Arquivo da categoria: Resenhas de livros

Resenha: The Information Diet

Esse é mais um texto da série “Simplifique sua vida”, na qual eu narro minha jornada para eliminar o máximo possível de complicações, seguindo as ideias do Simple Living Manifesto de Leo Babauta.

Eu já falei aqui de simplificar nosso consumo de informação, mas reconhecidamente fui bastante superficial. Sete meses depois de publicar aquele texto, eu me sinto bombardeado de novo pela quantidade de coisas a ler, ver, escutar e processar. Gosto de ler blogs, escutar a podcasts, ler romances, ler livros de não-ficção. Como achar tempo para tudo isso, e mais importante, para fazer outras coisas além disso?

Foi no blog da Luana Oliveira que notei pela primeira vez o termo dieta da informação, e fiquei bastante interessado. À época, eu já estava sentindo dificuldades de acompanhar tudo, e claro, eu achava que tinha de estar por dentro de tudo. Comecei a simplificar um pouco, lendo menos blogs, abrindo menos o site do jornal, e já não me preocupava mais com esse problema de primeiro mundo.

Mas isso é um vício. Eu leio um artigo em um blog, ele cita outro autor e de repente eu quero ler todos os artigos desse outro blog — e é mais uma coisa a acompanhar. Ou eu quero seguir todo mundo no Twitter, porque vai que alguém diz alguma coisa interessante e eu perdi? E aquela pausa de 5 minutos para ver as notícias, que se transformam em meia hora para saber tudo de um assunto.

Eu não quero isso. Não quero checar o Twitter a cada vez que volto do banheiro. Quero poder sentar com calma e ler todos os meus blogueiros favoritos, pensando sobre o que eles escreveram. Quero voltar a ler romances, um prazer que sempre esteve presente na minha vida e que andava esquecido.

Depois de pensar e pesquisar sobre essa saturação de informação, descobri um livro apropriadamente chamado The Information Diet, de Clay A. Johnson (que, relendo o texto da Luana, vi que ela também mencionou) e, através do O’Reilly Reader Review Program, resolvi lê-lo e ver se aprendo alguma coisa. Um primeiro passo, para criar um plano e gerenciar melhor a informação que consumo

Um aviso: essa resenha se baseia na versão em inglês, mas existe uma tradução em português.

Obesidade de informação

A tese central do livro é uma analogia entre consumo de informação e consumo de comida. Pelo menos nas sociedades “desenvolvidas” (sejá lá o que isso signifique), a obesidade é um problema maior que a fome, principalmente porque existe comida farta de má qualidade: gordura e açúcar, alimentos que evolutivamente aprendemos a gostar, são muito baratos de fabricar e entopem grande parte da comida industrialzada.

Da mesma forma, consumimos informação recheada de publicidade, sensacionalismo e sem checagem básica de fatos, que se tornou barata de produzir e não tem valor algum.

O autor trabalhou durante muito tempo com política americana, e criou a empresa que organizou a bem-sucedida campanha de Barack Obama em 2008. Seu trabalho sempre envolveu os conceitos de transparência e transmissão de informação. E percebeu que, mesmo com todo esse esforço, muitas pessoas não tinham ideia do que falavam. Queriam que o governo “tirasse as mãos” de um programa que é governamental; elas não tinham pouca informação, pois conheciam o programa, mas estavam informadas da maneira errada. Sofriam de obesidade de informação.

A noção de que seu trabalho estava sendo inútil fez com o autor pesquisasse mais sobre o assunto. Por onde os dados sobre um programa criado e mantido pelo governo se desviavam até formar na cabeça de pessoas cultas a opinião de o governo não deveria se meter no tal programa, como se ele tivesse chegado depois e estragado tudo?

A experiência política do autor se faz presente em todo o texto, e isso é o grande problema do livro.

Um dos conceitos que o autor apresenta é de agnotologia (a melhor tradução que encontrei para agnotology, embora existam poucos resultados relevantes no Google), ou o “estudo da dúvida induzida culturamente”. O autor usa como exemplo os “estudos” patrocinados por empresas petrolíferas pondo em dúvida o aquecimento global. É um ótimo assunto, terreno de muito debate científico — mas logo em seguida, Johnson apresenta as porcentagens de Republicanos e Democratas que acreditam em cada lado. O que isso acrescenta ao texto?

Fala também dos filtros que as empresas como Google e Facebook incorporam nos seus serviços, alegando que isso só faz que com acompanhemos pessoas e páginas “com as mesmas crenças políticas”. Para mim, filtrar a News Feed por critérios políticos é o menor dos problemas do Facebook.

Estar mal informado sobre política é um grande problema, com certeza, e uma dieta de informação saudável envolve acompanhar o que acontece na sua cidade de maneira imparcial — mas não é o único problema. Como falei no início do texto, eu consumo informação de diversas fontes (e acho que não sou o único), e esperava que o livro fosse mais geral. Por exemplo, parece que “ver TV” se resume basicamente a “ver programas de notícias”. Twitter e email são apenas brevemente mencionados, como se nem fizessem parte do problema de consumo de informação.

O que eu gostei

No geral o livro me decepcionou por falar demais em política, mas não significa que não aprendi nada. The Information Diet tem três partes; a segunda, homônima ao livro, é a que apresenta um plano para um consumo de informação. Algumas ideias me chamaram a atenção:

  • Se você quer saber mais sobre algum assunto, aprenda a pesquisar. Aquilo que você vê no Jornal Nacional é apenas uma parte, uma visão. E só porque todo mundo compartilhou uma notícia no Facebook não significa que ela é verdadeira.
  • Precisamos exercitar a atenção, treinar nossa mente a focar no que importa. Escrever aquele trabalho vendo televisão não é fisicamente possível.
  • Precisamos ser mais ativos e menos reativos. Isso significa principalmente parar de usar notificações dos smartphones.
  • Vamos tentar evitar ao máximo as fontes que contém propagandas, pois elas poluem visualmente as páginas e geralmente contaminam o que o autor quer dizer (ninguém vai dar sua opinião sincera sobre uma marca que patrocina o seu trabalho)
  • O autor dá a sugestão (que eu já vinha experimentando) de criar uma “agenda” para consumo de informação, como um horário delimitado para ver TV, outro para ler email etc.

Eu vou reler essa segunda parte, e tentar adaptar essas ideias à minha realidade. E provavelmente, pesquisar mais sobre o assunto. Aguardem.

