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Mais razões para se registrar o que se aprendeu

Becky Kane, escrevendo para o blog do Todoist, defende o uso de um diário para se registrar o que se aprende:

A chave para aprender é parar de consumir informações de forma passiva e começar a se envolver ativamente com as ideias. Pense num estudante que anota exatamente o que o professor fala. Agora compare com um estudante que faz um resumo usando as próprias palavras e depois liga as informações aos conceitos que aprendeu antes. Quem você acha que aprenderá mais?

Ultimamente tenho me deparado com muitas ideias (confira o último post) explorando a relação entre aprendizado e produtividade, algo em que acho que posso melhorar.

Já escrevi alguns textos sobre o hábito de se manter o diário. Desde que parei de usar os dispositivos da Apple, parei de usar o app Day One, o que por consequência me fez parar de manter esse hábito. No Android, tenho experimentado o app Journey, que tem me agradado bastante; espero que todos esses textos de que falo aqui me animem a escrever mais.

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O que eu aprendi em 2016

Um dos meus posts preferidos entre os recentes da Thais Godinho, que tem me inspirado nas últimas semanas a usar mais o diário para reflexões de final de ano (e pergunte à minha noiva, eu ando bastante reflexivo nesses dias). Esse texto também me faz traçar conexões com duas ideias:

  • Esse vídeo do CGP Grey em que ele dá a sua versão do segredo de uma vida bem-sucedida: incorporar revisões constantes e corrigir o que não está dando certo na sua vida
  • Um método de gestão que temos testado no nosso grupo de pesquisa, onde as nossas reuniões semanais e mensais são todas estruturadas em torno do que aprendemos em uma reunião e outra. A sua implementação tem tido alguns problemas, mas vamos passar por um treinamento formal em breve, depois do que pretendo escrever um pouco mais a respeito. O que eu posso atestar agora é que relatar o que se aprendeu tem tornado mais visível os avanços da nossa equipe.
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O Hacker Matemático

Texto muito interessante sobre como a matemática não é apenas uma ferramenta opcional para programadores, mas a base do conhecimento sobre computação. Gosto muito da parte em que o autor ressalta que os maiores picos de desenvolvimento tecnológico estão ligados ao uso avançado de matemática (nos dias de hoje, pense em Big Data, aprendizado de máquina etc).

Extendendo a análise à engenharia (o meu campo profissional), esse texto corrobora uma opinião muito forte minha: as disciplinas de matemática (Cálculo, Álgebra Linear) não são um ‘mal’ necessário, mas o alicerce da engenharia. Sei que isso pode provocar chuvas de comentários de estudantes de engenharia, que não entendem por que têm de passar por 4 (!) cursos de Cálculo (pelo menos na minha Universidade) antes de começar a fazer Engenharia de verdade, mas a maturidade nesse assunto vem com o tempo.

Eu sei que é estranho uma pessoa da minha idade falar desse modo, como se eu tivesse anos de experiência, por isso ressalto que essa é apenas uma opinião minha. Em favor do meu argumento, porém, há o fato de que todo o meu trabalho desde que me formei é estudar o que está sendo feito de mais avançado em engenharia (dentro das minhas áreas de estudo), e um padrão é muito evidente: os livros e artigos que mais impactam a comunidade científica estão recheados de matemática avançada. Porém, as principais ideias (não raramente derivadas de teoremas básicos do Cálculo) desses trabalhos não são abstrações; são resultados concretos, que podem ser aplicados no projeto de componentes de engenharia. A matemática ajuda a mostrar que esses resultados funcionam para uma variedade de situações.

O Cálculo também está por trás dos métodos de otimização, que são geralmente o ápice dos projetos de engenharia. Por consequência, são aquelas aulas e listas de Cálculo que ajudam engenheiros diariamente a projetar sistemas cada vez mais leves, mais potentes e mais energeticamente eficientes.

A matemática não “complica” a ciência e a engenharia; ela uniformiza e fornece uma linguagem universal.

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6 livros que moldaram a minha visão de produtividade

Surpresa: eu sou fascinado por produtividade. Eu invejo as pessoas que tiveram carreiras de sucesso e quero seguir os seus passos. O meu lado acadêmico me faz então sempre querer estudar mais do assunto, investigar o que determina que algumas pessoas tenham uma excelente vida profissional, equilibrada com a vida pessoal, enquanto outras ficam estagnadas.

Livros são uma parte fundamental desse processo. Eu sempre fui “a criança estranha que lê”, e depois me tornei o adulto estranho que lê — ao ponto em que acho que a melhor parte de ir à praia é poder ler um bom livro de frente para o mar (uma água de coco ou uma cerveja gelada certamente não atrapalham). As resenhas de livros que publico aqui reúnem alguns dos posts mais populares de FabioFortkamp.com e são os posts que mais gosto de escrever.

