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Por que usar uma balança na cozinha

Na última edição de The Magazine, Joe Ray escreveu esse excelente
artigo sobre a importância de se usar medidas baseados na massa, e não
no volume, dos ingredientes de receitas culinárias. Segundo ele, isso
torna as receitas muito mais reprodutíveis, além de necessitar apenas de
uma balança (em contraste com um conjunto de
medidores-colheres-tigelas).

Se o leitor não se importar, deixe eu acrescentar um pouco de
termodinâmica à sua explicação. Vocês sabem, coisas de engenheiro.

O principal argumento a favor de usar a massa e não o volume como
referência é que, pondo de maneira simples, a massa é uma medida
absoluta
da quantidade de matéria, enquanto que o volume é uma
propriedade termodinâmica. Quando você diz “1 kg de água”, isso quer
dizer a mesma coisa aqui, no Japão e na Estação Espacial Internacional.
Com essa informação, é possível saber exatamente a quantidade de
moléculas de água. Um quilograma é um quilograma, definido conforme o
padrão internacional (que está variando). Porém, “um litro de água”
não é nem de longe tão preciso. O bom engenheiro, ao ler uma receita que
pede um litro de algum líquido, imediatamente se pergunta: “a que
pressão e temperatura?”.

Considere uma garrafa de água colocada no congelador. A garrafa estufa
e eventualmente estoura. O seu volume aumentou, sem que você tenha
adicionado água. Ou seja, o volume não indica de maneira precisa quanto
de água há.

É claro que essas variações de volume da água (e da maioria das outras
substâncias usuais na cozinha) em relação à temperatura são pequenas
nas condições ambientes (caso contrário haveria erros grosseiros), mas
existem três agravantes:

  1. Os pequenos erros (aqui entendidos como a diferença entre a
    quantidade correta de um determinado ingrediente que a receita
    pede e aquele que você efetivamente adiciona, baseada no volume) dos
    diversos ingredientes se somam
  2. A medição de volume é bastante subjetiva (você tem de comparar um
    risco num copo com o nível do líquido) enquanto que com uma balança
    digital você lê diretamente o valor
  3. A medição de volume de pós é altamente dependente da quantidade de
    ar entre os grãos. Experimente medir duas xícaras de farinha antes e
    depois de sacudir o recipiente

O uso de uma balança na cozinha surte mais efeito em receitas que exigem
maior controle, como o autor mesmo fala. Mas isso não quer dizer que
você não possa se beneficiar.

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O Primeiro Rascunho

Ernest Hemingway:

O primeiro rascunho de qualquer coisa é uma merda.

É difícil haver uma frase que tenha causado tanto impacto na minha vida
profissional e que seja tão verdadeira.

O perigo de escrever e editar ao mesmo tempo

Na escola, as professoras de Redação (perdão, Produção Textual), sempre
advertiram: “faça um rascunho, e só depois passe a limpo”. Eu, bom aluno
(leia: puxa-saco) que sempre fui, seguia religiosamente esse conselho.
Fazia o rascunho (a lápis) e depois passava a caneta. E o processo,
embora funcionasse, parecia ineficiente. Na minha cabeça, eu demorava
tanto tempo que, quando eu terminava o rascunho, o texto já estava bom.
Parecia que eu poderia ter escrito o texto todo a caneta. O que havia de
errado?

Simples: o meu rascunho era muito bom.

Eu escrevia um parágrafo e editava. Parava, achava que ficava ruim, e
melhorava, e passava para o próximo. Voltava e mudava um trecho. Assim
por diante. Claro, no final, o texto já estava pronto. Passar a caneta
era só perda de tempo.

Isso é altamente ineficiente. Um rascunho é um rascunho, não é para ser
editado antes de ficar pronto. Muito melhor seria escrever o texto todo,
em uma só vez. Quando eu tivesse uma noção do que o texto final seria,
ficaria muito mais fácil consertar alguns trechos. Hoje em dia, eu
realmente faço rascunhos (mas não mais a mão). A primeira versão dos
textos de FabioFortkamp.com são deprimentes (não que as versões
finais sejam muito boas). Quando eu vejo uma tela em branco, é uma
oportunidade para descarregar completamente minhas ideias. “Parar e
pensar” é algo que não me permito.

Num dia desses, por exemplo, eu sentei e escrevi um capítulo da minha
Dissertação. Um capítulo inteirinho, enquanto esperava uma simulação ser
completada (se você acha que seu computador é lento ao visualizar aquele
PowerPoint, experimente trabalhar com solução de equações diferenciais
acopladas). “Uau, Fábio. Se a sua dissertação deve ter em torno de 5
capítulos, como usual, quer dizer que você escreveu 20% da sua
Dissertação em uma manhã? Qual o seu segredo?”

O meu segredo é que esse capítulo está uma merda. Não é a versão final,
que vai ser defendida. Se eu mostrar isso para o meu orientador, ele vai
rir de mim. É um rascunho. Tem erros de português, erros de gramática,
frases mal construídas, referências não conferidas. Mas ele está ali. Eu
agora tenho claro o que eu preciso escrever, sei das coisa que preciso
abordar. Depois ele vai ser reescrito. E aí é que está a mágica: o tempo
de fazer um rascunho rápido, mais o tempo de reescrita, é menor que eu
tempo de escrever e apagar parágrafo por parágrafo (já que não há tantas
interrupções). Além de que o texto final fica muito melhor.

