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Por que ando de ônibus mesmo tendo um carro

As pessoas não acreditam, mas eu ando de ônibus. Sim, eu tenho um carro,
e sim, eu sei dirigir. What?

Existem tantas razões que eu não sei nem por onde começar. Por isso vou
do básico: eu não gosto de dirigir. Dirigir em um meio urbano é uma
atividade de risco, que exige dedicação total de minha parte por muito
tempo. Quando eu vou de carro da minha casa até a Universidade, isso
significa que tenho de passar meia hora com as mãos presas ao volante,
tendo de prestar atenção a tudo que acontece à minha volta, cuidando
para ver as motos (antes de me chamar de preconceituoso, observe que
motos são muito menores que os carros e passam por entre as filas, sendo
muito mais difíceis de enxergar), dando passagem para o SUV colado atrás
de mim, ficar puto com o imbecil que deu uma de esperto e saiu da
Beira-Mar furando fila lá na frente, e tendo que aguentar o engraçadinho
que me ultrapassa para ficar parado uma posição na frente quando eu ando
devagar em um sinal vermelho. E aí, quando eu finalmente chego na
Universidade, tenho de procurar vaga nos estacionamentos pessimamente
iluminados, onde as pessoas param de qualquer jeito (ocupando mais de
uma vaga, na maioria das vezes), e onde a poeira se instala sobre o
carro. Sério que você gosta de fazer isso?

Quando eu vou de ônibus, eu pego minha mochila, ponho um fone de ouvido,
ando 5 minutos da minha casa até o ponto, entro no ônibus, saio do
ônibus, e ando 2 minutos do ponto até o prédio onde fico o dia inteiro.
Durante o trajeto, eu leio, eu escrevo ideias para
FabioFortkamp.com, eu escuto música (podendo prestar atenção à
letra) e podcasts, eu encontro conhecidos (ou até desconhecidos; um
carro é um meio de se isolar por natureza). Atenção necessária: ver o
ônibus chegando.

Eu não vou negar, esse tipo de pensamento se instalou em mim no tempo
que passei na europa. Tive a sorte de morar em duas cidades (Porto e
Karlsruhe) que têm cobertura muito boa de transporte público (e lá isso
não é só sinônimo de ônibus). Nesses lugares, e em outras cidades que
visitei, é muito fácil se locomover. Os principais pontos se referenciam
pela estação mais próxima. Os horários das linhas são bem
documentados, você paga uma taxa mensal que não chega a ser barata mas
que permite você andar livremente (isto é, se você anda uma, duas ou
vinte vezes por dia o preço é o mesmo), o sistema é seguro (pelo menos
na minha experiência) e você pode ir realmente a qualquer lugar. Já
diria Steve Jobs, it just works.

É claro que a experiência de andar de ônibus em Florianópolis (não tenho
capacidade de comentar a experiência em outras cidades brasileiras) é
muito diferente da de andar de S-Bahn em Karlsruhe. O preço é alto, os
horários são imprevisíveis, os ônibus são antiquados, a rotatividade é
baixa (uma linha como a UFSC-Semidireto, que transporta alunos do centro
à Universidade, deveria sair a cada 5 minutos pelo menos), as greves
dominam, assaltos e ataques acontecem. Ainda assim, eu não concordo que
“andar de ônibus é uma merda”. O preço é alto, mas andar de carro é uma
atividade de luxo (você tem ideia de quanto se paga apenas para manter o
carro na garagem, entre impostos e seguros?), e o preço da gasolina está
muito alto de qualquer jeito. Os horários são imprevesíveis, mas com
planejamento é possível achar um intervalo mais ou menos confiável em
que os ônibus passam no ponto. De qualquer modo, como falei, andar de
carro não é uma experiência muito agradável, em comparação.

Algumas pessoas falam que por eu ser engenheiro mecânico eu deveria
idolatrar o carro. Realmente, o carro como um todo realmente é um feito
de engenharia. O processo de fabricação de todas as peças complexas, a
dinâmica veicular, a otimização aerodinâmica, a integração entre partes
mecânicas e eletrônicas, tudo isso são coisas admiráveis. Já o motor de
combustão interna, um dos símbolos da engenharia mecânica, também é um
símbolo do nosso fracasso como engenheiros e de como a Segunda Lei da
Termodinâmica faz pouco caso de nós. Um rendimento alto para motores a
combustão interna é de 30%. Pense no mundo em vivemos, de tantos
avanços; não parece absurdo que ainda não tenhamos inventado em jeito de
evitar jogar fora 70% do nosso dinheiro quando abastecemos? (Aos meus
colegas engenheiros que estão trabalhando nisso, precisamos de vocês
para reverter essa situação).

Um motor de ônibus não possui rendimento muito mais alto, mas se
levarmos em conta o número de passageiros transportados, o “rendimento
per capita” se torna muito maior.

Um último grande motivo para eu andar de ônibus no meu cotidiano é meu
senso de coletividade. Eu moro em sociedade, e tento melhorá-la. Virou
moda “nas elites” de Florianópolis falar que a mobilidade urbana está
mal, e que isso é um absurdo. O que é absurdo, para mim, é que essas
mesmas pessoas andam de carro, sozinhas, e em geral falam que as
ciclovias estão atrapalhando o trânsito. E quem se importa com o meio
ambiente, se vamos todos estar mortos quando a próxima geração tiver de
lidar com isso?.

A mobilidade urbana em Florianópolis realmente é péssima. Quando você
vai de carro sozinho para o trabalho ou para a faculdade, você não está
contribuindo em nada para isso. É mais fácil acreditar que você acha que
engarrafamento é lindo.

Eu não pretendo abandonar o carro. Nas situações certas, ele ajuda. Dar
carona aos amigos, andar de noite ou aos fins de semana, ir em lugares
onde a viagem de ônibus é muito longa. Mas no meu dia a dia, não existe
motivo para não colocar um carro a menos na rua.

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O iOS precisa de um futuro?

