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Disciplina de Máquinas Térmicas: meus planos para melhorar

Este é parte de uma série de posts onde mostro meus planos para meu quarto semestre como professor de Engenharia Mecânica. Sugestões nos comentários são bem vindas!

Posts anteriores:

  1. Transferência de Calor e Massa I
  2. Geração de Energia I

Para os não-engenheiros: uma máquina térmica é um dispositivo que converte calor (de maneira geral, a queima de alguma coisa) em trabalho (de maneira geral, o giro de alguma coisa).

Existe uma corrente de pensamento que diz que essa disciplina deve focar em motores de carros – de fato, as máquinas térmicas mais populares. Porém, existem outras máquinas térmicas relevantes: usinas termelétricas (abordadadas em mais profundidade no curso de Geração de Energia I) e turbinas de aviões são outros exemplos canônicos. Na minha maneira de ministrar essa disciplina, eu faço questão de passar por todos os tipos e salientar diferenças e semelhanças.

O que tem dado certo em Máquinas Térmicas

No nosso curso, dividimos essa disciplina em aulas teóricas e práticas. Nas aulas práticas não há dúvidas: são aulas sobre o funcionamento e componentes de motores de combustão interna, até por uma questão de infraestrutura: nós temos uma oficina com vários exemplares de motores e peças, mas não temos turbinas.

Eu ministrei apenas a parte prática desse curso durante o ano de 2020, e, no primeiro semestre de 2021, assumi também a parte teórica. Assim, ainda estou me adaptando.

A cadeira (alguém ainda fala isso?) de Máquinas Térmicas é uma disciplina obrigatória de 8a fase, e existe uma disciplina de continuação optativa, sobre a qual vou falar em outro texto. Mas vou dizer isso desde já: neste outro curso, na primeira aula eu geralmente pergunto aos estudantes por que eles escolheram essa disciplina eletiva (sempre na esperança de que alguém vai dizer algo diferente de “para conseguir créditos e me formar”), e uma resposta comum tem sido “porque eu gostava das aulas práticas da disciplina obrigatória”. Claramente, algo tem dado certo!

Acho que o primeiro ponto a se observar no sucesso é devido ao puro esforço. Na linha do que já falei antes: eu não dou ênfase em motores automotivos porque eu não sei quase nada sobre o assunto. A minha área de pesquisa sempre foi a Refrigeração, eu tive de estudar muito sobre o assunto.

Existe o conceito de memória de trabalho de longo prazo [1]: um meio termo entre a memória de curto prazo (de acesso rápido, mas que não perdura, como ir para a cozinha preparar o almoço, e de noite não lembrar do que almocei), e a memória de longo prazo (meu endereço, minha data de nascimento – coisas que ficam gravadas mas que não são de acesso imediato).

A disciplina de Máquinas Térmicas é um exemplo perfeito de como essa memória funciona: em aulas eu respondo perguntas que eu jamais saberia responder há 2 anos, e consigo responder de maneira rápida. Eu estudei tanto que os assuntos ficaram nessa área do meu cérebro facilmente acessada. Porém, assim que eu parar de ministrar essa disciplina (se isso acontecer), provavelmente vou esquecer tudo.

Acho que consegui passar bem para a forma remota as aulas práticas. Em vez de ir num laboratório ver motores, eu tento passar o máximo possível de animações, fotos e vídeos de equipamentos. Não é a mesma coisa que ver “ao vivo”, mas por outro lado temos oportunidades de ver experimentos que não teríamos condições de fazer na nossa oficina. Portanto, isso tem sido bom.

Quanto às aulas teóricas, o primeiro semestre onde ministrei essas aulas ainda nem terminou, por isso ainda não tenho muito feedback. Mas acho que conseguimos cobrir todos os tópicos num ritmo decente.

Desafios atuais em aulas remotas de Máquinas Térmicas

Há um problema semelhante a Transferência de Calor e Massa I: como resolver exercícios de maneira mais dinâmica – e, principalmente, mais inteligente. Essa é uma disciplina na verdade da última fase de “conteúdo” do curso – após isso, os alunos e alunas geralmente saem para estágio e escrevem o seu TCC. Existen questões básicas desse assunto que nunca morrem: como desenvolver Máquinas Térmicas mais eficientes e mais potentes? É esse o desafio: como preparar engenheiros do futuro para atacar isso. Nós provavelmente vamos ver na próxima década uma ascenção de biocombustíveis, que são menos potentes que combustíveis fósseis; estamos prontos para contornar essa diferença?