Nos últimos posts, tenho reunido as minhas observações sobre gerenciamento de tempo e estou tentando refinar alguns conceitos, até para eu mesmo entender qual a melhor maneira de eu trabalhar. Enquanto eu desenvolvo melhor os próximos textos, vou apresentar ao leitor os 6 livros que efetivamente moldaram a minha visão de produtividade e que servem de base para essa série de posts:

1. A Arte de Fazer Acontecer, de David Allen

Provavelmente nenhuma lista de livros sobre produtividade que tenha sido publicada na útlima década deixa de incluir esta obra, que já foi tema de resenha. Embora eu venha adotando uma versão mais relaxada do método GTD (tema do livro), a obra de David Allen é essencial para sistematizar alguns conceitos que mudaram a minha organização: anotar o que vem a cabeça em algum lugar que você revise, manter listas de todas as coisas que você tem para fazer, dedicar um tempo todo semana para fazer uma revisão geral dos seus projetos etc.

2. Vida Organizada, de Thais Godinho

Livro que condensa muitos posts do blog de mesmo nome, que já linkei muitas vezes aqui. Como mencionei em outro post, a principal ideia que esse livro me apresentou foi uma decomposição de cima para baixo de produtividade: comece refletindo sobre o que você quer atingir no fim da vida, identifique quais são suas metas de médio prazo e termine determinando quais os projetos importantes você precisa fazer neste ano para atingir os seus objetivos de vida.

3. Workflow Mastery, de Kourosh Dini

O autor é um psiquiatra e portanto essa obra-prima contém muitas discussões sobre como a mente encara o ato de trabalhar. Apresentou-me muitos conceitos importantes que serão abordados mais para frente neste blog, como a importância de rotinas e de fluxos de trabalho, e é a fonte da ideia de sessões de trabalho, que abordei em outro post.

4. Creating Flow with Omnifocus (2nd edition), de Kourosh Dini

Este é na verdade um manual do software de gerenciamento de tarefas Omnifocus, que usei muito quando ainda usava um Mac. Entretanto, a segunda edição foi publicada depois de Workflow Mastery, e Kourosh Dini não perdeu a oportunidade de aprimorar os conceitos desse livro e, mais importante, mostrar como implementá-los na prática. Mesmo sem usar Omnifocus, consigo reproduzir muitos métodos no Todoist, e pretendo explicar como em breve.

5. So Good They Can’t Ignore You, de Cal Newport

O que determina a felicidade e o sucesso profissional não é quanto que você ganha (já que nunca estamos satisfeitos com o nosso salário), mas o grau de controle, criatividade e impacto que você tem enquanto exerce o seu trabalho. Como essas características são raras, você precisa se diferenciar e se tornar raro e valioso para conseguir as melhores condições de trabalho. Para mais detalhes, veja a minha resenha. Esse livro proporciona um belo contraste com A Arte de Fazer Acontecer (primeiro item dessa lista) e livros afins por sua ênfase mais no simples ato de se tornar muito bom e menos em hacks e técnicas de produtividade,

6. Deep Work, de Cal Newport

Ainda estou terminando de ler essa obra, mas já tenho colocado em prática alguns conceitos. Continuando a linha de raciocínio de So Good, nesse livro o Prof. Newport mergulha no que é necessário para que nos tornemos realmente bons no que fazemos, e defende que a atividade básica que desenvolve as habilidades profissionais é o trabalho profundo: focado, intenso, livre de distrações, por horas a fio. Mais: como a concetração parece se comportar como um músculo, é preciso exercitá-la mesmo nos horários fora de trabalho (Abrace o tédio é o título de um dos capítulos). Desnecessário dizer, mas aguardem resenha em breve.

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Artigos

Como arruinar a minha atenção durante uma apresentação de congresso

Nos últimos três meses tive o privilégio de participar de dois congressos acadêmicos na minha área de doutorado, um internacional e outro nacional, sendo que no final do ano passado também apresentei o meu trabalho de mestrado em um congresso nacional. Devo ter assistido a meia centena de apresentações de trabalho nesses eventos todos, e em muitas delas a minha atenção foi arruinada.

Eu sou ainda muito inexperiente em relação a participação em conferências, e não acho que sou um apresentador excepcional. O que segue é uma lista, do ponto de vista estritamente como expectador, de coisas que você pode fazer se quiser destruir o meu interesse pelo seu trabalho durante o próximo congressos.

Tente espremer todo o seu trabalho durante o tempo de apresentação

Um artigo submetido aos anais de um congresso tem entre 4 e 8 páginas (pelo menos na área de engenharia) e geralmente compreende um ano de trabalho. Uma apresentação, por outro lado, geralmente tem o limite de 15 minutos.