Federico Viticci recentemente escreveu sobre sua lista de desejos para
a próxima versão do iOS
, o sistema operacional do iPhone, iPod Touch
e iPad, a ser lançada provavelmente em junho. Ele não é o único,
claro. Existem muitos relatos do tipo, de gente sonhando (em vão, na
minha opinião) que a Apple voltará a ser a empresa revolucionária de
antes, lançando produtos geniais que definem o mercado. O próximo iOS
tem de ser muito melhor que o atual, e vai nos permitir muito mais
controle, e vai ter muito mais recursos, e, e, e…

Criamos tantas expectativas, queremos algo tão awesome, que depois
ficamos decepcionados que o novo iPhone (tanto o aparelho quanto seu
sistema) não lê nossos pensamentos. Eu vi isso acontecer no ano passado
e vai acontecer de novo.

O problema dessas listas de desejos é que as pessoas querem que o iPhone
(estou usando o smartphone como símbolo dos dispositivos) se transforme
em duas coisas, simultaneamente:

  1. Em um computador completo que cabe no bolso
  2. Em um Android

O iPhone não é o seu computador principal

Eu não preciso que o iPhone se transforme num substituto de um
computador, e duvido que alguém precise. Um smartphone foi projetado
para complementar um computador. Você pode fazer muitas coisas com
algo do tipo: acessar a internet, escutar músicas, processar emails,
organizar o calendário, tirar fotos, jogar games. Mas quando se parte
para uma escala maior, as restrições começam a incomodar mais que a
conveniência supostamente facilita. Eu escrevo muitas coisas no iPhone,
fragmentos de ideias que se transformam em textos maiores; mas eu jamais
escreveria minha dissertação em um celular. Eu tiro (poucas) fotos, mas
não as organizo cuidadosamente. Eu navego por sites aleatórios, mas não
faço uma pesquisa mais cuidadosa, separando e catalogando links. Um
smartphone não foi feito para isso.

E nem deveria ser feito. Quando o sistema começa a ficar muito complexo,
perde-se a conveniência. Deixamos de ter algo pensado para ser portátil
e carregamos num bolso um laptop com a tela menor. A necessidade de
reproduzir todos os features levaria a um dispositivo certamente
horrível de usar. E o iPhone ganhou fama por ser ridiculamente fácil de usar.

Outra crítica muito frequente, de que o iOS é muito fechado, é
completamente absurda. O sistema não permite que os aplicativos se
comuniquem abertamente uns com os outros, e não existe um sistema de
arquivos que seja compartilhado por todos os programas. Isso dificulta a
criação de scripts que automatizam o iOS… Mas é isso mesmo? Queremos
operar um smartphone por linha de comando?

É claro que muitos desses desejos se aplicam ao iPad, que teria muito
mais potencial para susbtituir o computador. A tela é maior, com um bom
teclado (convenhamos, o teclado do iOS é uma bosta) pode se transformar
num editor de textos, e é excelente para ler e anotar PDFs. Mas eu não
quero que ele substitua o meu computador, pelo mesmo motivo: quando isso
acontecer, ele vai ser tão complexo que vai deixar de ser bom de usar.
Eu quero poder não depender de um computador por inteiro, quero poder
usar um tablet em viagens, quero poder usar um tablet por poucos dias
quando o computador estraga, mas é tolice achar que um tablet tem toda a
versatilidade de um notebook.

O iOS não precisa ser um outro Android.

O iPhone não é o melhor smartphone, nem o mais poderoso, nem o mais
barato, nem o mais caro. É o mais conveninente. A interface é simples, a
App Store estimula o desenvolvimento de apps pagos (e os leitores já
sabem o que penso sobre isso) , sincroniza automaticamente com PC,
OS X ou pela web (via iCloud), e como todos os programas são testados e
aprovados pela Apple, o risco de vírus e outros malware é virtualmente
nulo. Sem contar que existe apenas um fabricante, o que padroniza a
solução de problemas.

Quando você paga caro por um iPhone (ou qualquer produto Apple) você
está pagando pelo preço desse controle. Está pagando por poder comprar
algo que precisa de configuração míninma. Uma das grandes qualidades dos
prodtos da marca, para mim, é esse acoplamento hardware-software. Tudo é
otimizado.

Se você quer um sistema mais aberto, com muito mais recursos, mais fácil
de ser modificado, com mais opções de fabricantes (e preços), você quer
um Android.

Eu nunca usei um Android, mas pelo que vejo os outros usarem, ele me
parece excelente. Faz tempo que a competição entre o robô do Google e o
iOS deixou de ser por features e passou a ser por tipos de usuários.
Pessoas que gostam de muitos recursos e boa flexibilidade contra pessoas
que gostam de algo mais fechado e pronto, com um mercado de apps mais
estabelecido (e que, sejamos francos, também gostam de parecer cool,
muitas vezes).

Quem não está satisfeito pode trocar a qualquer momento.

Sim, o iOS precisa de um futuro.

Ele pode ser mais avançado (não vejo nada de errado em um controle para
ligar e desligar rápido o WiFi, ouviu, Apple?), poderia ter uma maneira
de testar apps antes de comprar, poderia ter um mecanismo de busca mais
poderoso (já que nada disso atrapalha a usabilidade). Mas ele não
precisa ser mágico.

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Uma internet melhor

Paul Miller escreveu uma matéria maravilhosa no The Verge sobre o
ano em passou completamente desconectado. Um ano em que ele queria usar
o tempo para fazer outras coisas, ser mais produtivo, interagir mais com
os amigos, sem se preocupar em acompanhar a linha do tempo do Twitter.

Um ano horrível, nas suas próprias palavras.

O relato de Paul, junto com sua outra análise e com a entrevista
para a Folha de São Paulo
, reforça aquilo que muitos sabem: o
problema não é a internet, mas sim como a usamos. Nós é que tornamos a
internet como ela é
.

Não é preciso muito para acessar a internet. Um roteador, um computador
com placa de rede e uma conta em algum provedor (junto com muita
paciência, se for no Brasil). Com apenas isso, você pode passar a manhã
no 9Gag, ver vídeos de pegadinhas no YouTube, pesquisar sobre a próxima
viagem, comprar um livro (ou qualquer coisa útil), ver pornografia ou
fundar uma startup. É a sua escolha.