Naturalmente há ajustes nas aulas teóricas quanto à distribuição dos conteúdos. Apesar da minha firmeza em não dedicar a disciplina inteira a automóveis, a verdade é que esse assunto ocupa muito tempo e acaba faltando para outros assuntos.

À medida que escrevo essas palavras, percebo que, entre todos os meus cursos, esse é onde há a maior possibilidade de professor e estudantes construírem juntos a disciplina. Um problema logístico na análise aprofundada de máquinas térmicas é a simulação computacional de fluidos, que exige programas dedicados a que estudantes de graduação não tem acesso ou oportunidade de explorar. Mas eu tenho acesso a esses programas, posso gerar resultados, e mostrar para todos: e aí, o que esses dados querem dizer?

Similarmente nas aulas práticas, está na hora de fazer os alunos mergulharem nos equipamentos como eu mergulhei – e agora eu posso guiá-los melhor.

Três passos que pretendo implementar para melhorar a disciplina de Máquinas Térmicas

  1. Criar programas junto com os alunos de simulação de máquinas térmicas e propôr diferentes análises a serem feitas quanto a tópicos relevantes: eficiência, potência, consumo de combustível;
  2. Guiar alunos na busca de dados experimentais sobre cada subsistema de motores automobilísticos;
  3. Dedicar mais aulas síncronas e atividades assíncronas à análise da combustão, super importante para cálculos de consumo e emissões, e que ficou bastante corrido nesse semestre.

Os leitores acham que são boas ideias?

Referências

[1]: Beaudoin, L. P. Cognitive Productivity: Using Knowledge to Become Profoundly Effective. [s.l]: publicação independente, 2016. Disponível em http://leanpub.com/cognitiveproductivity. Acesso em 04 de maio de 2021.

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Disciplina de Geração de Energia I: meus planos para melhorar

Este é parte de uma série de posts onde mostro meus planos para meu quarto semestre como professor de Engenharia Mecânica. Sugestões nos comentários são bem vindas!

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  1. Transferência de Calor e Massa I

Essa é a uma de duas disciplinas optativas que ministro, geralmente cursadas pelos estudantes que estão para se formar. Aqui estudamos usinas termelétricas e sistemas de geração de vapor.

O que tem dado certo em Geração de Energia I

Pouca coisa, sinceramente, e essa disciplina é a que mais precisa ser melhorada.

Um ponto positivo é que essa disciplina é uma oportunidade de integrar conhecimentos diversos de outras disciplinas. Em um semestre, nós:

  • Desenhamos um ciclo termodinâmico adequada para uma usina;
  • Calculamos quanto de ar e combustível é necessário para fazê-la funcionar;
  • Dimensionamos o tamanho dos trocadores de calor, das bombas, e da chaminé;
  • Escolhemos materiais e válvulas.

Certamente deve ajudar muito sair da faculdade tendo essa visão geral de um projeto desse porte (ainda que bastante simplificado).

Desafios atuais em aulas remotas de Geração de Energia I

Essa disciplina está muito pesada. Como falei acima, é bem legal poder integrar tudo em um curso só, mas os alunos (e o professor) ficam exaustos.

Aulas remotas são menos efetivas na transmissão de conhecimento, na minha percepção, e é preciso baixar um pouco a dificuldade. Nas aulas, devo tratar dos assuntos com mais calma, e explorar mais exemplos, ainda que seja necessário cortar alguns tópicos.

Aqui o problema é similar a Transferência de Calor e Massa I: preciso pensar sobre e introduzir maneiras computacionais de calcular propriedades de fluidos, para não ficar lendo tabelas na aula, e usar melhor ferramentas computacionais para resolver exercícios de projeto.

Em 2021-2, meu planejamento é quebrar disciplina em duas partes: uma etapa de aulas remotas, focada nos cálculos termodinâmicos e de combustão (que deve ser mais fácil pelos alunos já terem experiência de outras disciplinas), e uma presencial introduzindo o dimensionamento e seleção de equipamentos, consideravelmente mais complexa em que discussões ao vivo devem ajuda bastante.