Vamos pôr em perspectiva: tentar resumir o trabalho de um mestrado ou doutorado durante 50 minutos (como é nas defesas do meu Programa de Pós-Graduação) é absurdo. Tentar resumir um ano de trabalho em 15 minutos é mais irreal ainda. A questão é: você não precisa relatar o seu trabalho de um ano durante esses 15 minutos. Os trabalhos que mais me chamaram a atenção durante esses congressos que frequentei não foram aqueles em que eu consegui efetivamente entender o assunto (porque o tempo é realmente curto para aprender), mas aqueles que me fizeram ir ler os respectivos artigos.

Se você tentar falar tudo o que é importante durante esses 15 minutos, a sua apresentação vai se tornar muito difícil de acompanhar; pior, se você passar do tempo, vai atrapalhar a agenda de todos os expectadores.

Copie parágrafos do seu artigo para os slides

Sinto que isso é um lugar-comum, mas eu vou repetir aqui: eu não consigo ler o que está nos seus slides e ouvir o que você está dizendo ao mesmo tempo. Assim, cada texto grande que você coloca rouba minutos da minha atenção sobre o que você está falando (e ouvir você é o objetivo de eu ir a uma apresentação sua).

Como falei no ponto acima, a sua apresentação tem um artigo como suporte. Os seus 15 minutos não são para eu ler o seu artigo, mas para você me convencer a lê-lo. Use e abuse de recursos que não estão disponíveis nos documentos escritos: muitas imagens (ao contrário dos papers, não há limite de figuras nos slides), animações, cores, explicações.

Uma das piores apresentações a que fui no último congresso foi uma em que o autor usou slides brancos com textos em preto de cima baixo, e o apresentador ficava olhando para a tela e lendo (acho que nos 15 minutos ele mostrou 2 figuras). Impossível prestar atenção.

Coloque um grande número de equações complexas

Eu faço Doutorado em Engenharia Mecânica e portanto não tenho medo de matemática, mas interpretar equações dá trabalho. Vou repetir: eu posso ler o seu artigo depois, com calma, de preferência escutando música clássica. Na sua apresentaçao, eu quero ter um panorama do seu modelo matemático, entender de onde você partiu e onde você chegou, e entender o que é possível inferir ou calcular com ele.

Se você põe equações cujos termos você não consegue explicar claramente em um minuto, vai ficar muito difícil de prestar atenção em você.

Tente me enganar

Eu, que sou um expectador mediano, consigo perceber quando o seu trabalho é uma enganação; que dirá de professores e pesquisadores mais experientes. Se eu, como alguém que está assistindo à sua apresentação, perceber que você está tentando fazer o seu trabalho parecer muito maior que é, você vai perder a credibilidade comigo, e não há motivo para eu prestar atenção em alguém que não é confiável.

Penso que uma apresentação de congresso não precisa ser revolucionária. Eu sei que a falta de recursos financeiros e materiais dificulta as pesquisas. Uma das apresentações mais interessantes a que assisti recentemente envolvou a repetição de um experimento clássico, mas variando um parâmetro ainda pouco explorado. O aparato experimental era simples, a ideia era simples, mas o trabalho era consistente e rigoroso, e representou um avanço no conhecimento (palavras de um colega meu, quando discutíamos essas questões).

O que você não deveria fazer é gerar dois gráficos de um experimento que você preparou em um mês, não representando nada de novo em relação ao disponível na literatura, e achar que está em pé de igualdade com todos os outros apresentadores do congresso.


Esses são desabafos mostrando que o eu acho que você não deveria fazer. Agora, se você quer dicas do que fazer, sugiro esse artigo do Prof. Matt Might, de onde tirei algumas das ideias acima.

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Spotify como ferramenta de trabalho

Há algumas semanas, em parte tentando economizar e parte como um exercício de penitência, eu cancelei minha assinatura do Spotify.

Existem duas situações principais em que uso o Spotify:

  1. Na esteira da academia
  2. Trabalhando

O primeiro foi fácil de resolver. Eu tenho uma seleção razoável de músicas na minha conta no iTunes, que podem ser exportadas para o app do Google Play Music no meu Moto X. Como essas músicas já foram compradas, eu não gastaria nada a mais para ouvi-las, e ficaria sem a possibilidade de experimentar música nova a cada dia, que era uma minúscula privação a que eu estava disposto a me submeter. Ou eu podia simplesmente escutar algum bom podcast.

Já a segunda situação foi bem mais difícil, e foi o que me motivou a assinar o Spotify de volta.