Não estamos mais online apenas para “surfar na internet” (quem inventou
essa xpressão horrível?). Estar online não é algo trivial. O Facebook,
por exemplo, é das ferramentas mais complexas já criadas. É tudo
onipresente. Você simplesmente parte do pressuposto que a outra pessoa
também está lá, quando quer adicionar alguém. Além disso, o Facebook
está te espionando, mostrando anúncions baseado no que você curte (e
visita fora do próprio site), e ainda assim ninguém quer parar de
usá-lo. Novamente, tudo se resume a uma questão de fazer escolhas. Você
pode manter contato com os amigos que conheceu na Europa, rir da Clarice
Lispector, curtir as fotos no Instagram #love #happy #nofilter,
divulgar o seu blog (e ouvir muitos comentários positivos e alguns
negativos), procurar fotos de biquíni daquela garota ou conversar com
aquela, outra, bem mais interessante (que também pode ter fotos de
biquíni, por que não?).

Todos gostamos de ver fotos engraçadas ou vídeos divertidos, mas quanto
tempo você está gastando com isso? E o que o Twitter, com seu fluxo de
notícias sem nexo e pensamentos absolutamente inúteis, está
acrescentando? E aquela lista imensa de blogs nos seus favoritos ou em
RSS, você está lendo apenas para se manter atualizado ou está absorvendo
alguma coisa de útil?

Vou além: se você tem algo a dizer ou mostrar, faça-o. É possível criar
um blog de graça (embora você já saiba o que penso da qualidade de
produtos grátis
). Até uma página no Facebook pode servir para seus
propósitos (apenas leve em conta que, assim como já passamos pela febre
de MySpace e Orkut, o Facebook também vai acabar nessa década. Quanto
você está pagando para sustentar o Facebook, mesmo?). Coloque seu foto
no Flickr, seu vídeo no Vimeo, … Consuma menos e crie mais.

Se nós estamos destruindo a internet, é hora de tentar melhorá-la.

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Notas do autor

Um mês de FabioFortkamp.com

Faz um mês que dei um pequeno passo rumo a um desejo meu e lancei
FabioFortkamp.com. O que quero com isso? Primeiramente, é claro que
quero ter bagagem suficiente para ser chamado de escritor, mas ainda
acho que é um pouco cedo para isso. No momento, quero apenas ser lido
pelos amigos, e se puder atingir outras pessoas, melhor ainda.

Escrevi lá no primeiro post que este blog é uma maneira de
descarregar minhas ideias. Meu problema nunca foi de bloqueio criativo
(ainda), mas do problema contrário, de ter excesso de ideias (bem como
outro escritor que leio muito) e como desenvolvê-las e organizá-las;
este site é a minha mais nova ferramenta nesse processo.

Quando estava pesquisando para criar FabioFortkamp.com, percebi que
uma regra de ouro no professional blogging era criar um site bem
específico, com palavras-chaves definidas para otimizar a busca pelo
Google, um nome cuidadosamente moldado, títulos dos posts provenientes
de livros de marketing e uma agenda de postagem bastante regular.
Felizmente, percebi a tempo que isso jamais funcionaria comigo. O que eu
queria não era escrever um blog sobre tecnologia, ou sobre música, ou
sobre política, ou sobre qualquer assunto. A minha cabeça é caótica, e
não tenho necessidade de me restringir. Eu quero o “site do Fábio”, onde
eu publico quando eu achar que meus textos estejam numa forma decente
(embora eu escreva todo dia pelo menos um pouco), e não apenas para
cumprir agenda.

Defendo muitas coisas, e o leitor já pode ter observado isso. Defendi o
fim do preconceito contra determinadas profissões, a
valorização do mundo acadêmico, e o consumo mais racional de
software no Brasil
. Também escapei por vezes dessa forma de ensaio,
onde defendo alguma ideia central e construo os argumentos; já escrevi
uma resenha de livro, já mostrei em vídeos o que acho da melhor
banda do mundo
e já dei dicas sobre morar fora do país.

Gosto do jeito que esse site acabou se formando e pretendo continuar
assim, escrevendo tipos de textos diferentes e sobre assuntos
diferentes. Num futuro não muito distante quero fazer algumas
modificações na estrutura do site, como uma opção para o leitor receber
os textos por email ou RSS e uma forma dos leitores acharem tipos ou
assuntos específicos de posts. Estou estudando e com certeza esse site
vai evoluir aos poucos. No momento, porém, a minha prioridade é
escrever.


Nunca me preocupei em acompanhar as estatísticas do site, porque não
quero ficar muito ansioso. Porém, hoje, por ser o aniversário de um mês
de FabioFortkamp.com, resolvi arriscar.

É inacreditável. Este humilde site teve 347 visitantes únicos desde o
dia 13 de abril de 2013, o que siginifica que praticamente 347 pessoas
diferentes já leram meu blog (o número não é exato por o sistema toma
como identificadores os cookies dos browsers). Além disso, no total,
foram 1006 visualizações, 33 por dia. A coisa fica ainda mais
interessante quando vejo as estatísticas de cada texto. O meu texto
sobre a Europa
foi lido 114 vezes
(o campeão), e o meu preferido, sobre o amor, 78 vezes. Isso é
insano.

Muito, muito obrigado a todos vocês.

E se vocês têm alguma sugestão ou reclamação, podem me contactar, como
sempre, por email.

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Como Morar na Europa

Morei em Porto, Portugal, de agosto de 2009 a julho de 2010 e em
Karlsruhe, Alemanha, de agosto de 2011 a fevereiro de 2012. São dois
paises muito diferentes entre si e muito diferentes do Brasil. Estas
foram, com certeza, as experiências mais marcantes na minha vida, e por
isso acho importante compartilhar com meus amigos leitores algumas
observações, dicas e regras.

O programa Ciência Sem Fronteiras está a todo vapor e, embora com alguns
pontos questionáveis (como a suposta maquiagem de números e a prioridade
excessiva de alunos de graduação), não podemos negar que está dando
oportunidades incríveis a muitos jovens, somado a outros programas.
Recomendo expressamente a todos que tiverem oportunidade de o fazer que
o façam.