Resenha: Como Evitar Preocupações e Começar a Viver

Quando as pessoas me viam lendo Como
Evitar Preocupações e Começar a Viver
, de Dale Carnegie (autor de
Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas), logo brincavam: “começou
a ler livros de auto-ajuda, Fábio?”. Pessoalmente, não tenho nada contra
livros de auto-ajuda, e não vejo nada de errado nas pessoas buscarem
conforto pessoal nos livros. Mas auto-ajuda é muito simplificado para
descrever um livro como esse; está mais para um guia prático
de comportamento.

Quando resenhei o outro livro de Carnegie, ressaltei:

Como Fazer Amigos … não é um tratado teórico sobre relacionamentos.
O autor não tem formação em psicologia ou filosofia. É um livro
prático, de alguém que sempre trabalhou com pessoas (principalmente na
parte de vendas) e começou a observar o que dava certo e o que não
dava. Ministrou cursos então sobre a arte de lidar com pessoas,
coletou histórias de participantes e as reuniu em um livro. É um
tratado empírico, por assim dizer.

O mesmo vale aqui. Carnegie, sendo muito observador do comportamento
humano, observou que o tema da preocupação afeta muitas pessoas, e
então se dispôs a pesquisar sobre o tema. O que causa a preocupação?
Como deixar de se preocupar?

Todos experimentamos preocupações e ansiedade, desde mundanas até
profundas. Estamos trabalhando, a chuva está chegando e pensamos se
deixamos a janela aberta; ou estamos de férias, preparando-nos para
voltar à rotina, quando somos tomados por uma depressão causado pelo
nossos desgosto com nosso trabalho ou faculdade. Como suportar isso?

Detectando as principais mensagens do livro

O livro segue uma divisão com a qual eu não concordo, baseada em
“Princípios”, “Fatos”, “Técnicas”, “Maneiras”. Essa divisão acaba sendo
mais confusa do que pedagógica. Por exemplo, a Parte III é sobre “como
acabar com o hábito da preocupação”, e a Parte IV é “como cultivar uma
atitude mental de felicidade”. Esses assuntos, para mim, estão
relacionados; cultivando a felicidade mental você pode deixar de se
preocupar. A obra poderia ter menos subdivisões.

Mesmo assim, é possível, à medida que lemos o livro, detectar a sua
mensagem principal.

Por exemplo, a técnica fundamental de análise de preocupações é tomar
decisões
. No caso da janela aberta, qual são as opções? Podemos sair do
trabalho, e ir fechar a janela, gerando discussões com o chefe; ou
podemos aceitar que a janela está aberta e planejar que, quando
chegarmos em casa, vamos tomar uma meia hora para secar o chão. Você
precisa tomar uma decisão. Você está preocupado com alguma coisa? O
que pode ser feito? Qual o pior cenário, e como ele pode ser resolvido?
Ficar sentado, olhando para o computador, pensando no chão molhado não
resolve nada. Uma vez tomada uma decisão, sua cabeça está livre para
continuar trabalhando.

Outro capítulo ótimo é sobre nossa relação com o passado. Quantas vezes
não nos preocupamos com coisas que já dizemos, como se isso adiantasse
de alguma coisa. Como o autor diz, “não tente serrar serragem”; não
gaste energia pensando no passado. Se você disse algo desagradável a
alguém, já está dito; você pensar nisso não fará a outra pessoa
esquecer. Tome a decisão de ignorar isso ou pedir desculpas, e siga em
frente.

Carnegie dedica um trecho à fé, com o argumento de que você não precisa
ser cristão, ou judeu, ou muçulmano, praticante. Quando você acredita em
um sentido por trás de tudo, qualquer que seja, você percebe que não
vale a pena se preocupar, pois tudo tem um próposito. O autor cita uma
frase do teólogo John Baillie:

O que torna um homem cristão não é nem a sua aceitação intelectual de
certas ideias, nem a sua conformidade com uma determinada regra, mas a
posse de um certo Espírito, e a sua participação numa certa Vida.

Cita também o filósofo Francis Bacon:

Um pouco de filosofia inclina o espírito humano ao ateísmo; mas uma
profunda filosofia conduz a mente humana à religião.

Estaria mentindo se dissesse que esse capítulo não me fez pensar muito.

Mas o meu capítulo preferido de longe é o destinado à ingratidão. Muitas
vezes a causa de nossa ansiedade é a ingratidão de outras pessoas. O seu
ponto é o seguinte:

É natural que as pessoas se esqueçam de ser gratas; assim sendo, se
andarmos à espera de gratidão, estaremos, fatalmente, destinados a
sofrer uma porção de aborrecimentos.

No meu círculo de pessoas próximos, vejo muitos estressados (e o
estresse é um tema recorrente do livro) por causa da ingratidão. Bem,
adivinhe: pessoas não costumam agradecer. Conheço uma mulher que tem uma
irmã de piores condições financeiras, em virtude de más escolhas no
passado; essa mulher não queria que a filha da irmã tivesse a mesma
sorte e pagou uma escola particular para ela, na esperança de que ela
entrasse na faculdade. Essa menina hoje é engenheira formada por uma
universidade federal, mas a mãe e a tia brigaram e ela nunca disse um
“obrigado”. A mulher, naturalmente, se ressente até hoje, dizendo coisas
do tipo “tudo que eu fiz por essa menina”. Carnegie está certo: pessoas
que reconhecem esse tipo de ajuda são raras. Esqueça. Dê pela alegria
de dar
. Pense que com, alta probabiliade, a outra pessoa não vai
agradecer. Evite aborrecimentos como esse e comece a viver, como diz o
título.

A Parte VI é dedicada à fadiga, como descansar mais, sob o argumento de
que muito de nossa ansiedade é causada pelo desgaste físico, mas os
capítulos não trazem nada de relevante. A Parte VII, última, traz um
compêndio de histórias pessoais, e serve como apanhado geral.

No geral, Como Evitar Preocupações é um livro muito extenso com poucos
pontos interessantes — mas profundos. É bom você ler, mas saiba que é
preciso sempre filtrar os pontos que interessam. O que é bom para
agradar a pessoas diferentes; para mim, o que teve impacto foram os
capítulos sobre religião e ingratidão, enquanto que para o leitor pode
ter outro sentido.

Resenha: O Andar do Bêbado

Leonard Mlodinow (autor de Subliminar) tem uma tese central: o
acaso tem papel fundamental na nossa vida, e a nossa ignorância da
aleatoriedade nos prejudica
. E ilustra e defende essa tese de maneira
magistral.