Três passos que pretendo implementar para melhorar a disciplina de Geração de Energia I

  1. Utilizar ferramentas computacionais, incluindo Aprendizado de Máquina, para tornar a análise de problemas de projeto e cálculo mais dinâmica;
  2. Rebalancear a dificuldade das avaliações, e promover mais listas de exercícios de treinos;
  3. Eliminar alguns conteúdos para ter mais tempo de discutir os projetos.

Os leitores acham que são boas ideias?

Referências

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Disciplina de Transferência de Calor e Massa I: meus planos para melhorar

Este é parte de uma série de posts onde mostro meus planos para meu quarto semestre como professor de Engenharia Mecânica. Sugestões nos comentários são bem vindas!

A disciplina de Transferência de Calor e Massa I é uma disciplina intermediária de Engenharia Mecânica (na minha universidade, um curso de 6ª fase), onde os estudantes saem do esquema de Termodinâmica de “um estado final menos um estado inicial” e aprendem a calcular o que acontece no meio do caminho. Esta primeira disciplina do assunto cobre os mecanismos de condução unidimensional permanente e convecção monofásica; tradicionalmente, estudantes de Engenharia Mecânica cursam dois semestres de Transferência de Calor, sendo que as divisões variam entre universidades. Os assuntos restantes são condução bimensional e transiente, métodos numéricos, convecção com mudança de fase e radiação.

O que tem dado certo em Transferência de Calor e Massa I

Essa diferença de divisão se tornou um desafio, pois eu estudei de maneira diferente então não tive a reação automática de “foi assim que eu estudei, é assim que eu vou ensinar”. Porém, eu rapidamente percebi uma vantagem: essa é uma disciplina que culmina, muito naturalmente, em um projeto de trocador de calor. É um privilégio como professor assistir estudantes que estão ainda no meio do curso já conseguirem projetar um equipamento tão importante ao final do semestre. No início desse semestre, um aluno já avisou que estava ansioso em poder participar desse projeto. E deixe-me dizer: em sua maioria, os futuros engenheiros e engenharia conseguem fazer um projeto – simples, mas funcional.

Essa prática de promover desafios de projeto é um sucesso mesmo com aulas remotas, pois parece que os alunos conseguem se reunir virtualmente, pesquisar catálogos de tubos e materiais, procurar aplicações similares aos desafios propostos, montar planilhas, e ao final apresentar seu projeto em uma video-conferência.

Ensinar estudantes de Engenharia a integrar conceitos ao longo de aulas discretas em um sistema coerente é uma lacuna clássica da educação tecnológica [1], e eu fico feliz em tentar avançar nessa frente.

Desafios atuais em aulas remotas de Transferência de Calor e Massa I

O que não é fácil de ministrar de maneira remota é o que acontece até essa parte prática. De todos os meus cursos, este é onde há a maior carga matemática. Como mostrar uma dedução matemática de um perfil de temperatura numa aleta para alguém que provavelmente está com um laptop no colo (isso não é um julgamento; para muitos estudantes, sem acesso a uma sala de aula, essa é a única maneira de assistir aulas)?

Há uma abundância de livros-texto (e a nossa biblioteca está funcionando) e materiais disponíveis na internet sobre um assunto tão fundamental (o que não significa que ele é fácil), mas isso cria um perigo: que as aulas se tornem um ritual de resolução de exercícios sem pensar.

Isso me leva ao meu principal desafio, para o qual ainda não achei solução na minha ainda curta carreira de professor: como tornar as aulas verdadeiramente ativas?