Essa ideia pode ser extendida a muitos aspectos da nossa vida. É um
conceito bastante comum e que chamo de desenvolvimento iterativo (não
confundir com interativo).

Estimar e refinar

A melhor definição de iteração vem de um (excelente) professor meu:

Um problema iterativo é aquele cuja solução depende da solução.

Esse conceito é bastante comum na computação e na matemática. Por
exemplo, se você quer achar a solução de x = cos(a), onde a é
conhecido, é fácil. Você sabe a, calcula o cosseno e diz que x é
esse valor. E qual a solução de x = cos(x)? Qual o número que é igual
ao seu cosseno?

Como não existe solução algébrica (não existe nenhuma “fórmula”
fechada), nós usamos um procedimento iterativo. Você começa com um
resposta errada; você sabe que tem de ser entre 0 e 1 (pela definição de
cosseno). Suponha então que seja 0,5, o ponto médio. O cosseno de 0,5 é
0,877583. Esses valores são diferentes, então 0,5 não é igual ao seu
cosseno. Você tenta de novo, usando o novo valor (0,877583) como
estimativa. O cosseno disso é 0,639012, portanto esse novo número também
não é igual ao seu cosseno. Você tenta com o resultado mais recente,
cujo cosseno é 0,802685. E assim por diante, até chegar a 0,739085, cujo
cosseno é… 0,739085. Resolvido.

Essa técnica de estimar e refinar é extremamente usada nas ciências
exatas (embora existam muitas maneiras de refinar um resultado, e a que
eu mostrei não é a mais eficiente), e é a única maneira de resolver
muitos problemas (pelo menos com o nosso conhecimento matemático atual).
Muitas vezes é a maneira mais fácil (lembrando que todos esses cálculos
são resolvidos por um computador em um tempo menor que o que você leva
para dizer “não entendi nada”).

Na nossa analogia literária, você só pode escrever um texto bom ao menos
que saiba o que quer dizer. Mas para saber o que dizer, você tem de ter
escrito alguma coisa (a não ser que seja um gênio que tem o texto
pronto na cabeça). Assim, você começa com uma versão preliminar, e vai
refinando. É muito mais fácil que escrever algo notável do zero.

Vale para qualquer trabalho criativo – e sim, matemática é uma área que
demanda criatividade.

Um outro exemplo pessoal: o meu tema de Mestrado envolve alguns cálculos
termodinâmicos não muito simples. A equação de estado é complicada, o
sistema está sempre em movimento, existe transferência de energia e
massa e mudança de fase. E o meu primeiro cálculo ignorou quase todas
essas complexidades. Os gases são ideais, a temperatura é constante, o
sistema está parado. Consigo calcular o que me interessa? Consigo. E se
calcular a temperatura (usando uma equação apropriada), em vez de
considerar constante, consigo? Consigo, porque os erros da primeira
parte foram todos corrigidos. E se usar uma equação de estado melhor? E
se considerar a velocidade? E se…

A cada refinamento, a cada iteração, o meu trabalho está melhor porque
eu já eliminei todos os defeitos da versão simplificada. Se eu tivesse
começado com o problema completo, no primeiro erro de cálculo eu não
saberia nem onde procurar o erro.

Eu não tenho experiência com isso, mas consigo imaginar que todo
arquiteto começa uma casa como um quadrado com uma porta. Um músico
começa o novo hit com dó-re-mi. Um advogado começa o seu documento com
“Querido juiz, meu cliente é inocente.”. E por aí vai. O importante é
ter uma primeira versão, um primero rascunho.

O leitor não concorda?

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Por que os engenheiros aproximam

Existe uma piada muito boa que fala de um grupo de especialistas a quem
foi perguntado “quanto é 2 + 2?”.

O matemático disse que era 4, por definição.

O físico rebateu: “Depende. Escalar ou vetorial?”.

O estatístico respondeu: “Com probabilidade de 95% está entre 3 e 5”.

O engenheiro concluiu: “Põe 5 que dá certo”.

Calma lá, rapaz. Permita-me defender os meus colegas.

Entre a aproximação e o erro

Primeiro, temos de fazer uma distinção entre aproximação e erro.
Dizer que π = 3 é uma aproximação ou é um erro?

Como tudo na engenharia, depende. Se você quer construir um reator
nuclear, é um erro. Se está fazendo o primeiro esboço de uma cadeira, é
uma aproximação (bem grosseira, mas enfim).

Engenheiros não são físicos. Os cientistas que lidam com a ciência na
sua forma mais pura estão tentando entender o universo. Para eles, toda
aproximação é um erro perigoso, principalmente se levarmos em conta as
escalas (geralmente muito pequenas). Uma casa decimal faz uma diferença
enorme quando se quer saber a massa de um átomo. A ciência busca a
verdade; portanto, quanto mais informações tivermos, quanto mais exato
formos, mais próximos ficamos da verdade.

É por isso que se encontram tabelas com valores de π, da constante
universal dos gases, da constante de Planck etc com inúmeras casas
decimais. A maioria desses números, aliás, tem infinitas casas decimais.
As tabelas são impressas com a maior quantidade disponível de
informação. É impossível medir ou calcular uma grandeza que tem
infinitos dígitos; só para começar, precisaríamos de um intervalo de
tempo infinito para expressar esse número (ou de infinitas folhas de
papel para imprimi-lo).

Por que então os engenheiros não usam esses recursos? Por que não usar o
valor mais exato possível? Por que simplificar?