O Andar do Bêbado é uma obra de divulgação científica, centrada na
matemática mas com conceitos de física, sociologia, psicologia e
economia. Também é um livro de onde podemos tirar muitas informações
históricas, embora esse não seja o foco do livro.

Nos seus 10 capítulos, a obra tem três macro-divisões. No Capítulo 1, o
autor faz a sua introdução, apresentando-nos os termos básicos do livro:
acaso, padrão, aleatoriedade, sorte. Somos apresentados com casos de
sucesso nos esportes, no cinema e nos livros, onde especialistas buscam
explicações para o sucesso. Na verdade, o autor argumenta, a
probabilidade que um filme ganhe milhões por mero acaso não é nada
desprezível, e isso tem implicações profundas em muitas outras áreas.

Um exemplo em particular nesse capítulo me agrada. Daniel Kahneman,
um psicólogo ganhador do Nobel de Economia, teve uma epifania que rendeu
muitas pesquisas premiadas na sua carreira. Como psicólogo, ele estava
dando treinamento a um grupo de instrutores de vôo, dizendo que seus
alunos deveriam ser elogiados quando conseguissem um resultado positivo.
A plateia reagiu, dizendo que sempre que isso acontece os alunos pioram
de desempenho. Kahneman então concluiu que o que está havendo é um
fenômeno de regressão à média; os alunos naturalmente tinham momentos
bons e ruins, mas a sua média de desempenho deve se manter constante.
Quando seu desempenho é particularmente bom, é natural que seus próximos
resultados não sejam tão bons, e os elogios têm pouco a ver com isso.
Foi essa visão de que a aleatoriedade passa despercebida na nossa vida
que eventualmente rendeu o Nobel a Kahneman.

Nos Capítulos 2 a 7, Mlodinow apresenta as leis básicas da probabilidade
e da estatística. Cada capítulo é destinado a um princípio em
particular, com muitos exemplos e histórias de matemáticos famosos
envolvidos (como Cardano, Pascal, Johann Bernoulli, Gauss, Laplace).
Fala dos gregos e sua completa ignorância da probabilidade (o que me
causa bastante espanto); dos romanos e sua matemática prática aplicada
às leis, onde as penas eram calculados com base na probabilidade do réu
ser culpado. Fala de problemas famosos, como o de Monty Hall e o
problema do aniversário. E sua conclusão é sempre a mesma: nossa
intuição falha quando estamos falando de probabilidade.

Particularmente interessante é o capítulo 6, sobre probabilidade
Bayesiana
(ou condicional), uma área onde ocorrem muitos erros na
vida. O autor conta a sua história pessoal, onde ele quase foi
diagnosticado com HIV quando o médico cometeu um erro clássico da Teoria
de Bayes: confundiu a probabilidade de o exame dar positivo se o
paciente não for HIV-positivo (que é muito baixa) com a probabilidade de
ele não ser HIV-positivo mesmo se o exame der positivo (que não é tão
baixa assim). É preciso levar em conta as outras variáveis: por exemplo,
qual a probabilidade de uma pessoa do mesmo grupo do autor (seus
hábitos, seu uso de drogas, seu comportamento sexual) ter HIV. Isso muda
o cálculo; dado que o exame tem erros, o fato de ele dar positivo para
uma pessoa com baixa probabilidade ou com alta probabilidade de estar
infectado tem interpretações distintas.

No Capítulo 7, o autor apresenta a estatística e sua noção de que toda
medição tem erros. Fala da busca pela curva normal (onipresente para
engenheiros), de como todo instrumento apresenta variação (você ver a
balança diminuir seu peso não significa que você emagreceu), e de como a
mesma expressão matemática correlaciona muitos fenômenos da vida — por
exemplo, a curva de desempenho de estudantes que chutaram todas as
questões de uma prova e de corretores de ações tidos como analistas
gabaritados é assustadoramente parecida.

Por fim, nos capítulos 8 a 10, o autor apresenta as aplicações de todos
esses conceitos à vida real. Um exemplo polêmico é o argumento de que,
embora cada humano seja uma entidade complexa e independente, em
sociedade nosso comportamento é matemática previsível. As variações nos
números de acidentes entre um ano e outro podem ser previstas pela
estatística. As taxas de natalidade e mortalidade também podem ser
relacionadas pela estatística. Há também implicações na Física: o
movimento browniano, o movimento de moléculas que hoje ajuda a
explicar muitos fenômenos dos gases, é completamente aleatório.

A conclusão geral é que da nossa natureza procurar padrões, e isso nos
engana. É fácil saber de dois ou três vizinhos estão com câncer e
concluir que a sua vizinhança é amaldiçoada; difícil é fazer cálculos e
ver que essa incidência é perfeitamente normal (infelizmente). É fácil
achar muito suspeito que ninguém conseguiu prever o 11 de Setembro,
difícil é perceber que existem muitos eventos possíveis no futuro, e
calcular a probabilidade de cada possível implicação não é fácil. É
fácil achar que somos honestos; difícil é aceitar que, como foi mostrado
num estudo, damos mais credibilidade às pessoas que ganham mais, mesmo
que isso tenha sido determinado completamente por acaso.

Entender o aleatório nos ajuda a entender o mundo, e Mlodinow tenta
contribuir para isso com êxito. Um dos melhores livros que li nesse ano.

Resenha: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas

Era uma vez dois amigos, o João e o José. O João era popular, querido e
carinhoso. Todos gostavam dele, e por um motivo: ele sabia tratar as
pessoas. Era educado sempre, era um bom conversador, elogiava
constantemente.

O José era o contrário. Reclamava de todos, arranjava brigas e não
escapava de uma boa discussão. Não por acaso, ninguém queria ficar por
perto.

Havia também o Fábio, que achava que era parecido com o João mas na
verdade era mais como o José.

Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, é para os
Fábios que querem ser menos José e mais João.

Essa obra é um clássico — a primeira edição é de 1936. O estilo do texto
e algumas histórias apresentadas pelo autor deixam claro a idade do
livro, mas isso não significa a sua irrevelância. Mesmo com a nova
realidade de hoje, onde a tecnologia guia muitas formas de comunicação,
ainda precisamos lidar com pessoas no cotidiano – e precisamos fazê-lo
com tato.

