for um livro e quiser lê-lo com toda a atenção, experimente fazê-lo em dois estágios, fazendo uma leitura inspecional primeiro. Antes de ler com a total energia, tenha uma noção geral do que é o livro, com o objetivo de melhor adotar estratégias.

Por exemplo, tendo relembrado a estrutura de A Árvore do Dinheiro, e tendo o meu objetivo em vista, eu sei que eu preciso dedicar especial atenção aos capítulos onde são discutidos “como definir objetivos financeiros” e sobre renda fixa, que eu já identifiquei (através da lida rápida mas atenciosa em alguns capítulos) como sendo a peça chave em objetivos de médio prazo.

O próximo passo é a leitura analítica, tema dos próximos posts.

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Melhorar o transporte público para quem usa transporta público, e não para quem vai de carro

Da Folha, interessante reflexão muitas vezes esquecida sobre transporte público, citando o urbanista Ricardo Montezuma:

É necessário melhorar o transporte público para quem usa o transporte público, sem pensar em quem usa o carro. É preciso evitar que o usuário de transporte público ache a qualidade ruim e queira mudar para o carro. O usuário do carro particular nunca vai deixá-lo por achar que os coletivos são bons. Você deve ter em mente que a imagem do transporte público é sempre ruim, em qualquer lugar do mundo. Mesmo na Suíça e Suécia, seus transportes públicos, excelentes, recebem notas ruins. Em geral, mesmo os bons sistemas recebem notas em torno de seis sobre dez.

O transporte público de Florianópolis tem melhorado muito, mas é preciso prestar atenção em algumas ineficiências. Eu moro do lado de uma grande avenida da cidade, a principal do meu bairro, e só existe uma linha que me leva até o terminal central, e ainda com menos de dez horários ao longo do dia. E para ir até a casa da minha namorada, um trajeto de mais ou menos 15 minutos de carro, também só existe uma outra linha, que não tem nem horário nos fins de semana.

(Eu sei, fugi dos meus temas habituais, mas este blog é sobre as coisas que eu faço e de que gosto e eu ando bastante de ônibus).

 

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Objetivos quando se lê um livro

Há mais de dois anos (!), eu publiquei uma resenha de um livro que me marcou profundamente, Como Ler Livros de Adler e van Doren. Ler é uma parte tão fundamental da minha vida que venho criando o hábito de regularmente revisitar essa obra-prima e repensar a maneira como leio, sempre com o objetivo de ser um leitor melhor, e não de apenas ler mais.

Esse é o primeiro de uma série de textos com as minhas interpretações desse livro e de como tenho aplicado suas ideias.


Você tem um livro na sua frente. E agora?

O ponto principal que Adler e van Doren enfatizam é que ler ativamente, ler com qualidade, é ler fazendo perguntas e procurando respostas. Em outras palavras, você precisa ler com algum objetivo em mente. Numa das minhas passagens preferidas (numa tradução muito livre minha do original em inglês
, uma edição da Simon & Schuster de 1972):

Com nada mais que o poder da sua própria mente, você opera nos símbolos à sua frente de tal maneira que você gradualmente se eleva de um estado de compreender menos para um estado de compreender mais. Tal elevação, realizada pela mente trabalhando sobre um livro, é leitura de alta habilidade, o tipo de leitura que um livro que desafia a sua compreensão merece.

Essa “elevação de estado” é a chave para uma boa leitura, e possui dois pressupostos não muito óbvios. Primeiramente, o livro — ou melhor, o autor — precisa entender mais do assunto que você. Ler um livro de alguém que sabe menos que você é perda de tempo. Em segundo, é possível ler por puro entretenimento, mas não existem regras para esse tipo de leitura.

Por exemplo, recentemente li um bom livro de gerenciamente de tempo chamado Eat that frog!, de Brian Tracy (Berrett-Koehler Publishers, 2007). O meu objetivo era claro: eu estava me atrapalhando com as minhas atividades, esse livro era recomendado por muitas pessoas que eu admiro na internet e eu desejava aprender mais sobre o assunto. Hoje, não vou dizer que o livro “mudou minha vida” ou algo do tipo, mas reforçou algumas ideas sobre focar nas atividades mais importantes e eliminar ineficiências de tempo.

Em outro exemplo, estou com um projeto de ler e reler alguns livros de finanças, como um dos meus preferidos, A Árvore do Dinheiro, do Prof. Jurandir Sell Macedo Jr. Meu objetivo é bem claro: embora eu acredite que já tenha aprendido a importância do planejamento diário, do orçamento, e dos investimentos a longo prazo, tenho esquecido de levar em conta os objetivos de médio prazo, como uma viagem daqui a quatro anos ou trocar de computador daqui a três. Preciso ser mais inteligente em como fazer esse tipo de planejamento.