Nunca viajei para outro continente que não a Europa, por isso não sei se
cada ponto se aplica a outros destinos, particularmente os Estados
Unidos. Em todo caso, aqui vai minha lista de regras para se morar na
Europa:

  1. Você é o estrangeiro. Você está fora do seu país, vivendo nas regras
    dos outros. Os alemães não são muito fechados, você é que é muito
    alegre e abraça todo mundo. Os franceses não são pouco higiênicos,
    você é que desperdiça água tomando muito banho. E pela amor de Deus,
    os portugueses não falam de maneira engraçada, você é que deturpou o
    idioma deles.

  2. O Brasil tem regulamentada por lei a furação de fila (a única
    explicação possível dada a sua frequência e banalização), junto com
    o primo desse hábito, o “guardar lugar”. Você até vai ver europeus
    furando fila, mas não seja o brasileiro que contribui com esse
    hábito que eles realmente odeiam.

  3. Os Estados Unidos ganharam a guerra, mas não significa que todos os
    habitantes do planeta devam falar inglês (queridos historiadores,
    perdoem o meu simplismo em favor da brevidade. Um abraço, F.). Sim,
    o atendente da loja sabe falar inglês, ele apenas não quer fazê-lo.
    E isso é normal. Você aprender a língua nativa do país é o maior
    sinal de respeito que você pode passar, e lhe dá uma oportunidade
    única de poder ler todos os avisos, pedir (e dar) informações na
    rua, não ser enganado com preços de turistas e dar bom dia ao caixa
    do supermercado.

  4. O transporte público é um monumento europeu. Cidades de 200 mil
    habitantes têm cobertura ampla de redes interligadas de trem, ônibus
    e metrô. Decore as principais estações, atente-se aos horários de
    funcionamento, e aproveite. Apenas não se esqueça de comprar a
    passagem, mesmo que não haja catracas. Novamente, mesmo que você
    veja europeus andando sem passagem, não seja o brasileiro que
    contribui para isso.

  5. Descubra as regras de pontualidade do seu país. Em alguns países,
    13h47 é 13h47 e não 13h45 e nem 13h50.

  6. Leia jornais e tente entender o que está acontecendo no seu país.

  7. McDonald’s é uma comida barata (lá na Europa) para quem está
    viajando e com pressa. No cotidiano, aproveite a comida local, coma
    nos restaurantes populares e aprenda a fazer alguns pratos.

  8. Prove cada cerveja, destilado e drink que você tiver oportunidade.

  9. Quando perguntado, explique a vida no Brasil de maneira sincera. Não
    diga que nós somos o melhor país do mundo nem que somos os mais
    atrasados.

  10. Quando perguntado, fale sobre o que não gosta e gosta no seu país,
    mas saiba que isso pode estragar suas amizades. Quando em dúvida,
    use o bom senso.

  11. Faça amigos do maior número de nacionalidades possível.

  12. Bata fotos de tudo, mas não gaste mais tempo nisso do que
    aproveitando os lugares.

  13. Irrite-se quando alguém falar mal do Brasil, mas responda com
    civilidade.

  14. Se você está indo em um programa de estudos, vá em mais festas do
    que você normalmente iria no Brasil mas em menos festas do que o
    suficiente para você ir mal na faculdade.

  15. Não tenha medo de se apaixonar, apenas se atente aos percalços de
    namorar a distância.

  16. Quer fazer sucesso? Aprenda a fazer caipirinha.

  17. No Brasil chamamos todo mundo pelo primeiro nome (e.g. Presidente
    Dilma). No Brasil.

  18. Os europeus vivenciaram as duas guerras. Pense nisso antes de fazer
    piadas ou julgamentos.

  19. Respeite as regras de trânsito e pague as multas.

  20. No Brasil é perfeitamente normal uma pessoas beijar outras dez numa
    mesma noite, e uma festa onde ninguém se pega é uma festa ruim. No
    Brasil.

  21. Saiba as regras do seu país quando à intimidade de casais em
    ambientes públicos.

  22. Viaje o tanto quanto puder.

  23. Viva.

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Por que as músicas dos Beatles fazem tanto sucesso?

Ontem, por acaso, descobri que estava passando na tevê um dos meus
filmes favoritos, Across The Universe. É daquelas ideias que eu
queria ter: um musical só com canções dos Beatles, com a história da
época dos Beatles (então espere muita droga e Vietnã). Os personagens
têm nomes famosos no cânone beatlelógico (Jude, Lucy, Prudence, …), e o
melhor de tudo é ver como as músicas realmente ajudam a contar uma
história absolutamente maravilhosa.

Eu já devo ter visto o filme 5 ou 6 vezes, e sempre noto alguma
referência nova. O que mais me chama a atenção, no entanto, é a maneira
como hoje escutamos e reverenciamos um grupo que, surpreendendo muito
gente, só ficou na ativa por onze anos. Let It Be, o último álbum, foi
lançado em 1970. Faz mais de 40 anos e eles ainda são os reis da música
atual. Bandas que estão se formando hoje escutam os Beatles, em busca de
inspiração. Existem grupos de fãs de Pink Floyd, Queen, Led Zeppelin,
U2, Guns N’Roses, mas são poucos os que não reconhecem uma canção dos
Beatles.

Cada vez que eu ouço uma música deles, seja na sua própria versão, seja
um cover, seja num show do Paul McCartney (sim, eu estou me gabando de,
aos 24 anos, ter ido a dois shows dele no Brasil), eu tento entender por
que eles fazem tanto sucesso. Porque eles são, realmente, muito bons.
Então aqui vai a minha lista dos motivos que, na minha opinião, fazem
os Beatles fazerem tanto sucesso. Enfatizo o lado pessoal porque optei
intencionalmente em não procurar nenhuma lista parecida, nem pesquisar
em livros e sites especializados. Também ignorei toda a parte de
marketing, de como eles eram tão profissionais do entretenimento que
montaram a própria gravadora, e cultivavam os mitos em torno da sua
imagem etc.

Quero saber porque as músicas são boas.

As músicas dos Beatles são fáceis de ouvir

Uma vez ouvi um professor de música dizer que as músicas simples fazem
sucesso porque as pessoas gostam de saber o que vem a seguir. Você
escuta um acorde e instintivamente sabe qual o próximo e como deve
cantar, porque a música tem poucos acordes e você já percebeu que eles
se repetem.

