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A necessidade de estudar produtividade

Gastar mais tempo para gastar menos tempo

Estudar produtividade pessoal (o conjunto de técnicas que nos permite
nos organizar melhor) pode parecer contra-intuitivo. É como gastar tempo
estudando como gastar menos tempo. De fato, se você não for cuidadoso, a
balança pode pender para o lado errado: gasta-se tanto tempo se
organizando que não sobra tempo para fazer algo que realmente importa.

Esse tipo de pensamento é perigoso porque pode ser extendido até se
chegar a conclusão de que não vale a pena estudar. Por que estudar
engenharia, quando se pode apenas colocar tijolo sobre tijolo? Por que
estudar medicina, quando se pode apenas experimentar todos os chás até
parar a dor? Por que estudar o Português, quando todo mundo se entende?

Há muito tempo, uma pessoa construi uma casa, e essa casa caiu. Outra
pessoa construiu uma casa e ela ficou em pé. A partir daí, começou-se a
observar que existem determinados métodos que resultam em casas que caem
e outros que resultam em casas que ficam em pé. Vieram os gregos com a
sua geometria e ficou mais fácil projetar uma casa confiável. Veio
Newton e sua descrição das forças e do Cálculo e ficou mais fácil criar
modelos de casas que ficam em pé. Vieram os estudiosos dos materiais.
Vieram os engenheiros que estudam as próprias técnicas de construção.
Graças a essas pessoas, vivemos em prédios robustos, que podem ser
projetados para suportar até terremotos. Ninguém concordaria em dizer
que essas pessoas “perderam tempo”; ao contrário, elas criaram tempo.
Hoje construímos prédios melhores em menos tempo.

Elas perderam um tempo inicial que valeu a pena anos depois. E esse é o
conceito chave da necessidade de se estudar produtividade: o tempo gasto
pode ajudar a poupar um tempo proporcionalmente muito maior.

A organização pessoal não é um campo tão sofisticado como a engenharia
ou a medicina, mas isso não significa que não se possam aprender
técnicas apropriadas. Para mim, o estudo da produtividade pessoal é
necessário porque nosso tempo na Terra é finito. Não morremos depois de
atingirmos nossas metas; morremos depois de certo tempo ou quando
alcançamos uma condição de saúde crítica. Assim, quanto menos tempo
gastamos em cada atividade, mais atividades podemos fazer e mais
objetivos na vida podemos cumprir.

Um exemplo de como aplicar técnicas de produtividade

De maneira muito simplificada, vamos supor que você tenha uma tarefa:
levar todos os carros da sua família para a revisão.

Com dois carros não há muito o que fazer. Você liga para a primeira
concessionária, leva e busca o carro, e um tempo depois repete o
processo para o segundo o carro. A tarefa é simples, então você guarda
os detalhes na memória. Em uma semana está tudo feito.

Com cinco carros (você é uma pessoa boa e vai ajudar o avô, a tia e a
irmã), a coisa se complica. Depois de completar o terceiro carro,
acontece alguma coisa no seu trabalho e você se esquece disso, com o
cérebro ocupado com outras coisas. Vai se aproximado a data limite e seu
avô liga brigando. Entre atrasos e esquecimentos demora um mês para
completar tudo, somado com o estresse pessoal e brigas familiares.

No ano seguinte, você resolve “gastar tempo” lendo sobre produtividade,
e aprende três princípios básicos:

  1. Anotar suas tarefas
  2. Realizar tarefas em lotes
  3. Marcar compromissos no calendário

Assim, quando seu pai lhe pede para cuidar disso, você dedica um minuto
para anotar isso em algum lugar visível. Quanto tem um tempo, liga para
todos os proprietários em busca de horários em que ele possa levar o
carro. Depois, liga para todas as concessionárias e marca as
revisões, com sorte em dias consecutivos. Por último, marca tudo no
calendário. Assim, em 30 minutos você já tem esquematizado todo seu
plano de ação.