Algo que aprendi na faculdade é que engenheiros lidam com escassez de
tempo, de material, de mão-de-obra e de dinheiro. Você quer projetar uma
cadeira (dessas ajustáveis) e quer fazer algumas estimativas. Então você
faz um desenho básico e faz alguns cálculos. O procedimento “exato”
seria sentar e escrever um programa de computador que faça todos os
cálculos, usando valores de π com muitas casas decimais, seguindo as
equações exatas. Isso demanda tempo, que, lembre-se é um recurso
escasso. E, ao final, você descobre que a construção sairia muito cara.

Ou você pode escrever um programinha extremamente simples, com equações
bem simplificadas, com π = 3,14 e descobrir que o construção é muito
cara. O valor é diferente do correto, mas muito provavelmente o preço
sofre maior influência do projeto que das aproximações induzidas. O
tempo gasto num cálculo exato inútil pode ser gasto no reprojeto.

Outro exemplo: ao projetar um sistema térmico (de condicionamento de ar,
por exemplo), o engenheiro precisa calcular alguma propriedade de um gás
(como vapor d’água) a partir da temperatura e da pressão. Ele pode supor
que, nas condições ideais, o vapor se comporta como gás ideal e usar uma
equação simples (lembram dela?). Ou pode usar uma equação de estado
com 10 coeficientes, procurando em livros como calculá-los, escrevendo
um programa para calcular todas as propriedades desejadas e descobrir
que os valores são apenas 10% maiores que se for usada a equação de gás
ideal. E isso é apenas um ponto ao longo do sistema! O usuário do
condicionador de ar nem vai sentir essa diferença.

É claro que, como falei, todos temos bom senso. O nível de cuidado ao
projetar uma lapiseira ou um avião é bem diferente. Estou falando de um
projeto comum.

Portanto, os engenheiros aproximam porque de nada adianta construir um
sistema perfeitamente preciso que custe uma fortuna para desenvolver e
que demore uma eternidade para lançar. Nós unimos o conhecimento
científico com restrições econômicas.

E pode pôr 5 que o resultado final vai ser aceitável.

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Fale-me mais de você

— Fábio, deixa eu te apresentar o Fulano, acho que vocês podem ser bons
amigos.

— Olá, tudo bem? Eu sou o Fábio.

— Prazer, Fábio, eu sou o Fulano. Fale-me mais de você.

Se eu fosse “normal” como a grande parte da população, eu poderia
responder:

— Eu sou engenheiro mecânico.

Ou então, de maneira um pouco mais realista:

— Eu sou estudante de mestrado.

Uma vez, li em algum lugar (e infelizmente vai ser impossível achar a
fonte) que definir quem você é pela sua profissão é querer se
rebaixar
. Sim, eu tenho um diploma de engenharia, e sim, eu faço
Mestrado e um dia (espero) ser Mestre em Engenharia. Mas isso não me
define, e nem é o que eu faço da vida. Eu não sou “Fábio,
engenheiro”. Eu sou “Fábio, aquele cara que… E ah! Além de tudo tenho
um diploma de engenheiro”. É apenas uma das minhas atividades atuais.
Daqui a alguns anos, quando eu não for mais estudante, como vou me
explicar? Vou ter de mudar de história? No momento em que eu receber o
diploma de Mestre vou mudar completamente? Vou de “Fábio, estudante”
para “Fábio, desempregado”?

Não sei explicar por quê, mas, ultimamente, ando eu mesmo me fazendo
essa pergunta. Eu estou fazendo mestrado em engenharia. Tenho uma
namorada, tenho amigos, tenho uma família.

E além disso, quem sou eu?.

Quando eu morrer, como as pessoas vão se lembrar de mim? Se for como
“Fábio, engenheiro”, observe quão pequeno foi meu impacto na vida das
pessoas.

Imagine o seguinte: você está com a vida social perfeita. Casou-se com a
pessoa amada, tem filhos maravilhosos, a família vem visitar sempre, os
amigos estão por perto. Aos 20 anos, você ganhou na loteria, ou herdou
um bom dinheiro, fez investimentos certeiros, algo do tipo. Ou seja,
você não precisa se preocupar em ter um emprego. O que você faz?

Você quer passar os dias vendo novela?

Ou vai se dedicar a uma caridade?

Ou vai realizar um sonho?

(Por falar nisso, qual o seu sonho mesmo?)

Ou vai comemorar de poder oficialmente matar o dia no Facebook?

Ou vai viajar até morrer?

Ou vai abrir um restaurante?

Ou vai escrever um livro?

Pense nisso. O que você realmente gosta de fazer? O que lhe define? Qual
o assunto sobre o qual as pessoas conversam e automaticamente lembram de
você? Algo do tipo “vi um filme e lembrei do João porque ele sempre
conversa sobre isso”.

Eu? Sinceramente não sei.

O que eu sei é que, sem isso, de nada adianta discutirmos muitos
assuntos que já apareceram por aqui. Sim, já falei da necessidade de
estudar produtividade
; mas estudar produtividade para alcançar o
quê
? É necessário discutir o uso de um computador, para que ele nos
ajude a fazer o quê?

Vou continuar em busca da resposta a “quem sou eu?”.

Enquanto isso, fale-me mais de você.

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Notas do autor

Por que não vou escrever sobre as manifestações

Há uma cena no filme “E aí, comeu?”, que é ótima. Afonsinho, o
mulherengo viciado em puteiro e metido a intelectual, quer publicar um
livro na editora do tio. Diante da falta de qualidade da obra, o tio
adverte:

“Você pode até publicar, dinheiro para fazer isso a sua família tem. O
problema é que, quando você publica um livro, ele se torna público”.

