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Lendo um paper, e me deparo com a seguinte frase:

O valor de tal variável foi escolhido por conveniência…

Mas o autor poderia muito ter escrito de maneira mais direta:

Testamos vários valores dessa variável, mas esse foi o que gerou os gráficos mais bonitos.

Tenho certeza de que a profissão do leitor tem suas próprias maneiras de suavizar “gambiarras” na hora de comunicar-se — quais são?

Como edito minha Tese de Doutorado de maneira eficiente

Em Fator de Enriquecimento, Paulo Vieira fala que um dos segredos para a riqueza é dedicar uma hora por dia, seis dias por semana, ao estudo, ao aprimoramento do seu trabalho. Com o tempo, isso leva a um grande desenvolvimento de suas habilidades, até um ponto em que você pode trocá-las por melhores salários.

Apesar de ter muitas ressalvas em relação a esse livro, essa ideia é seu o melhor ensinamento, e tenho tentado ficar mais atento a como melhorar minhas atividades. As teorias de sistemas enxutos (lean) também se baseiam no conceito de Kaizen: se algo está errado, precisa ser imediatamente consertado — a melhoria contínua.

Para melhorar meus processos de trabalho, o primeiro passo é simplesmente ficar mais atento a eles; esse post é uma maneira de documentar meu processo para editar minha Tese de Doutorado, junto com indicações de melhorias de processo. Enfatizo o verbo editar, e não apenas escrever, porque o que vou descrever aqui se aplica a essa situação específica: eu já tenho um manuscrito completo, tenho arquivos de referência com alterações dos meus orientadores, e preciso então mudar algumas frases e imagens da minha Tese.

O primeiro passo, aparentemente trivial, é sentar na minha mesa, com uma versão impressa e corrigida da Tese ao lado. Gosto de sentar de maneira bem confortável, com um caderno para anotações sempre por perto.

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Como todo pesquisador que se preze, eu escrevo meus documentos científicos em \LaTeX, que já cobri aqui algumas vezes. O meu editor de texto preferido para \LaTeX é o Emacs, um programa bastante arcaico e bastante poderoso — mais sobre ele em um minuto. Para visualizar o PDF compilado, no macOS a melhor opção para integração com Emacs é o Skim. Para tornar esse início de processo o mais consistente e eficiente possível, eu criei um fluxo de trabalho no Alfred que, com um comando, executa os seguintes passos:

  1. Abre um terminal de comando
  2. Muda o diretório atual para a pasta com a minha Tese
  3. Baixa a versão mais recente do repositório da minha Tese no GitHub
  4. Abre o Emacs no arquivo .tex em que estou trabalhando, a abre o Skim do lado:

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(Sim, claro que estou usando Palatino).

O principal recurso que me interessa no Skim é que posso manter o PDF aberto no Skim de um lado da tela, trabalhar no Emacs de outro, e ao re-compilar o documento o PDF é automaticamente atualizado:

A razão de, com tantos editores mais “modernos” disponíveis, eu ainda continuar usando o Emacs é que, especialmente com o pacote AUCTeX, esse programa sinceramente faz um pouco de mágica. Veja no video a seguir como, quando eu quero inserir uma referência, com um comando eu posso procurar por palavras chaves e o Emacs me mostra as opções lindamente formatadas:

Quanto a minha configuração do Emacs, ela está no GitHub para os aventureiros; se for do desejo dos leitores, posso falar mais sobre esse editor aqui no blog (deixem comentários!). Um detalhe que quero abordar é em relação ao tema de cores, já que ter um ambiente confortável para se trabalhar faz parte da melhoria contínua. Depois de muito tempo usando temas de fundo escuro, nas últimas semanas estou muito satisfeito com o Leuven, que tem essas cores bem interessantes (a minha parte preferida é a barra azulzinha embaixo). E para todas as coisas que envolvem programação, a minha fonte preferida é a DejaVu Sans Mono.