Três passos que pretendo implementar para melhorar a disciplina de Transferência de Calor e Massa I

  1. Criar mais listas de exercícios desafiadores, fazendo delas um item de avaliação, e dedicar aulas a explorar esses exercícios;
  2. Propor mais avaliações onde os alunos tem de selecionar o problema relevante a ser resolvido, em vez de apenas resolver provas com o enunciado todo formulado;
  3. Ministrar aulas síncronas mais interativas e dinâmicas: enquetes no meio da aula, tempo para resolver um exercício (curto) e discutir os resultados em aula. Pretendo também resolver exercícios em sala de maneira computacional, aplicando conceitos de Aprendizado de Máquina e explorando melhor as relações entre variáveis: como a condutividade do ar realmente varia com a temperatura? Como a velocidade de um escoamento afeta a taxa total de transferência de calor? Estou inclusive fazendo um curso de OBS para aprender a alternar mais janelas e evitar o padrão atual de “apresentação de slides”.

Os leitores acham que são boas ideias?

Referências

[1]: Stoecker, W. F. Design of thermal systems. [sl]: McGraw-Hill, 1980.

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O que é aprendizado de máquina (de acordo com um Engenheiro Mecânico)

Eu acabei de ganhar um prêmio por um trabalho que apresentei sobre Aprendizado de Máquina (Machine Learning), então eu deveria ser um especialista no assunto. Eu não sou, mas vou introduzir aqui o que penso sobre o assunto, como tenho aprendido, e como tenho usado na minha vida de Professor de Engenharia Mecânica.

Vamos ser francos: Aprendizado de Máquina é um termo científico que foi sequestrado por estratégias de marketing (o que em si não é ruim, pois – surpresa – cientistas gostam de ganhar dinheiro) e perdeu muito do seu signficado (o que é ruim). Como assim, máquinas aprendem? Isso significa que os robôs vão dominar o mundo? Todas as profissões estão fadadas à extinção?


Como aprendemos? Basicamente, treinamos um conceito, um método ou abordagem e testamos nossa abordagem com algum valor dito verdadeiro – na vida acadêmica, o gabarito da lista de exercícios; na vida real, comparamos com documentos históricos ou dados experimentais. Se erramos, precisamos corrigir nosso método e repetir.

Vamos pegar um exemplo que está na minha cabeça por causa das minhas aulas: desempenho de combustíveis. Um litro de gasolina libera mais energia, chamada de poder calorífico, que um um litro de etanol – não à toa, ela é mais cara. Mas o que exatamente provoca essa diferença? É porque a gasolina tem uma cor e o etanol outro? A gasolina vem do petróleo e o etanol da cana-de-açúcar?

Observando a estrutura química, eu proponho um modelo, uma tentativa de representação da realidade: o etanol tem mais oxigênio dissolvido que a gasolina (e isso pode ser verificado experimentalmente), então eu digo que o poder calorífico diminui com a presença de oxigênio no combustível.

Como posso testar isso? Uma abordagem simples seria pegar uma série de combustíveis, e separar em dois grupos: os que tem oxigênio e os que não tem. Vou fazer experimentos e medir o poder calorífico. Para cada par de combustível, um oxigenado e o outro não, o combustível com oxigênio tem de ser mais fraco que o outro. Se isso for verdade, eu aprendi um fato sobre combustíveis. Se não, tenho de propor outro modelo.

Um computador não pode olhar uma série de dados sobre combustíveis e adivinhar que os combustíveis oxigenados são mais fracos que os não-oxigenados, mas ele pode sistematicamente investigar essa hipótese; um computador pode facilmente ler um banco de dados de composição de combustíveis e fazer os cálculos. Ele pode ser programado também para testar uma enormidade de número de modelos, comparando todas as propriedades conhecidas dos combustíveis até descobrir qual a mais relevante para o poder calorífico. Importantemente, você pode alimentar o modelo com mais e mais dados de combustíveis, e não precisa re-programar o computador; ele refaz os cálculos automaticamente.

A ideia original, porém, foi minha. Em último grau, aprendizado de máquina é o meu aprendizado.


Eu comecei a estudar esse assunto quando um colega o introduziu no nosso grupo de pesquisa, baseado nos cursos que ele estava fazendo na época. Uma ideia que começou como uma “brincadeira” virou um trabalho premiado (que em breve vai virar um artigo publicado em um periódico importante). Assim é a ciência.

Como isso me afeta? Eu não sou Cientista da Computação, nem mesmo Cientista de Dados; sou Professor de Engenharia Mecânica. Para o semestre 2021-2 que se aproxima, meu objetivo principal é aplicar os conceitos de Aprendizado de Máquina em problemas reais, importantes de Engenharia Mecânica.