Como Fazer Amigos … não é um tratado teórico sobre relacionamentos. O
autor não tem formação em psicologia ou filosofia. É um livro prático,
de alguém que sempre trabalhou com pessoas (principalmente na parte de
vendas) e começou a observar o que dava certo e o que não dava.
Ministrou cursos então sobre a arte de lidar com pessoas, coletou
histórias de participantes e as reuniu em um livro. É um tratado
empírico, por assim dizer.

À medida que eu lia, sentia-me constantemente surpreendido pela
quantidade de verdades óbvias que eu ignorava. Coisas como “não critique
e não julgue” — quem sou eu para achar que eu sou melhor que outras
pessoas (o primeiro capítulo, sobre esse tema, é um verdadeiro soco na
cara)? Ou então “você não pode ganhar uma discussão”; se você é aquela
pessoa que adora corrigir erros de português e provar que as outras
pessoas estão erradas, então você nunca terá muitos amigos. O segredo
fundamental de ser um João e não um José é nunca dizer: “você está
enganado”.

Outro ponto interessantíssimo é como ter uma conversa: muitas pessoas
simplesmente conversam sobre o que está acontecendo na sua vida,
atraindo sempre a conversa para si. Como diz o autor, é claro que você
se interessa pelos assuntos que dizem respeito a você, mas, para fazer
amigos, é preciso se interessar pelos outros. Quando alguém conta alguma
coisa, o José sempre diz “ah é? Isso me lembra uma história minha” e o
João provoca: “é mesmo? Conte-me mais.”

O leitor desse texto já deve ter percebido qual o segredo de fazer
amigos e influenciar pessoas: o outro. Se quiser ter sucesso ao lidar
com pessoas, precisa se interessar genuinamente pelas outras pessoas.
Precisa saber quais assuntos lhes interessam, precisa elogiar
constantemente, precisa parar de dizer que os outros estão errados,
precisa sorrir sempre, precisa deixar as outras pessoas falarem e se
sentirem importantes.

O livro tem alguns defeitos, como a taxonomia desnecessária (alguns
capítulos são técnicas, outros são princípios) mas não se engane.
Como Fazer Amigos… é maravilhoso.

Resenha: Subliminar

Há algum tempo, resenhei aqui O Poder do Hábito, um livro que
tenta mostrar como hábitos, ações automáticas que não envolvem nosso
pensamento, regem nossa vida. O livro é bom, mas eu reclamei da falta de
explicações científicas. O Poder do Hábito não é um livro que discute
o inconsciente, preocupando-se apenas em mostrar histórias.

Mas existe um livro científico sobre o inconsciente, e esse é
Subliminar, de Leonard Mlodinow.

Mlodinow também dá exemplos, mas eles são apenas argumentos em favor de
ideias científicas. Aprendemos, por exemplo, que pessoas praticamente
cegas são capazes de detectar emoções nos rostos das pessoas; a evolução
nos treinou a usar o máximo poder cognitivo para processar rostos de
outros humanos, uma habilidade imprecindível numa espécie social.
Aprendemos também que, para poupar energia, o cérebro “fabrica” imagens
e lembranças; com o rápido movimento dos olhos produzindo imagens
borradas, restam lacunas que o cérebro tem de preencher. Fato semelhante
acontece com a memória, que não é, segundo pesquisas recentes, um
arquivo de computador intacto dentro de nossa cabeça. Memórias podem ser
plantadas, e vítimas de estupro podem reconhecer o algoz errado. Nem
tudo de que nos lembramos aconteceu.

A premissa do livro é clara: o inconsciente nos domina. Grande parte das
nossas ações não são controladas por nós. Mlodinow, um cientista por
formação, faz questão de provar cada ponto, e exibir seus argumentos com
claridade. Além disso, o fato do autor ter formação em Física, uma área
estrangeira ao tema do livro, nos faz pensar que estamos aprendendo
neurobiologia com ele.

(Mlodinow ter sido colaborador no roteiro de MacGyver também
não é ruim.)

O livro tem duas partes; na primeira, mais curta, o autor discute a
alternância de ações conscientes e inconscientes (e como, afinal, se dá
essa troca). A colaboração entre mecanismos é que governa nossa
complicada atividade cerebral.

A segunda parte tem foco no aspecto social: como vivemos em sociedade de
maneira subliminar. Um dos exemplos sensacionais envolve uma pesquisa de
Harvard onde um grupo de mulheres asiáticas fez um teste de matemática,
depois de responder um questionário. Um grupo respondeu perguntas sobre
sua origem, enfatizando o fato de serem asiáticas (e portanto “boas em
matemática”), outro respondeu perguntas sobre temas femininos (e
mulheres, segundo o estereótipo, são “ruins em matemáticas”), e um
terceiro grupo, de controle, respondeu perguntas neutras. Surpresa: as
mulheres que foram induzidas a se ver como asiáticas foram melhores que
o grupo de controle, que foi melhor que o grupo que se indentificou
apenas como “mulheres”. Conclusão: mulheres que vivem numa sociedade que
diz que ciências exatas é coisa de homem inconscientemente são afetadas
pelo preconceito.

Subliminar é muito bem escrito, tem muitas histórias interessantes (e
com referências) e faz você pensar. Você deve ler.

Resenha: O Poder do Hábito

Por que você escova os dentes todo dia?

Você gostaria de pensar algo do tipo: “eu me preocupe com minha saúde
bucal, por isso assim que saio da mesa eu ponho um pouco de pasta de
dente na escova e escovo do jeito que o dentista ensinou”. Para você, é
uma ação completamente racional.

Não funciona assim. Você acaba de comer e vai escovar os dentes sem
pensar
. É um hábito, uma ação já programada no seu cérebro, nas regiões
mais primitivas; você não tem controle.

O jornalista Charles Duhigg investiga essas ações automáticas em O
Poder do Hábito
, um relato de casos famosos que contribuem para
nosso entendimento do assunto.

Do tabagismo aos protestos

A grande ideia do livro é conectar três diferentes níveis de agrupamento
(um indivíduo, uma organização e uma sociedade) sob uma mesma ideia; o
livro em si segue essa divisão em três partes. Todos já ouvimos falar de
pessoas que pararam de fumar voluntariamente, de empresas que quase
foram à falência e de protestos que começam “do nada”; o grande ponto de
Duhigg é dizer que todas estas situações são frutos de hábitos.