É por isso que todos cantamos Ai, Se Eu Te Pego e Tô Nem Aí, e que a
Bossa Nova e o Jazz, com seus acordes maiores com a quinta aumentada e
inversões harmônicas não são e nunca serão um sucesso comercial (o que
não quer dizer que esses estilos não sejam de qualidade). As lendas do
rock nacional como Legião Urbana, Skank, Barão Vermelho usam sempre
dois, três ou quatro acordes. Experimente tocar numa festa para ver se
todo mundo não vai cantar junto.

As músicas dos Beatles contém acordes simples, no compasso 4/4 (o mais
popular no rock – escute Help, contando 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, … e
veja como se encaixa), com exceções também conhecidas como o compasso
2/4 (o compasso do samba) de I’ve Just Seen a Face e o 6/8 de You’ve
Got to Hide Your Love Away
. Compare isso com o compasso 7/11 de
Money, do Pink Floyd (basicamente, isso significa que você não
consegue dividir um verso de Money em 2, 3, ou 4 partes, como na
maioria das músicas pop, mas sim em 7 partes. Escute a linha de baixo do
começo, que tem 8 notas cíclicas, sendo que a segunda e a terceira são
mais rápidas, sendo subdivisões de um tempo – 7 tempos no total. Se é
difícil explicar, imagine compor.).

Os Beatles faziam música pop no estilo mais puro. As músicas são
gostosas de ouvir, fáceis de tocar – e as letras não desafiam nossa
inteligência.

Escute isso e veja se não dá vontade de cantar junto depois dos
primeiros 10 segundos:

Os Beatles evoluíram

Os Beatles atuaram de 1960 a 1970. Foram disso:

a isso:

Os Beatles não falavam só de amor

Pegue uma música do Roberto Carlos, qualquer uma que vier à cabeça.
Deixe-me adivinhar: ela fala de amor, certo? Pegue também uma música
qualquer na sua playlist de sertanejo universitário e me diga se mais da
70% das músicas não falam de amor.

Numa época em que isso era regra absoluta, os Beatles falavam sobre ser
um escritor (Paperback Writer), descreveram o enterro de uma mulher
que catava arroz depois de casamentos (Eleanor Rigby), debocharam da
revolução (Revolution), declaram sua paixão pela maconha (Got to Get
You Into My Life
), musicaram uma notícia de jornal (A Day in the
Life
), chamaram atenção para conflitos raciais (Blackbird),
homenagearam um lugar de infância (Penny Lane).

Quantos grupos conseguem falar sobre tantas coisas?

Mas quando falavam de amor, eles eram mestres

George Harrison começa falando do jeito que a mulher anda, logo de cara
querendo seduzir. Lá no meio, ele diz, “Você me pergunta se meu amor vai
crescer. Eu não sei!”, e você pensa, que cafajeste, como ele pode não
ter certeza de que o amor vai crescer? Ao que ele desafia, “fique
comigo, e isso pode aparecer”. Gênio.

E depois eles dizem mais ou menos isso: “pois é, eu a amo, e ela não
entende e aparentemente nem você. Mas se você apenas a visse… quero ver
não amá-la”.

Até quando parece que não, eles estão falando de amor. O que dizer de
uma canção em que o rapaz pergunta se a mulher vai cuidar dele quando os
dois estiverem velhinhos?

Os Beatles sabiam esconder mensagens

Isso dá um ar de mistério. Como citei, Got to Get You Into My Life,
disfarçada de canção de amor, já foi dita por Paul que é uma canção
sobre a maconha. Ainda hoje, estamos tentando entender qual o
significado de Lucy in the Sky with Diamonds. E o que diabos é
Ob-la-di Ob-la-da? E por acaso existem submarinos amarelos?

O que isso significa? Significa, além de fazer músicas fáceis de cantar,
escrever letras trabalhadas. Eles não despejam palavras pela rima. Dá
para ver que eles pararam e pensaram, nem que seja pensar em nos fazer
de tolos. E na hora da gravação ainda faziam mais brincadeiras.

Quer dizer, as canções já são boas. E você ainda pode conversar, “viu
que no final de All You Need is Love o John canta yes, he is
dead
?
”.


Para conhecer mais, recomendo:

The Beatles – A Biografia

The Beatles – A História Por Trás de Todas as Canções

Além, é claro, de ouvir muito Beatles.


Ah! Querem ouvir minha música preferida?

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Resenhas de livros

Resenha: Como Ler Livros

Eu me considero alguém que lê bastante. Só nesse ano, já li 11 livros, o
que é mais que muitas pessoas lêem num ano inteiro. Já devo ter deixado
claro aqui que ler é uma paixão profunda minha.

Porém, admito que não sou um bom leitor. Às vezes, fico tão ansioso
para terminar o livro que acabo correndo para terminar logo e começar
outro. Não raramente fica a impressão de não ter ficado nada gravado na
cabeça. E isso é desesperador; é uma sensação de tempo perdido.

Depois de ler Como Ler Livros, de Mortimer Adler e Charles Van
Doren, é possível entender por quê. Ler é uma atividade complexa que
exige técnicas. Ler um livro é muito mais que virar páginas e ouvir
uma voz recitando as palavras.

A ideia da obra é bastante direta. É possível ler de diversas maneiras,
mas quando se quer realmente entender um livro é preciso ler da maneira
certa. É o que os autores chamam de “níveis de leitura”.

O primeiro nível é o da leitura elementar. É a simples decodificação
da linguagem, acompanhada da interpretação mais básica. É ler letra após
letra, palavra após palavra, parágrafo após parágrafo. É ler algo como
“as gaivotas voavam sobre o mar azul” e ser capaz de realmente
visualizar gaivotas voando, imaginar um mar azul (talvez uma praia que o
leitor já tenha frequentado) e juntar as duas coisas. É aqui que acaba a
leitura ensinada nas escolas e é aqui que a maioria das pessoas para.

O segundo nível é a leitura é o da leitura inspecional. Ela tenta ver
o livro como um todo. Leia o prefácio (não consigo imaginar como alguém
pode pular o prefácio, a propósito): qual a intenção do autor? Leia o
sumário e veja como o escritor estruturou a sua ideia. Leia o livro
rapidamente, parando em apenas alguns trechos para ler com mais atenção.
A leitura inspecional é responder à pergunta: “esse livro é sobre o
quê?”. É um romance, um livro sobre política, ou sobre matemática, ou
sobre a História do Brasil? Quais são os principais ideias? Embora sem
se dar conta, muitas pessoas conseguem ler num nível inspecional.
Terminam o livro e sabem que não é apenas um amontoado de frases; existe
uma ideia básica que o autor apresentou sob algumas formas. Talvez o
leitor não seja capaz de escrever uma resenha, mas consegue formular um
resumo básico.