Isso não vale apenas para livros práticos, lógico. Quando estava lendo Rápido e Devagar
, o tempo todo eu estava tentando pensar em situações nas quais aquelas ideias podiam ser aplicadas. À medida que eu lia, eu queria me focar em entender algumas pessoas e porque elas agiam assim. Isso me permitiu me concentrar nas passagens certas e absorver melhor os conceitos.

Ou, para fechar os exemplos, nesse momento estou completamente mergulhado
em A Eternidade por um Fio, de Ken Follet. Embora eu saiba que é uma obra de ficção com muita licenças poéticas, eu quero entender como as pessoas viviam na Guerra Fria (e, como um bônus, o livro tem me feito pensar muito em como os preconceitos não mudam com o tempo).

Enfim, você quer aprender ou entender melhor alguma coisa, e tem um objetivo claro. Seleciona um livro que pode ajudar. É agora que o trabalho começa.


Venho buscando uma atividade intelectual para fazer à noite e forçar minha mente a descansar dos estudos de termodinâmica e magnetismo. Como maneira de ilustrar a aplicação da técnica de Como Ler Livros (a que eu muitas vezes me refiro pela abreviação em inglês HTRAB), e de eu mesmo revisá-la, durante as próximas semanas vou dedicar esse tempo livre a ler o já citado A Árvore do Dinheiro (especificamente, uma edição da Elsevier de 2010) e postar aqui uma “resenha” em partes, ao mesmo tempo em que mostro como eu abordo a leitura de um livro de maneira atenta. Para a minha pergunta de “como investir para objetivos de médio prazo?”, vou ler um livro do professor que criou o primeiro curso universitário brasileiro de Finanças Pessoais (e que portanto entende mais do que eu) em busca de respostas. Fiquem atentos.

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skim2md – thermocode.net

Do meu outro blog:

skim2md is an AppleScript that grabs all your notes and highlights from a Skim document and creates a Markdown file, with one paragraph per note. Each paragraph is preceded by a line stating which line this note was taken from.

 

Um pequeno script que criei para exportar anotações de um PDF para um arquivo de texto.

Documentar esse tipo de aventura no mundo da programação é exatamente um dos motivos pelos quais eu criei thermocode.net.

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Sobre fazer melhor o trabalho

Enquanto isso, no meu outro blog, venho escrevendo uma série de textos tentando entender como trabalhar melhor (e por trabalho eu digo qualquer coisa que melhora a nossa vida, como ler um livro):

 Hence, to do better at something requires us to learn how to play with the experience, to fully immerse in it, to put one self in a state of deliberate focus, so that nothing else pops in our head.

However, according to Dini, there is one other factor, often neglected in texts about productivity, and that is of mastery. To do good work, you must be good at work. In particular, doing work should be natural. If I was assigned a task of creating a video, and I immersed myself in the experience, with no distractions, I still would not be able to produce a good video, as I’m not familiar with the process and have not developed any intimacy.

Hence, optimal work and experiences arise when weplay with them, having mastered them and in a state of full focus. All the rest of the study of productivity, organization and workflow come from this premise.

E, no texto seguinte, tento entender o que nos atrapalha nesse objetivo.

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Precisão

Se eu algum dia tiver de fazer um discurso em alguma formatura para (supostamente meus) estudantes, eis algo que falaria: não se esqueçam das habiliades que vocês aprenderam durante a faculade e não pensem que elas só se aplicam ao seu “emprego”.

Eu sou um engenheiro mecânico. Nunca trabalhei como um per se (por toda a minha curta vida profissional trabalhei em universidades, ainda que em parcerias com empresas), mas sim, eu me considero um engenheiro. Não é meu trabalho ou minha ocupação, mas é uma parte integral da minha personalidade. Quando me deparo com algum objeto novo, não consigo evitar pensar em como ele foi fabricado (isso que as disciplinas de fabricação foram as de que eu menos gostei). Quando eu ponho água para ferver, naturalmente eu filosofo por alguns momentos no que está acontecendo, termodinamicamente, à água. E me dói a cabeça ver um ar condicionado na parte inferior de uma parede (é raro mas acontece, acreditem).

Eu tenho pensando muito sobre isso desde que me formei. E ainda assim, muitas vezes me esquecia de uma importante lição de engenheria e fazia muitas coisas erradas em relação a uma das atividades que mais me traz prazer: cozinhar.