Na primeira parte, vemos exemplos individuais, com o objetivo de explicar
a estrutura do hábito. O modelo proposto é o do loop do hábito,
composto de uma deixa, uma rotina, uma recompensa e um anseio. O
autor nos mostra exemplos de pessoas que tiveram danos cerebrais, e
ainda assim mantém os hábitos básicos (um paciente era incapaz de
indicar o caminho da cozinha de casa, segundos antes de ir lá buscar um
pote de biscoitos). Fala dos Alcóolicos Anônimos e seu programa de
mudança de rotinas. De como publicitários com conhecimentos de
psicologia (e do loop do hábito) estão nos fazendo ter o hábito de usar
pasta de dente (e como ainda não conseguiram fazer o mesmo com protetor
solar).

A segunda e a terceira parte são mais interessantes. Num capítulo de
leitura obrigatória, fala de como as empresas estão monitorando nossas
tendências de compras (spoiler alert para as mulheres: algumas
empresas estão estimando o seu ciclo menstrual para enviar os anúncios
certos no período certo). De como os médicos renomados ainda falham nas
cirurgias mais triviais, porque o hospital adquiriu maus hábitos de
falta de controle. De como a Starbucks se tornou o que é ao treinar os
funcionários a tratarem os clientes automaticamente, mimando os que
estão de bom humor e lidando com os desagradáveis.

No capítulo final e dedicado a polêmicas, Duhigg nos questiona o que
fazer quando os hábitos (ações inconscientes) de alguém leva ao
assassinato.

Uma grande reportagem

O livro é bom, não vou negar. A minha decepção particular é que, talvez
por falta de pesquisa, eu esperava um livro científico, um guia de
como mudar hábitos. O Poder do Hábito é uma grande reportagem, um
livro de história. Embora haja explicações científicas e um apêndice com
dicas sobre mudança de comportamento, esse não é o foco.

Porém, como falei, isso não desqualifica o livro, é apenas fruto de uma
concepção minha. Duhigg, sendo jornalista, escreve muito bem e sabe
conectar as histórias. Portanto, mesmo que você não aprenda nada de
prático, há muita informação interessante (e você pelo menos vai
questionar os seus hábitos).

Resenha: Platform

Platform: Get noticed in a noisy world foi o livro que me motivou
a lançar FabioFortkamp.com.

Eu não consigo me lembrar de como ouvi falar de Michael Hyatt. Só
sei que comecei a ler o seu blog e vi muitos textos interessantes.
Artigos sobre liderança, dicas de produtividade, tutoriais de apps. O
tipo de conteúdo que me interessa, definitivamente. E o melhor: ele tem
experiência prática, pois foi CEO de uma grande editora por muitas anos,
então entende de liderança, aplicou os métodos de produtividade e
usa os programas que recomenda.

Muitos dos textos são sobre ferramentas digitais: blogs, Twitter,
Facebook… No papel de um executivo que abraçou as redes sociais, Hyatt
tem muita informação a compartilhar. E resolveu reunir esses conceitos
num livro, não sobre cada ferramenta individual, mas sobre a ideia
global de uma identidade digital.

A frase que resume a filosofia por trás da obra é essa:

For all practical purposes, privacy is dead. Via Google, people can
find out more about you in ten minutes than was possible in a lifetime
ten years ago. You might as well intelligently feed the Google search
engines with what you want people to know about you. You need to be
smart about it but you are in control.

Isso não deve ser desculpa para não nos preocuparmos com a privacidade,
mas ele tem um ponto. Por mais cuidadoso que você seja, sempre há um
jeito de encontrar informações sobre você; então, por que não criar
você mesmo a sua identidade?

Um modelo

Eu sou engenheiro, e engenheiros gostam (supostamente) de modelos. Um
modelo é uma maneira de descrever a realidade. É uma abstração, uma
simplificação que simplica os trabalhos de lidar com a realidade.

No caso, a realidade é a nossa presença na internet. Como interagimos
com a web? Um rápido brainstorming revela muitas opções:

  • Blog ou site pessoal
  • Blog ou site de outros
  • Redes sociais (Twitter, Facebook, App.net etc)
  • Serviços de fotos (Instagram, Flickr)
  • Serviços de vídeos (YouTube, Vimeo)
  • Fóruns
  • Lojas virtuais
  • Sites de jogos
  • Sites de notícias
  • Sites diversos

Hyatt então se propõe a responder à pergunta: “como podemos utilizar
todas essas opções a nosso favor?”

A resposta envolve um modelo, a plataforma do título. Não vou explicar
o modelo em detalhes porque esse é o objetivo do livro, mas a ideia é
usar um site pessoal, as redes sociais e alguns outros tipos de site de
maneira consistente, fazê-los funcionar conjuntamente. Ele dá dicas de
como usar cada serviço e de como integrá-los; essa integração é o
diferencial do livro.

O que você tem a dizer

O modelo de plataforma se aplica tendo em mente pessoas que tem algo a
dizer ou vender (como anunciado na capa do livro). Como o próprio autor
escreve:

There are two critical parts of the success equation: a compelling
product (the what) and a significant platform (the who).

É isso. Antes de criar a sua plataforma você tem de pensar sobre o que
você quer divulgar. Talvez você goste de tirar fotos e quer algo mais
profissional que o Instagram. Ou talvez você seja um administrador que
tem algumas ideias mais modernas e quer que seu empregador as entenda
antes de contratá-lo. Ou você escreveu um livro e quer compartilhar
textos sobre as motivações que o levaram a escrevê-lo, ou os autores
mais influentes para você. Ou você é um estilista que quer divulgar seus
desenhos. Ou você é uma pessoa qualquer que gosta de escrever.

Hyatt dedica a primeira parte do livro a falar sobre criação de
produto
. Ele fala claramente que esse não é o assunto do livro, o que
me leva a questionar a presença desses capítulos, que acabam sendo
superficiais demais. Por exemplo, Hyatt cita Steve Jobs e o lançamento
do iPhone como exemplo e caso de sucesso sobre lançamento de produto. Eu
até concordo, mas acho que 1) falar do iPhone como exemplo de lançamento
de produto já se tornou meio clichê e 2) Jobs era uma pessoa bastante
peculiar (no bom e no mau sentido), impossível de ser imitada.

Esqueça o hype da Apple (e o autor mesmo confessa ser um ardoroso
Apple fan) e as dicas de auto-ajuda (coisas do tipo “olhe no espelho e
veja quem você é”) dessa parte do livro. Se você ainda não criou o seu
produto, e precisa de ajuda, existem muitas obras mais apropriadas (no
final de Platform o autor inclusive dá dicas de alguns).