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E o leitor, que achou do meu processo? Tem alguma dúvida? Deixem nos comentários!

Lidando com Depressão

“Eu não tenho dúvidas de que você é uma pessoa doente.”

Quando você vai a um médico, até espera ouvir que está doente , posto que ir ao médico com a certeza de não ter nada é uma perda de tempo. Mesmo assim, ouvir essa frase, e de um médico psiquiatra ainda por cima, causa certo impacto. Estava acostumado a lidar com gripes, infecções, inflamações. Tudo isso é palpável, cotidiano, fácil de lidar. Mas quando você descobre que seu cérebro está doente, que a sua própria maneira de pensar está desajustada, o que fazer?

Os sintomas foram se acumulando: crises de choro, pensamentos negativos intrusivos (sem conseguir pensar em outra coisa que não morte e doenças), irritabilidade em excesso, insônia, tensão muscular, pessimismo exarcebado.

De repente, frente àquela pergunta do médico se eu sentia prazer na vida, a resposta vinha rápida: Não. Eu mesmo já tinha pensado que se eu morresse, não seria a pior coisa do mundo.

Ainda bem que eu estava ali.


O diagnóstico: Transtorno de Ansiedade Generalizada e Depressão.

A causa? Difícil precisar. Através da Terapia Cognitiva, aprendi a me conhecer melhor e a evitar gatilhos para a ansiedade. Eu percebi que, durante toda a minha vida, acostumei-me a ser cobrado a sempre fazer mais; adquiri a mentalidade de que erros são catastróficos e vergonhosos, e é melhor sempre guardá-los para mim; e incorporei a visão de que, se algo não sai como eu planejava, é porque tinha dado muito errado.

Tudo isso foi se formando na minha mentalidade, ao longo da minha infância, sob influência do meu ambiente familiar e das várias pessoas que conviviam comigo. E agora, aos 30 anos, é hora de consertar a minha visão de mundo.


Agora estou bem. Estou medicado, estou fazendo terapia, casei-me com o amor da minha vida, e nunca larguei da mão de Jesus para me ajudar a passar por isso. Para mim, esses são os quatro pilares fundamentais para lidar com depressão:

  1. Tratamento clínico
  2. Terapia
  3. Apoio da família
  4. Vivência da espiritualidade

Se você se identifica com essa história, ou conhece alguém assim, eu vou ser mais um que fala: a depressão não é chatice, não é tristeza, não é uma fase — é uma doença.

Vejo que é comum ter preconceitos contra remédios psiquiátricos, como se fosse uma solução mágica. Eu gosto de pensar nos anti-depressivos como “desengatar o freio de estacionamento”. Antes de ir no psiquiatra, eu já estava fazendo terapia, orava constantemente, tinha ajuda da família. Mas era como um carro com o freio de mão engatado; por mais que empurrasse, não ia para frente. Começar um tratamento com medicamentos me libertou; agora, eu posso usar todos esses apoios e retomar o controle da minha vida. Com o tempo, vou também aprender a manejar eu mesmo o freio de mão.

Meu maior conselho: não hesite em procurar ajuda. Vá num posto de saúde e procure encaminhamento. Procure psiquiatras que atendam pelo seu plano de saúde; e se ele não estiver ajudando, procure outro (foi o que fiz). Em último caso, procure um psiquiatra particular e tire dinheiro de outra fonte — tire da poupança, pare por um tempo com algum gasto recorrente. Se você perdeu o ânimo para viver, isso é uma emergência.

Não é normal se sentir miserável o tempo todo. Não é normal viver numa correria eterna. Não é normal passar o dia de hoje preocupado com o amanhã. Não é normal tratar os outros com raiva.

O normal é ser feliz.

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Como gerenciar uma agenda caótica

O Thomas Frank, cujo canal do YouTube eu adoro, recentemente publicou um vídeo sobre como gerenciar sua agenda em tempos caóticos. Embora o vídeo não seja ruim, para mim faltam dicas realmente eficazes.