Engenheiros Mecânicos (e mesmo de outras áreas; eu estou falando dessa por ser a de mais afinidade para mim) lidam com dados o tempo todo. Em particular, nós precisamos lidar com catálogos de equipamentos o tempo todo; o que nós podemos aprender com esses dados? Se eu tenho dois catálogos de compressores na minha frente, como posso extrair dos dois o conhecimento de qual vai resultar num sistema mais eficiente?

Outra fonte importante de dados: tabelas de propriedades termofísicas. Eu realmente preciso parar de resolver exercícios interpolando valores nessa tabela à mão, e pensar mais sobre modelos. Como exatamente a condutividade térmica da água varia com a temperatura? Ela cresce ou diminui? Linearmente ou não?

Vou tentar documentar aqui os meus desenvolvimentos nessa área. As leitoras e leitores trabalham com Aprendizado de Máquina, e/ou querem aprender mais sobre o assunto?

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Como eu atendo alunos remotamente

Ontem eu completei um ano como professor, e se posso resumir meus aprendizados numa frase de impacto para fingir que eu sou sábio, seria: Meu trabalho é ensinar alunos, e não dar aulas.

Com minha obsessão não saudável por produtividade, às vezes enxergo minha rotina como um processo industrial de preparar notas no Notion e slides no Keynote; estudo, escrevo, monto apresentações, seleciono exercícios, passo para o próximo tema. Ministrando cinco disciplinas e tendo um bebê para criar, às vezes ajuda ser focado assim; porém, de vez em quando tenho de parar e pensar: no que posso ajudar mais meus alunos? Todos esses processos garantem que meus alunos estão aprendendo? Se não, por mais que gaste horas na frente do computador, não estou realizando meu trabalho.

No meu primeiro semestre como professor, eu não tinha condições de manter nenhum tipo de office hours, tal era o volume de trabalho; quando necessário, eu atendia alunos ao final das aulas ou por email. Isso me incomodava bastante, de maneira que priorizei estabelecer uma maneira de ter horários regulares para estar disponível para os alunos para eles poderem perguntar o que for, sem estar limitado a 15 minutos aqui e ali.

Captura de tela do calendário, mostrando um evento “Atendimento alunos” entre 17:00 e 18:00

Minha solução para atender alunos remotamente: todas às segundas- e quintas-feiras, por uma hora em cada dia, eu estou disponível para um chat com meus alunos no Microsoft Teams, o sistema de reuniões que minha universidade utiliza. Eu periodicamente lembro os alunos desse esquema durante as aulas remotas, e passo todas as instruções. Como faço: eles devem sempre iniciar por texto, para evitar que algum aluno me ligue do nada e estou conversando com mais alguém.

Esse esquema tem funcionado muito bem, embora os atendimentos ainda sejam raros. Sei que meus horários ainda são parcos; esse é um esquema em desenvolvimento. Mas o que me deixa contente é que eu consegui priorizar isso, mesmo supostamente não tendo 2 horas por semana a mais para dedicar a isso. Você tem mais tempo do que imagina.

Sim, leitora: eu também estou cansando de ter de fazer tudo remotamente. Quando as aulas presenciais voltarem, com certeza vou pensar num esquema seguro de atender alunos na minha sala. Por enquanto, porém, temos de dar um jeito de resolver os problemas da maneira que seja possível.

E o leitor, anda saturado de reuniões online?

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Meu autor favorito de livros de Engenharia Mecânica: Yunus A. Çengel

Continuando a conversa sobre livros de Engenharia, não posso deixar de falar sobre um autor cujos livros possuo quase na sua totalidade: Yunus A. Çengel, professor na University of Nevada, Reno.

Eu tive contato com ele quando estava na 4a fase da graduação em Engenharia Mecânica mas, contrariando a relevância do que falei no post anterior, não comprei nenhum quando estava na faculdade. Talvez porque eu trapaceava: o Termodinâmica era o livro que meu orientador usava nas suas disciplinas, e eu tinha certo acesso fácil a ele (era só pedir).