Você pode seguir com seu trabalho. No horário marcado, você leva o
carro, e depois o busca. Não há estresse emocional de ficar o dia
inteiro pensando “não posso me esquecer de marcar a revisão”, porque
você sabe que o compromisso está no seu calendário e você programou
algum alarme para o avisar com certa antecedência. Você dedicou seu
tempo para se organizar e já está com tudo planejado. Pode dedicar-se
agora a fazer. Talvez em duas semanas esteja tudo resolvido.

Ou seja, o tempo de estudar um pouco, mais o tempo de realizar as
atividades de maneira otimizada, é menor que o tempo de realizar as
tarefas de maneira desorganizada. Essa é a mágica da produtividade
pessoal.

E o melhor de tudo é que, mesmo que você gaste tempo para otimizar uma
tarefa, você pode geralmente aplicar os mesmos princípios para outras
tarefas. Você tem apenas uma revisão, mas tem de ir ao dentista e ir
buscar uma encomenda. Sente na frente do telefone e dedique cinco
minutos para fazer todas as ligações e agendar todos os compromissos.

Ao final de um pequeno período gasto “apenas” se organizando, você está
com suas pendências registradas, sem necessidade de gastar mais tempo
tentando se lembrar. E isso é produtividade.

É só senso comum, mas as pessoas não conhecem o senso comum

Perceba que não existe nada de extraordinário nas três dicas de
produtividade que passei (e não se preocupe, o estudo sério da
produtividade vai muito além disso). De fato, qualquer pessoa poderia
ter chegado a esse modelo. Porém, algumas poucas pessoas o fizeram,
escreveram livros e se tornaram famosas. Parece tão óbvio, mas às vezes
o mais óbvio nos escapa. Diferentes pessoas têm diferentes percepções e
por isso algumas conseguiram sistematizar todo esse processo. Criar
uma lista de tarefas e colocar um post-it no monitor é fácil; criar um
sistema integrado, que permita você se alternar entre “organizar sua
lista de tarefas” e “executar suas tarefas” com naturalidade e que
acompanhe você quando você está longe do monitor é que exige alguma
pesquisa e reflexão.

Produtividade pessoal, ou os métodos de nos organizarmos melhor, é um
grande interesse meu e o leitor pode esperar mais textos do gênero em
FabioFortkamp.com. Esse post é apenas uma justificativa (para mim e
para os leitores) do porquê de eu achar que vale a pena falar sobre o
assunto.

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Por que ando de ônibus mesmo tendo um carro

As pessoas não acreditam, mas eu ando de ônibus. Sim, eu tenho um carro,
e sim, eu sei dirigir. What?

Existem tantas razões que eu não sei nem por onde começar. Por isso vou
do básico: eu não gosto de dirigir. Dirigir em um meio urbano é uma
atividade de risco, que exige dedicação total de minha parte por muito
tempo. Quando eu vou de carro da minha casa até a Universidade, isso
significa que tenho de passar meia hora com as mãos presas ao volante,
tendo de prestar atenção a tudo que acontece à minha volta, cuidando
para ver as motos (antes de me chamar de preconceituoso, observe que
motos são muito menores que os carros e passam por entre as filas, sendo
muito mais difíceis de enxergar), dando passagem para o SUV colado atrás
de mim, ficar puto com o imbecil que deu uma de esperto e saiu da
Beira-Mar furando fila lá na frente, e tendo que aguentar o engraçadinho
que me ultrapassa para ficar parado uma posição na frente quando eu ando
devagar em um sinal vermelho. E aí, quando eu finalmente chego na
Universidade, tenho de procurar vaga nos estacionamentos pessimamente
iluminados, onde as pessoas param de qualquer jeito (ocupando mais de
uma vaga, na maioria das vezes), e onde a poeira se instala sobre o
carro. Sério que você gosta de fazer isso?

Quando eu vou de ônibus, eu pego minha mochila, ponho um fone de ouvido,
ando 5 minutos da minha casa até o ponto, entro no ônibus, saio do
ônibus, e ando 2 minutos do ponto até o prédio onde fico o dia inteiro.
Durante o trajeto, eu leio, eu escrevo ideias para
FabioFortkamp.com, eu escuto música (podendo prestar atenção à
letra) e podcasts, eu encontro conhecidos (ou até desconhecidos; um
carro é um meio de se isolar por natureza). Atenção necessária: ver o
ônibus chegando.