Como alguém que está a dois dias de casar, a uma semana de uma viagem internacional e a um mês de defender uma tese de doutorado, essas são as minhas dicas para quem quer gerenciar uma agenda caótica.

Use um calendário e uma lista de tarefas

A sua mente normalmente já é ruim para se lembrar de tudo que tem de fazer; quando há coisas demais a fazer, essa situação só piora.

Não importa a sua profissão, você precisa de um calendário. O Google Calendar é grátis, excelente e tem aplicativos para qualquer plataforma. Além disso, bons programas de calendário podem se conectar a ele. No macOS, estou experimentando o BusyCal; no iOS, meu favorito é o Fantastical, embora o próprio app do Google Calendar não seja ruim.

Sistemas de calendário em geral fazem diferenciação entre eventos regulares, com horário marcado, e eventos “de dia todo” — esse último é ótimo para colocar simples lembretes.

Para começo de conversa, todos os seus compromissos têm de estar no seu calendário. Quanto eu digo todos, eu quero dizer inclusive:

  • Consultas de qualquer tipo
  • Aulas de qualquer tipo
  • Lembretes para vencimentos para contas
  • Jantares e almoços com a família
  • Lembretes para fazer check-in para viagens
  • Lembretes para aniversários de outras pessoas
  • Tempos de deslocamento para compromissos

Eu admito que pode ser demais, mas no meu calendário estão também eventos como “dormir” e “almoçar”. Pode parecer loucura, mas isso garante que eu, ao examinar e planejar um dia, eu possa imediatamente ver quais os meus horários realmente livres. Eu uso um sistema de cores que me permite identificar quais são os compromissos realmente marcados (principalmente se envolverem outras pessoas), quais são apenas meus hábitos e quais são apenas “desejos” meus de fazer alguma coisa (como correr em um determinado horário.

Você precisa também de uma lista de tarefas. Como já falei aqui, eu uso o Todoist. Se a sua agenda está realmente caótica, não se preocupe muito em organizar suas tarefas por “projetos” ou “contextos” (embora isso seja muito útil, e pretendo continuar falando sobre GTD aqui). Insira tarefas que não tenham horário ou dia predefinido (que entrariam no calendário), adicione prazos (se realmente existirem)

Nos intervalos entre seus muitos compromissos, examine regularmente o calendário e sua lista de tarefas, e assim a chance de você se perder no meio do caos diminui bastante.

Nota: sim, você pode gerenciar esse tipo de coisa com uma agenda de papel. Eu apenas acho conveniente usar esses serviços por eu estar sempre perto de um computador ou de um celular e tudo ser sincronizado entre todos os meus dispositivos.

Priorize o essencial mas mantenha seus compromissos

Como falei, vou casar daqui a dois dias, mas mesmo assim hoje fui ao meu laboratório entregar um material para meu colega, simplesmente porque eu havia assumido esse compromisso. Mesma coisa para minhas Oficinas de Oração e Vida — por mais que eu esteja cheio de coisas para fazer, isso não muda o fato de que a cada semana eu tenho 15 pessoas esperando que eu as ajude a orar melhor.

Claro que, para haver tempo para fazer tudo, eu tive de abandonar alguns compromissos, como algumas reuniões nas quais eu não era tão essencial assim. Também ajuda o fato de que eu já sabia que seria assim faz tempo, então adiantei muito minha Tese no mês passado e mantive a serenidade quando passei dias sem escrever nada, quando a agenda começou a ficar lotada. Voltando a falar do Todoist, só recebe prazo o que realmente precisa ser feito em determinado dia.

Não esqueça do corpo e da mente

Sim, estou no meio do caos, mas eu medito todo dia (usando o ótimo Headspace), oro todo dia por no mínimo trinta minutos, e entre os compromissos que eu abandono (como falei no item anterior) não estão minha corrida e a musculação.