Não faz muito tempo, eu assisti a Julie & Julia, um filme absolutamente maravilhoso sobre culinária (não vou dar nenhum detalhe sobre o roteiro, então apenas logue no Netflix e assista), que me lembrou de algo que eu vinha negligenciano: cozinhar demanda esforço. É uma forma de expressão de ciência que requer amor e cuidado. O maior objetivo de alguém que cozinha deveria ser reunir pessoas queridas e aproveitar boa comida. E é aí que entra a lição esquecida: precisão.

Eu muitas vezes tenho a pretensão de me considerar um bom cozinheiro. E minha escola de pensamento vai nas linhas de “esqueça as medidas e o trabalho duro, vamos simplificar coisas e comer uma comida boa”. Vamos apenas jogar essa pizza no forno por alguns minutos, ou deixar esse molho ferver, e quem se importa com contar o tempo. Mais frequentemente que eu gostaria de admitir, minha comida estava levemente queimada, ou com excesso de algum ingrediente, ou apenas sem gosto nenhum.

Precisão e o poder das medidas são pilares de engenheria. Lord Kelvin (lembra das aulas de Física e da escala aboluta de temperatura?) dizia que medir é necessário para conhecer. Eu venho treinando para ser um cientista e uma grande parte disso é estudar estatística para melhor quantificar a precisão (embora, tecnicamente falando, precisão não é um termo técnico) de um resultado. O que não é medido não pode ser melhorado. E da mesma maneira que as dimensões e formas dos nossos objetos cotidianos são o resultado de muitos testes, também as quantidades dos ingredientes e os tempos de cozimento não são aleatórios.

É claro que, com o tempo, você pega o feeling da coisa e passa a ter uma noção melhor das proporções, mesmo sem olhar a receita e medir cuidadosamente. Mas a culinária é ciência, e a ciência requer pelo menos que pensemos.

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Notas do autor

thermocode

Gostaria de anunciar meu novo projeto: thermocode.net.

Eu sei que parece uma insanidade criar mais um blog quando eu mal posto coisas nesse aqui, mas esse é o ponto: FabioFortkamp.com é o meu blog totalmente pessoal. Eu escrevo sobre o que eu quiser aqui, sem agenda fixa, quando eu simplesmente quero escrever. Sei que entre os leitores existem amigos, familiares e alguns completos desconhecidos (obrigado mais uma vez por lerem!).

Há algum tempo, porém, sinto a necessidade de escrever textos mais técnicos, com mais ciência e matemática, como forma de elucidar as coisas que aprendo enquanto faço meu doutorado. Também venho mergulhando cada vez mais no mundo da programação e da automação do meu Mac, e queria postar algumas soluções para alguns problemas que encontro e que soluciono. E preciso treinar muito a minha escrita em inglês.

Como resultado disso, resolvi criar thermocode.net. Lá vou documentar o meu trabalho como estudante de doutorado, aprendiz de pesquisador e usuário de Mac — e pretendo inclusive, respeitando minhas prioridades e prazos, incorporar o site na minha rotina de trabalho. E, seguindo a minha vontade de ser um documento acessível ao máximo número de pessoas, vou escrever em inglês.

Se você também é estudante de engenharia ou ciências afins (ou quer aprender mais sobre isso) e também se interessa por automatizar as suas tarefas no computador, convido-o(a) a fazer uma visita. E, agora que ele finalmente está pronto (ainda que bem simples), posso voltar a me concentrar em escrever — lá e aqui.

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Citações

Walt Disney e o valor do nosso trabalho

Walt Disney:

Nós não fazemos filmes para ganhar dinheiro; ganhamos dinheiro para fazer mais filmes.

Um belo lembrete sobre o valor que damos para o nosso próprio trabalho.

(Retirado de Show your work!, de Austin Kleon (Workman Publishing Company, 2014)).

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Sobre anotações no Kindle

Mark O’Connell, escrevendo para The New Yorker:

The Kindle allows for electronic marginalia via the “notes” function, but it feels all wrong: something about having to call up a menu and type a note on the keypad, with its little stud-like plastic buttons, makes the whole process seem forced and contrived. Marginalia are supposed to be spontaneous and fluent.

Eu ganhei um Kindle neste ano, e estou amando o dispositivo. E, embora o teclado seja péssimo, eu adoro fazer anotações. Para mim, o mecanismo de chamar um menu não representa nenhum impedimento à fluidez, e sim uma grande vantagem: como as notas não ocupam espaço físico e nem se mesclam com o texto, é possível escrever notas e pensamentos elaborados, não limitados pelo tamanho da margem.

Além disso, você pode ver todas as notas de uma vez, compatilhá-las, pesquisar dentro delas, e coisas que só podem se fazer no mundo digital.

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O que é tempo? – Parte 1

O que é tempo?