Eu sou um estudante de mestrado em engenharia. Eu leio livros, vejo
filmes e escuto músicas. Eu vivo no mundo e observo o que acontece. Para
muitos desses assuntos eu tenho uma opinião, e a melhor maneira de
clerear os meus pensamentos é escrevê-los. Às vezes, surge um texto
que acho que vale a pena ser compartilhado, porque talvez outra pessoa
tenha tido a mesma reflexão que eu tive e gostaria de ler a opinião de
outra pessoa. Mas se for para criticar algo, que seja com
responsabilidade; minha proridade é contribuir com o debate positivo
de ideias.

Na semana passada, tivemos uma greve dos trabalhadores do transporte
coletivo aqui em Florianópolis. Eu cheguei a escrever um texto bastante
crítico que eu planejava publicar hoje. Porém, logo em seguida
explodiram as manifestações pela Tarifa Zero em São Paulo (e logo em
seguida em outras cidades). Esses dois acontecimentos (bastante
distintos, mas ambos relacionados com o problema do transporte público
no Brasil), provocaram uma avalanche de pensamentos em mim. Eu passei o
fim de semana pensando se deveria ou não usar FabioFortkamp.com para
publicar algo sobre isso, ou se deveria continuar com minha intenção de
criticar a greve. Fiquei pensando se quero usar este blog como espaço de
discussão de política.

E a resposta é: não, não quero que FabioFortkamp.com se transforme
num blog sobre política.

O que eu, um mero estudante de Florianópolis, posso escrever que
acrescente às muitas discussões já existentes contra ou a favor das
manifestações? Algumas pessoas com que com conversei têm opiniões das
mais diversas, mas não tem ideia do que afinal se está reinvindicando, e
quer apenas fazer barulho. Outro grupo, mais reduzido (e composto pelos
meus amigos mais inteligentes) tem posições definidas e argumentam com
racionalidade. Pois bem: o primeiro grupo pode ser influenciado por mim,
mas será que quero influenciar alguém que sequer lê jornal? O segundo
grupo de pessoas tem opiniões formadas com base em argumentos muito
melhores que aqueles que posso escrever, então sobre esses eu não tenho
nenhum poder. Vou escrever para quê, então?

O que está acontecendo no Brasil é grande, e, independente da minha
opinião, torço muito para que o Brasil melhore com esse movimento (e que
a polícia não aja com tanta violência nos próximos atos.)

Existem pessoas que estão lá no meio do protesto, lutando por uma causa,
e pessoas que se sentem prejudicadas pelas ruas bloqueadas. Existem
jornalistas feridos e jornalistas que defendem a ação da polícia.
Existem os grandes jornais e revistas e os sites independentes. Esses
grupos tem mais embasamento para discutir essa questão que eu; tiveram
contato com o protesto, têm mais disposição para pesquisar sobre o
assunto e têm mais coragem para tornar públicos suas opiniões e relatos.
É a essas pessoas que vou recorrer quando quiser me manter informado, e
recomendo aos meus leitores que façam o mesmo.

E, se você concordar com as manifestações (depois de se informar com
responsabilidade), participe.

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Como Usar um Computador

Alex Payne publicou em 2008 um texto excelente sobre o que ele chama
de computing happiness, o que eu traduzo como “felicidade na
computação”. O título pode parecer estranho, já que o pensamento usual é
associar a felicidade a momentos em que estamos longe do computador:
lendo um livro, viajando com a pessoa amada, curtindo com os amigos,
passeando com a família. Concordo com tudo isso, mas, a partir do
momento em que admitimos que precisamos usar um computador, seja como
ferramenta de trabalho e seja como facilitador da nossa vida pessoal, é
melhor que o façamos de uma maneira que seja a mais agradável possível.
É quando “essa merda desse computador não para de travar” se torna menos
frequente que “esse programa é muito bom, como eu só descobri ele
agora?”. Você incorpora o uso mais consciente do computador (um
conceito que se tornou fundamental na minha filosofia de vida) na sua
rotina e fica alegre com isso. O que deveria ser um trabalho acabando se
tornando uma atividade que você faria normalmente, porque você descobriu
programas ou técnicas que facilitam muito a tarefa em mão. Imagino que
seja isso que ele quis dizer com happiness.

O texto é simples e curto mas, sem exagero, é um dos mais marcantes que
li. Desde que tive contato com ele (no começo desse ano), passei a
questionar cada vez mais o meu uso do computador. O que estou fazendo é
necessário? E se é, estou fazendo da melhor maneira possível?

Recomendo fortemente que você leia essa lista e reflita sobre o assunto.
Aqui, agrupei os itens nas suas principais ideias, e dou a minha opinião
sobre as mesmas.

Use o software e o hardware certos para cada tarefa, e não mais que isso

Essa é a ideia central do texto. Você não precisa de milhares de apps e
programas, e os que você precisa, você deve usar para a coisa certa. O
seu browser não é o seu sistema operacional; ele serve para acessar
páginas na Web e alguns web apps. Vejo muita gente com o Chrome ou o
Firefox com mil extensões, que prometem fazer tudo, e fico me
perguntando se essas pessoas sabem que existem outros programas, mais
apropriados para cada tarefa.