Quando eu virei professor, uma das minhas primeiras decisões foi comprar toda a coleção disponível no Brasil – falta apenas o Equações Diferenciais, que na minha situação atual é o menos relevante (mas, conhecendo a minha personalidade obsessiva, um dia eu completo a coleção).

Como dá para ver, as figuras são excelentes para ilustrar conceitos e elas mesmo quase não precisam de legendas

Os livros do Çengel para mim possuem a combinação perfeita de explicações didáticas com figuras bem trabalhadas. Por exemplo, no momento ando mergulhando em Mecânica dos Fluidos, um assunto que frequentemente aparece nas minhas disciplinas (ainda que eu mesmo não ministre nenhum curso especificamente sobre isso) e sempre aparece em concursos para professor efetivo. Meu método de estudo consiste em montar mapas no MindNode, cheio de equações produzidas no LaTeXiT e figuras do livro do Çengel. O texto é fácil de seguir e há muitos exercícios disponíveis.

Como professor, o material de apoio disponível no site da editora é excelente, com soluções de exercícios e ilustrações do livro em alta resolução. Quando estou montando slides das várias disciplinas, as pastas com as imagens de todos os livros estão sempre abertas para ilustrar as apresentações.

Essa figura, por exemplo, aparece em todas as minhas disciplinas. É simples, bem feita, fácil de entender: a gasolina é o derivado mais leve e o óleo combustível, o mais pesado.

Qual o lado ruim? O didatismo vem às custas de pouca profundidade em alguns assuntos. Por exemplo, o Transferência de Calor e Massa do Çengel é um livro muito menos completo que o famoso e amado Incropera – mas o que eu faço: uso o último das minhas aulas mas monto slides com as figuras muito melhores do primeiro.

Para terminar um texto sobre livros, não posso deixar de linkar um texto do Austin Kleon: os livros do Çengel me influenciam profundamente como educador de engenharia, e eu assumo isso e procuro sempre estudá-los.

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Por que eu sempre comprei livros para a faculdade

Pergunte a qualquer pessoa que me conhece e você ouvirá: o Fábio ama livros, ao ponto de ser anti-social e ler na mesa enquanto outros compartilham dela (já não faço mais isso, pelo menos). Esse meu traço de personalidade está comigo desde a infância, e por isso nunca hesitei na faculdade em comprar livros. Aqui está por que eu acho que sempre vale a pena fazer isso.

Primeiro, vamos falar da realidade cruel: às vezes gastar com livros não é uma opção. Eu tive amigos que passavam fome na faculdade, fazendo de tudo para conseguir se manter numa cidade estranha e concluir o curso, mesmo com o esforço dos pais e auxílios estudantis. Felizmente, eles se formaram, alguns fizeram doutorado, e estão numa situação muito melhor. Se você conta dinheiro para comer e pagar aluguel, obviamente esse post não é para você. Aguente firme e peça ajuda; vai melhorar. Tente absorver o máximo possível de conhecimento, e você terá uma vida inteira para comprar os livros que marcaram a sua faculdade. Se achar que eu possa contribuir de alguma forma, entre em contato nos comentários.

Eu estou imaginando conversar com alguém de classe média, aluno de uma faculdade pública ou privada, que tem dinheiro para gastar com livros mas não sabe se vai servir para alguma coisa. Serve – ainda que dependa da sua personalidade e da sua visão para o futuro.

Livros que comprei durante a Graduação, Mestrado e Doutorado e que foram muito usados na minha carreira

Eu entrei na faculdade há 15 anos, e todos os livros que eu comprei e fui acumulando me acompanharam nesses anos, em diferentes projetos. Você pode argumentar que eu segui a carreira acadêmica e naturalmente uso mais livros que um engenheiro de chão de fábrica. Eu concordo, mas também não acho que meus papeis eram muito diferentes de um engenheiro qualquer. Eu participei de projetos de bancadas experimentais junto com outros técnicos, discutindo materiais e dimensões – e recorri ao meu livro de Projeto de Máquinas para revisar assuntos de engrenagens e projetos de eixos. Eu tive de conferir sistemas de medição, coisa que qualquer engenheiro que trabalhe com controle de qualidade precisa dominar – e recorri aos meus livros de Estatística e Metrologia. Antes de ser pós-graduando, eu era (e ainda sou) Engenheiro – só não ganhava direitos trabalhistas.