Hoje eu achava que teria um dia muito produtivo. Não tenho aulas, então poderia ficar o dia todo em casa, onde não há interrupções. Já havia separado as sobras da janta de ontem para almoçar rapidamente. E estava animado, pois havia coisas muito interessantes a fazer. Então, um pouco antes do horário de almoço, minha namorada me convidou para almoçar. Com o tempo de trajeto, mais as filas em restaurantes, mais o trânsito, isso significaria perder muito do tempo que eu havia separado para me dedicar a algumas tarefas. Ainda assim, depois de menos de 5 minutos de análise, eu fechei meu trabalho aqui e fui.

Algumas coisas levaram às condições que me permitiram fazer isso:

  • Eu tenho o privilégio de ter o “trabalho” de ser estudante de doutorado, o que significa poucos rendimentos e nenhum benefício trabalhista, mas muitos privilégios de ser estudante e ainda ter uma liberdade de horários incrível
  • Eu comecei o dia com a minha tarefa mais importante, que era um trabalho de Termodinâmica. Sem avançar nesse trabalho, eu não vou ser aprovado na disciplina. Se eu não for aprovado, não vou poder obter o título de doutor. Sem o título de doutor, para que estou fazendo isso mesmo? Então, mesmo depois de “perder” muito tempo almoçando com minha namorada, eu poderia voltar para casa sabendo que, se nada mais der certo, o mais importante já foi cuidado.
  • Eu uso um programa maravilhoso chamado Omnifocus. Se você olhar os preços nessa página, vai achar que eu sou louco (quando comprei a licensa, o programa custava muito menos, mas acho que pagaria o preço atual). Porém, esse complexo aplicativo é o que mantém a minha sanidade e o meu controle das atividades. Nele coloco todas as minhas tarefas, desde uma rotina de limpar a casa, coisas que tenho de organizar (como uma festa junina com meus amigos do tempo de escola) até os meus prazos de trabalhos do doutorado. Se há algo com prazo estourando, o programa me avisa. Antes de tomar a decisão de ir almoçar, eu consultei minha lista de tarefas para hoje, vi que não havia nada de urgente ou extremamente importante, apenas algumas tarefas que poderia ser postergadas para amanhã sem nenhum prejuízo ou que poderia ser feitas assim que eu voltasse do almoço.
  • Eu tenho muitas rotinas e regularmente visito o meu trabalho (um conceito que vem do absolutamente espetacular livro Workflow Mastery, de Kourosh Dini, que pretendo explorar nessa série e ainda resenhar nesse blog). Além do trabalho de Termodinâmica, eu tenho outro trabalho muito importante, da disciplina de Refrigeração. Porém, já havia decidido não trabalhar nele hoje, depois de ter gastado a maior parte do dia de ontem envolvido nele e conseguido avançar bastante (e na semana passado já havia feita alguma coisa a respeito).. Também, assim que acordei, já tinha dado uma arrumação geral muito básica na minha casa, e já tinha ido inclusive à feira. Ou seja, olhando o panorama geral da minha vida, eu sei que não havia nada correndo o risco de explodir, e que está tudo ordem.

Tendo em vista isso, eu fui almoçar com ela. Ela está passando por um tratamento dentário muito chato e realmente queria minha companhia. Fomos em um de nossos lugares preferidos, falamos das novidades e combinamos o nosso fim de semana. Foi uma experiência bastante agradável.

Ou seja, levando em consideração tudo isso que falei, a melhor coisa que eu podia fazer com meu tempo era ir almoçar com minha namorada. Agora eu voltei para minha casa, realmente confirmei que nada está explodindo e estou aqui escrevendo isso.

Olhando em retrospecto, será que eu perdi mesmo tempo? Ou apenas o gastei de uma maneira que não esteja diretamente relacionada com minha fonte de renda, mas que, neste dia e cenário específico, era a maneira mais significativa possível de usar as horas do dia?


Esse é o primeiro post em muito tempo neste blog. Eu deixei de escrever quando comecei a ser atropelado pela falta de tempo: fui morar sozinho, comecei uma série de disciplinas muito trabalhosas no doutorado, além de uma série de compromissos pessoais que não param de chegar. Nesses meses, tive de rever muitas coisas em relação à gestão de tempo e o que isso significa, baseado nas minhas experiências anteriores, nos blogs que acompanho, e em alguns livros (incluindo o de que falei ainda há pouco).

Por isso, para remarcar a volta desse blog (e, de maneira realista, sem previsão de quando será o próximo post), eu vou tratar das minhas reflexões sobre o tempo, o que ele significa, e como pode ser gerenciado. Obviamente, eu tenho muito mais perguntas que respostas, e cada texto é uma maneira de eu mesmo tentar entender, visto que escrever é a melhor forma de pensar, para mim.