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Será que nossos hábitos de almoço estão matando a nossa produtividade?

Eu vim para a Dinamarca basicamente por um motivo só: aprender, no sentido mais geral da palavra. Durante a própria preparação para vir aqui, aprendi muitas coisa — a ser mais organizado, a ser mais humilde, a reconhecer que as coisas não dependem só de mim. E agora estou aqui para aprender muito mais, tanto do lado pessoal quanto profissional.

Oficialmente, vim para cá para aprender a fazer ciência, mas o que não contei para todo mundo é que isso tem dois lados, e quero mergulhar em ambos. Sim, quero aprender a fazer ciência, fazendo parte do grupo líder na minha área de refrigeração magnética, aprendendo novas técnicas e estando ao lado de pesquisadores que admiro. Mas também quero aprender a fazer ciência — e entender por que, afinal, esses dinamarqueses são tão mais produtivos que nós.

A pergunta que lanço no título é apenas a impressão do meu primeiro mês de trabalho, mas é uma provocação válida. Essa experiência deixou o primeiro choque cultural em mim, e acho que precisamos conversar sobre nossos hábitos de almoço.


Como é no Brasil: no mesmo horário, todos os trabalhadores saem para almoçar em restaurantes a quilo, comendo a comida tipicamente brasileira: arroz, feijão, um pedaço grande de carne e alguma salada. Por causa do mesmo horário de almoço para todos e do pequeno número de restaurantes — aliado ao fato de que nenhum restaurante jamais pensou em colocar dois buffets para otimizar a logística —, as filas são imensas e a hora de almoço logo vira noventa minutos. E a qualidade e quantidade de comida dita o cenário conhecido: depois do almoço, todos voltam pesados ao trabalho, dizendo que não conseguem fazer nada até as 4 da tarde, quanto então se preparam para esperar o fim do expediente.

Como (aparentemente) é na Dinamarca: o almoço típico é o smørrebrød, um sanduíche aberto, feito com um pão bastante integral, coberto com recheios simples mas com substância: patês, carnes defumadas, queijos. Por causa das fibras do pão e das proteínas que se colocam em cima, o almoço consegue ser ao mesmo tempo leve e suficiente. A “hora de almoço” é na verdade 15 minutos de almoço com uma conversa casual na sala de reuniões do escritório, seguido de 10 minutos para arrumar tudo, seguido da volta ao trabalho (que é realmente uma volta ao trabalho porque ninguém tem de digerir arroz e feijão).


O que aprendemos disso? Como falei, é apenas uma experiência de um mês, mas que suspeito que vai ser reforçada nos próximos meses.

Eu não sou nutricionista, então não posso comentar nada sobre o quão saudável é esse hábito de essencialmente comer pão todo dia, por mais que seja integral e cheio de fibras (se algum dos meus leitores for nutricionsita, por favor, comente!). Na dúvida, tento usar o bom senso: fazer pequenos lanches regulares, manter uma rotina regular de exercícios, comer frutas e saladas tanto quanto possível, e variar ao máximo as minhas outras refeições (comendo iogurte ou ovos no café da manhã, e uma porção moderada de carboidrato+proteína+salada de noite). O que posso dizer é que me sinto mais leve ao longo do dia, e desde que cheguei aqui não tive nenhum problema digestivo.

Desde que morei na Alemanha, a principal impressão que tenho dos europeus em relação ao trabalho é que eles tem um respeito profundo pelo tempo e pelo dinheiro. O horário de trabalho é um horário para trabalhar, para que sim, possa-se sair do trabalho às 16:00 para aproveitar a família e a primavera e verão europeus. Se existe um hábito que impede isso — como no caso de almoços pesados —, por que continuar a fazer isso?

Por Fábio Fortkamp

Pai do João Pedro, Marido da Maria Elisa, Professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade do Estado de Santa Catarina, católico devoto, nerd

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