E tem aquele programa que é a peça de software que eu mais odeio no
mundo, e que você provavelmente adora, que é o Word. Se você tem de
escrever um documento composto apenas de texto, com formatação básica, e
poucas figuras (três é o limite para manter a sanidade mental), ótimo.
Se você tem de colocar figuras com legendas, referências bibliográficas,
equações, e fez isso no Word… eu sinto muito pelos meses da sua vida
que você perdeu reabrindo o Word depois de ele travar, para logo em
seguida ter de rearrumar todas as figuras e suas legendas.

Na mesma linha, você não precisa de um super computador para ver o
Facebook e escutar músicas. Atualmente, laptops já estão bem mais
poderosos e ainda tem o adicional da portabilidade. E como já falei,
não tente usar o seu smartphone para tudo, porque ele existe para
complementar o seu computador tradicional.

Você também não precisa de milhares de periféricos. Um monitor grande,
para ficar mais confortável, um bom conjunto de teclado e mouse, e um HD
para backups. Se for comprar algo diferente, pense bem se realmente
precisa (como aquele leitor de digitais que é super importante porque
você trabalha no meio de agentes secretos).

Use Mac no seu computador e Linux para servidores

Embora eu concorde, reconheço que é muito dependente do gosto pessoal.
Eu já usei Windows, já usei Linux (no desktop) e uso um Mac, e pela
minha experiência, essa é a ordem de usabilidade, do pior para o melhor.

Tenho certeza absoluta que a grande maioria das pessoas usa Windows por
comodismo. Foi o sistema que elas sempre usaram, já estava instalado
quando compraram o computador e o Office funciona (pirateado, com
certeza). É exatamente essa a estratégia da Microsoft, licenciar para um
grande número de fabricantes de hardware de maneira a dominar o mercado.
E essa é também a maior fonte de problemas: a grande diversificação
produziu computadores ruins, com configurações levemente acima das
mínimas e milhares de programas inúteis pré-instalados. Com isso o
sistema se torna pesado, trava, demora décadas para inicializar.

Já tive minha fase de experimentar com algumas distribuições Linux. É
ótimo: existe uma comunidade ativa de usuários, que adora resolver
problemas; existem uma infinidade de opções de sistemas e programas; e é
quase tudo de graça não porque as pessoas não querem pagar, mas
porque os programas são abertos e todos podem modificá-lo (o pagamento é
o tempo e a disposição de contribuir com o código do programa). Por que
eu não uso mais? Quando voltei para o Windows, estava precisando de
alguns programas específicos (estava no fim da faculdade). Agora, com
toda a sinceridade, tenho certeza que, se eu tiver a disposição, eu
migro do Mac para o Linux de novo. É só uma questão de me acostumar com
novos programas. Talvez eu faça isso.

O que me atrai no Mac? Eu comprei um porque queria testar. E o sistema é
rápido, quase não trava, e o hardware é otimizado para aquele software
(já que a Apple fabrica os dois componentes). Sem contar a opção de
excelentes aplicativos, num mercado de softwares muito vibrante. E
claro, ainda há a integração com iPhones e iPads.

No servidor, não há disputa. Tarefas que exigem grande volume de
configurações precisam da versatilidade de um sistema aberto como o
Linux.

Minha sugestão? Se você está satisfeito com o Windows, ótimo. Se não,
tente identificar os pontos que incomodam e teste os os outros sistemas.
Só assim você pode ter uma opinião formada.

Use softwares que você domina e, se necessário, pague para eles.

Como falei acima, se você tem de usar um software que não é livre (i.e.
um software fechado, que apenas os proprietários podem modificar), deve
pagar por ele (para ajudar a sustentá-lo).
Ao mesmo tempo, pagar por algo que você não conhece é arriscado. A
grande maioria dos softwares (pelo menos aqueles que vale a pena usar)
tem versões demo; use, teste, veja se ele vai acrescentar. O tempo de um
mês da maioria dos demos é suficiente. Se gostar, pague, já que ele vai
realmente acrescentar na sua vida. É melhor que uma calça que você tem
de decidir depois de provar num provador apertado, com o vendedor
dizendo que ela ficou ótima em você.

Quando você decidir comprar e usar o software, ótimo. Agora honre seu
tempo e domine-o. Não seja um analfabeto digital. Explore o máximo,
arrisque, pesquise, seja aquela pessoa para quem todos vão perguntar
“como eu faço isso nesse programa?”.

Use formatos abertos

Muitos programas guardam os dados num formato proprietário, que apenas
aquele programa consegue abrir. Evite isso. Depois, se aparecer alguma
alternativa melhor, você tem de continuar usando só porque todos os seus
arquivos estão naquele formato. É como fotos: elas estão em formatos
padronizados, .jpg, .png etc. Você usa então programas que modificam
esses formatos, ou que organizam as fotos de uma ou outra determinada
maneira. Quando você quiser trocar de programa, as fotos estão mantidas.

O formato mais simples possível é o texto puro, plain text do inglês.
É o que se cria em editores de texto (não processadores) como o Bloco de
Notas (no Windows), TextEdit (no Mac), Notepad++, TextMate, vim, Emacs,
Sublime Text, Byword (onde este texto está sendo escrito). Os programas
se diferenciam então pelo que eles podem fazer com o texto: reconhecer
linguagens de programação, executar comandos avançados de editar
múltiplas linhas, substituir múltiplas ocorrências de uma palavra por
outra, criar macros que transformam o texto (tornando maíscula todas as
iniciais, por exemplo), exportar para formatos de publicação como HTML
ou PDF. Mas por baixo disso está o confiável .txt. Se eu quiser trocar
de programa ou mesmo de computador o arquivo está lá, intacto.