Cair na tentação de parar completamente de fazer exercícios pela falta de tempo é uma péssima ideia: o sedentarismo só vai deixar com menos energia.


E o leitor, como mantém o controle como a agenda pega fogo?

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Um dia de trabalho típico (e um bom dia): programando em Python e plotando coisas no PyCharm.

A propósito: em 2018 eu finalmente parei de ser teimoso com a mentalidade de “uso apenas um editor de texto” ou “vou criar uns gráficos rápidos em Jupyter” para minhas tarefas que exigem programação. O PyCharm é fantástico para o meu fluxo de trabalho: lidando com módulos grandes, navegando entre classes e funções, executando scripts de pós-processamento. E eles oferecem gratuitamente licenças acadêmicas!

Trabalhando sob pressão

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Essa semana estou tentando viver uma semana mais contemplativa, mais conectado a Deus. No meio de toda essa agitação, muitas vezes eu só quero estar sozinho com Ele.

Hoje estamos no meio do feriadão de Corpus Christi. Enquanto eu simplesmente observo a paisagem na janela, tudo parece tão anormalmente calmo, tão diferente de outros dias, e isso me fez pensar sobre minha rotina de trabalho.

Exagerando, acredito que existem dois tipos de pessoas: os que só funcionam sob pressão, e os que quebram. Eu definitivamente pertenço ao segundo grupo: prazos não me fazem ir para frente, eles me paralisam.

Eu me conheço e sei que faço o meu melhor trabalho quando estou calmo, quando minha tela de Hoje no Todoist está vazia, quando meu calendário está deserto. Nesses dias, minha mente está livre para mergulhar em algum artigo complicado que preciso entender, ou para criar um caderno Jupyter e fazer alguma análise mais complexa, ou para começar a escrever algo. Eu quero dias calmos não para que eu possa deitar e assistir Netflix, mas para que eu possa realmente trabalhar.

O lado ruim dessa minha personalidade é que sou um trabalhador lento, uma vez que gosto de deenvolver calmamente minhas ideias. Minha própria solução para isso é começar cedo e ser organizado. Eu não gosto de prazo, mas gerencio-os. Eu tento manter 2-3 projetos ativos, e trabalhar neles um pouco a cada dia até completá-los.

Eu ainda tenho de aprender muito; uma das maiores partes do meu doutorado está meses atrasada, e em parte a culpa é minha. Meu maior desafio: aprender a trabalhar com pessoas que precisam de pressão, e de trabalhar eu mesmo sob pressão nos tempos mais críticos (eles não vão durar para sempre).

A minha rotina matinal

Eu me sinto meio tolo sendo mais um blogueiro que fala da minha rotina matinal, mas em nome da documentação do meu trabalho, aqui vai.

Thomas Frank hilariamente toca num ponto sensível sobre a obsessão por rotinas matinais: logo cai-se no perigo que achar que, se você não acordar às 4 da manhã e não fizer todo dia as mesmas 100 atividades na mesma ordem e no mesmo horário, nunca vai ter sucesso.

Para usar a terminologia newportiana, geralmente essas dicas são dadas por quem já tem capital de carreira suficiente (mesmo que sejam jovens) para conseguirem ter bastante liberdade de trabalho. Para os outros, que têm obrigações de local e horário, é irreal achar que vai ser possível encaixar meditação, atividades físicas, leitura, escrita de um diário e todas essas dicas comuns de rotinas matinais no intervalo de tempo entre acordar e sair de casa.

O principal ponto da rotina matinal é ajudar na produtividade. Como diz David Allen na nova edição de A Arte de Fazer Acontecer, é um objetivo nobre querer ser produtivo porque, se o que temos a fazer é desagradável, podemos concluir de maneira mais rápida se formos produtivos; e se for uma tarefa interessante, podemos nos dedicar a fazer o melhor trabalho possível com o tempo disponível. E como o próprio Allen defende, e eu rotineiramente comprovo, o requisito fundamental para a produtividade é o estado calmo e relaxado da mente. A rotina matinal é apenas isso: um maneira de começar o dia de maneira mais calma. Os dias em que as manhãs são tumultuadas tendem a ser os menos produtivos, porque justamente eu não tive tempo de me acalmar e começar o dia.