O Spotify já não é mais um luxo para mim, mas uma das minhas ferramentas de trabalho mais importantes. Se você tiver a chance de me observar no laboratório onde trabalho, frequentemente vai me ver com fones de ouvido, lendo, escrevendo ou programando. Além de ajudar a isolar parte do barulho de equipamentos e conversas e de servir como um sinal de “não perturbe”, a música efetivamente me ajuda a me concentrar. Não qualquer música, naturalmente, mas algo instrumental, clássico, calmo. Minhas playlists favoritas são:

Uma situação que tem se tornado típica é escutar a essas playlist mesmo longe do computador. De fato, o que me fez assinar de volta foi uma viagem que fiz a um congresso; estava levando material impresso para estudar e sabia que ir escutando música ia fazer diferença, e a conta Free do Spotify não permite sincronizar as músicas com celular para ouvir offline (como eu estaria no avião). Acredite: os trajetos de avião ficaram bem mais produtivos com algumas das playlistas acima a postos no meu bolso.

Para usar os termos do post anterior, escutar esse tipo de música é parte essencial das minhas sessões de trabalho.


O Spotify também é um excelente exemplo da diferença entre custo e valor. O Spotify me custa pouco (de tal forma que o valor economizado com o cancelamento da assinatura ia ter pouco impacto nos meus objetivos financeiros) mas me traz muito valor. Como Gustavo Cerbasi falou num vídeo recente, o importante não é simplesmente cortar gastos, mas cortar aquilo que não contribui na sua qualidade de vida. Como um exemplo de situação oposta, recentemente cancelei minha assinatura em um daqueles Clubes de Cerveja: por mais que seja interessante, eu achava que estava gastando muito dinheiro e não encontrava satisfação (frequentemente recebia cervejas que não eram do meu gosto, por exemplo). Economizar esse valor mensal foi uma decisão fácil.


E o leitor, costuma ouvir música enquanto trabalha? Tem algum estilo preferido? Respondam nos comentários!

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Como eu gerencio meu tempo: projetos, sessões de trabalho, tarefas

À medida que vamos discutindo gerenciamento de tempo, é importante definirmos alguns conceitos básicos para que a linguagem seja a mesma.

Projetos

Para mim, o conceito fundamental do gerenciamento do tempo é o de projeto. Numa visão simples, um projeto é um resultado que você quer alcançar. É um passo rumo às metas que você define em diferentes horizontes de tempo, conforme discutimos em outro post. Você vai decompondo as suas metas em estágios, até chegar em um projeto que você conseguiria completar em alguns meses.

Por exemplo, para ficar num exemplo pessoal e atual, uma das minha metas mais importantes é defender o meu doutorado daqui a dois anos. O que preciso fazer para chegar até lá? Para que o leitor entenda, minha tese envolve parte de um projeto inovador de um refrigerador magnético. Um dos subcomponentes é o ímã que vai operar esse sistema, então aí temos a primeira decomposição: para defender meu doutorado, preciso “projetar o ímã”. Entretanto, isso ainda é algo muito geral, abrangente e difícil de visualizar, e precisamos decompor melhor essa visão. Uma tarefa referente ao projeto do ímã, após ter feito toda uma revisão da literatura, é propor uma solução e executar simulações numéricas para ver se ele vai atender aos requisitos — e temos mais uma deconstrução: “executar simulações da solução proposta de ímã”, ainda muito geral (vamos simular variando quais parâmetros?). Após alguns testes, surge-me a ideia: escolher faixas para os principais parâmetros (as dimensões, as propriedades dos materiais, o número e a forma das partes que formam o ímã), executar as simulações e plotar os resultados para essas faixas; “criar gráficos mostrando campo magnético obtido em função dos principais parâmetros” se torna um projeto. Por que parar aí? Porque eu consigo imaginar os passos individuais que me levam a este projeto, e consigo imaginar como vai ser o resultado final, físico: uma série de gráficos que eu possa analisar e discutir com meu grupo de pesquisa.

Para a metodologia GTD, projeto também é uma definição importante: é tudo que demanda 2 ou mais passos para ser executado. Acho essa definiçãomais ou menos equivalente à minha; eu só gosto mais de focar na questão de que resultados queremos com esses 2 ou mais passos (tenha em mente, porém, que a definição do “Resultado Esperado” é uma etapa importante da organização de projetos segundo o GTD).

Eu considero essa definição a mais básica porque gerenciar o tempo, para mim, é gerenciar e organizar os projetos que vão me levar às minhas metas de vida. Conforme falei no outro post, essa visão de organizar as suas tarefas “de cima para baixo” mudou bastante a minha percepção de tempo. Futuramente vou falar mais detalhadamente de como organizo meus projetos.

Sessões de trabalho

De maneira agora bastante diferente da metologia de GTD (e de muitos métodos de gerenciamento de trabalho), para mim a definição lógica seguinte à de projetos é da sessão de trabalho. Os meus projetos não são realizados/completados de maneira solta e livre, mas quando eu (para usar um jargão bem sofisticado) “sento e trabalho”. É esse ato de sentar e pôr a minha capacidade de pensar a serviço de algum projeto que é o que estou chamando de sessão de trabalho.