Enquanto isso, você está usando o Word 97, e não consegue abrir aquele
maldito .docx que o seu colega lhe enviou.

Conclusões

Você não precisa seguir essas regras, como Alex diz. O que você precisa
é entender qual o seu uso do computador e se questionar se algo precisa
mudar. E então trabalhar para fazer o computador uma ferramenta, e não
um empecilho ao seu trabalho.

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Só valorizamos a história de amor quando ela vem acompanhada de sofrimento

Algo sempre me intrigou na música popular. O amor é com certeza o tema
mais frequente (e como falei na minha análise dos Beatles, tem gente
que praticamente só fala disso na sua carreira inteira) porém sempre com
uma visão: o amor sofrido. Algo do tipo “eu amo você, mas a sua família
não me aceita, ou somos de classes diferentes, ou somos de cores
diferentes, ou você só olha para ele, e por isso não podemos ficar
juntos. Mesmo assim eu vou escrever essa música sobre nós dois”. E essas
letras vêm acompanhadas de músicas lentas, em ritmo de balada leve, com
acordes menores, sombrios, fechados.

Aliás, quanto mais sombrio, melhor.

O amor dói. Quer dizer, o amor não correspondido e não realizado dói. Eu
entendo isso (quem nunca passou por algo assim?). E o músico, aquele
rapaz teoricamente mais sensível, quer pôr as mágoas para fora e usa a
música para esse exorcismo.

O que eu não posso aceitar é que isso se torne a regra, que celebremos
esse tipo de visão de amor, e que — tragédia — só valorizamos a
história de amor quando ela vem acompanhada de sofrimento
. E de repente
esse é o único tipo de amor que deve ser expresso.

Todas essa músicas são lindas, mas isso é o tipo de coisa que desvirtua
o que deveria ser o amor.

Amar é bom. É aquela sensação de que nenhum problema mais importa,
porque você sabe que tem alguém a seu lado, alguém que vai dizer que
tudo vai dar certo, que vai consolar quando preciso. É aquela sensação
de partilhar os momentos bons, de associar aquela viagem àquela
pessoa, de querer que ela esteja junto nas suas conquistas, de não
conseguir trabalhar por não parar de pensar nela. E por que não
estamos cantando sobre isso?

O que aconteceu com aquela história de “A conhece B na
aula/academia/festa, saem uma vez, duas vezes, três vezes, várias vezes,
apaixonam-se, começam a namorar, são felizes”? Por acaso esse tipo de
história é menos importante, só porque ninguém sofreu chorando?

O amor para mim é isso:

Acordes maiores, violão, acordeon, dá quase para dançar. Estava escrito
que eu ia lhe amar e eu vou lhe segurar por quanto tempo você quiser. Eu
amo você e a vida é bela. Now we’re talking.

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A curta vida dos serviços da Web

escrevi que a nossa cultura de não pagar nada por software não se
sustenta. Destaquei dois pontos principais: programar é um trabalho como
outro qualquer, que merece remuneração; e a falta de incentivo
financeiro leva a softwares ruins e que são abandonados. Dois exemplos
no extremo oposto de espectro de preços, o Microsoft Office e o
Photoshop (sim, caro leitor brasileiro, tem gente que realmente compra
uma licença desses produtos) estão aí há décadas (curiosamente, pesquisa
na Wikipedia revela que os dois produtos foram lançados em 1990). Sei
que essa baixa quantidade de exemplos não é suficiente para provar meu
ponto, e existem muitos softwares caros que foram esquecidos. O preço
não é uma garantia, mas ajuda.

Coisa diferente ocorre na Web. Eu estava pronto para escrever que uma
das razões é a sua pouca idade, mas descobri que a rede mundial de
computadores (a tal WWW) foi lançada em 1991. Uma excelente base de
comparação, portanto. Desde então, vimos uma grande quantidade de
serviços surgirem: Geocities, Cadê?, Blogger, Altavista, MySpace, Orkut,
Zipmail, Fotolog, HPG, Delicious. Alguns desses sites ainda sobrevivem,
moribundos, mas eles não tem relevância alguma. E o que eles têm em
comum? Sim, o leitor pode me chamar de chato, mas todos sabemos: eles
eram grátis.

Como isso acontece? Maciej Ceglowski, que se cansou de ter serviços
abandonados e criou o Pinboard, um serviço pago de favoritos, deu a
dica
: para serviços grátis, mais usuários significa mais gastos. E de
onde vem a receita para cobri-los? Da santa provedora de toda a
internet: publicidade. Você usa o Gmail porque o Google exibe os
anúncios e vende o seu perfil de consumidor. Facebook, Instagram e
Twitter fazem o mesmo. E se os custos sobem demais, aumenta a presença
da publicidade (notou como a quantidade de posts patrocinados no
Facebook e no Twitter tem aumentado?). Até que tudo fica tão saturado
de propaganda que você se cansa e para de usar. Tudo isso já aconteceu e
vai acontecer de novo.