A minha rotina, enfim

Para sermos bem claros em relação ao contexto: essa é a rotina matinal de um estudante de doutorado que mora na Dinamarca, em um studio pequeno e provisório, junto com sua noiva, e tem de fazer um trajeto de trem de uma hora todos os dias. No total, entre acordar e sair de casa eu levo uma hora e vinte minutos. Essa é a rotina que tenho executado de maneira sólida no último mês, e tem três partes principais:

  1. Necessidades básicas
  2. Preparação para o dia
  3. Planejamento do dia

Necessidades básicas

Na faculdade fiz uma disciplina horrível que só me ensinou uma coisa: a pirâmide de Maslow de necessidades humanas. Na base da pirâmide estão as necessidades básicas, e é assim que eu começo o dia:

  1. Logo que acordar, tomar água (por isso a minha garrafa sempre está comigo)
  2. Abluções (sem entrar em detalhes)
  3. Exercício leve (algo somente para “ativar as juntas”; geralmente faço 10 flexões e 10 abdominais)
  4. Café da manhã de verdade

A inspiração para esses passos veio do app The Fabulous, que usei por pouco tempo antes de decidir que não valia a pena pagar. Mas o objetivo é bem básico: garantir que eu esteja hidratado, alongado e nutrido.

Uma nota sobre a parte de exercício: essa não é a minha atividade física principal. Para não gastar muito tempo de manhã, geralmente faço meus treinos de corrida no final da tarde, quando volto para casa. Prefiro fazer nesse horário para dar um descanso ao meu cérebro após um dia de trabalho, mas agora que estamos acordando bem mais cedo por causa do horário de trabalho da minha noiva, vou repensar isso e experimentar correr de manhã. Mas como falei, essa rotina de que tenho falado aqui é a minha atual, que vem seguido no último mês.

Preparação para o dia

Por preparação quero dizer as atividades básicas para garantir que eu possa sair de casa de maneira tranquila:

  1. Vestir-me (naturalmente)
  2. Encher a minha garrafa de água
  3. Separar os meus lanches do dia (frutas, nozes, sanduíches, bolos etc)
  4. Pensar no que vamos jantar e se é preciso comprar alguma coisa

Sobre as duas últimas tarefas: eu tento me alimentar bem e, quando estava no Brasil, ia regularmente à nutricionista. Por conta disso, tenho o costume de, aos finais de semana, sentar por uns minutos e pensar no que vou comer ao longo da semana, para garantir o máximo de diversidade. Por isso, antes de sair de caso tento pensar em que lanches preciso levar para a universidade. O planejamento das refeições inclui pensar nos jantares, tarefa que minha noiva fica muito feliz em deixar para mim, e assim todo dia eu consulto o nosso “menu” apenas para conferir se é preciso comprar alguma coisa na volta para casa.

Planejamento do dia

Os dois últimos itens são essenciais para garantir que eu possa sair de casa. Sinceramente falando, esta etapa de planejamento pode ser feito no trabalho ou até mesmo no trem, mas tento sempre fazer em casa para garantir que eu esteja 100% pronto ao cruzar a porta.

A grande inspiração para a minha rotina de planejamento diário veio de (quem mais?) Cal Newport. O propósito é tomar decisões conscientes sobre o que vou fazer e em que horário. E, relendo o supracitado A Arte de Fazer Acontecer, começo com uma revisão básica do dia segundo o GTD.