O terceiro nível é o da leitura analítica. Certo, o livro é sobre a
História do Brasil; mas qual a posição do autor? Ele está priorizando os
momentos do Império ou da República? Toma partido a favor ou contra a
escravidão? Dá mais destaque à esquerda ou à direita? Ou então talvez o
livro seja sobre ciências. O autor está sendo claro? Os exemplos que ele
passa parecem plausíveis? O autor usa a matemática para confundir ou
para esclarecer?

O leitor que lê analiticamente consegue aprender o que o livro quer
ensinar. Ele consegue criticar o que o autor quer dizer. Na verdade,
essa é a técnica fundamental da leitura analítica. Só consegue ler de
maneira analítica a pessoa que, depois de ter feito leitura inspecional,
sabe as principais perguntas a serem feitas ao livro (notem como eu
expliquei a leitura analítica apenas com perguntas); agora a tarefa é
encontrar as respostas. Ler bem um livro significa questionar o autor a
todo momento. O verdadeiro leitor jamais falaria algo como “não sei bem
por que, mas não concordo com isso”; ele primeiro entende, e depois
julga.

Na verdade, praticamente 80% de Como Ler Livros é sobre leitura
analítica. Os autores põem muita ênfase em se preocupar em procurar as
palavras-chave, depois os termos principais, em seguida as proposições
mais importantes.

O quarto nível é o da leitura sintópica. Significa transcender o livro
e ler vários livros sobre o mesmo assunto e apontar diferenças e
semelhanças. É aplicar a leitura analítica diversas vezes. É assumir
algo como “quero aprender a mecânica clássica” e ler Newton, Laplace,
Galileu e d’Alembert, comparando-os. Claramente, é tarefa de
especialistas.

Como Ler Livros é daqueles exemplos que não trazem nenhuma ideia
revolucionária mas apontam alguns conceitos do senso comum dos quais nos
esquecemos:

  • Você está lendo para quê? Quer apenas dar uma olhada no livro ou
    aprender sociologia? Diferentes objetivos demandam diferentes modos
    de se ler.
  • Dê uma lida rápida e só depois volte nos pontos em que há dúvidas,
    não necessariamente na ordem do livro.
  • Não faz sentido começar a procurar as palavras no dicionário se você
    não faz nem ideia do assunto do livro. Mas quando precisar fazê-lo,
    saiba o que e por que você está consultando-o.
  • Ler não é uma atividade passiva. Se você para para interpretar uma
    frase que seja, já está interagindo com o autor (os autores usam um
    exemplo muito interessante do beisebol, que pode ser melhor
    entendido com uma analogia do futebol. Um goleiro, apesar de
    “apenas” agarrar a bola, não joga passivamente. Ele precisa prestar
    atenção em muitos jogadores, calcular a velocidade da bola,
    movimentar-se para o lado certo).
  • Livros difíceis merecem ser lidos muitas vezes
  • O tipo de atitude que você tem ao ler um livro de filosofia tem de
    ser totalmente diferente da atitude de ler uma peça de teatro.
  • Não é porque se trata de um romance que não existe nenhuma mensagem
    a ser captada.

O livro tem seus defeitos. Os autores se enlongam demais em alguns
trechos, são bastante repetitivos (a maneira que eles enfatizam o
questionamento do autor é cansativo), dedicam pouco tempo à leitura
sintópica e quase completamente ignoram as obras de ficção (embora eu
concorde com eles quando dizem que ler um romance ou poema é algo muito
subjetivo e dependente das experiências do leitor).

Como Ler Livros, no geral, é um monumento de exaltação aos livros e ao
ato de leitura, e suas reflexões já estão mudando completamente a
maneira como encaro os livros. Faça-se um favor e leia.

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99 centavos

Não sei se o nobre leitor ou leitora já lidou alguma vez com
programação de computadores, mas eu já. Quando morei na Alemanha, meu
trabalho como estagiário em um instituto de pesquisa era criar um
programa de computador que simulava um refrigerador. O usuário digitava
alguns valores numa planilha, basicamente as condições de trabalho do
refrigerador (quão gelado deveria ficar o refrigerador e quão quente era
o ambiente, entre outras coisas) e meu programa calculava as pressões e
temperaturas dentro do refrigerador. O engenheiro então projetaria
equipamentos que suportassem esses valores.

Não existe nada de extraordinariamente complicado nesse problema.
Milhares de pesquisadores já formularam as equações que descrevem um
sistema de refrigeração. Minha tarefa era procurar em artigos e livros a
equação que mais se encaixa, escrever o programa dando instruções para
ler a planilha, calcular os parâmetros e resolver as equações. Depois,
basta rodar alguns testes e comparar com valores medidos em laboratório.

Mas coisas podem dar errado. O modelo é tão complicado que o programa
fica tentando resolver a equação infinitamente, sem nunca chegar a
alguma solução. Ou um conjunto misterioso de parâmetros faz o programa
travar. Ou o programa calcula alguma temperatura (em Kelvin) negativa.
Ou a pressão mínima é maior que a pressão máxima. Ou a Segunda Lei da
Termodinâmica é violada.

Tudo, claro, erro meu. Um erro de digitação, ou a escolha da equação
errada, ou a escolha de um método de solução de equações errado. É fácil
se perder à medida que o programa vai crescendo.

O que quero dizer é que programar dá trabalho. Eu sou engenheiro
mecânico, e não tenho nenhuma educação formal em programação ou
computação. Tive uma disciplina de programação da faculdade, mas foi
aquele exemplo clássico de um departamento dando aulas para outro,
achando que o outro nunca vai aprender, que engenheiro mecânico tem de
lidar com graxa e não com algo tão sofisticado quanto um programa de
computador. Não aprendi nada, basicamente. Tudo que sei aprendi fazendo.
Ainda assim, meu programa ficou razoavelmente bom, e meu chefe de lá
mandou um email meses depois dizendo que ele estava sendo bastante útil.