Um manual com uma teoria embutida

As outras partes do livro são mais valiosas. Partindo do pressuposto que
você já sabe sua mensagem, já tem o seu produto (mais ou menos) na
cabeça, ele traz uma abordagem passo a passo bastante intuitiva. Dá
dicas práticas e explica o raciocínio. Fala de como escolher o seu
domínio (como FabioFortkamp.com), como configurar seus perfis nas
redes sociais, como escolher um sistema de blogs, como planejar seu site
(“the single most important branding tool you can have“).

Tudo com muitos exemplos práticos. Dicas, dicas e mais dicas.

Por exemplo, o autor dedica um capítulo com orientações para sua foto de
perfil, e suas fotos em geral. Na primeira vez que li o livro, não me
preocupei muito com isso; porém, depois comecei a analisar outros blogs.
E, realmente, a foto chama atenção. Você começa a ler os textos
imaginando aquela pessoa escrevendo. Mais importante, você se torna uma
pessoal real; se você tem uma mensagem, você precisa se expor. Leia esse
capítulo com atenção.

Outro capítulo interessante envolve considerações sobre tamanho de posts
no seu blog (e Hyatt recomenda fortemente você manter um, por mais
simples que seja). Os meus textos são muito mais longos que o
recomendável por ele, mas eu entendo seu argumento: você precisa
procurar o seu meio termo entre “curto e superficial demais” e “longo e
demanda muito tempo”.

E mais dicas práticas. Sugestões de aplicativos para cada tarefa.
Cuidados ao lidar com comentários.

É aí que Platform realmente brilha: é um manual de como criar sua
plataforma, onde cada passo é explicado com um raciocício lógico.

Exagero

Existem algumas partes que são bastante exageradas. Hyatt é um executivo
de sucesso; ele tem dinheiro para criar uma plataforma realmente
profissional. Mas ele poderia simplificar em muito o seu método para
quem está começando. Embora ele argumente que todos temos a
oportunidade de garantir nossa presença na web, ele parece não
contemplar uma classe na qual me incluo: estudantes ou profissionais em
início de carreira, pessoas que querem começar a montar a sua
plataforma mas não tem tanto dinheiro assim. Hyatt parece dizer: “ou
você contrata toda uma equipe, o melhor web-designer, o melhor
fotógrafo, o melhor serviço de web-hosting, usa os melhores programas,
ou então você nunca terá sucesso”.

Essa mentalidade pode atrasar ou encarecer em muito a sua plataforma.
Você não precisa escolher tudo do mais barato e simples, também. Pegue
uma foto sua decente (preste atenção nas suas dicas), escolha um
conjunto de programas que faça o serviço, e o sistema de blogs mais
simples, e crie. Aos poucos você vai melhorando alguns aspectos.

Além de algumas partes exageradas, o livro tem alguns defeitos gerais.
Por exemplo, claramente o autor reaproveitou textos do seu blog (o que
não é nada errado), em vez de criar o livro do zero. O problema é que
algumas partes são bastantes repetitivas, o que é característico de um
conjunto de textos independentes, em vez de um livro único.

Além disso, Hyatt advoga fortemente em transformar seus textos em listas
(“10 razões para ter comentários”, “20 dicas de Twitter” e por aí vai).
Segundo ele, faz os textos ficarem mais legíveis. Eu concordo, mas isso
vem acompanhado de uma sensação de superficialidade. Gosto quando os
autores desenvolvem suas ideias em parágrafos tradicionais. É mais
difícil, mas, para mim, fica melhor.

Se você concorda comigo, cuidado. Platform é recheado de listas. A
única categorização que faz sentido é sobre os tipos de títulos; por
exemplo, existem os óbvios (“Fulano de tal: uma biografia”), os que
fazem uma promessa (“Como perder 10 quilos comendo chocolate todo dia”)
etc. Eu nunca havia parado para pensar nisso.

Você deve ler!

Apesar desses defeitos, Platform é um livro excelente. Você
encontraria muita informação de graça, provavelmente, mas a reunião de
textos correlacionados reunidos convenientemente em torno de um modelo
simples ajuda bastante.

Se você absolutamente não se importa em controlar sua presença na web e
só quer usar o Twitter e Facebook como passatempo, não se incomode em
ler.

Porém, se você acha interessante a ideia de se promover usando essas
ferramentas e quer começar um blog mas não sabe como, esse texto lhe
será muito útil. É um grande motivador.

Aliás, mesmo que você ache que não precisa, leia o livro para ver os
pontos que o autor chama a atenção sobre identidade e privacidade. Mesmo
que você não tenha pretensão profissional, você acha que aquela sua foto
de perfil fantasiado para o carnaval ou aquele seu endereço de email
joao_comedor@hotmail.com realmente acrescenta alguma coisa?

Lembre-se: a privacidade na internet está em extinção. Detalhes menores
estão públicos a todo mundo. Mantenha o controle.

Resenha: A Arte de Fazer Acontecer

Se eu fizer uma lista dos 5 livros mais importantes que já li, eu teria
um bocado de trabalho escolhendo 4 deles. A Arte de Fazer Acontecer,
de David Allen, teria de estar lá.

Eu li esse livro na edição portuguesa (lançada com o título de Fazer
Bem as Coisas
, na época em que eu morava em Portgual, mas linkei
para a edição brasileira para o leitor ter mais fácil acesso e porque
acredito que a mensagem é independente da linguagem.

O livro de David Allen é conhecido no mundo todo por ter introduzido o
método GTD, ou Getting Things Done (por isso é fácil ver a obra ser
chamada de GTD book ou algo assim), provavelmente o mais famoso método
de produtividade pessoal. Este não é um post sobre GTD, e sim sobre
o livro, mas vou tentar introduzir o leitor no assunto.

A filosofia GTD

Allen começa o livro introduzindo o leitor ao conceito fundamental do
método: a nossa mente é feita para executar tarefas, e não para
guardar informação, e precisamos gerenciá-la para garantir isso.

Para o autor, o gerenciamento do tempo não existe, pois todos temos 24
horas por dia. Não podemos fazer 5 minutos durarem mais que isso.
Podemos, sim, controlar a nossa atenção, o nosso foco, as nossas
prioridades.

Nossas vidas contêm muitas áreas de interesse. Se você está sentado para
escrever um relatório pensando nas compras de Natal, você está perdendo
tempo. Você não está terminando seu relatório e nem comprando os
presentes. A preocupação está consumindo sua energia.