Eu não vou negar, esse tipo de pensamento se instalou em mim no tempo
que passei na europa. Tive a sorte de morar em duas cidades (Porto e
Karlsruhe) que têm cobertura muito boa de transporte público (e lá isso
não é só sinônimo de ônibus). Nesses lugares, e em outras cidades que
visitei, é muito fácil se locomover. Os principais pontos se referenciam
pela estação mais próxima. Os horários das linhas são bem
documentados, você paga uma taxa mensal que não chega a ser barata mas
que permite você andar livremente (isto é, se você anda uma, duas ou
vinte vezes por dia o preço é o mesmo), o sistema é seguro (pelo menos
na minha experiência) e você pode ir realmente a qualquer lugar. Já
diria Steve Jobs, it just works.

É claro que a experiência de andar de ônibus em Florianópolis (não tenho
capacidade de comentar a experiência em outras cidades brasileiras) é
muito diferente da de andar de S-Bahn em Karlsruhe. O preço é alto, os
horários são imprevisíveis, os ônibus são antiquados, a rotatividade é
baixa (uma linha como a UFSC-Semidireto, que transporta alunos do centro
à Universidade, deveria sair a cada 5 minutos pelo menos), as greves
dominam, assaltos e ataques acontecem. Ainda assim, eu não concordo que
“andar de ônibus é uma merda”. O preço é alto, mas andar de carro é uma
atividade de luxo (você tem ideia de quanto se paga apenas para manter o
carro na garagem, entre impostos e seguros?), e o preço da gasolina está
muito alto de qualquer jeito. Os horários são imprevesíveis, mas com
planejamento é possível achar um intervalo mais ou menos confiável em
que os ônibus passam no ponto. De qualquer modo, como falei, andar de
carro não é uma experiência muito agradável, em comparação.

Algumas pessoas falam que por eu ser engenheiro mecânico eu deveria
idolatrar o carro. Realmente, o carro como um todo realmente é um feito
de engenharia. O processo de fabricação de todas as peças complexas, a
dinâmica veicular, a otimização aerodinâmica, a integração entre partes
mecânicas e eletrônicas, tudo isso são coisas admiráveis. Já o motor de
combustão interna, um dos símbolos da engenharia mecânica, também é um
símbolo do nosso fracasso como engenheiros e de como a Segunda Lei da
Termodinâmica faz pouco caso de nós. Um rendimento alto para motores a
combustão interna é de 30%. Pense no mundo em vivemos, de tantos
avanços; não parece absurdo que ainda não tenhamos inventado em jeito de
evitar jogar fora 70% do nosso dinheiro quando abastecemos? (Aos meus
colegas engenheiros que estão trabalhando nisso, precisamos de vocês
para reverter essa situação).

Um motor de ônibus não possui rendimento muito mais alto, mas se
levarmos em conta o número de passageiros transportados, o “rendimento
per capita” se torna muito maior.

Um último grande motivo para eu andar de ônibus no meu cotidiano é meu
senso de coletividade. Eu moro em sociedade, e tento melhorá-la. Virou
moda “nas elites” de Florianópolis falar que a mobilidade urbana está
mal, e que isso é um absurdo. O que é absurdo, para mim, é que essas
mesmas pessoas andam de carro, sozinhas, e em geral falam que as
ciclovias estão atrapalhando o trânsito. E quem se importa com o meio
ambiente, se vamos todos estar mortos quando a próxima geração tiver de
lidar com isso?.

A mobilidade urbana em Florianópolis realmente é péssima. Quando você
vai de carro sozinho para o trabalho ou para a faculdade, você não está
contribuindo em nada para isso. É mais fácil acreditar que você acha que
engarrafamento é lindo.

Eu não pretendo abandonar o carro. Nas situações certas, ele ajuda. Dar
carona aos amigos, andar de noite ou aos fins de semana, ir em lugares
onde a viagem de ônibus é muito longa. Mas no meu dia a dia, não existe
motivo para não colocar um carro a menos na rua.