Claro, muita gente está ciente desse problema e lançando as suas
alternativas pagas (o Pinboard foi um exemplo). O App.net começou
como um clone pago do Twitter e está se tornando uma plataforma social
muito mais completa (já tem até armazenamento de arquivos
Dropbox-style); e o melhor de tudo é que, pelo serviço ser pago, o
número de usuários não pode explodir, então o sistema em tese pode ficar
num balanço financeiro permanente (e como eles esperaram ter um certo
número de usuários pagantes antes de lançarem, não tem de aumentar a
receita para cobrir os investimentos iniciais). Depois do fim do Google
Reader (quando a empresa simplesmente anunciou o fim do serviço,
provavelmente porque não está conseguindo sustentá-lo), estão surgindo
(ou se popularizando) alternativas como Fever, NewsBlur,
FeedWrangler. Talvez esses serviços não durem 20 anos, mas pagar por
eles é uma maneira de evitar que as coisas simplesmente caiam no
abandono ou sejam completamente desligadas (sem contar que serviços bem
administrados devem ser capazes de operar conforme o número de usuários,
ou seja, cada usuário paga o seu custo).

Portanto, queridos leitores, vamos ser usuários conscientes. Aproveite o
Facebook e o Gmail porque eles não devem durar muito. E saiba o preço
que você está pagando (a sua privacidade).

Como usual, muita gente inteligente, como Ben Brooks e Marco
Arment
, já escreveu sobre esse mesmo tema, de maneira muito superior.
Vale a pena também ler essa análise da necessidade de uma
alternativa ao Instagram e esse relato de um funcionário do Google
decepcionado com o futuro da empresa.

Categorias
Notas do autor

Primeira reforma em FabioFortkamp.com

Publiquei o primero texto no dia 13 de abril de 2013; vamos,
portanto, para três meses de blog, o que é simplesmente sensacional. A
você, que acompanha este site, muito obrigado.

Antes de começar, planejei muito. Li diversos outros blogs em busca de
dicas, li livros, pensei sobre o nome, o assunto, a plataforma. Chegou
uma hora em que simplesmente cansei e me registrei. O nome do blog é o
meu nome, os assuntos seriam os que me interessavam, a plataforma é a
ótima Squarespace.

O momento inicial já passou. O site já está funcionando, eu já descobri
os assuntos que mais me interessam (isso merece um post separado no
futuro) e a plataforma continua sendo ótima. É hora de fazer alguns
ajustes.

Estimulando a conversa

Existe muita opinião a favor de ter comentários (como essa) e muita
opinião contrária (como essa) a ter comentários no blog. Sem eles
você parece arrogante e com eles você corre o risco de ter spam e
desocupados gritando anonimamente “COMO VOCÊ PODE SER TÃO IMBECIL A
PONTO DE PENSAR ASSIM!!! SEU BURRO!!!!!”. É necessário também escolher o
sistema de comentários, configurá-lo etc. Como falei, quando lancei
resolvi pular essa parte.

Agora, pensei sobre o assunto e tenho pavor de ser percebido como
arrogante. Resolvi arriscar e anuncio que FabioFortkamp.com aceita
comentários
. Resolvi utilizar o sistema Disqus, que é praticamente
um padrão na web e é realmente muito bom. Você pode criar uma conta
(gratuita) e comentar em inúmeros blogs (e no site do Disqus você tem
acesso a todos os comentários, acompanha as respostas, vê estatísticas,
enfim, trata-se de uma plataforma completa de conversação). Pode também
usar seu login do Facebook, Twitter e Google. Ou pode ser anônimo. Sem
problemas.

Embaixo de cada post (a propósito, habilitei comentários em todos os
textos antigos, e o leitor está convidado a reler o que mais gostou e
comentar), existe também um botão de Share e um botão de Like (ainda
não consegui mudar o idioma, e espero que o leitor ou leitora não se
importe). O primeiro permite que você compartilhe pelo Facebook, Twitter
ou Google, e o segundo é apenas o sistema interno do Squarespace. Se
você gostar de algum texto e quiser compartilhá-lo (ou curti-lo),
obrigado desde já.

Por falar em redes sociais, no topo da página principal do blog, no
canto esquerdo, existem dois botões, com o link para o meu perfil no
Twitter
e outro para me mandar um email (meu perfil pessoal do
Facebook prefiro deixar reservado para meus amigos). Sinta-se à vontade
para falar comigo.

Em resumo: quero fazer de FabioFortkamp.com um espaço de conversa.
Se você gostar, comente. Se não gostar, pode me criticar. Tentarei
participar da conversa. Um aviso: você discordar de mim, dizer que eu
estou errado, linkar para um texto bem melhor que o meu é aceitável. Eu
não tenho mais 15 anos e sei receber críticas. O que eu não posso
aceitar é que você venha ao meu blog e me chame de burro, de imbecil,
me mande à pqp e diga para eu tomar naquele lugar. Esse tipo de
comentário será apagado.

E se quiser usar o Facebook ou o Twitter para divulgar algum texto
interessante, receba meus agradecimentos.

Tipos de posts

Você deve notar que cada post tem uma categoria e uma ou mais tags.
No template atual, você pode ver a categoria pela mensagem embaixo do
título: “by Fábio Fortkamp in …”.

Isso é apenas uma questão de nomenclatura, mas estou esclarecendo. Este
blog tem as seguintes categorias:

  • Artigos: os textos mais gerais
  • Notas do autor: textos sobre o blog (como este)
  • Resenhas de livros: resenhas sobre livros que li e achei
    interessante
  • Resenhas de apps: em breve, começarei a publicar algumas
    análises dos programas que uso e que podem ajudar o leitor
  • Miscelânea: posts centrados em fotos, vídeos, etc
  • Links: posts que referenciam um link externo e que eu comento
    logo em seguida.