Eu me considero uma pessoa educada, mas depois de todo esse trabalho, se
alguém se oferecesse para comprar meu programa por 99 centavos de dólar,
eu mandaria essa pessoa à merda.


Temos que mudar nossa mentalidade de não querer pagar por software.
Achamos que um programa não é coisa física, que a internet está aí para
“democratizar a informação”, que o culpado é quem colocou no Pirate Bay,
que um software é um artigo de segunda linha.

Produzir um software dá trabalho.

A atual economia de apps por $0,99 na App Store (não posso falar do
ecossistema Android porque não possuo um aparelho desse tipo) não é
sustentável, claramente. Se eu tivesse de vender o meu programa por
$0,99, eu faria uma de duas coisas: ou me preocuparia cada vez menos
(para que dedicar meu tempo para algo que vai me render $0,70,
descontada a fatia da Apple), ou simplesmente abandonaria o projeto e
procuraria outra coisa mais rentável. Observe os apps que você comprou
de graça ou por 99 centavos e me diga que isso não aconteceu.

Você paga R$50 por um livro que vai ler uma vez e nunca mais, paga
R$200+ por uma calça que não pode usar muitas vezes para não repetir,
paga R$ 50 por um rodízio de sushi, para R$1000 por um celular, mas
acha um app de $10 é muito caro?

Precisamos valorizar os desenvolvedores que estão nos ajudando.


Quando eu comecei a tomar conta da importância disso, a coisa mais
benéfica que aconteceu foi que eu parei de comprar apps inúteis. Em vez
de baixar um app de graça ou por $0,99 sem pensar, quando eu quero
comprar um programa de $10 ou $20, seja para iOS ou o OS X, eu paro e
penso
. Esse app vai me ajudar? Eu vou usar quase todo dia?

Ultimamente, o resultado foi positivo. Apps como Notesy, que me
permite visualizar e editar minha notas (e onde estão guardadas muitas
ideias para próximos posts); Byword, onde escrevi o meu último
post
, aliás totalmente escrito e publicado em um iPad; Drafts,
ótimo para capturar pequenas notas; 1Password, um gigante que me
permite gerenciar minhas senhas e minhas licenças (valioso demais
quando tive de formatar meu computador); Taskpaper, para gerenciar
minhas tarefas; Instapaper, para guardar páginas que acho
interessante e quero ler mais tarde, quando tiver tempo.

Em todos esses aplicativos, paguei mais que $0,99, e todos são
extremamente úteis. Nesse momento de minha vida, esse site é muito
importante, então ter um bloco de notos poderoso (Notesy) e um editor de
texto (Byword) comigo, a todo momento, é igualmente importante para mim.
Eu sou constantemente atormentado por ideias, então ter um aplicativo
que me permite registrá-las rapidamente (Drafts) é importante para mim.
Poder gerenciar minhas tarefas com o Taskpaper, entre meu mestrado, esse
site, coisas que preciso comprar, outros projetos pessoais (mais sobre
isso num momento futuro), é importante para mim.

E como é importante, eu me recuso a confiar essas tarefas a um programa
que é grátis (e que logo vai ser abandonado ou, pior, abarrotado de
anúncios) ou vendido a 1 dólar.


Nada disso que eu falei é novo. Na verdade, minha pretensão inicial ao
começar esse texto era fornecer uma introdução a uma série de leituras
que acho essencial que o leitor tenha para pensar melhor sobre o
problema.

Pode começar lendo essa espetacular série sobre a economia da App
Store. Pode continuar lendo a análise de Lex Friedman na Macworld, a
opinião de Marco Arment, desenvolvedor do Instapaper sobre o
assunto (que cita os outros dois textos) e a análise de Tulio
Jarocki
sobre esse último artigo, que praticamente me inspirou a
escrever isso. Todas essas pessoas escreveram sobre o mesmo assunto
(praticamente sobre a mesma ideia), de maneira muito superior. Estou
tentando apenas chamar a atenção para o problema, dar um exemplo pessoal
(por favor, não me considero nem de longe um programador!) e apresentar
essas ideias em Português (rode uma pesquisa por “pagando por software”
e “paying for software” e tire suas conclusões).

Num próximo post falarei sobre os serviços web que supostamente também
são de graça.

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A primeira vez que um homem diz eu te amo

Um homem passa por muitas experiências ao longo da vida.

Somos alimentados com leite materno, e é bom. Somos desmamados, e embora
com certa relutância, aceitamos. Comemos terra, e a julgar pelas nossas
caras de prazer, é a maior iguaria do mundo.

Andamos de bicicleta, e caimos, e queremos morrer de tanta dor.

Chutamos uma bola, e um mundo se abre a nós. Ou não.

Achamos que não tem nada de mais ficar até tarde jogando videogame na
casa de um amigo sem avisar aos pais, e levamos bronca.

Recebemos nota baixa naquela matéria insuportável.

Passamos no vestibular, e descobrimos que somos burros.

Aprendemos a dirigir, e batemos o carro na mureta de casa. Ou sonhamos
em ser o próximo Senna.

Assumimos o primeiro emprego, e somos demitidos.

Morremos.

Tudo isso faz parte da vida de um homem. Mas nada disso importa.

Porque os momentos, as experiências que realmente importam, passamos ao
lado de uma mulher.

Livros, teses, filmes, estudos foram feitos sobre as primeiras vezes. O
primeiro selinho naquela brincadeira de “verdade ou consequência”, e as
meninas não são mais tão chatas. O primeiro beijo de língua, também
conhecido como “o paraíso é aqui”, ou a sua variação “menina com gosto
de morango”. A primeira vez no hiper-americano second base. A primeira
vez que se vê uma mulher nua, provavelmente a cena mais bonita do mundo.
A primeira transa.

Tudo isso é muito bom, e todo homem lembra disso para sempre. Lembramos
inclusive das segundas vezes, e terceiras e quartas.

O que niguém fala é o mais importante. É a primeira vez que um homem diz
“eu te amo”.