Aqui estão os passos:

  1. Conferir e processar todas as minhas inboxes de tarefas: Todoist, anotações em papel, coisas que guardei no Evernote (mas não email) — para detalhes sobre processamento de tarefas, consulte esse texto da Thais
  2. Conferir calendário para compromissos do dia
  3. Conferir calendário para ações do dia — coisas que só posso fazer hoje, como “comprar coisas fresquinhas para café da manhã de amanhã”
  4. Conferir calendário para lembretes gerais (e.g. “hoje é o prazo para submeter o artigo ao tal congresso”)
  5. Conferir próximas ações que tem prazo para hoje (“mandar mensagem para Fulano confirmando presença no evento de sábado”) — novamente, veja a diferença entre as ações pontuais do calendário e próximas ações
  6. Conferir as minhas metas da semana (mais sobre isso em posts futuros)
  7. Conferir minha Dashboard no Trello e ver quais os meus projetos mais importantes
  8. Com base em todos os itens acima, definir as metas para o dia e planejar dia hora a hora

O resultado final desse planejamento é um plano para o meu dia. Eu sempre carrego um caderno comigo, e nele sigo o esquema de Newport e crio uma mini-agenda para cada hora. No final, escrevo as minhas metas para o dia de hoje: três tarefas principais que, se completadas, fazem com que o dia seja considerado um sucesso. Com isso tenho sempre uma visão panorâmica do que devo fazer, e não preciso ficar consultando o Todoist ou o Trello. A minha notação para essas tarefas é uma versão simplificada do Bullet Journal

Uma página de planejamento do dia no meu caderno

Perdoem a qualidade da imagem, a letra feia e o caderno bagunçado, mas eu quis mostrar como é uma página real de planejamento. A parte em branco à direita da agenda e a parte livre na base da folha servem como uma área de anotações rápidas, geralmente criadas no meio de alguma atividade. Quando acabo a tarefa em questão, revejo e processo essas anotações em um formato mais permamente, colocando tarefas no Todoist, criando pequenas notas no Evernote etc.

Quando crio o meu plano do dia, isto significa que estou pronto para trabalhar. Já sei tudo que há para fazer, já limpei as minhas caixas de entrada, já garanti que estou trabalhando em coisas importantes. Posso pegar o trem, e quando chegar no trabalho basta revisar qual a primeira coisa a se fazer, colocar uma música e comecar a me engajar nas minhas tarefas.

Uma checklist no Evernote

Como falei, o objetivo de uma rotina relativamente longa assim é garantir que eu comece a trabalhar num estado calmo e relaxado. Então, justamente para que eu não esqueça nada e atinja esse estado, eu tenho uma checklist no Evernote onde detalho todos esses passos. Muitas destas atividades já se tornaram um hábito, mas consulto essa lista como um mecanismo de segurança.

Se o leitor não tem uma conta no Evernote, pode criar uma aqui1. E para os que já tem uma conta então, podem baixar essa checklist aqui.

E o leitor, tem alguma rotina ou hábitos para a parte da manhã que ajudam a preparar para o dia? Contem-me nos comentários!


  1. Esse link permite ao leitor criar uma conta grátis no Evernote, com direito a um mês da opção Premium. Para cada leitor que se registrar esse link, eu ganho pontos que posso trocar por meses de assinatura da versão paga. Resumindo: se o leitor quiser experimentar o Evernote, ao usar esse link não há nenhum custo envolvido e você ainda pode ajudar o seu blogueiro favorito. 

O impacto da falta de carro na produtividade

Há uma observação aparentemente comum entre brasileiros que moram na Dinamarca: a vida aqui é mais calma. Não é uma quesão de impressão, ou de simplesmente concordar com o que os outros pensam; como já falei outras vezes, eu efetivamente me sinto mais calmo e produtivo, e naturalmente, tenho todo o interesse do mundo em descobrir como incorporar essa mentalidade quando voltar ao Brasil. Por isso não estranham os recentes (e provavelmente futuros) registros das minhas observações e aprendizados aqui.