Eu nunca tinha parado para pensar nessa questão de formalizar a sessão de trabalho até ler Workflow Mastery, de Kourosh Dini. O autor define a sessão como “o tempo, espaço e atenção usados para desenvolver um fluxo de trabalho”. A componente de atenção é particularmente importante; em futuros textos, vamos investigar muito a fundo a relação entre gerenciar a sua atenção e gerenciar o seu tempo. Se, num sessão de trabalho, é desejável você trabalhar com o máximo de atenção (para aumentar a qualidade do que você faz durante essa sessão), então, como argumenta Dini, é interessante você se preparar antes da sessão, impedindo que a sua atenção seja roubada durante. Por exemplo, se você precisa estudar um documento importante (um livro, um artigo, até um contrato), o simples ato de deixar à vista algo que remeta você a uma procupação (como aquele formulário que você precisa preencher, ou uma lista de exercícios de uma disciplina, ou até mesmo um simples objeto que você só precisa guardar) pode arruinar a sua concentração.

Em textos futuros, pretendo explorar mais a fundo a maneira como eu abordo sessões de trabalho; por agora, fica essa reflexão de que, para avançar em algum projeto, você precisa criar um conjunto de condições que, quando organizadas, elas formam uma sessão de trabalho.

Pessoalmente, encaro sessões de trabalho como ferramentas para realizar projetos, e aí está a minha principal divergência com a metodologia GTD. No GTD, aprendemos que devemos trabalhar por contextos: idealmente, você teria uma lista de coisas que têm de fazer ao computador, e quando estiver ao computador trabalharia somente nessas tarefas; você também pode ter uma lista para fazer em casa, e quando estiver em casa se concentraria só nessas tarefas. Para mim, essa mentalidade não reflete em nada como eu trabalho. O maior problema é que eu não procuro trabalho baseado no contexto em que estou, eu procuro formar o contexto baseado no trabalho (em algum projeto) que eu quero fazer.

Uma visão similar é encontrada nesse post de Kourosh Dini: ao começar o dia, você tem a chance de planejá-lo baseado nas sessões de trabalho a que quer se dedicar. Se estou em casa e vejo que tenho um projeto importante a desenvolver mas que requer que eu esteja no laboratório, muitas vezes faz mais sentido ir até lá em vezes de “trabalhar pelo contexto de casa”; as atividades que eu poderia adiantar em casa possivelmente não vão contribuir tanto para meus projetos importantes (e minhas metas) quanto aquelas que eu poderia estar fazendo se fosse para o laboratório.

Para uma outra visão sobre planejamento do dia, com essa noção de sessões apenas implícita, esse post de Cal Newport (sempre ele) tem me influenciado bastante.

Tarefas

Uma tarefa é a atividade que pode ser realizada numa sessão de trabalho. “Pegar assinatura de orientador para formulário” é uma tarefa simples de desenvolver: eu subo até a sala dele, bato na porta, pego a assinatura e volto para minha sala; assim, “pegar assinatura de orientador para formulário” é uma tarefa que poderia ir numa lista de tarefas para o dia de hoje, sem precisar quebrar em sub-passos como “pegar elevador”, “bater na porta” etc.

Mas “Trabalhar no rascunho do artigo X” também é uma tarefa. Se quero trabalhar no artigo X, sento na frente do computador, abro os arquivos correspondentes e vejo de onde parei. À medida que vou escrevendo, vou percebendo outras “tarefas” relacionadas, como criar uma figura explicativa, ou procurar a referência para tal informação, mas todas elas são desenvolvidas dentro de uma sessão de trabalho, principalmente porque você delimita um tempo e um espaço. Eu começo sentado ao computador, mas depois me levanto para pegar um livro na prateleira; então reviso o capítulo que queria, escrevo uma breve análise no tal artigo, e assim continuo. Quando acho que fez o suficiente pelo dia, eu completo a tarefa de trabalhar no artigo, mesmo que não tenha terminado o artigo em si.

Em próximos textos, vou explicar que o problema fundamental para quem tem de criar as próprias listas de tarefas é a mistura entre esses dois extremos do que entende-se por “tarefas”.

