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Resenha: Rápido e Devagar

Você está andando na rua, serelepe, falando ao telefone com sua mãe. Andar e conversar amenidades no telefone são duas coisas bastante naturais, e o seu cérebro é suficientemente poderoso para coordenar as duas atividades em paralelo — você consegue até desviar de um buraco enquanto presta atenção no que a sua mãe diz. Mas de repente ela revela que seu primo ganhou na loteria.

Imediatamente você para.

Processar esse tipo de informação não é algo para o qual o seu cérebro tem respostas prontas, e assim ele precisa concentrar esforço nessa atividade nova. Você não consegue fazer duas coisas complexas ao mesmo tempo.

Não é difícil achar exemplos desta dicotomia: processamos algumas coisas de forma rápida e automática, e outras de forma mais devagar. Demoramos um segundo para calcular 4 * 5 e alguns minutos para computar 27 * 31. Passamos por alguém na rua e em instantes reconhecemos um rosto familiar, enquanto que às vezes simplesmente não conseguimos lembrar o rosto daquele colega de escola. Quando saímos da auto-escola, precisamos pensar quando é a hora de trocar a marcha; depois de algum tempo, sem olhar já sabemos em que marcha estamos, e nem nos damos conta do ato.

Esta dupla forma de pensar não é apenas mais uma característica da nossa mente, mas, como defende o psicólogo israelense-americano Daniel Kahneman em Rápido e devagar: duas formas de pensar, é central ao próprio ato de pensar e possui implicações profundas na nossa vida.


Este livro é com certeza um dos mais profundos que já li, e tenho certeza de que vai demorar muito tempo para processar a quantidade de informação que esta obra traz.

Rápido e devagar é longo e denso; eu não tenho formação alguma em psicologia e consegui compreender este livro, mas ele está longe de ser uma leitura fácil. Trata-se da apresentação das principais ideias de Kahneman sobre o funcionamento da mente e a tomada de decisões.

A ideia básica é que nosso processo de pensamento é regulado por dois sistemas: o Sistema 1, rápido e automático, e o Sistema 2, devagar e analítico. O Sistema 1 cresceu por razões evolutivas; sobrevivia quem conseguia rapidamente analisar o cenário e evitar predadores, ao mesmpo tempo em que conseguia alcançar a caça. Como engenheiro, não posso deixar de observar tudo como uma questão de economia de energia (que é uma das bases do argumento do livro): pensar (atividade do Sistema 2) é custoso, então o Sistema 1 toma controle sempre que pode..

Agora, pensar de forma automática pode economizar energia, mas exige alguns comprometimentos; o Sistema 1 aceita respostas razoáveis, mesmo que não estejam sempre certas, e cria cenários onde eles sempre não existem. Bons exemplos disso são aquelas ilusões de ótica sobre comprimento de linhas; o Sistema 1 não consegue perceber muita diferença entre as linhas e não passa o controle para o Sistema 2, que o instruiria a pegar uma régua.

Outro de meus exemplos preferidos está ligado ao conceito de tensão cognitiva. Você sabe que comer doce faz mal, e o Sistema 2 o impede de comer; mas o seu Sistema 1 sabe que vai ter prazer imediato, e o incita a comer. Então, quando você fica cansado, ou com dor, ou sob estresse, a parte analítica do seu cérebro fica sobrecarregada, e o Sistema 1 dá sinal verde para você comer aquele chocolate todo (ou beber a cerveja toda).

A partir dessa premissa básica (de que usamos respostas automáticas, mas nem sempre certas, para economizar energua), o livro se desenvolve mostrando implicações cada vez mais profundas. No meu capítulo preferido, o autor diz:

Se lhe fosse concedido um único desejo para seu filho, considere seriamente desejar que ele ou ela seja uma pessoa otimista. Otimistas são normalmente pessoas alegres e felizes, e portanto populares; são pessoas resilientes e adaptáveis aos fracassos e dificuldades, suas chances de depressão clínica são reduzidas, seu sistema imune é mais forte, elas cuidam melhor da saúde, sentem-se mais saudáveis do que os demais e de fato têm probabilidade de viver mais.

O otimismo é muito bom e fácil porque não é preciso grande esforço para ignorar riscos — é algo que adoramos fazer. Uma premissa básica de Rápido e Devagar é que somos péssimos estatísticos por natureza, e temos dificuldade em lidar com incertezas e variações. Assim, a nossa resposta automática é ignorar tudo isso e tomar decisões com baixíssimo grau de sucesso como montar um negócio próprio ou comprar um apartamento por uma pechincha num lugar duvidoso. Sempre achamos que comigo não vai acontecer.

Em outra parte, merece destaque a Teoria da Decisão , uma das áreas importantes da carreira de Kahneman e que lhe valeu o Prêmio Nobel de Economia. Nessa parte, aprendemos que, devido à nossa falta de habilidade com estatística (mesmo em estatísticos treinados) tomamos decisões que são surpreendentemente irracionais (vale ler com atenção o trecho sobre como é mais vantajoso comprar o seguro com a maior franquia possível e evitar garantias estendidas).


O livro tem alguns defeitos pequenos. É dividido em partes (que tratam, basicamente, da estrutura dos dois sistemas, das heurísticas e vieses que regem nosso pensamento, do problema da confiança e otimismo excessivos, da Teoria de Decisão e dos conflitos entre recordar e viver), mostrando as diferentes faces dessa questão das formas de pensar, mas dentro de cada parte é difícil compreender a lógica para a divisão de capítulos.

Também, por ser um livro que trata de estatística e economia, o autor menciona alguns conceitos e funções matemáticas, e eu realmente acho que mostrar as equações e alguns gráficos faria muito bem ao leitor. Ao contrário da crença popular, as equações tendem a simplificar o texto (quando o autor sabe usá-las).

Estes defeitos não tiram os méritos de Rápido e Devagar. Este livro e a sua ideia de que evitamos pensar de maneira muito profunda tem um impacto tão grande em mim que, desde que o terminei, vivo analisando alguns exemplos do cotidiano à luz de suas teorias. Acho que isto é uma boa medida da sua qualidade.

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