Agora, preparando aulas, eu sempre estou com um livro aberto perto de mim. É muito mais conveniente que ter de procurar por um PDF (muitas vezes de má qualidade), e tem muito mais garantia de estar correto que uma pesquisa rápida no Google. A informação está ali, de maneira didática, geralmente acompanhada de tabelas e figuras, para praticamente qualquer desafio que você enfrenta.

Minha visão de trabalho 70% do tempo

Há ainda o efeito de acumulação. Com um pouco de dinheiro gasto por semestre, ao final de uma faculdade você tem dezenas de livros à sua disposição, que podem lhe acompanhar por uma vida profissional. Você está entrando na sua profissão a sério.

Meu companheiro desde 2008

Sobre o dinheiro, como tudo nessa vida, é uma questão de prioridades. Independente do seu curso, você já deve conhecer os livros clássicos que são usados muitas vezes em mais de um semestre. Você pode pesquisar em fóruns ou grupos de ex-alunos, Amazon, Estante Virtual – livros usados são ótimos, e ainda geralmente já vêm com anotações do que outras pessoas acharam importante (o que para mim é uma feature, não um bug). Procure nas livrarias locais e nos sebos que ficam próxima à sua faculdade. Peça de presente. Vá em algumas festas a menos.

Você não quer levar a sua profissão a sério?

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Como eu me preparo antes de entrar em uma sala de aula

Lembro quando entrei numa sala de aula para dar aulas pela primeira vez. Não estava vazio, como a foto da capa deste post, mas o pensamento mais aterrorizante era o que vou falar para essa gente?

Hoje em dia esse sentimento não sumiu, mas está atenuado pela prática e pelas minhas rotinas de preparação para aulas. Como já falei aqui, eu me dedico bastante a preparar bem minhas aulas, mas mesmo assim descobri que ter um pequeno ritual antes de entrar numa sala de aula, mesmo virtual, ajuda bastante a conter a ansiedade.

Para implementar isso, além de colocar os horários de aula no meu calendário, eu dedico tempo para um pré- e um pós-aula:

Assim, se a aula começa 09:20, às 09:00 eu já estou me ambientando: abrindo o Moodle, revisando notas de aula, separando água e chá. Às 09:20 eu já estou completamente pronto – ainda que isso não garanta que minhas aulas sejam sempre boas.

Para quem interessar, aqui está minha rotina que consulto antes e depois das aulas. Ainda estou no processo de sedimentar esses hábitos; algo que pretendo melhorar nesse semestre é tomar um tempo após as aulas para refletir um pouco sobre o que deu certo e o que deu errado.

Sim, isso toma bastante tempo a mais, mas uma constante em minha vida profissional é que fazer as coisas com pressa geralmente toma mais tempo pelo retrabalho envolvido. Eu estou numa fase de aprender a preparar essas disciplinas, aceito em paz que preciso trabalhar bastante (inclusive aos finais de semana) e, a não ser em caso de emergências, quero fazer as coisas com a minha calma habitual.

O leitor tem algum ritual de preparação no trabalho? Para os que têm reuniões regulares, posso imaginar isso sendo muito útil, principalmente para esfriar a cabeça após. Deixem nos comentários!

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Meu maior segredo de produtividade: filas de projetos

Eu não sou a pessoa mais produtiva do mundo, mas consigo completar coisas. Em 2020, eu me mudei de cidade (algumas vezes, na realidade, e para diferentes casas em uma mesma cidade) e comecei um novo emprego, preparando 5 disciplinas enquanto crio um filho bebê. Nada mal.

O meu segredo: eu não tenho fazer tudo, mas pouco de cada vez, sempre avançando num projeto e partindo para o próximo. A maior base do meu sistema são filas de projetos.

Como funcionam filas de projetos

É simples: eu gerencio meus projetos na forma de cartões no Trello, e tenho duas listas com projetos que devem ser atacados em sequência:

A grande questão: eu não estou preparando todas essas aulas ao mesmo tempo; num dado dia de trabalho, só estou focado nas atividades que tem a etiqueta verde, seguindo dois canais de atenção. Já falei sobre esse conceito aqui, que vem dos livros do Kourosh Dini (este post explica bem também). Geralmente, de manhã me dedico ao “Canal 1”, e de tarde ao “Canal 2”.