Sugestões de ações

No primeiro texto dessa série, sugerir algumas ações que o leitor podia tomar se quiser tentar se organizar de forma similar a mim. Aqui vão mais algumas dicas relacionadas a esse texto de hoje:

  1. Revise as suas metas de curto prazo, i.e. que você quer realizar em até dois anos. Agora tente chegar numa lista de projetos que você pode executar agora (e terminar em alguns meses) que vão levar a essas metas.
  2. No começo de cada dia, tome um tempo para planejar: que tarefas você quer realizar hoje? Quais são os projetos prioritários que você quer fazer avançar hoje? E como vai encaixar no seu dia sessões de trabalho para elas?
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Orar como exercício de produtividade

Vou fazer algo que acho que nunca fiz aqui, que é citar a Bíblia:

Então Jesus falou a seus discípulos: “[…] Quanto a vocês, não fiquem procurando o que vão comer e o que vão beber. Não fiquem inquietos. Porque são os pagãos deste mundo que procuram tudo isso. O Pai bem sabe que vocês têm necessidade dessas coisas. Portanto, busquem o Reino dele, e Deus dará a vocês essas coisas em acréscimo.” (Lc 12, 29-31)

Pode ser estranho estudar um assunto como produtividade, porque corre-se o risco de entrar num círculo vicioso: você gasta tanto tempo estudando como cumprir tarefas de maneira rápida e organizada que não sobra tempo para cumprir as suas tarefas de fato. Com o tempo, desde que li A Arte de Fazer Acontecer pela primeira vez, amadureci e percebi que é sim importante estudar e tentar ser organizado, mas que existem muitas nuances que escapam das dicas tradicionais como “mantenha uma lista de tarefas” ou “deslique as notificações do celular”.

Para mim, ser produtivo significa fazer o melhor doutorado do mundo (ambicioso eu, não?), publicar artigos de qualidade e defender minha Tese no prazo, ao mesmo tempo que eu não passe noites e fins de semana sem fim trabalhando e consiga aproveitar os momentos em que não estou trabalhando. Eu quero ter a liberdade de assistir um filme com minha noiva sem ficar pensando se não deveria estar adiantando aquela tarefa, e quero ter a certeza de vou chegar nas vésperas da minha defesa e não vou surtar porque “deveria ter feito tanta coisa”.

Primariamente, as coisas que me impedem de ser produtivo são aquelas que destroem minha atenção e minha concentração. Se não consigo me concentrar em um dado dia, não vou conseguir escrever, nem revisar um artigo, nem realizar simulações dos meus problemas de engenharia, nem criar nada de relevante. Se não consigo fazer isso ao longo de vários dias de trabalho, vou ter de compensar isso de alguma forma lá na frente e nos momentos que eram para ser de descanso. Ou seja, se quero ser (e me sentir) produtivo, preciso aprender a controlar minha atenção e ser capaz de manter o foco, regularmente, durante os dias e horários de trabalho.

Por isso, ao longo das últimas semanas, eu tenho descoberto que a religião é uma das melhores ferramentas de produtividade.


Nos últimos meses, eu e minha noiva temos participado das Oficinas de Oração e Vida, que são grupos católicos onde se aprendem técnicas para orar mais profundamente. Uma das bases das técnicas é a Sagrada Meia Hora, onde somos convidados a separar trinta minutos diários para sentar, com calma e concentração, abrir a Bíblia e lê-la profundamente, meditar, orar e conversar com Deus. É uma experiência realmente transformadora, porque traz a experiência religioso para o cotidiano, em vez de ficar relegada às missas aos domingos e ocasiões festivas.

Para mim, o melhor horário para cumprir a Sagrada Meia Hora é de manhã cedo, logo que acordo (e acordando um pouco mais cedo, se necessário), porque é quando minha mente está mais calma. E foi numa dessas sessões que me deparei com a passagem que citei acima, e ao meditá-la tive uma revelação. Eu percebi o quanto que, desde que comecei a frequentar as Oficinas de Oração e Vida, sinto-me mais produtivo, porque me sinto mais calmo. Logo de manhã cedo, eu já desabafo minhas angústias e minhas preocupações, muitas vezes escrevendo-as em forma de oração, e isso se reflete na minha capacidade de me concentrar ao longo do dia. A oração também me ajuda a esquecer alguns problemas profissionais, a relevar conflitos com colegas, a esquecer arrependimentos.

Na passagem acima, subsititua “comer” e “beber” por “fazer”, “alcançar”, “cumprir”, e a mensagem torna-se mais clara. Ao buscar Deus, ao orar regularmente, ao exercer o bem, ao esquecer as mágoas, criamos uma estrutura de vida tal que outras coisas boas começam a acontecer conosco — e isso é Ele nos dando em acréscimo.


Não estou tentando evangelizar ninguém (apenas, caso o leitor seja católico, recomendo fortemente experimentar as Oficinas). Tente trocar a experiência da oração por outra, como uma simples meditação, ou uma leitura de algum livro inspirador e significativo, ou uma forma de trabalho voluntário. Meu ponto é: tão importante quanto conferir o calendário regularmente é saber cuidar da sua mente, saber resolver conflitos internos. Por mais que muitas vezes tenhamos a imagem de “máquinas de criar resultados” para nós, no fundo somos apenas humanos e queremos apenas viver melhor.