Pode notar que links estão indicados por após o título pelo símbolo →.
Se você clicar no título, você será levado ao artigo original. Isso é
prática comum na web.

E se clicar no tipo (se, embaixo do título desse post, clicar em
“Notas do autor”, por exemplo), verá uma lista de todos os textos do
determinado tipo.

Próximos passos

No momento, eu estou pesquisando serviços que permitem aos leitores
receber os posts por email ou RSS. Podem esperar isso para breve.

Também quero implementar um sistema de arquivo e busca que torne mais
fácil achar um post sobre determinado assunto, de um determinado tipo
etc.

No mais, estou aberto a sugestões. A opinião de vocês é muito
importante.

E mais uma vez, obrigado por ler FabioFortkamp.com.

Categorias
Artigos

O Bolsa-Família e as calças

Um assunto que fervilhou no Facebook na semana passada foi a mulher que
reclamou que o Bolsa-Família não era suficiente para comprar uma calça
para a filha de 16 anos. Logo choveram comentários inflamados de meninas
que também queriam ganhar bolsa para poder comprar as calças, que isso
só prova que o Bolsa-Família é um desperdício do nosso dinheiro e que
nós estamos de babá dos mais pobres.

Veja o vídeo.

Primeiramente, vamos deixar de lado o assunto em si. A argumentação das
pessoas furiosas simplesmente não é válida. É muito fácil sair na rua
com uma câmera e entrevistar dezenas ou centenas ou milhares de pessoas.
De repente, uma delas diz que não acredita em Deus e você conclui que
todos os brasileiros são ateus. Você dizer que todos os beneficiários
são sugadores de dinheiro baseado no depoimento de uma mulher (ou de mil
indivíduos, que seja, o número total ainda vai ser bem maior) é bastante
generalista e perigoso. Isso sem contar o fato de que muitas das pessoas
que adoram fazer ativismo de Facebook não tem nenhum contato com alguém
que dependa do Bolsa-Família (eu não tenho, se querem saber, e por isso
eu tomo cuidado no que eu falo).

Outro tipo de comentário bastante assustador diz que o simples fato de
uma beneficiária do Bolsa-Família querer as calças é um absurdo, ou que
é absurdo o fato de existir uma calça a esse preço. Ora, isso é pura
ingenuidade. No nosso mercado, o vendedor coloca uma calça a 300 reais
não porque ela custou isso, mas porque ele acha que ela vale isso, e
acredita que um número suficiente de pessoas vai comprar a esse preço. E
as lojas que conseguem vender a esse preço também têm dinheiro fazer
propaganda, atingindo as revistas de adolescentes e os intervalos das
novelas. Em resumo: garotas de 16 anos, sejam elas da favela ou de
Jurerê Internacional, querem calças de 300 reais. Milhares de
brasileiros, adultos, gastam mais do que ganham e se endividam no cheque
especial ou no cartão de crédito; como esperar que uma pessoa de 16 anos
tenha mais consciência do valor do dinheiro? Essas meninas simplesmente
vêem a calça vestindo alguma famosa e querem ser como elas; elas não tem
capacidade de perceber que não cabe no orçamento, ou que esse preço é
alto, ou que a mãe precisa comprar comida antes

Para ser bem sincero, por um lado tenho minhas restrições ao
Bolsa-Família, e não fico confortável com a ideia do Estado subsidiando
as pessoas por muito tempo. Por outro, sou homem, branco, estudante de
escola particular, engenheiro, filho de engenheiros, neto de um médico e
um economista, em processo de ter título de mestre. No espectro da
sociedade brasileira, eu estou no lado oposto ao das pessoas que
precisam do Bolsa-Família; para mim, é muito fácil “ser contra o
Bolsa-Família”, ou ser contra as cotas, ou ser contra muitas coisas, já
que eu não preciso delas. O que eu sei, baseado na mais pura observação,
é que existem pessoas pobres, e existem pessoas extremamente pobres, que
precisam de uma vida decente. Elas precisam de um emprego; porém, se
basta apenas “ter vontade de trabalhar”, por que existem tantos
recém-formados em universidades federais sem emprego? Elas precisam de
educação, e os jovens precisam entrar na faculdade, e não adianta
esperar “até que a educação básica seja melhorada”. Vamos ser realistas:
um adolescente que concluiu o ensino médio numa escola pública, em
geral, não tem condições de passar nos nossos vestibulares, altamente
voltado a aqueles que sabem os macetes e as “decorebas” (levante a mão
quem aprendeu as fórmulas da Física com músicas de quinta categoria).
Ele está agora, aqui, sem condições de ter nível superior, e não pode
esperar até que o governo tenha boa vontade de melhorar o sistema
público de educação.

As cotas são a solução? O Bolsa-Família é a solução? Sinceramente, não
sei, e confesso que não tenho a disposição de estudar alternativas (para
isso existem cientistas sociais, ouviram, engenheiros?). É claro que
esses programas sociais precisam de melhorias. Especificamente, o
governo poderia ter uma política mais eficaz de dar emprego para os
beneficiários do Bolsa-Família (já que eles não conseguem achar por
conta própria), e de evitar que as pessoas dependam a vida inteira do
governo. Ao mesmo tempo, embora o vídeo não mostre que todos os
beneficiários estão gastando mal os recursos, mostra que existem
alguns que provavelmente estão ganhando mais do que deveriam, o que
exige um controle mais rigoroso. Isso é um tipo de discussão prática,
e não os comentários raivosos que usualmente se vêem por aí.