Como acesso as tarefas? No Todoist, tenho etiquetas para esses canais:

Quando decido que vou trabalhar em um projeto, consulto essas etiquetas:

Ao final de uma sessão do trabalho, ao fechar o dia, ou na Revisão Semanal, eu vou adicionando tarefas no Todoist a partir do cartão do Trello, sempre mantendo-o atualizado para completar o que precisa ser feito para concluir um dado de projeto.

Quando um projeto é concluído, os cartões do Trello são arquivados, os próximos da fila se tornam ativas, as tarefas são copiadas para o Todoist com a etiqueta apropriada, e assim as coisas vão se realizando. No exemplo acima do Trello, eu preparo a aula de Transferência de Calor, que ocorre às terças, e depois, só quando esse projeto é concluído eu preparo a aula de Refrigeração, que ocorre às quartas.

Nada espetacular ou revolucionário, mas funciona.

O leitor acha que faz sentido?

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Montando bibliografia de disciplinas com leitura inspecional

No dia 16 de outubro desse ano, eu concluí uma meta muito importante: finalizar um semestre – o meu primeiro semestre – como professor universitário. Foi uma jornada cansativa e incrível, que me ensinou muito, e que agora dá espaço ao meu segundo semestre como professor.

Apesar de todo o meu esforço, a primeira versão das minhas aulas foram medianas, o que é natural. Recebi alguns elogios, pelos quais sou muito grato, mas sei que há muito espaço para melhorar. Nesses dias antes do semestre de fato começar, fiz uma grande reflexão sobre os pontos mais críticos, que precisam de mais atenção na segunda versão das aulas.

A primeira conclusão a que cheguei é que o planejamento mais global das disciplinas precisa melhorar. No semestre passado, planejei os programas e fui criando as aulas, mas muitas vezes cheguei na hora de montar a aula de fato e me vi sem material de apoio, e sem tempo para pesquisar. Assim, dediquei-me a implementar um planejamento mais detalhado, testando o Notion para organizar e acessar melhor notas de aula. Para preencher essas tabelas de aulas, o próximo passo foi rever a bibliografia das disciplinas. Principalmente para as aulas que eu senti que ficaram piores, eu já quero deixar separado desde o início do semestre material para montar aulas mais completas.

Leitura inspecional

A ferramenta que usei para isso foi a Leitura Inspecional, o processo de “folhear” sistematicamente o livro, prestando atenção no que realmente importa: a estrutura, objetivos, os capítulos que parecem ser mais importante. Em 2015 (!), eu fiz uma série aqui no blog sobre esse processo; como dá para ver, Como Ler Livros me influencia profundamente há bastante tempo.


Como professor substituto, sem compromissos com pesquisa e extensão, eu dou aula sobre temas muito diversos, mas muitos dos quais eu já exploro há anos na minha carreira acadêmica. Assim, eu fiz uma pesquisa no site da Biblioteca da Udesc por livros que eu achava que poderiam contribuir, e alguns que fui pesquisando por palavras chaves, como “turbinas” ou “thermal design”. O leitor pode ver a coleção de candidatos na capa deste post.

Por uma semana, eu selecionava dois livros por dia, colocava um fone de ouvido e folheava atentamente o livro, marcando as páginas de maior interesse.

De Stoecker W. J., “Design of Thermal Systems”, McGraw-Hill, 1980
De Bejan et al., “Thermal Design and Optimization”, New York: John Wiley & Sons, 1996
De Bejan A., “Advanced Engineering Thermodynamics”, New York: John Wiley & Sons, 1988.

Próximos passos

Feito isso, eu já tenho uma noção bem boa de que livros vou poder usar no próximo semestre. Vou agora processar essas notas em post-it, montando listas de bibliografias no Notion e criando lembretes para estudar analiticamente os trechos marcados quando for hora de preparar de fato as aulas.

Se o leitor por acaso tem indicações de livros nas áreas de Refrigeração, Motores de Combustão Interna, Geração de Vapor, Transferência de Calor, Sistemas Térmicos em geral, eu estou sempre interessado.