Mas por que a vida aqui é mais calma? Existem muitos fatores, mas há um que acho que é fundamental: dirigir. Ou melhor, não dirigir.

O principal argumento meu para provar que o hábito de dirigir acaba com o estado calmo que é fundamental para a produtividade é a observação de que eu me sinto especialmente calmo nos extremos do dia de trabalho, ao contrário do que acontecia no Brasil — quando era justamente nesses momentos em que eu andava de carro. Claro, no meio do dia de trabalho eu posso me sentir cansado ou frustrado com coisas que não certo, mas os períodos de trajetos casa-universidade são agora momentos de relaxamento. Eu simplesmente pego o trem (de preferência no mesmo horário), fico sentado a viagem inteira, e posso fazer o que quiser: ler, escutar podcasts, perder tempo no Twitter, pegar o meu computador e escrever (como estou fazendo precisamente agora), ou simplesmente descansar e pensar na vida.

No Brasil, quando ia de carro para o trabalho, os trajetos eram sinônimo de estresse. Filas crônicas, motoristas mal educadados, e o eterno problema de achar vaga na UFSC 1. Eu chegava para trabalhar estressado, o que certamente atrapalhava a produtividade, e voltava para casa estressado, quando deveria estar relaxado.


Naturalmente, os menos ingênuos podem vir correndo comentar que a realidade de transporte no Brasil é muito diferente que na Dinamarca, mas fico me perguntando se não temos um excesso de conceitos pré-formados. Em relação à nossa total falta de estrutura para ciclistas não tenho como comentar (ao contrário de Copenhague, que é uma cidade feita para ciclistas), mas os trems também atrasam ocasionalmente, as áreas mais afastadas não tem a mesma cobertura de transporte público que o centro da cidade, e andar de trem e metrô aqui é caríssimo. Mas as pessoas que não podem fazer o trajeto de bicicleta (especialmente se for muito longe) ainda preferem o transporte público a andar de carro.

O que acho que eu posso levar para o Brasil é uma mudança de mentalidade. Primeiramente, aproveitar o fato de que moro perto da universidade e evitar andar de carro durante os dias de semana nos horários de pico a todo custo. Segundo, reclamar menos e planejar mais. Se aqui eu consigo carregar uma mesa de cozinha no ônibus (embora reconhecidamente não seja a coisa mais fácil do mundo), por que no Brasil o “padrão” parece ser usar o carro ao menor indicativo de que é preciso carregar alguma coisa? E se aqui eu planejo cuidadosamente que ônibus e trens pegar, por que no Brasil eu logo penso “dá muito trabalho, vou ter de pegar dois ônibus, e vai demorar horrores”? O meu trajeto diário aqui também demora horrores, mas esse não é tempo perdido, como falei. Seja para descansar a cabeça ou para ler um livro, o tempo dentro de um ônibus pode rendar muita coisa.

O que é tempo duplamente perdido é o tempo de ficar sentado nas filas de Florianópolis, somado ao tempo para parar de reclamar do estacionamento cheio e começar a trabalhar.


  1. Confesso que um dos meus maiores choques ao chegar aqui foi ver a quantidade de vagas para carro não utilizadas na Universidade aqui 

O Sedentário Digital

Se o leitor, como eu, tem uma queda por blogs e podcasts de produtividade, deve ter notado que existe uma corrente crescente nos últimos anos: o das pessoas que pregam os benefícios do escritório móvel e viver basicamente do trabalho online. Trabalhe de qualquer lugar! Aproveite a liberdade e trabalhe em cafés, em casa, em parques, de preferência alternando a cada dia. E vá além: viaje muito, passe um ano em cada país, desde que você tenha conexão com a internet.

O que há de errado com isso? Absolutamente nada. Para algumas pessoas, como a Bia Kunze ou o Federico Viticci, poder trabalhar de qualquer lugar é uma necessidade. Para outras é apenas um estilo de vida bem interessante, pessoas que juram ter sua criatividade e produtividade em geral aumentasas quando alternam entre ambientes.