Porque isso define um homem. Depois que um homem diz para uma mulher que
a ama, depois que um homem tem a coragem de o fazer, o mundo muda. Um
garoto de 14 anos pode transar, mas dificilmente pode dizer isso tendo
noção da sua importância. Porque amar não é andar de mãos dadas no
shopping, ou admitir que ama na frente dos amigos, ou comprar
chocolates, ou colocar a foto da menina como fundo de tela no celular.

É tudo isso, e muito mais. É dizer todos os dias que a sua garota está
linda sem precisar mentir, porque um homem que se preze acha a sua
mulher linda. É dar flores não por dar, mas por que isso vai provocar o
sorriso mais bonito do mundo. É fazer qualquer por esse sorriso, aliás.
É pedir desculpas por algo errado, mas ser firme quando se acha na razão
(e pedir desculpas novamente se descobrir que não está mais). É tratar a
sogra como se deve. É tratar a mulher como se deve. É priorizar a
mulher na hora do sexo (porque um sexo com uma mulher não é uma
masturbação a dois, ao contrário de crença popular).

Amor não é coisa de criança. Amor exige responsabilidade – por outra
pessoa.

Você pode ser tímido, retraído, pouco desinibido (*sounds like me*) e
ter dito poucas vezes. Pode ser experiente e ter dito muitas vezes. Pode
ser um mentiroso e dizer toda semana. Pode ter dito uma única vez.

Não importa. Foi aquela primeira vez (*A* primeira vez) que realmente
mudou tudo.

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Não sabem nada?

George Bernard Shaw (1856-1950) ajudou a fundar a London School of
Economics e é a única pessoa a ter ganho um Nobel de Literatura e um
Oscar.

Shaw foi um dramaturgo respeitado, e escreveu também ensaios, romances,
contos. Eu já tive a oportunidade de ir a Dublin, sua terra natal, e vi
que ele é um monumento nacional irlandês.

E ele também disse a famosa frase, na peça Man and Superman:

Quem sabe faz, quem não sabe ensina.

Ora, isso é completamente ridículo.

Primeiramente, o que é “fazer”?

Shaw apresentou essa ideia em uma peça de teatro, e portanto não pôde
desenvolver o argumento. Mas seu sentido não é difícil de interpretar.
Ele mesmo foi um escritor prolífico, que passou a vida efetivamente
“criando”. Alguém que se dedique a “ensinar a criar”, na sua visão,
estava aproveitando mal o seu talento, ou, pior, não tinha talento
suficiente.

Já muito ouvi essa frase, quando ficou claro para meus amigos e
familiares que eu estava indo para o meio acadêmico. Meu lugar, o lugar
de um engenheiro, é na indústria, ganhando muito dinheiro, trabalhando
nos fins de semana (porque é isso que os homens de verdade fazem),
torcendo para que seja promovido e não precise lidar com essas coisas
chatas como equações, simulações e gráficos.

Posso estar sendo generalista demais, mas já virou um clichê dizer que a
universidade não prepara para o mercado de trabalho, que as pessoas saem
de lá sem saber nada, e pior, que todos os professores são doutores e
nenhum nunca chegou a trabalhar de verdade.

Meu amigo, a universidade não é uma escola profissionalizante. Isso é
tarefa das escolhas técnicas, dos Institutos Federais. Universidade é um
lugar de Ensino Superior. Ela não me ensinou a ser engenheiro,
ensinou-me Engenharia. A universidade não lhe dá um cargo de arquiteto,
mas um título de Arquiteto.

A universidade não lhe forma juiz, advogado, ou promotor; dá-lhe um
título de bacharel em Direito.

Basta o nobre leitor pensar nos concursos públicos que fez ultimamente;
quantos exigiam uma formação específica ou quantos apenas exigiam “curso
superior”? E quantas pessoas você conhecem que estão trabalhando em
áreas completamente distintas daquela em que se formaram?

Seja você formado em Odontologia, Design ou Ciências Sociais, você
passou por uma série de tarefas que lhe deram o título. Escreveu talvez
uma dúzia de trabalhos (portanto sabe se expressar de maneira
minimamente decente), participou de eventos, desenvolveu um trabalho de
pesquisa, criou uma tese, um trabalho artístico, ou um projeto
científico. E é esse conhecimento teórico que é muito mais importante na
sua vida intelectual que quaisquer habilidades técnicas que você deveria
ter aprendido.

Essas tais habilidades, naturalmente, precisam ser aprendidas. Meu ponto
é que o lugar para isso não é na sala de aula. Temos estágios, visitas
técnicas, parceria universidade-empresa, projetos de consultoria. Tudo
que os alunos podem fazer, complementando a formação. Naturalmente,
existe muita deficiência e muito espaço para aproveitamento. Um
engenheiro precisa conhecer uma fábrica, assim com um bacharel em
Direito precisa conhecer um tribunal e um médico precisa conhecer um
hospital.
Mas você acha que é melhor um médico ir dar uma aula sobre atendimento
de emergência ou você participar de um? Não faz diferença você ter aula
com algum engenheiro que já trabalhou em uma indústria, porque nada
substitui a experiência de você estar lá. Isso não pode ser aprendido
dentro da universidade.

Já que é papel da universidade dar uma formação teórica, nada melhor que
aprender com especialistas; na condição ideal, teóricos do ramo, gente
que está desenvolvendo a disciplina. Na minha faculdade eu não aprendi a
montar um carro, ou a perfurar um poço de petróleo, ou a projetar uma
nova máquina. Aprendi disciplinas de engenharia, que então podem ser
aplicadas a uma ocupação específica (um engenheiro, um bom engenheiro,
não constrói pontes, mas resolve o problema de atravessar o rio).
Aprendi termodinâmica com um professor que desenvolveu e orientou
trabalhos que, só nos últimos 6 anos, renderam dois prêmios
ABCM-EMBRAER de Melhor Dissertação de Mestrado em Engenharia Mecânica
e uma menção honrosa no Prêmio Capes de Tese. Aprendi metodologia de
projeto com membros do grupo de pesquisa que publicou o primeiro livro
em português sobre o assunto. Dois professores do Departamento de
Engenharia Mecânica da UFSC tiveram seus trabalhos testados no
espaço pelo astronauta brasileiro Marcos Pontes.

E você está tentando me dizer que essas pessoas não sabem nada?