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Acostumando-se com o desconfortável

A minha namorada reclamou que a minha resenha de So Good They Can’t Ignore You ficou meio incompleta e sem muitos exemplos (“principalmente depois de você viver carregando esse livro para lá e para cá”, foi o que ela ficou com vergonha de dizer). Então vamos tentar corrigir esse problema

So Good pode parecer um livro estranho. “É óbvio que você deve ser bom no que você faz”, o leitor pensa. Não é difícil aceitar que pessoas de sucesso trabalharam duro e são boas no que faz. O que não é óbvio é a relação disso com a felicidade no trabalho, e como é isso é mais importante que “sonhos” ou “paixão”. Na minha curta carreira científica, conheço muitos professores e pesquisadores que tomo como exemplo (alguns são grandes amigos), e que percebo que são felizes no trabalho. Porém, embora eu nunca tenha perguntado, posso adivinhar que eles não diziam “Quero ser um especialista em Termodinâmica” quando perguntados o que queriam ser quando crescer; de fato, pouco importa como eles foram parar nessa profissão. Essas pessoas donas de careiras notáveis são felizes porque são admiradas pelos seus pares, possuem cargos em universidades de prestígio, perseguem os projetos que lhe interessam — e o que os fez chegar até ali não foi sorte, ou um amor incondicional pelas ciências, mas o fato de que eles são extremamente habilidosos.

A pergunta seguinte é: como, então, se tornar tão bom a esse ponto? E essa é a segunda ideia não-trivial de So Good: você precisa se acostumar a fazer coisas difíceis.

Como esse assunto me interessa, ainda pretendo pesquisar muito (e o próprio Newport traz referências), mas os conceitos giram em torno da prática deliberada. Para ficar em um exemplo mencionado no livro, você não fica bom em guitarra praticando a escala de Dó Maior 100 vezes por dia; você pode ser tornar o próximo Clapton se praticar cada vez mais rápido, ou mudar de escalas, ou tentar um riff que você nunca tentou. Como diz Matt Might, o conforto fomenta a fossilização técnica.

Falando na minha namorada, ela mencionou que estava tendo dificuldades em utilizar um novo modelo de planilhas do Excel. “Ótimo!”, foi o que respondi. A maneira mais efetiva de ficar tão bom que eles não possam ignorá-lo é buscar rotineiramente fazer coisas difíceis, esticando (um termo de Newport) o seu cérebro e as suas habilidades. Se aquele modelo de planilha, com novos procedimentos de cálculo, é difícil de usar, significa que poucas pessoas vão conseguir fazê-lo, e aquelas que conseguem vão se diferenciar.

Este, portanto é o conceito que eu mais estou tentando implementar e testar no meu dia-a-dia. Como parte do meu doutorado, eu preciso aprender a usar um programa de simulação, e vinha evitando com medo da dificuldade e da angústia da frustração. Depois de ler So Good, percebi o quanto isso é normal e que eu precisava combater esse sentimento. Comecei então a todo dia tentar fazer alguma coisa que seja, cumprindo um novo desafio a cada semana. Agora, não me sinto um expert no tal programa, mas já me mais satisfeito quando tenho de trabalhar com ele, e sinto que poder usar esse software de uma forma nova pode fazer diferença no meu doutorado. E já sei o próximo desafio que preciso cumprir, e estou animado para atacar mais esse problema.

Para ficar em um outro exemplo, uma das carreiras que admiro é Myke Hurley, fundador da rede de podcasts Relay FM. Não tenho dúvidas que um dos motivos do seu sucesso é a sua disposição de tentar coisas novas e difícies; quantas pessoas se arriscariam a dedicar um show a entrevistar nerds sobre o seu álbum favorito? Isto exigia um novo nível de produção de podcasts, mas isso não foi impedimento.

Sugiro então que o leitor faça essa pequena auto-avaliação. Que habilidade o leitor está ignorando mas que pode fazer diferença? O que o leitor pode aprender na sua profissão que ninguém mais quer aprender por causa das barreiras, e que vai tornar o leitor na maior autoridade no assunto?

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Resenhas de livros

Resenha: So Good They Can’t Ignore You

Além de ímãs, Termodinâmica, refrigeradores, regeneradores e todos esses maravilhosos assuntos que formam o tema do meu doutorado, carreira tem sido a minha maior obsessão intelectual.

Isto pode ser um sinal de maturidade. Quando fazia o mestrado, enxergava-o mais com uma extensão natural da minha graduação. Praticamente todas as pessoas com que conversei antes de iniciar o mestrado concordavam em um ponto: o tempo gasto em um mestrado é baixo se comparado aos benefícios que ele traz, o que se torna ainda mais verdade numa economia com menos contratações e onde uma qualificação maior faz a diferença. Você sai do mestrado aos vinte e poucos, tem uma formação a mais e experiência na condução de um grande projeto; depois do mestrado, ainda existem muitas opções de carreira disponíveis, para a maioria das áreas.