Ao longo da primeira parte, o autor escreve a toda hora sobre a
importância de ter a “mente como água”, de “gerenciar a informação”, de
ter a “mente sob controle”. Seu estilo é bastante claro, direto, e sua
ênfase nos pontos cruciais ajuda a guiar o leitor. Allen também
demonstra gosto por citações motivacionais que pouco acrescentam à
mensagem do livro, mas servem como ilustração (com algumas exceções de
mensagens realmente boas, como a frase de Horácio “Governe a sua mente
ou ela o governará” ou o provérbio grego “O início é a metade de todas
as ações”).

A mente é ruim para armazenar e acessar informação; o autor inclusive
usa um exemplo interessante. Se a sua mente tratasse informação de
maneira verdadeiramente inteligente, você automaticamente lembraria de
tudo que tem de comprar cada vez que entrasse numa loja. Ou então pense
no seguinte (exemplo meu): já notou o esforço que você tem de fazer para
lembrar do nome de um livro? A sua mente não propicia um mecanismo de
acesso. Numa analogia muito interessante, Allen compara o cérebro à
memória RAM: de curta capacidade, ótimo para memórias recentes e
aleatórias. Seu cérebro não é um disco rígido (ou um SSD, num exemplo
mais atual).

O grande problema é que, quando você usa a mente para isso (armazenar
informação), você tende a ter a necessidade de executar suas tarefas no
momento em que elas chegam à sua cabeça. Você está concentrado em algum
projeto quando um colega chega e pede um documento. Você pára tudo que
está fazendo e busca o documento. Quando volta ao projeto, já perdeu
toda a linha de raciocínio. E esse tipo de situação ocorre dezenas de
vezes por dia.

Você precisa de um sistema.

O método GTD

Depois de explicar e ilustrar os conceitos fundamentais (controle,
gerenciamento de informação, ansiedade, preocupações), Allen expõe o seu
método. É a sua solução ao problema do gerenciamento da mente.
Basicamente, o princípio é separar a ação da organização.

Quando você está fazendo algo, seja relacionado ao seu trabalho (como
preparar uma apresentação) ou à sua vida pessoal (como montar um
armário), você se concentra nisso. Quando chega uma interrupção, você
não pára e parte para outra atividade. Você anota a pendência numa
caixa de entrada e continua o seu trabalho.

Ao longo de um dia, você vai acumular muitas pendências – resultados de
interrupções, lembranças que vieram à sua mente, emails, pedidos do
chefe, telefonemas. Então, periodicamente (sem interromper seu
trabalho), você separa um tempo para organizar essa informação. Eventos
com horas marcadas vão para o calendário. Ideias e tarefas que não podem
ser realizadas agora vão para uma lista apropriada (por exemplo, você
mantém uma lista dos idiomas que quer aprender). E coisas mais imediatas
são divididas em subtarefas, com ênfase na próxima ação que você tem
de executar. “Comprar um presente” é algo bastante genérico; “pesquisar
o preço daquele livro” é algo mais simples e que pode ser feito em
poucos minutos, e que ajuda na tarefa da compra do livro.

Quando você estabele uma rotina de organização (por exemplo, todo dia,
após o trabalho, você organiza todas as suas pendências), você cria um
sistema de confiança. No exemplo anterior, ao receber o pedido de um
documento do seu colega, você não pára para procurar o documento; você
toma 5 segundos para simplesmente anotar esse pedido. Na sua revisão,
você adiciona esse pedido à lista de tarefas. Na próxima ocasião em que
você estiver concentrado nas suas tarefas, esse pedido acabará sendo
executado.

A lista de próximas ações ajuda também a livrar a mente da tarefa de
decidir. No seu horário de trabalho, você se dedica simplesmente a
fazer; você não perde tempo pensando o que deveria fazer porque está
tudo numa lista que você está seguindo. Lembre-se: você não deve gastar
seu tempo e sua concentração se organizando. Você deve separar um
pequeno tempo para manter o seu sistema, de maneira a usar a maior parte
do seu dia para produzir.

Como falei, não quero descrever o sistema GTD em detalhes porque isso
seria prestar um desserviço ao livro. Meu objetivo é incentivar o leitor
a lê-lo. O que posso adiantar é que o método descreve muitos outros
aspectos, por exemplo:

  • Como organizar seus projetos (e a definição de projeto do autor é
    muito interessante)
  • Como gerenciar tarefas que precisam ser delegadas a outros
  • Como separar tarefas imediatas (“Ligar e marcar revisão do carro”) e
    futuras (“aprender francês”)

Outro ponto muito positivo de A Arte de Fazer Acontecer é que ele
salienta o tempo todo que não existe a ferramenta universal para aplicar
o método; cada pessoa deve achar a que melhor se adapta ao seu estilo.
Você pode manter as suas listas num caderno simples ou num aplicativo
altamente sofisticado; pouco importa. E não vou nem dizer qual sistema
eu uso nesse texto para me manter fiel a essa postura do livro. Num
futuro post talvez eu explique o meu sistema.

O autor é bastante didático, abusa de exemplos (e a sua alternância
entre casos profissionais e pessoais ajuda muito) e usa muitos diagramas
explicativos. Não é difícil entender porque esse livro se tornou um
sucesso.

Como esse livro me ajudou

Eu tenho uma atividade “profissional” principal, que é meu mestrado em
engenharia. Tenho projetos pessoais: esse blog, um romance que estou
escrevendo (!), coisas que quero aprender. E tenho tarefas regulares:
comprar presentes, gerenciar minhas finanças, cuidar do carro. Tarefas
mundanas mas que precisam ser feitas.

Eu não vivo para isso, e acredito que ninguém o faça. As melhores coisas
da vida são os momentos em que estamos em companhia das pessoas
importantes ou em que estamos fazendo coisas que nos dão prazer:
caminhando na praia, lendo um bom livro, rindo de um filme.

Ser organizado, e ter um sistema como o GTD como guia, permite-me
aproveitar esses momentos. Durante a semana, eu sigo a minha lista de
tarefas e avanço nos meus projetos, e, a cada dia, eu tomo um tempo para
me organizar. “Tudo bem, hoje terminei o relatório; o que preciso fazer
amanhã?”. “Sempre quis começar um blog; vou dedicar um tempo essa semana
para pesquisar opções de hospedagem”. “Meus exames chegaram; deixe eu
anotar o telefone do médico para marcar o retorno.”. A ênfase do livro
de anotar tudo mudou completamente meus conceitos de organização.