Mas o que eu aprendi na Dinamarca é que eu definitivamente não sou assim, e aprendi que também não há nada de errado com isso.


Nesse um mês que estou aqui, completado enquanto escrevo essas palavras, tenho me sentido produtivo, calmo, e organizado como nunca, e naturalmente pretendo explorar FabioFortkamp.com para discutir os porquês. No último texto, já falei um pouco sobre os hábitos de almoço, e como a prática de um almoço mais simples, rápido e leve faz com que a tarde seja um período de trabalho quase equivalente à manhã. Mas naturalmente existem muitos outros fatores, e um deles é a observação de como os meus dias estão mais estruturados aqui.

Como era no Brasil: por eu morar relativamente perto da Universidade, ia a pé quase todos os dias, então podia sair a hora que quisesse. E muitas vezes trabalhava de casa, seduzido por aquele estilo de vida que descrevi no começo, o que era bom mas trazia problemas: os almoços vendo House of Cards se alongavam demais, a necessidade de fazer algo relacionado à casa fazia com que eu procrastinasse nas tarefas de trabalho, a falta de horário fixo alimentava a tentação de dormir até mais tarde e por consequência começar a trabalhar mais tarde.

Aqui na Dinamarca, eu não tenho esse luxo. Na minha casa provisória aqui, também não tenho o conforto do meu apartamente em Florianópolis: um conjunto bom de monitor, teclado e mouse, uma cadeira boa, um Home Office propriamente. E o meu trabalho na Universidade daqui envolve mais interação com outras pessoas e mais trabalho prático de laboratório. Aqui, eu preciso ir para a Universidade todo dia, e isso é bom. Morando muito mais longe do trabalho, isso significa que preciso pegar o mesmo trem todos os dias (caso contrário vou chegar de 15 a 30 minutos depois do que gostaria), o que significa que preciso sair de casa todo dia no mesmo horário. E todo dia, no mesmo horário, eu chego na minha sala, e começo a trabalhar. Para não chegar mais tarde do que gostaria em casa, todo dia pego o mesmo trem de volta, e no trajeto eu volto para a minha vida pessoal. Essa rotina funciona.

Eu e minha noiva já discutimos infelizmente um bom número de vezes sobre como sou muito apegado a rotinas e gosto de horários fixos para tudo (e muitas vezes fico irritado quando algo do plano). Aprender a relaxar e ser mais flexível é algo que preciso melhorar, tanto na minha vida pessoal quanto na profissional, mas isso não me impede de querer achar pelo menos a dose ideal de estrutura e rotina aos meus dias para maximizar a minha produtividade. Vez por outra posso abandonar meus planos e fazer algo que parece muito interessante (como o próprio David Allen diz, às vezes ser produtivo significa simplesmente seguir a sua intuição), mas eu sempre vou preferir que a maioria dos meus dias seja previsível. Eu não estou sozinho: John Grisham escreve todos os dias no mesmo lugar, tomando o mesmo café na mesma caneca, a maioria dos grandes intelectuais tinha suas rotinas, Cal Newport discute esse assunto em Deep Work, Gustave Flaubert disse aquela famosa citação “Seja regular e ordeiro na sua vida para que você possa ser violento e criativo no seu trabalho”.

Como falei, mesmo se quisesse, não poderia ser completamente um nômade digital, já que preciso estar fisicamente na Universidade para a maioria das coisas. Mas o ponto é: mesmo se eu pudesse, não tenho certeza de que iria optar por ser assim. Eu poderia dedicar alguns dias a ir trabalhar de alguma biblioteca, ou de um café, ou mesmo tentar a partir de casa, para as tarefas que envolvem apenas meu computador (como ler e escrever artigos); porém, a rotina de estar todo dia no mesmo lugar me convida a me concentrar no meu trabalho.

E, como eu falei, não há nada de errado em ser assim.