Quando refleti sobre fazer o doutorado, porém, percebi que isso se tratava de uma decisão de carreira muito significativa. Eu terminaria o meu doutorado com 30 anos e nenhuma experiência em indústria; fazê-lo então quase que representa um comprometimento com o mundo acadêmico (embora, naturalmente, existam casos de sucesso de doutores que foram para o mundo empresarial e industrial). Para ser bem sucedido como acadêmico (professor e/ou pesquisador de uma boa instituição de pesquisa ou universidade), fazer um bom doutorado é necessário (mas não suficiente), e vem seguido de muitos desagios. Como guiar a minha carreira, aumentando o meu sucesso e sendo feliz no processo? O que determina uma carreira bem sucedida?

So Good They Can’t Ignore You foi escrito por alguém em situação próxima a minha: um estudante terminando o seu doutorado e querendo saber o que ele deve fazer para encontrar uma carreira que ele ame — e talvez seja por essa proximidade que eu me identifico tanto. O autor, Cal Newport, agora é já um professor bem estabelecido, e esse nome não deve ser estranho a leitores de FabioFortkamp.com, tal o número de vezes que eu cito o seu ótimo blog, Study Hacks. O título (em tradução livre, Tão Bom Que Eles Não Possam Ignorá-lo), vem deste clipe de uma entrevista de Steve Martin:

Este livro prático (com muitas discussões baseadas na Economia e na Psicologia) defende a ideia de que uma carreira de sucesso, que você ame, não é contruída baseada no sonho de “ir fazer o que se ama”, mas na ideia de quando você se torna realmente bom no seu trabalho você aprender a amar o que faz. Reparar que esta é uma tese dividida em dois pontos centrais:

Primeiramente, ass coisas pelos quais nos declaramos apaixonados, como música, esportes, religião, artes etc não são carreiras fáceis a não ser que você seja absolutamente brilhante. Este, aliás, é um ponto sutil do livro; sim, existem casos de pessoas que eram apaixonadas por alguma coisa e ganham a vida fazendo isso, mas eles são mais raros do que se pensa e representam casos extremos. Se você é fanático pelos Beatles, por exemplo, dificilmente consegue contruir uma carreira em cima disso, a não ser que seja algo especial — ou você toca igualzinho ao George, ou descobriu um novo ponto sobre a biografia deles… Adicionalmente, ter de trabalhar em cima de uma paixão tão profunda talvez até faça você gostar menos desse assunto. Ou seja, a maneira de construir a carreira ideal não é indo atrás das suas paixões.

Mas qual é a maneira, então? Na realidade, é difícil ter muito controle sobre a carreira em vamos parar. Eu queria cursar Jornalismo até os meus dezessete anos; mudei de ideia às vésperas da inscrição no Vestibular e agora estou fazendo Doutorado na área de Refrigeração. Mesmo que você “caia de para-quedas” em uma carreira, Newport defende que é possível você desenvolver gosto pelo que faz, e o seu argumento é bastante microeconômico: nas suas entrevistas, o autor percebeu que os profissionais realmentes de sucesso que se declaram felizes profissionalmente (em áreas diversas como programação, investimentos, medicina, construção de pranchas se surfe e redação de programas de TV) têm em comum o controle sobre a sua carreira e impacto sobre os outros. Essas condições são difíceis de encontrar, então você precisa se diferenciar para ter acesso a elas. E a melhor maneira de se diferenciar é através da aplicação sistemática do trabalho árduo, deliberado, esticando as suas habilidades além de um nível confortável é o que tem mais chances de lhe fazer ter sucesso. Como Martin diz no vídeo acima, essa conclusão é óbvia e sem graça a tal ponto que as pessoas não querem ouvir, mas é mais importante que tentar ser um gênio, ou conhecer alguem famoso, ou conseguir muitos seguidores.

O ponto mais curioso em relação à livro é que ficam evidente que o autor é professor universitário. Todo o livro é escrito de forma muito didática, com “leis”, “regras”, “teorias”, que facilitam bastante o entendimento. Newport muitas vezes para, lembra do que já foi dito, revisa os conceitos — e não consegui esconder o sorriso e perceber que era um (bom) professor conversando comigo.

CGP Grey recomendou So Good… como uma das bases para o seu entendimento do que é uma vida de sucesso. Acho que a época em que estou é a ideal para pensar seriamente nessas questões, mas também acho que, independente da idade, se o leitor precisa refletir sobre a sua carreira, se está na dúvida sobre o que fazer, e se quer simplesmente ser mais feliz no trabalho, pode se beneficiar da leitura desse livro.