Eu posso passar o fim de semana todo fazendo o que gosto porque sei que,
quando a segunda-chegar, a minha lista de próximas ações vai estar
atualizada, meu calendário vai estar configurado e meus projetos vão
estar encaminhados. O meu sistema de confiança está funcional. Todas as
minhas pendências estão em algum lugar, livrando a minha mente.

E isso é a melhor parte de ser produtivo.

Resenha: Como Ler Livros

Eu me considero alguém que lê bastante. Só nesse ano, já li 11 livros, o
que é mais que muitas pessoas lêem num ano inteiro. Já devo ter deixado
claro aqui que ler é uma paixão profunda minha.

Porém, admito que não sou um bom leitor. Às vezes, fico tão ansioso
para terminar o livro que acabo correndo para terminar logo e começar
outro. Não raramente fica a impressão de não ter ficado nada gravado na
cabeça. E isso é desesperador; é uma sensação de tempo perdido.

Depois de ler Como Ler Livros, de Mortimer Adler e Charles Van
Doren, é possível entender por quê. Ler é uma atividade complexa que
exige técnicas. Ler um livro é muito mais que virar páginas e ouvir
uma voz recitando as palavras.

A ideia da obra é bastante direta. É possível ler de diversas maneiras,
mas quando se quer realmente entender um livro é preciso ler da maneira
certa. É o que os autores chamam de “níveis de leitura”.

O primeiro nível é o da leitura elementar. É a simples decodificação
da linguagem, acompanhada da interpretação mais básica. É ler letra após
letra, palavra após palavra, parágrafo após parágrafo. É ler algo como
“as gaivotas voavam sobre o mar azul” e ser capaz de realmente
visualizar gaivotas voando, imaginar um mar azul (talvez uma praia que o
leitor já tenha frequentado) e juntar as duas coisas. É aqui que acaba a
leitura ensinada nas escolas e é aqui que a maioria das pessoas para.

O segundo nível é a leitura é o da leitura inspecional. Ela tenta ver
o livro como um todo. Leia o prefácio (não consigo imaginar como alguém
pode pular o prefácio, a propósito): qual a intenção do autor? Leia o
sumário e veja como o escritor estruturou a sua ideia. Leia o livro
rapidamente, parando em apenas alguns trechos para ler com mais atenção.
A leitura inspecional é responder à pergunta: “esse livro é sobre o
quê?”. É um romance, um livro sobre política, ou sobre matemática, ou
sobre a História do Brasil? Quais são os principais ideias? Embora sem
se dar conta, muitas pessoas conseguem ler num nível inspecional.
Terminam o livro e sabem que não é apenas um amontoado de frases; existe
uma ideia básica que o autor apresentou sob algumas formas. Talvez o
leitor não seja capaz de escrever uma resenha, mas consegue formular um
resumo básico.

O terceiro nível é o da leitura analítica. Certo, o livro é sobre a
História do Brasil; mas qual a posição do autor? Ele está priorizando os
momentos do Império ou da República? Toma partido a favor ou contra a
escravidão? Dá mais destaque à esquerda ou à direita? Ou então talvez o
livro seja sobre ciências. O autor está sendo claro? Os exemplos que ele
passa parecem plausíveis? O autor usa a matemática para confundir ou
para esclarecer?

O leitor que lê analiticamente consegue aprender o que o livro quer
ensinar. Ele consegue criticar o que o autor quer dizer. Na verdade,
essa é a técnica fundamental da leitura analítica. Só consegue ler de
maneira analítica a pessoa que, depois de ter feito leitura inspecional,
sabe as principais perguntas a serem feitas ao livro (notem como eu
expliquei a leitura analítica apenas com perguntas); agora a tarefa é
encontrar as respostas. Ler bem um livro significa questionar o autor a
todo momento. O verdadeiro leitor jamais falaria algo como “não sei bem
por que, mas não concordo com isso”; ele primeiro entende, e depois
julga.

Na verdade, praticamente 80% de Como Ler Livros é sobre leitura
analítica. Os autores põem muita ênfase em se preocupar em procurar as
palavras-chave, depois os termos principais, em seguida as proposições
mais importantes.

O quarto nível é o da leitura sintópica. Significa transcender o livro
e ler vários livros sobre o mesmo assunto e apontar diferenças e
semelhanças. É aplicar a leitura analítica diversas vezes. É assumir
algo como “quero aprender a mecânica clássica” e ler Newton, Laplace,
Galileu e d’Alembert, comparando-os. Claramente, é tarefa de
especialistas.

Como Ler Livros é daqueles exemplos que não trazem nenhuma ideia
revolucionária mas apontam alguns conceitos do senso comum dos quais nos
esquecemos:

  • Você está lendo para quê? Quer apenas dar uma olhada no livro ou
    aprender sociologia? Diferentes objetivos demandam diferentes modos
    de se ler.
  • Dê uma lida rápida e só depois volte nos pontos em que há dúvidas,
    não necessariamente na ordem do livro.
  • Não faz sentido começar a procurar as palavras no dicionário se você
    não faz nem ideia do assunto do livro. Mas quando precisar fazê-lo,
    saiba o que e por que você está consultando-o.
  • Ler não é uma atividade passiva. Se você para para interpretar uma
    frase que seja, já está interagindo com o autor (os autores usam um
    exemplo muito interessante do beisebol, que pode ser melhor
    entendido com uma analogia do futebol. Um goleiro, apesar de
    “apenas” agarrar a bola, não joga passivamente. Ele precisa prestar
    atenção em muitos jogadores, calcular a velocidade da bola,
    movimentar-se para o lado certo).
  • Livros difíceis merecem ser lidos muitas vezes
  • O tipo de atitude que você tem ao ler um livro de filosofia tem de
    ser totalmente diferente da atitude de ler uma peça de teatro.
  • Não é porque se trata de um romance que não existe nenhuma mensagem
    a ser captada.

O livro tem seus defeitos. Os autores se enlongam demais em alguns
trechos, são bastante repetitivos (a maneira que eles enfatizam o
questionamento do autor é cansativo), dedicam pouco tempo à leitura
sintópica e quase completamente ignoram as obras de ficção (embora eu
concorde com eles quando dizem que ler um romance ou poema é algo muito
subjetivo e dependente das experiências do leitor).

Como Ler Livros, no geral, é um monumento de exaltação aos livros e ao
ato de leitura, e suas reflexões já estão mudando completamente a
maneira como encaro os livros. Faça-se um favor e leia.